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31 de out de 2016

Índios protestantes no Brasil holandês

Por Frans Leonard Schalkwijk

Três vezes a igreja protestante foi implantada no Brasil Colônia, três vezes foi expulsa pelos portugueses católicos. Primeira vez: a igreja reformada dos franceses no Rio de Janeiro (1557-1558); segunda, a dos holandeses na Bahia (1624-1625); terceira, a dos holandeses, alemães, ibéricos, ingleses, franceses e índios no Nordeste, quase 30 anos depois.

A história da igreja protestante indígena durante a ocupação holandesa do Nordeste (1630-1654) está registrada em vários arquivos, especialmente em Amsterdã e Haia, na Holanda.

No século XVII, Bahia, Rio de Janeiro e Pernambuco constituíam os três principais centros urbanos do Brasil Colônia. A riqueza produzida pelo açúcar brasileiro ajudava a Espanha a consolidar o seu domínio, enquanto procurava estrangular a jovem República dos Países Baixos - ou seja, a Holanda.

OS CONFLITOS DA COROA DE CASTELA

Embora o Brasil tivesse nascido como colônia portuguesa, a partir de 1580 Portugal havia passado a fazer parte da União Ibérica, comandada pela Espanha. O Brasil, em conseqüência, foi envolvido nos conflitos internacionais da coroa de Castela.

Na Holanda, pouco depois de 1500 a casa de Habsburgo chegou ao poder e reuniu as possessões alemãs, espanholas e holandesas nas mãos de Carlos V. Foi quando eclodiu, na Europa, a Reforma Protestante (1517).

O sucessor de Carlos V, Filipe II, rei da Espanha, decidiu eliminar os protestantes de suas terras, o que levou à Guerra dos 80 Anos (1568-1648).

Com a derrota da armada espanhola, em 1588, o poder da Espanha entrou em declínio, enquanto a Holanda ganhou impulso, especialmente porque recebeu milhares de refugiados franceses, belgas, espanhóis, alemães, poloneses. Tinha início a Idade de Ouro dos Países Baixos.

O trono espanhol, em represália, fechou seus portos para os holandeses, que foram obrigados a singrar os oceanos, considerados até então considerados mares territoriais ibéricos.

A Igreja Cristã Reformada (Protestante) também crescia com o afluxo de refugiados perseguidos por sua fé religiosa. Nessa Primeira Guerra Mundial, o vigoroso comércio ultramarino holandês organizou duas grandes companhias - a das Índias Orientais e a das Índias Ocidentais - para fortalecer a cooperação entre as empresas e se proteger dos espanhóis.

O Atlântico era a área da Companhia das Índias Ocidentais, cuja diretoria era composta de 19 membros, os chamados Senhores XIX, representantes das cidades cooperadoras, das quais Amsterdão era a principal.

Cientes de que as maiores riquezas da inimiga Espanha provinham das Américas, estes senhores começaram a pensar na conquista de parte das colônias americanas como forma de estancar a fonte de sustentação econômica das forças espanholas.

Nesse contexto, a Bahia parecia presa fácil, e a cidade de Salvador foi tomada. Conquista, entretanto, perdida um ano depois (1624-1625). Os holandeses, porém, decidiram prosseguir com a empreitada, agora voltada para Pernambuco. O sucesso do projeto deu início ao Brasil Holandês (1630-1654).

Durante esse período, tem lugar um capítulo pouco conhecido da história eclesiástica brasileira, a da Igreja Cristão Reformada, nome da Igreja Protestante na Holanda. Era uma igreja do Estado, situação das igrejas no Ocidente, seja nos países católicos, seja nos protestantes. A Igreja Cristã Reformada veio para o Brasil sob a bandeira holandesa, e foi expulsa com ela.

Na medida que os holandeses ampliavam o território conquistado, eram implantadas congregações reformadas. Durante algum tempo, existiram 22 igrejas protestantes no Nordeste, sendo que a do Recife era a maior, contando, inclusive, com uma congregação inglesa e uma francesa. Esta se reunia no templo gálico, que tinha no conde Maurício de Nassau seu membro mais ilustre e o pastorado era exercido pelo espanhol Vicentius Soler.

Na leitura dos documentos da época, surge uma igreja cercada de pessoas dispostas a expulsá-la de sua terra como a religião dos invasores.

Entretanto, para os índios, os holandeses não eram invasores, mas sim libertadores, o que levou a missão reformada no Nordeste a fazer uma opção preferencial pelos indígenas. Para os holandeses, as tribos aculturadas constituíam os brasilianos e as não-subjugadas os tapuias.

Filipe Camarão: O líder dos Potiguares recebeu honrarias do Rei Português por sua lealdade aos interesses lusos.

O primeiro contato entre os brasilianos e a Companhia das Índias Ocidentais ocorreu em Salvador. Com a perda da cidade, em 1625, o almirante da frota holandesa seguiu para o norte e aportou na baía da Traição, cerca de nove quilômetros ao norte da Paraíba.

Os índios locais, da tribo potiguar, viram nos holandeses os seus libertadores do jugo português e muitos quiseram embarcar quando a frota partiu. Apenas seis jovens índios conseguiram seguir para a Holanda, enquanto a tribo procurava refúgio na mata para fugir da vingança dos portugueses.


Os seis índios potiguares - entre eles o índio Pedro Poti - permaneceram durante cinco anos nos Países Baixos, onde foram alfabetizados e instruídos na religião reformada. Pouco depois da invasão de Pernambuco, alguns desses índios foram enviados de volta ao Brasil para servirem de línguas (tradutores) no contato com seus compatriotas nas aldeias nordestinas.

O sistema de aldeamento dos índios foi iniciado pelos padres católicos e continuou com os holandeses. Por volta de 1639, o Rio Grande abrigava cinco aldeias de brasilianos, a Paraíba sete, Itamaracá cinco e Pernambuco quatro. O trabalho da igreja reformada teve início em cima do trabalho realizado pelos padres católicos.

Os índios tinham aprendido algumas orações, a confissão apostólica, conheciam os nomes de Jesus e de Nossa Senhora, e tinham sido batizados; quanto ao mais, mantinham suas crenças animistas. Cedo a Igreja Reformada começou a evangelizar os indígenas, com apoio do governo, que precisava dos guerreiros na luta contra os portugueses.

Mas, apesar dos esforços, os holandeses não conseguiram estabelecer um método ideal de evangelização. Entretanto, os documentos registram anotações sobre batismos. No Presbitério de 1637, por exemplo, surge a questão do batismo de filhos de brasilianos e de africanos de pais já batizados pelos padres católicos. A Igreja Cristão Reformada reconheceu o batismo da Igreja Católica Romana, e decidiu que os filhos de pais batizados poderiam receber o sinal da aliança desde que seus pais confessassem a Jesus Cristo.

Em 1638, índios da Paraíba pediram ao Presbitério um predicante próprio. Nestas alturas, o Presbitério decidiu atender ao pedido dos indígenas e deslocar um pastor para as aldeias para pregar a palavra de Deus, administrar os sacramentos e exercer a disciplina eclesiástica, lembrando as três marcas da verdadeira igreja, conforme o artigo 29 da Confissão Belga. Esse plano recebeu o apoio do governo, sob a liderança de Nassau.

APESAR DOS ESFORÇOS, OS HOLANDESES NÃO CONSEGUIRAM ESTABELECER UM MÉTODO EFICIENTE DE EVANGELIZAÇÃO

Convidado, o pastor David à Doreslaer mudou-se da capital da Paraíba para a aldeia de Maurícia. O trabalho do pastor Doreslaer teve sucesso, pois foi elogiado pelos representantes do Presbitério do Brasil em carta aos Senhores XIX, enquanto Nassau comunicava que os próprios índios expulsaram os padres das aldeias.

Doreslaer e o pastor inglês Johannes Eduardus ampliaram o trabalho missionário e deram início ao ministério da educação. O primeiro professor protestante entre os índios foi o espanhol Dionísio Biscareto, casado com uma holandesa. Biscareto foi nomeado professor em Itapecerica, a maior aldeia da região de Goiana. Para as aldeias paraibanas, foi indicado o professor inglês Thomas Kemp.

Em 1640 começou o trabalho de brasilianização, movimento idealizado pelo pastor Soler, da Igreja Francesa no Recife. Ele conheceu um brasiliano razoavelmente experimentado nos princípios da religião, e no ler e escrever, capaz de instruir os índios. O pastor Eduardus, por sua vez, lembrou a existência de índios em idênticas condições em Goiana.

Assim, solicitaram ao governo que esses índios fossem nomeados professores nas aldeias, com um salário mensal de 12 florins, soldo de um cabo do exército. Esses dois índios foram os primeiros professores indígenas da Igreja Protestante na América do Sul.

Em livro publicado em 1651, Pierre Moreau cita um jovem ministro britânico que traduzira as Santas Escrituras para a língua brasiliana. Tudo indica que o hábil lingüista era o pastor Eduardus. Mas o que foi traduzido? Provavelmente apenas trechos bíblicos, mas, até hoje, não foram encontrados registros sobre o assunto nos arquivos. O que fica evidente é o interesse da Igreja Cristã Reformada em entregar aos índios a mensagem bíblica em sua própria língua.

Com a necessidade de um catecismo em língua tupi, o pastor Doreslaer organizou um livro de instrução que foi impresso na Holanda com o título Uma instrução simples e breve da Palavra de Deus nas línguas brasiliana, holandesa e portuguesa, confeccionada e editada por ordem e em nome da Convenção Eclesial Presbiterial no Brasil com formulários para batismo e santa ceia acrescentados. Embora o livro tenha sido criticado pelo Presbitério de Amsterdã, a Companhia das Índias Ocidentais mandou imprimi-lo em 1641 e, no ano seguinte, distribuiu-o no Brasil.

No terreno da assistência social, a Igreja Reformada enfrentava a caótica situação matrimonial existente na colônia, inclusive entre os índios. Muitos brasilianos casados viviam separados de suas esposas e não podiam casar-se novamente, embora muitos desejassem fazê-lo.

O Presbitério, em 1638, foi de opinião que a parte desertora do casal deveria ser citada por edital público do juiz civil. Depois de determinado período, a parte abandonada deveria ser considerada livre da parte desertora, o que deveria ser aprovado pelo magistrado. Esta determinação, reconhecendo a fraqueza da natureza humana, representa o primeiro projeto de reconciliação ou divórcio legal na América do Sul.

Os resultados práticos, entretanto, foram limitados, em razão das hesitações do magistrado, temeroso de conseqüências mais amplas. Na outra ponta, o problema da escravidão dos índios exigia solução urgente.

Desde o início da chegada dos holandeses ficou claro que os indígenas, aculturados e não-aculturados, deveriam ser livres. A liberdade dos brasilianos seria um dos capítulos fundamentais da Constituição do Brasil Holandês e tratada nos Regulamentos de 1629, 1636 e 1645.

Os holandeses não só precisavam dos índios na guerra contra os ibéricos, como sentiam profunda empatia pelos indígenas, pois, como eles, também estavam sendo oprimidos pela União Ibérica, a superpotência mundial da época.

LIBERTAÇÃO DOS INDÍGENAS

Os Senhores XIX insistiram para que fossem postos em liberdade os brasilianos escravizados pelos portugueses em 1625, depois da partida da esquadra holandesa. Esta libertação demorou, e começou a se tornar concreta com o início do trabalho missionário.

Em 1638, descobriu-se que os moradores portugueses de Recife ainda mantinham indígenas como escravos domésticos. Boa parte desses índios havia sido aprisionada pelas expedições punitivas levadas a efeito ao redor da baia da Traição, em 1625. O governo ordenou que todos os escravos fossem libertados imediatamente.

O governo holandês também combateu duramente a semi-escravidão, lembrando aos proprietários rurais, em Alagoas, que índios somente poderiam trabalhar nas lavouras por livre vontade e recebendo a devida remuneração. O sub-pagamento foi outra forma de exploração firmemente reprimida no Nordeste holandês. O governo determinou que os capitães que abusassem de sua autoridade fossem exemplarmente castigados.

Os índios, por sua vez, desejavam se transferir para as aldeias que possuíam missionários e, após intervenção do Presbitério, as autoridades promoveram as transferências para colaborar com o crescimento da igreja de Deus.

Na história da luta da Igreja Reformada no Brasil em favor da libertação dos índios é necessário lembrar a lei do ventre livre de 1645, originária de consulta do pastor Kemp sobre a situação de brasilianos casados com escravas africanas e escravos negros casados com indígenas.

Em resposta, as autoridades decidiram que a parte escrava do casal não se libertava pelo matrimônio, mas podia ser alforriada, e que os filhos resultantes desse tipo de casamento seriam considerados livres, reiterando que brasilianos, sem exceção, eram livres.

EM RELAÇÃO À ESCRAVIDÃO DOS NEGROS AFICANOS, AS CONSCIÊNCIAS CRISTÃS ERAM PRIMITIVAS, CONSIDERAVAM-NA UM ESCRÚPULO DESNECESSÁRIO

Infelizmente, quanto à escravidão africana, na época as consciências cristãs era subdesenvolvidas. Quando o pastor Jacobus Dapper questionou se era lícito ao cristão negociar ou possuir escravos africanos, até o conde de Nassau afirmou que se tratava de escrúpulos desnecessários.

Nassau se conformava ao espírito de seu tempo, mas contrariava o pensamento do pai espiritual da Companhia, o belga Willem Usselinex, e do patriarca da Igreja Reformada, o francês João Calvino.

O derradeiro período da missão da Igreja Cristã Reformada começou com a realização de duas importantes assembléias, uma eclesiástica, outra política. A mesa da Assembléia Geral das Igrejas recebeu pedidos de tribos que queriam receber seus próprios obreiros.

O professor Dionísio Biscareto foi ordenado pastor e dois brasilianos nomeados professores. Poucos meses antes da chamada insurreição pernambucana, em 1645, realizou-se a primeira grande assembléia indígena, com 120 representantes, em Itapecerica, na capitania de Itamaracá.

Foram organizadas três câmaras,: a câmara de Itamaracá, dirigida pelo índio Carapeba; a de Paraíba, pelo índio Pedro Poti; e a do Rio Grande, pelo índio Antônio Paraupaba.

O teste final e violento da missão reformada veio com a eclosão da guerra de restauração portuguesa. Os documentos atestam a impressionante fidelidade dos brasilianos refugiados ao redor das fortalezas litorâneas.

O mais famoso desses registros são as chamadas cartas tupis, trocadas entre dois primos colocados em campos opostos, o capitão-mór Filipe Camarão e Pedro Poti. Camarão era defensor do lado luso-católico na guerra; Poti, defensor do lado flamengo-reformado. Essa correspondência deixa claro a estreita vinculação entre fé e nação, igreja e Estado. Filipe Camarão escreveu: não quero reconhecer a Antônio Paraupaba, nem a Pedro Poti, que se tornaram hereges [...].

Em resposta datada de 31 de outubro de 1645, dia da Reforma Protestante, Poti garante que seus índios viviam em maior liberdade do que os outros, ressaltando que os portugueses queriam apenas escravizá-los.

Poti lembra a Camarão as matanças ocorridas na baia da Traição e em Sirinhaém, havia poucas semanas, quando os portugueses, após a rendição da frota holandesa, mataram perversamente 23 índios prisioneiros de guerra, quebrando as condições previamente acordadas.

Confessou também ser cristão, crendo somente em Cristo, não desejando contaminar-se com a idolatria, e convidou seus parentes e amigos a passar para o lado dos piedosos, que nos reconhecem no nosso país e nos tratam bem.

Ambos os primos não veriam o final dessa luta sangrenta: Camarão faleceu em 1648, depois da primeira batalha de Guararapes, e Poti no ano seguinte foi preso no cabo Santo Agostinho pelos portugueses. Segundo testemunho de Paraupaba, Poti foi lançado num poço, onde permaneceu durante seis meses.

Retirado de vez em quando, padres se atiravam sobre ele, tentando obrigá-lo a abjurar a religião protestante. Poti, entretanto, resistiu bravamente na fé protestante, e foi embarcado para Portugal, para as câmaras de tortura do Santo Ofício, mas a viagem não acabou, atalhada pela morte.

A guerra de restauração aproximou ainda mais os índios dos holandeses e apenas o pacto com os brasilianos garantiu a resistência flamenga durante nove anos.

Quando não houve mais condições de manter Recife, com as tropas luso-brasileiras às portas das fortificações e a armada portuguesa á entrada do porto, o Nordeste foi devolvido a Portugal. Terminava, também, a missão cristã reformada, impossível sem a proteção de um país protestante.

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Fonte Original aqui

Imagem Ilustrativa do Conde Maurício de Nassau, governante do Brasil Holandês. 

27 de out de 2016

Wiclif e Huss: A Reforma Pela Palavra

Por Leandro Lima

Introdução

Quando se pensa na Reforma Protestante, dois nomes logo vêm a mente: Lutero e Calvino. Em geral, as pessoas acham que somente esses dois homens foram responsáveis por todo o movimento que deu origem à Reforma. Sem querer diminuir a grande importância deles, precisa ser dito que outros, alguns contemporâneos a Martinho Lutero (1483-1546) e João Calvino (1509-1564), como Zwinglio, Melanchton, Bucer, Ecolampadio, Knox, também podem ser chamados reformadores, e que muito contribuíram para o retorno à fé evangélica. E, mesmo antes de todos esses, houve movimentos reformistas dentro da igreja que, por certo, contribuíram para a Reforma. Vimos em lição anterior, por exemplo, o movimento dos valdenses. Mas, há dois homens, em especial, que podem ser considerados precursores da Reforma Protestante. São eles John Wyclif[1] (1330-1384) e Jan Hus[2] (1374-1415).

I. Os precursores da Reforma

Hus pode ser considerado um discípulo de Wyclif, pelo menos no sentido teológico. Wyclif trabalhou na Inglaterra, foi teólogo de Oxford, reconhecido por sua erudição, bem visto pelo povo e apoiado pelos nobres.
Wyclif começou a entrar em atrito com a igreja quando passou a pregar:
– A “pobreza apostólica”
– A Escritura como única lei da igreja
– Os eleitos são a igreja, não o Papa e os cardeais
– Cristo como o cabeça da igreja, não o Papa
Embora não tenha rejeitado de todo o papado, entendia que um Papa que aspira poder humano e tem ânsias por impostos nem sequer poderia ser um eleito. Essa idéia de eleição, Wyclif a extraiu principalmente dos ensinos de Agostinho. Mas, com certeza a maior contribuição de Wyclif para a Reforma foi ter colocado a Bíblia na língua do povo. Convicto de que ela era a única lei da igreja, direcionou todos os seus esforços para traduzi-la do latim. Com a ajuda de Nicolau de Hereford, que traduziu o Antigo Testamento, a Bíblia foi traduzida para o inglês. A obra durou de 1382 a 1384. Wyclif e seus seguidores, os “lolardos” foram muito perseguidos pela igreja, que considerou heréticos os seus ensinos. Se Wyclif não foi martirizado, isso se deve, humanamente falando, à proteção que possuía dos nobres da Inglaterra. Mas muitos de seus seguidores foram mortos. A igreja esforçou-se para sufocar as idéias de Wyclif e tentou destruir as traduções da Bíblia, mas pelo menos 150 manuscritos sobreviveram. Curiosamente, a maior influência de Wyclif se fez sentir na Boêmia, onde alguns estudantes de Oxford difundiram suas idéias na Universidade de Praga.
Nessa escola estudou e dela mais tarde veio a ser reitor, um filho de camponeses, de Husinecz (donde veio o nome Hus), chamado Jan Hus. As mesmas doutrinas que Wyclif defendeu, foram também defendidas por Hus. Para ele o cabeça da igreja é Cristo, os membros são os predestinados e a lei é a Escritura. Tanto Wyclif quanto Hus tinham suas idéias fundamentadas na Bíblia, o que os tornava ainda mais ardentes na defesa do Cristianismo verdadeiro.
Como Wyclif, Hus também foi perseguido, mas embora fosse um verdadeiro herói nacional da Boêmia, foi traído pelo Imperador Sigismundo que lhe deu um salvo-conduto para se apresentar diante do Concílio de Constança, mas o revogou assim que ele chegou lá.[3] Indefeso diante do Concílio, heroicamente defendeu suas idéias e se recusou a voltar atrás em suas posições, salvo se fosse convencido de erro. Consciente de que suas conclusões eram bíblicas e, portanto, verdadeiras, enfrentou corajosamente a morte, sendo queimado em 6 de julho de 1415. Cem anos depois, Lutero retomaria o caminho de Hus e Wyclif em defesa da Palavra de Deus e da igreja verdadeira.[4]

II. A Descoberta da Palavra de Deus (2Rs 22.3-10)
A Reforma do século 16 foi uma volta à Bíblia. O mesmo pode ser dito também dos períodos de genuíno avivamento. Foi assim com Lutero que, ao estudar a carta de Paulo aos Romanos, descobriu que a salvação é pela graça mediante a fé. Calvino também reconduziu o retorno à Bíblia com as suas Institutas e seus comentários de quase todos os livros da Bíblia, enquanto aplicava a reforma da religião cristã na cidade de Genebra. O movimento de Wyclif e Hus também foi uma descoberta da Bíblia. Graças à tradução de Wyclif, que colocou a Bíblia na língua do povo, e ao zelo ardente de Hus pela Palavra de Deus, aquele obscuro período da história da igreja não ficou sem um testemunho fiel.

Em 2 Reis lemos sobre uma ocasião de reforma na vida do povo de Israel que começou com a descoberta da Palavra de Deus. Josias começou a reinar com 8 anos de idade e agradou ao Senhor, andando nos caminhos de Davi (2Rs 22.1,2). Mas ele recebeu um reino deteriorado. Seu pai Amom e seu avô Manassés haviam maus e idólatras. Manassés levantou altares a Baal, fez um poste-ídolo e se prostrou diante dele. Chegou mesmo a colocar ídolos dentro da área do templo do Senhor. Se não bastasse, ainda queimou um de seus filhos como sacrifício aos deuses pagãos (2Rs 21.1-7). Amom, filho de Manassés, andou nos mesmos caminhos de seu pai, serviu aos ídolos e os adorou (2Rs 21.21,22). Dá para imaginar a caótica situação em que se encontrava Judá depois desses dois reis, com a idolatria dominante e o templo abandonado, semidestruído. Josias assumiu o trono e queria mudanças, mas como fazê-las? No décimo oitavo ano de seu reinado ele decidiu reformar o templo. Foi então que, pela misericórdia de Deus, encontrou no próprio templo o livro da lei, provavelmente Deuteronômio. O livro foi achado pelo sacerdote Hilquias que o entregou a Safã, escrivão, que o leu diante de Josias (2Rs 22.8-10). Aquele achado mudou completamente a história da nação. Uma poderosa reforma se estabeleceu a partir daquela descoberta.
III. Quebrantamento pessoal (2Rs 22.11,19)
Muitas pessoas ouvem a Palavra de Deus, mas parece que nada acontece em sua vida. Nenhuma diferença, nenhuma transformação, nenhum quebrantamento. Esse não foi o caso de Josias. O texto diz que, quando o escrivão Safã leu o livro perante ele, “tendo o rei ouvido as palavras do livro da lei, rasgou as suas vestes” (2Rs 22.11). Mais tarde o próprio Senhor disse de Josias: “porquanto o teu coração se enterneceu, e te humilhaste perante o Senhor, quando ouviste o que falei contra este lugar, e contra os seus moradores, que seriam para assolação e para maldição, e rasgaste as tuas vestes, e choraste perante mim, também eu te ouvi, diz o Senhor” (2Rs 22.19). Foi grande o quebrantamento pessoal de Josias ao ouvir a Palavra de Deus. Ele entendeu naquela hora toda a situação em que se encontrava a nação e o castigo iminente de Deus. Ele sabia que suas próprias mãos, por mais que se esforçasse, não eram de todo limpas. Ele entendeu sua pecaminosidade e também a do povo, e entendeu que uma enorme reforma era necessária, não só no templo, mas na vida de toda a nação. É isso o que a Palavra de Deus produz na vida dos verdadeiros crentes. Foi isso que ela produziu na vida de Lutero, Calvino, Hus e Wyclif. O quebrantamento pessoal é o primeiro passo para uma reforma. Sem reconhecimento de culpa não há como o ser humano se aproximar de Deus. Deus não abençoa o soberbo, pois duas vezes a Escritura diz que Deus “resiste aos soberbos, contudo aos humildes concede a sua graça” (Tg 4.6; 1Pe 5.5). E a Escritura ainda afirma: “… assim diz o Alto, o Sublime, que habita a eternidade, o qual tem o nome de Santo: Habito no alto e santo lugar, mas habito também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos e vivificar o coração dos contritos” (Is 57.15).
IV. Renovação da Aliança (2Rs 23.1-3)
O próximo passo de Josias foi renovar a aliança da nação com Deus. Ele convocou todo o povo, subiu até a casa do Senhor, e leu diante do povo todas as palavras do livro da aliança (2Rs 23.1,2). Em seguida, “o rei fez aliança ante o Senhor, para o seguirem, guardarem os seus mandamentos, os seus testemunhos e os seus estatutos, de todo coração e de toda a alma” (2Rs 23.3). Todo o povo concordou com aquela aliança.
Esse ato do rei de fazer aliança com Deus decorreu do entendimento que veio da Escritura de que, desde os dias de Manassés, o povo havia quebrado o pacto com o Senhor. O encontro com a Palavra produz essa reafirmação de compromisso que é a segunda etapa de uma reforma autêntica.
Renovar a aliança é necessário para que voltemos a experimentar as expressões divinas de misericórdia e graça e não as de juízo. Deus não se relaciona senão por meio de sua aliança. O povo experimentava as conseqüências de haver transgredido o pacto. Todas as maldições decorrentes dessa quebra já estavam começando a vir e outras bem piores aguardavam no futuro. Mas, quando a aliança é renovada, os pecados são perdoados e a bênção retorna. Foi o que Josias aprendeu no livro redescoberto (Dt 29.1 – 30.20).
V. Reforma no culto (2Rs 23.4-23)           
Depois de renovar a aliança, Josias se lançou a uma difícil, mas importante tarefa. Reformar o culto da nação. Já vimos um pouco sobre os atos de Amom e Manassés. De fato, era caótica a situação religiosa do povo. A primeira atitude de Josias foi tirar do templo de Deus todos os utensílios profanos e os queimar fora de Jerusalém (2Rs 23.4). Esses utensílios eram impróprios para o templo. Não deviam estar ali.
Uma reforma verdadeira purifica o templo das coisas que não são lícitas. Wyclif e Hus lutaram contra o misticismo e o sacramentalismo de sua época. Para esses homens e seus discípulos, somente o que a Bíblia autorizava podia ser usado no culto a Deus. O que a Bíblia proíbe não pode ser mantido na adoração do povo de Deus.
A próxima atitude de Josias foi destituir os sacerdotes que haviam sido instituídos para queimarem incenso aos deuses (2Rs 23.5). Também tirou o abominável poste-ídolo que estava dentro da casa do Senhor e o queimou no vale do Cedron (2Rs 23.6). Uma reforma tira todos os ídolos da casa de Deus e destitui do serviço sagrado aqueles que não são dignos de estarem aí. Em seguida, Josias derrubou as casas de prostituição-cultual, que haviam sido colocadas dentro da casa do Senhor. Essas prostitutas eram tidas como sagradas e moravam dentro do templo, mantendo relações sexuais com todos os que quisessem, sendo que isso era considerado não só uma diversão, mas um ato de culto aos deuses ou deusas da fertilidade. Depois Josias começou a reformar a nação fora do templo. Profanou altos, destruiu altares, arruinou homenagens que eram dadas aos deuses e não poupou qualquer tipo de idolatria ou perversão.
A reforma do culto realizada por Josias não consistiu apenas de retirar coisas impróprias. Ele também incluiu o que era certo e que havia sido abandonado. Josias havia lido no livro da lei sobre a importância de celebrar a Páscoa ao Senhor. Então convocou todo o povo para essa celebração. Foi a maior Páscoa celebrada em Jerusalém desde que a nação havia sido estabelecida (2Rs 23.21,22). Isso significa que o culto voltou a ser bíblico e fervoroso, de acordo com a vontade do Senhor.
Uma reforma produz esse tipo de mudança. Tudo o que não é próprio é retirado. É hora de ser radical. Mesmo que muitos gostem. Aliás, o objetivo máximo do culto não é agradar o povo, mas o Senhor. Mas, não basta retirar o que está errado. É preciso também acrescentar os elementos bíblicos ausentes. Uma das principais lutas de Jan Hus foi com relação à Ceia do Senhor. Hus e seus seguidores insistiam em administrar o cálice de vinho ao povo e não somente aos sacerdotes, como já era prática na igreja romana.
VI. Reforma na vida (2Rs 23.24,25)
Josias preocupou-se também em mudar a vida do povo. Tirou os ídolos do templo e também das casas (2Rs 23.24). Isso é fundamental numa reforma religiosa. Não adianta mudar apenas a instituição religiosa se a prática cotidiana permanece corrompida. Sabiamente, Josias aboliu os feiticeiros, os médiuns, e todos os ídolos que se viam na terra de Judá.
Mas, certamente o maior exemplo de mudança foi ele próprio, de quem se diz que “antes dele não houve rei que lhe fosse semelhante, que se convertesse ao Senhor de todo o seu coração, e de toda a sua alma, e de todas as suas forças, segundo toda a lei de Moisés; e depois dele nunca se levantou outro igual” (2Rs 23.25). Todos os aspectos da vida foram afetados pela conversão e pela Palavra. Não foi um crente só de aparência. Verdadeiramente viveu a Palavra, mudou externa e internamente. Wyclif, Hus e Josias são exemplos do que o encontro com a Palavra de Deus produz. Hus teve coragem de até morrer por sua fé, pois sabia que não estava defendendo preceitos ou tradições dos homens, mas a pura e verdadeira Palavra de Deus. 
Conclusão
Toda Reforma verdadeira começa com a descoberta da Palavra de Deus e prossegue de acordo com a fidelidade a essa Palavra. Isso ficou bem claro no caso de Josias, e pode ser visto também na Reforma Protestaste, e como vimos, antes mesmo, nos chamados pré-reformadores John Wyclif e John Hus. O respeito desses homens à Escritura, bem como o desejo de que ela fosse acessível a todos os homens é uma das mais importantes marcas da obra deles. Precisamos de reforma hoje também, mas ela precisa começar pela Palavra de Deus, pois somente assim, teremos a garantia de que será bem sucedida.
Aplicação
Que efeitos a Palavra de Deus tem produzido na sua vida? Será que, o ouvir, domingo após domingo a Palavra tem feito de você um crente mais fiel? O que você pode fazer para que uma reforma também aconteça na sua vida e na vida da sua igreja?

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[3] Nos dias de Hus ocorreu uma crise de autoridade na Igreja Católica. Em 1305, sob pressão do rei da França, a sede do papado foi transferida de Roma para Avignon, na França, onde permaneceu por 70 anos (Esse período é chamado de Cativeiro Babilônico do papado.). Em 1376 o papa retornou para Roma. Mas logo depois ele morreu e os cardeais, franceses na maioria, estavam dispostos a eleger um papa francês. O povo de Roma se opôs, temendo que um papa francês reconduzisse a sede do papado para a França. Os cardeais, então, elegeram um papa italiano, mas os delegados da França reuniram-se em outro lugar e elegeram um papa francês, alegando que a primeira eleição fora inválida. Assim passou a haver dois (depois três) papas. O Concílio de Constança foi convocado para resolver o impasse. Um dos papas reconheceu os poderes do Concílio e abdicou. O Concílio proclamou que sempre tinha havido um só papa verdadeiro, depôs os outros dois e elegeu um novo para, encerrando assim o que passou à História como “O Grande Cisma”. Como Hus ensinava que o papado não provinha de Deus, sua posição não podia ser nem de longe tolerada. Acusado de heresia, foi queimado em julho de 1415.

[4] Os seguidores de Hus tornaram-se conhecidos como Irmandade Tchecae mais tarde como Os Moravianos. A Igreja Morávia sobrevive até hoje. No século 16 exerceu considerável influência sobre o movimento luterano. Após Lutero haver afixado as suas 95 teses na porta da igreja de Wittenberg, cartoons e graffti passaram a sugerir que ele era herdeiro espiritual de Hus.

Fonte: Ultimato

26 de out de 2016

Sobre a Confissão e a Acusação de Inerrância na Prática

Por Alan Rennê Alexandrino

A Confissão de Fé de Westminster, em seu capítulo 31.3, sobre os Sínodos e Concílios, faz uma afirmação muito importante a respeito de decisões conciliares tomadas desde os tempos mais imemoriais:

"Todos os sínodos e concílios, desde os tempos dos apóstolos, quer gerais quer particulares, podem errar, e muitos têm errado; eles, portanto, não devem constituir regra de fé e prática, mas podem ser usados como auxílio em uma e outra coisa".

Nesta afirmação, a Confissão chega a apontar o dedo indicador para si mesma, ao deixar claro que ela não é inerrante nem a regra de fé dos crentes. Chad Van Dixhoorn, importante estudioso da Assembleia de Westminster e editor das Atas da Assembleia, afirma que nesse parágrafo, "em verdadeira sabedoria, a Assembleia de Westminster reconhece tal limitação e redireciona seus leitores à Sagrada Escritura" (Confessing the Faith: A Reader's Guide to the Westminster Confession of Faith. p. 420).

Nas últimas semanas têm se tornado comuns declarações e ataques de determinado grupo, no sentido de que os subscreventes dos Padrões de Westminster a têm como inerrante e que a mesma é tanto engessada como engessa qualquer reflexão teológica a partir do texto puro das Escrituras. Além disso, as acusações de que consideramos a CFW inerrante, ao menos na prática, são fundamentadas no fato de nos recusarmos a reformá-la. De acordo com alguns deles, nós dizemos que ela pode ser reformada, mas quando é para reformar, apresentamos evasivas e saímos de fininho.

Enxergo nisso um pouco do espírito anarquista aplicado à questão da autoridade da Igreja. É como se bastasse querer reformar a Confissão, e pronto. Ou é como se tivéssemos a permissão de pública e abertamente falar contra ela. Michael Horton faz uma afirmação interessante a este respeito: "Se o liberalismo desafiou o cristianismo credal e confessional em nome da razão, o biblicismo rejeita a autoridade legítima da igreja em tirar da Escritura 'boas e necessárias consequências', assumindo que suas doutrinas são tomadas diretamente das palavras da Bíblia. Entretanto, muitos dos fundamentos que ele deseja proteger foram formulados por cortes eclesiásticas através de conclusões e deduções necessárias. Quando nós perdemos nossa consideração pela autoridade ministerial da igreja para ensinar e confessar as verdades da Palavra de Deus, isso não acontece sem antes começarmos a questionar a autoridade magisterial em si" (The Christian Faith: A Systematic Theology for Pilgrims On the Way. pp. 214-215).

Os tais desprezam as formulações confessionais e falam em adotar doutrinas extraídas apenas da própria exegese, mas esquecem que, mais uma vez citando Horton: "Na história da igreja, algumas formulações dogmáticas foram elevadas ao nível de dogmas (a saber, a Trindade, as duas naturezas de Cristo em uma pessoa etc.), mas elas nunca são a obra de um único teólogo. Elas são o fruto cumulativo da reflexão comunal e ganham o consentimento do Corpo de Cristo" (op. cit., pp. 213-214).

Sobre o alarde em torno da reforma da Confissão, a dificuldade dos tais em relação à autoridade da Igreja pode ser vista nos seus constantes apelos por uma reformulação que, a bem da verdade, traz em seu bojo o anseio por cada um adotar uma confissão própria e particular.

Não compete a mim, enquanto membro ou ministro, reformar a Confissão conforme eu bem entendo. O ato de adoção de uma confissão de fé é prerrogativa da denominação. Trata-se de um ato formal que tem lugar num ambiente conciliar. Assim sendo, a autoridade para reformar uma confissão de fé não está posta sobre os meus ombros, mas sobre a denominação e seus concílios. Como o ato de adoção, o ato de revisão e consequente reforma pertence à denominação. Em sua excelente obra O Imperativo Confessional, Carl Trueman encarna o seguinte questionamento: "Como se deve proceder à revisão ou complementação das confissões de uma igreja?" Eis a sua resposta: "Sem dúvida, não é algo que apenas um indivíduo deve fazer: o refrão deste livro é que os credos e as confissões são documentos eclesiásticos, propriedade de toda uma igreja, não do crente isolado" (p. 255). Ainda de acordo com ele, as confissões, como documentos eclesiásticos, possuem importância corporativa, que não é compartilhada por outros escritos, como as Institutas de Calvino, por exemplo: Debates sobre como traduzir passagens de Calvino, ou se ele está certo ou errado em um ponto podem ser interessantes, mas têm pouca ou nenhuma importância eclesiástica. No entanto, as confissões são diferentes: elas são documentos aos quais a igreja está vinculada por cânones processuais, votos de ordenação etc. A diferença é importante quando se trata da revisão confessional. Qualquer revisão deve ser feita pela igreja, de modo específico pelos encarregados de garantir a firmeza de sua instrução, ou seja, os presbíteros" (op. cit., p. 256).

Isto posto, não basta somente vociferar que a Confissão de Westminster deve ser reformada.

É necessário que passos formais e indispensáveis sejam dados. Se se deseja que a mesma seja revisada e complementada, que sejam seguidos os passos e etapas certos. Trata-se de uma obra que não pode ser feita de qualquer forma. Não pode ser feita em clima de oba-oba.

Como diria o excelente Dr. Hermisten Maia: "Fazer teologia é tarefa da Igreja; não é um estudo descompromissado feito por transeuntes acadêmicos".

SOLI DEO GLORIA

24 de out de 2016

Como saber se eu sou um Reformimion?

Por Thiago Oliveira

"Alguns se desviaram dessas coisas e se entregaram a discussões sem propósito algum, querendo ser mestres da lei, embora não entendam nem o que dizem nem o que afirmam com tanta confiança."

I Timóteo 1:6-7

Tem crescido na internet o interesse pela teologia reformada e todo o arcabouço prático-doutrinário que corresponde à mesma. É legal ver que mais pessoas estão buscando uma sólida compreensão das Escrituras através de uma tradição que nos legou excelentes expositores. Mas existe um lado não muito legal: são os Reformimions. Não sabe do que se trata? São seres bastante chatos que se acham os baluartes do calvinismo e que possuem a pretensão de anunciar quem merece ou não receber a alcunha de reformado. Geralmente, tais seres são prejudiciais à propagação da ortodoxia, pois, eles a divorciam da ortopraxia e da ortopatia, isto é, advogam a doutrina correta, porém estão longe da prática e das afeições corretas.

Como o evangelho não é um caminho de apontamento alheio, e sim de autoexame e constante vigilância de si mesmo, vamos fazer um teste rápido para saber se você pode ser considerado um Reformimion. Podemos começar?

Pergunta 1: Você já leu a Bíblia toda?

Esta é uma pergunta importante, pois, reformimions gostam de ensinar teologia através das redes sociais. Mas a teologia tem por base o livro da revelação, isto é, a Bíblia. Para estar apto a ensinar doutrinas bíblicas, o mais prudente seria ler a Bíblia com frequência e em sua totalidade. Logo, se você anda “teologando por aí”, mas a sua Bíblia anda empoeirada, possa ser um forte indício de que você pertence a categoria dos reformimions.

Pergunta 2: Qual a motivação do seu coração ao entrar em debates?

Seja sincero ao responder, pois, se a tua motivação for a de querer demonstrar conhecimento, e assim ganhar likes e mais likes, isso é típico de reformimions, que buscam a autoglorificação ao invés de glorificar ao Senhor e buscar a edificação - em unidade - da Igreja. Debates podem nos enriquecer em conhecimento, mas há uma linha muito tênue entre o enriquecer-se e o embriagar-se. O primeiro visa crescimento que pode ser aplicado no Reino, o segundo é vaidoso e ególatra.

Pergunta 3: Quando e onde você se converteu?

Esta pergunta é importante por dois motivos: Se tratando de tempo, neófitos não são as pessoas indicadas para distribuírem conteúdo doutrinário. Logo, se sua conversão é bem recente, você deve buscar aprender, aprender e aprender. Ensinar, talvez mais para frente, também vai depender se tiver vocação para o ensino. A questão do local importa pelo fato de muitos terem se convertido em igrejas pentecostais, e atualmente falam horrores das mesmas, chegando ao cúmulo de dizer que não existe nada de bom nesse meio. Uma coisa é reconhecer equívocos e evidenciar determinados desvios doutrinários de uma corrente, outra bem diferente é achincalhar com ela. Reformimions - via de regra - possuem linguagem grosseira e venenosa, pois, estão longe da piedade.

Pergunta 4: Qual o seu envolvimento com a igreja local?

Muitos reformimions que moderam grupos e páginas do Facebook não são envolvidos em igrejas locais, são desigrejados. E os que são membros de alguma congregação não costumam se envolver nos ministérios locais, limitando-se ao papel de expectadores (e avaliadores) de sermões. Este é um grande problema!

Pergunta 5: Quem te pastoreia?

Se há pouco ou nenhum envolvimento com a igreja local, então como é a relação de um reformimion com um pastor? Ora, Deus deu pastores a sua igreja e devemos nos submeter a tais líderes, com disposição para sermos pastoreados. Logo, se você não tem sido apascentado, você anda distante do plano que Deus traçou para seu povo. Você acha que é mais sábio do que o próprio Senhor para recusar o pastoreio em sua vida?

Pergunta 6: Qual o seu conhecimento da História eclesiástica?

Ler a História da Igreja e o desenvolvimento da doutrina cristã nesses dois milênios é um forte indício de que você não é um reformimion ou está deixando de ser, pois estes geralmente desconhecem os pais da Igreja, os credos e confissões, é por isso que muitas vezes passam vergonha ao chamar de hereges pessoas que estão bem fundamentadas na tradição. Por desconhecerem a tradição e terem um reduzido conhecimento das doutrinas da graça, acabam produzindo uma cristologia  e uma eclesiologia equivocada.

Pergunta 7: Já leu Calvino ou algum reformador?

A maioria dos reformimions se diz calvinista sem sequer terem lido um capítulo das Institutas ou outra obra do reformador de Genebra. Lutero então?Xiiiiiiii...Vai entender essa turma!

...

Pronto, chegamos ao fim do nosso teste. Se você chegou a conclusão de que age de acordo com o modus operandi dos reformimions, não perca as esperanças. Muitos conseguiram deixar para trás esse passado obscuro e hoje são pessoas mais lúcidas, mais conhecedoras do pensamento reformado e mais úteis para edificação do corpo de Cristo. Você também pode sair dessa furada, basta se arrepender desse mau caminho e pedir ao Senhor Jesus sabedoria e domínio próprio. Siga estudando, congregue numa igreja biblicamente saudável e tenha disposição para ser pastoreado e prestar conta pelos seus atos.

P.S. O nome reformimions faz alusão aos Minions, todavia, repeti o "M" duas vezes remetendo ao "mimimi" destes personagens denunciados no texto. Ok?

21 de out de 2016

Cronologia de Martinho Lutero

Por Alderi Souza de Matos


1483 – Nasce em Eisleben, na Alemanha oriental.

1484 – Seus pais, Hans e Margaretha Luder, mudam-se para Mansfeld, onde Hans trabalha em minas de cobre.

1492 – Lutero estuda em Mansfeld.

1497 – Estuda em Magdeburgo e no ano seguinte em Eisenach.

1501 – Ingressa na Universidade de Erfurt e no ano seguinte recebe o grau de bacharel.

1505 – Conclui o mestrado em Erfurt e começa a estudar direito. Em 02-07, durante uma tempestade, jura tornar-se monge; ingressa na Ordem dos Eremitas Agostinianos, em Erfurt.

1507 – É ordenado e celebra a primeira missa. No ano seguinte, leciona filosofia moral em Wittenberg.

1510 – Visita Roma e no ano seguinte é transferido para a casa agostiniana de Wittenberg.

1512 – Torna-se doutor em teologia e no ano seguinte começa a lecionar sobre os Salmos na Universidade de Wittenberg.

1515 –
Leciona sobre Romanos e é nomeado vigário distrital sobre dez mosteiros; no ano seguinte, começa a lecionar sobre Gálatas.

1517 – Começa a lecionar sobre Hebreus; em 31 de outubro, afixa as Noventa e Cinco Teses sobre as indulgências. Contexto: eleição do sacro imperador e venda de indulgências.

1518 – Defende a sua teologia em uma reunião dos agostinianos em Heidelberg. Em outubro, comparece diante do cardeal Cajetano em Augsburgo, mas recusa retratar-se; em dezembro, Frederico, o Sábio, impede que Lutero seja levado a Roma.

1519 – Entende a “justiça de Deus” como uma “justiça passiva com a qual Deus nos justifica pela fé.” Em julho, tem um debate com o professor dominicano João Eck em Leipzig; defende João Hus e nega a autoridade suprema de papas e concílios. Carlos V é eleito sacro imperador.

1520 – A bula papal Exsurge Domine dá-lhe 60 dias para retratar-se ou ser excomungado. Queima a bula papal e um exemplar da lei canônica. Escreve três documentos fundamentais: À Nobreza Cristã da Nação Alemã, O Cativeiro Babilônico da Igreja e A Liberdade do Cristão. A Reforma alastra-se na Alemanha e na Europa.

1521 –
É excomungado pela bula Decet Romanum Pontificem, de Leão X. Em abril, naDieta de Worms, recusa renegar os seus escritos e no mês seguinte um edito o condena como herético e proscrito. É seqüestrado e ocultado no Castelo de Wartburg, onde começa a traduzir o Novo Testamento. Protegido pelo príncipe eleito.

1522 – Em março, deixa o seu esconderijo e retorna a Wittenberg. No ano seguinte, escreve Sobre a Autoridade Temporal. É publicado o Novo Testamento em alemão.

1524 – Tem um debate com Andreas Bodenstein Karlstadt sobre a Ceia do Senhor. Explode a Revolta dos Camponeses.

1525 – Escreve Contra os Profetas Celestiais; escreve Contra as Hordas, criticando a Revolta dos Camponeses. Casa-se com Catarina von Bora. Escreve O Cativeiro da Vontade, contra Erasmo. Morte de Frederico, o Sábio.

1526 – Escreve a Missa Alemã; nasce o seu filho Hans. Na Dieta de Spira, os príncipes recusam-se a aplicar o Edito de Worms. No ano seguinte, luta contra enfermidades e intensa depressão; escreve “Castelo Forte”. Nasce a sua filha Elizabete. Escreve contra as idéias de Zuínglio acerca da Ceia do Senhor.

1528 – Escreve a Grande Confissão Acerca da Ceia de Cristo; chora a morte de Elizabete; visita igrejas.

1529 – Dieta de Spira: intolerância contra os luteranos. Surge o nome “protestantes.” Lutero comparece com Zuínglio ao Colóquio de Marburg, mas não alcançam acordo sobre a Ceia do Senhor. Publica o Grande Catecismo e o Pequeno Catecismo. Nasce sua filha Madalena.

1530 – Morre seu pai. Lutero, sendo um proscrito, não pode comparecer à Dieta de Augsburgo, realizada na tentativa de pôr fim à divisão religiosa do império. Filipe Melanchton apresenta a Confissão de Augsburgo, uma declaração das convicções luteranas.

1531 – Começa a lecionar sobre Gálatas. Nasce o seu filho Martin e morre a sua mãe, Margaretha.

1532 – Escreve Sobre os Pregadores Infiltradores e Clandestinos. Recebe o mosteiro agostiniano de Wittenberg como sua residência.

1533 – Nasce o seu filho Paulo. No ano seguinte, publica a Bíblia Alemã completa e nasce sua filha Margarete.

1536 – Aceita a Concórdia de Wittenberg sobre a Ceia do Senhor, na tentativa de sanar as diferenças com outros reformadores, mas os zuinglianos a rejeitam.

1537 – Redige os Artigos de Schmalkald como seu “testamento teológico.” No ano seguinte, escreve contra os judeus em Contra os Sabatarianos.

1539 – Escreve Sobre os Concílios e a Igreja. Em 1541, escreve Exortação à Oração contra os Turcos.

1542 – Redige o seu testamento; morre sua filha Madalena. No ano seguinte, escreveSobre os Judeus e suas Mentiras.

1544 – Escreve contra a interpretação de Caspar Schwenckfeld sobre a Santa Ceia.

1545 – Escreve Contra o Papado de Roma, uma Instituição do Diabo. Morre o arcebispo Alberto de Mogúncia e tem início o Concílio de Trento.

1546 – Lutero morre no dia 18 de fevereiro em Eisleben. Sua esposa morre em 1552.

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