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22 de set. de 2014

O Presbítero pode ser solteiro?


Por Thiago Oliveira 


A pergunta que intitula esse pequeno texto foi feita a mim por um gentil seminarista quando eu disse que exercia a função de presbítero. Eu, noivo, porém ainda não casado componho o presbitério da minha igreja. Estaria isso errado? Em 1 Timóteo 3:2 não diz que ele deve ser “marido de uma só mulher”, ou seja, casado? Antes de esclarecer tal questão controversa, seria bom atentarmos para duas outras perguntas: Quem são os presbíteros e quais as suas funções na Igreja?

Hoje, a nomenclatura “Pastor” é muito difundida no seio cristão, mas na Igreja Primitiva, a igreja do século I, o que pastoreava era conhecido por “Presbítero” (Ancião, no grego) ou “Epíscopo” (Supervisor, no grego, que na tradução portuguesa de João Ferreira de Almeida, tornou-se Bispo). Para provar a equivalência desses termos basta analisar o texto de Atos 20, em que o Apóstolo Paulo convoca a liderança de Éfeso, quando ainda estava em Mileto, para se despedir e lhes aconselhar. O verso 17 menciona ancião (presbítero) e no 28, o termo usado é bispo (epíscopo). Essa mesma equivalência acontece no capítulo primeiro de Tito (veja Tito 1: 5 e 7).

No já citado texto de Atos 20: 28, a atribuição do presbítero é clara: “apascentar a igreja de Deus”. Outra passagem que trata disso e vale a pena ser transcrita é 1 Pedro 5:1-3:

“Aos presbíteros, que estão entre vós, admoesto eu, que sou também presbítero com eles, e testemunha das aflições de Cristo, e participante da glória que se há de revelar: Apascentai o rebanho de Deus, que está entre vós, tendo cuidado dele, não por força, mas voluntariamente; nem por torpe ganância, mas de ânimo pronto; Nem como tendo domínio sobre a herança de Deus, mas servindo de exemplo ao rebanho”.

Notem que Pedro, se inclui na categoria de presbítero, mesmo sendo Apóstolo (1Pe 1:1). Não poderia ser diferente, uma vez que, o próprio Cristo o conferiu a tarefa de apascentar o seu rebanho (Jo 21:15). A partir daqui já podemos esboçar uma resposta ao título do texto: O presbítero pode ser solteiro? Sim, ele pode. Como cheguei a esta conclusão? Explicarei: Se os apóstolos também são bispos, pois apascentam a Igreja, logo chegamos ao exemplo de Paulo. O Apóstolo dos Gentios era celibatário e aos irmãos de Corinto confessa que preferia que os solteiros não se casassem (1Co 7: 1, 7, 32 ,33 e 35).

Mas e quanto à recomendação de que o presbítero deve ser marido de uma só mulher? Bem, existem duas linhas interpretativas que considero mais coerentes, dentre várias que surgiram no decorrer dos séculos. A primeira é a de que Paulo faça uma referência ao segundo casamento em caso de viuvez. Mesmo sendo permitido nesta circunstância, o segundo matrimônio não era tão estimado quanto à condição de permanecer viúvo. Em seu comentário, J.N.D. Kelly¹ relata que há diversas evidências na literatura e nas inscrições funerárias pagãs e judaicas de que permanecer solteiro após a morte do cônjuge, ou até mesmo após desquite era considerado meritório. Em 1 Coríntios 7:39-40, percebemos que Paulo compartilha dessa visão:

“A mulher casada está ligada pela lei todo o tempo que o seu marido vive; mas, se falecer o seu marido fica livre para casar com quem quiser, contanto que seja no Senhor. Será, porém, mais bem-aventurada se ficar assim, segundo o meu parecer, e também eu cuido que tenho o Espírito de Deus”. 

Com relação à segunda linha exegética, ela tem como defensores Crisóstomo e Calvino, e afirma que Paulo está proibindo veementemente os bispos de serem polígamos. A poligamia era prática usual entre os judeus, beirando a legalidade. Sobre isto, Calvino² escreveu:

“Tal coisa (a poligamia) se originou em parte de uma perversa imitação dos antigos pais – pois liam que Abraão, Jacó, Davi e outros foram casados com mais de uma esposa, concomitantemente, e assim criam que lhes era permitido viver da mesma forma – e, em outra parte ela era uma corrupção aprendida dos povos circunvizinhos, porquanto os homens orientais nunca observaram o matrimônio conscienciosa e fielmente”.

Mesmo após argumentar que o presbítero pode ser solteiro, todavia considero recomendável que se case. O matrimônio é uma escola para quem deseja liderar, pois do casamento surge a família, que nada mais é do que uma pequena comunidade onde os diferentes tem que conviverem entre si. Ademais, é melhor que o homem case para que não viva abrasado e seja tentado a cometer o pecado da fornicação (1 Co 7: 2 e 9).

À guisa de conclusão gostaria de expressar que a maior qualidade de um presbítero está contida em Tito 1:9. O dom primaz de quem almeja o episcopado é “reter com firmeza a palavra fiel”. O estatuto que rege a Igreja de Cristo é a Palavra, sendo assim, cabe aos que pastoreiam serem bem instruídos nela. Assim, o bispo estará apto, como diz Calvino, para ajuntar as ovelhas e espantar os lobos e os ladrões. Talvez seja essa a maior carência de nossas congregações. Faltam homens aptos para exortar de acordo com as Escrituras. Que o Senhor se apiede de nós e nos conceda pastores seguindo o Seu coração (Jr 3:15). 
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NOTAS:

1 J.N.D. Kelly. 1, 2 Timóteo e Tito. Introdução e Comentário - Vida Nova. 

2 Calvino. Pastorais - Editora Fiel.