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11 de set. de 2014

A procedência do crente ao assumir um cargo público


Por Martinho Lutero

Agora você pergunta* se um cristão também pode usar a espada secular e castigar os maus. Afinal, as palavras de Cristo – “Não resistas ao mal” – são tão duras e claras, que os sofistas tiveram que transformá-las em “conselho”.

Resposta: Até agora você ouviu dois ensinamentos. Um diz que entre os cristãos não pode haver espada; por isso você não pode usá-la sobre e entre cristãos, que não precisam dela. Portanto, você tem que formular a sua pergunta em relação ao grupo dos não-cristãos se ali você poderia usá-la de modo cristão. Este é o segundo ensinamento: é seu dever servir à autoridade promovê-la de todas as formas, seja com a vida, bens, honra e alma. Pois se trata de uma obra da qual você não precisa, mas que é muito útil e necessária para todo mundo e para seu próximo. Você vê que há falta de carrasco, agente policial, juiz, senhor ou príncipe e se julga apto. Deveria então oferecer-se e candidatar-se, para que, de forma alguma, a autoridade tão necessária seja desprezada, enfraquecida ou desapareça. Pois o mundo não pode e não consegue renunciar a ela.

Motivo: Nesse caso, você assumiria um serviço e uma função completamente estranha. Isso não seria vantajoso para você nem para sua propriedade ou honra, mas somente para o próximo e para os outros. Você não faria com a intenção de vingar-se ou de pagar mal com o mal, mas para o bem de seu próximo e a preservação da segurança e da paz para os outros. Pois você mesmo fica com o Evangelho e se fixa à palavra de Cristo. Sofre de boa vontade a outra bofetada no rosto e entrega a capa com a veste – desde que atinja você e sua própria causa. Assim as duas coisas combinam maravilhosamente: você satisfaz o Reino de Deus e o reino do mundo, externa e internamente, aguenta maldade e injustiça e castiga mal e injustiça, ao mesmo tempo, simultaneamente não resiste à maldade e, contudo lhe resiste. Pois com uma coisa você tem em vista você próprio e aquilo que é seu; com a outra, seu próximo e aquilo que pertence a ele.

Onde se trata de você e do que é seu, ali você agirá de acordo com o Evangelho e aguentará, como bom cristão, injustiças contra sua pessoa. Onde se trata do outro e do que é dele, você agirá de acordo com o amor e não permitirá injustiça contra o seu próximo. O Evangelho não proíbe isso.
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* Este breve texto foi extraído do livro “Política, Fé e Resistência” publicado conjuntamente pelas editoras Sinodal e Concórdia. Trata-se de uma solicitação atendida por Lutero, que escreveu sobre política a pedido do pastor Wolfgang Stein e do Duque João Frederico da Saxônia. A questão conflituosa que Lutero tentará responder é: como ser cristão e ao mesmo tempo usar da violência servindo ao Estado.