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30 de set de 2016

A Graça Comum

 Por Wayne Grudem

Introdução e definição

Quando Adão e Eva pecaram, tornaram-se réus da punição eterna e da separação de Deus (Gênesis 2:17). Do mesmo modo, hoje, quando os seres humanos pecam, eles se tornam sujeito à ira de Deus e à punição eterna: “o salário do pecado é a morte” (Romanos 6:23). Isso significa que, uma vez que as pessoas pecam, a justiça de Deus requer somente uma coisa — que elas sejam eternamente separadas de Deus, alienadas da possibilidade de experimentar qualquer bem da parte dEle, e que elas existam para sempre no inferno, recebendo eternamente apenas a Sua ira. De fato, isso foi o que aconteceu aos anjos que pecaram e poderia ter acontecido exatamente conosco também: “Pois Deus não poupou aos anjos que pecaram, mas os lançou no inferno, prendendo-os em abismos tenebrosos a fim de serem reservados para o juízo” (2 Pedro 2:4).

Mas, de fato, Adão e Eva não morreram imediatamente (embora a sentença de morte começasse a ser aplicada na vida deles no dia em que pecaram). A execução plena da sentença de morte foi retardada por muitos anos. Além disso, milhões de seus descendentes até o dia de hoje não morrem nem vão para o inferno tão logo pecam, mas continuam a viver por muitos anos, desfrutando bênçãos incontáveis nesta vida. Como pode ser isso? Como Deus pode continuar a conferir bênçãos a pecadores que merecem somente a morte — não somente aos que finalmente serão salvos, mas também a milhões que nunca serão salvos, cujos pecados nunca serão perdoados?

A respostas a essas perguntas é que Deus concede-lhes graça comum. Podemos definir graça comum da seguinte maneira: Graça comum é a graça de Deus pela qual Ele dá às pessoas bênçãos inumeráveis que não são parte da salvação. A palavra comum aqui significa algo que é dado a todos os homens e não é restrito aos crentes ou aos eleitos somente.

Diferentemente da graça comum, a graça de Deus que leva pessoas à salvação é muitas vezes chamada “graça salvadora”. Naturalmente, quando falamos a respeito da “graça comum” e da “graça salvadora”, não estamos sugerindo que há duas diferentes espécies de graça no próprio Deus, mas apenas estamos dizendo que a graça de Deus se manifesta no mundo de duas maneiras diferentes. A graça comum é diferente da graça salvadora quanto aos resultados (ela não traz salvação), seus destinatários (é dada aos crentes e descrentes igualmente) e sua fonte (ela não flui diretamente da obra expiatória de Cristo, visto que a morte dEle não obtém nenhuma medida de perdão para os descrentes e, portanto, nem os crentes nem os descrentes fazem jus às suas bênçãos). Contudo, sobre o último ponto, deve ser dito que a graça comum flui indiretamente da obra redentora de Cristo, porque o fato de Deus não julgar o mundo assim que o pecado entrou nele talvez seja apenas porque Ele planejou finalmente salvar alguns pecadores por meio da morte de Seu Filho.

Exemplos de graça comum

Se olhamos para o mundo ao nosso redor e o contrastamos com o fogo do inferno que ele merece, podemos ver imediatamente a abundante evidência da graça comum de Deus em milhares de exemplos na vida diária. Podemos distinguir diversas categorias específicas nas quais essa graça comum pode ser vista.

1. A esfera física. Os descrentes continuam a viver neste mundo somente por causa da graça comum de Deus — cada vez que as pessoas respiram é pela graça, pois o salário do pecado é a morte, não a vida. Além disso, a terra não produz somente espinhos e ervas daninhas (Gênesis 3:18), nem permanece um deserto ressequido, mas a graça comum de Deus provê comida e material para roupa e abrigo, muitas vezes em grande abundância e diversidade. Jesus disse: “Amem os seus inimigos e orem por aqueles que os perseguem, para que vocês venham a ser filhos de seu Pai que está nos céus. Porque Ele faz raiar o seu sol sobre maus e bons e derrama chuva sobre justos e injustos” (Mateus 5:44,45). Aqui Jesus apela para a abundante graça comum de Deus como encorajamento aos seus discípulos, para que eles também concedam amor e orem para que os descrentes sejam abençoados (cf. Lucas 6:35,36). Semelhantemente, Paulo disse ao povo de Listra: “No passado [Deus] permitiu que todas as nações seguissem os seus próprios caminhos. Contudo. Deus não ficou sem testemunho: mostrou sua bondade, dando-lhes chuva do céu e colheitas no tempo certo, concedendo-lhes sustento com fartura e um coração cheio de alegria” (Atos 14:16,17).

O Antigo Testamento também fala da graça comum de Deus que vem aos descrentes tanto quanto aos crentes. Um exemplo específico é o de Potifar, o capitão da guarda do Egito que comprou José como escravo: “o Senhor abençoou a casa do egípcio por causa de José. A bênção do Senhor estava sobre tudo o que Potifar possuía, tanto em casa como no campo” (Gênesis 39:5). Davi fala de modo muito mais geral a respeito das criaturas que o Senhor fez:

“O Senhor é bom para todos; a sua compaixão alcança todas as suas criaturas. [...] Os olhos de todos estão voltados para ti, e tu lhes dás o alimento no devido tempo. Abres a tua mão e satisfazes os desejos de todos os seres vivos” (Salmos 145:9,15,16).

Estes versículos são outro lembrete de que a bondade que é encontrada em toda a criação não acontece automaticamente — ela se deve à bondade de Deus e Sua compaixão.

2. A esfera intelectual. Satanás é “mentiroso e pai da mentira” e “não há verdade nele” (João 8:44), porque lhe foi dado ter domínio sobre o mal e sobre a irracionalidade e comprometimento com a falsidade que acompanha o mal radical. Mas os seres humanos no mundo de hoje, mesmo os descrentes, não estão totalmente entregues à mentira, irracionalidade e ignorância. Todas as pessoas são capazes de ter um pouco de compreensão da verdade; de fato, algumas possuem grande inteligência e entendimento. Isso também deve ser visto como resultado da graça comum de Deus. João fala de Jesus como “a verdadeira luz, que ilumina todos os homens” (João 1:9), pois, em seu papel como criador e sustentador do universo (não particularmente em seu papel como redentor), o Filho de Deus concede iluminação e entendimento que vêm a todas as pessoas no mundo.

A graça comum de Deus na esfera intelectual é vista no fato de que todas as pessoas têm certo conhecimento de Deus: “porque, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe renderam graças” (Romanos 1:21). Isso significa que há um senso da existência de Deus e muitas vezes a fome de conhecer Deus que Ele permite que permaneça no coração das pessoas, embora isso resulte muitas vezes em muitos religiões diferentes criadas pelos homens. Portanto, mesmo quando falando a pessoas que sustentavam religiões falsas, Paulo pôde encontrar um ponto de contato com respeito ao conhecimento da existência de Deus, exatamente como fez quando falou aos filósofos atenienses: “Atenienses! Vejo que em todos os aspectos vocês são muito religiosos [...] o que vocês adoram, apesar de não conhecerem, eu lhes anuncio” (Atos 17:22,23).

A graça comum de Deus na esfera intelectual também resulta na capacidade de captar a verdade e distingui-la do erro e de experimentar crescimento em conhecimento que pode ser usado na investigação do universo e na tarefa de dominar a terra. Isso significa que toda ciência e tecnologia desenvolvida pelos não-cristãos é resultado da graça comum, permitindo-lhes fazer descobertas e invenções incríveis, para desenvolver os recursos do planeta na criação de muitos bens materiais, para produção e distribuição desses recursos e para alcançar habilidades na obra produtiva. Em sentido prático, isso significa que, cada vez que entramos em uma mercearia, andamos em um automóvel ou entramos em uma casa, devemos lembrar que estamos experimentando os resultados da abundante graça comum de Deus derramada tão ricamente sobre toda a raça.

3. A esfera moral. Pela graça comum Deus também refreia as pessoas de serem tão más quanto poderiam. Novamente o reino demoníaco, totalmente dedicado ao mal e à destruição, proporciona um contraste claro com a sociedade humana, na qual o mal é claramente refreado. Se as pessoas persistem dura e repetidamente em seguir o pecado durante o curso de sua vida, Deus finalmente as entregará ao maior de todos os pecados (cf. Salmos 81:12; Romanos 1:24,26,28), mas no caso da maioria dos seres humanos eles não caem nas profundezas às quais seus pecados normalmente os levariam, porque Deus intervém e coloca freio na sua conduta. Um refreamento muito eficaz é a força da consciência. Paulo diz: “De fato, quando os gentios, que não têm a Lei, praticam naturalmente o que ela ordena, tornam-se lei para si mesmos, embora não possuam a Lei; pois mostram que as exigências da Lei estão gravadas em seu coração. Disso dão testemunho também a sua consciência e os pensamentos deles, ora acusando-os, ora defendendo-os” (Romanos 1:32). E em muitos outros casos, essa sensação interior da consciência leva os indivíduos a estabelecer leis e costumes na sociedade que são, em termos da conduta exterior que eles aprovam ou proíbem, totalmente iguais às leis morais da Escritura. As pessoas muitas vezes estabelecem leis ou têm costumes que respeitam a santidade do casamento e da família, protegem a vida humana e proíbem o roubo e a falsidade no falar. Por causa disso, elas muitas vezes seguem caminhos moralmente retos e exteriormente andam conforme os padrões morais encontrados na Escritura. Embora a conduta moral delas não possa ganhar méritos com Deus, visto que a Escritura claramente diz que “diante de Deus ninguém é justificado pela Lei” (Gálatas 3:11) e “Todos se desviaram, tornaram-se juntamente inúteis; não há ninguém que faça o bem, não há nem um sequer” (Romanos 3:12), contudo, em algum sentido menor que ganhar a aprovação ou o mérito eterno de Deus, os descrentes realmente fazem “o bem”. Jesus sugere isso quando diz: “E que mérito terão, se fizerem o bem àqueles que são bons para com vocês? Até os 'pecadores' agem assim” (Lucas 6:33).

4. A esfera da criatividade. Deus distribuiu medidas significativas de capacidade em áreas artísticas e musicais, assim como em outras esferas nas quais a criatividade e a habilidade podem expressar-se, como praticar esportes, cozinhar, escrever, e assim por diante. Além disso, Deus nos dá a capacidade de apreciar a beleza em muitas áreas da vida. E nessa área, assim como na esfera física e intelectual, as bênçãos da graça comum são às vezes derramadas sobre os descrentes até mais abundantemente que sobre os crentes. Todavia, em todos os casos, ela é resultado da graça de Deus.

5. A esfera da sociedade. A graça de Deus também é evidente na existência de várias organizações e estruturas na raça humana. Vemos isso primeiramente na família humana, ressaltado pelo fato de que Adão e Eva permaneceram marido e mulher após a queda e então tiveram filhos, homens e mulheres (Gênesis 5:4). Os filhos de Adão e Eva casaram-se e formaram famílias para si mesmos (Gênesis 4:17,19,26). A família humana permanece ainda hoje, não simplesmente como instituição para os crentes, mas para todas as pessoas.

O governo humano é também resultado da graça comum. Ele foi instituído no princípio por Deus após o dilúvio (ver Gênesis 9:6) e, segundo Romanos 13 claramente afirma, foi estabelecido por Deus: “Todos devem sujeitar-se às autoridades governamentais, pois não há autoridade que não venha de Deus; as autoridades que existem foram por ele estabelecidas”. Está claro que o governo é dom de Deus para a raça em geral, pois Paulo diz que a autoridade “é serva de Deus para o seu bem” e que ela é “serva de Deus, agente de justiça para punir quem pratica o mal” (Romanos 13:4). Um dos principais meios que Deus usa para refrear o mal no mundo é o governo humano. As leis humanas, as forças policiais e os sistemas judiciais proporcionam poderosa repressão às más ações, e esses são freios necessários, pois há muito mal no mundo que é irracional e pode ser restringido somente pela força, já que ele não será impedido pela razão ou pela educação. Obviamente a pecaminosidade das pessoas pode também afetar os governos em si mesmos, de forma que o governo humano, igual a todas as outras bênçãos da graça comum que Deus dá, pode ser usado tanto para o propósito do bem como do mal.

6. A esfera religiosa. Mesmo na esfera da religião humana, a graça comum de Deus traz algumas bênçãos para as pessoas incrédulas. Jesus nos diz: “Amem os seus inimigos e orem por aqueles que os perseguem” (Mateus 5:44), e desde que não há qualquer restrição no contexto para que se ore simplesmente pela salvação deles e como a ordem de orar pelos que nos perseguem é combinada com a ordem de amá-los, parece razoável concluir que Deus pretende responder a nossas orações pelos que nos perseguem em muitas áreas de suas vidas. De fato, Paulo especificamente ordena que oremos “pelos reis e por todos os que exercem autoridade” (1 Timóteo 2:2). Quando procuramos o bem dos descrentes, isso é coerente com a própria prática divina de conceder sol e chuva a “maus e bons” (Mateus 5:45) e também está de acordo com a prática de Jesus durante o Seu ministério terreno, quando Ele curou cada pessoa que lhe era trazida (Lucas 4:40). Não há indicação alguma de que ele tenha exigido que todos cressem nele ou concordassem que ele era o Messias antes de lhes conceder cura física.

Deus responde às orações dos descrentes? Embora Deus não tenha prometido responder às orações dos descrentes como prometeu responder às orações dos que vêm a Ele em nome de Jesus, e embora Ele não tenha obrigação de responder às orações dos descrentes, mesmo assim Deus pode por Sua graça comum ouvir e responder positivamente às orações deles, demonstrando dessa forma Sua misericórdia e bondade de outro modo ainda (cf. Salmos 145:9,15; Mateus 7:22; Lucas 6:35,36). Esse é provavelmente o sentido de 1 Timóteo 4:10, que diz que Deus é o “Salvador de todos os homens, especialmente dos que crêem”. Aqui “Salvador” não significa restritamente “quem perdoa pecados e dá vida eterna”, porque tais coisas não são dadas aos que não crêem. “Salvador” deve ter aqui um sentido mais geral — a saber, “quem resgata da miséria, quem liberta”. Em caso de pobreza e miséria, Deus muitas vezes ouve as orações dos descrentes e os livra graciosamente de seus problemas. Além disso, mesmo os descrentes muitas vezes possuem um senso de gratidão para com Deus pela bondade da criação, pela libertação em meio ao perigo e pelas bênçãos da família, do lar, das amizades e do país.

7. A graça comum não salva pessoas. A despeito de tudo isso, devemos perceber que a graça comum é diferente da graça salvadora. A graça comum não muda o coração humano nem traz pessoas ao genuíno arrependimento ou à fé — ela não pode salvar e não salva pessoas (embora na esfera intelectual e moral ela possa preparar as pessoas para torná-las mais dispostas a aceitar o evangelho). A graça comum refreia o pecado, mas não muda a disposição fundamental de pecar nem purifica a natureza humana decaída.

Devemos também reconhecer que as ações que os descrentes realizam por causa da graça comum não merecem a aprovação ou o favor de Deus. Essas ações não procedem da fé (“tudo o que não provém da fé é pecado”, Romanos 14:23) nem são motivadas pelo amor a Deus (Mateus 22:37), e sim pelo amor ao ego sob uma ou outra forma. Portanto, embora possamos prontamente dizer que as obras dos descrentes que se conformam externamente às leis de Deus são “boas” em algum sentido, contudo elas não são boas em termos de merecer a aprovação de Deus nem de tornar Deus endividado para com o pecador em sentido algum.

Finalmente, devemos reconhecer que os descrentes muitas vezes recebem mais graça comum que os crentes — eles podem ser mais habilidosos, trabalhar com mais esforço, ser mais inteligentes, mais criativos ou ter mais dos benefícios materiais desta vida para desfrutar. Isso não indica de forma alguma que eles são mais favorecidos por Deus no sentido absoluto ou que eles vão ganhar qualquer coisa relativa à salvação eterna, mas significa somente que Deus distribui as bênçãos da graça comum de vários modos, muitas vezes concedendo bênçãos bastante significativas a descrentes. Em tudo isso, obviamente, eles devem tomar consciência da bondade de Deus (Ateus 14:17) e reconhecer que a vontade revelada de Deus é que essa “bondade de Deus” finalmente os conduza “ao arrependimento” (Romanos 2:4).

Razões para a graça comum

Por que Deus concede graça comum a pessoas imerecedoras que nunca virão à salvação? Podemos sugerir ao menos quatro razões.

1. Para redimir os que serão salvos. Pedro diz que o dia do juízo e da execução final de punição está sendo retardado porque há ainda mais pessoas que serão salvas. “O Senhor não demora em cumprir a sua promessa, como julgam alguns. Ao contrário, ele é paciente com vocês, não querendo que ninguém pereça, mas que todos cheguem ao arrependimento.” (2 Pedro 3:9,10). De fato, essa razão foi verdadeira desde o princípio da história humana, pois, se Deus quisesse salvar qualquer pessoa entre todos que compõem a humanidade pecaminosa, Ele não poderia destruir todos os pecadores imediatamente (nesse caso não sobraria ninguém da raça humana). Ao contrário, Ele resolveu permitir que seres humanos pecaminosos vivessem algum tempo de modo a ter uma oportunidade de arrependimento e também para que pudessem gerar filhos, capacitando gerações subseqüentes a viver, a ouvir o evangelho e se arrepender.

2. Para demonstrar a bondade e a misericórdia de Deus. A bondade e a misericórdia de Deus não são vistas somente na salvação dos crentes, mas também nas bênçãos que Deus dá aos pecadores que não as merecem. Quando Deus “é bondoso para com os ingratos e maus” (Lucas 6:35), essa bondade é revelada no universo, para a Sua glória. Davi diz: “O Senhor é bom para todos; a sua compaixão alcança todas as suas criaturas” (Salmos 145:9). Na história de Jesus conversando com o moço rico, lemos: “Jesus olhou para ele e o amou” (Marcos 10:21), embora o homem fosse um descrente que no mesmo instante afastou-se de Jesus porque possuía muitas riquezas. Berkhof diz que Deus “derrama incontáveis bênçãos sobre todos os homens e também indica claramente que elas são expressões de uma disposição favorável de Deus que, contudo, fica muito aquém da volição positiva exercida para lhes perdoar, suspender a sentença a eles imposta e assegurar-lhes a salvação”.

Não é injusto Deus retratar a execução da punição do pecado e dar temporariamente bênçãos aos seres humanos, porque a punição não é esquecida, mas apenas retardada. Retardando a punição, Deus mostra claramente que não tem prazer em executar o juízo final, mas, ao contrário, Ele se deleita na salvação de homens e mulheres. “Juro pela minha vida, palavra do Soberano, o SENHOR, que não tenho prazer na morte dos ímpios, antes tenho prazer em que eles se desviem dos seus caminhos e vivam” (Ezequiel 33:11). Deus “deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade” (1 Timóteo 2:4). Em tudo isso o tempo de espera da punição dá uma evidência clara da misericórdia, bondade e amor de Deus.

3. Para demonstrar a justiça de Deus. Quando repetidamente Deus convida os pecadores a virem à fé e repetidamente eles recusam os Seus convites, a justiça de Deus em condená-los é vista muito mais claramente. Paulo adverte que quem persiste na incredulidade está simplesmente acumulando a ira para si mesmo: “Contudo, por causa da teimosia e do seu coração obstinado, você está acumulando ira contra si mesmo, para o dia da ira de Deus, quando se revelará o seu justo julgamento” (Romanos 2:5). No dia do juízo todas as bocas serão silenciadas (Romanos 3:19), e ninguém será capaz de contrapor que Deus foi injusto.

4. Para demonstrar a glória de Deus. Finalmente, a glória de Deus é mostrada de muitas formas pelas atividades dos seres humanos em todas as áreas nas quais a graça comum está em operação. No desenvolvimento e no exercício do domínio sobre a terra, homens e mulheres demonstram e refletem a sabedoria do seu Criador, comprovam as qualidades dadas por Deus, as virtudes morais e a autoridade sobre o universo, e coisas semelhantes. Embora todas essas atividades sejam contaminadas por motivos pecaminosos, elas apesar disso refletem a excelência de nosso Criador e, portanto, trazem a glória a Ele, não de forma plena e perfeita, mas ainda assim significativa.

Nossa resposta à doutrina da graça comum

Pensando sobre as várias espécies de bondades vistas na vida dos descrentes por causa da graça comum que Deus dá abundantemente, devemos ter em mente três pontos.

1. Graça comum não significa que quem a recebe será salvo. Mesmo uma porção excepcional de graça comum não significa que quem a recebe será salvo. Até as pessoas mais habilidosas, mas inteligentes, mais ricas e poderosas no mundo ainda carecem do evangelho de Jesus Cristo ou serão condenadas eternamente! Os nossos vizinhos mais bondosos e de moral mais elevada ainda carecem do evangelho de Jesus Cristo ou serão condenados eternamente! Exteriormente pode parecer que eles não têm necessidade algumas, mas a Escritura ainda diz que os descrentes são “inimigos de Deus” (Romanos 5:10; cf. Colossenses. 1:21; Tiago 4:4) e são “contra” Cristo (Mateus 12:30). Eles são “inimigos da cruz de Cristo” e “só pensam nas coisas terrenas” (Filipenses 3:18,19), sendo “por natureza merecedores da ira” (Efésios 2:3).

2. Devemos ser cuidados em não rejeitar as coisas boas que os descrentes fazem, considerando-as totalmente más. Pela graça comum os descrentes fazem algumas coisas boas, e devemos ver a mão de Deus nelas, sendo agradecidos por elas, como por exemplo nas amizades, em cada ato de bondade, no que elas trazem de bênçãos para outras pessoas. Tudo isso — embora o descrente não o saiba — procede em última análise de Deus, e Deus merece a glória por tudo.

3. A doutrina da graça comum deveria estimular nosso coração à gratidão muito maior a Deus. Quando descemos uma rua e vemos casas, jardins e famílias vivendo em segurança, ou quando negociamos no mercado e vemos os resultados abundantes do progresso tecnológico, ou quando andamos pelos bosques e vemos a beleza da natureza, ou quando somos protegidos pelas autoridades, ou quando somos educados no vasto conhecimento humano, devemos perceber não somente que Deus, em Sua soberania, é o responsável último por todas essas bênçãos, mas também que Deus as tem concedido aos descrentes, embora eles não tenham absolutamente nenhum mérito com relação a elas! Essas bênçãos no mundo não são apenas evidências do poder e sabedoria de Deus, mas a manifestação contínua da Sua graça abundante. A percepção deste fato deveria fazer nosso coração se encher de gratidão a Deus em cada atividade de nossa vida.

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Fonte: Teologia Sistemática, Wayne Grudem, Editora Vida, págs. 297-304.

28 de set de 2016

Considerações Sobre Leituras Teológicas

23 de set de 2016

Deus Ama Todos Os Pecadores, Ou Somente o Seu Povo?

Por Leandro Lima

Entendo, que Jesus, sendo Deus, ama e tem compaixão de todos sem exceção. Deus manifesta sua graça indistintamente sobre todos os homens (graça comum), mas a salvadora é especial para os eleitos (graça especial). Assim, Deus ama (de modo comum) todos os homens, pois são suas criaturas, afinal Deus ama tudo o que criou, e desde o início disse que era tudo “muito bom”. Mas ele tem um amor especial (soteriológico) apenas por seu povo, a quem de fato ele salvará.

O Senhor Jesus "amou" o jovem rico (Mc 10.21). Usa essa palavra de forma clara e explícita, e não é boa exegese tentar enfraquecê-la, pois é a palavra bíblica mais usada para “amor”. Aparentemente, o jovem não foi salvo, pois como todos os evangelistas o citam, teriam perdido uma grande oportunidade de dizer que ele posteriormente se converteu (como parece ser o caso de Nicodemos). Separar as naturezas de Jesus, dizendo que ele o amou como homem, mas não o amou como Deus, nos faz cair na heresia do Nestorianismo, portanto, também não é boa solução. Resta-nos, portanto, admitir que Jesus de fato pode amar pecadores que não são salvos e consequentemente, também não são eleitos. 

Assim, o amor de Jesus pelo jovem rico era sincero, como uma criatura pecadora que ele era, e nos ensina que também devemos amar todos os perdidos, apesar de sabermos que somente os eleitos serão salvos, os quais, mostrarão com seu arrependimento, fé e humildade, que são de fato eleitos de Deus e amados com aquele amor eterno, incompreensível para nós.

É importante que fique claro, que em meu texto, estou falando de um amor "genérico", não um amor soteriológico. Essas distinções são necessárias para fazer justiça ao ensino bíblico como um todo. Nós não podemos nos apoiar em apenas parte dos textos bíblicos, a teologia precisa considerar todos eles, e harmonizá-los. A solução racionalista é sempre ignorar alguns textos em benefício de outros que temos mais familiariedade, mas isso faz nossa teologia ter um severo calcanhar de Aquiles. Por isso, historicamente, a teologia reformada tem feito uma distinção entre "vontade decretiva" e "vontade preceptiva" ou "de desejo".

Soa um pouco estranho para nossas mentes iluministas pensar que Deus tenha "duas vontades", e, no fundo, de fato não são duas, mas complementos da mesma. Ainda assim, nós vemos um aspecto da vontade divina em seu decreto pelo qual ele determinou o número exato dos salvos, e vemos o outro aspecto em suas manifestações bíblicas de que "não tem prazer na morte do perverso", ou como no caso do próprio Jesus, diante de Jerusalém, quando diz: "quantas vezes eu quis ajuntar os teus filhos...". Portanto, o mesmo Deus que determinou a salvação e a condenação, também diz que "quis" salvar Jerusalém. Resta-nos reconhecer a biblicidade das duas informações, e submissamente aceitar que Deus revelou isso, talvez para humilhar nossa arrogância em acreditar que possamos compreendê-lo, ou pior, a idolatria de querer fazê-lo ser como nós achamos que ele deveria ser

21 de set de 2016

Fale (ou escreva) o que é bom para a edificação: minha vindicação

Por Alan Rennê Alexandrino

Na chamada parte prática da Epístola aos Efésios o apóstolo Paulo, dentre vários mandamentos, apresentou o seguinte aos cristãos efésios: “Não saia da vossa boca nenhuma palavra torpe, e sim unicamente a que for boa para edificação, conforme a necessidade, e, assim, transmita graça aos que ouvem” (4.29). Nos versículos anteriores Paulo aplica a sua doutrina afirmando que os efésios deveriam andar de modo diferente dos gentios, isto é, daqueles que não conhecem a Deus. Como? Eis a resposta: “na vaidade dos seus próprios pensamentos, obscurecidos de entendimento, alheios à vida de Deus por causa da ignorância em que vivem, pela dureza do seu coração, os quais, tendo-se tornado insensíveis, se entregaram à dissolução para, com avidez, cometerem toda sorte de impureza” (v. 17). De acordo com ele, não foi dessa maneira que os efésios aprenderam. Seus leitores deveriam se despojar do velho homem, “que se corrompe segundo as concupiscências do engano, e vos renoveis no espírito do vosso entendimento, e vos revistais do novo homem, criado segundo Deus, em justiça e retidão procedentes da verdade” (vv. 22-24).

A partir daí o apóstolo apresenta os seguintes imperativos:

1. Deixem a mentira e falem a verdade uns aos outros, pois somos membros uns dos outros (v. 25);

2. Irem-se sem pecar. Não permitam que o sol se ponha sobre sua ira (v. 26);

3. Não deem lugar ao diabo (v. 27);

4. Aquele que furtava pare com essa prática. Comece a trabalhar, fazendo com as próprias mãos o que é bom, para também ter condições de socorrer aqueles que estão em necessidade (v. 28);

5. Não falem palavras torpes, mas apenas aquelas que contribuírem para a edificação mútua (v. 29);

6. Não entristeçam o Espírito de Deus, pois vocês foram selados nele para o dia da redenção (v. 30);

7. Lancem fora toda amargura, cólera, ira, gritaria, blasfêmias, bem como toda malícia (v. 31);

e 8. Sejam benignos uns com os outros, perdoando-se uns aos outros, segundo o que o próprio Deus, em Cristo, fez (v. 32).

Convém voltar nossa atenção para o versículo 29, onde Paulo fala do conteúdo das nossas palavras. Em primeiro lugar, Paulo nos proíbe falar aquilo que é “torpe”. A palavra grega utilizada aqui é σαπρς – saprós, que significa literalmente, de acordo com o Friberg Lexicon: “deteriorado, podre, apodrecido ou decomposto”.[1] Ainda de acordo com o mesmo léxico, o termo também pode significar, de modo mais geral “inútil, sem valor, impróprio”.[2] De acordo com outro léxico, o Thayer’s Greek Lexicon, o termo foi usado pelo filósofo grego Aristófanes, no 5º século antes de Cristo, para falar daquilo que foi “corrompido pela idade e já não é mais apto para uso”.[3] De modo geral, o termo fala daquilo que é de “qualidade pobre, má, inadequado para o uso e indigno”.[4] É interessante notar que este léxico também destaca que a palavra é oposta a καλς – kalós, que significa “bom, excelente em sua natureza e características”.[5]

Sendo assim, o apóstolo Paulo, ao nos proibir de falarmos aquilo que é torpe não está pensando apenas em palavras chulas, imorais e vergonhosas. Ele tem em mente qualquer tipo de palavra má, ímpia e pecaminosa. Isso inclui, por exemplo, a maledicência e a fofoca, que são pecados através dos quais o nome de alguém é difamado, caluniado etc. Jerry Bridges, em seu fantástico livro PECADOS INTOCÁVEIS, aplica o versículo 29, dizendo o seguinte:

“Ao examinarmos Efésios 4.29, observamos que não devemos permitir que nenhuma conversa corrupta saia de nossa boca. Essa conversa não se limita a palavrões e obscenidades. Inclui todos os tipos de conversas negativas que mencionei anteriormente. Note a proibição absoluta de Paulo. Nada de palavra destruidora. Nenhuma sequer. Isso significa nada de fofoca, nada de sarcasmo, nada de críticas, nada de palavras grosseiras. Todas essas conversas malignas que geralmente destroem outra pessoa têm de estar fora de nossas conversas”[6].

Em vez de palavras más, nossa palavra deve ser “unicamente a que for boa para edificação, conforme a necessidade, e, assim, transmita graça aos que ouvem”. Primeiramente, Paulo diz que aquilo que falamos deve ser bom para edificação. O que significa “edificar”? Seria uma palavra edificante apenas aquela que traz enlevo à nossa alma, que desperta bons sentimentos em nossos corações, que produz em nós boas sensações? Há alguma possibilidade de uma palavra edificante suscitar uma resposta de oposição ao pregador/escritor? Além disso, há alguma desarmonia ou incompatibilidade entre a palavra boa para a edificação e a veemência, a firmeza das convicções e a ousadia no falar?

O termo grego para edificação é οκοδομ - oikodomê, que fala de uma construção, um edifício cuja construção avança rumo ao seu acabamento. Novamente evocando o Thayer’s Greek Lexicon, o termo fala “da ação de alguém que promove o crescimento de outrem na sabedoria, piedade, santidade e felicidade cristãs”.[7] Comentando Efésios 4.29, o reformador João Calvino diz que interpreta a ordem de Paulo “como sendo o progresso de nossa edificação, pois edificar é progredir, avançar”.[8] Assim, a edificação busca que o outro avance, cresça, vá adiante, progrida na fé cristã.

É interessante que versículos antes o apóstolo Paulo fala do ofício pastoral e sua relação com a edificação dos crentes: “E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo” (4.11-12). Assim, o objetivo do Senhor Jesus ao conceder pastores e mestres à sua Igreja é o aperfeiçoamento dos santos e a edificação do corpo de Cristo. Logo em seguida, ele acrescenta um alvo positivo e outro negativo. O alvo positivo é até que “cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo” (v. 13). Já o alvo negativo é: “para que não mais sejamos como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro” (v. 14).

Com isto em mente, com qual objetivo pastores e mestres devem trabalhar? O que eles devem pretender ao pregarem, ensinarem, falarem e escreverem? Pelo princípio de 4.29, aquilo que edifica as pessoas de acordo com a necessidade. De acordo com 4.12, isso significa que, de um lado, que suas ovelhas se tornam cada vez mais parecidos com o Senhor Jesus Cristo. De outro, que elas não sejam suscetíveis aos maus ensinamentos dos falsos mestres. Paulo deixa claro que parte da natureza do ministério pastoral é ser combativo, veemente, firme e ousado frente à enxurrada de falsos mestres que estão em operação. Ele tem seus olhos postos na atuação de falsos mestres que podem enganar os cristãos. D. Martyn Lloyd-Jones, em sua exposição dessa passagem nos diz que, “de todos os perigos, nenhum é maior do que ‘o engano dos homens’ e a astúcia com que eles enganam fraudulosamente’”.[9]

Esse perigo é reforçado quando observamos o ensinamento geral das Escrituras a respeito das falsas doutrinas e da postura combativa que o pastor deve adotar, a fim de repelir o erro. Nesse sentido, precisamos lembrar que o apóstolo Paulo, escrevendo a Timóteo, afirma que a linguagem dos falsos mestres “corrói como câncer” (2Timóteo 2.17). Escrevendo a Tito, Paulo fala daqueles que eram “insubordinados, palradores frívolos e enganadores” (1.10). A palavra de Paulo a Tito a respeito desses homens foi: É preciso fazê-los calar, porque andam pervertendo casas inteiras, ensinando o que não devem, por torpe ganância” (1.11). No versículo 13, Paulo continua: “Portanto, repreende-os severamente, para que sejam sadios na fé”. Pela regra de Efésios 4.29, Tito deveria falar de modo que contribuísse para a edificação conforme a necessidade. Há alguma incompatibilidade entre esse princípio e as ordens dadas por Paulo em sua carta pastoral? De modo nenhum! No caso específico, Tito estaria contribuindo com a edificação das outras pessoas a partir do momento em que fizesse os falsos mestres calarem e os repreendesse severamente. Fazê-los calar e repreendê-los severamente não é incompatível com a boa palavra que coopera para a edificação dos outros. Antes, é algo que está incluído. Pela regra de Efésios 4.12-14, ao silenciar e repreender os falsos mestres, Tito estaria cooperando para a edificação dos santos, para que eles não fossem enganados pela astúcia dos falsos mestres.

Nesse sentido, podemos pensar também em como o princípio de Efésios 4.29 se aplica ao ministério daquele que é conhecido como o último profeta do Antigo Testamento, João Batista. O ensino de João Batista compreendia o chamado ao arrependimento: “Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus” (Mateus 3.2; conferir Marcos 1.4). No entanto, ao se dirigir aos muitos fariseus e saduceus que iam até ele para serem batizados, o discurso de João Batista adquiria um tom ainda mais forte: “Raça de víboras, quem vos induziu a fugir da ira vindoura? Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento; e não comeceis a dizer entre vós mesmos: Temos por pai a Abraão; porque eu vos afirmo que destas pedras Deus pode suscitar filhos a Abraão. Já está posto o machado à raiz das árvores; toda árvore, pois, que não produz bom fruto é cortada e lançada ao fogo” (Mateus 3.7-10). É bom observar que, de acordo com Lucas, esse discurso também era dirigido às multidões, e não apenas aos fariseus e saduceus (Lucas 3.7). Qual foi mesmo o fim de João Batista, por ter ele se pronunciado contra o pecado de Herodes? Todos sabemos. Seria ele o tipo de profeta benquisto? Por qual razão ele não era benquisto? Teria ele errado ao falar como falou? Teria ele agido contra o princípio da edificação? Eu creio que a resposta é óbvia.

E Jesus? Ah, com Jesus é diferente. Afinal de contas, ele disse: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma. Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve” (Mateus 11.28-30). Palavras doces, não é mesmo? Certamente, tratam-se de palavras edificantes. No entanto, este mesmo Jesus, em diversas ocasiões, endureceu o seu discurso, foi veemente, ousado e intolerante em seus pronunciamentos. O que dizer do escandaloso discurso registrado em Mateus 23.13-36, no qual, por sete vezes Jesus se dirigiu aos escribas e fariseus, dizendo: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas”? O que dizer das duras expressões usadas para adjetivar os escribas e fariseus, como por exemplo, “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque rodeais o mar e a terra para fazer um prosélito; e, uma vez feito, o tornais filho do inferno duas vezes mais do que vós!” (Mateus 23.15)? Não é possível deixar de perceber que, aqui, Jesus chamou os escribas e fariseus de “filhos do inferno”! Ele também os chamou de “insensatos e cegos!” (v. 17), “guias cegos” (vv. 16,24), “sepulcros caiados, que, por fora, se mostram belos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda imundícia!” (v. 27), “serpentes, raça de víboras!” (v. 33), condenados do inferno (v. 33). O que dizer de tais palavras de nosso Senhor? Foram elas ditas para edificação? Elas serviram ao propósito de edificar os santos e, assim, livrá-los dos falsos mestres que enganam com todo tipo de astúcia? Certamente, que sim!

Temos ainda o famoso sermão sobre o Pão que desceu do céu, registrado em João 6. Qual foi a reação dos judeus que ouviram as palavras de Jesus naquela ocasião? Eis: “Muitos dos seus discípulos, tendo ouvido tais palavras, disseram: Duro é este discurso; quem o pode ouvir?” (João 6.60). As palavras de Jesus, disseram os judeus, foram duras. De acordo com eles, tal discurso era insuportável. No versículo 66 está escrito: “À vista disso, muitos dos seus discípulos o abandonaram e já não andavam com ele”. Tudo ia bem até Jesus adotar um tom ousado e veemente em suas palavras. Ele era “edificante” até pregar o sermão de João 6. Mas, teria Jesus falhado em dizer palavras propícias à edificação daquelas pessoas, uma vez que elas não gostaram, na verdade, não suportaram aquele discurso? Ou será que, sim, Jesus disse palavras edificantes e a culpa estava, na realidade, nos corações dos ouvintes? Eu acredito firmemente que as palavras de Pedro respondem a estes questionamentos: “Respondeu-lhe Simão Pedro: Senhor, para quem iremos? Tu tens as palavras da vida eterna” (v. 68). Pedro reconhece que aquele duro discurso, aquele discurso intolerável para muitas pessoas era, na verdade, constituído de palavras de vida. Aquele discurso intolerável era, sim, um discurso edificante.

Não é incomum a existência de uma tensão em razão do discurso mais duro e combativo de ministros do evangelho. Isso ocorre mesmo dentro das igrejas cristãs. Isso ocorreu com Paulo e uma igreja local plantada por ele. Em 2Coríntios 10.10 Paulo reproduz o que era dito pelos crentes da igreja de Corinto a respeito daquilo que ele escrevia: “As cartas, com efeito, dizem, são graves e fortes; mas a presença pessoal dele é fraca, e a palavra, desprezível”. O contraste entre “as cartas graves e fortes” e a “palavra desprezível” é digno de nota. Era como se dissessem que havia uma diferença entre o Paulo no púlpito e o Paulo escritor. Escrevendo ele era ousado, forte, impetuoso, intolerante. E isso não agradava os coríntios. E como os coríntios julgavam a Paulo? Ele mesmo responde no versículo 2: “nos julgam como se andássemos em disposições de mundano proceder”. Será que, naquilo que escrevia, Paulo não atentava para a edificação dos coríntios? Não é este o caso. A carta inteira, então, é uma defesa de Paulo, da corretude do seu procedimento. O que mais chama a minha atenção é o fato de que temos aqui crentes que eram filhos na fé de Paulo, e que o julgavam dessa forma. Não é de admirar, pois, que o mesmo ocorra com pastores cujas igrejas não foram plantadas por eles.

Eu poderia falar também do que era experimentado pelos profetas do Antigo Testamento. Limito-me, todavia, a Jeremias, chamado para falar contra os pecados do povo de Deus. No capítulo 20 do seu livro nós nos deparamos com uma triste ocorrência. Somos apresentados a um homem chamado Pasur, filho do sacerdote Imer. O versículo 1 diz que Pasur “ouviu a Jeremias profetizando estas coisas”. Que coisas? Precisamos voltar ao verso 15 do capítulo 19: “Assim diz o SENHOR dos Exércitos, o Deus de Israel: Eis que trarei sobre esta cidade e sobre todas as suas vilas todo o mal que pronunciei contra ela, porque endureceram a cerviz, para não ouvirem as minhas palavras”. Jeremias proferira uma profecia de juízo, um anúncio de castigo da parte de Deus. O que Pasur fez? Como ele reagiu? Como ele tratou a Jeremias? Eis a resposta: “Então, feriu Pasur ao profeta Jeremias e o meteu no tronco que estava na porta superior de Benjamim, na Casa do SENHOR. No dia seguinte, Pasur tirou a Jeremias do tronco” (v. 2). Isso é simplesmente inimaginável! Um profeta espancado, amarrado a um tronco e deixado ao relento noturno! E por quê? Pela fidelidade a Deus! E Jeremias lamenta a sua situação diante do Senhor: “Persuadiste-me, ó SENHOR, e persuadido fiquei; mais forte foste do que eu e prevaleceste; sirvo de escárnio todo o dia; cada um deles zomba de mim” (v. 7). Ele era escarnecido. Ele era zombado. E por quê? Pela fidelidade a Deus! Mais à frente, do versículo 14 ao 18, o lamento de Jeremias ganha contornos ainda mais doloridos.

O que se requer, então, dos cristãos em relação aos seus ministros nesse sentido? Compreensão, simpatia, empatia e boa vontade. Pastores precisam ser combativos. Paulo deixou isso bem claro aos presbíteros de Éfeso (Atos 20.17-35). Lobos vorazes que não poupam o rebanho penetram na igreja (v. 29). E, em nossos dias, isso acontece por meio da televisão e também da internet. Muitas vezes, do meio da própria liderança homens se levantam falando coisas pervertidas para arrastar os discípulos atrás deles (v. 30). Pastores precisam vigiar, estar atentos (v. 31). Eles precisam enfrentar tais lobos. E, ao fazerem isso, eles estão lutando pela edificação dos crentes. É uma tarefa dolorosa. É angustiante. É desgastante ter de lutar contra o erro, que muitas vezes se apresenta de modo sutil. Hebreus 13.17 diz que os crentes devem obedecer aos seus guias/líderes/ministros, pois eles velam por suas almas. E mais, os ministros prestarão contas pelas almas dos crentes. Meu coração acelera quando penso em que, um dia, eu estarei diante de Deus e prestarei contas pelas almas das pessoas que passaram pelos meus cuidados. E se eu não tiver vigiado atentamente contra os lobos? Se eu não tiver calado os falsos mestres? E se eu não os tiver combatido e repreendido? O que será de mim? Além disso, Hebreus 13.17 também diz que os crentes devem se submeter aos seus pastores, para que, no exercício do seu ministério eles façam isso com alegria e não gemendo. Será que quando uma ovelha se volta contra o ensino do seu pastor e o rejeita isso não faz com que ele gema?

Ainda evocando a Paulo, ele diz a Timóteo que “devem ser considerados merecedores de dobrados honorários os presbíteros que presidem bem, com especialidade os que se afadigam na palavra e no ensino” (1Timóteo 5.17). Afadigar-se na palavra e no ensino... Fadiga é o resultado natural do pastorado. Essa fadiga pode ser aumentada, dependendo da resposta ao ministério do pastor. Mas, o pastor, que se afadiga na palavra e no ensino, que se esforça por fazer os falsos mestres calarem, que os repreende, que os combate, que vigia contra os lobos, e, em tudo isso, ele busca a edificação da igreja, o que ele merece? Paulo diz: “dobrados honorários” ou “duplicada honra”, como diz a versão Corrigida Fiel. Encerro com as palavras de um pastor, Jonathan Edwards, que, no passado, foi alvo de incompreensão, e que falando sobre a excelência do ministro cristão, fez o seguinte apelo aos crentes:

E aqui me dirijo especialmente ao povo de Deus, cujas almas em breve estarão sob os cuidados dEle, mas agora está solenemente sendo separado para a obra do ministério.

Se de fato, vocês ouviram, é a excelência apropriada de um ministro do Evangelho ser como uma lâmpada que arde e alumia, então é dever de vocês orarem seriamente pelo seu ministro, a fim de que ele se encha com a luz divina e com o poder do Espírito Santo. Pois aqui vocês estarão orando por algo que é para o vosso próprio benefício. Pois se o ministro de vocês queimar e iluminar, será para a vida e luz de vocês. Aquilo que foi exposto, que é a principal excelência de um ministro, a fim de se tornar um ministro a maior bênção de todas as coisas que Deus sempre dá a um povo.

E como é dever de vocês, orar pedindo que seu ministro seja tornado uma bênção tal para vocês, então devem fazer a sua parte para que seja assim, apoiando-o, e colocando-o na melhor das circunstâncias, com uma mente livre dos cuidados do mundo, e a pressão das demandas e dificuldades exteriores, para que ele se dedique inteiramente à sua obra. E por todas as formas devidas de respeito, e gentileza, e ajuda, vocês devem encorajar seu coração, e fortalecer suas mãos. E tomar cuidado a fim de que não façam nada para obscurecer e apagar a luz que brilha no meio de vocês, e abafar e apagar a chama, ao lançar terra e sujeira sobre ela; ao ter o ministro de vocês a necessidade de se envolver em preocupações mundanas, pela indigência com que o tratarem; e ao desencorajarem seu coração pelo desrespeito e rudeza.
E, particularmente, quando o ministro de vocês se mostrar uma lâmpada que queima, ao queimar com o zelo apropriado contra toda e qualquer impiedade que talvez esteja acontecendo no meio do seu povo, e manifeste esse zelo ao testemunhar apropriadamente contra isso na pregação da Palavra, ou por um exercício fiel da disciplina da casa de Deus, em vez de receber isso com gratidão, e o apoiando nisso, como vocês devem, não levantem outro fogo, de natureza de oposição contra isso, qual seja, o fogo de suas paixões ímpias, se manifestando ao reprová-lo por sua fidelidade. Aqui vocês irão agir de inconformidade com o povo cristão, e se mostrarem muito ingratos para com seu ministro, e para Cristo, que lhes deu um ministro tão fiel. E irão também, enquanto vocês lutam contra ele, e contra Cristo, lutar mais eficientemente contra suas próprias almas.

Se Cristo deu a vocês um ministro que é uma lâmpada que arde e alumia, tomem cuidado para que vocês não odeiem a luz, porque suas obras são reprovadas por ela. Mas amem e se regozijem na sua luz; e isso não somente por um tempo, como os ouvintes apóstatas de João Batista; e venham à luz. Que o seu auxílio frequente seja o seu ministro para os assuntos da alma, e em relação a qualquer dificuldade espiritual. E estejam abertos à luz e desejosos de recebê-la. E sejam obedientes a ela. E assim andem como os filhos da luz, e sigam o seu ministro assim como ele é seguidor de Cristo, isto é, quando ele é uma lâmpada que arde e alumia. Se vocês continuarem a fazer isso, seus caminhos serão como o caminho dos justos, que brilha mais e mais até ser o dia perfeito, e o fim do curso de vocês será naquelas regiões de alegria da infinita luz do Altíssimo, onde vocês brilharão com o vosso ministro, e vocês com Cristo, como o sol, no reino de nosso Pai celeste.[10]

Em Cristo, Senhor nosso,

Alan

***

REFERÊNCIAS:

[1] BibleWorks 10.
[2] Ibid.
[3] Ibid.
[4] Ibid.
[5] Ibid.
[6] Jerry Bridges. Pecados Intocáveis. São Paulo: Vida Nova, 2013. p. 154.
[7] BibleWorks 10.
[8] João Calvino. Efésios. São José dos Campos: Fiel, 2007. p. 117.
[9] D. Martyn Lloyd-Jones. A Unidade Cristã: Exposição sobre Efésios 4.1-16. São Paulo: PES, 1994. p. 199.
[10] Jonathan Edwards. A Verdadeira Excelência do Ministro Cristão. Niterói, RJ: Interferência, 2012. pp. 47-50.

19 de set de 2016

A Analogia do Endividado

Por Thiago Oliveira


Um homem simples está devendo um valor xis a um homem proeminente. O credor então cobra-lhe a dívida dando-lhe um ultimato: Ou se paga ou o fim do devedor será trágico. Ao homem endividado só resta temer o seu destino, pois ele tem o número da conta do seu credor em mãos, todavia, não conseguirá fazer nenhum depósito, ele não possui e nunca possuirá tal quantia. Quando menos se espera, um outro homem, que não tinha nada a ver com aquela dívida, deliberadamente paga o valor exato para livrar o devedor da sua severa punição.

Ao ver todo aquele dinheiro depositado em sua conta, o credor não tem mais nada para cobrar. Foi pago tim-tim por tim-tim. E o homem que estava prestes a ser arruinado, agora folga por não ter mais aquele débito. Estava livre. Agora imagine você, caro leitor, que mesmo após ver a importância depositada em sua conta, o credor mandasse um encarregado seu ir atrás de quem lhe devia e perguntasse:

- Alguém pagou a dívida para você. Agora cabe a ti aceitá-la.

Neste momento você deve estar achando improvável tal pergunta. E de fato é. Agora, imagine que além disso, a resposta do endividado fosse:

- Não, eu não quero aceitar.

Absurdo. Não há uma outra palavra para adjetivar tal desfecho. No entanto, é assim que se baseia a teologia arminiana quando diz que a Graça é resistível e que o homem pode rejeitar a oferta da salvação. Para entendermos isso de uma maneira melhor, é necessário estar ciente de outros basilares conceitos da soteriologia (doutrina da salvação) reformada. A saber: Total Depravação e Expiação Limitada.

A depravação total consiste em dizer que todos os homens estão numa situação decaída. Eles estão em rebelião contra Deus e por isso estão espiritualmente mortos (Ef 2:3; Rm 3:12; Jo 8:34). Mas, Deus em Sua soberana vontade, para o louvor de Sua glória, escolheu alguns destes pecadores mortos e os vivificou em Cristo. Por que Ele fez isso? Efésios 1 nos diz que foi para “o louvor da Sua glória” (v. 6, 12 e 14).  Seus eleitos, não tiveram mérito algum, por isso não podem se vangloriar (Ef 2:8-9, Rm 3:27). Daí o questionamento: e quanto aqueles que não se convertem quando anunciamos o sacrifício do calvário? Não estariam eles resistindo?

Aparentemente eles estão rejeitando sim. Contudo voltemos a analogia do homem endividado. Porque ele não podia negar o pagamento feito por um terceiro elemento em seu favor? Porque aquele pagamento salvaria sua pele. Por isso não há como rejeitar o sacrifício de Cristo, a não ser que este não tenha morrido por aqueles que continuam mortos. A expiação limitada ensina justamente isto: A cruz não redimiu todos os homens, apenas os eleitos. Da mesma forma, o homem de nossa estória pagou a dívida de um devedor e não de todos os devedores. Por isso, os que aparentemente rejeitam a mensagem da cruz, na verdade não foram por ela alcançados. Em outras palavras, a dívida deles não foi paga por Jesus.

Quando a Bíblia diz que o sangue de Jesus é suficiente para nos purificar de todo o pecado (Tt 2:14, 1Pd 1:18-23 e Ap 1:5), não podemos conceber a ideia de que tais homens desprezariam sua morte, tornando-a em vão. Se estes continuam na sua condição pecaminosa, é porque não receberam a fé salvífica e não foram alcançados quando Cristo expirou no gólgota. Eles são espiritualmente cegos e não enxergam que são pecadores. Obstinados continuam devendo e acham que está tudo quite. A revelação de que devíamos um exorbitante valor, e que nossa dívida foi paga, chegou até nós. Regozijamos com esta boa-nova. Porém, alguns continuam com os olhos vendados para esta realidade (2Co 4:3-4). 

Dizer que Jesus morreu por todos os homens, porém muitos não serão salvos porque vão recusá-lo é tornar os sofrimentos do Senhor inúteis, sendo necessário fazer mais alguma coisa. Restringir a cruz a vontade humana é tão absurdo como acreditar que o devedor da nossa analogia escolheria continuar devendo um débito que já havia sido quitado.

14 de set de 2016

9 Marcas de um Presbitério Saudável

Por Sinclair Ferguson[1]

Quero fornecer 9 marcas de um presbitério saudável. Presbíteros podem avançar ou retardar a saúde espiritual de uma congregação. A seleção deles, portanto, é vital. Os poucos comentários abaixo são limitados à questão: Como reconhecer quem deveria servir como presbítero?

1. Ao passo que nos arrependeremos de colocarmos a medida abaixo dos padrões das Escrituras em reconhecer homens chamados para o presbitério, podemos também, em nosso zelo, coloca-la artificialmente acima das Escrituras, e falharmos em reconhecer que alguns dos melhores dons crescem no ministério.

2. Lembre-se especialmente que “estar apto para ensinar” (1Timóteo 3.3), com seu corolário de ser apto para “repreender” (Tito 1.9, isto é, usar as Escrituras para os fins aos quais são dadas, 2Timóteo 3.15-16) não especifica a arena. Alguns que são “aptos para ensinar” não se encaixam na pregação pública regular.

3. Busque homens que exibam o espírito, assim como o apego intelectual, da doutrina saudável. Ortodoxia com aproximação é uma grande aspiração em um presbítero (aproximação como o sentido mínimo de “hospitalidade”, Tito 1.8).

4. Exponha a questão mais negligenciada – “Os de fora pensam bem dele?” (1Timóteo 3.7) – e pondere por que essa questão é importante.

5. Escolha aqueles que já estão “entre” o rebanho e o rebanho “entre” eles (1Pedro 5.2). Tendo conhecido as qualificações morais, domésticas, ocupacionais e didáticas, pergunte: “Esse homem ama o rebanho e é amado por ele?”. O comprometimento para com a oração corporativa é geralmente o papel de tornassol.[2]

6. Evite apontar aqueles que se comprometeriam a amar o rebanho se eles fossem chamados para ser presbíteros. É bem melhor ter homens que amam as ovelhas do que homens que amam serem pastores.

7. Procure por homens que são simultaneamente gentis, mas preparados para serem corajosos e preparados para sofrer se necessário – colocar-se na frente para proteger, como também se colocar atrás para seguir! Um presbítero deve ser capaz tanto da repreensão bíblica quanto da restauração gentil (Gálatas 6.2). Homens quietos, com corações quietos, são dignos do seu peso em ouro e podem nos surpreender por sua sabedoria.

8. Faça a pergunta: “Nossa igreja teria vontade, se necessário, de pagar a esse homem um salário para trabalhar entre nós como um presbítero?”. A resposta pode dizer muitas coisas sobre seu ministério no rebanho e a estima que ele tem diante dos olhos deles.

9. Considere quão bem a vida de um homem ecoa os princípios do pastoreio do Senhor no Salmo 23.

***
[1] Esse texto é parte de um fórum, onde diferentes pastores compartilham suas experiências na escolha de seus presbíteros. Você pode ler o fórum completo no excelente blog Voltemos Ao Evangelho

[2] papel de tornassol é um teste feito para diferenciação das propriedades de acidez de um composto químico.

12 de set de 2016

Jonathan Edwards via a justiça econômica como uma preocupação do Evangelho

Por Greg Forster

Jonathan Edwards fez da justiça econômica uma preocupação vital no seu ministério pastoral, porque ele viu que isso era necessário para a proclamação do evangelho da salvação em Cristo. A historiografia tende a negligenciar esse aspecto de sua história. Mas em momentos críticos da carreira pastoral de Edwards, as preocupações com a justiça económica desempenharam um papel fundamental no seu ministério - motivado pelo seu desejo de proclamação fiel e fecunda do Evangelho.

Hoje, mesmo aqueles que afirmam a necessidade de ambos: a proclamação do evangelho e preocupação com a justiça, muitas vezes os veem como prioridades concorrentes. Mais atenção para um deve significar menos atenção ao outro, certo?

Nós nos beneficiaríamos ao nos depararmos com a confiança de Edwards de que estes dois imperativos não podem ser separados, e com sua coragem em viver essa conexão de forma onerosa.

Justiça Econômica e Avivamento

Embora avivamento tenha sido uma das principais preocupações de Edwards, alguns momentos podem começar a rivalizar em importância com o avivamento conhecido como o Grande Despertar. A comunidade de Edwards em Massachusetts era parte de um fenômeno religioso internacional. Seus sermões, atiçavam o fogo do reavivamento e seus livros que descreviam seu progresso estavam sendo lidos em ambos os lados do Atlântico.

No auge do Grande Despertar, Edwards fez um sermão sobre como ter "descobertas espirituais." É uma janela em suas prioridades pastorais. O que ele escolheu para se concentrar, em um momento tão crucial, como chave para alimentar e sustentar o avivamento? Quando seu povo está, finalmente, perguntando como ter descobertas espirituais, para onde ele apontou?

Ele apontou para a justiça econômica

"Ser muito mais em obras de caridade", ele prega, “é a maneira de ter descobertas espirituais." Edwards aplica a frase "obras de caridade" quase exclusivamente ao trabalho com os que são economicamente pobres. Ele cita como exemplos as moedas da viúva (Marcos 12: 42-43); a generosidade de Cornélio aos necessitados; A declaração de Paulo que, para aqueles que dão pouco, mesmo que eles dão testemunho mais a sua cobiça de generosidade ( 2 Cor. 9: 5 ); uma passagem de Isaías sobre a pobreza econômica (Is 58 7-11.) e a pobreza econômica do próprio Cristo.

Aqui, não é difícil ver a conexão com o evangelho: a justiça econômica promove as "descobertas espirituais" que impulsionam o avivamento evangélico. Ele enfatiza a união com Cristo e a santidade à base de graça, como sendo conexões entre a justiça econômica e o evangelho:

Se vamos ser gentis com Cristo e acolhê-lo bem, e quando ele estiver com fome, vamos alimentá-lo e quando estiver sedento, lhe daremos de beber, esse é o caminho a ser recompensado com grande parte de seu reino.

Ele vai ainda mais longe ao dizer em Mateus 9:13 que a caridade para com os pobres é "mais importante do que atitudes externas de culto"!

Edwards tem o cuidado de observar que não podemos adquirir união com Cristo ou perfeição moral através destas boas obras. Ele também observa que somente a regeneração pode ressuscitar nossos corações mortos para as verdadeiras boas obras. No entanto, ele ao mesmo tempo argumenta que as boas obras têm valor evangelístico. Elas são valiosas para os fiéis, por direito próprio, como o caminho para aumentar a piedade, e também para levar o evangelho ao infiel –individualmente e em comunidades.

Justiça Econômica e a Igreja

Outro tema central da carreira pastoral de Edwards foi à controvérsia sobre os limites da igreja. Edwards foi removido de seu posto em Northampton por insistir que todos os membros da igreja devem ser regenerados. Mas Edwards teve uma longa história de conflitos com os líderes em sua igreja, que data antes do grande despertar, e nesses conflitos, a santidade da igreja geralmente era a questão central.

Uma das disputas mais acentuadas entre Edwards e outros líderes da igreja em causa uma mudança na política dos bancos, quando um novo local de reunião foi construído em 1737. Por uma longa tradição que remonta à Idade Média, os bancos foram atribuídos aos paroquianos por ordem de classificação social. A ordem foi determinada por uma mistura antiga, serviço à comunidade e doações monetárias para a igreja. No novo edifício, o papel de doações monetárias foi muito maior em relação aos outros fatores.

Edwards estava lívido. Ele viu a nova política como uma idolatria flagrante pelo dinheiro. Ele lutou com unhas e dentes contra ela, e perdeu. No primeiro domingo na nova casa, o autor de "Pecadores nas Mãos de um Deus Irado" convocou seus poderes e pregou um sermão com fogo do inferno escaldante sobre a idolatria do dinheiro. E ele fez questão de mencionar a política dos bancos:

Alguns têm casas mais imponentes do que outros, e alguns têm cargos mais elevados do que outros, e alguns são mais ricos do que outros e têm lugares mais elevados na casa de reunião do que outros; mas todas as sepulturas estão em um nível. O apodrecimento, a putrefação de um corpo é tão abjeta como num outro; os vermes são tão ousados numa carcaça como na outra.

Os ricos do Northampton pagaram para se sentarem na primeira fila para a sua própria evisceração espiritual.

Edwards pregou este sermão cheio de vermes e cadáveres memoráveis ​​e tudo isso no dia de Natal. Quem entre nós seria corajoso o suficiente para tentar esse tipo de coisa agora?

O historiador Ronald Story argumenta que o conflito dos bancos deve ser visto como um momento crucial no ministério pastoral de Edwards, e uma admirável brecha para o conflito que acabaria por levá-lo a demissão. Foi uma demonstração clara e antiga de que a visão de Edwards do que a igreja deveria ser não se alinhava com aquela de muitas outras pessoas.

Justiça Econômica e Missões

Quando Edwards foi demitido da igreja, ele enfrentou uma das decisões mais importantes de sua vida. Na época do conflito sobre justiça econômica saiu para a missão de nativos americanos em Stockbridge, que Edwards havia apoiado a partir de Northampton durante anos. Edwards assumiu a missão de Stockbridge em grande parte porque ele queria mudar a forma como era executada, a fim de atender a população nativa mais justa e para promover o desenvolvimento econômico e a evangelização.

Na década de 1740 a missão Stockbridge professou lealdade ao evangelho e pretendia ensiná-lo, mas não tratou os povos nativos de forma congruente com ele. A população nativa local doou tanto a terra como o trabalho para a construção da missão. Em troca, o missionário Inglês prometeu que a missão iria servi-los. Mas a promessa não foi mantida; o missionário focou em servir a vizinha cidade de Englishtown, e tratou os postos de ensino nas escolas de missão como posições de patrocínio confortáveis.

Edwards mudou a residência missionária de volta para a comunidade nativa e trabalhou incansavelmente para defender um tratamento melhor. Mas ele teve que lutar com diversas autoridades para obter permissão para fazer alterações. O historiador Gerald McDermott escreve:

Edwards passou horas pacientemente escutando o inglês partido e a linguagem gestual de crianças indígenas e fazendo perguntas em língua nativa partida, para que ele pudesse relatar com precisão para os Comissários de Boston que seus estudiosos indianos não têm cobertores ou alimentos suficientes, que alguns meninos não tinham calças e muitos estavam indo irregularmente às reuniões, e que todos os meninos estavam sendo forçados a trabalhar seis dias por semana.

O primordial em seus apelos às autoridades, foi a credibilidade da missão entre aqueles que pretendia alcançar. A missão não pode enganar as pessoas e depois evangelizá-las. Os esforços de Edwards em nome dos pobres e marginalizados foram recompensados ​​com calúnias pessoais perversas.

Edwards também viu o desenvolvimento econômico como um imperativo do evangelho. A renovação dos nossos corações e vidas pelo Espírito Santo deve resultar em uma intensa preocupação com o aperfeiçoamento espiritual e físico da condições dos outros. A defesa de Edwards por melhores serviços para os nativos em Stockbridge não compartimentam o desejo de evangelizar e o desejo de ajudá-los a construir uma melhor vida econômica. Para ele, isso era todo amor do evangelho.

Perguntas que Assombram

Jonathan Edwards considerou uma parte central do trabalho de um pastor, por causa do evangelho, exortar as pessoas a obras de caridade, para confrontar a injustiça econômica, e promover o desenvolvimento econômico. É claro que sempre haverá tensões e escolhas difíceis. Mas temos a necessidade de um novo encontro com a potencial harmonia do evangelho e a justiça econômica no ministério pastoral.

Os evangélicos americanos hoje são tentados a se sentirem satisfeitos consigo mesmo quando olham para trás na igreja que despediu Edwards por insistir que todos os membros da igreja devem ser regenerados. Mas o que dizer de um pastor que insistiu que todos os membros da igreja devem ser generosos e justos? Quantos pastores hoje, se solicitados a explicar como as pessoas podem ter "descobertas espirituais", sequer mencionar o trabalho com os pobres e muito menos torná-lo o primeiro item na lista, como Edwards desavergonhadamente fez?

Tais questões devem nos assombrar. A dedicação de Edwards para manter o evangelho e a justiça econômica juntos, mesmo com um grande custo para si mesmo, expõe a qualidade superficial da dedicação ao evangelho e a justiça em muitas igrejas hoje.

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