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4 de out. de 2014

O “evangelho todo” inclui uma transformação da sociedade

Por Wayne Grudem

A Visão de que os cristãos devem se dedicar ao evangelismo, e não à política, é equivocada por mais um motivo: “o evangelho todo” inclui transformação social. Sem dúvida devemos proclamar o perdão dos pecados pela fé em Cristo somente. Sem dúvida este é o único modo pelo qual o coração das pessoas será verdadeiramente transformado.

Contudo, o perdão dos pecados não é a única mensagem do evangelho. Isso porque Jesus quer vidas transformadas, e por meio delas, um mundo transformado. “Para isto o Filho de Deus se manifestou: para destruir as obras do Diabo.” (1Jo 3.8). A boa-nova do evangelho resultará em vidas transformadas, mas Jesus quer que resulte, ainda, em famílias transformadas. E, quando o evangelho transforma vidas, também deve resultar em bairros transformados. E em escolas transformadas. E em negócios transformados. E em sociedades transformadas. Logo, não é natural que “o evangelho” também resulte em governos transformados? Claro que sim!

Será que as igrejas devem ensinar a seus membros o que a Bíblia diz sobre a vontade de Deus para suas famílias? Para seus negócios? Para a educação de filhos? Claro que sim! E alguns cristãos são chamados a aplicar esses ensinamentos de modo a exercer influência positiva sobre governos.

A meu ver, a visão de que os cristãos devem se dedicar ao evangelismo, e não à política, interpreta de modo equivocado aquilo que é importante para Deus, como se apenas coisas espirituais (não materiais, não deste mundo) importassem para Ele, e não, também, as circunstâncias reais da vida física e material das pessoas neste mundo. Trata-se de um ponto de vista filosófico semelhante ao platonismo e a um desvio antigo da fé cristã chamado gnosticismo; não é, contudo, o ponto de vista bíblico.
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Fonte: Política Segundo a Bíblia: Princípios que todo cristão deve conhecer. Edições Vida Nova.

3 de out. de 2014

Cristãos São Intolerantes ou Sectários?



Os Protestantes, As Redes Sociais e Sua Posição Política


Por Thomas Magnum

É inegável que as redes sociais são nesse processo de campanhas eleitorais uma ferramenta de extremo valor e uma trincheira absolutamente necessária para os principais partidos envolvidos nos maiores números percentuais de intenção de voto no Brasil. A morte do presidenciável Eduardo Campos trouxe um verdadeiro furacão e reviravolta no cenário político brasileiro. As pesquisas apontavam Eduardo numa média de 8% das intenções de voto, a briga acirrada estava sendo pleiteada pelos candidatos do PT e PSDB, respectivamente a presidente Dilma Rousseff e Aécio Neves. O acidente ocorrido em 13 de Agosto desse ano, trouxe uma comoção nacional e ateou fogo ao contexto político, isso sendo somado aos processos econômicos no Brasil como a recessão e o escândalo da Petrobrás. Tudo isso tem elevado os ânimos e desabrochado um verdadeiro tiroteio de acusações e ataques entre os candidatos a presidência da república.

No contexto do eleitorado evangélico é fácil perceber que esse grupo social tem hoje uma voz no Brasil e uma força política, não falamos somente da bancada evangélica, mas, de líderes evangélicos das mais variadas vertentes teológicas que são muito influentes sobre o rebanho e que tem suas preferencias políticas, consequentemente o eleitorado evangélico é guiado pela liderança na escolha dos candidatos a cargos políticos.

A presença de dois evangélicos na candidatura a presidência da república tem sido um incomodo para os demais candidatos e interessados por políticas capitalistas, marxistas, naturalistas e comunistas. Em entrevista ao Jornal da Globo a candidata evangélica da Assembleia de Deus Marina Silva foi perguntada por Willian Waack se governaria o Brasil tomando decisões influenciada pela Bíblia. Existe realmente um temor por parte de muitos em que um evangélico assuma a chefia da nação. Um exemplo claro disso é que muitos dizem que a candidata Marina Silva imporia o ensino do criacionismo nas escolas, coisa que ela nunca declarou, ou que os homossexuais vão perder seus direitos, dentre muitas outras historietas.

O outro candidato Pastor Everaldo, tem se pronunciado abertamente contra o aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo, e isso tem sido uma ofensa para os demais partidos. O candidato é apoiado pela Assembleia de Deus, que é a maior denominação evangélica do país e pelo conhecido pastor Silas Malafaia que já se posicionou ao lado de Marina no segundo turno. A presidente Dilma Rousseff tem sido apoiada pela igreja Universal do Reino de Deus, o seu líder máximo Edir Macedo tem dado apoio à candidata. Notamos com isso o forte interesse pelos votos evangélicos.

Nunca a difusão e campanha política foram tão intensas como na utilização das redes sociais, o ciberespaço tem sido solo fértil para política e as páginas dos candidatos têm milhares de seguidores, e através de suas redes sociais os candidatos podem fazer seus pronunciamentos e até lançar seus planos de governo como fez Marina Silva. Muitos tem se surpreendido com a força política dos protestantes, mas se surpreendem porque desconhecem a história. Poderíamos citar muitos exemplos como Martin Luther King, como os Puritanos que colonizaram os Estados Unidos, até mesmo o influente pensamento político dos reformadores no século dezesseis nas pessoas de Marinho Lutero, Ulric Zuinglio e João Calvino. Podemos citar a influência cristã de modo geral na política também, na verdade a política está ao alcance da religião para influenciá-la, o pensamento geral entre os cristãos não é mais um domínio sobre o estado mais garantir a liberdade religiosa que foi algo conquistado por protestantes também. A influência cristã na economia pode ser pontuada aqui com o pai da contabilidade chamado Fra Luca Pacioli, monge franciscano italiano da Renascença, publicou um livro revolucionário em 1494: Suma de arithmetica, geometria, proportioni et proportionalita

Goethe disse que era uma das maiores descobertas do intelecto humano. Certa vez Fidel Castro disse que admirava muitos dos evangélicos de Cuba. Isso porque eles trabalhavam duro, comparecem ao trabalho pontualmente, não burlam o sistema [1]. Podemos apontar também a contribuição dos evangélicos na educação na fundação das maiores universidades do mundo como: Oxford, Cambridge, Yale, Princeton e muitas outras. A contribuição na educação no Brasil com escolas cristãs e isso se inicia com os missionários Robert Kalley e Sara Kalley com o trabalho de escola dominical. O proeminente educador americano, dr. Samuel Blumenfeld pesquisou as origens do ensino público para seu polêmico livro Is public education necessary? Ele declara que as raízes do ensino das massas remetem a reforma e, especialmente, a João Calvino. A prensa inventada por Gutenberg também é uma contribuição cristã a cultura mundial, a invenção da tipografia ajudou a preparar o caminho para a Reforma Protestante, porque os reformadores queriam que o povo fosse educado e soubesse ler, para lerem a Bíblia.  Antes de sua morte Calvino funda a Academia de Genebra que era um centro acadêmico onde se ensinava direito, medicina e teologia. Vemos então a grande influência dos protestantes no desenvolvimento da humanidade.

Vemos que na cosmovisão reformada Calvino versa até sobre taxa de juros e empréstimos [2]. Max Weber distorce de certa forma o pensamento de Calvino pondo o reformador como o pai do capitalismo, que se propor a estudar as obras o reformador e seu pensamento social e político verá que Weber estava equivocado, ou analisou grupos calvinistas que estavam distantes do pensamento de Calvino.

Portanto, os evangélicos têm contribuído muito na política e isso é observado na história. Em relação ao contexto que vivemos no Brasil, os evangélicos podem se posicionar, porque são guiados sim, pela Bíblia, isso é um princípio da reforma, Sola Scriptura, por isso não podemos ser burlados dos nossos direitos, se existe democracia, temos direitos civis, sociais e políticos. Por isso podemos opinar e candidatar-nos a cargos públicos, e defender nossos ideais. Não incomoda uma nação ter governantes ateus, mas, incomoda ter governantes cristãos. Porque valores não podem ser defendidos pelo ateísmo, conheço ateus que tem valores, mas isso é uma contradição a sua crença. Embora não seja partidário, não me iluda com promessas políticas, não defendo uma inercia por parte dos evangélicos, embora sejamos peregrinos  temos o dever de lutar pela verdade, justiça e igualdade. Se os demais grupos sociais têm direitos, nós também temos, se eles defendem, nós também defendemos.  Também temos cidadania.

Herman Bavinck

Por J. Van Engen

Bavinck foi, juntamente com Abraham Kuyper, um dos principais teólogos do reavivamento do neo-calvinismo iniciado há um século atrás na Igreja Reformada Holandesa e ainda representado na América do Norte pela Igreja Reformada Cristã. Treinado na Universidade de Leiden e no Seminário Teológico em Kampen, Bavinck serviu uma igreja em Franeker (1881–82) antes de se tornar professor de teologia sistemática, primeiro em Kampen (1882–1902) e então na Universidade Livre de Amsterdam (1902–20). Sua obra principal foi Gereformeerde Dogmatiek (Dogmáticas Reformada), em quatro volumes, primeiro publicados entre 1895 e 1901, e do qual somente o segundo volume foi traduzido para o inglês como The Doctrine of God (A Doutrina de Deus).

Em piedade e estilo de vida, Bavinck sempre permaneceu perto de suas origens separatistas, mas em sua obra acadêmica ele mostrou uma abertura e sensibilidade notável aos desenvolvimentos do século dezenove. Assim, ele escreveu muitos ensaios importantes sobre educação, ética (família, mulheres, guerra, etc.), e até mesmo sobre a nova disciplina da psicologia. Sua preocupação principal, contudo, era aplicar todos os recursos acadêmicos de sua própria era para uma renovação da tradição dogmática representada pela teologia escolástica reformada do século dezessete. Bavinck considerava a teologia como sendo o estudo sistemático do conhecimento de Deus, como Cristo revelou a respeito de Si mesmo e da criação em Sua Palavra, uma revelação feita para a igreja, como encapsulada em suas confissões credais e recebida em fé pelo teólogo individual. 

A orientação filosófica de Bavinck, como revelada em sua prolegômena, era mais realista, em contraste com a inclinação de Kuyper para o idealismo alemão, e incluía uma apreciação genuína do reavivamento neo-tomista contemporâneo entre os católicos. Ele algumas vezes falava de certas “idéias” encontradas em Deus e evidentes também na criação, na imagem e semelhança de Deus no homem, e até mesmo na predestinação. Todavia, ele sempre insistiu sobre a primazia da Escritura. Quase no fim de sua vida ele encorajou jovens estudantes a enumerar, à partir de uma perspectiva conservadora, os problemas difíceis levantados pelos recentes estudos bíblicos. 

Durante toda a sua vida ele também insistiu sobre a primazia do dom da graça de Deus na justificação do homem, rejeitando a fé em particular ou qualquer outro ato humano como precedendo ou invocando a graça de Deus. Bavinck influenciou profundamente muitos teólogos reformados alemães e americanos, embora a maioria das obras deles — por exemplo, a Teologia Sistemática de Louis Berkhof — mostram muito menos de sua ampla compreensão da história da teologia e de sua notável capacidade filosófica.
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Bibliografia: Bavinck, The Doctrine of GodOur Reasonable FaithThe Philosophy of Revelation e The Certainty of Faith.

Fonte: Monergismo

2 de out. de 2014

Quem Deve Escolher as Músicas do Culto?

Por Michael Lawrence

“Eu só quero saber quem está no comando”. Aquela frase trouxe luz à minha situação. Eu havia acabado de pregar meu sermão de candidatura, e estava prestes a fazer um rápido lanche antes da sessão de perguntas e respostas com a congregação. Mas, em vez de comer, o moderador do conselho de presbíteros e pastor executivo 1 interino me puxou para uma sala nos fundos para uma reunião de última hora com o pastor de adoração. Ele não fez rodeios, foi direto ao ponto:
Se eu fosse chamado para ser o pastor principal, quem iria decidir o que aconteceria nos domingos de manhã, antes do sermão? Quem escolheria a música? Quem escolheria a ordem? Quem, enfim, estaria no comando?
Era uma pergunta razoável. Ele era o responsável por aquelas decisões na igreja até aquele momento e, aparentemente, eu havia deixado pistas o suficiente no meu exame de candidato para que ele começasse a imaginar se as coisas não mudariam. E eu de fato planejava, como o novo pastor principal, assumir a responsabilidade última por todo o culto. Eu planejava até mesmo escolher a música. Então foi isso que eu lhe disse.
Embora haja princípios bíblicos que orientavam a minha resposta, no final, era uma questão de prudência e pragmática. Biblicamente, eu creio que algum presbítero deveria supervisionar a escolha da música e de todos os demais detalhes do culto. Prudencialmente, eu penso que é apropriado ao pastor principal, aquele responsável pela pregação, ser esse indivíduo.
Aqui estão três argumentos para essas convicções.
Cantar é ensinar
Nós geralmente pensamos acerca do nosso canto como a expressão da nossa adoração a Deus. E está certo. Mas isso não é tudo. Os nossos cânticos ensinam e reforçam aquilo que nós cremos acerca de Deus e, porque são postos em forma musical, os nossos cânticos com frequência exercem sobre os nossos membros uma influência mais profunda do que podemos perceber. Como R.W. Dale, um ministro congregacional inglês do século XIX, observou em uma série de palestras sobre pregação que proferiu na Universidade de Yale, “Deixe-me escrever os hinos e a música de uma igreja, e me importo muito pouco com quem escreve a teologia” (Nine lectures on preaching, 1878, p. 271). Talvez ele estivesse exagerando um pouco o argumento, mas não muito.
Paulo instruiu os Colossenses a admoestarem e ensinarem uns aos outros cantando “salmos, e hinos, e cânticos espirituais” (Colossenses 3.16). Uma vez que o ensino ocorre ao cantarmos corporativamente, os presbíteros são responsáveis pela supervisão e, particularmente, o pastor/presbítero a quem foi dada a resposabilidade primária pelo ministério de ensino da igreja (Tito 1.9). Se não estivermos dando atenção às palavras que estão sendo cantadas em nossa igreja, semana após semana, então não estamos sendo obedientes ao nosso chamado como presbíteros. É preciso reconhecer, isso não pressupõe que o pastor principal escolha todas as músicas pessoalmente. Mas isso de fato pressupõe que ele esteja familiarizado com elas e as aprove. Na minha própria igreja, eu trabalho próximo ao nosso líder de louvor, que está muito mais familiarizado com a música contemporânea do que eu, ao passo que eu estou mais familiarizado com os hinos. Nós formamos um bom time, mas, no final, como presbítero, sou eu o responsável.
A música molda a cultura
Além do evidente ensino que há em nossos cânticos, é inegável que a música que usamos e o modo como a usamos moldam e definem a cultura de nossa igreja. Dificilmente eu precisarei explicar isso àqueles que passaram por “guerras de adoração” em suas igrejas locais. Aquelas guerras eram tão intensas porque elas são essencialmente guerras culturais, nas quais a música é apenas o exemplo de um abismo muito maior entre as gerações. É por isso que todo plantador de igrejas deseja ter em sua equipe um músico que compartilhe com ele a mesma visão. É por isso que especialistas em crescimento de igreja o aconselham a adotar o estilo musical preferido da sua população-alvo. Assim, de uma perspectiva puramente pragmática, se o pastor deseja conduzir e moldar a cultura de sua igreja, ele precisa estar envolvido nas decisões acerca da música.
Mas e se você quiser conduzir a sua igreja é uma direção contracultural biblicamente orientada? E se você quiser uma congregação multigeracional desejosa de amar uns aos outros ao cantar as músicas uns dos outros? E se você quiser promover o canto congregacional, em vez da experiência passiva de um show? E se você quiser encorajar uma cultura de culto que não seja guiada pelos mesmos valores de um espetáculo? E se você quiser ter uma adoração corporativa que se expresse em outras melodias além da triunfante e da alegre?
Carl Trueman perguntou de modo incisivo: “O que cristãos miseráveis podem cantar?”. Essa é uma boa questão em nosso mundo gospel sempre feliz e saltitante. Se tudo o que você deseja é um clube para jovens de vinte-e-poucos anos, ou para os cinqüentões, ou para os hipsters urbanos, então entregue a música nas mãos do grupo de louvor. Eles farão um ótimo trabalho. Mas se você deseja uma cultura que seja ricamente estruturada e diversa, profundamente congregacional e alérgica aos padrões do mundo do entretenimento, então, pastor, você precisa liderá-la naquela direção, pois ela não chegará lá por si mesma.
O culto inteiro serve a Palavra
Há pouquíssima instrução explícita na Bíblia acerca do que deveria acontecer em nossos cultos corporativos. Mas, como protestantes, nós estamos convencidos de que a Palavra é o centro e o clímax, porque é a pregação da Palavra que nos dá Cristo e é o ouvir a Palavra que dá à luz a fé pelo poder do Espírito (Romanos 10.14). Por causa dessa verdade singular e profunda, faz sentido que a pessoa encarregada de pregar a Palavra dedique tempo e atenção para planejar o restante do culto, incluindo escolher os cânticos, de modo que o culto inteiro sirva como preparação, e depois como resposta, à Palavra pregada.
Na minha igreja, isso significa estabelecer um tema teológico que sobressaia na passagem em que eu pregarei, e então escolher uma variedade de cânticos e leituras bíblicas que desenvolvam e interajam com aquele tema. Além disso, uma vez que o foco da adoração cristã é a exaltação de Cristo no evangelho, há uma oportunidade de organizar os cânticos, orações e leituras de modo que o evangelho seja explorado a partir da perspectiva temática do texto do sermão, antes que o evangelho seja pregado a partir do texto do sermão. Todo o culto, então, está não apenas a serviço da Palavra pregada, mas é uma exibição pública do próprio evangelho. Embora outros presbíteros possam fazer esse trabalho, parece-me que a pessoa encarregada de pregar o texto está em melhores condições de escolher e ordenar os cânticos, tendo em mente as ênfases específicas do sermão.
Na prática, eu faço isso pensando, com bastante antecedência, acerca da minha agenda de pregação e então dos temas dos cultos. Eu então passo alguns dias pensando nos cânticos que cantaremos, nas Escrituras que serão lidas, e na ordem de tudo isso. Joel Harris, nosso líder de música, está profundamente envolvido comigo nesse processo, contribuindo com suas habilidades e sua sensibilidade musical reconhecidamente superior. Uma vez que isso esteja feito, a cada semana eu me reúno com minha equipe pastoral e reviso a ordem de culto para aquele domingo. Ocasionalmente, nós não mudamos coisa alguma. Mas, com muita frequência, a equipe traz ótimas sugestões e, juntos, nós mudamos minha ordem de culto original. Afinal, a responsabilidade de planejar o culto não significa infalibilidade! Mas todo esse ajuste fino (e, algumas vezes, completa revisão) se dá no contexto de algo que a equipe pastoral não pode fazer por mim, isto é, a cuidadosa meditação no texto do sermão.
Se for possível, o pastor pode ceder a liderança na seleção musical. Se há outros que podem ajudar, ele deve usá-los. Mas, de um modo ou de outro, os presbíteros, e não o grupo de louvor, deve escolher a música. Eu não sou a única pessoa na conversa acerca do que acontece a cada domingo, mas, como servo da Palavra, eu começo a conversa e estabeleço o alvo. Meu objetivo não é microgerenciar ou controlar tudo. É simplesmente assegurar que, do começo ao fim, cada canção que cantarmos, e cada um dos outros elementos do culto, sirvam a Palavra. Porque é por meio da Palavra que nós temos a Cristo.
Notas:
1 - Nos EUA, a denominação “pastor executivo” é usada para designar um pastor encarregado de cuidar de assuntos referentes à organização, planejamento, direção e supervisão dos ministérios da igreja, com o objetivo de deixar o pastor principal mais livre para cuidar do ministério da palavra e da oração.
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John Piper em Genebra "Post Tenebras Lux"

O Pr. John Piper em Genebra fala da importância do reformador João Calvino e do seu lema: "depois da escuridão, luz (Post Tenebras Lux)"


Deus é fiel a mim?

Por Fred Lins

Se formos infiéis, ele permanece fiel; não pode negar-se a si mesmo. 
II Tim. 2.13


Deus é fiel a mim?

Quando me deparo com canções e citações com as seguintes frases: “Deus é fiel aqueles que são fiéis”,“ Deus vai honrar a tua fidelidade”, “Fiel, Senhor meu Deus, fiel a mim,”. Fico me perguntando: O que seria de Abraão se Deus não tivesse se manifestado a Ele? O que seria de Moisés? De Davi?  Do colégio apostólico? Enfim, da história progressiva da revelação? Com toda certeza essa história nunca teria acontecido. A verdade que sustenta toda a fundamentação Bíblica é que Deus revelou-se a nós, a sua iniciativa e ação resultou no que somos hoje, logo não há méritos para nós, não há elogio.

A quem Deus é fiel?

O texto citado no início assegura-nos de que a fidelidade de Deus não estar fundamentada em nós, mas fundamenta-se nEle mesmo, em seus decretos, sua palavra e sua Graça (natural e especial). Não há uma só expressão Bíblica que me garanta que a fidelidade de Deus tem a mim como finalidade. A fidelidade de Deus é reflexo do seu caráter, justiça e bondade. Quando sou agraciado com bens espirituais, materiais, ou bens de qualquer natureza é a manifestação da Graça e bondade de Deus em minha vida.

Se Deus não é fiel a mim, logo posso fazer o que fizer e serei abençoado?

Vamos partir do princípio usado no Antigo Testamento. Quando Deus exigia dos homens retidão, justiça e fidelidade não que dizer que Deus estava estabelecendo uma meritocracia, nem muito menos estimulando uma barganha, mas ensinando o princípio da responsabilidade humana. Na nova aliança o princípio é mais sofisticado, mas não exclui o mesmo princípio utilizado antes, logo manter-me fiel a Deus não me garante mais do que realmente Deus possa me agraciar, mas o oposto traz sobre mim profundas consequências. O princípio da fidelidade em Deus não passa por nuances e instabilidades humanas, mas persiste em fundamentar-se no caráter imutável e estável de Deus.

A fidelidade de Deus e o evangelicalismo Brasileiro

Em um contexto onde as características da suposta espiritualidade não passam de misticismo, experiencialismo e subjetivismo. O que esperar em se tratando do conceito acerca de fidelidade? É obvio que neste ambiente sobressai sempre o exclusivismo do “evangelho” egocêntrico, encharcado de si mesmo e muito mais comprometido com suas “vãs” experiências sobrenaturais. A fidelidade em ambientes narcisistas e maquiados de piedade transforma-se em troféu de crente fiel, quando não é usado como enredo do confronto revanchista entre irmãos, mas também é oferecido como um “toma lá da cá” para aqueles que entram nos “desafios”, “carnês” e “campanhas” das arapucas preparadas para fisgar o primeiro que aparecer.

Deus é fiel

Essa frase esta estampada como slogan de uma determinada denominação, mas certamente não evidencia a realidade textual de tão profunda declaração. A fidelidade e a ação de Deus trabalham em conjunto sempre com o propósito de enaltecer a sua glória, de estabelecer a sua vontade, de fazer cumprir os seus estatutos. Há um texto que me faz perceber esta fidelidade de Deus que independe de mim, mas ao mesmo tempo me impõe responsabilidade. É a narrativa de Deuteronômio capítulo 7 e versículo 9 que diz o seguinte:

Saberás, pois, que o Senhor teu Deus, ele é Deus, o Deus fiel, que guarda a aliança e a misericórdia até mil gerações aos que o amam e guardam os seus mandamentos.

A narrativa em destaque faz parte de uma orientação de Moisés ao povo que estava no deserto, para que eles não se contaminassem com os povos cananeus, mas que se preservassem em favor de cumprir o que Deus estaava exigindo. Mas observe que a narrativa trata Deus como “Deus fiel” muito antes de adentrarem na terra, logo a atribuição de Deus fiel, não depende de mim, mas do próprio caráter de Deus em conjunto com a sua ação. Outra observação pertinente faz parte da responsabilidade humana: ... guarda a aliança e a misericórdia... aos que o amam e guardam os seus mandamentos.Quem guarda a aliança e permanece inalterável é Deus, logo é Ele mesmo que garante a sua palavra. Deus é o penhor daquilo que Ele mesmo fala. Outra observação ocorre na responsabilidade do homem, ou seja, somente aqueles que guardassem os mandamentos provariam a fidelidade de Deus, mas não por causa do homem, mas por conta dEle (Deus) mesmo.

1 de out. de 2014

A Justiça Social e a interpretação da Bíblia

Por Russell Shedd

O conceito da justiça aparece cedo na vida da criança e na história da humanidade. Crianças novas questionam a parcialidade que um pai ou mãe pratica. João Carlos Ortiz usou a ilustração dos seus filhos, num encontro de pastores em Recife. Quando os pais convidaram hóspedes para um jantar, eles serviram Coca Cola. Antes de sentar a mesa um dos filhos menores começou a se queixar amargamente que ele foi injustiçado, porque o copo dele tinha menos refrigerante do que os irmãos.

Justiça é um tema frequente na Bíblia e infinitamente mais importante do que ter mais ou menos Coca Cola num copo. A palavra diakaiosune é formada do conceito dedikaioo (justificar) e dikaios (justo) e palavras correlatas,dike (penalidade em 2 Ts 1.9) e diakaiosis (em Rm 4.25 e 5.18 “justificação ou absolvição). Esta família de palavras nos ajuda entender que “justiça social” significa agir de modo justo ou reto.  No hebraico a palavra tsadhak(justificar), tseddik (justo) e tsedek ou tsedhakah (retidão ou justificação) é a principal fonte deste conceito no Novo Testamento (cf. D.E.H. Whiteley,The Theology of St. Paul, Philadelphia, 1964, p. 157).  Praticar justiça seria praticar boas obras do modo que Jesus ordenou: “Assim brilhe a luz de você diante dos homens, para que vejam as suas boas obras e glorifiquem ao Pai de vocês, que está nos céus” (Mt 5.16). Paulo faz eco deste conceito de Jesus dizendo: “Porque somos criação de Deus realizada em Cristo Jesus para fazermos boas obras, as quais Deus preparou antes para nos praticarmos” (Ef 2.10).

Neste mundo caído, a necessidade da prática de justiça se tornou prioritária.

Disse um judeu, Chaim Perelman o seguinte: “Justiça é... uma das noções mais altamente respeitadas em nosso universo espiritual. Todos os homens – cristãos, religiosos e incrédulos, tradicionalistas e revolucionários – invocam a justiça e nenhum deles ousa contradizê-la. A busca da justiça inspira as admoestações dos profetas hebreus e as reflexões dos filósofos gregos. Ela é invocada para proteger a ordem estabelecida, assim como para justificar a sua derrubada..., um valor universal” (cit. R. Shedd,Justiça Social e a Interpretação da Bíblia, S. Paulo, ed. Revisada, 2013, p.10). Se, então, justiça é um valor universal, como devemos explicar a injustiça nas indescritíveis e horríveis atrocidades praticadas pelos alemães sob o comando da Adolf Hitler e as chacinas promovidas pelos socialistas na extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas? 

Acredito que pelo fato de que Deus foi misericordioso conosco, e nós fomos recriados na imagem de seu Filho, cai sobre nós a responsabilidade de mostrar misericórdia para com os necessitados. Esta conclusão é reforçada pela parábola que o Senhor contou dos dois servos endividados. O primeiro devia uma quantia de dez mil talentos, uma dívida do tamanho do Oceano Pacífico. O servo não tinha com que pagar, o mestre credor o perdoou. Outro servo dele tinha uma dívida de um valor em torno de R$ 500,00. Este pediu que o seu credor o tratasse com paciência, dando-lhe tempo para pagar, mas recusou. O resultado foi que o servo com a dívida de tamanho astronômico foi cobrado por seu credor, e forçado pelos torturadores a pagar tudo que devia (Mt 18.23-35). Ainda que esta parábola fosse contada por Jesus no contexto da pergunta de Pedro sobre a obrigação de perdoar as ofensas, sua aplicação bem pode tratar da área de justiça social. Na essência, justiça social trata de misericórdia e não da penalidade de nosso merecimento.

Qualquer aplicação de um texto que seja legítimo faz parte da responsabilidade de interpretar o texto coerentemente, de maneira que não ofereçamos algum significado que o próprio texto não admite. A parábola do servo impiedoso trata de dívidas e não especificamente de “justiça social”. Portanto a pergunta que devemos levantar seria questionar se cristãos têm alguma dívida para com a sociedade em geral, além de suas obrigações relativas à família de Deus. Se a resposta for “sim”, então logo surge a pergunta: “Quais são os limites dessa dívida”? Paulo não menciona a dívida que ele tem com os coríntios, de onde escrevia sua famosa carta aos romanos. Certamente houve muita gente vivendo na miséria em Corinto. Mas, ele reconhece sua dívida. A dívida dele era tanto “a gregos como a bárbaros, tanto a sábios como a ignorantes. Por isso estou disposto a pregar o evangelho também a vocês que estão em Roma” (Rm 1.14,15). 

Acredito que Paulo teria dito em resposta a esta pergunta que a pregação do evangelho é a melhor obra, o mais alto nível de amor que podemos mostrar para os perdidos. A pregação da informação que daria aos condenados à miséria eterna teria prioridade sobre qualquer responsabilidade social. Com uma facilidade incrível as igrejas do primeiro mundo do século 19 se dividiram sobre esta questão. Os de inclinação mais liberal decidiram que o mundo precisava ser melhorado. Precisava de justiça social. O movimento marxista ofereceu a solução materialista. Seria apenas necessário instalar o sistema em que os trabalhadores ganhem todo o benefício do seu trabalho e não dar aos donos das indústrias e terras o direito de tirar seu lucro injusto. 

Os evangélicos discordaram, concluindo que nenhum sistema de redistribuição da renda da produção poderia compensar a vida eterna. O resultado foi, então, que o movimento missionário enviou milhares de missionários do primeiro mundo para o terceiro. Em grande parte a preocupação com os condenados perante Deus (Jo 3.36) estavam no terceiro mundo. As igrejas se dedicaram à tarefa inacabada no mundo da América Latina, da Ásia e da África. A decisão de dar atenção à Bíblia em detrimento da ação social surgiu da maneira que interpretaram a Bíblia. Os evangélicos entenderam que o problema maior era a distância de Deus em que o homem perdido vivia que, consequentemente, o condenaria ao inferno. Isto seria muito mais sério do que os problemas sociais, tais como a fome, a opressão de governos totalitários ou a falta de emprego. Os evangélicos entenderam que a transformação de vidas submetidas a Deus pela fé mudaria as condições de injustiça que dominava os países incrédulos. Baseados nas mudanças profundas que a Reforma trouxe para Europa Ocidental e a América do Norte, concluíram que os melhoramentos que o mundo precisava estavam embutidos no próprio evangelho. Se a maioria dos homens se convertesse, e obedecessem à Bíblia, o resultado seria a diminuição dos males do mundo.

O teólogo C. F. H. Henry chamou a atenção para o “estreitamento da mensagem evangélica, limitando-a a transformação do indivíduo, e o consequente fracasso em opor-se aos males sociais” (The uneasy Conscience of Modern Fundamentalism, Grand Rapids, 1947, pp.23-26). Os teólogos latinos, tais como René Padilla, Samuel Escobar, Orlando Costas e muitos outros, também aceitaram a posição de críticos. Perceberam que o evangelho proclamado pelos missionários anglo-saxões no Terceiro Mundo era incompleto, omitindo o ensino sobre a fundamental preocupação do Reino de Deus com a justiça.

Os liberais pensaram diferentemente. Baseado na crença que todos os homens já são “filhos de Deus”, a evangelização era desnecessária. 

O evangelho social com as boas obras praticadas alcançaria um mundo mais justo, mas pacífico e mais próximo daquilo que a Bíblia chama de Reino de Deus. O evangelho social promoveu esta interpretação da Bíblia, de que o Reino seria uma sociedade pacífica, integrada racialmente, e abundante em termos de suprimento de alimentos, roupas e educação.

Paul Tillich foi a Edinburgh, quando eu estudava lá, para proferir uma palestra em que ele mostrou as implicações duma revelação, não de Deus, criador dos céus e da terra, mas de um Deus que se identificou com “o fundamento do ser”, o que mais lhe preocupa, um sentimento de dependência. As boas novas consistem em que você é aceito, por quem ou por que permanecendo um mistério. Se os milagres são uma invenção dos autores da Bíblia, como ensinava o famoso professor de Novo Testamento de Marburg, R. Bultmann, a autoridade da Bíblia evapora-se. Um incentivo para as boas obras teria que emanar de um espírito humanista.

O liberalismo também penetrou a Igreja Católica como podemos perceber no comentário de Walter Bulhmann, secretário de Missões Católicas em Roma, e da Freira Emanuelle do Cairo no Egito. 

Bulhmann disse: “No passado, o incentivo em ganhar almas dominava a missão da Igreja. Estávamos convencidos de que os não batizados iriam em massa para o inferno. Agora, graças a Deus, cremos que todos e todas as religiões, já estão vivendo na graça e amor de Deus e serão salvos pela misericórdia de Deus”.

Freira Emanuelle do Cairo, Egito: “Hoje não falamos mais de conversão. Falamos de amizade, fazer amigos. Minha tarefa é provar que Deus é amor e trazer coragem a esta gente”.

Uma vez adotada uma posição como esta, o incentivo para enviar missionários para converter os incrédulos desaparece, enquanto se mantém um renovado interesse em ação social. Que outra justificativa existe para manter a entrada de recursos e um compromisso dos jovens que não têm interesses puramente materialistas no centro de suas ambições.

J.C. Ryle expõe o pensamento geral evangélico: “Enquanto o Diabo for o príncipe do mundo e muitos corações não se converterem, haverá conflitos e luta... Não devemos esperar que os missionários e ministros venham a converter o mundo e ensinar toda a humanidade a amar uns aos outros. Eles absolutamente não farão isso. Não é essa incumbência deles. Eles conclamarão as pessoas a testemunharem de Cristo e a servi-lo em toda a Terra; não farão nada além disso” (cit. Justiça Social e a Interpretação..., p. 16 n.15). Seria difícil chegar a outra posição se de fato acreditamos que o perdido não crente de fato sofrerá a eterna desgraça, sem Deus e sem esperança na vida vindoura. 

Por isso, os evangélicos, com razão entendem que Deus em sua Palavra os convoca para ir e fazer discípulos de todas as nações, ensinando-as a obedecer tudo que Jesus ensinou. O cerne do que Jesus ensinou foi que a vida vale infinitamente mais do que o mundo que a riqueza desfruta: “Pois, que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma” (Mc 8.36). 

Há duas razões principais para se envolver em boas ações em favor de mundanos: 

1) Nós sabemos na Bíblia que Deus é amor, que ele mandou seu Filho para salvar o mundo por causa do amor que ele tem pela humanidade (Jo 3.16; 1Jo 4.8). Sentir-se indiferente diante da miséria, da depravação, da opressão que os não cristãos sofrem deve ser um crime, tal como o bombeiro que olhasse o Edifício Andraus, próximo ao centro de São Paulo, enquanto estava em chamas, e dissesse para si mesmo: “Não há nada que posso fazer. Os jatos de água são fracos demais para atingir as chamas!” Timothy Keller, em seu livro Justiça generosa (Vida Nova, 2013) argumenta fortemente contra esta desculpa e toda tentativa de não se envolver com as múltiplas necessidades do mundo.

2) Boas obras são ordenadas por Deus (veja a parábola do Bom Samaritano). Boas obras são usadas por Deus para persuadir pecadores a se arrependerem e glorificar a Deus (Mt 5.16). Como os milagres de Jesus durante sua vida terrestre, ainda que não fossem capazes de salvar os espectadores, levaram alguns dos beneficiados a buscar mais do que a cura do corpo (veja os casos em João do homem paralítico esperando 38 anos o mover das águas para ser curado (Jo 5.14,15) e o cego desde nascença em João 9. Os dois beneficiados foram persuadidos que Jesus era o salvador.

Dr. Polley, cirurgião renomado do estado de Nova Iorque, se deslocava para lugares remotos na África para realizar cirurgias, mas principalmente para divulgar o evangelho.

3) Se todos os homens foram criados à imagem de Deus, e ele manda que amemos uns aos outros como se amamos a nós mesmos (Lv 19.18; Mt 22.39; Lc 10.27, etc.). Embutido no conceito do amor está a obrigação de procurar aliviar o sofrimento dos que vivem oprimidos pelas incontáveis injustiças que assolam a humanidade. O pecado universal dos homens não mudou esta obrigação. Este mandamento se encontra repetidas vezes na Palavra, no Antigo e no Novo Testamento.

Alexander Solzenitsyn mostrou no seu livro sobre o Gulag que um sistema idealista não é incentivo suficiente para garantir justiça na sociedade. Isso foi demonstrado amplamente em sociedades comunistas, mais recentemente na Coréia do Norte, onde milhares de presos sofrem as mais horríveis indignidades em campos de concentração pelo simples crime de serem cristãos.

A Lei dos israelitas no período pós-mosaico visava uma sociedade justa. Pode-se ver a discussão no capítulo 2 de meu livro, Justiça Social e a interpretação da Bíblia. Moisés falou em Deuteronômio 4: “Eu lhes ensinei decretos e leis, como me ordenou o Senhor, o meu Deus, para que sejam cumpridas na terra na qual vocês estão entrando para dela tomar posse. Vocês devem obedecer-lhes e cumpri-los, pois assim os outros povos verão a sabedoria e o discernimento de vocês. Quando eles ouvisse todos estes decretos dirão ‘ De fato esta grande nação é um povo sábio e inteligente’. Pois, que grande nação tem decretos e preceitos tão justos como esta lei que estou apresentando a vocês hoje?” (4.5-8). O propósito de Deus na entrega das leis e decretos relacionados com a justiça social para seu povo foi para que as nações tomassem nota da importância de buscar ao Deus de Israel e se comprometer com suas leis. Estava diretamente ligada a missão de Israel.

No Novo Testamento também, a prática das boas obras seria uma porta para levar as nações incrédulas a se interessar em observar os benefícios evidentes de reconhecer o senhorio de Cristo e de viver debaixo do seu reinado.
  
CONCLUSÕES:
1) A Palavra condena o amor ao dinheiro. A idolatria que serve o deus Mamom é incompatível com o senhorio de Cristo.  
2) A justiça social não implica a necessidade de se ficar pobre para ser abençoado e ser salvo, mas implica que temos a oportunidade de suprir as necessidades dos irmãos que nada têm ou passam fome e frio (cf. Atos 2.42-47). 
3) As boas obras do cristão têm o propósito de chamar a atenção dos perdidos para eles também se tornarem felizes na segurança que o Pai celeste dá para seus filhos. 
4) Os cristãos são cidadãos do céu, portanto sua peregrinação na terra é temporária, um vestibular para se prepararem para viver eternamente na presença de Deus, e menosprezar os valores principais deste mundo secularizado. 
5) A prioridade máxima do cristão é semear o evangelho, não melhorar a vida dos que não têm interesse algum no Deus único e no caminho da salvação.  
6) Mostrar a realidade do amor de Deus por ações de generosidade deve caracterizar a vida do cristão. Compare o que aconteceu em Jerusalém: “Vendendo suas propriedades e bens, distribuíam a cada um conforme a sua necessidade. Todos os dias, continuavam a reunir-se no pátio do templo. Partiam o pão em suas casas, e juntos participavam das refeições, com alegria e sinceridade de coração, louvando a Deus e tendo a simpatia de todo o povo. E o Senhor lhes acrescentava diariamente os que iam sendo salvos” (At 2.45-47).
7) A justiça social foca principalmente os filhos de Deus. Primeiramente, suprir as necessidades da família nuclear, depois da família de Deus e, finalmente, os de fora. “Portanto, enquanto temos oportunidade, façamos o bem a todos, especialmente aos da família da fé” (Gl 6.10).

Ulrico Zuínglio: o fundador da tradição reformada

Por Alderi Souza de Matos

A grande importância atribuída a João Calvino, o mais destacado teólogo e organizador do movimento reformado, muitas vezes obscurece a figura do reformador Ulrico Zuínglio, o líder inicial desse movimento. Zuínglio nasceu no dia 1º de janeiro de 1484 (apenas dois meses após o nascimento de Lutero) na vila de Wildhaus, no Cantão de St. Gall, nordeste da Suíça. Após freqüentar uma escola latina em Berna, ingressou na Universidade de Viena, onde entrou em contato com o humanismo. Em seguida, estudou na Universidade de Basiléia, na qual foi influenciado pelo interesse bíblico de alguns mestres e formou um círculo de amigos que mais tarde o puseram em contato com o grande humanista holandês Erasmo de Roterdã.

Após obter o grau de mestre em 1506, foi ordenado ao sacerdócio e tornou-se pároco na cidade de Glarus. As influências humanistas e as suas próprias experiências como capelão de mercenários suíços na Itália o levaram a opor-se a esse sistema. Tal fato contribuiu para a sua transferência para Einsiedeln em 1516 e dois anos mais tarde para Zurique, onde se tornou sacerdote da principal igreja da cidade. Tendo lido recentemente a tradução do Novo Testamento feita por Erasmo, começou em 1519 a pregar uma série de sermões bíblicos que causaram forte impacto. A partir dessa época, defendeu um grande programa de reformas em cooperação com os magistrados civis. Suas idéias sobre o culto público e os sacramentos representaram uma ruptura mais radical com as antigas tradições do que fez o movimento luterano.


O ano de 1522 foi decisivo. Zuínglio protestou contra o jejum da quaresma e o celibato clerical, casou-se secretamente com Ana Reinhart, escreveu Apologeticus Archeteles (seu testemunho de fé) e renunciou ao sacerdócio, sendo contratado pelo concílio municipal como pastor evangélico. Nos dois anos seguintes, uma série de debates públicos levou à progressiva implantação da reforma em Zurique, culminando com a substituição da missa pela Ceia do Senhor em 1525. Infelizmente, alguns de seus primeiros colaboradores, tais como Conrado Grebel e Félix Mantz, adotaram posturas radicais quanto ao batismo, dando início ao movimento anabatista, que gerou fortes reações das autoridades.

Os últimos anos da vida de Zuínglio foram marcados por crescente atividade política. No interesse da causa reformada, ele defendeu a luta contra o império alemão e também contra os cantões católicos da Suíça. Buscando fazer uma aliança com os protestantes alemães, encontrou-se com Lutero no célebre Colóquio de Marburg, convocado pelo príncipe Filipe de Hesse em 1529. Embora concordassem em quase todos os pontos discutidos, os dois reformadores não puderam chegar a um acordo com relação à Ceia do Senhor. No dia 11 de outubro de 1531, quando acompanhava as tropas protestantes na segunda batalha de Kappel, Zuínglio foi morto em combate. Segundo se afirma, suas últimas palavras foram: “Eles podem matar o corpo, mas não a alma”.
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Fonte: Portal Mackenzie

1 Tm 2.6 refuta a Expiação Limitada?

Por Thiago Oliveira

Os 5 pontos do Calvinismo, também conhecidos por TULIP, acróstico referente as iniciais de cada ponto na língua inglesa são: Depravação Total do Homem; Eleição Incondicional; Expiação Limitada, Vocação Eficaz e Perseverança dos Santos. Eles são um resumo da teologia extraída dos Cânones de Dort, isso no auge das disputas entre calvinistas e arminianos no séc XVII acerca das doutrinas da salvação. Dentre os 5 pontos, o terceiro talvez seja o mais combatido e o mais controverso dentro do segmento protestante/evangélico, por dizer que Jesus na cruz não morreu por todos os homens, e sim, morreu para remir os que Ele incondicionalmente elegeu.

“Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem. O qual se deu a si mesmo em preço de redenção por todos, para servir de testemunho a seu tempo”.  1 Timóteo 2: 5-6.

Alguns teólogos arminianos, como o Roger E. Olson, tem citado essa passagem com o intuito de refutar a bíblica doutrina da expiação limitada (indico a leitura de “Por Quem Cristo Morreu?” do puritano John Owen, disponível na internet em PDF). Outro expoente seguidor de Armínio, Vernon Grounds, disse que é necessário uma “ingenuidade exegética, beirando o sofisma” para que se negue a universalidade presente nesse texto de Paulo à Timóteo. No entanto, veremos que um exame diligente (e não ingênuo) das Escrituras não nos deixam nenhuma dúvida de que o apóstolo Paulo nem aqui e nem em nenhum outro lugar na Bíblia está defendendo a expiação universal.

Observando o princípio hermenêutico de que as Escrituras se interpretam entre si, vamos analisar não apenas 1 Timóteo 2, mas também outros escritos paulinos. Basta compreendermos que o termo “todos” aqui empregado não se reporta a indivíduos, e que esta palavra está dentro do contexto de que o presbítero de Éfeso deveria, no culto público, interceder em favor de todas as classes de homens, incluindo os reis e os que estão em eminência (v.2). Calvino, em seu comentário, nos lembra de que os magistrados nessa época eram os mais severos inimigos de Cristo. Mesmo assim a ordem apostólica é de que devemos orar também por estes perseguidores da igreja. Quando Paulo diz que o desejo de Deus é “que todos os homens se salvem” fica evidente que ele se refere a classe e não a totalidade de indivíduos na Terra.

Ao afirmar que Deus deseja que homens de cada posição social, nacionalidade ou gênero sejam salvos está corroborando com a ideia de que há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens´, a saber: Jesus Cristo (v.5). A ideia de Jesus como mediador de uma nova aliança quebra as barreiras nacionalistas do judeu e também esmaga o elitismo da cosmovisão grega. O termo “todos” é uma referência óbvia aos gentios, objeto do ministério paulino (v.7). Quanto a isso, Paulo interpreta a si mesmo em outras cartas: (Rm 3:29,1 Co 12: 13, Cl 3:28).

“É porventura Deus somente dos judeus? E não o é também dos gentios? Também dos gentios, certamente. Visto que Deus é um só, que justifica pela fé a circuncisão, e por meio da fé a incircuncisão”. Romanos 3:29-30

“Pois todos nós fomos batizados em um Espírito, formando um corpo, quer judeus, quer gregos, quer servos, quer livres, e todos temos bebido de um Espírito”. 1 Coríntios 12:13

“Porque todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus. Porque todos quantos fostes batizados em Cristo já vos revestistes de Cristo. Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus”. Gálatas 3:26-28

O universalismo da expiação não compreende a cada indivíduo. Afirmar isso apenas porque a expressão “todos” existe no texto é a verdadeira ingenuidade. Seria como dizer que uma reunião só começaria quando cada habitante do planeta chegasse, pois o chefe teria dito que só começaria quando “todos” estivessem presentes. Paulo está falando da abolição de classes que a mediação única de Cristo “dando a Si mesmo como preço da redenção (v.6)” produziu. Não existem vários mediadores e deuses competindo pela adoração da humanidade. Se antes, os demais povos estavam longe, separados da comunidade de Israel, com a mediação de Cristo Jesus fomos unidos aos membros da aliança:

“Porque ele é a nossa paz, o qual de ambos os povos fez um; e, derrubando a parede de separação que estava no meio, na sua carne desfez a inimizade, isto é, a lei dos mandamentos, que consistia em ordenanças, para criar em si mesmo dos dois um novo homem, fazendo a paz. E pela cruz reconciliar ambos com Deus em um corpo, matando com ela as inimizades. E, vindo, ele evangelizou a paz, a vós que estáveis longe, e aos que estavam perto; Porque por ele ambos temos acesso ao Pai em um mesmo Espírito”. Efésios 2:14-18

Apoiando a teologia Paulina, temos Pedro que escreve a sua epístola aos “aos eleitos de Deus, peregrinos dispersos no Ponto, na Galácia, na Capadócia, na província da Ásia e na Bitínia”, dirigindo-se a todas as regiões gentílicas onde o Evangelho havia sido difundido e onde os eleitos de todos os povos poderiam ser encontrados. Estes são as “pedras vivas na edificação de uma casa espiritual” por meio (ou seja, mediação) de Jesus Cristo (1Pe 2: 5), fazendo povo de Deus aqueles que nem sequer eram povo e nem sequer haviam recebido misericórdia (1Pe 2:10). De igual modo, o apóstolo João, ao receber a revelação daquele que poderia abrir o livro da vida, relata que o canto que ecoava no céu era o seguinte:

"Tu és digno de receber o livro e de abrir os seus selos, pois foste morto, e com teu sangue compraste para Deus homens de toda tribo, língua, povo e nação”. Apocalipse 5:9
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Referências Bibliográficas:

1. BARCLEY, William. Comentário do Novo Testamento.E-Book.
2. CALVINO, João. Pastorais. Ed Fiel.
3. HENDRIKSEN , William. Comentário do Novo Testamento. Ed. Cultura Cristã.
4. KELLY, J.N.D. 1 e 2 Timóteo e Tito: Introdução e Comentário. Ed. Vida Nova.