1509725595914942

11 de nov. de 2014

Pragmatismo Religioso

Por Michael Horton

"Sabe, porém isto: Nos últimos dias sobrevirão tempos difíceis; pois os homens serão egoístas, avarentos jactanciosos, arrogantes, blasfemadores, desobedientes aos pais, ingratos, irreverentes, desafeiçoados, implacáveis, caluniadores, sem domínio de si, cruéis, inimigos do bem, traidores, atrevidos, enfatuados, antes amigos dos prazeres que amigos de Deus, tendo forma de piedade, negando-lhe, entretanto, o poder. Foge também destes. Pois entre estes se encontram os que penetram sorrateiramente nas casas e conseguem cativar mulherinhas sobrecarregadas de pecados, conduzidas de várias paixões, que aprendem sempre e jamais podem chegar ao conhecimento da verdade. E, do modo por que Janes e Jambres resistiram a Moisés, também estes resistem à verdade. São homens de todo corrompidos na mente, réprobos quanto à fé; eles, todavia, não irão avante: porque a sua insensatez será a todos evidente, como também aconteceu com a daqueles" (II Tim. 3:1-9).

A Inglaterra, que uma vez já foi conhecida pela sua vitalidade espiritual, agora está mergulhada numa letargia espiritual e a visão missionária dos Estados Unidos está substituindo aquilo que a Inglaterra deixou de lado. Além disso, muita coisa do que Deus está fazendo hoje está acontecendo fora desses dois países. Eu espero que a Igreja no Brasil esteja em constante oração para que, a partir do Brasil, uma outra reforma e um grande despertamento venha e tome conta do mundo.

Não sabemos o que Deus vai fazer no mundo, mas seria muito emocionante se pudéssemos fazer parte daquilo que Ele deseja fazer no Brasil. É maravilhoso ser um cristão e saber que Deus tem todas as coisas debaixo do Seu controle. Todos nós sabemos da necessidade de um grande avivamento, mas ao mesmo tempo existe uma grande polêmica nesses dias sobre a questão. Sem sombra de dúvidas, se convidássemos as pessoas para uma reunião de avivamento, muitas delas viriam com conceitos diferentes do que é avivamento. Assim sendo, faz-se necessário ter uma definição clara em nossa mente do significado desse termo. Qual a diferença entre avivamento e avivalismo, se assim podemos chamar?

Avivalismo e Pragmatismo

Avivalismo, especialmente na tradição deixada por Charles Finney, é, na realidade, um fenômeno americano e queremos tratar de parte desse fenômeno. Não somente porque é um produto feito na América, mas porque muitos dos movimentos que estão vindo dos Estados Unidos para outras partes do mundo têm essa visão característica de entender avivamento segundo o modelo de Charles Finney.

Esse modelo tem como base o que nós chamamos de pragmatismo. Se você for abrir um negócio você tem que ser pragmático e se você vai criar uma família, existe uma série de considerações práticas que você precisa sempre ter em mente; e, certamente, o mesmo se aplica quando nós estamos fundando uma Igreja e queremos desenvolvê-la.

Todos sabemos que há preocupações práticas que devemos considerar, mas o pragmatismo é uma filosofia que empurra para a periferia uma série de princípios fundamentais e elege, como único fator relevante, a questão: “Isso funciona?”

Quais os perigos do pragmatismo? Voltando para o texto de II Tim. 3: 1-9, consideraremos primeiramente os aspectos relativos à nossa chamada para o ministério. Vejamos, então, o contexto do nosso ministério. Paulo se refere a esse contexto como sendo o dos “últimos dias”. Sabemos que os “últimos dias” começaram com o tempo dos apóstolos, e terminarão com a segunda vinda do nosso Senhor. Portanto, estamos vivendo nos “últimos dias”, como, também, Timóteo estava vivendo nos “últimos dias”. Qual é o contexto, então, do ministério nesse período entre as duas vindas de Cristo? Paulo diz, em primeiro lugar, que nos últimos dias os homens serão amantes de si mesmos.

Narcisimo e Auto-Estima

Christen Lash, um sociólogo americano bastante conhecido, escreveu um livro sobre a cultura americana cujo título é: “O culto do Narcisismo”. Essa é uma acusação difícil de se fazer, porque o que ela implica é que a cultura americana é uma cultura onde as pessoas se endeusam. E como vocês se lembram “Narciso” é o nome daquele jovem da lenda grega que costumava admirar o seu próprio reflexo no espelho das águas. Mas isso não somente é parte da nossa cultura, como também se tornou parte das nossas igrejas. Muitos dos movimentos que se intitulam “avivados”, em nossos dias, simplesmente estão reavivando o narcisismo, ou seja: a adoração do “eu”. Isso pode ser visto na declaração de um desses pastores que afirmou: “A Reforma errou porque foi centralizada em Deus e não no homem, como devia ser”. Esse pastor escreveu um livro cujo título é: “Crendo no Deus Que Crê em Você”. Uma certa ocasião, trouxemos esse cidadão para falar no nosso programa de rádio. Então eu li essa passagem, onde Paulo diz que as pessoas serão amantes de si mesmas, e perguntei-lhe: “Como você pode dizer às pessoas que a salvação começa com o amor próprio, quando Paulo diz que nos últimos dias as pessoas serão amantes de si mesmas? Não estaria ele dizendo que isso é uma coisa errada, e que nós não devíamos ser amantes de nós mesmos? E como Deus vai nos fazer felizes com esse falso evangelho narcisista?”

O que está acontecendo é que a piedade e a santidade deixaram de ser os referenciais pelos quais julgamos se um movimento é ou não é do Espírito. Assim, o critério que tem sido adotado é: “Funciona? Vai me fazer feliz? Vai me ajudar a criar minha família? Vai consertar o meu casamento?”. Todas essas questões são importantes, à luz das Escrituras, mas não são as mais importantes.

Em segundo lugar, Paulo diz que eles serão amantes do dinheiro. Porque as pessoas amam excessivamente a si mesmas, elas criam o evangelho da auto-estima; e porque as pessoas amam excessivamente o dinheiro, elas criam o evangelho da prosperidade.

Rebeldia, desprezo pelo passado e busca do prazer

Paulo diz ainda que haverá muito orgulho e revolta contra as autoridades. Haverá pessoas desobedientes aos pais. Uma geração não se preocupará com a geração anterior. O cantor Bob Marley escreveu uma música sobre a cultura americana dizendo: “Povo do futuro, onde está o teu passado? Povo do futuro, quanto tempo vocês vão durar?” O povo que não tem passado também não tem futuro. Não sei se Bob Marley era crente, mas com certeza esses versos refletem um ponto de vista bíblico ao tentar se segurar naquilo que pede o seu passado.

Eu quero lhes garantir que se levarem a doutrina bíblica a sério, muitos irmãos e irmãs vão lhes dizer que vocês não estão andando nos passos do Espírito; vão lhes dizer que o Espírito Santo hoje quer fazer uma coisa inteiramente nova, tal como nunca fez no passado. E o que vocês vão falar? Vão falar sobre os grandes avivamentos do passado, sobre a Reforma? Qual o valor disso para os amantes de si mesmos e materialistas? Eles responderão que Deus está fazendo algo completamente diferente nos dias de hoje. Mais uma vez eu quero lembrar que isso faz parte do narcisismo que diz o seguinte: - “eu é que sou importante e aqueles da minha geração é que são importantes e não os que vieram antes de nós”.

E ele diz também que as pessoas serão hedonistas, amantes do prazer, nos últimos dias; como ele diz no verso 4, serão mais “amigos dos prazeres que amigos de Deus”. Mais uma vez queremos enfatizar: Se você perguntar em uma Igreja: “Vocês concordam com o hedonismo?” Creio que ninguém vai responder sim a essa pergunta. Mas se você entrar numa livraria evangélica, se ouvir uma emissora de rádio evangélica, se prestar atenção a muitos sermões evangélicos, você ouvirá mensagens afirmando que o Cristianismo é a melhor maneira para você se auto-realizar. Quantos testemunhos temos visto que funcionam como comerciais de televisão? Nos Estados Unidos, temos aquelas propagandas de dieta que mostram uma pessoa antes e depois da dieta. Muitas vezes, os testemunhos dos crentes são assim: “Antes eu era triste, agora sou feliz; antes eu era deprimido, mas agora eu estou extremamente motivado para viver”. Esses são benefícios maravilhosos, mas, por vezes, a verdade é que nós, como cristãos, nos tornamos tristes. Algumas vezes, o caminho da cruz é o caminho do sofrimento, e nem sempre estamos tão entusiasmados a respeito disso. Apesar de tudo isso, a perspectiva que predomina nos nossos dias é que temos que viver para satisfazer a nós mesmos.

Moralidade sem piedade

No verso 5 do texto destacado, Paulo diz: “tendo forma de piedade, negando-lhe, entretanto, o poder”. Veja bem! O que Paulo está dizendo é que pode haver uma moralidade sem Deus. Existem pagãos que tem uma vida moral excelente, e há ímpios que acreditam ser errado você trair sua esposa. Há pessoas não cristãs que têm famílias muito boas. Mas será que este é o propósito do cristianismo? Consertar tudo aquilo que está moralmente errado no mundo, ou será que o foco está em Deus, nos Seus mandamentos justos, e no Evangelho pelo qual nós devemos viver?

É esse o contexto do nosso ministério. Então respondamos à pergunta: Qual o nosso chamado para o ministério? O exemplo de Paulo é alguma coisa que temos de imitar nesse sentido. Mas agora perguntamos: Como, historicamente, essa filosofia do pragmatismo dominou o pensamento moderno? A figura mais destacada no cenário evangélico, neste sentido, é a de Carlos Finney. Quantos de vocês já ouviram falar de Charles Finney? Quase todo mundo. Isso é significante porque Finney é uma pessoa muito importante para aqueles que são proponentes do movimento de crescimento da Igreja e do movimento de sinais e prodígios.

Evangelho ou Pragmatismo?

Charles Finney era presbiteriano, mas atacou a Confissão de Fé de Westminster que ele próprio subscrevera. Ele a chamou de: “um papa de papel”. Ele dizia, no século XIX em que viveu: “Nós já somos pessoas muito ilustradas e racionais para acreditar em todas essas coisas aí que a Confissão de Fé está dizendo”. Vejam algumas das coisas que Charles Finney escreveu:

Quando o homem se torna religioso - disse Finney - ele não recebe um poder que não tinha antes, ele simplesmente muda a sua vontade, e resolve seguir, agora, numa direção moral. Religião é obra do homem, não é um milagre e nem depende de um milagre em qualquer sentido; é simplesmente um resultado filosófico do uso correto de técnicas. O homem já possui, por natureza, toda a habilidade necessária para prestar perfeita obediência a Deus, portanto o objetivo do ministro é emocionar as pessoas até que se disponham a tomar essas decisões.

Foi dessa filosofia que nasceu o que ficou chamado naquela época de “novas medidas introduzidas por Finney”. Por exemplo: O sistema de apelo para que as pessoas se manifestem fisicamente e caminhem até à frente em resposta à pregação nasceu com Charles Finney, nesse período. Em sua Teologia Sistemática, Finney nega explicitamente a doutrina do pecado original. Ele diz ainda que a doutrina da substituição vicária de Cristo é uma ficção, e que a justificação pela graça, por meio da fé somente, é “outro evangelho”. Com certeza, é um evangelho diferente daquele que Finney estava pregando.
É isso que Paulo diz a Timóteo, quando fala de pessoas que têm forma de piedade mas negam, entretanto, o seu poder. Afinal de contas, onde reside o poder da piedade? É o poder de Deus para a salvação! E que poder é esse? É o evangelho de Jesus Cristo! Somente o Evangelho pode nos capacitar a viver a vida cristã. Portanto, é possível ter moralidade sem piedade; e esse é o resultado do pragmatismo.

Mais tarde, tornou-se conhecida a idéia de D.L. Moody. Ele disse no século XIX que não faz nenhuma diferença como você leva alguém a Deus; se você conseguir fazer isso, não importa o meio. O importante é levar, de qualquer maneira, a Deus.

Uma vez perguntaram a Moody: Qual é a sua teologia? Ele disse: “Minha teologia? nem sei se eu tenho uma!”. Vejam bem! Moody era um vendedor de sapatos, e um dia ele disse que ao se tornar evangelista não mudou de profissão, o que ele havia feito era trocado de produto.

Como abordamos o pragmatismo corporativo da nossa cultura? Alguns dizem que a contribuição distinta da América para a história da filosofia foi a criação do pragmatismo. Um dos grandes pais do pragmatismo e quem o transferiu da esfera religiosa para a esfera secular foi William James. Ele era filho de pastor; pastor, ele próprio, e também professor da Universidade de Harward. Ele disse: “Faça a seguinte pergunta: Como é que você define que determinada verdade é o que você deve crer?” E acrescentou: “A resposta é que você tem que determinar o seu valor em termos de experiência e resultado”. Então, com princípios pragmáticos, analisou a doutrina de Deus dizendo o seguinte: “Se a doutrina de Deus funciona, então é verdade. O pragmatismo tem que adiar questões dogmáticas porque no começo nós não sabemos qual reivindicação doutrinária vai produzir resultado”.

Acredito que quase ninguém iria marcar essas coisas num exame tipo teste dizendo que acredita nelas, mas, na prática, o que acontece é que esse é o credo do evangelicalismo mundial hoje. Um evangelista americano famoso disse: “Não tente entender, simplesmente comece a desfrutar, porque funciona; eu já tentei”. Ele estava falando a respeito da meditação transcendental da Nova Era. Na década de 50 do nosso século, esse pragmatismo se desenvolveu em termos de pensamento positivo. Foi então publicado um livro chamado “A Mágica do Crer”. Esse livro propõe que há uma certa qualidade mágica no simples ato de crer. Porém, a verdade é outra. No cristianismo, o que salva não é o ato da fé, mas sim o objeto da fé. Nós não somos salvos pela fé, não somos justificados pela fé; nós somos justificados pela justiça de Cristo que nos é imputada. Mas hoje em dia, desenvolveram essa equação de que fé é igual a pensamento positivo. Na realidade, essa última frase que mencionei foi uma citação de Peter Wagner.

Deus como objeto de consumo

Muito bem! Esses conceitos funcionam numa sociedade materialista, que está satisfeita e centralizada no ego; pode funcionar muito bem na América do final do século XX, pode ser até que funcione em São Paulo também, e pode funcionar em Londres. Mas imagine o seguinte quadro: Você vai a um cristão do século I e diz a ele que a razão principal pela qual ele está indo para a boca dos leões é porque o Cristianismo funcionou melhor do que as outras religiões!

Os testemunhos que temos no Novo Testamento são muito diferentes dos testemunhos que nós vemos hoje em dia. No Novo Testamento temos a palavra de testemunhas oculares, que é muito mais importante que o nosso próprio testemunho. O que é que Paulo disse em I Cor. 15? Ele disse: “E, se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação e é vã a vossa fé... Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens”. Ele não diz “pelo menos vocês têm uma vida feliz e saudável!”. E ele também não está dizendo “Bem! o que é que você pode perder?” Por que Paulo não fez isso? porque ele não era um pragmático. Paulo fundamentava todas as reivindicações da fé cristã no Evangelho verdadeiro.

Temos que nos perguntar: “Será que não estamos usando a Deus? Será que, finalmente, não embarcamos nesse consumismo da nossa sociedade? Será que não estamos tratando a Deus como tratamos um produto?” São perguntas muito importantes que devem ser feitas a nós mesmos. “Será que Deus está nos usando ou nós estamos usando a Deus?”

Reavivamento e Reforma não virão à Igreja até que a mentalidade dos crentes seja desviada desse egoísmo humano, da centralização no homem que Paulo descreve, para o verdadeiro Evangelho e para Deus.

Nos Estados Unidos, temos um adesivo que diz: “Jesus é a resposta”. Os incrédulos fizeram um outro adesivo para retrucar a esse: “Qual é a pergunta?” Considere, agora, o que diz o pragmatismo: “Eu não sei qual é o seu problema, mas qualquer que seja, Deus pode resolver. O seu carro está enguiçado? A sua vida familiar não está progredindo como devia? Deus pode consertar em um piscar de olhos!”. Assim, passamos a consumir a Deus. Nós usamos a Deus, ao invés de amá-Lo, servi-Lo e honrá-Lo.Muito bem!  Então qual é o propósito do nosso ministério? 


Vejamos o que diz Paulo:


Tu, porém, tens seguido de perto o meu ensino, procedimento, propósito, fé longanimidade, amor, perseverança, as minhas perseguições e os meus sofrimentos, quais me aconteceram em Antioquia, Icônio e Listra, - que variadas perseguições tenho suportado! De todas, entretanto, me livrou o Senhor. Ora todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos. Mas os homens perversos e impostores irão de mal a pior, enganando e sendo enganados. Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste, e de que foste inteirado, sabendo de quem o aprendeste. E que desde a infância sabes as sagradas letras que podem tornar-te sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus. Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção para a educação na justiça. a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra. Conjuro-te, perante Deus e Cristo Jesus que há de julgar vivos e mortos, pela sua manifestação e pelo seu reino: prega a palavra, insta, quer seja oportuno, que não, corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade e doutrina. Pois haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, cercar-se-ão de mestres, segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos; e se recusarão a dar ouvidos à verdade, entregando-se às fábulas. Tu, porém, sê sóbrio em todas as cousas, suporta as aflições, faze o trabalho de evangelista, cumpre cabalmente o teu ministério (II Tim. 3:10-4:5).

O modelo apostólico

Em primeiro lugar, o propósito do nosso ministério é seguir o modelo apostólico. Paulo menciona aqui o seu ensino, a sua maneira de viver, o seu propósito, a sua fé, a sua paciência, o seu amor, e a sua perseverança diante das tribulações. Perseguições? Sim! É o que ele diz no verso 12. Todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos. Será que é isso o que estamos ouvindo hoje? Ou será que estamos ouvindo outra mensagem? Algumas vezes você vai pensar que não está dando certo, que as coisas não estão funcionando como deveriam, como lemos em Romanos, capítulo 7. Nós sofreremos como cristãos, e ainda vamos sofrer com os nossos pecados.

A proclamação da Lei e do Evangelho

Além de seguir o seu exemplo, Paulo quer que Timóteo também se firme naquelas verdades que aprendeu quando era jovem. Veja que Paulo, ao invés de nos levar à questão do pragmatismo: “Será que funciona?”, ele nos conduz para as Escrituras. Ele diz: “prega a Palavra”, com muita paciência instruindo as pessoas. Porque haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina. Ao contrário, cercar-se-ão de mestres, segundo as suas próprias cobiças, como quem sente coceira nos ouvidos (4:3).

Vejam! sempre temos coceira nos ouvidos. Pragmatismo não é uma coisa nova. Na realidade já foi praticado desde o jardim do Éden. Quando Eva viu que a árvore era agradável para se ver, para descobrir o conhecimento e desejável para trazer entendimento; então ela tomou do fruto e comeu. O que significa para nós “pregar a Palavra”? O que Paulo quer dizer no verso 5 “Tu, porém, sê sóbrio em todas as coisas, suporta as aflições, faze o trabalho de evangelista”?. O que ele quer dizer com isso, “pregar a Palavra”? Vez após vez, Paulo e os demais escritores bíblicos nos dizem que isso é a proclamação da lei. Na verdade, é pela proclamação da lei santa de Deus que nós somos tocados e feridos. A lei de Deus vem até nós e ela não vem dizendo assim: “Eu vou transformar a tua vida numa vida feliz!”, ela não vem dizendo: “Vou te dar prosperidade!”. Na realidade, a lei vem para nos dizer exatamente aquilo que Deus tem dito que requer de nós. A lei nos confronta com a glória de Deus e a nossa pecaminosidade torna isso aterrorizante!

Finalmente, o Evangelho vem e causa também impressão em nós. Há uma Igreja no Estado do Arizona, cujo pastor, numa entrevista que foi publicada na revista Newsweek, disse: “As pessoas hoje em dia não estão preocupadas com doutrinas como justificação, salvação ou expiação. Nos dias de hoje, ninguém entende esses termos. O que nós precisamos fazer é atender as necessidades das pessoas!”

Imaginem um professor! Vocês não acham que seria muito estranho se o professor chegasse dizendo assim: “Não posso ensinar o alfabeto para esta criança porque ela ainda não sabe português”. Esse é o tipo de argumento que esse pastor estava apresentando. Tanto que o que hoje se passa com o nome de pregação, na realidade, não é pregação da Palavra. Porque não apresenta nem a Lei nem o Evangelho. Esses pastores começam decidindo o que é que as pessoas de sua igreja desejam ouvir. Quais são os pontos que estão em moda hoje? Quais são as necessidades das pessoas dos dias de hoje? E aí, então, eles vão às Escrituras e procuram e acham passagens que podem ser usadas para apoiar essa necessidade, ao invés de, indo ao texto, perguntarem primeiro como a santidade de Deus nos convence do nosso pecado e como o Evangelho de Cristo pode ser tão claro que até pecadores como nós podem se arrepender e crer.

Mas vocês, irmãos e irmãs, ouçam o que Paulo diz, sejam sóbrios em todas essas coisas, preguem a palavra, suportem as aflições, façam o trabalho de evangelista, e cumpram cabalmente o ministério.
__________________________________
Palestra proferida por ocasião do V Simpósio “Os Puritanos”, realizado em Águas de Lindóia, SP, de 10 a 14 de junho de 1996. Michael Horton é professor no Seminário Reformado em Orlando, Flórida (USA), fundador e presidente do movimento “Cristãos Unidos pela Reforma”, na Califórnia, e autor de diversos livros.

A diferença da ação do Espírito no Homem Natural e no Salvo

Por Jhonatan Edwards

As convicções que os homens naturais podem ter acerca do seu pecado e miséria não é esta luz espiritual e divina. Os homens em condição natural podem ter convicções da culpa que está sobre eles, da ira de Deus e do perigo da vingança divina. Tais convicções são provenientes da luz da verdade. O fato de alguns pecadores terem uma maior convicção da culpa e miséria que outros é porque alguns têm mais luz ou compreensão da verdade que outros. Esta luz e convicção podem ser do Espírito de Deus.

 O Espírito convence os homens do pecado, mas, não obstante, a natureza está muito mais envolvida nesse processo do que na comunicação da luz espiritual e divina que são mencionadas na doutrina. Somente através do Espírito de Deus como princípio natural auxiliar, e não como novo princípio inspirador. A graça comum difere da especial no ponto em que influencia só pela ajuda da natureza, e não pela doação da graça ou concessão de qualquer coisa acima da natureza. A luz que é obtida é completamente natural, ou de nenhum tipo superior a que a mera natureza atinge, por mais que esse modo seja ou seria obtido se os homens permanecessem completamente sozinhos; ou, em outras palavras, a graça comum só ajuda as faculdades da alma a fazer isso mais completamente do que fazem por natureza, assim como pela mera natureza a consciência ou a razão natural tornará o homem sensível da culpa, e o acusará e o condenará quando ele se desviar. A consciência é um princípio natural para os homens.

 O trabalho que o faz naturalmente ou por si mesmo é dar uma compreensão do certo e do errado, e sugerir à mente a relação em que há entre o certo e o errado e o castigo. O Espírito de Deus, nessas convicções que os homens não-regenerados às vezes têm, ajudam a consciência a fazer esta obra em maior medida do se a fizessem sós. Ele ajuda a consciência contra as coisas que tendem a entorpecer e obstruir seu exercício. Mas na obra renovadora e santificadora do Espírito Santo, essas coisas são feitas na alma que está acima da natureza, e na qual não há nada por natureza do tipo igual. Essas coisas são compelidas a existir habitualmente na alma, e de acordo com tal constituição ou lei declarada que põe tal fundamento para o exercício em um curso continuado como é chamado de princípio de natureza. Não só os princípios permanentes são ajudados a fazer o seu trabalho de forma mais livre e completa, mas os princípios que foram totalmente destruídos pela queda são restabelecidos. A partir daí, a mente manifesta habitualmente esses atos que o domínio do pecado a tinha tornado tão completamente desprovida quanto um corpo morto o é de atos vitais. 

O Espírito de Deus age em alguns casos de maneira muito diferente de como age em outros. Ele pode agir na mente do homem natural, mas age na mente do santo como princípio vital residente. Ele age na mente dos indivíduos não-regenerados como agente ocasional extrínseco, pois agindo neles, não se une a eles. Não obstante todas as influências divinas que eles possuam, ainda são sensuais "e não têm o Espírito" (Jd 19). Mas Ele se une com a mente de um santo, toma-o por seu templo, atua nele e o influencia como novo princípio sobrenatural de vida e ação. Há esta diferença, de que o Espírito de Deus, agindo na alma do homem pie doso, manifesta-se e comunica-se na sua natureza formal. A santidade é a natureza formal do Espírito de Deus. O Espírito Santo opera na mente do santo, unindo-se a ele, vivendo nele, manifestando sua natureza no exercício de suas faculdades. O Espírito de Deus pode agir numa criatura, e, contudo, não se comunicar agindo. O Espírito de Deus pode agir nas criaturas inanimadas como "o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas" no princípio da criação. Assim, o Espírito de Deus pode agir na mente dos homens de muitas maneiras e se comunicar não mais do que quando Ele age em uma criatura inanimada. Por exemplo, Ele pode instigar-lhes pensamentos, ajudar a razão e o entendimento natural, ou auxiliar outros princípios naturais — e isto sem qualquer união com a alma —, mas pode agir, por assim dizer, em um objeto externo. Mas assim como Ele age em suas influências santas e operações espirituais, Ele age de certo modo a comunicar-se peculiarmente, de forma que, por isso, o assunto é denominado espiritual. 

Esta luz espiritual e divina não consiste em impressão feita na imaginação. Não é impressão na mente, como se a pessoa visse algo com os olhos físicos. Não é imaginação ou ideia de uma luz ou glória externa, ou beleza de forma ou semblante, ou lustre ou brilho visível de um objeto. A imaginação pode ser fortemente impressionada por tais coisas, mas esta não é a luz espiritual. Na realidade, quando a mente faz uma descoberta vivida de coisas espirituais e é muito afetada pelo poder da luz divina, pode-se, e muito provável e comum, afetar em demasia a imaginação, de forma que a impressão de uma beleza ou brilho externo pode acompanhar essas descobertas espirituais. Mas a luz espiritual não é essa impressão na imaginação, mas algo sumamente diferente. Os homens naturais podem ter impressões vividas em sua imaginação, e não podemos determinar a não ser que o Diabo, que se transforma em anjo de luz, possa causar imaginações de uma beleza exterior ou glória visível, de sons e falas e outras coisas semelhantes. Mas estas coisas são de natureza imensamente inferior à luz espiritual. 

10 de nov. de 2014

Recuperando o Evangelho

Paul Washer

O evangelho de Jesus Cristo é o maior de todos os tesouros dados à igreja e ao cristão como indivíduo. Não é uma mensagem entre muitas, mas a mensagem acima de todas as outras. É o poder de Deus para a salvação e a maior revelação da multiforme sabedoria de Deus aos homens e aos anjos. É por essa razão que o apóstolo Paulo deu primazia ao evangelho em sua pregação, esforçando-se com tudo que tinha para proclamá-lo com clareza, pronunciando até mesmo uma maldição sobre todos que pervertessem sua verdade.

Cada geração de cristãos, pelo poder do Espírito Santo, é responsável pela mensagem do evangelho. Deus nos chama a guardar este tesouro que nos foi confiado. Se quisermos ser fiéis mordomos, teremos de estar absorvidos no estudo do evangelho, tomando grande cuidado para compreender as suas verdades, comprometendo-nos a guardar o seu conteúdo. Ao fazê-lo, garantimos nossa salvação, bem como a salvação daqueles que nos ouvem.

Como sabemos comumente, a palavra Evangelho vem do vocábulo grego euangélion, que é traduzida como “boas novas”. Num sentido, toda página da Escritura contém o evangelho, mas em outro sentido, ele se refere a uma mensagem muito específica — a salvação realizada para um povo caído, por meio da vida, morte, ressurreição e ascensão de Jesus Cristo, o Filho de Deus.

Conforme o bom prazer do Pai, o Filho eterno, que é um com o Pai e a exata representação de sua natureza, deixou voluntariamente a glória do céu, foi concebido pelo Espírito Santo no ventre de uma virgem, e nasceu o homem-Deus: Jesus de Nazaré. Como homem, ele andou sobre a terra em perfeita obediência à lei de Deus. Na plenitude do tempo, os homens rejeitaram-no e o crucificaram. Sobre a cruz, ele carregou o pecado do homem, sofreu a ira de Deus, e morreu no lugar do homem. Ao terceiro dia, Deus o ressuscitou da morte. Esta ressurreição é a declaração divina de que o Pai aceitou a morte de seu Filho como sacrifício pelo pecado. Jesus pagou a penalidade pela desobediência do homem, satisfez as demandas da justiça e aplacou a ira de Deus. Quarenta dias após a ressurreição, o Filho de Deus ascendeu ao céu e se assentou à destra do Pai, e foi-lhe dada glória honra, e domínio sobre todas as coisas. Ali, na presença de Deus, ele representa seu povo e intercede junto a Deus em seu favor. Deus perdoará plenamente a todos quantos reconhecem seu estado de pecado e incapacidade, e se lançam sobre Cristo, sendo por ele declarados justos e reconciliados a ele. Este é o evangelho de Deus e de Jesus Cristo, seu Filho.

Um dos maiores crimes cometidos pela presente geração de cristãos é a negligência do evangelho, e é devido a essa negligência que nascem todos os nossos outros males. O mundo perdido não é tão endurecido quanto é ignorante do evangelho, porque muitos que proclamam sua mensagem também ignoram suas verdades mais básicas. Os temas essenciais que compõem o próprio cerne do evangelho — justiça de Deus, depravação total do homem, expiação pelo sangue, a natureza da verdadeira conversão, e a base bíblica para a segurança da salvação — estão demasiadamente ausentes dos púlpitos atuais. As igrejas reduzem a mensagem do evangelho a algumas declarações do credo, ensinam que a conversão é apenas uma decisão humana e pronunciam a segurança da salvação para qualquer um que tenha feito a “oração do pecador”.

O resultado desse reducionismo evangélico tem sido de longo alcance. Primeiro, endurece ainda mais o coração dos não convertidos. Poucos “convertidos” dos dias modernos entram na comunhão da igreja, e os que o fazem, muitas vezes, se desviam ou têm as vidas marcadas pela carnalidade habitual. Milhões sem conta andam por nossas ruas e se assentam, não transformados pelo verdadeiro evangelho de Jesus Cristo. No entanto, estão convencidos de sua salvação, porque em dado momento de sua vida levantaram a mão em uma campanha evangelística ou repetiram uma oração aceitando Jesus. Esse falso senso de segurança cria uma grande barreira que, frequentemente, isola estes indivíduos de ouvir o verdadeiro evangelho.

Em segundo lugar, tal evangelho deforma a igreja, fazendo com que, em vez de ser um corpo espiritual de crentes regenerados, seja um ajuntamento de homens carnais, que professam conhecer a Deus, mas o negam por suas obras. Com a pregação do verdadeiro evangelho, os homens chegam à igreja, sem o entretenimento evangélico, atividades especiais ou promessas de benefícios além daqueles realmente oferecidos pelo evangelho. Aqueles que vêm o fazem porque desejam a Cristo e tem fome da verdade bíblica, adoração de coração e oportunidades de servir. Quando a igreja proclama um evangelho menor que isso, ela se enche de homens carnais, que compartilham pouco interesse pelas coisas de Deus. Manter tais pessoas é um fardo pesado para a igreja. A igreja então diminui o nível das demandas radicais do evangelho para uma moralidade conveniente, e a verdadeira dedicação a Cristo cede a atividades projetadas para suprir as necessidades sentidas pelos seus membros. A igreja torna-se dirigida por atividades ao invés de ser centrada em Cristo, e cuidadosamente filtra ou faz novo pacote da verdade, a fim de não ofender a maioria carnal. A igreja deixa de lado as grandes verdades da Escritura e do cristianismo ortodoxo, e o pragmatismo (ou seja, aquilo que mantém a igreja em movimento e crescimento) se torna a regra do dia.

Em terceiro lugar, um evangelho desse tipo reduz o evangelismo a pouco mais que um esforço humanista dirigido por estratégias de marketing sagazes, baseadas nas últimas tendências da cultura. Após anos testemunhando a impotência de um evangelho não bíblico, muitos evangélicos parecem convencidos de que ele não vai dar certo, e que o homem de alguma maneira tornou-se um ser complexo demais para ser salvo e transformado por mensagem tão simples e escandalosa. Hoje em dia há maior ênfase em entender nossa cultura decaída e seus modismos do que compreender e proclamar a única mensagem que tem o poder de salvá-la. Como resultado, o evangelho é constantemente reapresentado, de forma a caber na caixinha do que a cultura contemporânea considera mais relevante. Esquecemos que o verdadeiro evangelho sempre é relevante a toda cultura porque é a palavra eterna de Deus para todo homem.

Em quarto lugar, um evangelho assim traz repreensão ao nome de Deus. Uma proclamação diluída do evangelho faz com que os carnais e não convertidos entrem na comunhão da igreja, e pela negligência quase que total do que seja uma igreja bíblica, é permitido que eles permaneçam sem correção ou repreensão. Isso mancha a pureza e reputação da igreja e é blasfêmia ao nome de Deus entre os incrédulos. No final, Deus não é glorificado, a igreja não é edificada, os membros não convertidos na igreja não são salvos, e a igreja tem pouco ou nenhum testemunho ao mundo descrente.

Não fica bem a nós, ministros ou leigos, estarmos tão próximos, vendo “o glorioso evangelho de nosso bendito Deus” substituído por um evangelho de menor glória, e não fazermos nada sobre isso. Como mordomos desta verdade, temos o dever de recuperar o único evangelho verdadeiro e proclamá-lo com ousadia e clareza a todos. Faríamos bem em atender as palavras de Charles Haddon Spurgeon:

Nestes dias, sinto-me impelido a voltar repetidamente às verdades elementares do evangelho. Em tempos de paz, talvez sintamos liberdade de fazer excursões aos interessantes distritos da verdade que se encontram em campos distantes; mas agora precisamos manter-nos em casa, guardando os corações e lares da igreja, defendendo os primeiros princípios da fé. Na era presente, tem surgido na própria igreja, homens que falam coisas perversas. Há muitos que nos perturbam com suas filosofias e novas interpretações, com as quais negam as doutrinas que professam ensinar, solapando a fé que têm compromisso de manter. É bom que alguns de nós, que sabemos no que cremos, e não forjamos significados secretos para nossas palavras, simplesmente batamos o pé e nos recusemos a tanto, apresentando a palavra da vida, e declarando claramente as verdades fundamentais do evangelho de Jesus Cristo.
___________________

Fonte: Trecho do Livro “Chamado ao Evangelho e a Verdadeira Conversão”, do autor Paul Washer, lançamento da Editora Fiel de março.

Como Minha Mente Mudou: A Centralidade da Congregação

Por Mark Dever

Desde que me tornei um cristão no Ensino Médio, o papel da congregação local tem sido importante para mim. Eu me lembro de gastar algumas (tudo bem, muitas) horas, no meu primeiro verão após tornar-me cristão, na biblioteca da minha igreja, compilando estatísticas acerca da crescente membresia de nossa igreja, e comparando-as em uma tabela com nossa frequência cada vez menor aos cultos.  O gráfico que fiz a partir de minha pesquisa, naquela era pré-computador, era um simples quadro em um cartaz, com linhas cuidadosamente desenhadas para a membresia e a freqüência, que divergiam notadamente em algum lugar nos anos 1940 ou 1950. Embora eu tenha gastado horas e horas naquele cartaz – e nos diagramas por trás dele –, ele ocupava apenas o mais limitado dos espaços em uma proeminente parede em nossa igreja. Eu o afixei sem autorização (não havia levado isso em consideração). Devida e rapidamente autorizada, contudo, foi a sua retirada.

À medida que eu crescia como cristão, e meu entendimento da graça de Deus aumentava durante meus anos de graduação e de seminário, minha preocupação com o nominalismo na igreja também crescia. Muitas ditas “conversões” pareciam obviamente falsas para mim. E eu me tornei cada vez mais desconfiado do evangelismo que havia gerado esses diagramas inflados e, mais importante, essas pessoas ao mesmo tempo tão seguras e tão inativas.

Durante meu doutorado, contudo, cerca de dez anos atrás, minha mente começou a concentrar-se ainda mais no tema da igreja, especialmente na centralidade da congregação local. Eu me lembro, certo dia, de ter uma discordância com um amigo que trabalhava em um ministério paraeclesiástico. Ele e eu freqüentávamos a mesma igreja. Eu havia me tornado membro desde que me mudara para a cidade; ele, dois anos depois, havia escolhido meramente freqüentar. E, mesmo assim, ele vinha apenas para o culto da manhã, e apenas na metade dele, quando era o momento do sermão. Então, um dia, eu decidi questioná-lo acerca disso.

Ele respondeu com sua costumeira honestidade e transparência. “Na verdade, eu não tenho nenhum prazer no resto do culto”, ele disse. “Você já pensou em tornar-se membro da igreja?”, eu perguntei. Genuinamente surpreso, com um cacarejo inocente ele respondeu: “Tornar-me membro da igreja? Eu honestamente não sei por que faria isso. Eu sei para que estou aqui, e essas pessoas simplesmente me desacelerariam”. Essas palavras soam frias quando as leio, mas elas foram proferidas com o fervor típico, genuíno e humilde de um evangelista cheio de dons que não queria desperdiçar uma hora do tempo do Senhor. Ele queria dispor seu tempo para o melhor uso possível, e todas as preocupações e incômodos envolvidos em tornar-se oficialmente membro de uma igreja faziam aquilo parecer de todo irrelevante.

“Desacelerar” – suas palavras reverberavam em minha mente. “Desacelerar”. Vários pensamentos competiam em minha mente, mas tudo o que eu havia dito era uma simples pergunta – “Mas você já pensou que, se der os braços a essas pessoas, sim, elas podem desacelerá-lo, mas você pode ajudar a acelerá-las? Você já pensou que isso pode ser parte do plano de Deus para elas, e para você?”. A conversa continuou, mas a porção crucial e decisiva para o meu próprio pensamento era essa. Deus deseja nos usar na vida uns dos outros – mesmo quando isso aparentemente implicar um custo espiritual para nós.

Ao mesmo tempo, meus estudos sobre o puritanismo estavam me dando a oportunidade de ler o desenvolvimento dos debates teológicos acerca do governo eclesiástico no período elizabetano e no início da dinastia Stuart. O Grande Debate na Assembléia de Westminster era particularmente interessante para mim. Atraía-me a afirmação de alguns dos “independentes” ou “congregacionais” de que, em essência, a autoridade pastoral está vinculada ao relacionamento pastoral. Os seus argumentos de que a congregação local seria também a última instância em termos de disciplina e doutrina pareciam biblicamente persuasivas (ver Mt 18.17; 1Co 5; 2Co 2; Gl; 2Tm 4). Os papéis tanto do pastor como da congregação pareciam adquirir uma nova importância para mim em termos de como o cristão comum deve viver a vida cristã.

Então, em 1994, eu me tornei pastor principal. Embora eu sempre houvesse respeitado o ofício de presbítero e já houvesse servido em duas igrejas como presbítero, assumir o papel do único presbítero reconhecido em uma congregação me levou a refletir mais (e mais perto das origens) acerca da importância do ofício. Textos como Tiago 3.1 (“havemos de receber maior juízo”) e Hebreus 13.17 (“deve prestar contas”) permaneciam com freqüência em minha mente. As circunstâncias conspiraram para enfatizar a mim a importância que Deus atribui à igreja local. Eu me lembro de ler uma citação de John Brown, que, em uma carta com conselhos paternais a um de seus pupilos recém ordenado para uma pequena congregação, escreveu: “Eu conheço a vaidade do seu coração, e que você se sentirá mortificado por sua congregação ser muito pequena, em comparação àquelas de seus irmãos à sua volta; mas apegue-se à palavra de um velho homem: quando você apresentar-se para prestar contas dela ao Senhor Cristo, em seu trono de julgamento, você perceberá que teve o bastante”. Ao olhar para a congregação que estava sob meu encargo, eu senti o peso dessa responsabilidade de prestar contas a Deus.

Essa lição continuou a vir a mim durante meu trabalho semanal ordinário. Ao pregar nos evangelhos, e depois nas epístolas, eu tive repetidas oportunidades de refinar noções acerca do amor cristão, indicando que, embora alguns textos de fato ensinem que nós cristãos devemos amar a todos (p. ex., 1Ts 3.12), muitos dos textos comumente usados para ensinar isso, na verdade, dizem respeito ao nosso amor uns pelos outros. Eu me lembro de pregar em Mateus 25, apontar que as instruções sobre dar copos de água fria eram para “estes meus pequeninos irmãos”, e, depois, uma pessoa vir a mim e dizer-me que eu havia arruinado o “versículo de sua vida”!

Para mim, contudo, todas as passagens sobre “uns aos outros” e “uns para com os outros” tornaram-se vivas e começaram a dar corpo às verdades teológicas que eu conhecia acerca do cuidado de Deus por Sua igreja. Ao pregar em Efésios 2-3, havia-se tornado claro para mim que a igreja é o centro do plano de Deus para exibir Sua sabedoria aos seres celestiais. Quando Paulo falou aos presbíteros de Éfeso, ele se referiu à igreja como algo que “Deus [...] comprou com o seu próprio sangue” (At 20.28). E, é claro, no caminho de Damasco, quando anteriormente Saulo fora interrompido em sua rota de perseguição aos cristãos, o Cristo Ressurreto não perguntou a Saulo por que ele perseguia aqueles cristãos, ou mesmo a igreja; em vez disso, Cristo identificou-se de tal modo com Sua igreja que a acusação feita a Saulo é “por que me persegues?” (At 9.4). A igreja era claramente central no plano eterno de Deus, em Seu sacrifício, e em Suas preocupações contínuas.

Talvez tudo isso pareça mais como uma explanação em favor da centralidade da eclesiologia do que da igreja local, mas, ao pregar pela Bíblia semana após semana, o que é inegável a mim é que Tyndale fez uma boa decisão ao traduzir ecclesia por “congregação”! A importância da rede de relacionamentos que compõem uma igreja local é o palco no qual o nosso discipulado acontece. O amor é em grande medida local. E a congregação local, então, é o lugar que pretende exibir esse amor para que o mundo inteiro veja. Assim Jesus ensinou a seus discípulos em João 13.34-35: “Novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros; assim como eu vos amei, que também vos ameis uns aos outros. Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros”. Eu vi amigos e familiares separados de Cristo porque eles percebiam que esta ou aquela igreja local era um lugar tão terrível. E eu vi amigos e familiares virem a Cristo por verem exatamente esse amor que Jesus ensinou e viveu – o amor uns pelos outros, o tipo de amor abnegado que Ele mostrou – e sentirem a atração humana natural por ele. Assim, a congregação – a congregação como a câmara de ressonância da Palavra – se tornou mais central em meu entendimento do evangelismo e de como nós deveríamos orar e planejar nossa evangelização.

A congregação também se tornou mais central em meu entendimento de como nós devemos discernir a verdadeira conversão em outros, e como nós mesmos devemos ter segurança dela. Eu me lembro de ficar perplexo diante de 1João 4.20-21 ao preparar-me para pregar naquele texto: “Se alguém disser: Amo a Deus, e odiar a seu irmão, é mentiroso; pois aquele que não ama a seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê [...]aquele que ama a Deus ame também a seu irmão”. Tiago 1 e 2 carregam a mesma mensagem. Esse amor não parece ser opcional.

Mais recentemente, essa consideração acerca da centralidade da congregação trouxe ao meu pensamento um novo respeito pela disciplina da igreja local – formativa e corretiva. Está claro que, se nós devemos depender uns dos outros em nossas congregações, deve haver disciplina como parte do discipulado. E se deve haver o tipo de disciplina que nós vemos no Novo Testamento, nós devemos conhecer os outros, estar comprometidos com eles, e deixar que eles nos conheçam. Nós devemos também ter algum encargo de autoridade. Todos os aspectos práticos do encargo de autoridade no casamento, no lar e na igreja são forjados no nível local. Deixar de compreender isso e assumir uma postura de desgosto e ressentimento para com a autoridade parece muito próximo àquilo tudo que a Queda representa. Por conseguinte, compreender isso parece muito próximo do coração da obra graciosa de Deus em restabelecer Seu relacionamento conosco – um relacionamento em que autoridade e amor andam juntos.

Em suma, eu vejo por que os cristãos no passado tratavam a falta de freqüência como um assunto tão importante. E penso que posso ver que danos começaram a ocorrer em tantos níveis quando começamos a assistir àquelas duas linhas da membresia e da freqüência divergirem. Deixar de conceber decisões acerca da freqüência na igreja como assuntos do interesse de toda a congregação e passar a vê-las simplesmente como assuntos privados – não da nossa conta – trouxe devastação para nossas congregações e para a vida de muitas pessoas que outrora as freqüentavam.

Agora eu tenho mais questões agitando minha mente, questões acerca de seminários e “líderes cristãos” que estão em um lugar diferente a cada semana, e pastores que não entendem a importância da congregação, e as pobres ovelhas que vagam, como muitos consumidores frustrados, de uma congregação para outra. Se Deus quiser, a década por vir será tão interessante quanto essa que acaba de passar.
____________________________
Este artigo originalmente apareceu na edição de Janeiro-Fevereiro de 2002 da Modern Reformation, e foi revisada e republicada aqui com permissão. Modern Reformation pode ser encontrada online em www.modernreformation.org.
Fonte: Ministério Fiel

Somente as Escrituras *

Por Morgana Mendonça dos Santos

"A palavra de Deus (Escritura) é verdadeira e não produz hipócritas, mas pessoas honradas e sinceras, e também pessoas que tem uma fé autêntica e uma correta opinião sobre Deus."

Martinho Lutero

Quinque Solae é como tornou-se conhecido os cinco pilares da Reforma Protestante, ou seja, os cinco pontos fundamentais do pensamento da Reforma Protestante. São esses: Sola Fide, Sola Scriptura, Sola Gratia, Solo Christus e Soli Deo Glória. Nossa ênfase nesse texto é Sola Scriptura, somente as Escrituras. O grito latino para combater a situação desviada que vivia a igreja no século XVI. Poderia me ater a toda questão histórica, política, filosófica, social e religiosa do tempo, mas preferi nesse pequeno ensaio enfatizar a natureza das Escrituras Sagradas. Paulo na sua carta ao jovem Timóteo declara um dos pontos centrais da doutrina que tem como reflexo a Reforma Protestante. 

Toda Escritura é divinamente inspirada e proveitosa para ensinar, para repreender, para corrigir, para instruir em justiça; para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente preparado para toda boa obra.” - 2 Timóteo 3.16-17 

Paulo afirma a divindade, inspiração e suficiência das Escrituras. A Reforma Protestante não foi um movimento criado pelo homem, o próprio Deus em Sua soberania e providência, em um momento tão crítico por onde a igreja caminhava, levantou o monge agostiniano Martinho Lutero para no dia 31 de outubro de 1517 fixar nas portas do Castelo de Wittenberg, suas 95 teses, contra aquilo que a Igreja Católica Romana estava pregando. O papa Leão X querendo reconstruir a basílica de São Pedro, cria as indulgências como um meio para arrecadar fundos financeiros de forma ilegítima e antibíblica para a construção. Lutero, ao deparar com esse desvio, conclama o Somente as Escrituras, desejando não dividir a igreja nem desvia-la da verdade, pelo contrário, levar a igreja de volta ao antigo evangelho, ao verdadeiro evangelho, as Escrituras Sagradas, a doutrina dos apóstolos.

Em alguns momentos importantes, algumas citações do reformador que nos leva para mais próximo do sentimento que florescia cada dia mais em seu coração: 

Um simples leigo armado com as Escrituras é maior que o mais corajoso Papa sem elas.” — Disputa teológica com João Maier, em 14 de julho de 1519.

A menos que possa ser refutado e convencido pelo testemunho da Escritura e por claros argumentos (visto que não creio no papa, nem nos concílios; é evidente que todos eles frequentemente erram e se contradizem); estou conquistado pela Santa Escritura citada por mim, minha consciência está cativa à Palavra de Deus. Não posso e não me retratarei, pois é inseguro e perigoso fazer algo contra a consciência... Que Deus me ajude. Amém!” Discurso de Lutero na Dieta de Worms (1521). 

 Portanto, no que se refere a natureza das Escrituras, de forma bem objetiva temos cinco pontos:

1. As Escrituras são INSPIRADAS: A palavra grega para "inspirado" significa literalmente "respirado por Deus para fora".

sabendo primeiramente isto: que nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação. Porque a profecia nunca foi produzida por vontade dos homens, mas os homens da parte de Deus falaram movidos pelo Espírito Santo.” - 2 Pedro 1.20-21

Em seu livro Sola Scriptura, Paulo Anglada afirma: "As Escrituras tem natureza divino-humana - elas são a Palavra de Deus escrita em linguagem humana, por pessoas em pleno uso de suas faculdades. Contudo, tais pessoas foram de tal modo dirigidas pelo Espírito Santo que tudo o que registraram nas Escrituras é livre de erro, constituindo-se em revelação infalível e inerrante de Deus ao homem." [1]

Na Confissão de Fé de Westminster lemos sobre o conceito de inspiração das Escrituras: "O Antigo Testamento em hebraico (língua original do antigo povo de Deus) e o Novo Testamento em grego (a língua mais geralmente conhecida entre as nações no tempo em que ele foi escrito), sendo inspirados imediatamente por Deus, e pelo seu singular cuidado e providência conservados puros em todos os séculos, são, por isso, autênticos, e assim em todas as controvérsias religiosas a Igreja deve apelar para eles como para um supremo tribunal; mas, não sendo essas línguas conhecidas por todo o povo de Deus, que tem direito e interesse nas Escrituras, e que deve, no temor de Deus, lê-las e estudá-las, esses livros têm de ser traduzidos nas línguas vulgares de todas as nações aonde chegarem, a fim de que a Palavra de Deus, permanecendo nelas abundantemente, adorem a Deus de modo aceitável e possuam a esperança pela paciência e conforto das Escrituras." [2] 

2. As Escrituras são INERRANTES: "Inerrante" significa simplesmente "sem erros" ou "verdadeiro".

Não penseis que vim destruir a lei ou os profetas; não vim destruir, mas cumprir. Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, de modo nenhum passará da lei um só jota ou um só til, até que tudo seja cumprido.” - Mateus 5.17-18

A tua palavra é fiel a toda prova, por isso o teu servo a ama.” - Salmos 119.140

Santifica-os na verdade, a tua palavra é a verdade.” - João 17.17

"Inerrância" trata-se de um conceito estreitamente relacionado, mas é um termo mais recente e menos largamente, aceito. Traz a conotação de que a Bíblia não contém nenhum erro de ação (erros materiais), nem contradições internas (erros formais). No entanto, devemos compreender que tratamos aqui com referência aos originais e não as cópias. Na baixa crítica, isto é, na manuscritologia bíblica, entendemos a questão sobre erros voluntários ou involuntários dos copistas, ou seja, na cópia dos manuscritos por diversos fatores. Os conceitos de inerrância e infalibilidade sur­giram em discussões teológicas concernentes à inspiração das Escrituras. Outros reformadores também declararam:

"As Escrituras nunca erram…. onde as Sagradas Escrituras estabelecem algo que deve ser crido, ali não devemos desviar-nos de suas palavras." - Martinho Lutero

"O registro seguro e infalível". "A regra certa e inerrante". "A Palavra infalível de Deus". "Isenta de toda mancha ou defeito". - João Calvino

Provavelmente, os dois acontecimentos mais significativos no tocante à doutrina da infalibilidade e da inerrância foram a declaração sobre as Escrituras na Aliança de Lausanne (1974) e a Declaração de Chicago (1978) do Concílio Internacional da Inerrância Bíblica.

3. As Escrituras são INFALÍVEIS: "Infalibilidade" pode ser chamada de conseqüência sub­jetiva da inspiração divina, isto é, define a Escritura como confiável e fidedigna para aqueles que se voltam para ela em busca da verdade de Deus. Como fonte da verdade, a Bíblia é "indefectível" (ou seja, não pode falhar ou insurgir-se contra o padrão da verdade). Conseqüentemente, nunca falhará ou decepcionará qualquer um que confie nela.
Ora, tudo isso aconteceu para que se cumprisse o que fora dito da parte do Senhor pelo profeta.” - Mateus 1.22

Passará o céu e a terra, mas as minhas palavras não passarão.” - Marcos 13.31

4. As Escrituras são AUTORITATIVAS: É divina, logo, não pode ser igualada a tradição, nem muito menos ao magistério. Nem aos pronunciamentos "ex cathedra" do sumo pontífice. As Escrituras tem origem e caráter divino, ou seja, está acima irrevogavelmente.

Por isso nós também, sem cessar, damos graças a Deus, porquanto vós, havendo recebido a palavra de Deus que de nós ouvistes, a recebestes, não como palavra de homens, mas (segundo ela é na verdade) como palavra de Deus, a qual também opera em vós que credes.” - 1 Tessalonicenses 2.13 

Em alguns dos seus artigos, Alderi Souza escreve:

"A autoridade da Escritura é superior à da Igreja e da tradição. Contra a afirmação católica: 'a Igreja ensina' ou 'a tradição ensina', os reformadores afirmavam: 'a Escritura ensina'." [3]  

Paulo Anglada, no seu livro Sola Scriptura, nos traz uma boa definição: "A autoridade da Bíblia decorre da sua origem divina. Ela é reconhecida pelo crente plenamente pelo testemunho interno do Espírito Santo, e não pode ser limitada de forma alguma. (...) Devemos ter cuidado com os grandes usurpadores da autoridade das Escrituras: o tradicionalismo, o emocionalismo e o racionalismo. (...) A fé reformada repudia a teologia liberal racionalista, que nega a autoridade das Escrituras; rejeita a neo-ortodoxia existencialista, que torna subjetiva a autoridade da Bíblia; e se recusa a aceitar a posição neo-evangélica, que limita a autoridade da Palavra de Deus ao seu conteúdo salvífico". [4]
E juntos com a Confissão de Fé de Westminster, declaramos: "A autoridade da Escritura Sagrada, razão pela qual deve ser crida e obedecida, não depende do testemunho de qualquer homem ou igreja, mas depende somente de Deus (a mesma verdade) que é o seu Autor; tem, portanto, de ser recebida, porque é a Palavra de Deus". [5]  

5. As Escrituras são SUFICIENTES: O próprio Apóstolo Paulo, falando a Timóteo, enfatizou a suficiência das Escrituras. Apontando para o seu proveito no ensino, na repreensão, na correção, na instrução em justiça, dessa forma o cristão esta preparado para toda boa obra. 

Tudo o que eu te ordeno, observarás; nada lhe acrescentarás nem diminuirás.” - Deuteronômio 12.32

Não acrescentareis à palavra que vos mando, nem diminuireis dela, para que guardeis os mandamentos do Senhor vosso Deus, que eu vos mando.” - Deuteronômio 4.2
Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos pregasse outro evangelho além do que já vos pregamos, seja anátema.” - Gálatas 1.8

Anglada, mais uma vez, corrobora com a veracidade da suficiência: "Embora as Escrituras não sejam exaustivas, elas são suficientes em matéria de fé e prática. Nelas o homem encontra tudo o que deve crer e tudo o que Deus requer dele para que seja salvo, sirva-o, adore-o e viva de modo que lhe seja agradável. Damo-nos por satisfeitos com as Escrituras e repudiamos as tradições humanas e supostas novas revelações do Espírito". [6] 

Na Confissão Belga, de forma uníssona concordamos e afirmamos: "Cremos que a sagrada Escritura contém perfeitamente a vontade de Deus e que ensina suficientemente tudo aquilo que o homem precisa saber para ser salvo. Nela está detalhado e escrito cabalmente o modo de adoração que Deus requer de nós. Por isso, não é lícito a ninguém, nem mesmo a apóstolos, nada ensinar que seja diferente daquilo que agora nos ensina a Sagrada Escritura.; sim, nem que seja 'um anjo vindo do céu', como afirma o apóstolo Paulo (Gl 1.8). A proibição de acrescentar ou retirar qualquer coisa da Palavra de Deus (Dt 12.32), é evidência que a doutrina nela contida é perfeitíssima e completíssima em todos os sentidos. Não nos é permitido considerar quaisquer escritos de homens, por mais santos que tenham sido, como de igual valor ao das Escrituras Divinas; nem devemos considerar que costumes, maiorias, antigüidade, sucessão de tempos e de pessoas, concílios, decretos ou estatutos tenham o mesmo valor de verdade de Deus, porque a verdade está acima de tudo." [7]

E, diante desse contexto, onde a igreja já não valorizava as Escrituras, que os reformadores bradaram o Sola Escriptura e Tota Scriptura, lutaram e viveram com esse ardor, essa chama que não apagava dia após dia. Martirizados, ou levados às últimas instâncias, marcaram seu tempo e sua época com a sua vida. A piedade acompanhava a práxis. Para nós, um grade exemplo de fé e prática, sejamos desafiados a restaurar as antigas verdades, um dever de cada geração. 

E sede cumpridores da palavra e não somente ouvintes, enganando-vos a vós mesmos. Pois se alguém é ouvinte da palavra e não cumpridor, é semelhante a um homem que contempla no espelho o seu rosto natural; porque se contempla a si mesmo e vai-se, e logo se esquece de como era. Entretanto aquele que atenta bem para a lei perfeita, a da liberdade, e nela persevera, não sendo ouvinte esquecido, mas executor da obra, este será bem-aventurado no que fizer.” - Tiago 1.22-25

Seguindo um lema dos reformadores: “Ecclesia reformata, semper reformanda”.
__________
Notas:
[1] ANGLADA, Paulo. Sola Scriptura. p.188.
[2] Confissão de Fé de Westminster, capítulo I-VIII.
[3] Artigos sobre Reforma Protestante, site: www.mackenzie.com.br 
[4] ANGLADA, Paulo. Sola Scriptura. p. 188-189.
[5] Confissão de Fé de Westminster, capítulo I-IV.
[6] ANGLADA, Paulo. Sola Scriptura. p.189.
[7] As Três Formas de Unidades das Igrejas Reformadas. Confissão Belga artigo 7. p.16.

* Este artigo é uma versão ampliada do texto homônimo publicado no dia 24-10-2014. 

9 de nov. de 2014

Aliança de Deus com o Homem

Por Thiago Oliveira

“E andarei no meio de vós, e eu vos serei por Deus, 
e vós me sereis por povo.”

Levítico 26:12

O QUE É UMA ALIANÇA?

Deus-Criador fez do homem a coroa da sua criação e para se relacionar com ele, aprouve ao SENHOR estabelecer alianças. Antes de mais nada, faz-se necessário definirmos o significado do termo aliança, também chamado por muitos de “pacto” ou “concerto”.

Quando se fala em uma aliança como um acordo, logo subtende-se que duas partes iguais concordam sobre determinado termo, e ao fazerem isso se comprometem com o acordo assinando um contrato (caso atual). Mas, não é este o significado do que abordaremos aqui. Aliança, pegando uma bela definição de David Murray é: “um relacionamento iniciado e imposto por Deus com consequências de vida e morte.”[1]

Grudem[2] é outro que nos brinda com uma excelente definição: “Uma aliança é um acordo imutável e divinamente imposto entre Deus e o homem, que estipula as condições de relacionamento entre as partes.”

Palmer também nos lembra que Deus, por estar acima do homem, administra o pacto (i.é. a aliança) de maneira soberana. Deus é quem estabelece os termos[3]. Este relacionamento ocorre quando e como Ele ordena.

A ALIANÇA DE OBRAS

Por ter criado todas as coisas, toda criatura está sujeita a autoridade divina. Mas Deus quis se relacionar com o homem de uma maneira diferente. Deus demonstra afeto e amizade por Adão. Dá ao homem a Sua Imagem e já no Éden estabelece uma aliança, convencionalmente chamada “Aliança de Obras” ou, como dizem alguns, “Aliança Adâmica”.

Nesse tipo de aliança, Adão deveria fazer o que foi estabelecido por Deus e assim receberia o pagamento (salário) mediante a sua obra. Mas o que deveria fazer Adão? Ele não deveria comer da árvore do conhecimento do bem e do mal (Gn 2.17). Mas o que aconteceria se ele comesse? Certamente ele morreria.

Precisamos salientar o quanto há de Graça nisso. Só pelo fato de ter sido criado, Adão já era um eterno devedor para com Deus. O mínimo que deveria fazer era obedecer ao seu Senhor e Criador. Porém, Deus faz uma aliança contendo uma promessa. Qual promessa? Bem, Deus ao testar Adão, que naquele momento era íntegro, mas tinha uma natureza mutável, deu a ele uma tarefa, como representante de toda a humanidade, de alcançar a vida por meio da obediência.

Isso não está explícito no texto, está implícito. Ora, se ao comer do fruto, Adão cairia em desgraça - como ocorreu, morrendo espiritualmente, perdendo a Imagem de Deus e não mais desfrutando das benesses do paraíso -  subentende-se que se ele não comesse, ele obteria vida. Não há vida natural que ele já possuía. Mas uma superior, uma condição que não podia ser perdida. Como diz Paulo em Rm 7.10, Rm 10.5 e Gl 3.12, o mandamento é para vida, ou seja, gera vida.

INDICATIVOS FAVORÁVEIS À ALIANÇA DE OBRAS

A árvore da vida, plantada no meio do Jardim, é um sinal indicativo de que bastaria Adão obedecer a ordem expressa do SENHOR que ele iria poder desfrutar de uma condição melhor. Uma vez que ele falhou, Deus tirou-lhe o direito de comer da árvore desse fruto (Gn 3.22). Diante disso, não podemos objetar a ideia de aliança presente do Éden. Mesmo que não aja o termo presente no texto em questão.

Oséias 6.7 nos fala que Adão estava sim debaixo do concerto de Deus. E ressalta que ele transgrediu o pacto de obras. Alguns exegetas, interpretam “em Adão”, dando a entender que teria sido um pecado cometido num local chamado Adão. Mas a preposição, no original, não permite esta interpretação. Traduzir a expressão no original para “como Adão” é sensato e tem respaldo em outra passagem paralela (Jó 31.33). Todavia, a maior evidência para se crer num pacto de obras é a relação que Paulo faz entre Adão e Cristo.

Em Romanos 5 o apóstolo argumenta sobre a justificação que temos por meio de Cristo. Paulo coloca Adão como nosso representante, e afirma que a partir dele, o pecado e a morte entraram no mundo (v.12) Mas, ele também nos diz que Cristo, como um segundo Adão, ou seja, também nosso representante, nos concedeu o perdão e a vida (v.15). Sendo assim, Jesus Cristo é o mediador de uma nova aliança, a saber, a aliança da Graça.

Quando Adão caiu em pecado, ele morreu instantaneamente em sentido espiritual. Em um sentido físico, Deus retardou a morte por meio do envelhecimento e deixou que o primeiro casal pudesse procriar. Temos aqui uma dose valiosa de Graça, pois, Deus soberanamente iria prover a redenção e a restauração da humanidade através da semente da mulher (Gn 3.15). Jesus entrou na história e simplesmente executou aquilo que Adão foi incapaz de fazer. Adão desobedeceu e os homens se tornaram culpados. Cristo obedeceu e os homens são feitos justos (Rm 5.19). Tanto a culpa de outrora como a justificação de agora recebemos por imputação de cada um dos cabeças da Aliança.

Algumas pessoas negam a imputação do pecado de Adão para os seus descendentes e muitas vezes se perguntam: “Adão pecou e eu que pago o pato?” Coube a Deus fazê-lo nosso representante federal. Estava sob ele o futuro de toda a espécie humana. Deus estabeleceu que seria assim. Todavia, os que permanecem negando a culpa herdada de Adão, também não tem direito a herança da salvação que Cristo deixou para os seus. Então, se alguém não aceita ter caído em Adão, tal pessoa não pode ser salva por Cristo. Em outras palavras, se alguém diz: “não é justo que eu herde o pecado de Adão”, também é lícito não desejar a justiça generosa do Filho dizendo “eu quero esta grande dádiva”.

Aplicações

De todo este ensinamento, podemos fazer as seguintes aplicações:

- Deus é bom. Ele não tinha por necessidade fazer uma aliança com o pó. Quando se compromete de maneira pactual com o homem, Deus, ali, revela seus santos atributos. Há graça deliberada na Aliança, mesmo tendo ela exigido a obediência de Adão. 

- Somos incapazes. Se Adão, ainda em seu estado de integridade não conseguiu se manter nele, imagine então os seus descendentes, por natureza depravados. Impossível é obter a salvação pelo caminho das obras.

- Segurança em Cristo. Se pela nossa própria força nós caímos sempre, em Cristo Jesus estamos firmes. A justiça proveniente dele nos foi presenteada. Da mesma forma que o homem por si mesmo não se salva, também é verdadeiro afirmar que o que está guardado em Cristo não perde a sua salvação. Podemos com nosso Salvador nos regalarmos com a árvore da vida (Ap 2.7).

Soli Deo Gloria


[1] A Aliança das Obras, Ed. Os Puritanos, página 6.
[2] Teologia Sistemática, Ed. Cultura Cristã, página 425.
[3] Alianças, Ed. Cultura Cristã, página 13. 

8 de nov. de 2014

Os Compromissos do Líder Cristão



A Oração

Por Thomas Magnum

Ao falarmos de vida cristã, piedade e uma vida que busca aquele a quem a alma anseia, é impossível não falarmos de oração. Tenho escrito uma série de textos sobre o devocional cristão, mas, ao chegarmos particularmente nesse ponto me sinto agraciado pelo Senhor. A oração é mais do que um rito, ela não é meramente o cumprimento de uma norma sacra, a oração não é meramente o falar com Deus, orar, é estar com Deus, à oração nos leva a experiência graciosa de sua doce presença. R.C. Sproul certa vez disse que Deus nunca nos prometeu sentirmos sempre sua presença, mas que estaríamos sempre em sua presença.

Inclinando-nos sobre o texto sagrado temos o exemplo de vários personagens bíblicos que foram grandes homens de oração. Ao começarmos com Enoque que diz a Escritura que ele andou com Deus, ninguém anda com Ele sem orar, porque orar nos leva a sua presença bendita e nos aniquila, limitando-nos a sua gloriosa vontade. Ao tratarmos aqui sobre o tema da oração, também não estamos somente falando da oração feita nas reuniões públicas da igreja, ou nos momentos que precisamos de socorro da parte de Deus, mas, falamos de uma vida de oração. Como Moisés, como Elias, como Jeremias, como Daniel, como Pedro e João e como não citar nosso amado Cristo, que nos legou grandes exemplos de uma vida de Oração. Certa vez perguntaram a A.W. Tozer o que era mais importante, o estudo das Escrituras ou uma vida de oração. Ele prontamente respondeu o que é mais importante para um pássaro a asa esquerda ou direita?

Temos hoje de forma assustadora uma obsessão por leitura, estamos sempre lendo e lendo. Estamos no trânsito, estamos lendo, estamos esperando um atendimento médico, estamos lendo, estamos em casa, estamos lendo. Quando não estamos lendo estamos fazendo alguma outra coisa, entenda-me não estou dizendo que essas coisas não são importantes, também leio bastante durante meu dia, até porque meu trabalho é ler e escrever sempre. Mas, contabilize o tempo que você passa lendo e o que você passa orando, veja quanto tempo você ora por semana, quando lemos os escritos do reformador João Calvino temos uma agradável surpresa, para muitos Calvino falou mais na doutrina da predestinação do que qualquer outra, certo? Errado. Ele falou mais sobre oração.
Vejamos

A fim de orarmos corretamente a Deus, deixemo-nos dirigir por essa regra: não distraiamos nossa mente com esperanças várias e incertas, nem dependamos do auxílio mundano, mais deixemos com Deus a honra de elevar nossos corações a ele em oração sincera e fervorosa. [1]

A genuína e fervorosa oração provém, antes de tudo, de um real senso de nossa necessidade, e, em seguida, da fé nas promessas de Deus. [2]

A oração era enfatizada para o reformador como uma das coisas mais importantes em nossa vida, é nosso estar com Ele, como dizia Paulo: Orai sem cessar.

Essas orações dirigidas ao Deus eterno não são vazias e sem respostas, Calvino diz:

Deus responde aos verdadeiros crentes quando mostra através de suas operações  que ele leva em conta suas súplicas. [3]

Além de tratar da oração como o elevar de nossa alma ao Deus redentor, Calvino ainda nos diz que a oração tem primazia na adoração e no serviço a Deus. [4]

A oração banha nosso culto, nossos afazeres, nosso serviço. Orar é vital para uma vida cristã saudável.

Uma das grandes obras de Calvino foi também o livro dos Salmos, esse livro o maravilhava, tanto por sua profundidade ímpar em demonstrar e descrever todos os estados de espírito do homem: tristeza, alegria, angústia, celebração, júbilo, louvor, terror, desespero. Falando do livro dos Salmos ele disse:

Tudo quanto nos serve de encorajamento, ao nos pormos a buscar a Deus em oração, nos é ensinado nesse livro.

A oração é refrigério para alma, não porque devemos orar por orar, mas, devemos orar porque orar é demonstrar dependência do divino, é ansiar e necessitar como terra seca e árida por chuva. Orar é migrar para a santa presença, é não titubear em desejar o alento de Deus e o amparo do Pai celeste, orar é desfrutar de momentos singulares com Ele, é apalpar nossa união com Cristo, é deleitar-se no noivo, é um antegozo das bodas. Orar é respirar Sua vida é desfrutar Seu poder, é viver abundantemente. Um dia os discípulos fizeram um pedido especial a Jesus ensina-nos a orar. Podemos orar assim também rogando que nos ensine a não dormir como Pedro, João e Thiago no monte da transfiguração e no Getsêmani. Oremos por seu ensino sobre orar, seu exemplo é o principal para nós, Ele orou, Jesus orou.

Que a oração dia a dia regue nossas decisões, nossa vida, nosso culto, nossos afazeres.

Orare et labutare
______________________________
[1]Comentário Livro dos Salmos 25.1
[2]Comentário Livro dos Salmos p.34
[3]Comentário Livro dos Salmos 28.1
[4]Comentário de Daniel 6.10