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19 de dez de 2015

O Imensurável Amor de Deus

Por Hugo Wagner

As Escrituras frequentemente testemunham a respeito do amor de Deus. Elas falam dele como o Deus de amor (2 Co 13.11) e declaram que Ele é amor (1 Jo 4.8,16). João descreve Deus como sendo amor. Amor é a essência de Deus. Como podemos definir esse amor de Deus? Por que ele é tido como imensurável?

Segundo Berkhof o amor de Deus pode ser definido como a perfeição de Deus pela qual Ele é movido eternamente à sua própria comunicação. De forma mais detalhada, Paulo Anglada, em seu Livro, Soli Deo Gloria define: “O amor trata-se de um atributo essencial do seu caráter como ser moral, que caracteriza as suas relações internas e externas." Interna para consigo mesmo; e externamente para com as suas criaturas, que ele se manifesta por meio da sua bondade, longanimidade, misericórdia e graça". 

Podemos definir o Amor de Deus como aquela perfeição da natureza Divina pela qual, Ele é continuamente induzido a se comunicar, não sendo somente por um impulso emocional, mas uma afeição racional e voluntaria, sendo fundamentada na verdade e no exercício da sua livre escolha. (Palestras em Teologia Sistemática - Henry Thiessen).

John M. Frame em seu volume A doutrina de Deus defini o amor de Deus como: “a feição que se doa por suas criaturas que portam a sua imagem, e se interesse altruísta pelo bem-estar delas, afeto que o leva a agir em favor delas, bem como pela felicidade e prosperidade delas”.

Esse amor é imensurável em sua grandeza. Encantado com esse amor João exclamou “Vede que grande amor nos tem concedido o Pai, a ponto de sermos chamados filhos de Deus. O que realmente somos filhos. Por isso o mundo não nos conhece, porque não o conheceu” (I João 3:1). João admira-se do fato de Deus ter tornado os inimigos dele em filhos! Isso nos mostra a grandeza ilimitável do seu amor.

Paulo também descreve a imensidão do amor Deus em sua carta aos Efésios no capitulo 3.17-19. Ele diz: “e assim habite Cristo no vosso coração. Pela fé, estando vós arraigados e alicerçados em amor, a fim de poderdes compreender, com todos os santos, qual é a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade e conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento, para que sejais cheios de toda a plenitude de Deus”. Paulo nesse texto usa quatro Palavras para tentar dar dimensão desse amor:

Largura – provavelmente ela aponta para o fato de não somente judeus serem alcançados, mas todos os seres humanos.

Comprimento – provavelmente tenha a ver com extensão temporal desse amor, que vem desde a eternidade e vai até a eternidade.

Altura – provavelmente seja uma associação com as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo.

Profundidade – provavelmente seja uma referência ao fato de que esse amor nos buscou quando estávamos nas profundezas do pecado. Mortos em delitos e pecados.

Esse amor é tão grande que vai para todas as direções, que percorre todas as distâncias e tempos a fim de nos alcançar. Esse amor sendo infinito e incalculável tem alguns objetos. Quais são os objetos do Amor de Deus?

Em primeiro lugar, o Imensurável Amor de Deus tem como principal objeto, Ele próprio. É natural o ser humano pensar que o amor de Deus está direcionado somente aos pecadores. A verdade é que Deus em primeiro lugar e principalmente, ama a Si mesmo; esse amor é chamado pelos teólogos de um amor intratrinitário, é um amor que opera de forma interna e eterna, é o amor que Ele tem por Si mesmo, isto é, a Sua glória, o fim último de tudo que ele faz na natureza, providência e na graça (Pv 16.4; Ro 11.36; Ef 1.6; Ap 4.11) e sua felicidade está em contemplar a Si mesmo, Sua natureza e perfeições; e neste amor, a complacência e deleite que Ele tem em Si mesmo. Ele não precisa nem pode haver qualquer coisa fora de Si mesmo que possa adicionar algo à Sua felicidade. Ele esta feliz e satisfeito em si mesmo.

Jonathan Edwards falando sobre esse amor declara: “Todo o amor de Deus talvez se resuma ao seu amor por si mesmo e ao seu deleite em si mesmo... Seu amor pela sua criatura é apenas a sua inclinação para glorificar a si mesmo e transmitir-se a si mesmo para seu próprio deleite na glorificação e transmissão de si mesmo”. (As Quatro Faces do Amor-próprio na teologia de Edwards – Vol. 51)

As três Pessoas da Divindade mutuamente se amam; o Pai ama o Filho e o Espírito, o Filho ama o Pai e o Espírito, e o Espírito ama o Pai e o Filho. Que o Pai ama o Filho, é dito mais de uma vez (Jo 3.35; 5.20) e o Filho é chamado às vezes de o Filho bem amado e querido de Deus Pai (Mt 3.17; 17.05; Cl 1.13) que Ele era desde toda a eternidade como ―um com Ele; e foi amado por Ele antes da fundação do mundo. Iremos tratar ainda desse assunto de forma mais prática no final do texto.

O Filho também ama o Espírito, uma vez que Ele procede dEle, e do Pai, e é chamado o Espírito do Filho (Gl 4:6) e Cristo muitas vezes fala dEle com prazer e deleite, (Is 48.16; 61.1; Jo 14.16-17, 26; 15.26; 16.7, 13). E o Espírito ama o Pai e o Filho, e derrama o amor de ambos nos corações de Seu povo; Ele esquadrinha as coisas profundas de Deus, e revela a eles; e toma das coisas de Cristo, e mostra-lhes; e por isso é tanto o Consolador deles, e Glorificador dEle (1 Co 2.10-12; João 16.14). Isso quer dizer claramente que o Deus trino está satisfeito em si mesmo.

Em segundo lugar, o Imensurável Amor de Deus é um amor providencial sobre tudo o que Ele criou. A Confissão de Fé Congregacional do Capitulo 6 paragrafo I – do tema “DA PROVIDÊNCIA” diz: “Cremos e confessamos que Deus, o grande criador de todas as coisas, sustenta, dirige, dispõe e governa todas as criaturas, todas as suas ações e todas as coisas, das maiores até as menores, por meio de Sua sapientíssima e santa providência...

Tudo o que Deus tem feito é o objeto de Seu amor - Todas as obras da Criação. Deus também ama o mundo. Ama as obras das suas mãos. Ele sustenta todas as criaturas em Seu ser, e é o Preservador de tudo, dos homens e dos animais; e é bom para todos, e as Suas misericórdias são sobre todas as Suas obras, (Sl 36.6; 145:9). De um modo geral, a Bíblia não usa a palavra amor neste sentido, mas o tema não é difícil de achar. Deus cria todas as coisas, e, antes que haja um sopro de pecado, Ele anuncia que tudo o que fez foi "bom" (Gn 1.31). Este é o produto de um Criador amoroso. O Senhor Jesus retrata um mundo no qual Deus veste a erva do campo e as flores silvestres, talvez não vista por seres humanos, mas vista por Deus. É Deus que alimenta os animais. As aves encontram alimento, mas isto é o resultado da providência amorosa de Deus, e nenhuma delas cai sem a autorização do Todo-Poderoso (Mt 6.26; 10.29). Esta é uma providência benevolente, uma providência amorosa, uma lição moral que Jesus revela, isto é, que podemos confiar que este Deus que criou é capaz de prover o sustento das suas criaturas. Herman Bavinck em sua dogmática no volume 2, falando de Deus e a criação disse: “Mas aquilo que é bom em si mesmo também é bom para os outros. E Deus, sendo o perfeito e bendito, é o bem supremo para suas criaturas... Somente nele está tudo o que as criaturas procuram e necessitam”. Ele não só criou todas as coisas, como sustenta por meio do seu poder. Isto é providencia amorosa.

Em Terceiro lugar, o Imensurável Amor de Deus é um amor efetivo e eletivo em relação aos seus filhos. Chamado por alguns teólogos de amor Ad extra, pois é um amor que é demostrado fora de si mesmo, é o amor por objetos indignos, é um amor por suas criaturas racionais, é o amor que elege e salva. Mesmo sendo um amor extra se torna intra, porque Ele ama os seus eleitos por amor a si mesmo, o melhor dizendo, neles (os escolhidos) Ele Se ama ou ama a Si mesmo. Ele ama os seus eleitos com amor especial. Esses eleitos são toda a Igreja, todo o seu povo do Antigo e do Novo pacto. Em cada caso, Deus coloca a sua afeição em seus escolhidos, de um modo que Ele não coloca sobre outros. O povo de Israel é informado disso:

"O Senhor não tomou prazer em vós, nem vos escolheu, porque a vossa multidão era mais do que a de todos os outros povos, pois vós éreis menos em números do que todos os povos, mas porque o Senhor vos amava; e, para guardar o juramento que jurara a vossos pais, o Senhor vos tirou com mão forte e vos resgatou da casa da servidão, da mão de Faraó, rei do Egito" (Dt 7.7,8).

O mais admirável sobre esta passagem é que quando Israel é contrastado com o universo ou com outras nações, a característica distinguível não tem nada de mérito pessoal ou nacional; não é nada além do amor de Deus, esse amor é o amor pactual de Deus; um amor constante, benevolente que emprega bondade e misericórdia em todo tempo e em diversos contextos ao povo do Pacto.

Os eleitos de Deus são objetos particulares do seu amor em Cristo. Apesar de quem somos Ele nos amou, não há nenhum mérito em nós por ser amado por Ele. Os méritos estão no Deus Triúno. O Pai eterno adota todos os filhos a partir do seu Filho, e o seu filho na verdade os chama e os tornam seus irmãos; e por meio disso confere a eles o poder e a dignidade de serem filhos de Deus.  Paulo escrevendo aos Romanos no capítulo 5.8 diz: "Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco, pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores". Temos esse amor por meio de Jesus. É dessa forma que Bavinck entende o amor de Deus: “Esse amor de Deus é expresso de forma muito vívida no novo testamento, agora que Deus deu a si mesmo no Filho de seu amor”. É por meio do filho que temos o amor do Pai. Tal amabilidade de Deus que está nos santos é devida à justiça de Cristo.

Agora, precisamos fazer duas distinções referentes o amor de Deus:

Precisamos diferenciar entre o amor de Deus por suas criaturas (seu amor como criador) e o amor de Deus por seus filhos (amor eletivo). Muita gente confunde os dois, resultado é uma visão diminuída ou minimizada da glória do amor de Deus. Vou tentar ilustrar essa diferença: Eu amo as crianças da igreja onde pastoreio. Gosto de estar com elas, gosto de interagir e brincar através de um aperto de mão. O meu coração sinceramente palpita da responsabilidade e privilégio de nos domingos à noite, no dia do Senhor, no culto Solene orar por elas, como se fossem os meus filhos. Mas como comparar o amor que tenho por elas com o amor que tenho por meus filhos? Será que posso comparar? Será que é o mesmo amor? Não, não é.

Dessa mesma forma, quando falamos do amor comum de Deus por sua criação e do seu amor especial por seus filhos, falamos de duas coisas diferentes em proporção. De acordo com esse versículo Deus ama os seus filhos. O amor de Deus por seus filhos é o seu amor por seu Filho. Cristo diz: “Eu lhes fiz conhecer o teu nome e ainda o farei conhecer, a fim de que o amor com que me amaste esteja NELES, e eu neles esteja” (Jo 17.26). Em outras palavras, o amor de Deus é diferente do meu, Deus ama os seus filhos da adoção com o mesmo amor que tem por seu filho gerado: Jesus Cristo. Todas as riquezas do amor do Pai por seu filho amado são concedidas a esses filhos adotivos e coherdeiros. Nós, filhos, somos incorporados de modo notável no amor imensurável, vasto e ilimitado do Pai pelo Filho.

Para avaliar com precisão o amor de Deus por nós, precisamos diferenciar entre o amor humano e o amor Divino. Como seres humanos, precisamos de amor da mesma forma que precisamos de comida e água, não podemos viver sem ele. Por essa razão, quando amamos os outros, esperamos que nos retribuam esse amor. Isso significa que o nosso amor, sempre é, em certo grau, individualista. Note que uma frase chave na definição de amor encontrada no dicionário é a frase "baseada em". Esta frase implica que amamos condicionalmente; em outras palavras, amamos alguém porque cumprem a condição que exigimos para que possamos amá-los. Quantas vezes você já escutou alguém dizer: "eu amo você por cuidar de mim", isto é, por supri as minhas necessidades.

O amor de Deus é diferente. É um amor incondicional. Cremos que Deus é triúno, são três pessoas distintas, mas com a mesma substância ou essência, como declara a bíblia e a nossa confissão de fé. “Na unidade da Deidade, há três pessoas, de uma só substância, poder e eternidade: Deus pai, Deus filho e Deus o Espirito santo...” (Confissão de Fé Congregacional – Capitulo 2 – Paragrafo III  - Tema: DA SANTÍSSIMA TRINDADE). Sendo assim, o pai, o Filho e o Espírito Santo vivem em uma eternidade de mútuo deleite, isso quer dizer que o Deus triúno está satisfeito em si mesmo; Ele não necessita nos amar ou ser amado para estar satisfeito. Ele está feliz em Si mesmo por toda eternidade. O amor entre essas pessoas da Trindade é necessário e suficiente à Sua natureza.

Não devemos nos perturbar e nem ofender-se com essas palavras. Pelo contrário, isso deve nos confortar, pois é esse tipo de amor que precisamos um amor desinteressado ou sem interesse. Precisamos de alguém que nos ame que não precise de nós ou nada que temos. Aqui está a coisa maravilhosa! Nós não precisamos merecer ou realizar algo para ter o amor de Deus. O amor de Deus por nós não depende de nosso desempenho, para que ele nos ame mais. A causa do seu amor por nós está nele mesmo e não em nós. Ele nos ama, porque ama a Si mesmo, esse amor que esta nele é totalmente perfeito. Ele nos ama, não por causa de nós, mas pela perfeição do Seu amor. Seu amor transcende ao amor humano. Ele nos ama com amor eterno e imutável. Amém!

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