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14 de out. de 2016

A Reforma e a educação: Calvino, Knox e Comênio

Por Hermisten Maia P. da Costa

Introdução

Uma das grandes ênfases das Escrituras diz respeito à educação do povo de Deus. O Senhor diz insistentemente ao povo que preserve a sua Palavra, guardando-a (praticando) e ensinando-a aos seus descendentes. O método estabelecido por Deus que perpassa a todos os outros é o da “repetição” (Shãnâ) (Dt 6.6ss). Não deixa de ser elucidativo, que o Shemá (“ouve”), o “credo judeu” – que consistia na leitura de Deuteronômio 6.4-9; 11.13-21 e Números 15.37-41 –, fosse repetido três vezes ao dia.

Por isso, nada mais natural que um movimento de reforma da igreja, um retorno à Escritura, tenha sido tão enfático na valorização da educação. Nenhuma surpresa será constatar-se que os países que abraçaram a Reforma do século 16 se destacaram pelo ensino e pelo conseqüente desenvolvimento, enquanto os outros perpetuavam as trevas da ignorância medieval.
I. O ensino sistemático da lei

Um princípio importante prescrito na Palavra é que a revelação de Deus foi-nos confiada para que a conheçamos e a pratiquemos (Dt 29.29). Deus provê os princípios, os meios e os fins. Ele mesmo que se dignou dar-nos sua Palavra e tem propósitos definidos e meios estabelecidos para que a sua vontade se cumpra. No Antigo Testamento vemos a educação sendo amplamente praticada dentro do lar, sendo os mestres os próprios pais.
No âmbito nacional, vemos que Deus confiou em especial aos sacerdotes a responsabilidade de ensinar a lei – lendo-a periodicamente diante de todo o povo –, aplicando-a às necessidades de seus ouvintes (Lv 10.11; Dt 17.8-11; 31.9-13/2Rs 12.2). Eles eram conhecidos como “os que tratavam da lei” (Jr 2.8). A fidelidade dos sacerdotes no cumprimento de sua missão servia em geral como “termômetro” para medir a situação espiritual do povo. Quando os sacerdotes se desviavam desse propósito, as conseqüências eram fatais. No 8º século a.C., temos um grave e desolador problema na vida espiritual de Israel (reino do norte): Os sacerdotes não ensinavam mais a lei e o povo, ao longo dos anos, prosseguia em seu caminho de desobediência. Deus demonstra por meio de Oséias (c. 750-723) que o povo era a expressão viva do sacerdote, ainda que, ironicamente, por vezes o povo o acusasse: “O teu povo é como os sacerdotes aos quais acusa…. como é o povo, assim é o sacerdote” (Os 4.4,9). Por outro lado, também é verdade que o povo tornara-se surdo ao apelo divino (Os 8.12; 12.10,13; 2Rs 17.13).

II. A praticidade da Palavra para o ensino e a educação

O escritor da epístola aos Hebreus declara que “A Palavra de Deus é viva e eficaz” (Hb 4.12). A Palavra de Deus é uma verdade tão viva agora quanto o era quando foi revelada por Deus aos seus servos, que a registraram inspirados pelo Espírito Santo. Ela continua com a mesma eficácia para os questionamentos existenciais do homem moderno. Nosso problema no século 21 – e até mesmo muitos de nós cristãos – é que, com freqüência, sem percebermos, trocamos os preceitos da Bíblia por conselhos de revistas e livros, por modismos veiculados pelos meios de comunicação; substituímos a Bíblia pela psicologia, filosofia, sociologia, antropologia e até mesmo, astrologia, colocando-as como o nosso parâmetro de comportamento, em detrimento da inerrante, infalível Palavra de Deus, que é a verdade viva e eficaz de Deus para nós. Isso tudo nós fazemos alegando estar sendo práticos, esquecendo-nos de que toda e cada parte do ensino bíblico é urgente e necessariamente prático, relevante para nós.

Quando adotamos essa “prática” contemporânea que destoa das Escrituras, cometemos uma total inversão de valores: assimilamos os conceitos humanos que, quando corretos, nada acrescentam à Palavra mas que, na realidade, na maioria das vezes, estão totalmente equivocados, porque desconhecem a dimensão do eterno, os valores celestiais para a nossa vida aqui e agora e, por isso mesmo, apresentam ensinamentos mundanos, frutos de uma geração corrompida. Tais conceitos assumem na vida da igreja um papel orientador. A igreja, ao contrário disso, é chamada a ser uma antítese ativa contra os valores deste século; ela é convocada a viver a Palavra, a considerá-la como de fato é, a Palavra infalivelmente viva e eficaz para a nossa vida, a Palavra final de Deus para a nossa existência terrena.
A lei de Deus continua sendo o princípio norteador de toda a vida cristã. Deus continua ordenando que nós não adulteremos, não roubemos, não matemos, que honremos os nossos pais, que o adoremos com exclusividade…  O que pode fazer uma igreja que preza a Palavra de Deus senão promover o seu ensino e, mais amplamente, promover uma educação calcada nos preceitos do Senhor?
III. A Reforma e a Educação[1]

A. Calvino e John Knox

Calvino[2] criou uma Academia em Genebra (1559), atingindo alunos estrangeiros vindos de vários países da Europa. A Academia tornou-se grandemente respeitada em toda a Europa; o grau concedido aos seus alunos era amplamente aceito e considerado em universidades de países protestantes como a Holanda.

John Knox[3] (1515-1572), após estudar em Genebra, desenvolveu para a Escócia um plano educacional que contribuiria para o progresso do país nas áreas material e espiritual,[4] tendo a Bíblia como tema principal de estudo. A igreja pagaria as despesas dos alunos. A partir desse plano o Parlamento escocês aprovou em 1646 a criação de uma escola para cada região, seguindo indicação do presbitério, votando-se verba para salário dos professores. Aqui houve uma cooperação entre a Igreja e o Estado, estando a supervisão das escolas e professores entregue à Igreja. Este sistema, tão bem sucedido na Escócia, só viria sofrer alterações significativas no século 19.

B. João Amós Comênio

João Amós Comênio (Comenius)[5] (1592-1670), foi batizado com esse nome em homenagem ao pré-reformador João Hus[6] (lição 8) e iniciador da Igreja Morávia (Irmãos Unidos).[7] Aquele que seria conhecido como “Pai da Didática Moderna”, teve uma vida difícil: órfão aos 12 anos (1604), foi acolhido por uma tia paterna. Nesse período pôde estudar na escola dos Irmãos Unidos (1604-1605). Somente aos 16 anos (1608) é que entrou para a escola latina de Prerau. Em 1611 ingressou na Universidade de Herborn e em 1613 foi admitido na Universidade de Heidelberg (Alemanha), onde estudou teologia. Em 26 de abril de 1616 é ordenado pastor. Desde 1618 exerce o pastorado na cidade de Fulnek, na Morávia. No entanto, com a invasão da Boêmia e de sua cidade, que é saqueada e queimada, Comênio é proscrito em 1621, perde sua biblioteca e manuscritos e, o pior: sua mulher, grávida, e seus dois filhos, morrem vitimados pela peste. Ele passou a ter uma vida errante pela Europa. No entanto, apesar de suas tribulações, Comênio pôde produzir uma obra vastíssima ligada especialmente à educação (mais de 140 tratados), sendo o seu principal trabalho – que resume bem a sua obra –, a Didática Magna(escrita em 1632 e publicada em latim em 1657). O método audiovisual encontrou a sua origem em Comênio, também chamado de o “evangelista da moderna pedagogia”.[8] Ele foi o último bispo da Igreja dos Irmãos Boêmios (1632).

Comênio foi o filósofo da educação e o educador mais notável do século 17 e um dos mais importantes de toda a História, tendo a sua obra exercido grande influência durante a sua vida e especialmente nos séculos posteriores, sendo um dos incentivadores da Escola Pública. Há evidências de que ele teria sido convidado por John Winthrop Jr. (1606-1676) a presidir o Harvard College (1642), cargo que de fato nunca ocupou. Na realidade, Comênio recebeu ao longo da vida diversos convites, os quais não pôde atender, como o do Cardeal Richelieu da França, da cidade de Hamburgo e de alguns nobres poloneses. Em 1641 Comênio atendeu o convite de Luís de Gerr que, em nome do rei Gustavo Adolfo da Suécia, solicitou-lhe ajuda para reformar o sistema de escola nacional sueco. Em 1656 ele foi, à convite, viver na Holanda, onde passou o resto de seus dias. Morreu em 15 de novembro de 1670. O filósofo luterano G.W. Leibniz (1646-1716), então com 24 anos, dedicou-lhe os seguintes versos: “Tempo virá em que a multidão dos homens de bem te honrará e honrará não somente tuas obras, mas também tuas esperanças e teus votos”.

Conclusão

A forte ênfase que as Escrituras dão ao seu ensino e o lugar de destaque que essa empreitada deveria receber nos lares de Israel, bem como na própria vida nacional do povo escolhido, acompanharão toda a história da igreja, lembrando o povo de Deus de que os termos da Aliança não podem ser esquecidos, ao contrário, devem ser ensinados aos pequeninos e lembrados a todos de todas as idades.
Então, como povo de Deus e, particularmente, como herdeiros da Reforma, carecemos dessa ênfase. E, num país com as raízes que tem o nosso, onde a educação não foi privilegiada desde o começo por não haver uma preocupação com o estudo da Palavra de Deus, essa ênfase haverá de gerar – e é preciso que assim seja – uma preocupação em promover ainda mais a educação. Não basta que sejamos menos iletrados do que o restante da população – como de fato somos. É preciso lutar, como fizeram Calvino, Knox, Comênio, e tantos outros, para promover a educação de todos com base na verdade.
Será a nossa contribuição para reformar não apenas o Cristianismo no Brasil, mas o próprio país e, acima de tudo, será a nossa contribuição para que Deus seja glorificado.
***

[1] Ver: Revista Expressão, tema do trimestre: Cidadania Cristã: uma perspectiva reformada, São Paulo, Editora Cultura Cristã, 1º tri. 2002, lição nº 3.




[4] Planejamento da Educação: Um Levantamento Mundial de Problemas e Prospectivas, Conferências Promovidas pela Unesco, Rio de Janeiro, Editora da Fundação Getúlio Vargas, 1975, p. 4.


[6]Mark A. Noll, Momentos Decisivos na História do Cristianismo, São Paulo, Editora Cultura Cristã, 2000, p. 192; André Biéler, O Pensamento Econômico e Social de Calvino, São Paulo, Casa Editora Presbiteriana, 1990, p. 39.

[7] Cito como curiosidade, que mais tarde, o Regente Feijó tentará trazer os Irmãos Morávios ao Brasil (1836), com o objetivo de trabalhar na catequese dos índios. Contudo, lamentavelmente eles estavam “impossibilitados de atender” o convite. (Ver: Daniel P. Kidder,Reminiscências de Viagens e Permanência no Brasil (Rio de Janeiro e Província de São Paulo), São Paulo, Martins Fontes, (1951), Vol. I, p. 41).

[8] Título da obra de Will S. Monroe, publicada em Boston (1892):Comenius, the evangelist of modern pedagogy.
___________

Fonte: Ultimato

2 de ago. de 2015

Características de uma pedagogia cristã

Por Doris Kieser e Jim Parsons 


Quais são as características de uma pedagogia cristã?

1. É singular. A pedagogia cristã deve reconhecer que cada criança é dotada de forma única e singular, e deve proporcionar a dignidade merecida de alguém que é criado à imagem e semelhança de Deus. Tal dignidade é inegociável. A pedagogia cristã, no que lhe for possível, evocará esses dons em seu processo de ensino/aprendizagem. Como educadores cristãos, nossa esperança e vocação é reconhecer e encorajar esses dons singulares dos alunos e fazê-los desabrochar dentro da comunidade escolar.

23 de mai. de 2015

Prioridades de Pais Cristãos

Por Wallace Jaguaribe

Se lhe fosse concedido as melhores condições socioeconômicas possíveis, que escola você procuraria para seu filho? E, a quem procuraria para ser professor dele? Certamente a resposta seria: a melhor escola e o melhor ou os melhores professores. Se nós, falíveis seres humanos, agiríamos assim, quanto mais Deus - o Todo-poderoso, onisciente, sábio, justo e bom – faria em relação aos pais humanos do Seu Filho. Creio que a escolha foi feita com este mesmo critério: os melhores. Assim sendo, o Senhor viu esta qualidade no casal Maria e José. Pais modelos para um filho perfeito.

21 de fev. de 2015

Catequizando Crianças - uma prática que deve ser resgatada

Por Thomas Magnum

Os símbolos de fé são documentos confessionais de muita importância para as igrejas de herança reformada. Igrejas confessionais devem subscrever o que suas confissões e catecismos dizem, devem observar tais documentos com zelo e apreço. Mas, porque mesmo igrejas confessionais não usam mais seus catecismos para catequizar suas crianças? Claro que existem muitos motivos que podem não estar listados aqui e que você ao ler esse texto pode acrescentar em sua reflexão sobre o tema.

Em minha reflexão sobre o assunto, noto que um dos primeiros motivos para que a utilização dos catecismos com crianças e adolescentes foi esquecida são os efeitos da pós-modernidade, o pragmatismo trouxe a igreja costumes que são estranhos a sua história, com isso não quero dizer que devamos estar alienados das mudanças de nossa época, pelo contrário ao publicar esse artigo em um blog estamos na esfera tecnológica que muito nos ajuda e facilita a propagação de ideias e pode ser utilizada também como uma ferramenta para o reino de Deus, podemos glorificar a Deus com tais meios a nossa disposição.

Ao falarmos da reutilização de catecismos com nossas crianças muitas vezes poderemos ser taxados de antiquados e retrógrados, afinal isso pode ter funcionado no passado agora não funciona mais, será mesmo? Ao final de um período de estudos na escola a criança passa por um processo avaliativo que comumente é chamado de prova, lembro-me de ter feito quando criança muitas provas orais, tinha que me dedicar mais para estas e minha mãe me fazia muitas perguntas referentes ao tema para que eu pudesse memorizar o assunto e tirar uma boa nota. Semelhantemente é a utilização de catecismos, ao estudar para provas orais minha memória era mais exigida pelo momento,  lembrava quando necessário (no momento da prova) das respostas a serem ditas a minha professora. E porque então não catequizamos mais as crianças?

Devido a tantos planos e métodos de aprendizagem desenvolvidos por estudiosos da área da educação o modo de ensino foi e tem sido muito alterado e muitas vezes com boas contribuições, mas em outras nem tanto. Vejamos o que a Palavra de Deus nos diz sobre o ensino religioso que deve ser realizado com as crianças:

Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor. Amarás, pois, o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças. E estas palavras, que hoje te ordeno, estarão no teu coração; E as ensinarás a teus filhos e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e deitando-te e levantando-te. Também as atarás por sinal na tua mão, e te serão por frontais entre os teus olhos. E as escreverás nos umbrais de tua casa, e nas tuas portas. Deuteronômio 6:4-9

O ensino religioso deve ser algo presente e constante na vida das crianças da igreja, em muitos casos pais cristãos acham que a responsabilidade última da educação religiosa de seus filhos é dever dos professores da escola bíblia dominical ou do departamento infantil da igreja, mas, essa passagem de Deuteronômio nos diz que essa tarefa é inicialmente dos pais, é responsabilidades dos pais educarem seus filhos nos caminhos do Senhor. Lembramos de imediato das palavras da Sagrada Escritura “Educa a criança no caminho em que deve andar; e até quando envelhecer não se desviará dele” Provérbios 22:6.

Em muitos casos no momento em que chega a hora do sermão do pastor no domingo as crianças são retiradas do templo, não para ouvirem um sermão para elas, o que não sou contrário, mas, para serem entretidos com brincadeiras ou assistirem desenhos e se distraírem com brinquedos. Toda pedagogia empregada na educação cristã deve ser redentivo, ou seja, deve ter um motivo, uma finalidade, todo ensino infantil devem levar as crianças a Jesus e a salvação, devem comunicar o Evangelho para elas, deve mostrar a criança desde novinha que ela é uma pecadora e que Jesus morreu pelos pecados do seu povo. A utilização dos catecismos nesse processo educativo é muito importante, pois a criança será educada de forma sistemática, aprendendo o que a Bíblia diz sobre a Bíblia, sobre Deus, Jesus, a Trindade, o pecado, o Juízo, a igreja, a salvação. A reutilização da catequeze com crianças é saudável para uma igreja que deseja ver suas crianças crescerem na graça e conhecimento do Senhor.

Embora vivamos num tempo que as pessoas não suportem autoridade, inclusive na igreja, é com certeza previsto que existe muita resistência a utilização de catecismos com crianças, justamente por causa dos modelos pedagógicos que tem sido ditados pela academia. Diante de estudos recentes da psicopedagogia, dizer a uma criança que ela é pecadora é um ultraje. No entanto a Palavra de Deus é que rege seu povo, podemos usar as ferramentas da pedagogia a serviço do reino, e elas podem ser empregadas para uma catequeze mais dinâmica com as crianças, utilizando recursos audiovisuais e as demais ferramentas disponíveis para um aprendizado eficaz, no entanto ainda se faz necessário a utilização da catequeze com crianças. Que o Senhor nos ajude a cumprirmos nossa tarefa como educadores e não sermos negligentes no cuidado do que Ele nos confiou, não podemos tratar o ensino às crianças da igreja como secundário, eles estão debaixo da aliança de Deus com seu povo e devem ser instruídos nessa aliança.

20 de dez. de 2014

A Adolescência não é um Bicho de Sete Cabeças

Por Luiz Sayão

A adolescência é marcada por crises. É a fase entre a criança e o adulto: ora o adolescente é criança, ora “sabe” mais que os pais. Mas essa idade “rebelde e difícil” é normal. Nossos filhos terão de ser eles mesmos, e não poderão ser o que fomos. Até certo ponto, as respostas malcriadas, as críticas e as opções diferentes devem ser vistas como parte do processo natural do adolescente. A verdade é que temos tanta dificuldade quanto eles para nos adaptarmos à nova fase. E talvez sejamos mais inflexíveis do que imaginamos. O fato é que precisamos monitorar as crises normais da adolescência em vez de nos desesperarmos. Se tivermos a expectativa correta, será mais fácil lidar com as crises.

HOJE É DIFERENTE!

Na história humana, todas as culturas enfrentaram o desafio de passar valores para a nova geração. Até certo ponto, o desafio tem sido vencido com sucesso. Todavia, na sociedade contemporânea isso já não ocorre. O fato é que o mundo mudou muito, complicando o processo. Há pelo menos duas diferenças significativas entre o nosso tempo e o dos nossos antepassados que merecem destaque: O Pluralismo de Idéias e a Velocidade das Mudanças Sociais.

O desenvolvimento tecnológico recente permitiu uma veiculação de informações sem precedentes por meios como Rádio, tv, cinema e internet. Além disso, a facilidade de intercâmbio entre diversas culturas é enorme. Essas mudanças, aliadas a outros fatores, levaram o homem de hoje a uma convivência com as mais diversas ideologias. Antigamente, uma pessoa nascia e crescia quase que numa visão cultural monolítica. Hoje, um jovem vê um clip dos “Raimundos” na MTV de manhã, encontra um muçulmano no metrô, “troca ideia” com um “punk” na escola, assiste a aula de arte de uma professora mística, “new-age”, discute com o professor de química ateu e termina o dia escutando a ladainha proselitista de um “dinossáurico” marxista, que afirma que Cuba não é tão ruim; e dependendo das circunstâncias, antes de dormir, na TV a cabo, ainda assiste “Os Três Patetas”. Como se vê, a convivência com idéias contraditórias é uma realidade hoje. A verdade é que o adolescente atual pensa de modo diferente. Ele convive tranqüilo com idéias opostas, sem se preocupar com isso. É a pós-modernidade! Muito do desentendimento familiar procede da diferença sem pais e filhos que percebam que cada um funciona num “sistema” distinto: Os pais só “funcionam em AM”, enquanto que os filhos “têm sintonia em FM”.

Além disso, a velocidade das mudanças hoje é rápida demais. As mudanças de hábitos e de idéias antes do mundo da mídia eram bem mais lentas. Hoje, alguém de 25 anos de idade está totalmente “por fora” do que “rola” na cabeça da “galera” de 15 anos. Há 40 anos nossos avós namoravam na frente dos pais e quando pegavam na mão era “o máximo”. Hoje, há adolescente crente que pergunta se há algum problema em “ficar” com alguém. O abismo entre as gerações é enorme. Isso prejudica, e muito, a mútua compreensão entre as duas partes. Isso mostra que é necessário um esforço maior por parte dos pais para compreender seus filhos.

OS PERIGOS DO MUNDO ATUAL

A adolescência é preciosa, pois nela se tomam decisões importantes na vida. Especialmente hoje, uma escolha errada nessa época da vida pode ser fatal. Vivemos em tempos difíceis. A violência juvenil atinge números alarmante, o sexo virou mercadoria barata e fácil. Um “pequeno erro” pode custar a vida de um jovem. As drogas estão por toda parte e produzem danos irreparáveis. Grupos de extremistas, revoltados, fanáticos, etc. lutam pelas cabeças de nossos filhos. Aborto, homossexualismo e amor livre viraram “papo cabeça” da “galera sem preconceito”. O que precisamos entender é que se bobearmos, nossos filhos podem tomar uma direção errada; e hoje os riscos são mais sérios do que os do passado. É preciso ter bom senso, pois muita liberdade pode ter conseqüências terríveis. Por outro lado, proibição sem diálogo e convivência tranqüila também não darão resultado.

O QUE FAZER? 

1. COMEÇANDO CEDO.

“Corrija os seus filhos enquanto eles têm idade para aprender” (Pv 19.18a – BLH). Essa lição é muito esquecida pelos pais brasileiros. Um dos defeitos do brasileiro é tentar resolver tudo “de última hora”. Só começamos a pensar na adolescência, quando os filhos já estão nela. Temos uma fé ingênua de que no fim tudo “dará certo”. Por isso, enquanto os filhos têm entre 9-12 anos não nos preocupamos, pois tudo está sob controle (afinal, eles são uma gracinha, não são?). Todavia, é nessa época que se prepara o filho para a adolescência, antes que ela vire “aborrecência”. Mas, em muitos casos, conversamos pouco com os filhos, desconhecemos seus gostos e interesses, pouco sabemos sobre o “papo” deles com os amigos, e sobre seus sonhos. Se eles são comportados, e nós lhes damos comida, roupa, escola, sabemos que tudo está indo bem. O fato é que o segredo de uma boa adolescência está no trabalho feito antes que ela chegue.

2. EVITANDO A RUPTURA

“Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, …; quem o conhecerá?” (Jr 17.9). Muitos conhecem o texto e gostam de aplicá-lo aos outros! Mas será que paramos para pensar sobre como o nosso coração nos engana?

Quando nos tornamos pais e passamos a criar os filhos não sabemos fazê-lo automaticamente, nem resolvemos todos os problemas. A verdade é que a maioria empreende tal tarefa sem ter idéia da complexidade da mesma. Muitos são os perigos que enfrentamos nessa jornada; às vezes nem os percebemos:
Tendemos a repetir inconscientemente os erros de nossos pais. Corremos o risco de agir e reagir conforme o padrão presenciado e vivido por nós mesmos.

Dificilmente tratamos os filhos de modo igual. Muitas vezes a semelhança física ou psicológica com um filho pode levar um dos pais a protegê-lo. Às vezes, a ruptura entre os pais favorece a polarização dos filhos. O problema é pior quando o filho liga-se demais à mãe, e a filha, ao pai.

O pai brasileiro tende a ser distante dos filhos (pois assim foi criado), entendendo que deve trabalhar e “pôr dinheiro em casa”.

A mãe corre o risco de ser muito “tolerante” e proteger os filhos nos conflitos com o pai. Muitos filhos têm a mãe como confidente, e o pai como adversário.
Os pais frustrados no casamento inconscientemente transformam os filhos num foco de realização pessoal, já que a relação fracassou.

Esses são alguns dos problemas que podem ocorrer. Precisamos encará-los, procurar resolvê-los sob a graça de Cristo, não permitindo que se tornem uma “herança maldita” para os filhos. É na adolescência que surge a ruptura entre pais e filhos, mas a raiz existe antes. Quando o filho começa a fazer tudo diferente dos pais, ou a agir para chocar e chamar a atenção, a coisa está grave. Muitas vezes um dos pais tem uma ruptura acentuada com um filho, enquanto que o outro o defende.

Às vezes a diferença não é problema. Os pais mal preparados desconfiam demais dos filhos, fazem muita crítica, não reconhecem qualidades. Há casos em que o pai é médico, o filho quer ser músico; o pai não aceita. A mãe é bióloga, a filha quer ser alpinista; a mãe se decepciona. A frustração pode transformar-se em “pequenas vinganças” contra os filhos que não fazem a vontade dos pais; e a ruptura aumenta. Precisamos detectar quaisquer sinais de ruptura e com humildade corrigir o problema enquanto há esperança.

3. IDÉIAS CRIATIVAS E REALISTAS

Muitos pais acordam tarde e começam a reclamar dos sintomas de problemas maiores. O choque é grande: Pastor, meu filho quer usar brinco; minha filha quer ir num “baile evangélico”; meus filhos estão ouvindo músicas de louco; o Júnior não sai da internete; minha filha é louca pelo Ricky Martin; será que o Ricky Martin é a Besta?, ou besta é quem gosta das músicas dele?

Nossos filhos jamais reproduzirão exatamente o que somos. Antes dos Beatles, as pessoas passeavam de terno e gravata! Hoje ninguém acha estranho usar tênis, jeans e mascar chicletes. Tudo isso já foi marca de rebeldia. Muitos evangélicos falam mal da “música mundana”, especialmente do rock, e depois copiam tais ritmos e melodias e as tornam “santas”. Por que tal contradição? Há várias maneiras de ser contemporâneo no mundo atual. Nós precisamos descer ao nível de nossos filhos, saindo de nossa “fossilização” para ajudá-los a fazer escolhas razoáveis. Não adiante sonhar com Bach e Chopin como alvos do futuro. Sejamos práticos:

Sabendo que meus filhos estão entrando na adolescência e que vão se interessar por música popular, eu preciso começar a ouvir essas música e conversar com eles. Uma coisa é gostar de Toquinho, outra coisa é “curtir” o Tchan. É muito diferente ouvir um Dairy Straits e um Sepultura. Não existe apenas “música mundana”. Existem músicas boas e ruins, construtivas e destrutivas. Se formos amigos de nossos filhos nessa fase, eles farão boas escolhas. Fale a língua deles: “quem gosta disso aí tá por fora, isso é baixaria pura “.

O mesmo ocorre com os filmes e outras atividades. É preciso manter o diálogo constante e franco com os filhos. Encerrando, gostaria de deixar dicas importantes que não podem ser esquecidas:

* Nunca perca a comunicação com os filhos. É melhor ser ofendido por um filho franco do que perdê-lo.

* Mantenha vigilância constante sobre uma possível ruptura com seu filho.
Não critique com raiva e amargura o esposo (a) para os filhos.

* Assista e ouça aquilo de que seus filhos gostam.

* Fuja da contradição. Mães “noveleiras” e pais “fanáticos por futebol e filmes violentos” não têm moral para criticar.

* Comece a trabalhar cedo nos filhos.

* Seja espiritual e espirituoso. Mostre seu cristianismo de maneira natural. Não tenha espiritualidade fabricada. Seja descontraído e aprenda a ser brincalhão e amigo dos seus filhos, sem perder a autoridade.