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23 de nov. de 2016

Os anjos pecaram com as mulheres em Gênesis 6?

Por Leandro Lima
Há algum tempo, tenho recebido diversos pedidos para escrever algo a respeito deste tema, principalmente, porque muitos sabem minha posição a respeito, e não poucos a acham estranha, sendo justo, portanto, dar algumas explicações.
A seguir, vou expor em poucas linhas o que entendo desse assunto, porém, antes gostaria de fazer algumas ressalvas. Esse não é um assunto essencial para a fé cristã ou reformada. Não é um assunto que se deveria criar grandes polêmicas em cima dele, afinal, ninguém vai ganhar nada (ou perder) se conseguir provar ou deixar de provar sua própria posição. Portanto, os interessados deveriam apenas ler os argumentos desta ou daquela posição, e reter o que é bom. Mesmo se achar que não há nada de bom para reter, é um direito. Qualquer tipo de disputa, nesse sentido, acaba sendo prejudicial à causa de Cristo, pois expõe nossas divisões entre os incrédulos, impedindo-os de crer que Jesus é o enviado do Pai (Jo 17.21).
Uma vez que, efetivamente, acredito que alguns anjos caídos se relacionaram com as mulheres em Gênesis 6, vou apenas expor meus argumentos a seguir, sem me preocupar em expor a outra posição, a qual advoguei por bastante tempo, mas hoje, não consigo mais defendê-la, por estar convencido de que a evidência bíblica é majoritariamente contrária a ela.
Inicialmente, deve ser dito que a simples leitura de Gênesis 6, não é suficiente para definir a posição:
"Como se foram multiplicando os homens na terra, e lhes nasceram filhas, vendo os filhos de Deus que as filhas dos homens eram formosas, tomaram para si mulheres, as que, entre todas, mais lhes agradaram”. (Gn 6.1-2)
Em si mesma, a passagem poderia ser aplicada naturalmente à mistura de raças, ou seja, que os descendentes de Sete se casaram com as descendentes de Caim. Porém, desde os tempos antigos, os rabinos judeus tiveram dificuldades de aceitar essa posição, e um dos motivos era o fato de apenas “homens" da descendência de Sete, se casarem com “mulheres" da descendência de Caim. Por que não vice e versa? Mas, claro, isso não resolve a questão. Porém, os rabinos notaram que no Antigo Testamento, em nenhum lugar o termo “filhos de Deus” é aplicado diretamente aos homens. Na verdade, fora de Gênesis 6, o termo só aparece no livro de Jó e no Salmo 29.1. No livro de Jó, ele claramente é aplicado aos anjos, entre os quais estava Satanás: "Num dia em que os filhos de Deus vieram apresentar-se perante o SENHOR, veio também Satanás entre eles”. No Salmo 29.1, o termo pode se aplicar também aos anjos reunidos em assembléia celeste, porém, é impossível ter certeza disso, pois o texto não explica quem são esses “filhos de Deus”. De qualquer modo, a única referência explícita no Antigo Testamento do termo é para anjos. Além disso, os rabinos estranharam o resultados daquela união: “Ora, naquele tempo havia gigantes na terra; e também depois, quando os filhos de Deus possuíram as filhas dos homens, as quais lhes deram filhos; estes foram valentes, varões de renome, na antiguidade” (Gn 6.4). Esses gigantes ou "os nefilins” (הַנְּפִלִים), que é o termo hebraico para “gigantes", parecem ser o resultado direto daqueles casamentos impróprios. Provavelmente, o termo nefilim vem da raiz hebraica “cair”, ou “caído”.
Porém, como eu disse, até aqui, apesar de alguns indícios interessantes, não se pode fechar a questão. Certamente alguém poderia dizer: o simples fato dos rabinos judeus crerem que eram anjos não prova nada. É verdade, eu diria, a menos que o Novo Testamento conceda apoio a essa interpretação judaica. E o meu ponto é justamente esse: o Novo Testamento confirma essa interpretação. Eu tentarei mostrar isso abaixo. Mas, antes, precisaremos ver exatamente o que era que os judeus, especialmente os da tradição apocalíptica, acreditavam. Há três livros judaicos que mencionam o fato. O livro dos Jubileus, o Testamento dos Doze Patriarcas, e o Livro de Enoque. Menções também aparecem no Documento de Damasco, no livro do Eclesiástico, em 3Macabeus, e em fragmentos dos manuscritos do Mar Morto. Todos foram escritos entres os séculos um e dois antes de Cristo. Esses livros judaicos interpretam que anjos, chamados de guardiões, se relacionaram com as mulheres, gerando gigantes demoníacos, os quais foram exterminados no dilúvio. A questão é a seguinte: essa interpretação era amplamente conhecida nos dias de Jesus e do Novo Testamento, como as provas documentais atestam. Se ela estivesse errada, o Novo Testamento deveria condená-la de alguma maneira. Porém, não só o Novo Testamento não a condena, como a aprova, em pelo menos quatro livros, que são as duas cartas de Pedro, a carta de Judas, e indiretamente também no livro do Apocalipse.
Todos esses livros mencionam “anjos em prisão” (1Pe 3.18-20, 2Pe 2.4, Jd 6, Ap 9). A questão é: de onde vem esse conceito de anjos em prisão que todos esses textos mencionam? E a resposta única é: daqueles livros apócrifos mencionados acima. Isso é algo literariamente comprovado. O autor da carta de Judas cita explicitamente o livro de Primeira Enoque, que é o principal livro da tradição apocalíptica judaica que defende o relacionamento dos anjos caídos com as mulheres: “Quanto a estes foi que também profetizou Enoque, o sétimo depois de Adão, dizendo: Eis que veio o Senhor entre suas santas miríades, para exercer juízo contra todos e para fazer convictos todos os ímpios, acerca de todas as obras ímpias que impiamente praticaram e acerca de todas as palavras insolentes que ímpios pecadores proferiram contra ele” (Judas 14-15). Esse texto, que inclusive cita o nome de Enoque, está integralmente em 1Enoque 1.9: “Ele virá com milhares de Santos, para exercer o julgamento sobre o mundo inteiro e aniquilar todos os malfeitores, reprimir toda carne pelas más ações tão iniquamente perpetradas e pelas palavras arrogantes que os pecadores insolentemente proferiram contra Ele”. Apesar dos esforço de alguns intérpretes de dissociar os dois textos, uma olhada nos dois textos gregos mostra que Judas citou, embora de forma relativamente livre, o texto do livro de 1Enoque. Mesmo que você não leia grego, pode ver a semelhança das palavras correspondentes entre os dois textos:
1)    Judas 14-15: δο λθεν κύριος ν γίαις μυριάσιν ατο15 ποισαι κρίσιν κατ πάντων κα λέγξαι πάντας τος σεβες περ πάντων τν ργων σεβείας ατν ν σέβησαν κα περ πάντων τν σκληρν ν λάλησαν κατʼ ατο μαρτωλο σεβες.
2)    1 En 1.9: τι ρχεται σν τας μυριάσιν [ατο κα τοςγίοις ατο, ποισαι κρίσιν κατ πάντων, κα πολέσαι πάντας τος σεβες, κα ()λέγξαι πσαν σάρκα περ πάντων ργων τς σεβείας ατν ν σέβησαν κα σκληρν ν λάλησαν λόγων κατʼ ατο μαρτωλο σεβες.
É inútil tentar fechar os olhos para essa evidência. Judas citou mesmo o livro apócrifo de 1Enoque. E, praticamente, todos os judeus dos tempos em que o Novo Testamento foi escrito, conheciam aquele livro. Então, preste atenção: Judas claramente conhece o Livro de 1Enoque, pois o está citando literalmente, e o tal livro fala do relacionamento dos anjos com as mulheres, então, o que Judas tem a dizer a respeito? Não seria a excelente ocasião para desmentir essa tão conhecida interpretação judaica, e colocar um fim a esse equívoco de uma vez por todas?
Mas ele faz o contrário. Ele menciona o pecado dos anjos e cita novamente o Livro de Enoque diversas vezes para confirmar isso:
"5 Quero, pois, lembrar-vos, embora já estejais cientes de tudo uma vez por todas, que o Senhor, tendo libertado um povo, tirando-o da terra do Egito, destruiu, depois, os que não creram; 6 e a anjos, os que não guardaram o seu estado original, mas abandonaram o seu próprio domicílio, ele tem guardado sob trevas, em algemas eternas, para o juízo do grande Dia; 7 como Sodoma, e Gomorra, e as cidades circunvizinhas, que, havendo-se entregado à prostituição como aqueles, seguindo após outra carne, são postas para exemplo do fogo eterno, sofrendo punição”. (Judas 5-7).
Veja que ele está citando três maus exemplos no texto, de atitudes condenáveis, lá do passado. O exemplo da geração que saiu do Egito, o exemplo dos anjos, e o exemplo de Sodoma e Gomorra. Antes de entrar especificamente nos termos aplicados aos anjos, veja que ele diz algo interessante ao mencionar o pecado de Sodoma e Gomorra: “que, havendo-se entregado à prostituição como aqueles, seguindo após outra carne”. Quem são esses “aqueles” que se entregaram à prostituição em termos semelhantes ao “ir após outra carne” de Sodoma e Gomorra? Ora, ele só mencionou os dois exemplos antes, o exemplo da geração que saiu do Egito, e o exemplo dos anjos que pecaram. Então, precisa ser um desses dois grupos. “Aqueles" é um pronome demonstrativo adjetival masculino plural. Nesse sentido, realmente poderia ser aplicado a qualquer dos dois grupos anteriores, apesar de fazer mais sentido referir-se ao grupo mais próximo já mencionado, que é exatamente o grupo dos anjos. E note que o pecado da geração do Egito foi explicitamente mencionado acima: “incredulidade”. Eles não creram que Deus poderia dar a terra de Canaã, pois ficaram com medo dos povos que moravam lá. O pecado da geração do Egito não tem relação com “prostituição" e “ir após outra carne”, pois o próprio Judas disse que foi incredulidade, e o Pentateuco confirma isso. Alguns argumentam que quando Moisés estava no Sinai, o povo lá embaixo se entregou à prostituição. Isso é verdade, porém, isso não os impediu de entrar em Canaã, pois Deus perdoou o pecado do povo. Eles não entraram em Canaã porque ficaram com medo do relato dos espias. Foram incrédulos. E por causa disso, toda aquela geração morreu no deserto. Somente Josué e Calebe entraram na terra. Então, o pecado da geração que saiu do Egito não um "ir após outra carne", mas falta de fé. Por outro lado, o pecado dos anjos, ele não mencionou explicitamente. Portanto, logicamente e exegeticamente, quando ele diz que “aqueles” se prostituíram e foram após outra carne, ele está falando dos anjos, e explicando o pecado deles. O pecado do homossexualismo de Sodoma foi de fato um “ir após outra carne”, pois foi algo contrário à natureza dos homens. Do mesmo modo, o pecado dos anjos com as mulheres foi algo contrário à natureza angélica, uma espécie também de "ir após outra carne".
Esse pecado dos anjos é justamente o pecado que o Livro de Enoque menciona, o livro que Judas está citando literalmente. Na verdade, e agora avançamos ainda mais nessa compreensão, cada uma das palavras usadas por Judas para descrever a transgressão dos anjos no verso 6 são encontradas no Livro de Enoque. Abaixo destaco as principais palavras e os temas correspondentes que aparecem no Livro de Enoque, tanto em português quanto em grego:
3)    Judas 6 -  e a anjos, os que não guardaram o seu estado originalmas abandonaram o seu próprio domicílio, ele tem guardado sob trevas, em algemas eternas, para o juízo do grande Dia — γγέλους τε τος μ τηρήσαντας τν αυτν ρχν λλ πολιπόντας τ διον οκητήριον ες κρίσιν μεγάλης μέρας δεσμος ϊδίοις π ζόφον τετήρηκεν·
4)    1 En 10.12:  (amarra-os por sete gerações nos vales da terra, até o dia do seu julgamento, até o dia do Juízo Final!) — δσονατος βδομήκοντα γενες ες τς νάπας τς γς μέχρι μέρας κρίσεως ατν κα συντελεσμο, ως τελεσθ τ κρίμα το αἰῶνος τν αώνων
5)       1 En 12.4 (Escriba da Justiça, vai e anuncia aos Guardiões do céu que perderam as alturas do paraíso e os lugares santos e eternos) — “ γραμματες τς δικαιοσύνης Πορεύου κα επ τος γρηγόροις το ορανο οτινες πολιπόντες τν ορανν τν ψηλόν
6)    1 En 14.5: (Daqui por diante nunca mais havereis de subir ao céu; mas foi determinado que sejais acorrentados aqui na terra por todos os tempos—— *να μηκέτι ες τν ορανν ναβτε π πάντας τος αἰῶνας, κα *ν τος δεσμος τς γς ρρέθη δσαι μς ες πάσας τς γενες το αἰῶνος”
7)    1 En 15.3 (Por que motivo abandonastes o alto do céu, santo e eterno) — “δι τί πελίπετε τν ορανν τν ψηλν τν γιον το αἰῶνος”
8)    1 En 15.7 (Por isso eu não criei para vós mulheres, pois os espíritos do céu possuem no céa sua morada) — “κα δι τοτο οκ ποίησα ν μν θηλείας· τ πνεύμα(τα) το ορανο, ν τ οραν  κατοίκησις ατν”.
Ou seja, claramente o conceito de anjos que abandonaram sua morada celeste, e agora estão aprisionados, por terem pecado, é um conceito explícito do Livro de Enoque. Neste livro, é defendido abertamente que esse pecado foi o relacionamento deles com as mulheres em Gênesis 6. Novamente deve ser dito, se Judas entendesse que isso estava errado, uma vez que citou o referido livro, ele tinha a obrigação de esclarecer seus leitores de que aquela história era falsa. Mas, não apenas ele não faz isso, como claramente confirma a história!
Isso não significa que Judas considerasse o livro de Primeira Enoque inspirado, nem que tudo o que está escrito no referido livro seja verdade, mas deve ser entendido que aquela parte do livro de Enoque era verdade porque é verdade de Deus, independente da fonte. Se alguém disser que, então, Judas citou uma mentira, pois a frase é do falso Enoque e não do verdadeiro, em resposta podemos dizer que a frase talvez seja do Enoque verdadeiro, mas que foi preservada até ser escrita no livro de 1Enoque através da tradição oral. De qualquer modo, temos um autor do Novo Testamento, inspirado pelo Espírito Santo, confirmando essa parte do ensino do Livro de Enoque. Precisamos aceitar, portanto, que essa parte é verdadeira, ou rejeitarmos a carta de Judas.
Na verdade, a própria estrutura que Judas usa, de citar os três exemplos do passado, ou seja, geração do Egito, geração de Sodoma, e anjos do dilúvio, segue um padrão que pode ser encontrado em vários outros livros (Cairo Damascus (CDA Col. ii:13)Eclesiástico 16.7-10, 3Mac 2.4-7, Testamento de Naftali 3.4–5, m. Sanhedrin 10:3). E nesses livros, reconhece-se que o pecado dos anjos é o relacionamento com as mulheres. Como Judas poderia usar a mesma estrutura amplamente conhecida pelos judeus se quisesse provar algo diferente, sem mostrar que estava querendo provar algo diferente?
Mas não adiantaria tirar Judas do Cânon. O Apóstolo Pedro confirma o ensinamento de Judas e do Livro de Enoque sobre anjos em prisão também usando termos do livro de Enoque, e ainda por cima parece ligar o fato diretamente com o dilúvio: "Ora, se Deus não poupou anjos quando pecaram, antes, precipitando-os no inferno, os entregou a abismos de trevas, reservando-os para juízo; e não poupou o mundo antigo, mas preservou a Noé, pregador da justiça, e mais sete pessoas, quando fez vir o dilúvio sobre o mundo deímpios” (2Pe 2.4-5). Quando o autor diz que Deus “não poupou aqueles anjos”, ele está fazendo uma menção direta ao fato de que, apesar daqueles anjos terem pedido clemência e misericórdia no referido livro, Deus não os poupou e os aprisionou no abismo. Veja essa parte daquele livro: "Enoque, tu, o Escriba da Justiça, vai e anuncia aos Guardiões do céu que perderam as alturas do paraíso e os lugares santos e eternos, que se corromperam com mulheres à moda dos homens, que se casaram com elas, produzindo assim grande desgraça sobre a terra; anuncia-lhes: `Não encontrareis nem paz nem perdão'. Da mesma forma como se alegram com seus filhos, presenciarão também o massacre dos seus queridos, e suspirarão com a sua desgraça. Eles suplicarão sem cessar, mas não obterão nem clemência nem paz!(1Enoque 12). Várias vezes no livro, é mencionado que Deus não concederia clemência e que eles seriam aprisionados em abismos de trevas.
E na primeira carta, Pedro mencionou explicitamente que os “espíritos em prisão” foram aqueles que pecaram nos dias do dilúvio: "no qual também foi e pregou aos espíritos em prisão, os quais, noutro tempo, foram desobedientes quando a longanimidade de Deus aguardava nos dias de Noé, enquanto se preparava a arca, na qual poucos, a saber, oito pessoas, foram salvos, através daágua” (1Pe 3.19-20). O texto está dizendo que Jesus, após sua ressurreição, no poder do Espírito, foi até esse lugar de prisão, e proclamou sua vitória sobre aqueles espíritos que, noutro tempo, ou seja, no passado, foram desobedientes, nos dias de Noé[1]. E após fazer isso, ele subiu ao céu, deixando os principados e potestades debaixo de seus pés (1Pe 3.22). Isso fecha o cerco bíblico em torno do tema. O Novo Testamento está abertamente apoiando a ideia de que o pecado dos anjos em Gênesis 6 foi o de se relacionar com as mulheres. Não é sem motivo que, atualmente, a esmagadora maioria dos comentaristas bíblicos sérios e conservadores, que escreveram comentários dos livros de Judas e Pedro, para as mais conceituadas séries de comentários bíblicos atuais, não hesitam em defender isso explicitamente. Exemplos são:

SCHREINER, T. R. (2003). 1, 2 Peter, Jude (Vol. 37, p. 336). Nashville: Broadman & Holman Publishers.
DAVIDS, P. H. (2006). The letters of 2 Peter and Jude (p. 49). Grand Rapids, MI: William B. Eerdmans Pub. Co.
BAUCKHAM, R. J. (1998). 2 Peter, Jude (Vol. 50, p. 52). Dallas: Word, Incorporated.
KELLY, J. N. D. (1969). The Epistles of Peter and of Jude (p. 256). London: Continuum.
Em último lugar, é preciso notar que o único argumento efetivo usado contra a ideia é o que Jesus disse em Lucas 20:35-36 "mas os que são havidos por dignos de alcançar a era vindoura e a ressurreição dentre os mortos não casam, nem se dão em casamento.Pois não podem mais morrer, porque são iguais aos anjos e são filhos de Deus, sendo filhos da ressurreição. Note que Jesus está falando do futuro, quando os crentes ressuscitarem, e mesmo tendo corpos, não se casarão mais. A questão, entretanto, não parece ser a impossibilidade de que isso aconteça, mas o fato de que Deus decidiu que isso não deve acontecer. Assim, como nós hoje podemos nos casar, mas no futuro não poderemos mais, aqueles anjos do passado desobedeceram, e fizeram aquilo que não devia ser feito, e a partir de então, não podem mais fazer.  Essa passagem, portanto, ao contrário de contradizer o assunto, até mesmo o reforça, pois chama os crentes ressuscitados de “iguais aos anjos, filhos de Deus”, o título dado a eles em Jó e em Gn 6.
Sobre a pergunta a respeito de, se aquele pecado representa a queda original dos anjos, e, portanto, ela não teria acontecido em Gênesis 3, deve ser notado que apenas Satanás é mencionado em Gênesis 3, e nenhum outro anjo. De qualquer modo, entendo que o pecado dos anjos no tempo do dilúvio não foi a queda original dos anjos, mas o aprofundamento da mesma, por parte de alguns anjos que já estavam seguindo Satanás em sua rebelião. Somente esses anjos foram aprisionados. Satanás mesmo, não participou do pecado em Gn 6. Sobre se isso ainda pode acontecer hoje, a resposta é: não. Deus lançou todos aqueles anjos no tártaro (2Pe 2.4), e certamente estabeleceu uma proibição que impossibilita os anjos de fazerem isso outra vez.
Não cabe aqui especular qual foi a forma utilizada, se eles assumiram formas humanas, ou se possuíram homens. Não temos nenhuma informação na Bíblia sobre como isso se deu, mas sabemos que anjos podiam comer e exercer atividades físicas próprias de um homem (Gn 18.7-8, Hb 13.2).
E, por fim, é interessante lembrar que, aquilo que aqueles anjos caídos tentaram realizar, ou seja, unir a natureza angélica à natureza humana, e que foi considerado abominável por Deus, o próprio Jesus realizou de uma maneira sublime e santa: ele uniu a própria natureza divina à natureza humana, tornando-se “Deus-homem”. Por isso, talvez, após sua ressurreição, com o corpo glorificado, ele tenha ido aquele lugar de prisão anunciar sua vitória sobre aqueles antigos anjos caídos.


[1] A interpretação de que Jesus pregou em espírito, através de Noé, é forçada no texto. A estrutura temporal da passagem não deixa dúvidas. Toda ela se desenvolve a partir dos três grandes eventos redentivos realizados por Cristo: morte, ressurreição e ascensão. Ele morreu na carne, mas foi vivificado em espírito, ou seja ressuscitou (v. 18). Então, foi e pregou aos espíritos em prisão (v. 19). E após isso, subiu ao céu na ascensão (v. 22). Os versos 20 e 21 são uma digressão temporal, uma explicação do pecado daqueles espíritos em prisão, o qual se deu nos dias de Noé. As marcações temporais da passagem, portanto, não permitem outra interpretação.
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Fonte original aqui 

21 de nov. de 2016

Cinco Razões Para Abraçar a Eleição Incondicional

Por John Piper

Eu uso o termo abraçar porque a eleição incondicional não é apenas verdadeira, mas também preciosa. Obviamente, ela não pode ser preciosa se não for verdadeira. Portanto, este é o motivo principal pelo qual a abraçamos. Mas vamos começar com uma definição:

Eleição incondicional é a livre escolha de Deus antes da criação, não baseada em conhecimento prévio da fé, pela qual ele concederá fé e arrependimento a traidores, perdoando-os e adotando-os em sua eterna família de alegria.
1. NÓS ABRAÇAMOS A ELEIÇÃO INCONDICIONAL PORQUE ELA É VERDADEIRA.
Todas as minhas objeções à eleição incondicional vieram abaixo quando eu não conseguia mais sustentar minha argumentação sobre Romanos 9. O capítulo começa com a disposição de Paulo em ser amaldiçoado e separado de Cristo por amor aos seus compatriotas judeus incrédulos (verso 3). Isto implica que alguns judeus estão perecendo. E faz surgir a questão da promessa de Deus aos judeus. Falhou a promessa? Paulo responde: "não pensemos que a palavra de Deus haja falhado" (verso 6). Por que não?
Porque "nem todos os de Israel são, de fato, israelitas" (verso 6). Em outras palavras, o propósito de Deus não era inocentar cada pessoa de Israel individualmente. Era, ao invés disso, um propósito de eleição.
Então, para ilustrar a ideia da eleição incondicional de Deus, Paulo usa a analogia de Jacó e Esaú: "E ainda não eram os gêmeos nascidos, nem tinham praticado o bem ou o mal (para que o propósito de Deus, quanto à eleição, prevalecesse, não por obras, mas por aquele que chama), já fora dito a ela [Rebeca]: O mais velho será servo do mais moço" (versos 11 e 12).

Em outras palavras, o propósito original de Deus em escolher para si indivíduos dentre Israel (e todas as nações! Apocalipse 5:9) não estava baseado em nenhuma condição que eles pudessem satisfazer. Foi uma eleição incondicional. E, portanto, ele diz: "Terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia e compadecer-me-ei de quem me aprouver ter compaixão" (verso 15; veja os versos 16-18 e Romanos 11:5-7).
Jesus confirma este ensinamento: "Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim; e o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora" (João 6:37). Achegar-se a Jesus não é uma condição que satisfazemos para nos qualificar à eleição. É o resultado da eleição. O Pai escolheu suas ovelhas. Elas lhe pertencem. E ele as dá ao seu Filho. É por este motivo que elas vêm. "Ninguém poderá vir a mim, se, pelo Pai, não lhe for concedido" (João 6:65). "Não fostes vós que me escolhestes a mim; pelo contrário, eu vos escolhi a vós outros" (João 15:16; veja também João 17:2, 6, 9 e Gálatas 1:15).
No livro de Atos, por que alguns creram e outros não? A resposta de Lucas é a eleição: "e creram todos os que haviam sido destinados para a vida eterna" (Atos 13:48). Esta "destinação" — esta eleição — não foi baseada numa fé prevista, mas foi a causa da fé.

Em Efésios 1 Paulo diz: "[Deus] nos escolheu nele [Cristo] antes da fundação do mundo... nele, digo, no qual fomos também feitos herança, predestinados segundo o propósito daquele que faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade" (Efésios 1:4, 11). É o "conselho da vontade de Deus" que é eternamente decisivo nesta questão.
O que você dirá para Deus no julgamento final se ele te perguntar: "Porque você creu no meu Filho enquanto outros não creram?" Você não responderá: "Porque eu sou mais inteligente." Não. Certamente você dirá: "Por causa da tua graça. Se não tivesses me escolhido, eu teria sido deixado espiritualmente morto, indiferente e culpado."
2. NÓS ABRAÇAMOS A ELEIÇÃO INCONDICIONAL PORQUE DEUS DESIGNOU-A PARA NOS FAZER DESTEMIDOS NA PROCLAMAÇÃO DE SUA GRAÇA NUM MUNDO HOSTIL.
"Se Deus é por nós, quem será contra nós? . . . Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus?" (Romanos 8:31, 33).
3. NÓS ABRAÇAMOS A ELEIÇÃO INCONDICIONAL PORQUE DEUS DESIGNOU-A PARA NOS TORNAR HUMILDES.
"Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios . . . a fim de que ninguém se vanglorie na presença de Deus . . . Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor" (1 Coríntios 1:27, 29, 31).
4. NÓS ABRAÇAMOS A ELEIÇÃO INCONDICIONAL PORQUE DEUS A FEZ COMO UM PODEROSO IMPULSO MORAL À COMPAIXÃO, BONDADE E PERDÃO.
"Revesti-vos, pois, como eleitos de Deus, santos e amados, de ternos afetos de misericórdia, de bondade . . . perdoai-vos mutuamente" (Colossenses 3:12-13). Ninguém que já tenha visto ou provado verdadeiramente sua eleição não é movido por ela para se tornar bondoso, paciente e tolerante.
5. NÓS ABRAÇAMOS A ELEIÇÃO INCONDICIONAL PORQUE ELA É UM PODEROSO INCENTIVO EM NOSSO EVANGELISMO PARA AJUDAR OS INCRÉDULOS QUE SÃO GRANDES PECADORES A NÃO SE DESESPERAREM.
Quando você oferece Cristo livremente a todos os incrédulos, suponha que alguém lhe diga: "eu tenho pecado terrivelmente. Deus jamais escolheria me salvar." A coisa mais consoladora que você pode dizer é: Você percebe que Deus escolheu antes da fundação do mundo aqueles a quem ele irá salvar? E ele o fez sem basear-se em absolutamente nada em você. Antes que você nascesse ou tivesse feito qualquer coisa boa ou má, Deus escolheu te salvar ou não.
Portanto, não ouse encarar a Deus e dizer-lhe das qualificações que você não tem para ser escolhido. Não houve qualificações para ser escolhido. "O que, então, eu devo fazer?", ele pergunta. "Crê no Senhor Jesus e serás salvo" (Atos 16:31). É assim que você começa a "confirmar a vossa vocação e eleição" (2 Pedro 1:10). Se você abraçar o Salvador, você confirmará ser um eleito, e você será salvo. 
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Fonte: Desiring God 

14 de nov. de 2016

Soli Deo Gloria: Um lema para a vida

Por Thiago Oliveira

*Texto Base: Salmo 96

INTRODUÇÃO

Soli Deo Gloria, que quer dizer: Somente a Deus glória, é um dos lemas da Reforma Protestante.  O intuito dos reformadores com este lema foi endossar que apenas o SENHOR deve ser exaltado em tudo o que fizermos. Como nos diz o apóstolo Paulo “Assim, quer vocês comam, bebam ou façam qualquer outra coisa, façam tudo para a glória de Deus”. (1 Coríntios 10:31).

O pastor norte-americano John Piper costuma abordar o tema de quanto Deus ama a sua glória e de que nós também devemos amá-la e exaltá-la. Uma de suas frases mais famosas e mais repetidas é “Deus é mais glorificado em nós quando estamos mais satisfeitos nele”. Por isso, devemos desejar Deus e fazer desse desejo o nosso estilo de vida. Nascemos para adorá-lo e devemos fazer isso em Espírito e em verdade. Se não glorificamos o Deus bendito com palavras e ações, logo, nos alienamos de nós mesmos e não viveremos uma vida plena. Não encontraremos satisfação em nada se não nos satisfizermos com a gloriosa presença do Deus trino.

Todavia, muitos se questionam se Deus não é egoísta ou narcisista ao querer ser glorificado e adorado entre os homens. Obviamente, Deus não é uma coisa e nem outra. Expondo o Salmo 96, que parece ser um resumo de um cântico de Davi (1 Crônicas 16) para alguma festa solene em celebração ao SENHOR no período pós-exílico, veremos o porque Devemos dar a Deus somente toda honra e toda glória.

EXPOSIÇÃO

1.Cantem ao Senhor um novo cântico; cantem ao Senhor, todos os habitantes da terra! 2. Cantem ao Senhor, bendigam o seu nome; cada dia proclamem a sua salvação! 3. Anunciem a sua glória entre as nações, seus feitos maravilhosos entre todos os povos!

Os versículos iniciais reforçam o louvor a Deus dando ênfase para que se cante em adoração ao SENHOR. Percebam que “cantai” aparece três vezes nos versículos iniciais do salmo. Um cântico novo não necessariamente seria uma música inédita. O próprio salmo é uma compilação de um texto composto por Davi para que os levitas entoassem no tabernáculo. Aqui, segundo a tradição rabínica e muitos comentaristas bíblicos, o cântico seria usado na inauguração do segundo templo, construído após um remanescente migrar do cativeiro babilônico para reconstruir Jerusalém. Mas então porque o canto se faz novo? Ora, ele se torna novo na disposição de nosso coração, quando cantamos com disposição e alegria para o enaltecimento do nome do Altíssimo. A novidade está na dinâmica de nossa adoração, que não pode ser mecânica, como se estivéssemos no “piloto automático”. E é justamente essa dinâmica que move o adorador a proclamar as maravilhas que vem de Deus. Observem que o canto não fica estático, ele vai se propagando por toda a terra na medida em que o nome do Senhor se torna bendito entre as nações e a sua salvação é proclamada. Isso é apregoar boas novas, o que nos remete a evangelização, termo que os tradutores gregos da Septuaginta usaram e que em nosso idioma foi traduzido por “proclamação”.

Anunciar a sua glória e a sua maravilha é compartilhar de quem Deus é e o que Ele faz para os que são seus. Este anúncio é o que cumprimos na grande comissão, quando pregamos a todos os homens sobre o que Deus Pai fez através de seu filho Jesus Cristo. A dinâmica da evangelização faz com que os adoradores aumentem e isso redunda em mais glória para Deus. Por isso que a adoração não pode ficar confinada ao culto, mas deve mover-se para fora, em busca de aumentar o coro que em muitas vozes cantará a majestade do Deus Todo-Poderoso.

4. Porque o Senhor é grande e digno de todo louvor, mais temível do que todos os deuses! 5. Todos os deuses das nações não passam de ídolos, mas o Senhor fez os céus. 6. Majestade e esplendor estão diante dele, poder e dignidade, no seu santuário.

E porque louvar ao Senhor? Seria Ele um egoísta? Como dito na introdução desta mensagem, a resposta é não. A tentativa de alguns ateus e inimigos da fé de pintar Deus com traços de Narciso é patética, pois, eles partem de um referencial humano para atribuir a Deus o sentimento egoísta. Deus é desde a eternidade, o que significa que não teve começo e não terá fim. Ninguém o criou e ninguém está acima do SENHOR. Ele é autossuficiente e seu deleite se encontra em seus próprios atributos. Ele é grande, maior do que a criação, que já imensa. Paremos para pensar na dimensão do planeta Terra e nos deparemos com o fato de que diante do vasto universo, nosso planeta é um pontinho azul entre bilhões de galáxias. Isso é a grandeza da coisa criada. Imaginemos então quão grande é o Criador. Só este fato deveria ser suficiente para reverentemente glorificarmos ao Deus dos céus e da terra.

O que você faria ao encontrar algo belo e grandioso que lhe conferisse um sentido de propósito? Com toda certeza você amaria tal coisa, a enalteceria com todas as suas forças e se entregaria por completo. Este algo existe e é o Criador que nos criou para si. Deus não pode se deleitar em nada fora dele mesmo, pois nada se equipara a sua grandeza. Por ser autossuficiente, tem paixão pela sua glória, que é a manifestação de seus santos atributos. Assim, pequeno e limitado que é o homem, necessita se conectar com Aquele que lhe confere um sentido para sua existência. O homem precisa de Deus, pois é Deus quem o confere a verdadeira humanidade. Por isso que C.S. Lewis nos diz que “em mandar-nos glorificá-lo, Deus está nos convidando a gozá-lo”. Portanto, quando adoramos a Deus e lhes rendemos glória, estamos fazendo aquilo que nos foi impresso na criação. Todo homem é um adorador por carregar dentro de si a imagem do Criador. Ao nos ordenar que lhe rendamos graças e louvor, Deus está nos dando o privilégio de sermos inteiramente satisfeitos e felizes, e a fonte que nos sacia por completo não é outra senão o próprio Iavé.

Por não glorificar a Deus, o homem sempre arruma um substituto para exercer veneração. Este é o cerne da idolatria, e o salmo deixa claro que todos os deuses não passam de ídolos criados. Eles são vazios e não possuem a majestade e o esplendor do Deus vivo, ao invés disso, são desprovidos de valor. Ao adentrar o santuário, o judeu deveria se deslumbrar não com a prata, não com o ouro e não com as pedras polidas e cravadas. O deslumbramento devia ocorrer diante da gloriosa presença do Deus que é santo. Sendo assim, que nós ao nos reunirmos com Igreja, sabendo que o SENHOR se faz presete, sejamos maravilhados com a beleza e com o esplendor de sua glória em nosso meio.

7. Dêem ao Senhor, ó famílias das nações, dêem ao Senhor glória e força. 8. Dêem ao Senhor a glória devida ao seu nome, e entrem nos seus átrios trazendo ofertas.

Por causa da grandeza de Deus, a adoração deve se estender a todos. As famílias precisam louvar a Deus juntas. Pais e Filhos. Irmãos e irmãs. Gente de toda classe social, seja de qualquer nação, falando qualquer língua. O nome do SENHOR deve receber a glória que é devida. As ofertas que se traziam ao Templo eram para render louvores ao Deus de Israel. Aqui necessitamos entender que não devemos adorar na intenção de receber favores. A adoração se dá como gratidão e serviço por tudo que Deus é e por tudo que Ele tem feito por nós e em nós. Que possamos fazer de nossa própria vida uma oferta toda vez que nos reunimos para engrandecer o nome do Santíssimo.

9. Adorem ao Senhor no esplendor da sua santidade; tremam diante dele todos os habitantes da terra. 10. Digam entre as nações: "O Senhor reina!" Por isso firme está o mundo, e não se abalará, e ele julgará os povos com justiça. 11. Regozijem-se os céus e exulte a terra! Ressoe o mar e tudo o que nele existe! 12. Regozijem-se os campos e tudo o que neles há! Cantem de alegria todas as árvores da floresta, 13. cantem diante do Senhor, porque ele vem, vem julgar a terra; julgará o mundo com justiça e os povos, com a sua fidelidade!

O salmo vai se encaminhando para o fim sem perder de vista a conclamação a adoração ao Divino. O verso 9 enaltece a santidade do SENHOR, o que é visto como motivo para reverentemente tremermos diante do Santo dos Santos. Todos os que estão na presença de Deus devem reverência pelo fato dEle ser santo e sua santidade contrastar com a nossa pecaminosidade. O profeta Isaías se encheu de temor ao se deparar com a santidade divina (vide Isaías 6). Ele não ficou com vontade de pular ou dançar, mas automaticamente se prostou. Essa é a reverência que cabe ao Rei dos reis e Senhor dos Senhores.

Deus reina e o mundo é sustentado pelo cetro de seu poderio. Isso precisa ser dito entre as nações. Os governantes do mundo precisam saber que estão debaixo do poder dAquele que tudo governa. O mundo é dEle, criado por Ele e para Ele mesmo se deleitar. Por isso que a conclamação para o regozijo é geral, englobando todos os seres criados. De uma forma hiperbólica, até mesmo seres inanimados são convocados para enaltecerem o Criador. O louvor aqui é oferecido a um Rei que governará com justiça. Juíz, no texto, é aquele que governa, e seu governo será justo, pois a sua base está na fidelidade de quem não é homem para que minta e nem filho do homem para que se arrependa (Números 23.19).

CONCLUSÃO/APLICAÇÃO

Para que essa palavra seja aplicada em nossa vida, podemos responder a nós mesmos a algumas perguntas:

1. Se eu preciso glorificar ao Senhor em todas as coisas, em que área eu tenho sido negligente e não a vivo para o louvor do meu Deus?

2. A quem tenho proclamado sobre a grandeza do meu Deus? Estaria a minha adoração se restringindo apenas aos momentos de culto congregacional ou privado?

3. Diante do governo dos homens e de tanta instabilidade política e financeira, estamos louvando ao Rei dos reis na expectativa de participarmos de seu reino de justiça?


Que o Senhor nos ache no meio de seus adoradores. A Ele a glória, pra sempre e amém! 

7 de nov. de 2016

Qual a Origem do Termo Reformado?

por Alan Rennê Alexandrino

Segunda passada foi o dia da Reforma Protestante. E com ele veio uma enxurrada de postagens sobre a importância da data. No entanto, muitas versavam sobre a questão de ser "reformado". Alguns diziam que é implicância e estupidez quando afirmam que o termo deve ser aplicado a um grupo específico, não a todos. Subjaz a este entendimento que todos os adeptos do movimento iniciado por Lutero são "reformados", afinal de contas, todos comemoram o dia da Reforma e creem em certas doutrinas.

Pois bem, transcrevo abaixo alguns testemunhos de historiadores sobre a questão do termo. Esclareço, de início, que, de modo algum, tenho a intenção de desmerecer quem quer que seja, ou de insinuar que A é melhor que B, ou que há alguns grupos não têm direito de comemorar a Reforma, ou ainda, que apenas presbiterianos são reformados. Longe disso! Meu objetivo é tão somente oferecer um esclarecimento a partir da historiografia protestante. Vamos começar com um presbiteriano, certamente o mais tendencioso na mente de muitos:

Pouco depois que o protestantismo começou na Alemanha, sob a liderança de Martinho Lutero, surgiu uma segunda manifestação do mesmo no Cantão de Zurique, na Suíça, sob a direção de outro ex-sacerdote, Ulrico Zuínglio (1484-1531). Para distinguir-se da reforma alemã, esse novo movimento ficou conhecido como Segunda Reforma ou Reforma Suíça. O entendimento de que a reforma suíça foi mais profunda em sua ruptura com a igreja medieval e em seu retorno às Escrituras, fez com que recebesse o nome de MOVIMENTO REFORMADO e seus simpatizantes ficassem conhecidos simplesmente como 'reformados'. Inicialmente, o movimento reformado esteve mais ligado à pessoa de Zuínglio. Porém, com a morte prematura deste, o movimento veio a associar-se com seu maior teólogo e articulador, o francês João Calvino (1509-1564). A propósito, os 'protestantes', fossem eles luteranos ou reformados, só passaram a ter essa designação a partir da Dieta de Spira, em 1529. Portanto, o movimento reformado é o ramo do protestantismo que surgiu na Suíça, no século 16, tendo como líderes originais Ulrico Zuínglio, em Zurique, e João Calvino [...] Até hoje, as igrejas ligadas a essa tradição no continente europeu são conhecidas como Igrejas Reformadas (da Suíça, França, Holanda, Hungria, Romênia e outros países) (NASCIMENTO, Adão Carlos; MATOS, Alderi Souza de. O que Todo Presbiteriano Inteligente Deve Saber. Santa Bárbara d'Oeste, 2007. pp. 10-11).

O tipo de Protestantismo de Calvino era conhecido como "reformado". Diferia do sistema luterano no sentido de que a Igreja era uma instituição paralela ao Estado e não subordinada a ele. A Igreja era uma organização independente que mantinha sua vida própria e usava sua posição para corrigir o Estado quando necessário (CLOUSE, Robert G. et alli. Dois Reinos: A Igreja e a Cultura Interagindo ao Longo dos Séculos. São Paulo: Cultura Cristã, 2003. p. 244).

Os milhões que aceitam a fé reformada e sua fundamentação doutrinária testemunham a importância do sistema teológico formulado por João Calvino (1509-1564), designado geralmente pelo termo 'calvinismo'. O termo 'fé reformada' APLICA-SE ao sistema de teologia desenvolvido a partir do sistema de Calvino (CAIRNS, Earle E. O Cristianismo Através dos Séculos. São Paulo: Vida Nova, 1995. p. 251).

Um pouco antes, Cairns afirmou sobre Zwínglio: “Foram estas as ideias do homem que colocou os fundamentos da fé reformada na Suíça alemã. Embora Calvino tenha se tornado o herói da fé reformada, a igreja não pode esquecer o papel de Zwínglio, erudito, democrático e sincero, na libertação da Suíça das garras do papa” (p. 246).

O prestigiado estudioso Alister E. McGrath divide o protestantismo em três grandes ramos: Luterano (Reforma Luterana), Reformado (Reforma Calvinista) e Anabatista (Reforma Radical):

As origens da Reforma calvinista responsável pela constituição das Igrejas Reformadas (como a igreja presbiteriana), se encontram em acontecimentos ocorridos dentro da Confederação Suíça. Enquanto a Reforma luterana teve suas origens num contexto acadêmico, a IGREJA REFORMADA deve suas origens a uma série de tentativas de reformar a moral e o culto eclesiástico (mas não necessariamente sua doutrina) de acordo com um padrão mais bíblico. É preciso enfatizar que apesar de Calvino ter dado a esse estilo de Reforma a sua configuração definitiva, suas origens remontam a reformadores mais antigos como Zwínglio e Heinrich Bullinger, sediados em Zurique, a principal cidade da Suíça" (MCGRATH, Alister E. Teologia Histórica: Uma Introdução à História do Pensamento Cristão. São Paulo: Cultura Cristã, 2007. p. 180).

David G. Peters, um teólogo luterano, discutindo as controvérsias em torno da presença real de Cristo no sacramento da Ceia, afirmou que os luteranos "acusaram os reformados de separar as naturezas de Cristo do mesmo modo como Nestório havia feito" (PETERS, David G. The “Extra Calvinisticum” and Calvin’s Eucharistic Theology. p. 6. Disponível em: <http://www.wlsessays.net/…/handle/12…/3632/PetersCalvin.pdf…>).

Na mesma página Peters afirma que "o debate eucarístico entre luteranos e reformados era simultaneamente um debate sobre cristologia" (p. 6).

Francis Pieper, dogmático luterano, faz referência aos calvinistas utilizando o termo reformado: “Cada palavra que os reformados falam contra a participação da natureza humana na divina onipresença, falam também contra sua doutrina da participação da natureza humana na Pessoa do Filho de Deus" (PIEPER, Francis. Christian Dogmatics. Vol. 2. Saint Louis, MS: Concordia Publishing House, 1951. p. 167).

Por fim, o grande historiador da Igreja, Kenneth Scott Latourette, afirma:

Paralelo ao luteranismo, outra espécie de protestantismo emergia e se desenvolvia. Esse protestantismo usualmente é conhecido como REFORMADO. Nele há variantes, inclusive o presbiterianismo em suas diversas manifestações. Todavia, de modo semelhante ao luteranismo, ele constituiu uma família de igrejas que, nos séculos 19 e 20, seriam atraídas conjuntamente em uma associação mundial (LATOURETTE, Kenneth Scott. Uma História do Cristianismo. Vol. 2. São Paulo: Hagnos, 2006. p. 1009).

Reafirmo que a intenção não é apontar o dedo para quem quer que seja, afirmando que o tal não tem direito de comemorar a Reforma Protestante. A ideia é tão somente esclarecer que o termo "reformado", em sua gênese, foi aplicado a um grupo distinto dos luteranos e anabatistas. Assim, meu desejo é que protestantes luteranos, protestantes reformados e protestantes anabatistas - ou descendentes destes grupos - juntos se alegrem em Deus pela Reforma, que no próximo ano completa 500 anos.

4 de nov. de 2016

A Missão Não Íntegra de quem fala em nome da TMI

Por Thiago Oliveira

O Missão na Íntegra, que de acordo com a sua própria página diz ser “um dos movimentos de pregadores e pensadores protestantes que refletem a partir da proposta da Missão Integral”, está apoiando as ocupações nas escolas, e fez isso ao repetir em caixa alta - por três vezes - a seguinte frase num de seus post’s no Facebook: “TODO APOIO AOS ESTUDANTES NAS ESCOLAS OCUPADAS”!

Vale ressaltar que o Missão na Íntegra foi responsável por criar um manifesto contrário ao impeachment, acusando todos que apoiavam a saída da então presidente Dilma Rousselff de serem antidemocráticos. E ainda houve leitura do manifesto com a cobertura da mídia do PT[1], onde o Ariovaldo Ramos, o homem que está por trás disso tudo, deu declarações como esta: “É um privilégio como evangélico e negro ter a possibilidade de lutar contra o golpe. Nós não podemos aceitar a reconstrução de uma senzala que ainda não terminamos de derrubar”. Na ocasião, escrevi uma moção de repúdio ao manifesto[2], e disse que era um documento pró-petista redigido com linguagem velada. Mas desde que a saída de Dilma da presidência do país foi concretizada, a linguagem passou a ser desvelada, e alguns dos proponentes da Teologia da Missão Integral (TMI) - integrantes e não integrantes do Missão na Íntegra - passaram a tornar cada vez mais explícita a sua posição política, que como sempre se suspeitou, é uma posição que se coloca a esquerda do espectro político.

A revista Cristianismo Hoje, em sua edição de número 52/Ano 9 trouxe o título: "Missão Integral, Missão de Deus" na sua capa. A matéria panfletária sobre a TMI tem depoimentos de alguns de seus medalhões. Samuel Escobar ao responder como se define ideologicamente diz: “a esquerda não me assusta”. Seguindo mais adiante, fala o seguinte: “Encontro, no programa de movimentos classificados como ‘de esquerda’, preocupações e sensibilidades que estão mais de acordo com o ensino bíblico sobre uma sociedade mais justa do que os que se dizem ‘de direita’” (p.37). Ora, e quais são os representantes das esquerdas no cenário político da América Latina? Não seriam eles políticos e partidos com agendas muito distintas do que prega a sã doutrina?

Mais recente ainda, o Harold Segura escreveu um lamurioso texto[3] em que provoca os pioneiros teóricos da TMI lamentando que o povo colombiano tenha votado contra o perdão das FARC em plebiscito - que não apenas anistiaria seus integrantes, mas transformaria aquela organização criminosa e terrorista em um partido. Embora seja colombiano, lamenta também o impeachment de Dilma no Brasil e de um modo geral, vê a derrocada da esquerda e o crescimento do “conservadorismo evangélico” como sendo “em parte” culpa da irrelevância da TMI. Ora, porque será? Érika Isquierdo Paiva escreve um endosso da carta do Segura[4], e vejam só como é a sua redação: “A René, Samuel, Valdir, Juan, Tito e Pedro, entre muitxs outrxs”. Viram só isso? O “x” serve para não mais identificar o masculino e o feminino. Meus irmãos, quem é que encabeça a ideologia de gênero em nosso continente? Sim, são grupos progressistas financiados por partidos da esquerda, partidos esses que em sua maioria se identificam com os postulados de Karl Marx e os pensadores da new left.

Logo, fica evidente que quando o Missão na Íntegra (que reflete "a partir da proposta da Missão Integral") se manifesta apoiando a ocupação nas escolas, ele o faz com o compromisso de defender a sua ideologia ou o seu programa político. Pois, se defendesse o evangelho, não apoiaria certos jovens impedirem outros de estudar e prestar o Enem. E esses outros a quem me refiro são a maioria, privados de seu direito de frequentar a escola por causa de um bando de “gatos pingados”. Isso não é nem um pouco democrático, e nem é justo. Também vale ressaltar que os ocupantes são menores de idade e estão nas ocupações, em muitos casos, contra a vontade de seus próprios pais. Sendo assim, há uma desintegração familiar. Será que a missão integral não se importa com a relação harmônica entre pais e filhos? Entre preservar o quinto mandamento e subverter o patriarcado, de que lado ficará o movimento do Sr. Ariovaldo?

A matéria supracitada, da revista Cristianismo Hoje, dá a entender que as críticas feitas a TMI, que a associam as ideias marxistas, são infundadas. Há um missionário americano ligado a TMI que diz que fazer tal associação é algo "tão absurdo que eu tenho muita dificuldade de levar a sério". Mas como não entender diante de tantas falas que não são apenas parecidas, e sim idênticas as falas de qualquer líder político progressista anti-cristão? Vá na rede social de qualquer partidário do PSOL ou do PSTU, por exemplo, e veja se ele não escreve todxs, muitxs, outrxs e etc.

Reitero o que já mencionei em outras ocasiões: Considero o Pacto de Lausanne um documento ortodoxo e de grande valia para o segmento evangelical. É dele que vem a expressão “missão integral”. Todavia, lamento que a expressão tenha sido capturada por cristãos progressistas que tem um alinhamento político-ideológico com os setores da esquerda. Isto fere a própria tradição de Lausanne, pois em Junho de 1980 a Consulta de Pattaya se posicionou contrária ao marxismo, vendo-o como um sistema concorrente do cristianismo e anti-cristão. O relatório extraído desta consulta foi publicado com o título Evangelho e o Marxista, pela ABU. Foi um lançamento em conjunto com a Visão Mundial que traz outros documentos, num total de 10 livretos que compõem a Série Lausanne. A série foi recentemente reeditada, exceto, a que contém o texto de Pattaya. Como é que tentam apagar assim um documento histórico? E por quais razões? 

Há gente com muita propriedade fazendo críticas sensatas e visando uma reavaliação da intoxicação ideológica que alcançou a TMI e a fez se distanciar de Lausanne. Guilherme de Carvalho, Jonas Madureira, Filipe Fontes, Yago Martins e o pessoal do Movimento Mosaico têm escritos e palestras disponíveis na internet sobre a questão. Essas críticas precisam ser feitas, pois, a Igreja precisa ficar alerta e se posicionar contra qualquer teologia que faça síntese com ideologias idolátricas. E aqui quero recomendar quatro obras que podem ajudar bastante a fazer desintoxicação política: Contra a Idolatria do Estado, do Franklin Ferreira; Visões e Ilusões Políticas, do David Koyzis, Fé Cristã e Cultura Contemporânea, de vários autores e Ortodoxia Integral, do Pedro Lucas Dulci.


[1] http://www.pt.org.br/evangelicos-se-unem-para-dizer-nao-ao-golpe/
[2] https://bereianos.blogspot.com.br/2016/03/eu-repudio-o-manifesto-do-ministerio.html
[3] https://www.facebook.com/notes/novos-di%C3%A1logos/provoca%C3%A7%C3%B5es-p%C3%BAblicas-aos-meus-mestres-da-fraternidade-teol%C3%B3gica-latino-americana/1197918663607517
[4] https://www.facebook.com/notes/novos-di%C3%A1logos/acorda-neo/1202120739853976