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26 de set. de 2014

Apologética não é Bang-Bang


Por Thiago Oliveira

Antes de mais nada, precisamos definir “Apologética”. Pois bem, esta palavra significa “defesa verbal”. Quando falamos em Apologética, quase sempre nos referimos a defesa do Evangelho, pois foi no Cristianismo que ela foi desenvolvida. Os apologistas foram aqueles que de maneira sistemática, explanaram e demonstraram o Evangelho como sendo uma fé digna de credibilidade, autenticidade e superioridade com relação as demais religiões. Atualmente, as redes sociais disseminaram as práticas apologéticas, sobretudo, em páginas e blogs de confissão reformada, todavia, existe algo preocupante no tipo de apologética que encontramos na websfera.

Defender a fé é uma recomendação bíblica. Mas, gostaria muito que nós pudéssemos meditar nas seguintes palavras do apóstolo Pedro:

“Antes, santificai a Cristo, como Senhor, em vosso coração; e estai sempre preparados para responder com mansidão e temor a qualquer que vos pedir a razão da esperança que há em vós”  1 Pedro 3.15

A primeira coisa a que chamo a atenção é o fato de que antes de defendermos o Evangelho, Cristo precisa ser santificado (i.é. separado) como o Senhor do nosso coração, local de onde procedem as fontes da vida (Pv 4.23). Cristo deve ter o domínio daquilo que pensamos e também deve dominar sobre a nossa conduta. Então, sendo Ele o Senhor, toda a honraria deve ser dada somente para Ele. Lembremos do louvor paulino(Rm11.36): “Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém”.

Tendo Cristo o domínio de nosso ser e da nossa prática, estaremos prontos para responder a qualquer um que nos indagar acerca de nossa esperança. O termo “qualquer”, usado por Pedro, é inclusivo e nos remete a todo tipo de circunstância. Desde a defesa perante um tribunal, num contexto de perseguição ao Evangelho, ou até mesmo uma resposta para um detrator da Palavra ou para alguém que verdadeiramente anseie escutar sobre as boas-novas, ou melhor, escutar sobre a esperança que temos em nosso Salvador, no qual cremos piamente que estamos nEle guardados e salvos da ira vindoura que recairá sobre os pecadores no dia do Juízo.

Todavia, a nossa resposta deve ser dada com mansidão. Aqui temos que novamente nos reportar para a santificação de Cristo em nossos corações. Pois, se Ele foi manso (Mt 11.29), porque então nós haveríamos de ser diferentes? Estaria o servo acima de seu Senhor? Absolutamente, não! No entanto esta mansidão tem faltado entre aqueles que dizem ter zelo pela sã doutrina. Diversos fóruns em blogs e redes sociais mostram a cólera com que irmãos tratam irmãos. Não falo nem da relação do cristão com um não-cristão. Basta ser de uma denominação ou corrente teológica diferente para vermos um verdadeiro “bang-bang”. Homens que querem vencer seu oponente em argumentos, muitas vezes, para satisfazer seu ego e não para glorificar a Deus.

Alguns destes irascíveis costumam citar Paulo como se a atitude do apóstolo coadunasse com o descabido furor que exalam pelos quatro cantos. Mas, seria mesmo Paulo alguém que defendia o Evangelho com agressividade? Vejamos o que ele ensina:

Em Colossenses 4.6 ele afirma que “a vossa palavra seja sempre agradável, temperada com sal, para que saibais como vos convém responder a cada um.” Aqui o apóstolo alerta que o modo de se falar é tão importante quanto o conteúdo. A figura de linguagem utilizada, temperar com sal, remete a uma tradução rabínica de tratar a Torá como o sal, conservante da pureza, que torna o alimento agradável ao paladar. Precisamos evitar os extremos. Uma comida insossa é ruim, tal como uma comida muito salgada. É preciso então equilibrar a balança, saber quando e como devemos falar do Evangelho, não para ganhar uma discussão, este nunca foi o objetivo paulino, mas sim para ganharmos as pessoas para a Verdade. Para que tenhamos êxito na nossa apologética, é extremamente necessário termos respeito e amabilidade para com o nosso próximo, por mais equivocado que ele esteja. Não quer dizer que devemos aceitar seu erro e sermos indulgentes. Digo apenas que devemos instruir com amabilidade e (porque não?) gentileza.

Os dois primeiros versículos de Romanos 15 nos dizem que os fortes devem suportar a fraqueza dos fracos. Força e fraqueza nesse contexto tem a ver com o conhecimento que adquirimos sobre Deus no decorrer da caminhada com o Senhor. Sabemos que este conhecimento não é meramente intelectual, pois existe aqui o conceito revelacional. Deus se revela a quem Ele bem quer e a uns Ele concede mais compreensão do que a outros. Cabe aqueles a quem muito foi dado, não se utilizarem dessa dádiva para se vangloriar ou agradar a si mesmos. Aos mais dotados de percepção das doutrinas bíblicas, que cumpram o trabalho de edificar os mais fracos nas questões da fé. Aqui a fraqueza envolve intelectualidade e, também, moralidade. Todavia, Paulo não nos instrui a tolerar os erros dos que denomina fracos. Ele lança a ideia de suportar, ou seja, conduzir em amor, estes irmãos, mesmo em suas fraquezas, para que eles sejam posterior e sistematicamente edificados no Corpo de Cristo.

É justamente neste ponto que vejo o quão distante estamos da recomendação apostólica de suportarmos uns aos outros em amor (Ef 4.2). Será mesmo que uma postagem de Facebook é um local ideal para a correção? Ali onde as palavras não tem feição e portanto aparentam ser mais frias do que deveriam ser, tentamos convencer irmãos, travestidos de oponentes, a pensarem de maneira coerentemente bíblica. Acontece que, quando somos impiedosos, desproporcionalmente debochados e intelectualmente vaidosos, não podemos cobrar coerência de ninguém. Façamos uma auto-análise.

Ainda usando um texto de Paulo, este quando escreve para Timóteo, dá a seguinte recomendação:

“E rejeita as questões loucas, e sem instrução, sabendo que produzem contendas. E ao servo do Senhor não convém contender, mas sim, ser manso para com todos, apto para ensinar, sofredor; instruindo com mansidão os que resistem, a ver se porventura Deus lhes dará arrependimento para conhecerem a verdade, e tornarem a despertar, desprendendo-se dos laços do diabo, em que à vontade dele estão presos.” 2 Timóteo 2.23-26

Esta passagem é fantástica. Paulo diz ao seu discípulo e filho na fé, que ele deve ser manso e não andar contendendo sobre coisas supérfluas. Vejo irmãos se engalfinhando por questões tais como: supra ou infralapsarianismo, batismo por imersão ou aspersão e etc. Não existe aqui uma regra para que não se debata sobre estes determinados assuntos. O que existe é uma recomendação para que estes não venham a ser encarados como coisas estritamente necessárias a comunhão, e que não causem divisões entre os membros do corpo de Cristo. Timóteo, mesmo diante dos sectários e hereges, tinha que “instruir com mansidão”. Atentemos ao fato que a mansidão é para os que persistem no erro (v.25). Na disciplina pode haver brandura. Ela deve estar atrelada a paciência e ao desejo de ver o arrependimento brotar do coração daquele que estava obstinado a permanecer no erro para que tornem a despertar, libertando-se dos laços diabólicos no qual estão presos.

Outra bela passagem bíblica que nos encoraja a sermos mais piedosos em nossa apologética se encontra em Judas 22 e 23: “E apiedai-vos de alguns, usando de discernimento; E salvai alguns com temor, arrebatando-os do fogo, odiando até a túnica manchada da carne.”

Judas escreve aos seus leitores que eles devem ajudar aos crentes que não tem muito discernimento da Palavra, e que por isso chegam a duvidar dela. Qualquer um de nós conhece esse tipo de crente vacilante, que quando se depara com um questionamento cético fica com a sua crença abalada. Portanto, segundo nos diz o apóstolo, é necessário conduzir estes duvidosos para que estes voltem a crer. Uma outra categoria de pessoas a que Judas se refere, são os pecadores que estão perecendo. Ele utiliza a figura do fogo consumindo os pecadores e diz que nós deveríamos prontamente salvá-los das chamas. Mas não é Deus quem salva o pecador? Logicamente, a ideia aqui não é colocar a salvação em nossas mãos como sendo autores delas, todavia, somos ministros, por Deus comissionados a anunciar a Palavra da Salvação, como bem frisou Calvino. O termo final “odiando até a túnica manchada da carne” é uma admoestação para não nos contaminarmos com o pecado, comparado aqui com roupas sujas de excremento. Do pecado precisamos tomar distância, no entanto, devemos nos aproximar dos pecadores. Foi exatamente isto que Jesus fez durante todo o seu ministério.

Depois de analisarmos estas passagens bíblicas, não nos resta dúvida de que devemos abandonar a síndrome de “Dr. Jekyll”, um clássico personagem da literatura (O Médico e o Monstro) que ao tomar uma poção criada em laboratório se transformava num ser monstruosamente descontrolado. As queixas são muitas. Estou cansado de ver pessoas que foram destratadas em páginas e blogs que se dizem apologéticas. Há um desserviço a causa do evangelho toda vez que, por exemplo, um calvinista ofende um arminiano e vice-versa. Precisamos parar de proceder como loucos e aprender de Cristo, que foi manso e suave.

A Verdade deve sempre ser dita e continuemos a combater os falsos ensinamentos que vem sendo propagados, agora em velocidade recorde devido ao avanço dos meios de comunicação. Todavia, esse combate não pode ser feito de maneira irresponsável ao ponto de andarmos na contramão do que as Escrituras estabelecem com relação a apologética. Vamos acabar de vez com esse “bang-bang” e promover o Reino com amor e humildade. Nada é nosso, tudo é dEle.

Soli Deo Gloria.

Os crentes do Antigo Testamento tinham o Espírito?



O Problema do Analfabetismo Bíblico

Por Thomas Magnum

Historicamente temos no Brasil uma considerável diminuição no analfabetismo, mas nas igrejas temos um crescente índice de analfabetismo bíblico e isso é sempre preocupante. Os crentes não leem mais a bíblia de forma sistemática.

Ao usar o termo analfabetismo bíblico estamos designando uma falta de conhecimento das Sagradas Escrituras, não meramente um conhecimento intelectual, mas, experimental, um crescimento na graça e no conhecimento como disse o Apóstolo Pedro em sua segunda epístola (2 Pedro 3.18).

Estamos inseridos numa geração pragmática, onde vigora o “funciona”, uma geração que busca resultados imediatos, mas sem estrutura, sem cerne, sem fundamento sólido. Uma geração que tem edificado sobre a areia, que não tem sustentação e nutrição.  Temos uma crescente influência da “cultura gospel”, que transforma artistas em ícones e gurus que através de redes sociais tem ‘discipulado’ muitos.

O analfabetismo bíblico não se limita a onda da cultura pop que envolve jovens cristãos. A exaltação de experiências místicas e revelações que ultrapassam os ensinos bíblicos têm sido também um fator que contabiliza pontos negativos para o crescimento espiritual da igreja no Brasil. Outro fator que podemos mencionar é a carência de genuíno ensino bíblico, muitas igrejas têm substituído o ensino e exposição das Escrituras por entretenimento. A centralidade em músicas, teatro, dança ou qualquer manifestação artística são fatores negativos para o crescimento de uma igreja. O centro do culto deve ser o Deus trino, sua Palavra nos foi dada para seguirmos sua vontade, a infidelidade do culto de muitas igrejas tem sido sua chaga. Tudo no culto deve ser gerido pela Escritura e ao que ela determina. Devemos apreciar artes e incentivar nosso povo a desenvolver uma leitura cultural baseada na Escritura e na graça comum, mas o culto é determinado por quem o aceita e não por quem o oferece. O profeta Oséias nos diz:

O meu povo foi destruído, porque lhe faltou o conhecimento; porque tu rejeitaste o conhecimento, também eu te rejeitarei, para que não sejas sacerdote diante de mim; e, visto que te esqueceste da lei do teu Deus, também eu me esquecerei de teus filhos. Oséias 4.6

Vemos no texto de Oséias que o povo é destruído pela falta de conhecimento, quando esse conhecimento está ausente, quando ela falta ao povo, isso acarreta sérias consequências. Observamos que inicialmente a responsabilidade do desvio do povo é responsabilidade do sacerdote, pois o sacerdote se esqueceu da lei do Senhor, se o líder está longe da palavra o povo sofrerá por isso, o povo será influenciado por isso. Mas o julgamento de Deus não se limita aos líderes infiéis, o povo é responsável por seus descaminhos, pois a lei de Deus foi dada para que seja observada pelo povo como nos diz Deuteronômio:

ESTES, pois, são os mandamentos, os estatutos e os juízos que mandou o SENHOR vosso Deus para ensinar-vos, para que os cumprísseis na terra a que passais a possuir; Para que temas ao SENHOR teu Deus, e guardes todos os seus estatutos e mandamentos, que eu te ordeno, tu, e teu filho, e o filho de teu filho, todos os dias da tua vida, e que teus dias sejam prolongados. Ouve, pois, ó Israel, e atenta em os guardares, para que bem te suceda, e muito te multipliques, como te disse o SENHOR Deus de teus pais, na terra que mana leite e mel. Ouve, Israel, o SENHOR nosso Deus é o único SENHOR. Amarás, pois, o SENHOR teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças. E estas palavras, que hoje te ordeno, estarão no teu coração; E as ensinarás a teus filhos e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e deitando-te e levantando-te. Também as atarás por sinal na tua mão, e te serão por frontais entre os teus olhos. E as escreverás nos umbrais de tua casa, e nas tuas portas.  Deuteronômio 6.1-9

Na leitura de Oséias ainda lemos:

Por isso, como é o povo, assim será o sacerdote; e castigá-lo-ei segundo os seus caminhos, e dar-lhe-ei a recompensa das suas obras. V.9

Note que o castigo de Deus não é somente ao líder que negligenciou a lei, mas  também ao povo, o povo tem responsabilidade diante de Deus.

Muitas vezes ao olharmos para a situação da igreja evangélica brasileira, podemos deduzir erroneamente que muitos seguem os ensinos neopentecostais por ignorância somente, mas na prática não é assim. Muitos deixam igrejas históricas e migram para os arraiais do neopentecostalismo em busca de prosperidade financeira, cura física para alguma enfermidade ou qualquer outro interesse que se tenha. Tais pessoas também são culpadas por seus pecados, elas respondem diante de Deus por sua apostasia. O homem não é um coitadinho, ele é pecador, inimigo de Deus, que tem prazer em pecar. Ninguém será julgado pelo pecado de outro, mas, pelos seus próprios pecados.

A Bíblia nos recomenda a lermos a lei do Senhor todos os dias, ela é nosso alimento, nosso pão, ela nos sacia:

Não se aparte da tua boca o livro desta lei; antes medita nele dia e noite, para que tenhas cuidado de fazer conforme a tudo quanto nele está escrito; porque então farás prosperar o teu caminho, e serás bem sucedido. Josué 1.8

Devemos estudá-la:

Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna, e são elas que de mim testificam. João 5.39

Devemos julgar qualquer ensino pelas Escrituras:

Ora, estes foram mais nobres do que os que estavam em Tessalônica, porque de bom grado receberam a palavra, examinando cada dia nas Escrituras se estas coisas eram assim. Atos 17.11


Devemos ser praticantes da Palavra:

E sede cumpridores da palavra, e não somente ouvintes, enganando-vos com falsos discursos. Tiago 1.22

A Palavra deve saturar nossas vidas:

A palavra de Cristo habite em vós abundantemente, em toda a sabedoria, ensinando-vos e admoestando-vos uns aos outros, com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando ao SENHOR com graça em vosso coração. Colossenses 3.16

Os sérios problemas que temos hoje nas igrejas são decorrentes da falta de conhecimento das Escrituras Sagradas, como vimos no inicio, não um mero conhecimento intelectual, mas, conhecimento prático também. Temos muita música, muito entretenimento e uma escassez de exposições e pregações bíblicas.

Com o profeta Oséias aprendemos muito sobre isso e a solução para o analfabetismo bíblico:

Então conheçamos, e prossigamos em conhecer ao SENHOR; a sua saída, como a alva, é certa; e ele a nós virá como a chuva, como chuva serôdia que rega a terra. Oséias 6.3

25 de set. de 2014

Natureza e Graça

Por Francis Schaeffer

A origem do homem moderno se pode atribuir a diversos períodos. Todavia, partirei do ensino de alguém que transformou o mundo de modo muito real. Tomás de Aquino (1225-1274) abriu caminho para a discussão do que convencionalmente é designado de “natureza e graça”. Elas podem ser representadas em termos do seguinte diagrama:
                                                    

 GRAÇA
NATUREZA

Este diagrama pode ser ampliado nos seguintes moldes, mostrando o que se inclui em ambos os níveis:

GRAÇA, O NÍVEL SUPERIOR

DEUS O CRIADOR; O CÉU E AS COISAS CELESTES; O INVISÍVEL E SUA INFLUÊNCIA NA TERRA; A ALMA HUMANA; A UNIDADE


NATUREZA, O NÍVEL INFERIOR

A CRIAÇÃO; A TERRA E AS COISAS TERRENAS; O VISÍVEL E O QUE FAZEM A NATUREZA E O HOMEM NA TERRA; O CORPO HUMANO; A DIVERSIDADE

Até esta época, as formas de pensamento haviam sido bizantinas. As realidades celestiais capitalizavam toda importância e se revestiam de tal santidade que não eram retratadas de maneira realista. É o que se observa com relação a Maria e a Jesus Cristo: - não são nunca retratados de forma realista nesta fase. Retratam-se apenas símbolos. Assim, se examinarmos qualquer dos mosaicos do fim do período bizantino no batistério de Florença, por exemplo, não é um retrato de Maria que veremos, mas um símbolo que representa Maria. Por outro lado, a natureza em si – as árvores e as montanhas – não se revestia de interesse para o artista, exceto como sendo parte desse mundo em que vivemos. O alpinismo, por exemplo, simplesmente não exercia apelo algum como escalada a ser intentada pelo prazer de subir montanhas. Como veremos, esse esporte como tal só veio a surgir realmente quando ao fim se despertou um novo interesse pela natureza. Destarte, antes de Tomás de Aquino, dava-se esmagadora ênfase às coisas celestes, tão remotas e transcendentes, tão santas e sublimes, representadas através de símbolos, com pouco interesse pela natureza como tal. Com o advento de Tomás de Aquino temos o verdadeiro surto da Renascença humanista. A concepção tomista da natureza e graça não envolvia completa descontinuidade dos dois princípios porquanto sustentava Tomás de Aquino um conceito de unidade que as correlacionava. Desde os tempos de Aquino, por muitos anos a seguir, houve empenho constante de estabelecer-se uma unidade da graça e natureza, bem como a esperança de que a racionalidade houvesse de dizer algo a respeito de uma e outra.

Uma boa porção de coisas excelentes adveio do surto do pensamento renascentista. De modo particular a natureza passou a usufruir de conceito mais apropriado. Do ponto de vista bíblico a natureza é importante porquanto criada por deus e, por isso, não deve ser menosprezada. Nem devem ás coisas relativas ao corpo ser desprezadas quando comparadas com as da alma. Tudo que reflete a beleza se reveste de importância. A sexualidade em si mesma não é um mal. Tudo isto se integra no fato de que Deus nos outorgou na própria natureza uma dádiva excelente, pelo que, se o homem a desdenha, está na realidade atentando contra a dignidade daquilo que é criação divina. Destarte em certo sentido está desprezando o próprio Deus, pois que despreza o que Deus natureza é importante porquanto criada por deus e, por isso, não deve ser menosprezada. Nem devem ás coisas relativas ao corpo ser desprezadas quando comparadas com as da alma. Tudo que reflete a beleza se reveste de importância. A sexualidade em si mesma não é um mal. Tudo isto se integra no fato de que Deus nos outorgou na própria natureza uma dádiva excelente, pelo que, se o homem a desdenha, está na realidade atentando contra a dignidade daquilo que é criação divina. Destarte em certo sentido está desprezando o próprio Deus, pois que despreza o que Deus criou.

Tomás de Aquino e o Autônomo

Ao mesmo tempo estamos agora em condições de ver o significado do diagrama da natureza e graça numa perspectiva diferente. Embora bons resultados adviessem da posição de maior realce conferida à natureza, isso deu lugar a muita coisa de cunho destrutivo, como se verá. Na concepção tomista a vontade humana estava caída, mas não o intelecto. Dessa noção incompleta do conceito bíblico da Queda, defluíram todas as dificuldades subsequentes. O intelecto humano se tornou autônomo.

 Em um aspecto era o homem agora independente, autônomo. Esta esfera do autônomo em Tomás de Aquino assume várias formas. Um dos resultados, por exemplo, foi o desenvolvimento da teologia natural. Nesta perspectiva, a teologia natural é uma teologia que se poderia formular independentemente das Escrituras. Embora fosse um estudo autônomo, ele esperava que resultasse numa unidade e dizia existir uma correlação inegável entre a teologia natural e a Bíblia. O ponto importante, porém, no que se seguiu foi que uma área completamente autônoma assim se estabelecia.

 Com base neste princípio de autonomia, também a filosofia se tornou livre e se separou da revelação. Portanto, a filosofia começou a criar asas, por assim dizer, voando por onde quer que lhe aprazia, deixando à margem as Escrituras. Não quer isto dizer que essa tendência não se manifestara em tempos anteriores, apenas que de agora em diante se patenteia de maneira mais completa.

Nem se limitou à teologia filosófica de Tomás de Aquino. Bem logo se fez sentir no mundo da arte. O processo educacional hodierno tem um ponto falho por não levar em conta as associações naturais entre as diferentes disciplinas. Tendemos a estudá-las todas á parte, em linhas paralelas.

Esta tendência é real tanto na educação secular como na educação cristã. Esta é uma das razões porque evangélicos se têm surpreendido ante a tremenda mudança produzida em nossa geração. Temos estudado exegese apenas como exegese, teologia apenas como teologia, filosofia apenas como filosofia; estudamos algo na esfera da arte, apenas como arte; estudamos música simplesmente como sendo música, despercebidos de que são elaborações humanas e as coisas do homem não se podem conceber como linhas paralelas não relacionadas. Há diversas maneiras em que esta associação de teologia, filosofia e arte emergiu em sequela a Tomás de Aquino.

Pintores e Escritores

O primeiro artista a ser assim influenciado foi Cimabue (1240-1302), mestre de Giotto (1267-1337). Visto que Tomás de Aquino viveu de 1225 a 1274, estas influências se fizeram sentir bem depressa no campo da arte. Ao invés de situarem todos os motivos da arte acima da linha divisória entre a natureza e a graça na maneira simbólica do Bizantino, Cimabue e Giotto começaram a pintar as coisas da natureza como natureza. Neste período de transição a mudança não ocorreu toda de uma vez. Havia, por isso, a tendência, a princípio, de se pintarem os elementos de menos importância no quadro de forma naturalista, continuando, porém a se representar Maria, por exemplo como um Símbolo.

Depois Dante (1265-1321) passou a escrever de maneira como estes artistas pintava. De repente, tudo começa a alterar-se no sentido de que a natureza veio a tornar-se importante. Idêntica expressão pode-se perceber nos renomados escritores Petrarca (1304-1374) e Bocácio (1313-1375). Petrarca foi o primeiro de quem se ouviu dizer jamais haver escalado montanhas sem ser pelo simples prazer de fazê-lo. Tal interesse pela natureza como Deus a criou é, como já vimos, bom e apropriado. Tomás de Aquino, porém, havia aberto caminho a um Humanismo Autônomo, uma filosofia autônoma e, tão logo o movimento adquiriu força, a tendência se tornou um verdadeiro dilúvio.

Natureza versus Graça

O princípio vital a notar-se é que, à medida que a natureza se fazia autônoma, passava a ”devorar” a graça. Através da Renascença, de Dante a Miguel Ângelo, gradualmente a natureza se fez mais inteiramente autônoma. Ela libertou-se de Deus à medida que os filósofos humanistas começaram a operar cada vez mais à vontade. Quando a Renascença chegou ao seu clímax, a natureza havia devorado a graça. De várias maneiras pode-se demonstrar isto. Comecemos com uma miniatura conhecida como Grandes Heures de Rohan (Grandes Horas de Rohan), pintada por volta de 1415. O motivo que explora é uma estória miraculosa do período. Maria, José e o menino, em fuga para o Egito, passam por um campo em que um homem está semeando, e um milagre se realiza. Germina o grão semeado, e cresce no espaço de mais ou menos uma hora, e se mostra em condições de ser ceifado. Quando o homem se põe a cortar o trigo, aparecem os soldados que vinham em perseguição à família fugitiva e indagam: “Quanto tempo faz que passaram por aqui?” Responde o lavrador que na ocasião ele estava semeando aquele cereal e, diante disso, os soldados retrocedem. Não é, porém, propriamente a estória que nos interessa mas a maneira como se dispõem as figuras na miniatura. Em primeiro lugar, há uma notória diferença no tamanho das figuras de Maria e José, do menino, do criado e do jumento, que ocupam a parte superior da tela e a dominam pelas dimensões avultadas, e as minúsculas representações do soldado e do homem que empunha a foice na porção inferior do quadro. Em segundo lugar, a mensagem se evidencia não só mercê do porte das figuras superiores mas ainda pelo fato de que o fundo dessa porção é coberto de linhas douradas. Há, pois, total expressão pictórica da graça e da natureza.

Este é o antigo conceito, a graça avultadamente importante, a natureza merecendo pouco destaque.

No Norte Europeu, Van Eyck (1380-1441) foi quem abriu a porta à natureza numa nova maneira. Começou a pintar a natureza real, tal qual se mostra. Em 1410, data muito importante na história da arte, pintou uma miniatura de reduzidas proporções. Mede apenas doze por oito centímetros. É, contudo, um quadro de tremendo significado porque representa a primeira paisagem real. Deu origem a todos os fundos de quadro que surgiram posteriormente no decurso da Renascença. O tema é o batismo de Jesus, mas a cena abrange apenas diminuta área no quadro como um todo. O fundo apresenta um rio, um castelo muito real, casas, colinas e outros elementos – paisagem natural: a natureza se tornou importante. Depois desta, paisagens do gênero se difundiram rapidamente do norte ao sul da Europa.

Surge logo o estágio seguinte. Em 1435, Van Eyck pintou a Madona do Chanceler Rolin – hoje no Museu do Louvre em Paris. A característica significante é que o Chanceler Rolin, ao defrontar-se com Maria, tem as mesmas dimensões que ela. Maria não mais se retrata remota, o Chanceler não mais uma figura minúscula, como teria sido o caso em relação aos patrocinadores do período anterior. Embora tenha as mãos em postura de prece, aparece em pé de igualdade com Maria. De agora em diante a pressão se faz sentir: como resolver este equilíbrio entre a graça e a natureza?

Neste ponto cabe uma menção a Masaccio (1401-1428), outro vulto importante. Ele dá o próximo grande passo na Itália após Giotto, que faleceu em 1337, por introduzir perspectiva e espaço reais. Pela primeira vez, a luz é projetada da direção própria. Por exemplo, na maravilhosa Capela Carmina em Florença, há uma janela que e ele levou em consideração ao pintar os quadros nas paredes, de sorte que as sombras nas pinturas caem na posição que a luz advinda dessa janela determinada. Estava Masaccio fitando a natureza real, verdadeira. Pintava de tal modo que seus quadros pareciam refletir a exata perspectiva da realidade em três dimensões; dão a sensação de atmosfera; e ele introduziu a composição real. Vivel apenas até os vinte e sete anos; entretanto, abriu quase de completo a porta à natureza. Com a obra de Masaccio, assim como a maior pare dos trabalhos de Van Eyck, a ênfase à natureza foi AL que poderia ter levado à pintura um verdadeiro ponto de vista bíblico.

Com Filippo Lippi (1406-1469), salta à vista que a natureza começa a “devorar” a graça de modo mais sério do que se viu na Madona do Chanceler Rolin, de Van Eyck. Bem poucos anos antes, artista nenhum ousaria pensar em pintar Maria em moldes naturais – pintar-lhe-ia apenas um símbolo. Quando, porém, Filippo Lippi executou o quadro da Madona em 1465 a mudança que se patenteava era surpreendente. Retratava uma jovem extremamente formosa com uma criança nos braços em uma paisagem que sem dúvida fora grandemente influenciada pela obra de Van Eyck. Esta Madona já não mais era um símbolo remoto, distante, de cunho transcendetnte, era uma linda jovem com uma criança. Mas há algo ainda que devemos saber acerca deste quadro. A jovem que representava Maria era nada menos que sua amante, fato conhecido de toda Florença. Ninguém teria ousado fazer isso alguns anos antes. A natureza estava matando a graça. Na França, Fouquet (cerca de 1416-1480) pintou, por volta de 1450, a amante do rei, Agnes Sorel, como Maria. Todos quantos conheciam a Corte de perto, vendo o quadro, sabiam tratar-se da então amante do rei. Ademais, Fouquet pintou-a com um dos seios a mostra. Enquanto nos tempos precedentes a representação seria de Maria amamentando o menino Jesus, agora era a amante do rei, com um seio à vista – e a graça estava morta! O ponto a acentuar-se é que a natureza, uma vez tratada como coisa autônoma, reveste-se de caráter destrutivo. Tão logo se estabelece esse reino autônomo verifica-se que o elemento inferior começa a corroer o superior. Daqui por diante referir-me-ei a estes dois elementos como o “andar inferior” e o “andar superior”.

Leonardo DaVinci e Rafael

Leonardo da Vinci é a figura que em seguida se impõe à consideração. Ele introduz um novo fator no fluxo da história e mais do que qualquer vulto que o precedeu é a individualidade que mais se aproxima do homem moderno. Viveu de 1452 a 1519, faixa que se reveste de não reduzida importância porquanto coincide com os primórdios da Reforma Protestante. Integra também, e com acentuada relevância, a assinalada mudança que se manifestou no pensamento filosófico. Cósimo, o velho de Florença, que faleceu em 1464, foi o primeiro a perceber a importância da filosofia de Platão. Tomás de Aquino havia introduzido o pensamento aristotélico. Cósimo começou a bater-se pelo Neoplatonismo. Ficino (1433-1499), o grande neoplatonista, foi mestre de Lourenço, o Magnífico (1449-1492). Nos dias de Leonardo da Vinci era o Neoplatonismo força dominante em Florença. Assumiu essa relevância simplesmente porque se fazia mister encontrar algo a colocar-se no “andar superior”.

 O Neoplatonismo era guindado a essa privilegiada posição com vistas a restaurar ideias e ideais – isto é, coisas universais.

 GRAÇA – UNIVERSAIS
   NATUREZA - PARTICULARES

Um quadro que ilustra este ponto é A Escola de Atenas, de Rafael (1483-1520). Na sala do Vaticano em que se encontra esta obra famosa, Rafael pintou em uma das paredes um mural que representa a Igreja Católica Romana que contrabalança, na parede oposta, A Escola de Atenas, que tipifica o pensamento pagão clássico. Em A Escola de Atenas Rafael retrata a diferença entre o elemento aristotélico e o platônico. Os dois filósofos ocupam o centro do quadro, Aristóteles com as mãos voltadas para o chão, Platão a apontar para o alto. Este problema pode-se expressar de outra forma. Onde encontrar a unidade depois de conceder plena liberdade à diversidade? Se são libertadas, de que modo conservá-las num todo uno? Leonardo se debateu com esse problema. Ele era um pintor neoplatônico, e, muitos o tem dito – julgo que com muita propriedade – o primeiro matemático moderno. Percebeu ele que, se partirmos da racionalidade autônoma, chegaremos á matemática (matéria que se pode medir); e a matemática trata somente de particulares, nunca de universais. Portanto, não iremos nunca além da mecânica. A uma pessoa que se apercebia de quão necessária era a unidade, era patente a insuficiência deste esquema. Procurou, pois pintar a alma. Não a alma cristã; a alma era-lhe a universalidade, a alma, por exemplo, do amor ou da árvore.

                                               ALMA – UNIDADE
MATEMÁTICA – PARTICULARIDADES – MECÂNICA

Uma das razões por que jamais pintou de modo intenso foi simplesmente porque procurou desenhar, sempre desenhar, com vistas a ser capaz de retratar o universal . Não é necessário dizer que jamais o conseguiu.

Giovanni Gentile, um dos maiores expoentes do pensamento filosófico italiano, falecido em tempos relativamente recentes, disse que Leonardo morreu em desalento porquanto não queria abrir mão da esperança de uma unidade racional entre os particulares e o universal. Para haver escapado a esse desalento, necessário teria sido que Leonardo fosse criatura diferente. Ter-lhe-ia sido imperativo desvencilhar-se desse anelo por uma unidade acima e abaixo da linha. Leonardo, que não era pensador da linhagem moderna, jamais abandonou a esperança de um campo de conhecimento unificado. Em outras palavras, não abriria mão da esperança do homem erudito que, no passado, se caracterizou por esta esta insistência em um todo unificado de conhecimento.

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Extraído do Livro: A Morte da Razão

A Piedade e a Igreja


Por Joel Beeke

pietas de Calvino não subsistia à parte das Escrituras ou da igreja. Pelo contrário, era fundamentada na Palavra e nutri­da na igreja. Embora tenha rompido com o absolutismo da Igreja de Roma, Calvino tinha um elevado ponto de vista sobre a igreja. "Se não preferimos a igreja a todos os outros objetos de nosso in­teresse, somos indignos de ser contados como membros da igreja", ele escreveu.

Agostinho dissera: "Aquele que se recusa a ter a igreja como sua mãe não pode ter a Deus como seu Pai”. Calvino acrescentou: "Não há outra maneira de entrarmos na vida, se esta mãe não nos conce­ber em seu ventre, der-nos à luz, alimentar-nos em seu seio e, por último, não nos manter sob os seus cuidados e orientação, até que, despidos desta carne mortal, nos tornemos como os anjos". À parte da igreja, há pouca esperança de perdão dos pecados ou salvação, Calvino escreveu. Sempre é desastroso deixar a igreja.1

Calvino ensinava que os crentes estão enxertados em Cristo e sua igreja, pois o crescimento espiritual ocorre na igreja. A igreja é a mãe, educadora e nutridora de todo crente, visto que o Espírito Santo age na igreja. Os crentes cultivam a piedade por meio do Espí­rito Santo mediante o ministério de ensino da igreja, progredindo da infância espiritual à adolescência e à maturidade em Cristo. Eles não se graduam na igreja enquanto não morrem.2 Essa educação vitalícia é oferecida numa atmosfera de piedade genuína, uma at­mosfera na qual os crentes cuidam uns dos outros em submissão à liderança de Cristo.3 Essa educação encoraja o desenvolvimento dos dons e do amor uns dos outros, uma vez que somos "constrangidos a receber dos outros".4

crescimento na piedade é impossível sem a igreja, porque a piedade é fomentada pela comunhão dos santos. Na igreja, os cren­tes "se unem uns aos outros na distribuição mútua dos dons". 5 Cada membro tem o seu próprio lugar e dons para serem usados no corpo.6 Idealmente, todo o corpo usa esses dons em simetria e propor­ção, sempre reformando e desenvolvendo em direção à perfeição.7

A PIEDADE DA PALAVRA

A Palavra de Deus é central ao desenvolvimento da piedade no crente. A piedade genuína é uma "piedade da Palavra". O modelo relacional de Calvino explica como.

A verdadeira religião é um diálogo entre Deus e o homem. A parte do diálogo que Deus inicia é a revelação. Nisso, Deus vem ao nosso encontro, fala conosco e se nos torna conhecido na pre­gação da Palavra. A outra parte do diálogo é a resposta do homem à revelação de Deus. Essa resposta, que inclui confiança, adoração e temor reverente, é o que Calvino chama de pietas. A pregação da Palavra nos salva e nos preserva, enquanto o Espírito nos capaci­ta a apropriar-nos do sangue de Cristo e responder-Lhe com amor reverente. Por meio da pregação de homens dotados de poder pelo Espírito Santo, "a renovação dos santos se realiza, e o corpo de Cris­to é edificado", disse Calvino.8

A pregação da Palavra é o nosso alimento espiritual e o remédio para nossa saúde espiritual. Com a bênção do Espírito, os pastores são médicos espirituais que aplicam a Palavra à nossa alma, assim como os médicos terrenos aplicam remédio ao nosso corpo. Com a Palavra, esses médicos espirituais diagnosticam, prescrevem remédios e curam doenças espirituais naqueles que estão contaminados pelo pecado e pela morte. A Palavra pregada é um instrumento para curar, limpar e tornar frutífera nossa alma propensa a enfermidades.9 O Espírito, ou "o ministro interior", desenvolve a piedade usando o "ministro exterior" na pregação da Palavra. Con­forme disse Calvino, o ministro exterior "proclama a palavra falada, e esta é recebida pelos ouvidos", mas o ministro interior "comunica verdadeiramente a coisa proclamada... que é Cristo".10

Para desenvolver a piedade, o Espírito usa não somente o evan­gelho para produzir fé no profundo da alma dos seus eleitos, como já vimos, mas também a lei. A lei promove a piedade de três maneiras:

1. A lei restringe o pecado e promove a justiça na igreja e na socie­dade, impedindo que ambas cheguem ao caos.

2. A lei disciplina, educa, convence e nos move de nós mesmos para Jesus Cristo, o fim e o cumpridor da lei. A lei não pode nos levar a um conhecimento salvifico de Deus em Cristo. Pelo contrário, o Espírito Santo usa a lei como um espelho para nos mostrar nossa culpa, nos privar da esperança e trazer-nos ao arrependimento. Ela nos conduz ànecessidade espiritual que gera a fé em Cristo. Esse uso convencedor da lei é essencial à pie­dade do crente, pois impede a manifestação da justiça própria, que é inclinada a se reafirmar até no mais piedoso dos santos.

3. A lei se torna a norma de vida para o crente. "Qual é a norma de vida que Deus nos outorgou?" Calvino pergunta no catecismo de Genebra. E responde: "A sua lei". Posteriormente, Calvino disse que a lei "mostra o alvo que devemos ter em vista, o objetivo que devemos perseguir; e que cada um de nós, de acordo com a medida de graça recebida, pode se esforçar para estruturar sua vida em harmonia com a mais elevada retidão e, por meio de es­tudo constante, avançar cada vez mais, ininterruptamente.ll

Calvino escreveu a respeito do terceiro uso da lei na primeira edição de suas Institutas: "Os crentes... se beneficiam da lei porque dela aprendem mais completamente, cada dia, qual é a vontade do Senhor... Isto é como se um servo, já preparado com total disposi­ção de coração para se recomendar ao seu senhor, tivesse de des­cobrir e considerar os caminhos de seu senhor, para se conformar e se acomodar a estes. Além disso, embora sejam impulsionados pelo Espírito e mostrem-se dispostos a obedecer a Deus, os crentes ainda são fracos na carne e prefeririam servir ao pecado e não a Deus. Para a nossa carne, a lei é como uma chicotada em uma mula ociosa e obstinada, uma chicotada que a faz animar-se, levantar-se e dispor-se ao trabalho".12

Na última edição das Institutas (1559), Calvino é mais enfático a respeito de como os crentes se beneficiam da lei. Primeiramente, ele diz: "Este é o melhor instrumento para os crentes aprenderem mais completamente, a cada dia, a natureza da vontade do Senhor, a qual eles aspiram, e para confirmá-Los no entendimento dessa vontade". Em segundo, a lei faz o servo de Deus, "por meio de me­ditação freqüente, ser despertado à obediência, ser fortalecido na lei e restaurado de um caminho de transgressão". Calvino conclui que os santos devem prosseguir desta maneira, "pois o que seria menos amável do que a lei, com importunações e ameaças, atribular as almas com temor e as afligir com pavor?"13

O ponto de vista que considera a lei primariamente como um guia que estimula o crente a apegar-se a Deus e a obedecer-Lhe ilustra outra instância em que Calvino difere de Lutero. Para Lute­ro, a lei é primariamente negativa. Está ligada ao pecado, à morte e ao diabo. O interesse predominante de Lutero é o segundo uso da lei, o uso convencedor ― mesmo quando ele considerava o pa­pel da lei na santificação. Por contraste, Calvino entendia a lei como uma expressão positiva da vontade de Deus. Como disse John Hesselink: "O ponto de vista de Calvino podia ser chamado de deuteronômico, porque ele entendia que o amor e a lei não são contrários, e sim correlatos".14 Para Calvino, o crente segue a von­tade de Deus, não motivado por obediência obrigatória, e sim por obediência agradecida. Sob a tutela do Espírito, a lei produz grati­dão no crente; e esta conduz à obediência amorosa e à aversão ao pecado. Em outras palavras, para Lutero o propósito primordial da lei era ajudar o crente a reconhecer e confrontar o pecado. Para Calvino, o propósito primário da lei era levar o crente a servir a Deus motivado por amor.15

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Extraído do livro Vencendo o Mundo, Joel Beeke, Editora FIEL, pgs. 53-57
Notas:
1.Institutes. 4.1.1, 3-4. Ver também BEEKE, JoelR. Gloriouslhings of Thee Are Spoken: The Doctrine of the Church. In: KISTLER, Don (Ed.). Onward, christian soldiers: protestants affirm the church. Morgan, Pa.: Soli Deo Glory, 1999. p. 23-25.
2.Institutes.4.1.4-5.
3.Commentary, Salmos 20.10.
4.Commentary, Romanos 12.6.
5.Commentary, 1 Coríntios 12.12.
6.Commentary, 1 Coríntios 4.7.
7.Commentary, Efésios 4.12.
8.Commentary, Salmos 18.31; 1 Coríntios 13.12. Institutes, 4.1.5, 4.3.2.
9.Sermons ofM. John Calvin, on the Epistles ofS. Paule to Timothie and Titus (1579). L. T. (Trad.). Edinburgh: Banner of Truth Trust, 1983. Comentário em 1 Timóteo 1.8-11. Daqui para frente a nota diráSermon e citará o texto bíblico. Reimpressão fac-símilar.
10.REID, J. K. S. (Ed.). Calvin: theological treatises. Philadelphia:
Westminster Press, 1954. p. 173. Ver também ARMSTRONG, Brian. lhe Role of the Holy Spirit in Calvin's Teaching on the Ministry. In: DEKLERK, P. (Ed.). Calvin and the Holy Spirit. Grand Rapids: Calvin Studies Society, 1989. p. 99-111.
11.BEVERIDGE, Henry; BONET, Jules (Eds.). Selected works of John Calvin: tracts and letters. Grand Rapids: Baker, 1983. 2:56,69. Reimpressão.
12.Institutes of the Christian religion: 1536 edition, p. 36.
13.Institutes. 2.7.12. Calvino extrai dos salmos de Davi grande apoio para esse terceiro uso da lei. Ver também Institutes 2.7.12 e Comentário no livro dos Salmos, Valter Martins (Trad.), Vol. 4. (São José dos Campos: Editora Fiel, prelo 2009).
14.HESSELINK, I. John. Law - lhird Use of the Law. In: McKIM, Donald K. (Ed.). Encyclopeadia of the reformed faith. Louisville:
Westminster/ John Knox, 1992. p. 215-216. Ver também:
- DoWEY JR., Edward A. Law in Luther and Calvin. Theology Today, 41.2 (1984).
- HESSELINK, I. John. Calvin's concept of the law. Allison Park, Pa.:
Pickwick, 1992. p. 251-262.
15.BEEKE, Joel; LANNING, Jay. Glad Obedience: The Third Use of the Law. In: KISTLER, Don. Trust and obey: obedience and the Christian. Morgan, Pa.: Soli Deo Gloria, 1996. p. 154-200.
- GODFREY, W. Robert. Law and Gospel. In: FERGUSON, Sinclair B.; WRIGHT, David F.; PACKER, J. I. (Eds.). New dictionary of theology. Downers Grove, 111.: InterVarsity Press, 1988. p. 379.

24 de set. de 2014

Por que Seminaristas perdem a fé?

Por Augustus Nicodemus Lopes

Não quero dizer que acontece com todos. Mas, acontece com muitos. Conheço vários casos, inclusive próximos a mim, de jovens cristãos fervorosos, dedicados, crentes, compromissados com Deus, que gostavam de orar e ler a Biblia, que evangelizavam em tempo e fora de tempo, e que depois de entrar no seminário ou faculdade de teologia, esfriaram na fé, se tornaram confusos, críticos, incertos e até cínicos. Como Tomé, não conseguem crer (espero que ao final venham a crer, como graciosamente aconteceu com Tomé).
Existem algumas razões pelas quais casos deste tipo têm se tornado cada vez mais comum. Coloco aqui as que considero mais relevantes, sempre lembrando que muitos seminários e escolas de teologia levam muito a sério a questão da ortodoxia bíblica e do cultivo da vida espiritual de seus alunos. Não é a eles a que me refiro aqui.
1) Acho que tudo começa quando as denominações mandam para os seminários e faculdades de teologia jovens que não têm absolutamente a menor condição de serem pastores, professores, obreiros e pregadores. Muitos são enviados sem qualquer preparo intelectual, espiritual e emocional. Alguns mal fizeram 17 anos e foram enviados simplesmente porque eram líderes destacados dos adolescentes de sua igreja, eram líderes do grupo de louvor ou filhos de pessoas influentes da igreja. Não é sem razão que Paulo orienta que o líder não pode ser neófito, isto é, novo na fé (1Tim 3.6). Eles não têm a menor estrutura intelectual, bíblica e emocional para interagir criticamente com os livros dos liberais e com os professores liberais que vão encontrar aos montes em algumas das instituições para onde serão mandados.
2) Acho também que a culpa é das denominações que mantêm professores liberais ou conservadores frios espiritualmente nas cátedras de suas escolas de teologia. O que um professor que não acredita em Deus, nem que a Bíblia é a Palavra de Deus, não ora, tem para ensinar a jovens que estão na sala de aula para aprender mais de Deus e de sua Palavra? Há seminários e escolas de teologia que mantêm no corpo docente professores que nem vão mais à uma igreja local, que usam o título de pastor apenas para ocupar uma vaga na cátedra dos seminários. Nunca levaram ninguém a Cristo e nem estão interessados nisso. Não têm vida de oração, de piedade. Que exemplo eles poderão dar aos jovens que sentam nas salas de aula com a mente aberta, ansiosos e desejosos de ter modelos, exemplos de líderes para começar seus próprios ministérios?
3) Alguns desses professores têm como alvo pessoal destruir a fé de todos os seus estudantes antes mesmo que terminem o primeiro ano de estudos. Começam desconstruindo o conceito de que a Bíblia é a infalível e inspirada Palavra de Deus. Com grandes demonstrações de sapiência e erudição, eles mostram os erros da Bíblia e o engano da Igreja Cristã, influenciada pela filosofia grega, em elaborar doutrinas como a Trindade, a Divindade de Cristo, a Expiação. Mesmo sem usar linguagem direta -- alguns usam, todavia -- lançam dúvidas sobre a ressurreição literal de Cristo de entre os mortos. A pá de cal na sepultura da fé desses meninos é a vida desses professores. Além de não terem vida devocional alguma, alguns deles ensinam os seus pobres alunos a beber, fumar e freqüentar baladas e outros locais. Eles até lideram o grupo Noé (que se encheu de vinho) e o grupo Isaías ("e a casa se encheu de fumo") nos seminários!!
4) Bom, acredito que uma fé que pode ser destruída deve ser destruída mesmo, pois não era autêntica e nem sólida. Quanto mais cedo ela for destruída e substituída por uma fé robusta, enraizada na Palavra de Deus, melhor. Acontece que os professores liberais e os professores conservadores mortos só sabem destruir; eles não têm a menor idéia de como ajudar jovens candidatos ao ministério pastoral a cultivar uma mente educada, uma fé robusta e uma vida de devoção e consagração a Deus: os primeiros, porque lhes falta fé; os segundos, devoção. Ao fim de quatro anos de estudo com professores assim, vários desses jovens saem para serem pastores, mas intimamente -- alguns, abertamente -- estão cheios de dúvidas quanto à Bíblia, quanto a Deus e quanto às principais doutrinas da fé cristã. Estão confusos teologicamente, incertos doutrinariamente e cínicos devocionalmente.
5) Não podemos deixar de lembrar que ao final, se trata de uma guerra espiritual feroz, em que Satanás tenta de todos os modos corromper a singeleza e sinceridade da fé em Cristo, atacando a mente e o coração dos futuros pastores (2Cor 11:3). Usando professores sem fé e professores sem vida espiritual, ele procura minar as convicções, a certeza, o fervor e a dedicação dos jovens que se preparam para o ministério. Aqui é pertinente o lema de Calvino, orare et labutare. Pela oração, os seminaristas poderão escapar da tendência dos estudos teológicos de transformar nossa fé em um esquema doutrinário seco. E pela labuta nos estudos poderão se livrar das mentiras dos professores liberais, neo-ortodoxos, libertinos e marxistas.
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Fonte: Facebook do Autor.

A brecha em nossa Santidade




Família Cristã: Abra os olhos!


Por Wallace Jaguaribe


Princípios e valores são repassados por palavras e ações. Na prática são traduzidos nas músicas que se ouvem e se cantam, nos filmes, novelas e programas que se assistem, na literatura que se lê, nos ditados populares que se usa, na escolha dos entretenimentos, na maneira como se cumprimenta o próximo, no comentário que se faz sobre a atitude de outrem, enfim, no pensar, no falar e no agir no seu dia a dia.

Portanto, a família cristã deve avaliar seu pensar, falar e agir tendo como padrão o ensino bíblico. Mas, a família cristã conhece os ensinos da Palavra de Deus? E se conhece, esforça-se por praticá-la em todas as situações para que os componentes da família absorvam e reproduzam estes princípios e valores? Eis a questão.

Por exemplo: o que a família cristã deve fazer quando vizinhos incômodos precisarem de ajuda? A vontade, talvez, seja a de omitir-se, fingir não tomar conhecimento, fazer algum comentário como "aqui se faz, aqui se paga", ou algo semelhante. Mas, a Bíblia diz o que a família cristã deve fazer nesta hora: "Não torneis a ninguém mal por mal; esforçai-vos por fazer o bem perante todos os homens; se possível, quanto depender de vós, tende paz com todos os homens; Pelo contrário, se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber; Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem." (Romanos 12:17, 18, 20, 21). Assim, cabe à família agir conforme determina as Escrituras e informar aos seus componentes a razão pela qual irão agir com bondade - o mandamento bíblico - e a geração seguinte aprenderá pelo agir e pelo ouvir e reproduzirá o comportamento.

Então, conhecer a Bíblia para retirar dela os princípios de Deus para o nosso dia a dia é imprescindível. Pois, podemos estar ensinando na prática princípios que não aprovamos na teoria - princípios não cristãos.

Abra os olhos, família cristã, e veja o que está transmitindo à próxima geração:

a) Você está valorizando a frequência à igreja? Pois o princípio bíblico é: "Não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns;" O descumprimento deste princípio repassa a ideia de que a reunião com o povo de Deus não é importante. Mesmo que com palavras a família diga o contrário. Pois, as ações falam mais alto do que as palavras.

b) Está valorizando a meditação diária na Palavra de Deus? Pois, o Salmo primeiro afirma "Antes, o seu prazer está na lei do SENHOR, e na sua lei medita de dia e de noite". 

c) Está evitando filmes, novelas, ou programas que incentivem o que é impuro ou injusto aos olhos de Deus? Pois o Senhor afirma "Não porei coisa injusta diante dos meus olhos;" (Salmo 101:3) e ainda " Finalmente, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isso o que ocupe o vosso pensamento" (Filipenses 4:8).

A lista é muito extensa e não há espaço aqui para tanto. Mas, a família cristã deve ensinar o amor a Deus sobre todas as coisas. Deus em primeiro lugar, tudo o mais vem depois. A família cristã também deve amar o próximo como a si mesma. Tudo que se quer receber deve-se praticar com os outros. 

Família cristã, você está treinando a geração que Deus colocou sob seus cuidados. Abra os olhos, e veja bem os valores e princípios que está repassando, pois de tudo Deus lhe pedirá contas. 

“A ninguém devais coisa alguma, a não ser o amor com que vos ameis uns aos outros; porque quem ama aos outros cumpriu a lei. Com efeito: Não adulterarás, não matarás, não furtarás, não darás falso testemunho, não cobiçarás; e se há algum outro mandamento, tudo nesta palavra se resume: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. O amor não faz mal ao próximo. De sorte que o cumprimento da lei é o amor.”

Romanos 13:8-10