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8 de nov. de 2014

Compartilhando a Verdade da Graça com Amor

R.C. Sproul


Meu amigo Michael Horton frequentemente comenta sobre o fenômeno da “fase da jaula do calvinismo”, esse estranho mal que parece afligir tantas pessoas que descobriram recentemente a verdade das doutrinas da graça da Reforma. Todos nós já conhecemos pelo menos um “calvinista na fase da jaula”. Muitos de nós já fomos um deles quando fomos convencidos da soberania de Deus na salvação.

Os calvinistas na fase da jaula são identificáveis pela sua insistência em transformar qualquer discussão em um debate pela expiação limitada ou por fazer de sua missão pessoal garantir que todos que eles conhecem ouçam — muitas vezes bastante alto — as verdades da eleição divina. Ora, ter um zelo pela verdade é sempre louvável. Mas um zelo pela verdade que se manifesta através da antipatia não convencerá ninguém da verdade bíblica da teologia reformada. Como muitos de nós podemos atestar por experiência pessoal, isso pode, na verdade, afastá-los mais.


Roger Nicole, o tardio teólogo suíço reformado e colega meu por várias décadas, certa vez observou que todos os seres humanos são por natureza semipelagianos, acreditando que eles não nasceram como escravos do pecado. Nos Estados Unidos, particularmente, temos sido doutrinados a um entendimento humanista da antropologia, especialmente quanto ao nosso entendimento da liberdade humana. Afinal, esta é a terra do homem livre. Nós não queremos crer que somos sobrecarregados por inclinações negativas e absoluta inimizade contra Deus, como a Bíblia nos ensina (Rm 3.9-20). Pensamos que verdadeira liberdade significa ter a habilidade de vir à fé sem o poder dominador da graça salvífica. Quando percebemos que isso não é verdade, que a Escritura descreve um quadro sombrio da condição humana à parte da graça, que ela diz que é impossível que escolhamos corretamente, queremos nos certificar de que todo mundo saiba disso também. Às vezes, ficamos até com raiva por ninguém nos ter contado a real extensão da nossa depravação e da majestade da graça soberana de Deus antes.


Isso dá origem aos calvinistas em fase de jaula, esses “recém-formados” crentes reformados que são tão agressivos e impacientes que deveriam ser trancados em uma jaula por um tempo para que possam esfriar e amadurecer um pouco na fé. Às vezes, alguém que se convence das doutrinas bíblicas da graça se vê em conflito com amigos e família por causa de sua descoberta da teologia reformada. Mais de uma vez fui perguntado como se deve lidar com a hostilidade de entes queridos com respeito à teologia reformada. Se as convicções reformadas estão causando problemas, deve-se simplesmente abandonar o assunto de uma vez? Somos nós responsáveis por convencer os outros da verdade das doutrinas da graça?


A resposta é tanto sim quanto não. Primeiro consideremos o “não”. A Escritura diz que “nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento” (1Co 3.7). Paulo está falando primariamente de evangelismo nesse versículo, mas penso que podemos aplicá-lo ao crescimento em Cristo mesmo após a conversão. O Espírito Santo nos convence da verdade, e aquele que está começando a abraçar a teologia reformada demonstra isso muito claramente. Dadas as nossas inclinações semipelagianas, é necessária muita exposição à Palavra de Deus para vencer essa inclinação natural contra as doutrinas da graça. As pessoas defendem tenazmente uma visão particular de livre arbítrio que não é ensinada na Escritura. Calvino, certa vez, observou que se você define livre arbítrio como livre do peso do pecado, você tem usado um termo que é exaltado demais para se aplicar a nós. É preciso muito para vencer a visão exaltada que a maioria dos pecadores têm de si mesmos. Apenas o Espírito pode finalmente convencer as pessoas de sua verdade.


Reconhecer a obra do Espírito, contudo, não significa ficarmos em silêncio ou pararmos de acreditar na verdade da Escritura. Nós não desistimos das doutrinas da graça para manter a paz na família ou entre amigos. John Piper faz uma boa colocação quando diz que não só temos que crer na verdade, que não é suficiente nem para defender a verdade, como devemos lutar pela verdade. Isso não significa, entretanto, que devemos ser pessoas briguentas por natureza. Então, sim, devemos compartilhar o que aprendemos sobre a graça soberana de Deus com aqueles ao nosso redor.


Todavia, se realmente cremos nas doutrinas da graça, aprendemos a ser gentis quando falamos sobre isso. Quando lembramos quanto tempo nos foi necessário para passar pelas dificuldades que tivemos com todo o retrato bíblico da soberania divina e da nossa escravidão ao pecado, podemos ver os nossos amigos e família não-reformados com mais compreensão e compartilhar a verdade com eles mais graciosamente. Uma das primeiras coisas que uma pessoa que está animada com a descoberta das doutrinas da graça deve aprender é a ser paciente com amigos e família. Deus foi paciente ao nos convencer da sua soberania na salvação. Nós podemos confiar que ele fará o mesmo com aqueles que amamos.

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Tradução: Alan Cristie
Fonte: Ministério Fiel

7 de nov. de 2014

O Que Significa Fazer a Vontade de Deus?



Katharina Von Bora (Esposa de Lutero)

Por James I. Good

Uma das figuras femininas mais importantes da Reforma Protestante do Século XVI foi, sem dúvida, Katharina Von Bora. Não que ela tenha praticado qualquer grande ato heróico, se envolvido pessoalmente em grandes controvérsias ou sido martirizada em virtude da sua fé. No dizer de um de seus biógrafos: “ela não escreveu nenhum livro nem jamais pregou um único sermão, mas seu inestimável auxílio possibilitou que seu marido fizesse tudo isso como poucos na história da igreja.” Estamos falando da Sra. Lutero.

Katharina nasceu em 1499, filha de um nobre alemão que passava por dificuldades financeiras. Aos 3 anos de idade, perdeu sua mãe, e seu pai a levou para estudar na escola do convento Beneditino, onde vivia sua tia Madalena Von Bora. Aos 9 anos, entrou para o convento propriamente dito, tornando-se freira aos 16 anos de idade.

Quando Lutero fixou as suas famosas 95 teses nos portões da Capela de Wittemberg, Katharina estava com 18 anos de idade. Entretanto, ela e outras freiras do convento ouviram falar do ensino bíblico de Lutero, e crendo no que ele pregava, desejaram abandonar a clausura. Escreveram a seus pais, mas eles não tomaram nenhuma atitude no sentido de libertá-las. Decidiram então escrever a Lutero, tendo a carta sido redigida pela própria Katharina. Quando o reformador tomou conhecimento do fato, encorajou um amigo negociante a ajudá-las a escapar. Esse homem, Leonardo Koppe, ia frequentemente ao convento, levando alimentos e todo tipo de mantimentos para abastecer o mosteiro, e uma noite em 1523, ajudou-as a fugir, transportando as 12 noviças em um barril de peixes! Muitas retornaram às suas famílias. Lutero procurou auxiliar a todas, ajudando-as a encontrar moradias, maridos e empregos. Dois anos após a fuga, todas haviam seguido seu destino, exceto Katharina, que morou por um curto período de tempo na casa do pintor Lucas Cranach, autor de seu famoso retrato.

Em 1524, com a aprovação e recomendação de Lutero, Katharina foi cortejada por um dos alunos de Wittemberg, mas seu pai se opôs ao casamento. Neste mesmo ano, Lutero arrumou-lhe um novo pretendente, o Pastor Glatz, mas ela recusou-se a desposá-lo. Ela costumava dizer: “Só me casarei com o Dr. Lutero ou com alguém muito parecido com ele”. Lutero ria ao ouvir isso, pois apesar de, já àquela altura, condenar o celibato, não tinha intenção de casar-se: “nunca farão com que eu me case!”, afirmou ele. Alguns garantem que ele chegou a interessar-se por outra ex-freira, Ave Von Schonfeld, mas o relacionamento parece não ter prosperado.

Porém, gradualmente, tanto pela convivência, como por insistência dos seus amigos e seu pai, Lutero acabou propondo casamento à Katharina. Eles ficaram noivos em 13 de junho de 1525 e casaram no dia 25 de junho daquele mesmo ano, ou seja, doze dias depois! A decisão parece ter causado surpresa, pois o próprio Melanchton, escrevendo a um amigo, declarou: “Inesperadamente, Lutero desposou Bora sem querer mencionar seus planos ou consultar seus amigos”. Muitos foram contra o casamento, pelos motivos mais variados. Primeiramente porque, àquela altura, ainda não se admitia que os religiosos contraíssem matrimônio: tratava-se de um escândalo! Segundo, pela grande luta que o reformador vinha travando conta Roma: na condição de herege e proscrito, sua vida estava em constante perigo. Outra razão era a diferença de idade: quando casaram, Lutero estava com 42 anos e Katharina com 26! Ela também sofreu difamações pela união com o reformador, mas, felizmente, o casamento ocorreu e eles viveram felizes por cerca de 21 anos, até a morte do reformador. São curiosos alguns escritos de Lutero sobre esse período inicial de sua vida matrimonial. Escrevendo a um amigo ele declarou: “Existem algumas coisas com as quais precisamos nos acostumar no primeiro ano de casamento; o sujeito acorda de manhã e encontra um par de tranças postiças no travesseiro, onde antes não havia nada!” Entretanto, após um ano de casado, escreveu: “Minha Kathe é, em tudo, tão dedicada e encantadora que eu não trocaria minha pobreza pelas maiores riquezas do mundo”. E mais tarde: “Não há na terra um laço tão doce, nem uma separação mais amarga como a que ocorre num bom casamento”. Finalmente, é bem conhecida sua declaração: “Não há relação mais bela, mais amável e mais desejável, nem comunhão e companhia mais agradável do que a de marido e mulher num casamento feliz”.

O príncipe Frederico havia dado de presente a Lutero o prédio do mosteiro agostiniano em Wittemberg, e foi para lá que a família se mudou em 1525. Katharina reformou o mosteiro e o administrou, o que veio a permitir que Lutero gozasse de relativa paz e ordem em sua vida privada. Ela dirigia e administrava as finanças da família, para que ele pudesse dedicar-se às tarefas que essencialmente lhe competiam: escrever, ensinar e pregar. Ela foi uma esposa dedicada e diligente, a quem Lutero freqüentemente se referia como “Kathe, minha patroa (no inglês, my lord)”. Eles tiveram 6 filhos, dos quais 4 sobreviveram até à idade adulta. Além disso, cuidavam de uma parente de Katharina e, em 1529, com a morte da irmã do reformador, mais 6 crianças – agora órfãs – se juntaram à família. Além dos familiares e de um cachorro de estimação, era comum haver mais de 30 pessoas no mosteiro, entre hóspedes, viajantes em trânsito e estudantes (eles costumavam receber estudantes, que pagavam pelos seus estudos, ajudando assim a equilibrar o orçamento doméstico). Desse modo, sua rotina diária era bastante atarefada: ela tinha uma horta, um orquidário, confeccionava material para pescaria, e acabaram, posteriormente, adquirindo uma pequena fazenda onde criavam gado, galinhas e fabricavam cerveja caseira. Ela também gostava de ler e de bordar. Lutero costumava chamá-la de “a estrela da manhã de Wittemberg”, já que diariamente levantava às 4 horas da madrugada para dar conta de suas muitas responsabilidades. Com muita freqüência, o reformador caía enfermo, e Katharina cuidava dele não simplesmente como esposa, mas quase como enfermeira, devido aos grandes conhecimentos médicos que possuía. 

Entretanto, sua vida não era somente dedicada a coisas materiais. Seu marido a encorajava em seus estudos bíblicos devocionais e sempre sugeria algumas passagens particulares para que memorizasse. Quando ele se encontrava deprimido, era a sua vez de ajudá-lo: sentava-se ao seu lado e lia a Bíblia para ele, edificando o seu coração. Conta-se que, certa vez, Lutero estava bastante deprimido. Não se alimentava e passava os dias trancafiado em seu quarto. Estava cheio de dúvidas sobre se o que fazia era ou não da vontade de Deus. Katharina vestiu-se de preto e entrou subitamente no aposento. Lutero tomou grande susto, pensando que alguém tinha morrido. Katharina respondeu: “Ao que parece, Deus morreu!” A reação de Lutero foi imediata: levantou-se e saiu do quarto, agradecendo à esposa por fazê-lo retornar à vida.

Em termos de recreação, Lutero gostava de participar de jogos ao ar livre com a família, e também apreciava os jogos de mesa, como o xadrez, além de jardinagem e música. Ele e Katharina eram pais diligentes, “disciplinando seus filhos, em amor”. Seu lar era famoso pela vitalidade e felicidade ali reinantes. Dessa forma, a família do reformador tornou-se um modelo para as famílias cristãs alemãs por muitos anos. Lutero considerava o casamento como a melhor escola para moldar o caráter e a vida familiar um método excelente e apropriado para treinar e desenvolver as virtudes cristãs da firmeza, paciência, bondade e humildade.

Lutero faleceu em 1546, e Katharina ainda viveu por mais 6 anos. Ela chegou a ver seus filhos atingirem a idade adulta, alcançando posições de influência na sociedade, exceto aqueles que morreram na infância, causando grande sofrimento as pais: sua primeira filha (Elizabeth) que morreu aos 8 meses de idade, e a segunda filha (Madalena) que faleceu aos 13 anos. Para termos uma idéia desses sofrimentos, segue um breve relato. Quando Madalena adoeceu gravemente, Lutero orou: “Senhor, eu amo muito a minha filha, mas seja feita a tua vontade”. Ajoelhando-se junto à cabeceira de sua cama, falou: “Madalena, minha menina, eu sei que você gostaria de permanecer aqui com seu pai, e também sei que gostaria de ir encontrar-se com o seu Pai no céu. Ela, sorrindo, respondeu: “Sim, papai, como Deus quiser”. Finalmente, depois de alguns dias, ela faleceu em seus braços, e no seu sepultamento, Lutero disse chorando: “Minha querida e pequena Lena, como você está feliz! Você ressurgirá e brilhará como o Sol e as estrelas... É uma cosa esquisita – eu saber que ela está feliz e em paz, e ainda assim, me sentir tão triste!”

Quanto aos outros filhos, o mais velho (Hans) estudou Direito e tornou-se conselheiro da corte. O segundo (Martin), estudou Teologia. O terceiro (Paul), tornou-se um médico famoso, e a terceira filha (Margareth) casou-se com um rico prussiano. A título de curiosidade: os descendentes de Lutero que ainda vivem, descendem de sua filha Margareth, dentre eles, o ex-presidente da Alemanha, Paul Von Hindenburg.

No mesmo ano da morte de Lutero (1546), Katharina deixou Wittemberg e fugiu para Dessau, devido à guerra smalkaldiana e, em 1552, viajou para Torgau, fugindo de uma peste que grassara em Wittemberg. Ela morreu em 20 de dezembro de 1552 na cidade de Torgau.

Encerro esse breve relato sobre a vida de Katharina citando o último testemunho do seu esposo. Escrevendo, certa vez, a um amigo, ele disse: “Minha querida Kate me mantém jovem, e em boa forma também... Sem ela, eu ficaria totalmente perdido. Ela aceita de bom grado minhas viagens e quando volto, está sempre me aguardando com alegria. Cuida de mim nas minhas depressões e suporta meus acessos de cólera. Ela me ajuda em meu trabalho, e acima de tudo, ama a Cristo. Depois Dele, ela é o maior presente que Deus já me deu nesta vida. Se algum dia, vierem a escrever a historia de tudo o que já tem acontecido (a Reforma), espero que o nome dela apareça junto ao meu. Eu oro por isso...”.

Ao tomar conhecimento dessa declaração, Katharina respondeu: “Tudo o que tenho feito se resume a simplesmente duas coisas: ser esposa e mãe, e tenho certeza que uma das mais felizes de toda a Alemanha!”.
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Texto extraído do livro Grandes Mulheres da Reforma, de James I. Good (editada por Lays Anglada) – Knox Publicações.

Meu Pai Sabe

Por Martyn Lloyd Jones

Nosso Senhor diz: Pai nosso que estás nos céus; e o apóstolo Paulo diz: O Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo... E de vital importância, quando oramos a Deus e O chamamos Pai nosso, que nos lembremos... da Sua grandeza e majestade, e do Seu poder absoluto que recordemos que Ele sabe tudo a nosso respeito. Diz a Escritura: Todas as cousas estão descobertas e patentes aos olhos daquele a quem temos de prestar contas...

Não é de admirar que, quando escreveu o Salmo 51, Davi dissesse, na angústia do seu coração: Eis que te comprazes na verdade no íntimo. Se você quer ser abençoado por Deus, terá que ser absolutamente honesto, terá que aperceber-se de que Ele sabe todas as coisas, e que não há nada escondido dEle... como o sábio que escreveu o livro de Eclesiastes coloca a questão, é de vital importância que, quando oramos a Deus, nos lembremos de que Deus está nos céus, e nós na terra.

Devemos lembrar então a santidade de Deus, Sua justiça, Sua total e absoluta retidão... toda vez que nos aproximamos dEle, devemos fazê-lo com reverência e santo temor; porque o nosso Deus é fogo consumidor, (Hebreus 12.28,29).

Essa é a maneira de orar, diz Cristo... nunca separar estas duas verdades. Lembre-se de que você está se aproximando do todo-poderoso, eterno, sempre bendito e santo Deus. Mas lembre também que o mesmo Deus, em Cristo, tornou-se seu Pai, que não apenas sabe todas as coisas a seu respeito porque Ele é onisciente, mas também sabe todas as coisas a seu respeito, no sentido de um pai que tudo sabe sobre seu filho... Junte estas duas coisas. Deus, em Sua onipotência, olha para você com santo amor e conhece cada uma de suas necessidades...

Nada Ele deseja tanto como abençoá-lo, e que você seja feliz, alegre e próspero. Depois, lembre-se disto, que Ele é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos, ou pensamos. Como seu Pai está nos céus, Ele está muito mais disposto a abençoá-lo do que você por ser abençoado. E também não há limite a Seu poder absoluto.

Sudies in the Sermon on the Mount, ii, p. 55,6

6 de nov. de 2014

O Que Significa Buscar ao Senhor?

Por John Piper

Buscando o Senhor significa buscar sua presença. "Presença" é uma tradução comum da palavra hebraica "face". Literalmente, nós devemos buscar sua "face". Mas esta é a maneira hebraica de se ter acesso a Deus. Para estar diante de sua face é estar na sua presença.

Mas não estão seus filhos sempre na sua presença? Sim e não. Sim, em dois sentidos: Primeiro, no sentido de que Deus é onipresente e, portanto, sempre perto de tudo e de todos. Ele mantém tudo que existe. Seu poder está sempre presente em sustentar e governar todas as coisas.

E, segundo, sim, ele está sempre presente com seus filhos no sentido da sua promessa da aliança a sempre estar do nosso lado e trabalhar por nós e transformar tudo para o nosso bem. "Eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos" (Mateus 28:20).

Mas há um sentido em que a presença de Deus não está conosco sempre. Por esta razão, a Bíblia repetidamente nos convoca a "buscar o Senhor ... buscai a sua presença continuamente". A manifestação de Deus, consciente, presença confiável não é a nossa experiência constante. Há épocas em que nos tornamos negligentes ao Senhor e nem sequer pensamos nele e não colocamos a confiança nele e nós o encontramos "imanifestado", isto é, despercebido como grande e belo e valioso pelos olhos dos nossos corações.

Seu rosto — o brilho de seu caráter pessoal está escondido atrás da cortina de nossos desejos carnais. Esta condição está sempre pronta para nos alcançar. É por isso que nos é dito para "buscar a sua presença continuamente." Deus chama-nos a desfrutar da consciência continua de sua suprema grandiosidade e beleza e valor.

Isto acontece através da "busca". Busca contínua. Mas o que isso significa na prática? Tanto o Antigo e Novo Testamentos dizem que é um "ajuste da mente e do coração" em Deus. É a fixação consciente ou foco de atenção da nossa mente e a afeição do nosso coração em Deus.

"Disponde, pois, agora o vosso coração e vossa almapara buscardes ao Senhor vosso Deus." (1 Cronicas 22:19)

"Portanto, se já, ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas que são de cima, onde Cristo está assentado à destra de Deus. Pensai nas coisas que são de cima, e não nas que que são da terra. "(Colossenses 3:1-2)

Este ajuste da mente é o oposto do acostamento mental. É uma escolha consciente para dirigir o coração para Deus. Isto é o que Paulo ora pela igreja: 

"Ora, o Senhor encaminhe os vossos corações na caridade de Deus e na paciência de Cristo" (2 Tessalonicenses 3:5). É um esforço consciente de nossa parte. Mas aquele esforço para buscar a Deus é um dom de Deus.

Nós não fazemos esse esforço mental e emocional para buscar a Deus porque ele está perdido. Isso faríamos para procurar uma moeda ou uma ovelha. Mas Deus não está perdido. No entanto, há sempre algo através do qual ou em torno do qual devemos ir para encontrá-lo conscientemente. Este atravessando ou passando ao redor é o que busca significa. Ele frequentemente está escondido. Velado. Precisamos ir através de mediadores e obstáculos.

Os céus proclamam a glória de Deus. Assim, podemos procurá-lo através disso. Ele se revela em sua palavra. Assim, podemos procurá-lo através disso. Ele mostra-se a nós nas evidências da graça em outras pessoas. Assim, podemos procurá-lo através disso. A busca é o esforço consciente para obter através de um meio natural ao próprio Deus—para constantemente ajustar as nossas mentes a Deus em todas as nossas experiências, para dirigir nossas mentes e corações em direção a ele através dos meios de sua revelação. Isto é o que significa buscar a Deus.

E há obstáculos intermináveis que temos que contornar a fim de vê-lo claramente, para que possamos estar na luz de sua presença. Devemos fugir toda atividade espiritualmente torpe. Devemos fugir dela e contorna-la. Está bloqueando nosso caminho.

Nós sabemos o que nos torna vitalmente sensível as aparições de Deus no mundo e na palavra. E nós sabemos o que nos entorpece e nos cega e nos faz nem mesmo se quer procurá-lo. Devemos nos afastar dessas coisas e contorná-las se quisermos ver a Deus. Isso é o que buscar a Deus envolve.

E enquanto nós direcionamos nossas mentes e corações direcionados à Deus em todas as nossas experiências, clamamos a ele. Isso também é o que buscar a ele significa.

"Buscai ao Senhor enquanto se pode achar; invocai-o enquanto está perto" (Isaías 55:6)

"Se buscares a Deus eimplorares ao Todo-Poderoso misericórdia..." (Jó 8:5)

Buscar envolve chamado e súplica. Ó Senhor, abre os meus olhos. Ó Senhor, abre a cortina da minha própria cegueira. Senhor, tem piedade e revele-se a si mesmo. Desejo muito ver a sua face.

O grande obstáculo em buscar ao Senhor é o orgulho. "No orgulho do seu rosto o ímpio não o busca (Salmos 10:4). Portanto, a humildade é essencial para buscar o Senhor.

A grande promessa para aqueles que buscam o Senhor é que ele será encontrado. "Se o buscares, ele será achado de ti." (1 Crônicas 28:9). E quando ele for encontrado, há grande recompensa. "Aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que é galardoador dos o que o buscam" (Hebreus 11:6). O próprio Deus é a nossa maior recompensa. E quando o temos, temos tudo. Portanto, "Buscai ao Senhor e a sua força; buscai a sua presença continuamente!"

Buscando com você,

Pastor John
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Fonte: Desiring God

A queda de Driscoll e a morte da Mars Hill

Por Alessandro Brito
Talvez a notícia de maior repercussão das redes de comunicação gospel, em 2014, seja a saída de Mark Driscoll da mega igreja Mars Hill e o anuncio do fechamento de todas as suas igrejas “satélites”. O que me chama atenção é o fato de que o próprio pivô das manchetes já havia deixado claro que isso tudo um dia aconteceria. Em 2012, Driscoll publicou um artigo intitulado, The 9 Seasons of a Church’s Life (As 9 Estações da Vida de uma Igreja), onde apresentou a morte da igreja local como parte natural de seu ciclo de vida:
Quando uma igreja não é saudável, ela morre. Uma igreja não é saudável quando não mais experimenta o crescimento por meio da conversão ou atrai jovens líderes. Neste ponto a igreja enfrenta um dilema fundamental. Um, ela pode negar a sua morte iminente, vender seus ativos para prolongar a sua morte, redefinir sua missão a fim de defender-se da sua morte, e simplesmente sobreviver à medida que de forma lenta e dolorosamente morra e reescrever os melhores anos de sua história para se sentir importante e bem sucedida. Dois, ela pode abraçar a sua morte iminente como uma oportunidade para ressuscitar.[1]
O que as igrejas e líderes eclesiásticos podem aprender com essa experiência? Existe uma forma de se evitar a queda e o fechamento de uma igreja local? Quero responder a estas perguntas destacando duas grandes lições do ocorrido utilizando o próprio ensino de Driscoll.
A primeira lição é que uma igreja ou sua liderança quando enfermas morrem. A doença que levou a queda de Driscoll, de acordo com Tim Keller, pastor da Igreja Presbiteriana Redeemer em Nova York, foi: “… a arrogância e a grosseria nas relações pessoais, que ele mesmo confessou várias vezes…”.[2]
A própria Mars Hill reconheceu isso ao dizer em seu web site que: “…o Pastor Mark tem, às vezes, sido culpado de arrogância, respondendo a conflitos com um temperamento explosivo e fala dura, e liderado a equipe e os anciãos de uma forma dominadora”.[3] Claro que várias outras acusações foram feitas em relação ao ministério de Mark Driscoll, porém é obvio que a raiz de sua queda e consequentemente de sua igreja foi a arrogância, ou seja, orgulho. O mesmo mal que levou Satanás e Adão a se rebelarem contra Deus e consequentemente caírem.[4]
A questão é que todos nós somos participantes da queda, pois somos pecadores, e tão culpados quanto Driscoll, a final de contas, somos todos orgulhosos, mesmo quando não admitimos isso.[5] Se perguntarmos, por exemplo, a vários líderes qual é o propósito de seus ministérios ou de suas igrejas, as respostas certamente serão bíblicas, porém ao observaremos as suas atitudes chegaremos a conclusão de que estão de forma orgulhosa colocando toda glória devida a Deus em segundo plano.
Não tem como negar que uma infinidade de igrejas e pastores evangelizam para aumentar o número de membros e não para ver mais pessoas refletindo os atributos de Deus. Que discipulam para dominar seus membros por meio de doutrinas humanas e não para ensinar pessoas a refletirem a Deus corretamente. Que fazem justiça social para atrair os holofotes para si mesmos e não para glorificar a Deus por meio de boas ações mesmo que ninguém venha a ficar sabendo. O resultado deste desvio de propósito ministerial e eclesiástico é o que faz com que muitos vivam como se o tempo não tivesse um fim, assim como diz a Bíblia: “Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu. Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou.”[6]
A segunda está relacionada ao tempo, pois uma igreja ou sua liderança fatalmente morrerão um dia. Mars Hill, por exemplo, será uma das mais de 4.000 igrejas que, segundo as estatisticas, fecham a cada ano Estados Unidos.[7] O problema é que vários líderes na busca de imortalizarem as suas igrejas não levam em consideração o ciclo natural da vida. Várias igrejas e líderes no intuito de prolongarem seus ministérios e a vida de suas igrejas dedicam tempo e recursos financeiros em suas suntuosas construções ou ministérios, ao invés de focarem naquilo que Jesus deixou como comissionamento.
Quando entendemos que somos limitados pelo tempo e espaço mudamos as nossas perspectivas e atitudes. Passamos a encarar a vida com um senso de urgência missionário e nos desprendemos das coisas terrenas. Isso acontence, pois a iminente certeza da morte nos faz repensar sobre a razão de nossa existência e levanta questionamentos do tipo: o que eu faria se hoje fosse o meu último dia de vida?
Steve Timmis, atual presidente da Acts 29 (Rede de plantação de igrejas fundada por Mark Discoll), encara o declínio das igrejas da seguinte forma:
É fácil, para nós, cristãos, desanimar quando lemos sobre a diminuição da frequência na igreja ou sobre a secularização da nossa cultura. Mas nós nos empolgamos com o futuro… A perda de frequência na igreja se deu em grande  parte por causa da saída de cristãos nominais. Como resultado, o que sobrou pode estar mais sadio. Agora temos a oportunidade de nos tornarmos comunidades focadas em Jesus e a sua missão.[8]
John Piper diz que: “Nossa missão jamais deve ser apenas uma missão de ‘venha e veja’. Ela tem de ser missão de ‘Vá e fale’”.[9] Para Deus são justamente as nossas ações que abrirão a porta do Espírito Santo e logo determinarão o tempo de vida de nossas igrejas e ministérios. Para Deus o problema não está no fim da vida de uma congregação, mas em uma congregação morta ainda que aparentemente viva. As cartas enviadas para as sete igrejas da Ásia não foram escritas com a promessa de eternidade para as mesmas, mas um lembrete de que tinham uma missão a cumprir enquanto vivas.
Espero que Driscoll abrace a aparente morte da Mars Hill e seu ministério na expectativa de um renascimento tendo em mente que sem a morte não há ressurreição. Assim como também espero que nós, líderes e igrejas, não venhamos a ter a arrogante atitude de que somos indestrutíveis, mas que nossos dias se prolonguem por meio de uma mansa e humilde atitude que vise somente a glória de Deus.
[1] http://theresurgence.com/2012/06/11/the-9-seasons-of-a-churchs-life

[2] http://www.nytimes.com/2014/08/23/us/mark-driscoll-is-being-urged-to-leave-mars-hill-church.html?smid=tw-share&_r=2
[3] https://marshill.com/2014/10/15/pastor-mark-driscolls-resignation
[4] Isaías 14:12-14; Ezequiel 28:12-15
[5] Romanos 3.23
[6] Eclesiastes 3.1,2
[7] WIN Arn, The Pastor’s Manual for Effective Ministry. Monrovia, CA, Church Growth, 1988, p.16
[8] CHESTER, Tim; TIMMIS, Everyday Church: Gospel Communities on Mission. Nottingham, UK: IVP, 2011, p.11
[9] Piper, John Evangelização e Missões: Proclamando o Evangelho para a Alegria das Nações. São José dos Campos: Editora Fiel, 2011, p. 77
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Fonte: GOSPELPRIME

Princípios básicos para o aconselhamento cristão


Por Thiago Azevedo

Tendo em vista que a vida cristã é permeada de relações próximas e de pessoas que querem sempre ver o bem do próximo – é bem verdade que isso já não é mais uma regra – bem como a necessidade que alguns irmãos na fé sentem de sempre estarem aconselhando com palavras de apoio e encorajando outros irmãos na caminhada cristã, despertou-me o interesse de compor este mero texto. A partir deste prisma é notório que a maioria das pessoas que compõem o ambiente eclesiástico desenvolve, por inclinação, o hábito de aconselhar. Esta prática não está dentro apenas do ambiente eclesiástico, mas também nos mais diversos círculos. Quem nunca ouviu a seguinte expressão: “Se conselho fosse bom não se dava, se vendia”. Seria de fato algo arriscado fazer desta prática um comércio – sobretudo para o aconselhado. 

No contexto capitalista o ato de aconselhar poderia ser visto apenas como mais uma forma de oportunidade financeira/mercadológica. Suposições à parte, o fato é que muitos são os que se auto avaliam conselheiros e estão nos mais diversos âmbitos – pessoal, profissional, educacional, conjugal etc. Não teria como abordar todos estes âmbitos por completo e tecer algo a respeito de cada. É por isso que a proposta delimitadora deste conteúdo aponta para o ambiente eclesiástico. 

O sentimento de ajuda ao próximo que permeia a esfera eclesiástica é salutar, mas, infelizmente, nem sempre a boa intenção é tida como algo bom no reino de Deus. Por exemplo, o texto de I Sm 6: 7-8 relata a história do translado da devolução da arca da aliança que estava sob o poder dos filisteus em direção a Israel. Ou seja, os filisteus devolveram a arca do aliança em cima de bois. Em I Cr. 13 relata-se a alegria de Israel ao receber de volta a arca da aliança que tinha sido tomada pelos filisteus. A alegria era imensa pelo fato de ter de volta a arca. No versículo 7 do mesmo capítulo percebe-se a presença até de um carro novo para guiar a arca do Senhor. Os israelitas sob o domínio do rei Davi acreditaram que a arca devia mesmo estar em um carro de bois novo, pois o carro sobre o qual os filisteus devolveram a arca não era digno desta função. Após a troca do carro houve festa e muita alegria conforme o v 8. É notório que houve boa intenção em tudo, mas não houve obediência ao preceito divino. Ou seja, Ex 25:10-14 / Nm 4:15 / Nm 7: 8-9 / Nm 8:14 nos mostram que carregar a arca era um serviço específico dos levitas e não de bois. Assim, a forma que os filisteus devolveram a arca para Israel – sobre bois – fora mantida pelos próprios israelitas – aqueles que tinham o preceito. Estes, apenas trocaram o carro. 

Parece que Josué em outra ocasião entendeu bem o preceito divino (Js 3:3), ao passo que Davi não. O desfecho desta trágica história todos já sabem, Uzá é fulminado ao tentar segurar a arca na tentativa de impedir sua queda, pois os bois que a carregavam tropeçaram I Cr 13:9-10. Após esta experiência trágica Davi reconhece que errou e se lembra da forma correta de transportar a arca I Cr 15:2. Toda essa história vem à tona no presente conteúdo, para que possa ser percebido que boa intenção nas práticas cristãs nem sempre podem ser tidas como positivas. Ora, Uzá teve ou não teve boa intenção? Davi teve ou não teve boa intenção? Israel teve ou não teve boa intenção? As motivações dos envolvidos eram ou não eram boas? A resposta para estas perguntas é sim, mas o reino de Deus não é feito de boa intenção ou de boas motivações apenas, e sim de obediência. Há até um dito popular: “De boa intenção o inferno está cheio”. O inferno eu não sei, mas o ambiente que estamos analisando – a igreja – sim. Infelizmente, ou felizmente, as boas intenções, motivações, etc. não são tudo no reino de Deus. 

Esta mesma compreensão se faz necessária no que tange ao aconselhamento cristã. Este não pode ser baseado em outro lugar que não seja a bíblia. Aliás, não só o aconselhamento cristão, mas toda a praxis cristã deve ser permeada por esta. Deve-se observar os preceitos bíblicos que concernem a esta prática. Quando se entende isso, entende-se que em toda e quaisquer praticas cristãs não se fala de si mesmo, e sim de outro – este outro é Cristo. Logo, no aconselhamento cristão, esta verdade não foge à regra, ou seja, Cristo deve também ser o centro. Repousa aqui a principal característica do conselheiro cristão – anunciar a pessoa de Cristo e sua postura. Dentro desta linha é notório que na atualidade há muitos conselheiros, mas poucos conselheiros cristãos. 

Em certa ocasião procurei certo pastor para me aconselhar. O referido pastor me levou ao gabinete e lá me contou toda sua experiência de vida em seus quase 60 anos de idade. Ele contava-me sua história com as mãos em cima da bíblia e em nenhum momento abriu a bíblia para usá-la no aconselhamento. Mesmo que não abrisse, mas poderia citar alguma referência ou algo neste sentido para embasar seus pensamentos ou até mesmo suas experiências. Logo surge uma pergunta: Isso é aconselhamento cristão? Não! Isso não pode ser visto como aconselhamento cristão e sim, quando muito, como aconselhamento apenas. No aconselhamento cristão fala-se de Cristo, fala-se de outro e não de si próprio – falar de Cristo é a principal característica desta prática, pois Ele é o espelho tanto do aconselhado como do conselheiro. 

Outra característica de suma importância dentro desta prática recai sobre a irrepreensibilidade. Isto é, quem aconselha não deve ter nada que comprometa sua conduta moral e seu caráter. Em 1Tm 3 o texto mostra várias características daqueles que almejam o episcopado, mas as recomendações destinadas a este grupo específico se estendem também a outros, a saber, diáconos e as esposas. A característica da irrepreensibilidade recai também sobre as costas dos diáconos (v. 10). Assim, todos estes podem e devem atuar como conselheiros, realizando a prática de forma excelente. Curiosamente a primeira admoestação que surge no texto é que os bispos devem ser irrepreensíveis, mas não só estes, os diáconos também devem ser – como já se falou antes. Destaca-se esta ênfase na recomendação pelo fato da impossibilidade de um conselheiro cristão conseguir êxito no seu aconselhamento se o mesmo tiver falhas morais e desvios de conduta. Até no âmbito secular este principio é observado. Por exemplo: como poderá alguém que fuma, aconselhar alguém a não fumar? Como poderá alguém que adultera, aconselhar alguém sobre os perigos do adultério? Ou ainda, como poderá alguém que tem vários desafetos, aconselhar alguém sobre relacionamento pessoal? 

Alguns conselheiros cometem os mesmos deslizes de seus aconselhados e se portam como ditadores hipócritas para com tais. A própria bíblia nos traz a história de uma mulher que foi pega em adultério, naquela ocasião os homens eram adúlteros e queriam matar alguém que tinha cometido pecado semelhante ao deles, ou seja, cometiam o mesmo pecado da mulher e queriam apedrejá-la por tal Jo 8:7 – hipocrisia pura. Por posturas assim é que surgem frases no meio popular direcionada aos líderes religiosos: “Quem tem telhado de vidro não joga pedra na casa de ninguém”. É a pura política do faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço. Esta política no aconselhamento cristão, graças a Deus, não funciona – ao menos até o aconselhado descobrir os fatos. Logo, deva ser por isso também que a recomendação de ser irrepreensível vem no texto encabeçando as principais características de quem almeja o episcopado. É por isso que não só a prática do aconselhamento, mas as mais diversas práticas no meio eclesiástico-cristão atual estão em perene descredibilidade. Ou seja, os conselheiros cristãos não utilizam à bíblia nos seus conselhos, não são irrepreensíveis e nem possuem caráter ilibado e ainda por cima, como se não bastasse, são hipócritas e fazem uso de técnicas psicológicas pueris. 

Estes males estão presentes no ambiente cristão como um todo – tanto no ambiente católico ou no ambiente evangélico a recíproca é verdadeira. Quer seja confessionário quer seja gabinete se tem visto pessoas reclamando da falta de confiança que deveria permear a relação entre conselheiro e aconselhado. Já se tem casos comprovados de católicos e evangélicos que procuram o líder da fé oposta para desabafar. Ou seja, há católicos procurando pastores para desabafar, pois não confiam nos seus respectivos padres. Como também há evangélicos procurando padres para o desabafo, pelo fato de não confiarem nos seus respectivos pastores. Logo, conclui-se, há escassez de irrepreensibilidade em ambos os credos. Com isso, há também a ausência da confiança, pois a confiança é proveniente da irrepreensibilidade. Jay Adams relata um dado interessante: 

“[...] A disciplina deve ocorrer de forma integral com o aconselhamento. Deve ocorrer com três pessoas no mínimo – pois onde há dois ou três em meu nome ali estou em meio deles – O verdadeiro aconselhamento bíblico é aquele que o conselheiro e o aconselhado se reúnem em nome de cristo. E há que se espere a presença de Jesus como conselheiro chefe” [1]

Este breve comentário de um dos maiores especialistas na área remete ao que foi afirmado anteriormente – no aconselhamento cristão não se fala de si mesmo e sim de Cristo. Adams reconhece a pessoa de Cristo como sendo a principal neste processo tão salutar, que é de aconselhar tendo Cristo como molde. O conselheiro deve ter uma sensibilidade para reconhecer que ele é um mero instrumento, pois a personagem principal em todo procedimento atende pelo nome de Jesus Cristo – daí a nomenclatura de aconselhamento cristão. É por isso que Adams remete à importância de se ter três pessoas no ato do aconselhamento, a saber, o conselheiro o aconselhado e Cristo. Com isso o autor enfatiza a importância de orar antes de começar o aconselhamento, assim o aconselhado entenderá que o conselheiro não é autodidata e nem independente da atuação divina. Com esta atitude os pedidos para que Cristo esteja e seja o centro da conversa e que isso tenha como resultados algo que aponte para honra e a glória do próprio Cristo e não do conselheiro. Neste breve texto de Adams é notória a importância da disciplina, por sinal, outra prática escassa no ambiente cristão, e quando não, esta é imposta de forma arbitrária e com requintes de ostracismo. O que inviabiliza a prática do aconselhamento cristão, pois são duas coisas que andam lado a lado – disciplina e aconselhamento cristão. 

Por fim, acredita-se que as principais características de um bom conselheiro cristão repousam na ênfase das Sagradas Escrituras e na pessoa de Cristo, além de não se pautar apenas pela boa vontade ou intenção, pois no reino de Deus boa intenção ou boa vontade nem sempre será suficiente. O bom conselheiro deve observar os preceitos divinos e não desobedecê-los (como Davi o fez acerca do translado da arca da aliança). Deve também ter sua vida pautada pela irrepreensibilidade o que gerará confiança na relação de conselheiro e aconselhado. E não deve fazer uso da política do faça o que digo, mas não faça o que faço. Também deve se afastar da hipocrisia e não deve fazer uso de práticas e conceitos psicológicos que não alcançam o caráter – quando muito, apenas costumes. Desta forma se poderá afirmar que o conselheiro é de fato um conselheiro cristão e não apenas um conselheiro qualquer. Logo, todo conselheiro cristão é um conselheiro, mas nem todo conselheiro é um conselheiro cristão.
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[1] ADAMS, Manual do conselheiro Cristão, p 18.

5 de nov. de 2014

Esposa de Pastor é Pastora?



As Aflições do Justo

Por Thomas Magnum

Porque os olhos do Senhor estão sobre os justos, e os seus ouvidos, atentos à sua súplica; mas o rosto do Senhor está contra os que praticam o mal. I Pedro 3.12.

Ao meditarmos nesse trecho das Escrituras, nos deparamos com algo de tamanha beleza e ternura, vindo da parte de Deus para seu povo. O texto nos diz  que o Senhor põe seus olhos sobre os seus, Ele está a nos contemplar e guardar. O olhar de Deus para seu povo é um olhar amoroso, cuidadoso, paterno, acalentador. Diante de tamanha perseguição que os crentes na época de Pedro estavam sofrendo quando essa epístola foi escrita, a luta era ferrenha e opressora. Thiago diz em sua carta: Chamamos de felizes os que suportaram aflições. Ouvistes sobre a paciência de Jó e vistes o fim que o Senhor lhe deu. Porque o Senhor é cheio de misericórdia e compaixão (Thiago 5.11).  As perseguições e desventuras desse mundo, os desapontamentos e traições, o abandono, a decepção, são presentes na natureza decaída. Mas, temos conforto vindo de Deus. Felizes são os que suportam tamanhas afrontas dessa vida, porque tais aflições promovem a paciência no crente. O Apóstolo Paulo nos disse: Em razão disso, nós mesmos nos orgulhamos de vós diante das igrejas de Deus por causa da vossa perseverança e fé em todas as perseguições e aflições que suportais. 2 Tessalonicenses 1.4. A aflição também é promotora de perseverança, as lutas não afastam o crente de Deus, mas, ao contrário o trazem para mais perto de seu Senhor e Rei.

Portanto, justificados pela fé, temos paz com Deus, por meio de nosso Senhor Jesus Cristo, por intermédio de quem obtivemos também acesso pela fé a esta graça, na qual estamos firmes, e nos gloriamos na esperança da glória de Deus. E não somente isso, mas também nos gloriamos nas tribulações; sabendo que a tribulação produz perseverança, e a perseverança, a aprovação, e a aprovação, a esperança; e a esperança não causa decepção, visto que o amor de Deus foi derramado em nosso coração pelo Espírito Santo que nos foi dado. Romanos 5.1-5

O fato é que não podemos sondar a mente do Senhor, sua sabedoria e conhecimento excedem nossa compreensão. Resta-nos compreender o que a Palavra nos diz, que sua vontade é boa, perfeita e agradável (Romanos 12.2). Como dizia Edwards, nós só vemos parte do mosaico, nossa visão é limitada, Deus vê todo mosaico. Nosso sofrimento tem um bom propósito vindo de Deus. Como podemos ler em Romanos 8.28:

Sabemos que Deus faz com que todas as coisas concorram para o bem daqueles que o amam, dos que são chamados segundo o seu propósito.

 O Senhor tem bons propósitos mesmo na ascensão de calamidades e sofrimentos de nossas vidas, Ele tem o controle de tudo, Ele governa, Ele é o sustentador de todas as coisas. Ao estudarmos sobre a providência de Deus descobriremos isso. Vemos vários exemplos bíblicos dessa providência, no Antigo Testamento vemos o agir soberano de Deus na vida de José, vendido pelos irmãos, levado prisioneiro para o Egito, Deus usou todo seu sofrimento para um propósito. Vemos a história de Jó, Deus sabia quem era seu servo, seus limites, sua estrutura, mas, Deus tinha um bom propósito com seu sofrimento. Em muitos outros casos na Bíblia vemos revelados os planos de Deus para a vida do seu povo, mas, também encontramos casos que o sofrimento não é justificado como no caso de Hemã (Salmo 88). Esse homem sofreu desde sua mocidade. Padeceu muitas dores, privações emocionais, clamando ao Senhor por socorro, no entanto Deus não o tira do sofrimento, o salmo termina sem resposta divina. Vemos também o Apóstolo Paulo clamando para que Deus tirasse o espinho da carne, qual foi a resposta divina? Não. Deus lhe garantiu a suficiência da graça, era só o que bastava. Essa graça é  que sustenta.

O salmista nos diz:

Foi bom eu ter passado por aflição, para que aprendesse teus decretos (Salmos 119.71).

Deus tem sempre uma finalidade pedagógica com o sofrimento em nossas vidas. O sofrimento é o caminho do aprendizado e da formação do caráter cristão em nós. Essa condição de aflição trabalha em nós a humildade de espírito, a dependência, a carência da vida com Deus. O sofrimento é o caminho que nos leva às fontes de Deus, Ele faz brotar água da rocha na sequidão de nosso deserto. Ele rega nossa terra árida com vapor celestial. Ele aperfeiçoa em nós o caráter de Cristo. Ele emudece nossa soberba e humilha nosso ego, para nos ensinar um caminho mais excelente. O sofrimento nos sobrevém para nosso bem como diz a Escritura:

Sabemos que Deus faz com que todas as coisas concorram para o bem daqueles que o amam, dos que são chamados segundo o seu propósito. Romanos 8.28

Calvino nos diz acerca do sofrimento:

"O Bem dos filhos de Deus é que eles se tornem cada vez mais identificados com o seu Senhor (Rm 8.29,30). Nesse propósito, até mesmo as aflições cooperam para o bem: Os sofrimentos dessa vida longe estão de obstruir nossa salvação; antes, ao contrário são seus assistentes. [...] Embora os eleitos e os réprobos se vejam expostos, sem distinção, aos mesmos males, todavia existe uma enorme diferença entre eles, pois Deus instrui os crentes pela instrumentalidade das aflições e consolida sua salvação.¹ As aflições, portanto, não devem ser um motivo para nos sentirmos entristecidos, amargurados ou sobrecarregados, a menos que também reprovemos a eleição do Senhor, pelo qual fomos predestinados para vida, e vivamos relutantes em levar em nosso ser a imagem do Filho de Deus, por meio da qual somos preparados para a glória celestial". ²

Finalizamos com o celeste consolo do salmo 46:

Deus é nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente na angústia. Por isso, não temeremos, ainda que a terra trema e os montes afundem nas profundezas do mar; ainda que as águas venham a rugir e espumar, ainda que os montes estremeçam na sua fúria. Há um rio cujas correntes alegram a cidade de Deus, o lugar santo das moradas do Altíssimo. Deus está no meio dela, e não será abalada; Deus a ajudará desde o amanhecer. As nações se enfurecem, os reinos se abalam; ele levanta sua voz, e a terra se dissolve. O SENHOR dos Exércitos está conosco; o Deus de Jacó é nosso refúgio.

Vinde, contemplai as obras do SENHOR, que devastações fez na terra.  Ele acaba com as guerras até os confins do mundo; quebra o arco e despedaça a lança; destrói os carros com fogo.  Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus; sou exaltado entre as nações, sou exaltado na terra.  O SENHOR dos Exércitos está conosco; o Deus de Jacó é nosso refúgio.
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1 João Calvino, Comentário de Romanos, p. 293.
2 João Calvino, Comentário de Romanos, p. 295.

Pare de Murmurar!

Por Paul David Tripp
Qual foi a última vez que você reclamou?
Eu moro na Filadélfia, e este último inverno foi um dos piores que eu já vivi. De novembro a março, tudo o que eu ouvia era: “Está tão frio. Eu odeio a neve. Não posso esperar pelo verão”.
A Filadélfia também tem a tendência de ficar desconfortavelmente quente, e imagine o que eu já comecei a ouvir? “Está tão quente. Está tão úmido. Não posso esperar pelo outono”.
Talvez você seja anormal e não reclame do clima, mas você reclama de alguma coisa. Acaso você já ficou em frente ao seu guarda-roupa, repleto de roupas, e murmurou: “Eu não tenho nada para vestir…”? Acaso você já olhou a geladeira, repleta de comida, e suspirou: “Não há nada para comer…”?
Eis a realidade: onde quer que você viva, com quem quer que você esteja, não importa que momento do dia seja, e a despeito de qualquer circunstância, você tem a impressionante habilidade de reclamar de alguma coisa!

Filipenses 2.14

Em sua carta aos santos em Filipos, o apóstolo Paulo escreve: “FAZEI TODAS AS COISAS sem murmurações nem contendas” (Filipenses 2.14, ARC, ênfase acrescida).
Você pode imaginar um único dia eu não seja de algum modo arruinado por reclamações? Imagine acordar de madrugada e estar completamente livre de estresse e pressão. Imagine deitar à noite e dormir com um coração completamente satisfeito com cada situação do dia.
Imagine ser um pai e não reclamar do seu filho. Imagine ser um cônjuge e não reclamar de seu marido ou esposa. Imagine ser um cidadão e não reclamar do seu vizinho ou do governo. Imagine ser um trabalhador e não reclamar do seu chefe ou patrão.
Agora, não há dúvida de que o mundo e as pessoas nele irão devastar a sua vida. Haverá razões santas para gemer e orar por mudança (Romanos 8.23). Porém, com mais frequência do que o contrário, suas reclamações revelam o seu coração egoísta e as coisas que você deseja (Lucas 6.45).
Meu desejo é olhar para as duas palavras que Paulo usa – murmuração e contenda – e explorar o que elas dizem acerca do nosso coração.

Murmuração – “Eu mereço algo melhor”

Murmuração tem a ver com o lado emocional da reclamação. A tradução em português é onomatopeica, o que significa que a palavra representa de modo audível a sua definição. Talvez você deva esperar até estar sozinho para tentar isso, mas se você murmurar a palavra “murmurar” repetidas vezes, ela tem o zumbido da reclamação: “mmuurrmmmuraar, mmrrmm, mmrrmm, mmrrmm”.
A murmuração diz: “Eu mereço algo melhor!”. Quando nós murmuramos, nós nos inserimos no centro do nosso universo e achamos que tudo na vida é sobre nós. Quando não conseguimos o que queremos, imediatamente quando queremos e precisamente como queremos, nós murmuramos. É a representação audível de um coração capturado pelo reino claustrofóbico do eu.

Contenda – “Eu sei o que é melhor”

Contenda pode ser traduzida por “discussão” (Nova Versão Internacional) ou “questionamento” (Sociedade Bíblica Britânica). Ela simplesmente diz: “Eu sei o que é melhor! Se eu governasse o meu mundo, eu faria X, Y e Z de outra forma”. Você está questionando a soberania e a sabedoria de Deus.
É claro que você nunca iria comprometer publicamente a sua teologia, mas, nos momentos privados da sua vida, você verdadeiramente questiona quem deveria ser Deus. Talvez você não chegasse ao ponto de substituir Deus, mas você tentaria e acrescentaria um quarto assento na Santíssima Trindade!

Sete lembretes

O que você deve fazer quando se sente impelido a murmurar e contender? Eu sempre digo que você é o pregador mais influente da sua vida, porque ninguém prega a você tanto quanto você mesmo. Então, pregue a si mesmo!
Abaixo estão sete dos meus versículos favoritos que me lembram de por que eu não preciso murmurar ou contender. Há dúzias, talvez milhares além destes, então encontre alguns que você possa atar ao seu coração e pendurar ao pescoço (Provérbios 6.20):
  • MURMURAÇÃO: a única coisa que merecemos é a morte (Salmo 103.10), mas em vez disso nós recebemos vida (Romanos 3.24) e tudo o mais de que precisamos para viver (2Pedro 1.3), então não precisamos estar ansiosos (Mateus 6.25-32).
  • CONTENDA: Deus é desde o princípio (Gênesis 1.1), ele planejou por completo a história de sua vida (Atos 17.26) e o seu plano é para a glória dele e para o seu bem (Jeremias 29.11).
Pregar a si mesmo será útil, mas você (ou seu pastor) nunca será seu salvador. Sua única esperança é encontrada naquele que desceu de seu reino celestial para libertar você da escravidão ao reino do ego.
Achegue-se ao Rei do Reino de Deus e experimente a alegria e a paz que ele pode dar à sua alma!