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8 de jun. de 2016

Resenha do Livro Super Ocupado

Por César Augusto

O título do livro é bem chamativo. Vivemos super-ocupados. O livro não é uma fórmula mágica que resolverá a sua vida. O autor deixa isso bem claro: "Não prometo uma transformação total". O propósito do autor é oferecer ideias práticas e conselhos bíblico-teológicos para "enfrentar nossos horários" e proporcionar "muito encorajamento para a nossa alma". A divisão do livro é simples, e ajuda na compreensão:

1) Três perigos a evitar (Cap 2)
2) Sete diagnósticos a considerar (Cap 3-9)
3) Uma coisa que você deve fazer

CAPÍTULO 1

No primeiro capítulo Kevin[1] diagnostica o problema dos tempos modernos, "Vivemos ocupados". Ele relata a história de uma mulher estrangeira que foi viver nos Estados Unidos, e se apresentava como Senhora Busy (ocupada), pois era a palavra que ela mais ouvia em solo americano. O ponto central do capítulo é que, todos nós vivemos ocupados, uns mais e outros menos.

No mundo globalizado, e principalmente nos países industrializados, o ritmo de vida é frenético. Vivemos super-ocupados, reclamamos da falta de tempo, por consequência, não planejamos bem nossos compromissos, desperdiçamos tempo com coisas triviais, e a sensação é de que a vida está nos devorando aos poucos. Sentimo-nos dentro da areia movediça, e, quanto mais tentamos escapar, mais afundamos. Tudo isso gera "stress, irritabilidade, mau humor, negligência", coisas que não são boas para a nossa convivência na família, na igreja, no trabalho e na sociedade.

CAPÍTUL O 2

No segundo capítulo, DeYoung trata de três perigos que devemos evitar: Estar ocupado demais pode roubar nossa alegria;  Ocupação desenfreada pode roubar nosso coração; E o ativismo pode encobrir nossa podridão.

1) Estar ocupado demais pode roubar nossa alegria, pois quem quer fazer tudo, acaba não fazendo nada. Quem tudo quer, nada consegue. Geralmente acordamos tentando "sobreviver, e não servir". O autor utiliza-se do termo, "doença da pressa"[2],  para descrever o quão mal estamos. A frase de Tyler Durden , do filme Clube da Luta, retrata bem a nossa época: "Trabalhamos em empregos que odiamos para comprar porcarias que não precisamos". Trabalhar demais, para comprar coisas demais, não significa que estamos felizes. O único que pode, e deve ser nossa fonte de alegria é Cristo. Lembremo-nos da advertência de Cristo: "Porque, onde estiver o teu tesouro, aí também estará o teu coração" (Mt 6:21.

2) A ocupação desenfreada pode roubar nosso coração. Segundo Kevin, a ocupação mata os cristãos espiritualmente. Não temos limites em nossas vidas. Temos mais oportunidades do que qualquer outra época na história da humanidade. Não havia eletricidade na época de Lutero e Calvino. Jesus não tinha carro para ir de uma cidade para outra.  Nas palavras de Kevin, a ocupação desenfreada é como o pecado: "Mate-o ou ele vai matar você".

3) O ativismo, aliado a moralidade pode esconder a podridão do nosso coração. O moralismo é o pai da falsa santidade. O ativismo pode nos levar a ter reputação, porém, nas palavras do grande pregador Moody, "Caráter é o que você é na escuridão". Enganamo-nos a nós mesmos, se nos esconder atrás do ativismo, principalmente o "ativismo religioso". Deus conhece os nossos corações (Sl 139:23-24).  Ocupação, segundo Kevin, não significa que você "seja um cristão fiel e frutífero". Devemos buscar ser fiéis nas pequenas coisas. Se não somos fiéis nas pequenas coisas, como esperamos fazer grandes coisas? E mesmo que fossemos pastores, pregadores, seminaristas, obreiros ocupados na obra de Deus, é importante a advertência da Escritura: "Somos servos inúteis, pois fazemos apenas aquilo que o Senhor manda" (Lc 17:10). A verdade é que, muitos de nós, nem de inúteis podemos ser chamados, portanto, examinar nosso coração é crucial para não cairmos na armadilha do ativismo.

CAPÍTULO 3

No terceiro capítulo, Kevin trata das várias manifestações de orgulho (1º Diagnóstico) dos nossos corações: querer agradar os outros, a necessidade de aprovação, provar nossa capacidade,perfeccionismo, louvor dos homens entre outras coisas. Como Calvino afirmou, o coração humano "é uma floresta de espinhos". O orgulho é como um "vilão de mil caras". Temos que clamar pela graça de Deus, a fim de que o orgulho seja extirpado dos nossos corações. Segundo o autor, o orgulho se manifesta nos nossos corações, porque "estamos mais preocupados em parecer bem do que fazer o bem". A Escritura é bem enfática: "Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes". (Tg 4:6)

CAPÍTULO 4

Queremos fazer a diferença no mundo, às vezes, temos a síndrome do "super-crente" (2º Diagnóstico). Entretanto, Deus não te chamou para ser um super-crente, como foram Spurgeon, Edwards, entre outros. Deus te chamou para ser fiel, seja nas pequenas ou nas grandes coisas. Kevin diz que o "terror da obrigação total" pode trazer frustrações, decepções e angústia. Como remédio para este terror, ele mostra o exemplo de Jesus.  Nossa missão é servir a Deus servindo as pessoas, valorizando e servindo na Igreja. Orare e Labutare - orar e labutar; Deus dará os resultados conforme lhe aprouver, porém, temos de labutar, trabalhar, não ficar estagnados. Grande é a seara? Sim! Poucos são os obreiros? Sim! Contudo, você não pode fazer tudo. Temos diferentes dons e chamados. Deus usa cada um conforme seus dons, e nisto vemos a "multiforme sabedoria de Deus" (Ef 3:10).

CAPÍTULO 5

Para servir as pessoas, você precisa estabelecer prioridades, este é o terceiro diagnóstico. Kevin dá um conselho prático:

Você tem que estabelecer prioridades. Você não é o Superman. Você não pode ajudar todas as pessoas ao mesmo tempo. Você não pode fazer tudo nem conseguirá fazer tudo. Estabeleça prioridades, prefira as coisas excelentes às coisas boas. Entre servir sua família, ou algum irmão devemos escolher a família. Como disse Paul Washer: "Que proveito tem ao homem, ganhar o mundo, e perder sua família. Se estabelecermos prioridades, poderemos servir melhor- seja nossa família, igreja, amigos, etc.

CAPÍTULO 6

No sexto capítulo, DeYoung trata da puerigarquia, isto é, a noção de que os pais tem que dar tudo para seus filhos, como se o futuro dos filhos dependesse dos pais. O autor cita estudos de autores não cristãos que evidenciam que nos tempos modernos, a vida gira em torno dos filhos, e isto leva os pais a trabalharem demais, e viverem estressados. O futuro dos nossos filhos depende da providência divina. Kevin mostra que, segundo a Bíblia, nossa missão é ensinar nossos filhos sobre Deus (Dt 6:7; Pv 1-9) e discipliná-los (Pv 23:13; Hb 12:7-11).  Não existem pais perfeitos nem tampouco filhos perfeitos. O legalismo pode levar os pais provocar ira em seus filhos (Ef 6:4). O argumento de Kevin neste capítulo é que, o futuro dos nossos filhos depende de Deus. Falharemos, erraremos, pecaremos, porém, Deus é misericordioso e gracioso, tanto para nos dar graça na criação dos pequeninos, como para guiar a vida deles.

CAPÍTULO 7

No sétimo capítulo, Kevin trata dos perigos da internet. Ele diz que estamos deixando a tela estrangular nossa alma. Corremos o perigo de estar viciados, de maneira que a internet controla nossas vidas, e isto pode nos levar a acédia (indolência e esfriamento espiritual). Kevin aconselha que temos de utilizar a internet para nosso benefício, estabelecer limites. Não podemos viver em função da internet.  Ele nos encoraja a utilizar as "tecnologias antigas", isto é, existe vida fora da internet, e temos que viver. Ele encerra o capítulo mostrando que a internet trouxe-nos a falsa sensação de que "somos onicompetentes, oni-informados e onipresentes", porém, isto é uma grande ilusão.

CAPÍTULO 8

No oitavo capítulo, Kevin alerta algo que, muitas vezes, nos esquecemos, precisamos descansar. Deus estabeleceu um dia de descanso na criação. Ele brevemente trata a questão do sábado, dizendo que "a parte mais importante quanto ao mandamento do sábado é que devemos descansar somente em Cristo como nossa salvação". Não entrarei aqui no debate em relação à guarda do Dia do Senhor, uma vez que este assunto é profundo e um livro não seria suficiente para tratar sobre o mandamento. Pontuo aqui que é a tradição da igreja, desde os tempos dos pais da Igreja à guarda do Dia do Senhor. Para aqueles que querem se aprofundar no assunto, podem estudar o período da Patrística, a Reforma Protestante, o puritanismo, as grandes confissões e os catecismos reformados. Kevin diz que "se quisermos continuar correndo, temos de aprender a parar", pois, muitas vezes, "o descanso é o antídoto de que realmente necessitamos". Não podemos misturar trabalho e lazer, levar trabalho para casa. Precisamos relaxar, pois Deus nos deu o sono (Sl 127:2). Kevin cita um sermão de Don Carson: "Ás vezes, a coisa mais piedosa que você poderá fazer é conseguir dormir bem por uma noite - não é orar a noite toda, mas dormir".

CAPÍTULO 9

O nono capítulo é um chamado para abraçarmos o sofrimento. Tal capítulo é um antídoto contra à teologia da prosperidade, que leva as pessoas a pensarem que servir a Jesus é ter uma vida sem problemas, sem doenças, sem provações, sem frustrações entre outras coisas. A vida não é um conto de fadas, se quisermos servir a Jesus precisamos estar dispostos a tomar a nossa cruz  (Mt 10:38 ), ter bom ânimo ( Jo 16:33 ) para vencer o mundo. Se Jesus vestiu uma coroa de espinhos, por que você espera uma vida fácil na terra? Se Paulo e os apóstolos sofreram, por que esperamos uma vida de comodismo?  Como diz Lewis: "o sofrimento é o megafone de Deus". Deus fala por meio do sofrimento". A vida não é fácil para ninguém, passaremos por muitas tribulações e angústias, porém, nenhuma delas se compara ao peso da eternidade que nos aguarda.

CAPÍTULO 10

No último capítulo, Kevin fala da única coisa que precisamos, e temos que fazer. Temos que ter uma vida devocional. Orar e ler a Bíblia diariamente. Kevin diz que "não podemos ficar lendo livros ou escutar sermões o dia todo". E isto é verdade, além da nossa vida espiritual, temos uma vida nessa terra. Temos que trabalhar, levar o lixo para a fora, cuidar dos filhos, ir para a faculdade, entre outras coisas. Todos nós vivemos semanas de loucura, frenéticas, porém, lendo a Bíblia e orando diariamente, Deus cuidará de nós. A coisa mais importante da nossa vida é, segundo Jesus, que "nem só de pão viverá o homem, mas de tudo o que procede da boca do Senhor" (Mt 4:4). Precisamos desesperadamente correr para Jesus, pois num mundo onde todos vivem ocupados, cansados e fatigados, Ele é o único que pode nos dar descanso (Mt 11:28). Encerro esta resenha com as palavras de Agostinho:

"Já li, Sócrates, Platão e Aristóteles, mas em nenhum deles li: Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei".


***

Notas

[1] Kevin DeYoung é o pastor da University Reformed Church em East Lansing, Michigan. Obteve sua graduação pelo Hope College e seu mestrado em Teologia pelo Gordon-Conwell Theological Seminary. É preletor em conferências teológicas e mantém um blog na página do ministério The Gospel Coalition. Ele é autor de vários livros, incluindo Qual a Missão da Igreja, Faça Alguma Coisa, Não quero um Pastor Bacana, Por que Amamos a Igreja e Brecha em nossa Santidade.

[2] "doença da pressa": Terminologia usada por Tim Chester, autor do livro The Busy Christian's Guide to Busyness, [Guia de ocupação do cristãos ocupado]. O autor é citado por Kevin, no segundo capítulo do seu livro, na página 21.

14 de nov. de 2015

A tolerância que Jesus não tolera

Por Kevin DeYoung

Cristãos não devem ser tolerantes com tudo, uma vez que Deus não o é. Nós podemos respeitar opiniões diferentes e tentar entendê-las, mas não devemos afirmar incondicionalmente e sem avaliação toda crença e comportamento, por que Deus não faz isso. Nós devemos amar o que Deus ama. Foi aí que Éfeso falhou. E devemos odiar o que Deus odiou. Aí que Tiatira falhou.

27 de ago. de 2015

Uma forma simples de encorajar seu pastor

Por Kevin DeYoung 

Eu  decidi escrever esse post agora, enquanto ainda tenho quatro semanas de férias de verão, para deixar claro que estou fazendo comentários genéricos sobre o ministério pastoral, não tentando receber mais elogios do meu rebanho. Eu sirvo em uma igreja muito boa, e nada nesse curto texto deve ser lido como qualquer tipo de reclamação indireta.

Esclarecimentos feitos, aqui vai uma coisa simples e muito importante que você pode fazer para encorajar seu pastor: diga a ele que você é grato por sua pregação.

15 de jun. de 2015

O que a Bíblia diz sobre nascer gay?

Por Kevin DeYoung

Essa é uma questão complicada e muito dela depende do que nós queremos dizer com essa frase. Assim, vamos lidar com a pessoa que diz “eu nasci gay” e que afirma que houve alguma causa genética para sua atração por pessoas do mesmo sexo. Eu responderia que nós podemos examinar a literatura científica mais recente, que não apoia com muita força essa conclusão. Na verdade, o discurso oficial das principais associações psiquiátricas ou psicológicas dirá que nós não sabemos ainda de uma causa definitiva e que é provavelmente uma mistura de inato e adquirido. Assim, quaisquer relatos sobre um suposto “gene gay” são grandemente exagerados. Essa é uma coisa nós poderíamos dizer.

28 de abr. de 2015

9 marcas de uma igreja doente

Por Kevin DeYoung

Graças a Mark Dever, muitos de nós estão acostumados com as 9 Marcas de uma Igreja Saudável. Por mais que a intenção nunca tenha sido a de dar a palavra final sobre tudo que uma igreja deve ser ou fazer, essas nove marcas tem sido de grande ajuda ao lembrar os cristãos (e os pastores em especial) do conteúdo necessário que muitas vezes nos esquecemos por viver em uma época guiada pela estética.

De certa forma, as nove marcas de uma igreja doente poderiam simplesmente ser o oposto de tudo aquilo que torna uma igreja saudável. Assim, igrejas doentes ignoram membresia, disciplina, pregação expositiva e todo o resto. Mas os sinais dos males da igreja nem sempre são tão óbvios. É possível que sua igreja ensine e entenda todas as coisas certas e mesmo assim esteja em um estado terrivelmente doentio. Sem dúvidas, há dezenas de indicadores de que uma igreja se tornou disfuncional e doentia. Mas vamos nos limitar a nove.

25 de fev. de 2015

A Igreja Copta e O Concílio da Calcedônia

Por Kevin DeYoung

Em 14 de fevereiro, vinte e um cristãos egípcios foram brutalmente decapitados por radicais muçulmanos que trabalham para o Estado islâmico na Líbia. A Igreja Ortodoxa Copta anunciou ontem que as vinte e uma vítimas serão inseridas no Synaxarium (lista oficial da Igreja Oriental dos mártires) e serão celebrados no calendário da igreja como mártires e santos. Os cristãos de todos os matizes denominacionais e doutrinais expressaram indignação, tristeza e um sentimento de unidade com seus irmãos caídos.

O que leva a uma importante questão: como devemos ver a Igreja Ortodoxa Copta?

Esta não é uma pergunta ruim, desde que seja abordada corretamente. Deixemos de lado a questão do que os vinte e um mártires entendiam sobre monofisismo. Isso não é sem importância, mas, tanto quanto eu sei, é uma informação é inatingível. Além disso, o que é mais necessário neste momento é de oração pela igreja perseguida e simpatia para o sofrimento. Pensando sobre esses homens que morreram por causa de sua fidelidade a Cristo, os homens que pertenciam a uma das mais antigas igrejas do mundo.

No entanto, talvez agora seja o momento adequado para considerar de forma mais ampla e pensar com mais cuidado sobre o porquê de alguns consideram a Igreja Ortodoxa Copta de ser, digamos, bem pouco ortodoxa. Ao participar de um painel de discussão na Ligonier, na semana passada, uma das primeiras perguntas que foram feitas foi acerca dos vinte e um mártires coptas e a heresia do monofisismo. Então, vamos dar um passo para trás e tentar entender a história e teologia por trás do que pode ser a mais antiga cisão (formal) na igreja.

Duas naturezas, sem divisão

Para contar a história corretamente, temos que começar com um homem com o nome de Nestório. Nestório nasceu algum tempo depois de 351 e morreu pouco antes de 451. Ele era o patriarca de Constantinopla. Seu ensinamento foi condenado pelo terceiro Concílio Ecumênico de Éfeso em 431. Não está claro se Nestório foi realmente um Nestoriano. O que está claro é que Nestório não era muito cuidadoso em sua teologia e não se saiu muito bem quando foi colocado no local para defender seus pontos de vista.

Nestório, como a maioria dos hereges, tinha a intenção de preservar a verdade. A maioria dos hereges antigos não partiu para perturbar a igreja ou ensinar uma doutrina falsa. Eles não eram como Bart Ehrman com um machado para moer, ou como Richard Dawkins, com uma agenda anticristã. A maioria dos hereges na história da igreja estavam tentando ser bíblicos. Eles teriam sido os cristãos professos, com preocupações genuínas, que receberam as doutrinas fundamentais erradas e cujos seguidores tem coisas ainda mais erradas.

Nestório estava preocupado porque as pessoas estavam chamando Maria "a portadora de Deus" (Theotokos). Suas preocupações provavelmente não eram totalmente sem bases. Portadora de Deus é um título apropriado para Maria, mas somente se a ênfase é sobre o Filho e não Maria. Isso já aconteceu uma vez, e muito provavelmente estava acontecendo nos dias de Nestório também. Tanto que algumas pessoas tomaram o passo perigoso e a frase "Maria, a portadora de Deus" passou para "Maria, a Mãe divina de Deus." Theotokos é um termo apropriado, mas apenas com as qualificações adequadas.

Nestório contestou este título popular. Ele podia admitir que Maria deu à luz a alguém e que esse alguém era Jesus de Nazaré. Mas ele achava que ela deu à luz apenas a natureza humana de Cristo. Como poderia a natureza divina nascer? Divindade é eterna. Ele não pode ser “dado à luz”. Então, Maria, disse Nestório fundamentado, poderia ser a mãe de Jesus, mas não a mãe de Deus. Se ela foi mãe de Deus, logo o Filho de Deus nasceu, fazendo dele uma criatura com um princípio, e fazendo-nos em nossa adoração culpados de arianismo e de violar o segundo mandamento.

Solução: Nestório, ou pelo menos a solução teológica que se apegou ao seu nome, defendeu a existência de uma parede divisória entre as duas naturezas. Ele sabia que o filho era Deus, e ele sabia que o filho era um homem. Então Maria deve ser a mãe de uma metade de Jesus, mas não da outra. Ela deu à luz a um homem que estava acompanhado pelo Logos. As duas naturezas de Cristo coexistem, não numa união hipostática, mas em uma espécie de parceria relacional.

Nestório foi contestado por Cirilo de Alexandria (378-444), o apologista brilhante e seu inimigo implacável. Ele fez dois argumentos contra Nestorianismo:

1) Se Maria não é Theotokos , em seguida, em vez de a encarnação do próprio Deus, temos um ser humano que nasce com o Logos divino. Em outras palavras, se Maria não é a portadora de Deus, então devemos entender a encarnação como algo diferente do que Deus tornando-se homem. Temos Deus vindo ao lado de um homem. Já não temos o Deus-homem Cristo Jesus. Nós temos Jesus Cristo, um homem com Deus nele. Assim, no Nestorianismo, Deus está em Cristo quase do mesmo modo que Deus está em nós. A diferença não é ontológica; é apenas uma questão de grau. O Nestorianismo acaba fazendo muito pouco de Jesus e muito de nós.

2) Se Maria não é Theotokos , a relação de Cristo com a humanidade é alterada. Apenas a cristologia ortodoxa permite uma verdadeira redenção do homem caído. O problema do Nestorianismo não estava com as duas naturezas, mas com uma pessoa. Cristo é totalmente Deus e totalmente homem no Nestorianismo, mas ele não parece ser uma pessoa. Em vez de duas naturezas em uma só pessoa autoconsciente, as duas naturezas estão ao lado da outra numa união moral e simpática. A lógica de Romanos 5:19 -que nossa salvação é realizada através de "obediência de um só homem" - não se sustenta. É somente através de um só homem, Jesus Cristo, a união da humanidade e divindade, que somos feitos justos.

Duas naturezas, sem confusão

Isso nos leva até o Eutiquianismo e aos cristãos coptas. Eutiques foi um monge que viveu em um grande mosteiro de Constantinopla. Ele nasceu por volta de 378 e morreu em 454. Mais uma vez, é difícil determinar o que ele realmente ensinou. Eutiques era, para citar um autor, "um pensador de idade e de mente confusa."

Nós sabemos que Eutiques teve um viés antinestoriano forte. Ele o detestava para cair no erro de dividir a humanidade de Cristo de sua divindade. Assim em vez de divisão, encontramos mo Eutiquianismo uma confusão ou mistura das duas pessoas. Eutiques ensinou que houve apenas uma (mono) natureza ( physis ) em Cristo após a união de sua divindade e humanidade (daí, monofisismo).

Eutiques defendeu a absorção da natureza humana para o divino, a fusão das duas naturezas, resultando em ums terceira coisa (tertium quid) - como misturando amarelo e azul para obter verde. Ele disse que a humanidade de Cristo foi tão unida à sua divindade que a sua humanidade não era a mesma que a nossa (consubstancial). Cristo era "de uma substância com o Pai", mas não "de uma substância com a gente”.

Eutiques era teimoso e não muito cuidadoso na sua teologia. No entanto, ele não estava sem amigos no alto-escalão. Eutiques foi deposto em 448 por um Sínodo liderado pelo arcebispo Flaviano. Eutiques se queixou ao Papa Leão que ele foi tratado injustamente. Leão, depois de algumas idas e vindas, escreveu uma carta a Flaviano onde brilhantemente pesquisou todas as heresias cristológicas e concluiu que Eutiques estava errado. "Em Cristo Jesus", escreveu ele, " não existe humanidade sem verdadeira divindade, nem divindade sem verdadeira humanidade”.

Mas Eutíquio era amigo do imperador Teodósio II. Em um esforço para defender Eutiques, o imperador convocou um concílio em Éfeso, em 449. Os delegados foram muito pró-Eutiques e quando delegados do Papa Leão vieram apresentar seu lado, eles nem sequer foram autorizados a falar. Flaviano foi atacado e espancado, tanto que ele morreu poucos dias depois. O Eutiquianismo foi vindicado, mas toda a reunião foi uma farsa. É agora conhecido como o "Sínodo Ladrão".

Mais tarde, nesse mesmo ano, Teodósio morreu num acidente a cavalo. Sua irmã Pulquéria e seu marido Marciano (não confundir com o herege Marcião) assumiu o trono. Pulquéria concordou que o último sínodo foi uma farsa. Então, a pedido do Papa Leão ela convocou um novo sínodo em Calcedônia, em 451, no que mais tarde seria considerado o IV Concílio Ecumênico. O Primeiro Concílio Ecumênico em Nicéia (325) rejeitou o arianismo; O Segundo em Constantinopla (381) rejeitou o docetismo; o Terceiro em Éfeso (431) rejeitou nestorianismo; e o quarto em Calcedônia (451) rejeitou Eutiquianismo.

A barulheira valeu a pena?

Calcedônia não resolveu tudo. Alguns, no leste ainda não conseguiam engolir a doutrina das duas naturezas de Cristo. O que tornou as coisas mais confusas foi o legado impugnado de Cirilo de Alexandria. Cirilo era uma lenda já em sua própria época, era o porta-estandarte para a ortodoxia. Ele foi o herói que liderou a acusação contra Nestório, assegurando sua condenação em Éfeso em 431. Se você concordava com Cirilo, você era ortodoxo. Se você não concordava, você provavelmente não era. Infelizmente, Cirilo havia se afeiçoado a uma frase antinestoriana inútel: "Uma natureza do Deus encarnado, Verbo encarnado". Ele pensou que essa frase viera de Atanásio, mas a frase, na verdade, veio do herege Apolinário. Cirilo usou a frase como uma forma de salvaguardar a unidade de Cristo contra o nestorianismo. Nos anos posteriores, Cirilo foi muito claro ao dizer que afirmou uma natureza humana completa e aceitava a frase "duas naturezas", desde que não prejudicasse a união das duas naturezas.

Muitos no Oriente, no entanto, incluindo o Egito, terra natal de Cirilo, acreditaram que abraçar Calcedônia, e sua doutrina das duas naturezas de Cristo, era repudiar Cirilo e sua ortodoxia impecável. Isso levou a igreja a se dividir, um milênio antes de quaisquer divisões entre católicos e protestantes. Há seis igrejas conhecidas pela velha Ortodoxia Oriental (ou Igrejas não-calcedôniana): siríaca, copta, etíope, eritreia, malankara (indiana), e armênia. Estas seis igrejas têm uma hierarquia completamente diferente e não estão em comunhão com o resto da Ortodoxia Oriental (sob o Patriarca de Constantinopla) ou com a Roma (sob o Bispo de Roma).

Essas igrejas têm sido chamadas de monofisistas, mas rejeitam o rótulo, afirmando que também negam o Eutiquismo. Elas preferem ser chamadas miafisistas porque querem enfatizar a única (mia) natureza, sem rejeitar a doutrina das duas naturezas de Cristo.

Assim é a Igreja Ortodoxa Copta. É, de fato, ortodoxa? Isso depende de quem você perguntar, especialmente na Igreja Ortodoxa Oriental. Alguns querem sublinhar o fato de que a igreja da antiga ortodoxia oriental ainda repudiam diversos concílios ecumênicos e não adotaram formalmente a Definição de Calcedônia. Outros querem falar sobre o diálogo ecumênico dos últimos anos, em que os líderes da Ortodoxa Oriental e Oriental Ortodoxa concordaram que eles não discordam sobre a doutrina das duas naturezas, apenas na maneira de dizê-la. Pela minha parte, estou disposto a dizer que a não aceitação de Calcedônia não é grande coisa. E, no entanto, não parece nesta insistência, como se continuou afirmando, que a não aceitação é o mesmo que a rejeição pura e simples ou heresia condenável. Há razões históricas e nacionais que podem estar encobrindo uma grande quantidade de unidade no que é essencial nas questões cristológicas.

Não importa a confusão em torno da Igreja Copta, o que está claro é que um Cristo incompleto não pode salvar. Nós precisamos de um mediador que pode colocar a mão sobre nós. Não há espaço para o nestorianismo que ameaça a unidade da obra de Deus ou de um Eutiquianismo que ameaça a dimensão totalmente humana da obra de Cristo. No seu melhor, toda a nossa definição doutrinária e disputas teológicas se destinam a preservar a verdade simples, eminentemente bíblica de que Jesus Cristo é Deus e homem, e como tal, é único e exclusivamente capaz de salvar os escolhidos da raça adâmica perdida.

ESCLARECIMENTO

No meu comentário e por correspondência pessoal, alguns expressaram outras preocupações sérias com a Igreja Copta além de sua não-calcedônia cristologia. Meu post foi motivado pela pergunta que recebemos na conferência sobre a heresia monofisista. Assim, o foco deste post foi sobre a história por trás deste debate cristológico e da origem da divisão entre os ortodoxos orientais e a Igreja Ortodoxa Oriental. Eu não estou bastante familiarizado com o funcionamento interno do cristianismo copta para avaliar a igreja como um todo, nem era a minha intenção de fazê-lo.
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Fonte: TGC

20 de fev. de 2015

Nada de Cinza

Por Kevin DeYoung

Não há nada de cinza a respeito de um seguidor de Cristo ver 50 Tons de Cinza. A questão é preta ou branca. Não vá. Não assista. Não leia. Não alugue.

Eu não quero sequer falar sobre isso. Outro blogueiro e eu andamos em círculos por várias semanas pensando em como poderíamos escrever uma resenha crítica satírica alfinetando aqueles que acham que precisamos ver esse filme para sermos relevantes. Não conseguimos. Não há forma de fazer um humor forte o suficiente para condenar filme tão vil.

E não, eu não fui ver o filme. Nem sequer assisti o trailer. Também não li uma única página do livro. Ler sobre a premissa na Wikipedia e no IMDb por alguns minutos me convenceu de que eu não precisava saber mais. O sexo é um presente maravilhoso de Deus mas, assim como todos os presentes de Deus ele pode ser aberto em um contexto errado e reembalado em um pacote feio. Violência contra mulheres não é aceitável só porque ela é aberta à sugestão, e o sexo não é aberto a todas as permutações, até mesmo em um relacionamento adulto. Consentimento mútuo não cria uma filosofia moral.

Sexo é um assunto privado para ser compartilhado na privacidade e santidade do leito matrimonial (Hebreus 13.4). Sexo, assim como Deus designou, não é para atores que fingem (ou não) que estão fazendo “amor”. O ato da união conjugal é o que casais casados fazem a portas fechadas, não o que discípulos de Jesus Cristo pagam dinheiro para assistir em uma tela do tamanho de suas casas.

Como já disse antes, precisamos ser criteriosos no que colocamos em frente aos nossos olhos, sendo homens e mulheres sentados em lugares celestiais (Colossenses 3.1-2). Se 50 Tons de Cinza é um problema, qual é o padrão de aceitação para o resto da sexualidade livremente consumida? Veja bem, a consciência do pecado não é por si só o problema. A Bíblia é cheia de relatos de imoralidade. Seria simplista e moralmente insustentável – até mesmo antibíblico – sugerir que você não pode assistir ou ler sobre um pecado sem pecar. Mas a Bíblia nunca se deleita em sua descrição do pecado. Ela nunca pinta o vício com as cores da virtude. Ela nunca se entretém com o mal (senão para zombá-lo). A Bíblia nunca cauteriza a consciência tornando o pecado normal e a justiça estranha.

Cristãos não deveriam tentar “redimir” 50 Tons de Cinza. Não devemos achar bonitinho e divulgar uma nova série de sermões chamada “50 Tons de Graça”. Não devemos envergonhar a arte ou a santidade ao pensarmos que, de alguma forma, algo tão escuso como 50 Tons vale a pena ser visto ou analisado. De acordo com a lógica de Paulo, é possível expor um pecado e mantê-lo escondido ao mesmo tempo (Efésios 5.11-12). “Um bom homem se envergonha ao falar do que várias pessoas não se envergonham de fazer” (Matthew Henry).

Alguns filmes não merecem uma análise sofisticada. Eles merecem um sóbrio repúdio. Se a igreja não pode estender graça a pecadores sexuais, nós perdemos o coração do evangelho. E se nós não podemos falar que as pessoas devem ficar longe de 50 Tons de Cinza, perdemos a cabeça.
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Fonte: Reforma21

10 de fev. de 2015

Que Diferença a Suficiência das Escrituras Faz na Sua Vida?

Por Kevin DeYoung
Primamos muito pela doutrina da suficiência das Escrituras. Mas, que diferença faz a suficiência das Escrituras na sua vida cristã? Deixe-me propor quatro maneiras que deveriam fazer uma enorme diferença.
Primeiro, com a suficiência das Escrituras mantemos a tradição em seu lugar. A tradição certamente tem um lugar na compreensão da palavra de Deus e na formulação da convicções doutrinárias da Igreja. A diversidade mais facilmente esquecida hoje é a diversidade dos mortos. Devemos aprender com os grandes mestres que vieram antes de nós.Devemos permanecer firmes sobre os credos ecumênicos da igreja. E, para aqueles de nós em tradições confessionais – como luteranos, anglicanos, presbiterianos e reformados – temos que nos comprometer a apoiar nossos padrões confessionais de forma séria, cuidadosa e com integridade. Mas mesmo esses grandes credos, catecismos e confissões são valiosos apenas enquanto resumem o que é ensinado nasEscrituras. Nenhum texto secundário e feito pelo homem pode substituir ou ser autorizado a subverter a nossa lealdade e conhecimento da Bíblia.
A suficiência das Escrituras fortalece o grito da Reforma de sola Scriptura, ou “Somente a Escritura”. Isso não significa que devemos tentar abordar a Bíblia sem a ajuda de bons professores, recursos escolares e fórmulas doutrinárias testadas. “Somente” não significa “por si só” (nuda Scriptura), mas que a Escritura somente é a autoridade final. Tudo deve ser testado contra a palavra de Deus. A tradição não tem um papel de igualdade com a Bíblia em saber a verdade. Em vez disso, a tradição tem um papel de confirmação, iluminação e apoio. Não podemos aceitar inovações doutrinárias, como a infalibilidade papal, o purgatório, a concepção imaculada ou a veneração de Maria, porque essas doutrinas não podem ser encontradas na Palavra de Deus e contradizem o que é revelado nas Escrituras. Embora possamos respeitar os nossos amigos católicos e ser gratos por muitos aspectos da sua fé e testemunho social, não devemos vacilar em nossa fidelidade à sola Scriptura. Está implícito na compreensão bíblica da sua própria suficiência.
Segundo, porque a Escritura é suficiente, não acrescentaremos ou retiraremos da palavra de Deus. Ao nos achegarmos àBíblia, devemos sempre lembrar que estamos lendo um livro pactual. E documentos pactuais normalmente concluem comum a maldição de inscrição pactual. Vemos essa maldição em Deuteronômio 4:2 e 12:32, onde os israelitas são advertidos contra acrescentar à lei mosaica ou retirar qualquer coisa dela(cf. Provérbios 30.5-6). Da mesma forma, vemos o mesmo tipos de maldição na conclusão do Novo Testamento em Apocalipse22.18-19 – “Eu, a todo aquele que ouve as palavras da profecia deste livro, testifico: Se alguém lhes fizer qualquer acréscimo, Deus lhe acrescentará os flagelos escritos neste livro; e, se alguém tirar qualquer coisa das palavras do livro desta profecia, Deus tirará a sua parte da árvore da vida, da cidade santa e das coisas que se acham escritas neste livro”. Esta forte admoestação, no final de toda a Bíblia, é um lembrete forte de que não devemos acrescentar nada à Escritura – para torná-la melhor, mais segura ou mais de acordo com as nossas suposições – e não devemos retirar nada dela, mesmo se a experiência, revistas acadêmicas ou o humor da cultura insistir que devemos.
Terceiro, visto que a Bíblia é suficiente, podemos esperar que a palavra de Deus seja relevante em todos os aspectos da vida. Deus nos deu tudo o que precisamos para a vida e a piedade (2 Pedro1.3) porque a Escritura é suficiente para nos tornar sábios para a salvação e santos para o Senhor (2 Timóteo 3.14-17). Se aprendermos a ler a Bíblia para baixo (em nossos corações), do outro lado (o enredo da Escritura), para fora (para o fim da história)e para cima (para a glória de Deus, na face de Cristo), descobriremos que cada parte da Bíblia é proveitosa para nós. Afirmar a suficiência das Escrituras não é sugerir que a Bíblia nos diz tudo o que queremos saber sobre tudo, mas que ela nos diz tudo o que precisamos saber sobre o que mais importa. A Escritura não oferece informações completas sobre todos os assuntos, mas em todas as disciplinas que ela trata, só diz o que é verdadeiro. E, em sua verdade, temos conhecimento suficiente para abandonar o pecado, encontrar o Salvador, tomar boas decisões, se Deus quiser,e chegar à raiz dos nossos problemas mais profundos.
Quarto, a doutrina da suficiência das Escrituras nos convida a abrir nossas Bíblias para ouvir a voz de Deus. Não muito tempo atrás, eu estava em um grupo de aconselhamento da denominação onde nos foi dito para encontrarmos nossas “normas”como uma comunidade. Quando sugeri que a nossa primeira norma deveria ser testar tudo à luz da palavra de Deus, foi-medito – e isto é uma citação exata – que “não estamos aqui para abrir nossas Bíblias”. O objetivo do grupo, aparentemente, era que nós ouvíssemos nossos corações e uns aos outros, mas nem tanto de forma que ouvíssemos a Deus. Mais tarde, na mesma reunião denominacional, um pastor da América do Sul abordou todo o corpo. Ao perceber uma propaganda na parte de trás sobre um evento em que iríamos “descobrir” a visão deDeus para a nossa denominação, o homem disse: “Descobrir? Espero que vocês encontrem o que estão procurando. E tentem não demorar muito”. Foi uma alfinetada bem colocada em relação à tendência na Igreja Americana de planejar, e sonhar,e esquematizar, e projetar uma visão, e se envolver em discernimento mútuo, tudo enquanto, ao mesmo tempo, a clara voz de Deus permanece negligenciada em nosso colo.
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3 de fev. de 2015

Ferramentas Indispensáveis ao Pastor

Por Kevin DeYoung

Que ferramentas todo pastor deve possuir? Que habilidades ele precisa ter? Ou, perguntando com franqueza: o que um pastor tem de fazer razoavelmente para ser um bom pastor?

Observe o que não estou perguntando. Não estou perguntando sobre a teologia do pastor. Ou sobre a sua santidade pessoal. Ambas são essenciais e mais importantes do que algum dom específico. Todo pastor precisa cuidar bem de sua vida e de sua doutrina (1 Tm 4.16). Mas, o que um pastor tem de fazer? Esse é o assunto deste artigo.

Admitamos que ele está indo bem nas áreas de caráter e de convicção. Mas, o que se exige dele quanto à competência?

Em seguida, apresentamos uma lista que não é exaustiva. E, com certeza, não reivindicamos ser excelentes em cada área. Todavia, com base em minha experiência, um pastor de igreja local – estou pensando, em particular, no papel de pastor principal ou de pastor único – tem de ser competente em cinco áreas.

1. Um pastor tem de ser capaz de ensinar. Uma das cinco diferenças existentes nas qualificações de presbíteros e diáconos e a única habilidade na lista é que o presbítero seja “apto para ensinar” (1 Tm 3.2). Se o pastor é o único ou o pastor principal, ele labutará especialmente na pregação e no ensino (1 Tm 5.17). As igrejas suportarão várias deficiências, porém muitas igrejas ficarão impacientes com um pastor que não sabe ensinar.

É verdade que ensinar e pregar são habilidades que se desenvolvem com o passar do tempo. Por isso, talvez seja difícil determinar se um jovem é “apto para ensinar”. Contudo, antes de alguém entrar no ministério, ele deve ser capaz de comunicar a Palavra de Deus com alguma medida de confiança e clareza.
Algumas coisas que devemos examinar:

• Ele gosta de ensinar? Se não gosta, não melhorará no ensino.

• Ele pode se comunicar com as crianças? Seria um grande treinamento e um admirável campo de prova se os pastores trabalhassem como professores de alunos das primeiras séries, antes de entrar no ministério de tempo integral. Bons mestres sabem como tornar compreensíveis verdades profundas. Em contraste, se você torna confusas coisas simples, talvez não tenha o dom de ensino, ainda não.

• Ele gosta de ler? Alguns pastores leem bastante. Outros lerão devagar ou sem muita freqüência. Mas, se um pastor não gosta de ler (supondo que ele tem acesso a bons livros), ele dificilmente crescerá em profundidade e amplitude de discernimento. Se um pastor não tem fome por aprender, talvez não ajudará outros a aprender.

2. Um pastor tem de ser capaz de relacionar-se com as pessoas. Há muitas maneiras de um pastor conectar-se com seu povo. Ele pode fazer visitas aos enfermos, ou mentorear pessoas individualmente, ou liderar grupos pequenos, ou trabalhar para que haja mais envolvimento da equipe de colaboradores. Sempre haverá pessoas ao redor do ministério; e um bom pastor se esforçara para estar disponível a pelo menos algumas dessas pessoas.

Os relacionamentos assumem muitas formas. Você pode ser um pastor extrovertido e gregário ou um introvertido meditativo. Alguns de nós somos bons em bate-papo. Outros odeiam isso e preferem um convívio mais próximo e quieto com outra pessoa. Não estou dizendo que o ministério pastoral é somente para os sociáveis. Mas, se um homem não pode lidar cordial, gentil e amavelmente com as pessoas, ele deve pensar duas vezes em ser um pastor.

Uma boa pergunta a ser considerada: este homem faz amigos com facilidade? Eu hesitaria em chamar um pastor que luta para fazer e manter amigos.

3. Um pastor tem de ser capaz de liderar. Isso pode nos enganar. Ao usar o vocábulo “liderar” não quero dizer que todo pastor tem de ser um empreendedor ousado. Mas ele deve ter pessoas que o seguem. Tem de ser disposto a tomar uma posição, ser impopular às vezes. Precisa de coragem e da habilidade de tomar decisões desagradáveis. Se um homem tem necessidade de ser apreciado por todos, em todo o tempo, ele não está pronto para ser um pastor. Um pastor não deve ter medo de influenciar. E, se ele não é um visionário ousado, deve ser aquele tipo de líder que encoraja outros que têm dons de liderança mais destacados.

4. Um pastor tem de ser relativamente organizado ou cercar-se de pessoas que podem fazer isso por ele. Eu queria usar a palavra “administração” para referir-me a esse assunto, mas decidi não usá-la por receio de ser mal compreendido. Não creio que os pastores precisam ser gurus administrativos. De fato, penso que nenhum pastor entrou num seminário com o sonho de que poderia ser capaz de manter a igreja cumprindo sua função tranquilamente. Administração não é a essência do ministério; pelo menos, não deveria ser.

No entanto, não podemos evitar isto: um pastor tem de possuir alguma habilidade básica de organização. Ele não pode esquecer sempre os seus compromissos ou chegar atrasado em cada reunião de presbíteros. O pastor precisa retornar as chamadas telefônicas e entender como se realiza uma reunião. Na verdade, todos esquecemos coisas. Todos nós falhamos de vez em quando. Ser um pastor não exige onisciência ou onipotência, mas temos de ser responsáveis. Certo ou errado, talvez a sua igreja não perceba imediatamente que você parou de estar com as pessoas e que você não tem capacidade de liderar, mas a congregação perceberá logo que não pode depender de você.
Competência administrativa básica é exigida para o ministério pastoral. Se você não tem essa competência como pastor, ache pessoas que têm e permita que elas cuidem de você.

5. Um pastor tem de orar. Se essa ferramenta ficar corroída, ninguém saberá; pelo menos, não a princípio. É impossível sobreviver como pastor sem as outras quatro habilidades. Contudo, infelizmente, é fácil sobreviver e, até, prosperar no ministério sem essa ferramenta. O pastor que prospera sem oração não é o pastor sob cujo ministério quero estar, nem o pastor que desejo ser. Podemos realizar muito em nós mesmos, mas o que realmente importa exige oração, porque exige a presença de Deus. Um homem que não ora não deve pregar.

Como você mesmo pode testemunhar, essas cinco competências não são iguais em importância. As competências 1, 2 e 5 são essenciais e devem ser o foco do ministério. As competências 3 e 4 podem ser evitadas por algum tempo, mas não podem ser ignoradas. Em minha experiência, todas as cinco habilidades são necessárias ao ministério pastoral. Alguns pastores serão excelentes em várias dessas competências. Alguns serão muito bons em uma área ou muito bons em outras. Nenhum pastor será um modelo de todas essas cinco áreas. Se eu tivesse de avaliar um aluno de seminário que está prestes a entrar no ministério, ou se fosse membro de uma igreja que está à procura de um pastor, desejaria ver competência básica em cada uma dessas áreas.
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Traduzido por: Wellington Ferreira
Do original em inglês: Requisite Tools
Fonte: Ministério Fiel

13 de dez. de 2014

No que eu deveria crer acerca da palavra de Deus?

Por Kevin DeYoung

No Salmo 119, vemos pelo menos três características irredutíveis e essenciais nas quais deveríamos acreditar sobre a palavra de Deus.

Primeiro, a palavra de Deus diz o que é verdadeiro.  Como o salmista, podemos confiar na palavra (v.42), sabendo que ela é inteiramente verdadeira (v.142). Não podemos confiar em tudo que lemos na internet. Não podemos confiar em tudo que ouvimos de nossos professores. Nós certamente não podemos confiar em todos os fatos dados por nossos políticos. Não podemos sequer confiar nas pessoas que checam a veracidade desses fatos! Estatísticas podem ser manipuladas. Fotografias podem ser falsificadas. Capas de revista podem ser retocadas. Nossos professores, nossos amigos, nossa ciência, nossos estudos, até mesmo os nossos olhos podem nos enganar. Mas a palavra de Deus é inteiramente verdadeira e sempre verdadeira.
  • A palavra de Deus está firmemente fixada nos céus (v.89); isso não muda.
  • Não há limite para a sua perfeição (v. 96); ela não contém nada corrupto.
  • Todas as regras justas de Deus duram para semrpe (v.160); elas nunca envelhecem e nunca se desgastam.
Se você já pensou consigo mesmo: “Preciso saber o que é verdadeiro – o que é verdadeiro sobre mim, verdadeiro sobre as pessoas, verdadeiro sobre o mundo, verdadeiro sobre o futuro, verdadeiro sobre o passado, verdadeiro sobre uma boa vida e verdadeiro sobre Deus”, então venha à palavra de Deus. Ela só ensina o que é verdadeiro. “Santifica-os na verdade”, disse Jesus, “a tua palavra é a verdade” (João 17.17).

Segundo, a palavra de Deus diz o que é justo. O salmista alegremente reconhece o direito de Deus de emitir mandamentos e humildemente aceita que todos eles são justos. “Bem sei, ó SENHOR, que os teus juízos são justos”, diz ele (v.75). Todos os mandamentos de Deus são justos (v.86). Todos os seus preceitos são justos (v.128). Algumas vezes ouço cristãos admitirem não gostar do que a Bíblia diz, mas já que é a Bíblia, eles têm que obedecê-la. Por um lado, esse é um exemplo admirável de submissão à palavra de Deus. E, ainda assim, devemos dar um passo adiante e aprender a ver bondade e retidão em tudo o que Deus ordena. Devemos amar o que Deus ama e ter prazer em tudo o que ele diz. Deus não estabelece regras arbitrárias. Ele não dá ordens para que sejamos aprisionados e infelizes. Ele nunca exige o que é impuro, sem amor, ou imprudente. Suas exigências são sempre nobres, sempre justas e sempre retas.

Terceiro, a palavra de Deus fornece o que é bom. De acordo com o Salmo 119, a palavra de Deus é o caminho da felicidade (vv. 1-2), o caminho para evitar a vergonha (v.6), o caminho da segurança (v.9), e o caminho do bom conselho (v.24). A palavra nos dá força (v.28) e esperança (v.43). Ela fornece sabedoria (vv. 98-100, 130) e nos mostra o caminho que devemos seguir (v.105). A revelação verbal de Deus, seja na forma falada na história da redenção ou nos documentos pactuais da história da redenção (ou seja, na Bíblia), é infalivelmente perfeita. Como povo de Deus, acreditamos que a palavra de Deus é confiável em todos os sentidos para falar o que é verdadeiro, ordenar o que é justo e nos fornecer o que é o bom.

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Trecho do livro Levando Deus a Sério, p.16-18.

1 de dez. de 2014

Santidade pelo poder do Espírito

Por Kevin DeYoung

Faz todo sentido pensarmos que o Espírito Santo desempenha papel primordial em nos tornar santos. De acordo com 1 Pe.1.2, somos “salvos de acordo com o pré-conhecimento de Deus Pai, pela obra santificadora do Espírito”, para que sejamos obedientes a Jesus Cristo e borrifados por seu sangue. A santificação, nesse sentido, possui dois sentidos. O Espírito nos separa em Cristo para que sejamos purificados por seu sangue (santificação definitiva), e ele opera em nós para que possamos ser obedientes a Jesus Cristo (santificação progressiva). Através do Espírito recebemos uma nova posição e somos infundidos com novo poder. Ou, para utilizar a linguagem paulina, já que não estamos mais na carne e sim no Espírito, pelo mesmo Espírito devemos mortificar os feitos da carne (Romanos 8.9-13).

Mas voltando à pergunta prática: como é que o Espírito, de fato, opera em nós, tornando-nos santos? Uma das formas é nos fortalecendo com poder em “o íntimo de nosso ser” (Ef 3.16). A obra do Espírito está frequentemente associada a poder (Atos 1.8; Rm 15.19; 1Co 2.4; 1Ts 1.5). Esse poder pode se manifestar em sinais e maravilhas, em dons espirituais para edificar o corpo, e na capacidade de gerar fruto espiritual. O mesmo Espírito que esteve presente na criação e fez com que você nascesse de novo, está agindo para capacitar o íntimo de seu ser (ou seja, sua vontade ou coração) para que você possa resistir aos pecados que não conseguia resistir anteriormente e para fazer coisas boas que, de outra sorte, seriam impossíveis à você. Cristãos derrotistas não lutam contra os pecados porque concluem que “nasceram assim”, ou “jamais mudarão”, ou “não possuem fé suficiente”, e, por isso, não estão sendo humildes. Eles desonram o Espírito Santo que nos capacita com poder sobrenatural.

Mas isso não é tudo que o Espírito faz para nos santificar. O Espírito é poder, mas também é uma luz. Ele brilha nas trevas de nosso coração e nos traz convicção de pecado (João 16.7-11). Ele é uma lâmpada a iluminar a Palavra de Deus, ensinando-nos o que é verdade, fazendo com que isso nos salte aos olhos como precioso (1Co 2.6-16). E o Espírito acende os refletores sobre Cristo, para que possamos enxergar a glória Dele e sermos transformados (João 16.14). É por isso que 2 Coríntios 3.18 afirma: “E todos nós, que com a face descoberta contemplamos a glória do Senhor, segundo a sua imagem estamos sendo transformados com glória cada vez maior, a qual vem do Senhor, que é o Espírito”. Assim como Moisés teve a sua face transformada quando contemplou a glória do Senhor no Monte Sinai (Ex 34.29; conf. 2Co 3.7), assim seremos transformados quando, pelo Espírito, contemplarmos a glória de Deus na face de Cristo.

Resumindo, então, o Espírito é para nós uma luz de três formas diferentes: (1) Ele expõe o pecado para que possamos reconhece-lo e voltar-lhe as costas; (2) ele ilumina a Palavra para que consigamos entender seu significado e captar suas implicações; (3) ele remove o véu para que possamos contemplar a glória de Cristo e nos tornarmos semelhantes àquele que contemplamos. Ou, em outras palavras, o Espírito santifica ao revelar o pecado, revelar a verdade e revelar a glória. Quando fechamos os olhos para essa luz, a Bíblia chama essa ação de resistir (At 7.51), ou apagar (1Ts 5.19) ou entristecer o Espírito (Ef 4.30). Pode haver pequenas nuanças entre estes três termos, mas todos fazem alusão a situações onde não aceitamos a obra santificadora do Espírito em nossa vida. Se cedermos ao pecado ou desistirmos da justiça, a culpa não é do poder do Espírito, mas sim de nossa pelas trevas do mal e não pela luz do Espírito (João 3.19-20).
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Fonte: Extraído do capítulo 5 do livro "Brecha em nossa Santidade". Editora Fiel, 2013. 

28 de nov. de 2014

Os Crentes Devem Sentir-se Culpados o Tempo Todo?

Por Kevin DeYoung

Imagino que existem inúmeros crentes que raramente sentem o aguilhão da consciência ou as tristezas do arrependimento. Mas também conheço muitos, muitos crentes (incluindo eu mesmo) que facilmente se sentem infelizes por coisas que não fazem ou fazem-nas menos do que perfeitamente. De fato, estou convencido de que a maioria dos cristãos sérios vivem quase constantemente com um baixo senso de culpa.

Como nos sentimos culpados? Deixe enumerar algumas maneiras.

Poderíamos orar mais.
Não somos bastante ousados em evangelizar.
Gostamos demais de esportes.
Assistimos freqüentemente a filmes e à televisão.
Nosso tempo devocional é curto e esporádico.
Não contribuímos de modo suficiente.
Compramos um novo móvel.
Não lemos muito para nossos filhos.
Nosso filhos comem Cheetos e batatas fritas.
Reciclamos pouco.
Precisamos perder alguns quilos.
Poderíamos usar melhor nosso tempo.
Poderíamos viver em um lugar mais difícil ou em uma casa menor.

O que fazemos por trás de todos esses cenários de culpa? Não sentimos aquele tipo de remorso paralisante por causa dessas coisas. Mas essas imperfeições podem ter um efeito cumulativo pelo qual até o crente maduro pode sentir-se como alguém que está desapontado a Deus e, talvez, um mero cristão.

Eis a parte delicada: às vezes devemos nos sentir culpados, porque às vezes somos culpados de pecado. Além disso, a complacência na vida cristã é um perigo real, especialmente na América.

Mas, apesar disso, não creio que Deus nos redimiu pelo sangue de seu Filho para que nos sintamos como fracassos permanentes. Depois do Pentecostes, Pedro e João pareciam torturados por temor introspectivo e repugnante de si mesmos? Paulo se mostrou constantemente preocupado com o fato de que poderia fazer mais? Admiravelmente, Paulo disse em certo momento: “De nada me argúi a consciência” (1 Co 4.4). E acrescentou logo: “Nem por isso me dou por justificado, pois quem me julga é o Senhor”. Parece que Paulo dormia toda noite com uma consciência limpa. Então, por que tantos crentes se sentem culpados o tempo todo?

1. Não recebemos completamente as boas-novas do evangelho. Esquecemos que fomos vivificados com Cristo. Fomos ressuscitados com ele. Fomos salvos somente pela fé. E isso é um dom de Deus, e não um resultado de obras (Ef 2.4-8). Podemos ficar com tanto medo do antinomianismo – um perigo legítimo –, que receamos falar profusamente sobre a graça de Deus. Mas, se nunca fomos acusados de ser antinomianos, talvez o evangelho não nos foi apresentado em toda a sua glória extraordinária (Rm 6.1).

2. Os cristãos tendem a motivar os outros por culpa e não por graça. Em vez de instarmos nossos irmãos a serem o que realmente são em Cristo, nós os ordenamos a fazerem mais para Cristo (quanto à motivação correta, ver Rm 6.5-14). Por isso, vemos a semelhança com Cristo como algo em que estamos realmente fracassando, quando deveríamos vê-la como algo que já possuímos e no qual precisamos crescer.

3. A maior parte de nosso baixo nível de culpa se enquadra na ambígua categoria de “não fiz o suficiente”. Examine a lista que apresentamos. Nenhum dos itens é necessariamente pecaminoso. Dizem respeito a possíveis infrações, percepções e maneiras como gostaríamos de fazer mais. Essas são as áreas mais difíceis de lidarmos porque, por exemplo, nenhum crente jamais confessará que tem orado de modo suficiente. Assim, é sempre fácil nos sentirmos horríveis quanto à oração (ou à evangelização, ou a contribuir, ou a qualquer outra disciplina cristã). Precisamos ter cuidado para não insistirmos em algum padrão de prática quando a Bíblia insiste apenas em um princípio geral.

Quero dar um exemplo. Todo crente tem de contribuir generosamente, para as necessidades dos santos (2 Co 9.6-11; Rm 12.13). Podemos insistir nisso com absoluta certeza. Mas, como é essa generosidade, quanto devemos dar, quanto devemos reter – essas coisas não estão delimitadas por alguma fórmula, nem podem ser exigidas por compulsão (2 Co 9.7). Portanto, se queremos que as pessoas sejam mais generosas, faremos bem se seguirmos o exemplo de Paulo em 2 Coríntios e enfatizarmos as bênçãos da generosidade e a sua motivação alicerçada no evangelho, em vez de envergonharmos os outros que não contribuem muito.

4. Quando somos verdadeiramente culpados de pecado, é imperativo que nos arrependamos e recebamos misericórdia de Deus. Paulo tinha uma consciência limpa não porque nunca pecava, e sim porque, eu imagino, buscava imediatamente o Senhor, quando sabia que havia errado, e descansava no “nenhuma condenação” do evangelho (Rm 8.1). Se confessarmos os nossos pecados, disse João, Deus é fiel e justo para nos perdoar e nos purificar de toda injustiça (1 Jo 1.9). Deus não nos salvou para nos sentirmos miseráveis o tempo todo. Ele nos salvou para que vivamos na alegria de nossa salvação. Portanto, quando pecamos – e todos pecamos (1 Rs 8.46; 1 Jo 1.8) –,confessamos o pecado, somos purificados e prosseguimos.

Isso enfatiza um dos grandes perigos da culpa constante: aprendemos a ignorar nossa consciência. Se pecamos verdadeiramente, precisamos arrepender-nos e rogar ao Senhor que nos ajude a mudar. Mas, se não estamos pecando, se não somos tão maduros como deveríamos ser, nem tão disciplinados como outros crentes, nem estamos fazendo escolhas diferentes que talvez sejam aceitáveis, mas não extraordinárias, não nos devemos sentir culpados. Devemos nos sentir desafiados, estimulados, inspirados, mas não culpados.

Como pastor, isso significa que não espero que todos em minha igreja sintam-se apavorados a respeito de tudo que prego. Afinal de contas, é justo que todos obedeçamos aos mandamentos de Deus. Não perfeitamente, não sem alguns motivos incertos, nem tão plenamente como deveríamos, mas com fidelidade e obediência que agrada a Deus. A pregação fiel não exige que os cristãos sinceros sintam-se miseráveis o tempo todo. De fato, a melhor pregação deve fazer que os cristãos sinceros vejam mais de Cristo e experimentem mais de sua graça.
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