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4 de jun. de 2015

Um Estudo sobre o Batismo

Por Thiago Oliveira

 Roteiro:

1. Batismo: Ordenança e Sacramento
2. Batismo como Meio de Graça
3. O Batismo anterior ao Cristianismo
4. O Batismo de João
5. Crenças Equivocadas sobre o Batismo
6. A Forma de se Batizar
7. O Batismo Infantil

1.  Batismo: Ordenança e Sacramento

(a) Quando dizemos que o Batismo é uma ordenança, significa que ele é uma prescrição contida na Escritura, ou seja, uma ordem a ser cumprida por todo aquele que se professa cristão. No caso do Batismo, o próprio Cristo ordena que se batize em nome da Trindade e faz dele um selo de identificação que serve àqueles que compõem a comunidade da fé (Mt 28.19).

(b) Quando dizemos que o Batismo é um sacramento, significa que ele é um sinal visível da graça invisível. Ele é a marca - ou selo – das bênçãos e promessas que são propriedades da fé cristã. A Palavra precede os sacramentos, e os sacramentos tem por base a Palavra, sendo Cristo o conteúdo central de ambos. O Batismo e a Ceia do Senhor são os dois sacramentos ministrados na Nova Aliança. Seus equivalentes no Antigo Testamento são a Circuncisão e a Páscoa.

2.  Batismo como Meio de Graça

Os Meios de Graça formam a via ordinária pela qual Deus transmite a Sua Graça, acionando-a no coração dos pecadores remidos. São através deles que o Espírito Santo opera, produzindo e confirmando a fé. Assim sendo, tais meios (Pregação + Sacramentos) são instrumentos contínuos da divina Graça.

Os benefícios que o Batismo traz a nossa fé são (i) a confirmação de que obtivemos a purificação dos nossos pecados mediante a salvação conquistada por Cristo (Ef 5.26 e Tt 3.5); (ii) a identificação de uma nova vida por meio de Cristo, pois, morremos para o mundo a semelhança de Sua morte e renascemos tal como Ele ressurgiu dos mortos (Rm 6.4 e Cl 2.12-13); e (iii) o revestimento de Cristo sobre nossas vidas, de modo que estamos n’Ele unidos, formando um mesmo corpo, num só Espírito (1Co 12.13 e Gl 3.27).

3.  O Batismo anterior ao Cristianismo

Antes de se tornar uma ordenança cristã, os judeus praticavam o Batismo como parte cerimonial das suas purificações. Também havia o Batismo dos prosélitos, quando os gentios eram inclusos na comunidade de Israel. Nesse caso, o Batismo era posterior a Circuncisão. As crianças já nascidas também recebiam o Batismo, juntamente com seu pai. As que nasciam depois não eram batizadas, pois, eram consideradas já limpas por conta do Batismo de seu genitor.

4.  O Batismo de João

Há diferença entre o Batismo cristão para aquele executado por João Batista? Teólogos mais antigos e da linha reformada, tais como João Calvino, sustentam a ideia de que os dois batismos são doutrinariamente idênticos. João administrava o Batismo numa relação sacramental com o perdão dos pecados (Mc 1.4), utilizando a água como elemento visível e apontando para Cristo (Jo 1. 29-31). Além do mais, foi o próprio Deus quem estabeleceu o Batismo de João (Jo 1.33).

Aqueles que objetam essa ideia, geralmente utilizam a passagem de Atos 19. 1-6. Segundo eles, Paulo rebatizou um grupo de homens em Éfeso que haviam recebido apenas o Batismo de João. Mas, essa interpretação do rebatismo é contestada. O próprio Calvino foi um que rejeitou a ideia do rebatismo. Calvino defendia que o Batismo em nome de Jesus foi a imposição de mãos e o recebimento do Espírito Santo.

5.  Crenças Equivocadas sobre o Batismo

Dentre os equívocos doutrinários acerca do Batismo, ainda no período patrístico, encontramos a ideia da “regeneração batismal”. Agostinho, por exemplo, cria que o Batismo eliminava a culpa original. Ele usava esse argumento em favor do Batismo infantil. Na compreensão de Agostinho, as crianças não batizadas estavam perdidas.

Já outros pensavam que o Batismo purificava os homens apenas de seus pecados passados, por isso, muitos desejavam obter a purificação, batizando-se já nos momentos finais de suas vidas. Tal concepção derivava-se do erro de considerar o Batismo um ritual metafísico. O próprio Lutero, reformador da Igreja, chegou a dizer que a água batismal era modificada pela Palavra, tornando-se assim uma água purificadora.

Já um dos erros mais recorrentes é considerar o Batismo indispensável para a salvação, quando na verdade, a condição é somente a fé, sendo o Batismo uma forma de professar a fé em Cristo.

No mormonismo existe a prática do Batismo pelos mortos. Eles se apoiam no texto de 1 Coríntios 15.29. Todavia, é inconcebível estabelecer uma prática - ou doutrina – tendo por base um único versículo isolado. Ademais, o versículo em questão tem um significado não tão claro, além de não ser prescritivo.

6.  A Forma de se Batizar

Com exceção dos batistas, que defendem a ideia de que a única forma correta de se batizar seja a imersão, a opinião predominante é a de que o modo não é muito importante, desde que o fundamento (a purificação/remissão dos pecados) esteja evidente no ritual. Portanto seja por imersão, aspersão ou afusão, o que deveras importa é que sirva de sinal para o que se batiza e para as demais testemunhas de que em Cristo, os pecados presentes, passados e futuros foram lavados de uma vez por todas, nos tornando limpos diante de um Deus Santo e incluídos em Seu povo, eleitos no Seu amado Filho.

Aqueles que defendem a imersão como sendo a única forma correta de se batizar, fundamentam sua tese nas palavras “bapto” e “baptizo”. Segundo alegam, os termos significam imergir/mergulhar. Logo, a imersão seria a maneira biblicamente correta para batizar. Acontece que na Escritura, nem sempre estes termos significam mergulhar. Um exemplo claro é Marcos 7.4. Nesse versículo encontramos “baptizo” e “baptismos” sendo usados em referência a lavar/limpar o corpo e objetos. Já em 1 Coríntios 10.2 é impossível pensar que os hebreus mergulharam na nuvem.

Ademais, quando Paulo diz que somos batizados no Espírito (1 Co 12.13), devemos recordar que o Espírito que nos purifica, simbolizado pela água no Batismo, foi derramado sobre nós, tal como nos diz Joel 2.28-29 e Atos 2. 4 e 33. Em Hebreus 10.22, o termo purificado, no original tem o sentido de borrifar/aspergir.

Em suma, podemos dizer que a aspersão e a afusão são boas representações tanto quanto é o Batismo por imersão.

7.  O Batismo Infantil

A prática do Pedobatismo, isto é, o Batismo Infantil, gera polêmica desde que os anabatistas (séc 16) passaram a pregar que somente os adultos deveriam ser batizados, pois, para receber o sacramento seria imprescindível a profissão da fé. Fora os anabatistas e os seus herdeiros, as demais igrejas cristãs batizam crianças pequenas, não lhes negando o sinal da Graça Divina.

Como vimos, o Batismo é um sacramento, tal como é a Ceia do Senhor. Os seus equivalentes no Antigo Testamento são a Circuncisão e a Páscoa. Isso quer dizer que a Circuncisão era o Batismo dos que pertenciam a Antiga Aliança. Ela era um sinal da purificação executada por Deus no coração do homem (Dt 10.16 e 30.6). Também indicava uma mortificação do ego para se viver em novidade de vida, gozando das bênçãos advindas do Senhor, pois, a obediência a Deus foi requerida no estabelecimento da Circuncisão (Gn 17.9-10). E por fim, representava a inclusão na comunidade do Senhor, gerando identificação com Ele (Gn 17.14).

Aos efésios, Paulo diz que os que estavam sem Cristo eram os da incircuncisão, identificando o sinal da aliança com o objeto da sua promessa, que é Cristo (Ef 2. 11-12). Para os que ainda tem dúvidas sobre a correlação entre a Circuncisão e o Batismo, basta ler Colossenses 2. 11-12. Aqui, Paulo é bastante claro ao afirmar que os irmãos de Colossos foram circuncidados, assim como foram os judeus, e a Circuncisão deles ocorreu quando foram sepultados com Cristo no Batismo.

Logo, se na Antiga Aliança os filhos do povo santo recebiam o selo da inclusão aliancista, porque seria diferente com os filhos do povo santo na Nova Aliança? Todos os que são crentes em Jesus são filhos de Abraão e herdeiros da promessa (Gl 3.29 e 4.28). Assim, como os filhos de Israel recebiam de seus pais o sinal de que eram pertencentes a uma nação eleita e separada das demais, a Escritura afirma que os filhos dos crentes também são santos (1 Co 7.14). Ademais, no discurso de Pedro no Pentecostes ele diz que o perdão dos pecados e o dom do Espírito são promessas para seus ouvintes adultos e para seus filhos 9At 2.38-39). Portanto, quando um cristão batiza seus filhos, ele esá confiando nas promessas da Aliança de que por meio de Cristo (a semente de Abraão) a sua família é bendita (Gn 12.3). Não nos esqueçamos de que Deus se deleita em salvar famílias.

Ao longo dos séculos, algumas objeções ao Pedobatismo se tornaram constantes e comuns. Iremos responder uma fatia considerável dessas objeções:

a)  Não está nítida a substituição da Circuncisão para o Batismo.

Se nitidez significa um versículo que fale: “troquem a Circuncisão pelo Batismo”, não temos. Mas, diante do que já foi exposto, basta um pouco de boa vontade para ver a relação entre ambos. Os sacramentos do Antigo Testamento foram trocados, pois, depois de Cristo não há mais necessidade de derramamento de sangue e nem necessidade de sacrificar. A Circuncisão e a Páscoa continham esses elementos desnecessários – derramavam sangue – uma vez que Cristo já nos purificou com Seu sangue (1 Jo 1.7) e o Seu sacrifício pelos nossos pecados é pleno, válido para sempre (Hb 10.10-12).

b)  A Bíblia não mostra crianças sendo batizadas, só adultos.

Sim, em Atos vemos que muitos adultos foram batizados após crer na pregação do Evangelho. Isso é óbvio, pois são os adultos, e não os bebês o alvo da pregação. No entanto, vemos que quando Pedro pregou em Pentecostes, disse que as promessas eram também para os filhos (At 2. 38-39). Visto que não havia “departamento infantil”, os pais que ali se encontravam com seus filhos entenderam perfeitamente que seus rebentos estavam inclusos na Aliança. E em três passagens, Lucas registra no livro de Atos que famílias inteiras foram batizadas (At 10. 2, 44-48; 16. 14-15; 16.31-34). Difícil pressupor que não havia crianças numa família do século 1, e como Lucas não menciona nenhuma exceção, não há motivos paa não crer que crianças foram batizadas juntamente com seus pais.

c)  É preciso crer para ser batizado.

Esse é um princípio válido para adultos que estão fora da Aliança. Foi assim com Abraão no início. Primeiro ele creu, depois recebeu o selo. Já com Isaque, não foi assim e nem com Jacó. Depois de incluído na Aliança, o pai pode selar seus filhos. É preciso fazer uma ressalva: Muitos no Antigo Testamento receberam o selo da Aliança, mas, foram rejeitados por Deus. Em Romanos 9, Paulo usa o exemplo de Ismael e Esaú como rejeitados, mesmo circuncidados. Da mesma forma, nem todos os que são selados no Novo Testamento serão salvos. Mesmo assim, Deus ordenou que todos fossem selados. Ele é quem faz a seleção, não nós. Há também a responsabilidade paterna de ensinar aos filhos os preceitos da Aliança (Dt 6.4-9).

d)  A questão das mulheres

Os detratores do Batismo Infantil alegam que apenas os homens recebiam o selo no Antigo Testamento, e as mulheres ficavam de fora. Logo, já que o Batismo é o equivalente da Circuncisão, elas não deveriam ser batizadas.

É verdade que as mulheres não eram circuncidadas, e o motivo é fisicamente óbvio. Mas isso não quer dizer que elas estavam fora da comunidade de Israel. De alguma forma, o sinal do seu genitor lhe garantia a inclusão. O mesmo acontecia com estrangeiras. Raabe e Rute são prova disso. O selo dos seus maridos lhes asseguraram o direito a identidade israelita. Isso é tão verdade que elas são inclusas na genealogia (Mt 1.5).

Uma vez que a água passa ser o elemento purificador no Novo Testamento, não existe nenhum impedimento físico, como no caso da Circuncisão, que prive as mulheres de receberem o sacramento.

e)  A questão da Ceia

Outra alegação dos contrários ao Pedobatismo é a de que existe contradição ao batizar crianças e não deixar que elas participem da Ceia. A questão é que na Ceia existe uma dupla limitação para os infantes: Examinar a si mesmo (1 Co 11.28) e anunciar a morte do Senhor (1 Co 11.26). É como já vimos, no Batismo não é necessário a confissão daqueles que nascem de pais cristãos para que recebam o sacramento. A confissão de fé será requerida na idade da razão, confirmando ou não o sacramento recebido.

O Batismo não é para anunciar a redenção, como é a Ceia e como era também a refeição pascoal (Ex 12.24-27). O Batismo é o sinal da pureza por meio de Cristo. Se a confissão de fé for elemento essencial para as crianças se purificarem, podemos então dizer que todos os que morrem antes de atingirem a idade da razão estão condenados ao inferno? Óbvio que não chegaremos a essa conclusão. O Espírito Santo pode e de fato purifica os seus, tornando-os justos diante de Deus, mesmo ainda dentro do ventre materno (Lc 1.15 e Rm 9.10-13).

Aqui concluímos as refutações dos argumentos anti-pedobatistas. Fica explícito que não são argumentos tão fortes para destruir a sólida base do Batismo Infantil. Assim sendo, que as nossas crianças sejam celebradas como membros da Aliança e que não sejam provadas de receberem a identificação de que pertencem ao Senhor Jesus e não ao mundo.

Soli Deo Gloria

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