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7 de set. de 2016

Resenha do Livro A Imaginação Totalitária

Por Thomas Magnum

"Apenas humanos. E que por serem humanos precisam constantemente lembrar que a servidão do totalitarismo tem origem antes de tudo na força dessa tentação interior". (pg. 292)

Com essa frase genial, Francisco Razzo finaliza seu  livro - A ImaginaçãoTotalitária | Os Perigos da Política Como Esperança. Publicado em Junho desse ano pela editora Record. Gostaria de dizer algumas coisas sobre o livro escrito pelo professor e filósofo Francisco Razzo. 

Confesso que esse livro foi um dos que mais queria ler das publicações sobre política e filosofia política lançados esse ano no Brasil. E também confesso que o livro superou minhas expectativas desde a arte da capa que é cheia de significado condizente com o tema proposto, enchendo a imagem com a palavra "totalitária" dando uma elegante ideia do que é de fato o totalitarismo - um preenchimento quase "onipresente" ontologicamente falando - de forma elegante, criativa e imageticamente agradável. 

O livro possui algumas peculiaridades que gostaria de frisar, embora não fale de tantas quanto gostaria, por conta do espaço aqui. A primeira delas é o agradável diálogo que Razzo faz com Crime e Castigo, de Doistoiévski, especificamente com o personagem Raskólnikov que com sua mente evidentemente saturada de imaginação totalitária reduzia a realidade da vida a seu mundo de resoluções absurdas e estranhamente - podemos assim dizer - até insanas. 

O livro possui uma densidade interessante. Razzo trata do assunto a partir dele mesmo, da experiência que transborda para a vida do outro e segue um curso lógico de gradação ideológica dominadora e redutora da realidade. O homem redutível descrito por Razzo expressa isso de forma fantástica. 

O argumento inicial do autor sobre o homem redutível e o homem irredutível, mostrando que na adoção de ideias totalitárias o homem é reduzido a uma fragmentação da realidade e se autolimita num universo de esperança política redentiva, é de grande importância para um entendimento do que o autor está desenvolvendo: a imaginação totalitária é reducionista. O autor demonstra isso com um exemplo pessoal que vivenciou, sobre um casal de amigos que na adolescência tiveram um relacionamento e a garota engravidou e o conselho então que ele (o autor) deu ao amigo que seria pai em meio ao conflito da questão é que a garota abortasse a criança. Razzo vai mostrar isso de forma muito elegante e interessante, no maturar do seu argumento, de que o totalitarismo se inicia na mente do indivíduo. E no caso aqui citado, o sujeito totalitário foi ele mesmo, quando aconselha o aborto, reduzindo o feto a ser menos que um ser, e também sem importância ontológica para o tamanho do drama vivido pelo casal de amigos. A mente totalitária, mostra o autor, é reducionista, enquanto o homem irredutível tem uma gama maior de questões a considerar como importância para realidade. 

A segunda parte do livro que trata propriamente de uma filosofia totalitária, abrange de forma maravilhosa os alicerces e fundamentações da questão, o autor com muita propriedade e elegância na escrita, consegue manter o leitor fixado no que desenvolve. 

Algo que me chamou atenção na abordagem é que o livro é composto por três grandes partes que são subdivididas em si mesmas. No entanto, o argumento central está na segunda parte. Razzo simplesmente destrói a ideia de esperança política, apresentando o ceticismo político e a pluralidade como fatores importantes em sua análise. Como grandes filósofos que locavam seu principal argumento para o centro do livro, Razzo fez isso com muita competência e primor. 

O livro objetiva tratar da imagética totalitária e suas consequências em menores e maiores graus. A proposta do autor é palmilhar com os leitores os meandros e pântanos da imaginação politizante que visa reduzir o ser humano a meras questões políticas, denegrindo ou diminuindo o que é o humano em função do político. A exemplo disso é reduzir questões biológicas, psicológicas ou religiosas a mera idealização política como uma expressão de expiação universal através da ideologia.

Interessante notar que a obra tem algumas questões estéticas que chamam atenção por sua condução da questão que está em pauta no livro. O livro é divido em três capítulos que se estruturam em subcapítulos dentro dessas partes maiores, mostrando a progressividade no raciocínio do autor e o agravamento do argumento, mas, que mantém a unidade do que está sendo defendido em cada abordagem em seus pontos subsequentes. Isso produz um efeito de capilarização do pensamento de Razzo na evolução do tema central do livro. 

Cada parte e subpartes vai se desenvolvendo dentro de uma estrutura concêntrica do que o autor começa chamando de homem redutível e homem irredutível. A amostra da imaginação totalitária como uma ideologização de um aspecto da realidade promovendo assim um reducionismo do humano e suas múltiplas relações com o mundo em sua volta, é uma polarização decrescente na ideia do que é o homem promovendo um desenlace com a maior compreensão da realidade. 

É necessário dizer que o livro é de vital relevância para o estudo da filosofia política por uma ótima conservadora/liberal e não somente isso, o livro clareia a questão da mentalidade totalitária, apontando fatores presentes em uma evolução que vai do singular ao plural - sociologicamente falando. A questão gira em torno de uma sólida antropologia filosófica apresentada por Razzo, demonstrando a experiência do autor com o tema que propõe e a impressão que se tem na leitura do livro é que além de uma vasta e sólida pesquisa acadêmica sobre o tema, o autor aprofunda questões existenciais tratando então antropologicamente, sociologicamente e psicologicamente ao que se refere ao pensamento totalitário.

Razzo trabalha com uma abordagem filosófica no que se refere a verdade objetiva na política de forma cética. Tratando inicialmente da verdade objetiva e da verdade subjetiva como parâmetro de analise para um discurso político totalitário. Discorrendo sobre o pluralismo objetivo contra um monismo de verdades intransigentes. Razzo então prepara o leitor com essa abordagem mais geral sobre a verdade, e a relativização política desta (no que se refere a filosofia política) em relação a dogmatização de uma verdade politizante que totalitarize o discurso reduzindo-o a um universo de realidade restrita. Com isso o autor dá prosseguimento ao argumento do capítulo anterior sobre a redutibilidade do pensamento totalitário. A ideia é que o correto posicionamento contra a totalitarização do pensamento está na pluralidade de considerações de verdades subjetivas. Dado esse pano de fundo, Razzo leva o leitor a um afunilamento da questão. Isso ocorre na segunda parte do capítulo dois quando trata das raízes filosóficas da imaginação totalitária. 

Minha impressão quanto leitor é que o livro se parece com um redemoinho, essa imagem ficou em minha mente. Pelo motivo de a primeira parte e a última convergirem para a segunda que seria o centro da questão filosófica. O livro possui uma dinâmica crescente e convergente ao centro do argumento do capítulo dois. O livro transita sobre antropologia filosófica, filosofia política e psicologia ao versar sobre a mentalidade totalitária. Imaginação totalitária é o centro da questão e Razzo mostra que isso não é exclusivo do pensamento de esquerda, mas, na verdade, quanto humanos, todos nós podemos alimentar imaginações totalitárias. 

Um livro que sem dúvida chegou em tempo bom para o público leitor brasileiro, e que ainda será lembrado como clássico da filosofia política no Brasil.Várias frases do autor marcam, como cravos bem fixados, sua abordagem nos capítulos do livro. Assim, finalizo com uma das frases que mais gostei: 

"Para a imaginação totalitária, essa seria a verdadeira vocação da política: salvar a todos e aniquilar a quem atrapalha". (pg. 202) 

8 de jun. de 2016

Resenha do Livro Super Ocupado

Por César Augusto

O título do livro é bem chamativo. Vivemos super-ocupados. O livro não é uma fórmula mágica que resolverá a sua vida. O autor deixa isso bem claro: "Não prometo uma transformação total". O propósito do autor é oferecer ideias práticas e conselhos bíblico-teológicos para "enfrentar nossos horários" e proporcionar "muito encorajamento para a nossa alma". A divisão do livro é simples, e ajuda na compreensão:

1) Três perigos a evitar (Cap 2)
2) Sete diagnósticos a considerar (Cap 3-9)
3) Uma coisa que você deve fazer

CAPÍTULO 1

No primeiro capítulo Kevin[1] diagnostica o problema dos tempos modernos, "Vivemos ocupados". Ele relata a história de uma mulher estrangeira que foi viver nos Estados Unidos, e se apresentava como Senhora Busy (ocupada), pois era a palavra que ela mais ouvia em solo americano. O ponto central do capítulo é que, todos nós vivemos ocupados, uns mais e outros menos.

No mundo globalizado, e principalmente nos países industrializados, o ritmo de vida é frenético. Vivemos super-ocupados, reclamamos da falta de tempo, por consequência, não planejamos bem nossos compromissos, desperdiçamos tempo com coisas triviais, e a sensação é de que a vida está nos devorando aos poucos. Sentimo-nos dentro da areia movediça, e, quanto mais tentamos escapar, mais afundamos. Tudo isso gera "stress, irritabilidade, mau humor, negligência", coisas que não são boas para a nossa convivência na família, na igreja, no trabalho e na sociedade.

CAPÍTUL O 2

No segundo capítulo, DeYoung trata de três perigos que devemos evitar: Estar ocupado demais pode roubar nossa alegria;  Ocupação desenfreada pode roubar nosso coração; E o ativismo pode encobrir nossa podridão.

1) Estar ocupado demais pode roubar nossa alegria, pois quem quer fazer tudo, acaba não fazendo nada. Quem tudo quer, nada consegue. Geralmente acordamos tentando "sobreviver, e não servir". O autor utiliza-se do termo, "doença da pressa"[2],  para descrever o quão mal estamos. A frase de Tyler Durden , do filme Clube da Luta, retrata bem a nossa época: "Trabalhamos em empregos que odiamos para comprar porcarias que não precisamos". Trabalhar demais, para comprar coisas demais, não significa que estamos felizes. O único que pode, e deve ser nossa fonte de alegria é Cristo. Lembremo-nos da advertência de Cristo: "Porque, onde estiver o teu tesouro, aí também estará o teu coração" (Mt 6:21.

2) A ocupação desenfreada pode roubar nosso coração. Segundo Kevin, a ocupação mata os cristãos espiritualmente. Não temos limites em nossas vidas. Temos mais oportunidades do que qualquer outra época na história da humanidade. Não havia eletricidade na época de Lutero e Calvino. Jesus não tinha carro para ir de uma cidade para outra.  Nas palavras de Kevin, a ocupação desenfreada é como o pecado: "Mate-o ou ele vai matar você".

3) O ativismo, aliado a moralidade pode esconder a podridão do nosso coração. O moralismo é o pai da falsa santidade. O ativismo pode nos levar a ter reputação, porém, nas palavras do grande pregador Moody, "Caráter é o que você é na escuridão". Enganamo-nos a nós mesmos, se nos esconder atrás do ativismo, principalmente o "ativismo religioso". Deus conhece os nossos corações (Sl 139:23-24).  Ocupação, segundo Kevin, não significa que você "seja um cristão fiel e frutífero". Devemos buscar ser fiéis nas pequenas coisas. Se não somos fiéis nas pequenas coisas, como esperamos fazer grandes coisas? E mesmo que fossemos pastores, pregadores, seminaristas, obreiros ocupados na obra de Deus, é importante a advertência da Escritura: "Somos servos inúteis, pois fazemos apenas aquilo que o Senhor manda" (Lc 17:10). A verdade é que, muitos de nós, nem de inúteis podemos ser chamados, portanto, examinar nosso coração é crucial para não cairmos na armadilha do ativismo.

CAPÍTULO 3

No terceiro capítulo, Kevin trata das várias manifestações de orgulho (1º Diagnóstico) dos nossos corações: querer agradar os outros, a necessidade de aprovação, provar nossa capacidade,perfeccionismo, louvor dos homens entre outras coisas. Como Calvino afirmou, o coração humano "é uma floresta de espinhos". O orgulho é como um "vilão de mil caras". Temos que clamar pela graça de Deus, a fim de que o orgulho seja extirpado dos nossos corações. Segundo o autor, o orgulho se manifesta nos nossos corações, porque "estamos mais preocupados em parecer bem do que fazer o bem". A Escritura é bem enfática: "Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes". (Tg 4:6)

CAPÍTULO 4

Queremos fazer a diferença no mundo, às vezes, temos a síndrome do "super-crente" (2º Diagnóstico). Entretanto, Deus não te chamou para ser um super-crente, como foram Spurgeon, Edwards, entre outros. Deus te chamou para ser fiel, seja nas pequenas ou nas grandes coisas. Kevin diz que o "terror da obrigação total" pode trazer frustrações, decepções e angústia. Como remédio para este terror, ele mostra o exemplo de Jesus.  Nossa missão é servir a Deus servindo as pessoas, valorizando e servindo na Igreja. Orare e Labutare - orar e labutar; Deus dará os resultados conforme lhe aprouver, porém, temos de labutar, trabalhar, não ficar estagnados. Grande é a seara? Sim! Poucos são os obreiros? Sim! Contudo, você não pode fazer tudo. Temos diferentes dons e chamados. Deus usa cada um conforme seus dons, e nisto vemos a "multiforme sabedoria de Deus" (Ef 3:10).

CAPÍTULO 5

Para servir as pessoas, você precisa estabelecer prioridades, este é o terceiro diagnóstico. Kevin dá um conselho prático:

Você tem que estabelecer prioridades. Você não é o Superman. Você não pode ajudar todas as pessoas ao mesmo tempo. Você não pode fazer tudo nem conseguirá fazer tudo. Estabeleça prioridades, prefira as coisas excelentes às coisas boas. Entre servir sua família, ou algum irmão devemos escolher a família. Como disse Paul Washer: "Que proveito tem ao homem, ganhar o mundo, e perder sua família. Se estabelecermos prioridades, poderemos servir melhor- seja nossa família, igreja, amigos, etc.

CAPÍTULO 6

No sexto capítulo, DeYoung trata da puerigarquia, isto é, a noção de que os pais tem que dar tudo para seus filhos, como se o futuro dos filhos dependesse dos pais. O autor cita estudos de autores não cristãos que evidenciam que nos tempos modernos, a vida gira em torno dos filhos, e isto leva os pais a trabalharem demais, e viverem estressados. O futuro dos nossos filhos depende da providência divina. Kevin mostra que, segundo a Bíblia, nossa missão é ensinar nossos filhos sobre Deus (Dt 6:7; Pv 1-9) e discipliná-los (Pv 23:13; Hb 12:7-11).  Não existem pais perfeitos nem tampouco filhos perfeitos. O legalismo pode levar os pais provocar ira em seus filhos (Ef 6:4). O argumento de Kevin neste capítulo é que, o futuro dos nossos filhos depende de Deus. Falharemos, erraremos, pecaremos, porém, Deus é misericordioso e gracioso, tanto para nos dar graça na criação dos pequeninos, como para guiar a vida deles.

CAPÍTULO 7

No sétimo capítulo, Kevin trata dos perigos da internet. Ele diz que estamos deixando a tela estrangular nossa alma. Corremos o perigo de estar viciados, de maneira que a internet controla nossas vidas, e isto pode nos levar a acédia (indolência e esfriamento espiritual). Kevin aconselha que temos de utilizar a internet para nosso benefício, estabelecer limites. Não podemos viver em função da internet.  Ele nos encoraja a utilizar as "tecnologias antigas", isto é, existe vida fora da internet, e temos que viver. Ele encerra o capítulo mostrando que a internet trouxe-nos a falsa sensação de que "somos onicompetentes, oni-informados e onipresentes", porém, isto é uma grande ilusão.

CAPÍTULO 8

No oitavo capítulo, Kevin alerta algo que, muitas vezes, nos esquecemos, precisamos descansar. Deus estabeleceu um dia de descanso na criação. Ele brevemente trata a questão do sábado, dizendo que "a parte mais importante quanto ao mandamento do sábado é que devemos descansar somente em Cristo como nossa salvação". Não entrarei aqui no debate em relação à guarda do Dia do Senhor, uma vez que este assunto é profundo e um livro não seria suficiente para tratar sobre o mandamento. Pontuo aqui que é a tradição da igreja, desde os tempos dos pais da Igreja à guarda do Dia do Senhor. Para aqueles que querem se aprofundar no assunto, podem estudar o período da Patrística, a Reforma Protestante, o puritanismo, as grandes confissões e os catecismos reformados. Kevin diz que "se quisermos continuar correndo, temos de aprender a parar", pois, muitas vezes, "o descanso é o antídoto de que realmente necessitamos". Não podemos misturar trabalho e lazer, levar trabalho para casa. Precisamos relaxar, pois Deus nos deu o sono (Sl 127:2). Kevin cita um sermão de Don Carson: "Ás vezes, a coisa mais piedosa que você poderá fazer é conseguir dormir bem por uma noite - não é orar a noite toda, mas dormir".

CAPÍTULO 9

O nono capítulo é um chamado para abraçarmos o sofrimento. Tal capítulo é um antídoto contra à teologia da prosperidade, que leva as pessoas a pensarem que servir a Jesus é ter uma vida sem problemas, sem doenças, sem provações, sem frustrações entre outras coisas. A vida não é um conto de fadas, se quisermos servir a Jesus precisamos estar dispostos a tomar a nossa cruz  (Mt 10:38 ), ter bom ânimo ( Jo 16:33 ) para vencer o mundo. Se Jesus vestiu uma coroa de espinhos, por que você espera uma vida fácil na terra? Se Paulo e os apóstolos sofreram, por que esperamos uma vida de comodismo?  Como diz Lewis: "o sofrimento é o megafone de Deus". Deus fala por meio do sofrimento". A vida não é fácil para ninguém, passaremos por muitas tribulações e angústias, porém, nenhuma delas se compara ao peso da eternidade que nos aguarda.

CAPÍTULO 10

No último capítulo, Kevin fala da única coisa que precisamos, e temos que fazer. Temos que ter uma vida devocional. Orar e ler a Bíblia diariamente. Kevin diz que "não podemos ficar lendo livros ou escutar sermões o dia todo". E isto é verdade, além da nossa vida espiritual, temos uma vida nessa terra. Temos que trabalhar, levar o lixo para a fora, cuidar dos filhos, ir para a faculdade, entre outras coisas. Todos nós vivemos semanas de loucura, frenéticas, porém, lendo a Bíblia e orando diariamente, Deus cuidará de nós. A coisa mais importante da nossa vida é, segundo Jesus, que "nem só de pão viverá o homem, mas de tudo o que procede da boca do Senhor" (Mt 4:4). Precisamos desesperadamente correr para Jesus, pois num mundo onde todos vivem ocupados, cansados e fatigados, Ele é o único que pode nos dar descanso (Mt 11:28). Encerro esta resenha com as palavras de Agostinho:

"Já li, Sócrates, Platão e Aristóteles, mas em nenhum deles li: Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei".


***

Notas

[1] Kevin DeYoung é o pastor da University Reformed Church em East Lansing, Michigan. Obteve sua graduação pelo Hope College e seu mestrado em Teologia pelo Gordon-Conwell Theological Seminary. É preletor em conferências teológicas e mantém um blog na página do ministério The Gospel Coalition. Ele é autor de vários livros, incluindo Qual a Missão da Igreja, Faça Alguma Coisa, Não quero um Pastor Bacana, Por que Amamos a Igreja e Brecha em nossa Santidade.

[2] "doença da pressa": Terminologia usada por Tim Chester, autor do livro The Busy Christian's Guide to Busyness, [Guia de ocupação do cristãos ocupado]. O autor é citado por Kevin, no segundo capítulo do seu livro, na página 21.

13 de abr. de 2016

Resenha Crítica da Obra Contra a Idolatria do Estado

Por Thiago Oliveira[1]
Introdução
O mais recente livro do teólogo e pastor Franklin Ferreira é uma obra de teoria política sob o viés bíblico-teológico. Seu título é Contra a Idolatria do Estado – O papel do cristão na política. O livro é editado por Edições Vida Nova, possui um número total de 280 páginas e foi lançado em Março do presente ano. Recebeu o endosso de renomados teólogos, como Solano Portela e Jonas Madureira, além de nomes como o da jornalista e âncora do principal telejornal do SBT, Rachel Sheherazade e do escritor e filósofo Luiz Felipe Pondé, que se denomina uma pessoa não agraciada com o dom da fé, ou seja, não é um cristão professo. Em seu endosso, Pondé escreve o seguinte: “O livro do Franklin Ferreira é exemplo de como a teologia pode dialogar com o pensamento político sem ter vergonha de dizer quem é, coisa rara hoje em dia”.
O livro apresenta a seguinte estrutura: Agradecimentos, Introdução e 8 capítulos divididos em 4 seções. Por fim, a Declaração Teológica de Barmen é colocada como apêndice. O conteúdo e o contexto histórico da declaração supracitada são trabalhados dentro dos capítulos, todavia, é publicada na íntegra após o capítulo que conclui a obra. Deixando de lado a introdução e o apêndice, esta resenha, em sua abordagem, contemplará apenas a substância dos capítulos desenvolvidos por Ferreira.
Primeira Parte: Fundamentos Bíblicos
Iniciando o livro com a história de Ester no Capítulo 1, Ferreira tenciona que a angústia do povo judeu, sob a ameaça do extermínio, e a atuação política de Ester e Mardoqueu para evitá-lo sirva de exemplo para a atuação política dos cristãos no momento crítico de nossa conjuntura sociopolítica. Ferreira destaca a oração e a dependência à Deus como características indeléveis do cristão que anseia atuar no serviço político. Para o autor, líderes que tenham as qualidades de servo, que sejam encorajadores e visionários devem compor a equipe do político cristão para bem assessorá-lo e ajudá-lo na construção de projetos que sejam agentes de transformação social.
Ferreira também argumenta que o conhecimento de diversas disciplinas acadêmicas é de muita utilidade para que o político cristão desenvolva uma cosmovisão robusta o suficiente para identificar os pressupostos filosóficos (e também religiosos) e assim, responder satisfatoriamente a sociedade, sem deixar de lado a sua base cristã. O autor parece endossar o conceito habersiano[2] da tradução cooperativa dos termos religiosos. Em suma, trata-se de tornar acessível os argumentos que mesmo oriundos de um credo, seriam transmitidos a uma sociedade plural através de uma linguagem desvinculada da terminologia religiosa. Ferreira nos lembra de que o livro de Ester não cita em nenhum momento o nome de Deus e sugere, a partir de uma explicação secundária, que a ausência nos remete a ideia de que a linguagem da fé não precisa e nem deve estar presente no âmbito das esferas políticas.[3]
No segundo capítulo, há uma interpretação política da Carta aos Romanos, interpretação que sofre uma influência direta do teólogo alemão Karl Barth. É um capítulo muito rico que demonstra o quanto que a mensagem do Evangelho confronta o culto a personalidade política. Nele somos informados que em nenhum momento o termo “poder” é usado para designar as autoridades governamentais. Apenas Cristo é o detentor do poder e, por isso, toda e qualquer autoridade política está debaixo do seu senhorio. Para Ferreira, embasado em outros comentaristas, o conteúdo da epístola paulina traz em seu bojo uma teologia subversiva, negando aos imperadores de Roma a deificação. A mensagem da carta é, em resumo, um encorajamento para que os crentes romanos mantenham a sua devoção exclusivamente à pessoa de Cristo e sejam leais ao evangelho.
É ainda no segundo capítulo que a passagem de Romanos 13.1-7 é analisada. Esta passagem foi e é vista por muitos como uma orientação conformista, pois, indica que os cristãos devem obedecer as autoridades, que são designadas por Deus. Acontece - como Ferreira bem demonstra - que a obediência é um dever desde que a autoridade seja legítima. O cristão fica desobrigado a obedecer a um governo que desconsiderou a designação divina da sua função. Quando uma ordem governamental entra em conflito com uma ordem de Deus, ou quando não exerce sua autoridade para cumprir o propósito de punir o mal e recompensar os que fazem o bem (Rm 13.3), cumpre ao cristão desobedecer tal governo. Assim sendo, diante do contexto em que a carta foi escrita, em que havia o culto ao Imperador, os verdadeiros cristãos foram martirizados por não sacramentar o poder de César e não reconhecer outro Senhor que não fosse Cristo Jesus.
Segunda Parte: Questões Conceituais
Esta seção é polêmica por questionar alguns conceitos repetidos alhures pela opinião pública. Uma das principais polêmicas é traçar um comparativo entre o nazismo e o comunismo, pois, para muitos o nazismo é conceituado como sendo conservador e de direita. Ferreira vai de encontro a esta concepção afirmando que os regimes totalitários sob a tutela de Stalin e Hitler, que respectivamente governavam a extinta União Soviética e a Alemanha, tratam-se de “irmãos gêmeos heterozigotos”. O autor se baseia em autores como João Pereira Coutinho e Hannah Aredent, citando apenas duas de um variado leque de outras fontes, para fundamentar o seu argumento. Este é o mote do excelente terceiro capítulo.
Tratando da divisão esquerda-direita, o capítulo seguinte traz uma apologia clara ao modelo político que tem por base a democracia e uma economia liberal, ideologia que ainda não é popular no Brasil, visto que - com a exceção do partido Novo - recém-criado, todas as outras legendas partidárias são de esquerda ou centro, isto é, em maior ou menor grau pregam uma regulamentação Estatal. Ferreira classifica a esquerda como sendo um modelo onde o Estado se agiganta, transcendendo a esfera que lhe é de direito governar. Ele continua demonstrando que a ideologia esquerdista e a sua aplicação nos regimes comunistas são de pouca ou nenhuma liberdade individual.
Analisando o contexto político brasileiro, Ferreira conclui que está arraigado no pensamento brasileiro um antiliberalismo, visto que todos os governos desde a proclamação da república adotaram medidas protecionistas e um Estado regulador. Aqui temos a idolatria estatal que é rechaçada logo no título da obra, pois, é na ideologia esquerdista que o Estado adquire contornos messiânicos. Ferreira salienta que a lealdade do cristão, assim como a sua esperança, não pode ser colocada em nenhum sistema de governo ou ideologia política. Nossa esperança e lealdade devem ser depositadas exclusivamente em Jesus Cristo.
Terceira Parte: Direções Teológicas
O capítulo 5, que dá início a terceira parte do livro, é uma recapitulação da “disputa pela igreja”, como ficou conhecido o embate entre os líderes da Igreja Alemã, que estavam cedendo aos postulados nazistas e a tutela estatal dentro das igrejas, e os teólogos e pastores que resistiram a esta interferência e fundaram o que veio a ser chamado de Igreja Confessante. Dois nomes se destacam entre os que resistiram, são eles o de Barth e o de Bonhoeffer, o primeiro exilado e o segundo sentenciado a morte. Relatando nuances da disputa e pinçando trechos da Declaração de Barmen que denunciou e repudiou a síntese entre o evangelho e a ideologia nazista, o objetivo do autor neste capítulo é demonstrar que a integridade do conteúdo da fé cristã é inegociável. Nem mesmo a unidade da igreja pode ser dada como desculpa para tolerar a falsa doutrina. Os pastores que aderiram a Igreja Confessante foram acusados de causar divisão na igreja alemã, mas como Ferreira observa, às vezes, é desta forma que a Igreja é purificada, através da perseguição. O capítulo é encerrado com um trecho da Declaração de Culpa de Stuttgart, em que os líderes da reconstruída Igreja da Alemanha reconhecem que erraram por não terem sido mais combativos contra o regime de Adolf Hitler.
Já o capítulo 6 endossa a perspectiva reformada da Soberania das Esferas, conceito desenvolvido pelo teólogo, jornalista e politico holandês Abraham Kuyper. Após analisar criticamente a visão dos “Dois Reinos”, comum entre os luteranos, e a perspectiva dispensacionalista, Ferreira passa a tratar da concepção reformada que pode ser esboçada através do seguinte gráfico:

Como pode ser visto, Deus transcende toda instituição terrena, que tem a sua autoridade subsidiada nEle. Não há nenhuma esfera que teve o seu poder derivado de outra. Todas derivam de Deus e tem uma área de influência delimitada, apesar de serem interligadas, elas não estão submissas a nenhuma outra, são autônomas entre si. A soberania derradeira que abarca todas as esferas pertence somente a Deus.
Concluída a exposição do conceito kuyperiano da Soberania das Esferas, Ferreira diz que os valores republicanos estão historicamente vinculados aos cristãos, que os defendem por ver neles concordância com o ethos do cristianismo. Esta conclusão é obtida através de inferências da Escritura.
Quarta Parte: Aplicações Práticas
Chegando aos dois capítulos que encerram a obra, lemos sobre a ineficiência estatal, sobretudo do governo petista em zelar pela segurança dos cidadãos brasileiros. Ferreira nos mostra números alarmantes do aumento da violência. Ele critica os altos impostos que não são revertidos para a segurança e nem para o deleite da sociedade. Outra questão bastante criticada é a ideologização promovida pela esquerda no debate sobre a violência. Ao dizer que o bandido é vítima da sociedade, esta ideologia vitimiza o criminoso ao invés de puni-lo. Ferreira expõe a deficiência do sistema prisional brasileiro e a instrumentalização dos Direitos Humanos pela intelligentsia a serviço do Estado.
E qual seria a atuação da igreja frente ao aumento da violência? Ferreira sugere que ela ore e que permaneça fiel a pregação expositiva das Escrituras, pois esta gera vida e é marca da igreja verdadeira. O livro é finalizado com dez pontos elencados a respeito de uma agenda cristã para um voto consciente.
Considerações Finais
Contra a Idolatria do Estado é leitura que deveria ser cobrada a todo pastor. O livro deveria ser endossado nos seminários, pois, temos uma carência no segmento cristão evangélico brasileiro referente a uma visão política que esteja embasada numa cosmovisão escriturística. A obra é bíblica, mas não apenas isso, ela é riquíssima em matéria de referencial teórico. Ferreira se apoia em diversos autores e fontes, colocando a teologia no cerne da esfera pública. São 19 páginas de bibliografia, demonstrando a profundidade da pesquisa realizada pelo autor.
A obra também se destaca por não ter equivalentes. Até então, nenhum teólogo brasileiro havia se lançado a escrever um livro sobre política tecendo críticas pontuais direcionadas a um governo ainda vigente e defendendo um modelo político-econômico que fosse liberal[4]. Embora existam alguns artigos em periódicos e na blogosfera, nada que se compare a proposta da obra de Ferreira, que preenche uma lacuna de nossa literatura teológica. É importante que mais teólogos lancem luz a este tema, produzindo outros escritos que sirvam de referência para a construção de uma cosmovisão cristã no âmbito político.
Àqueles que não têm familiaridade com obras políticas podem ler Contra a Idolatria do Estado, fazendo desta obra uma introdução ao assunto. Embora existam conceituações que possam parecer estranhas ao leitor primário, Ferreira preocupou-se em estruturar o livro de uma maneira bem didática, permitindo aos iniciantes nos estudos da política adquirirem uma compreensão geral de seu argumento basilar.


[1] Thiago Oliveira é pastor da Igreja Evangélica Livre em Itapuama-PE. Graduado em História pela Fundação de Ensino Superior de Olinda com especialização em Ciência Política. É casado com Samanta Oliveira.

[2] Termo derivado do nome do filósofo e sociólogo alemão Jürgen Habermas, que dedicou a sua vida a estudar a democracia e desenvolveu em suas obras o conceito de “Esfera Pública”.

[3] A explicação primária para a ausência do nome de Deus no livro de Ester seria o nível de assimilação cultural. Ester e Mardoqueu representam uma parte dos judeus que preferiram continuar vivendo no centro da Pérsia ao invés de regressar a Jerusalém nos tempos de Ciro II, que era avô do rei Xerxes, o governante que desposou Ester.

[4] É preciso entender que liberal neste caso significa a posição que defende as liberdades individuais e o mínimo de interferência estatal, não tendo nenhuma relação com o liberalismo teológico e nem se referindo à frouxidão dos padrões morais bíblicos. 

29 de jan. de 2016

Seria a CFW um documento continuísta? - Uma Avaliação Crítica de “Sob os Céus da Escócia” (1/2)

Por Alan Rennê Alexandrino 

INTRODUÇÃO

No ano de 2006 o autor Brian D. McLaren publicou uma das suas obras mais conhecidas, intitulada The Secret Message of Jesus. A tese de McLaren neste livro é a de que ao longo de quase dois mil anos de história os cristãos ou compreenderam de maneira equivocada a mensagem de Jesus Cristo, ou então flagrante e intencionalmente a distorceram. Ao longo de milênios a cristandade estaria vivendo no engano por não ter atentado para a verdadeira mensagem propalada pelo Filho de Deus. Talvez o trecho mais inquietante da obra apareça quando McLaren sugere, ao fazer uma citação do filósofo Sören Kierkegaard, que a erudição cristã deliberadamente distorceu a mensagem do evangelho:

A Bíblia é muito simples de se entender. Mas nós, cristãos, somos um bando de caloteiros intrigantes. Fingimos ser capazes de compreendê-la porque sabemos muito bem que, no instante que a compreendermos, estaremos obrigados a agir de acordo com ela [...] Eis, portanto, o verdadeiro propósito da erudição cristã. A erudição cristã é a invenção mais prodigiosa para se defender da Bíblia, a fim de garantir que podemos continuar sendo bons cristãos sem que a Bíblia se aproxime demais de nós.[1]

Assim, tudo o que a igreja cristã viveu e praticou ao longo desses dois milênios nada mais foi do que uma fraude, um engodo promovido pela erudição cristã.

Por que iniciar a análise da obra Sob os Céus da Escócia, de autoria de Renato Cunha, ministro da Igreja Episcopal Carismática, com uma menção a Brian McLaren e uma de suas obras mais controversas? A resposta está em que, assim como McLaren, Renato Cunha não apenas sugere, mas defende explicitamente, que homens como João Calvino, George Gillespie, Samuel Rutherford, Jonathan Edwards e muitos outros nunca foram verdadeiramente compreendidos quanto ao que esses homens defenderam a respeito da obra do Espírito Santo na concessão dos dons miraculosos à Igreja de Cristo. Esses homens e muitos outros, como o pregador inglês Charles H. Spurgeon[2], são evocados como bastiões do cessacionismo. Porém, de acordo com Renato Cunha, ou tais homens nunca foram compreendidos ou, na realidade, o cessacionismo se utiliza de subterfúgios e até mesmo de fraude para poder alinhá-los ao seu pensamento. E ao longo da leitura da obra a impressão é a de que, na mente do autor, a última alternativa é a verdadeira.

Nem mesmo a Confissão de Fé de Westminster, nos dizeres de Cunha, ensina aquilo que é afirmado pelos cessacionistas. Quando a CFW afirma, logo no seu capítulo e parágrafo de abertura, que cessaram “aqueles antigos modos de Deus revelar a sua vontade ao seu povo” (1.1), ela não está ensinando que o dom de profecia nos moldes neotestamentários cessou. Esta afirmação cessacionista está equivocada e é fruto de, no mínimo, dificuldades em interpretar devidamente textos escritos.

O presente artigo é a primeira parte de uma avaliação crítica da obra de Renato Cunha. Inicialmente, eu tinha a intenção de escrever apenas uma resenha a respeito do livro. Contudo, ao longo da leitura do mesmo, tantos absurdos foram notados e anotados, que me proponho agora a escrever uma pequena série de críticas à obra. Para tal, me proponho, em primeiro lugar, a discorrer brevemente a respeito do método utilizado na escrita do livro, a saber, o uso de fontes marginais. Em segundo lugar, é minha intenção abordar um dos pontos centrais da obra: a negação do cessacionismo na Confissão de Fé de Westminster, investigando o contexto histórico da Assembleia de Westminster, bem como as proposições da própria Confissão. Em terceiro lugar, tratarei das alegações no sentido de que homens como Calvino, Gillespie, Rutherford e outros eram defensores da perpetuidade dos dons revelacionais, notadamente o dom neotestamentário de profecia.

1.    O Revisionismo de “Sob os Céus da Escócia”

Cunha inicia a sua obra com a afirmação de que utilizará como método de pesquisa o ramo da historiografia conhecido como “História das Mentalidades”, nascido no século passado. O autor afirma que a história das mentalidades “busca perscrutar e compreender as importantes alterações nas formas de pensar e agir do homem ao longo dos tempos” (p. 13). Isto o conduz a questionar por qual razão o elemento místico, que sempre esteve presente na cristandade, foi desconsiderado e completamente ignorado pelo cessacionismo moderno. Assim, a proposta da obra é apresentar não apenas uma resposta a este questionamento, mas também trazer a lume evidências históricas de que tal elemento místico sempre se fez presente, inclusive no meio reformado e supostamente cessacionista.

A proposta de Cunha, na realidade, é proceder com um completo revisionismo da história do protestantismo reformado, a fim de consubstanciar a tese de que o cessacionismo nada mais é do que uma inovação que teve origem com a publicação de Counterfeit Miracles, de Benjamin Beckenridge Warfield, em 1918. Para levar adiante seu projeto Cunha faz uso daquilo que é conhecido como fontes marginais, que nada mais são do que fontes secundárias que apresentam pontos de vista que divergem significativamente do entendimento comum e aceito em determinado campo do conhecimento.

Um exemplo disso pode ser percebido no fato de que, ao tratar do alegado continuísmo do escocês George Gillespie nenhuma fonte primária é apresentada, com exceção da menção a dois tratados sobre o dom de profecia no Novo Testamento (p. 65, nota de rodapé nº 15). Não há nenhuma declaração do próprio Gillespie. Há apenas testemunhos oriundos de biografias. Na verdade, as únicas palavras de Gillespie documentadas (p. 64) são tomadas a partir de uma fonte secundária difícil de identificar, dada a maneira equivocada como as notas de rodapé estão organizadas do ponto de vista da metodologia da pesquisa científica.[3]

Muitos outros exemplos poderiam ser apresentados aqui. Não obstante, este fato prejudica o trabalho de qualquer pesquisador, uma vez que, conquanto seja ponto pacífico que a utilização de fontes secundárias seja perfeitamente aceitável em qualquer pesquisa bibliográfica, é imprescindível que grande parte, senão a maior, do labor do pesquisador seja tomada a partir de fontes primárias. No caso da obra de Cunha e considerando a sua proposta, era imprescindível que as evidências textuais primárias abundassem, o que não ocorre. O que pode ser percebido mesmo quando se avalia as fontes secundárias utilizadas é que, na verdade, a pesquisa foi dirigida a partir de uma seletividade intencional de fontes que melhor se adequam a uma crença pessoal. Esta seletividade ficará evidente nas seções subsequentes desta crítica, quando apresentarei um contraponto às teses de Cunha a respeito da Confissão de Fé de Westminster e dos supostos teólogos reformados continuístas.

Outro detalhe que necessita ser destacado logo de início, é que ao longo da obra o cessacionismo é constantemente acusado de manipular, distorcer e omitir fatos que têm acompanhado a história humana desde os primórdios. Cunha faz tal acusação de maneira indireta, afirmando que “é certo que muitos têm o interesse de omitir eventos aos quais julgam impertinentes e desconfortantes na defesa de determinado sistema filosófico” (p. 90). Cunha também deixa no ar uma indagação a respeito da existência de fraude nos postulados de quem defende a estrutura filosófica do cessacionismo (p. 181).

O autor também se utiliza do argumento falacioso da associação, ao colocar lado a lado o cessacionismo, o ateísmo (p. 179) e o antissobrenaturalismo de Rudolf Bultmann (p.183). De forma estranha, no escopo da obra não há nenhuma preocupação de oferecer ao leitor uma definição acerca do que é o cessacionismo. Seria de bom tom que os termos tivessem sido devidamente definidos antes de oferecer críticas tão contundentes. Percebe-se que Cunha também fez uso da falácia do espantalho todas as vezes que mencionou o cessacionismo. Apesar de levantar tais observações aqui, deixarei para abordá-las mais detidamente na segunda parte da crítica do livro.

Por ora, irei me concentrar na abordagem de Cunha à Confissão de Fé de Westminster.

2.    O Cessacionismo da Confissão de Fé de Westminster

De acordo com Cunha, “o tema revelação sobrenatural extrabíblica teve significativa importância no debate” travado na Assembleia de Westminster (1643-1649). Apesar disso, a missão que os delegados tinham diante de si era “unificar o protestantismo europeu na redação de um documento que representasse de maneira adequada as igrejas reformadas” (p. 32). Visando, então, o cumprimento dessa missão, foi que os delegados buscaram acomodar uma diversidade de opiniões na elaboração da Confissão, de modo que quanto à questão da cessação da revelação, a ideia era chegar a uma proposição que permitisse uma diversidade de convicções. Sobre isso, Cunha afirma (p. 33):

O fato de afirmarem a singularidade da Escritura como registro especial de Deus não encerrava o assunto no sentido de estabelecer um marco final em termos de Deus se revelar, mesmo com o cânon devidamente encerrado. A singularidade da revelação, portanto, não significa modo exclusivo de manifestação. Apenas a Escritura é singular, visto que contém o depósito completo das doutrinas sobre Deus e salvação humana.

Ele tem em mente o parágrafo de abertura da Confissão, transcrito in extenso abaixo:

I. Ainda que a luz da natureza e as obras da criação e da providência manifestam de tal modo a bondade, a sabedoria e o poder de Deus, que os homens ficam inescusáveis, todavia, não são suficientes para dar aquele conhecimento de Deus e de sua vontade, necessário à salvação; por isso foi o Senhor servido, em diversos tempos e diferentes modos, revelar-se e declarar à sua Igreja aquela sua vontade; e depois, para melhor preservação e propagação da verdade, para o mais seguro estabelecimento e conforto da Igreja contra a corrupção da carne e malícia de Satanás e do mundo, foi igualmente servido fazê-la escrever toda. Isso torna a Escritura Sagrada indispensável, tendo cessado aqueles antigos modos de Deus revelar a sua vontade ao seu povo.[4]

Cunha afirma que a afirmação confessional tem como propósito se opor à tradição da Igreja Católica Romana, que afirma possuir autoridade delegada pelo próprio Cristo para estabelecer novas doutrinas. De acordo com ele, o parágrafo da Confissão em questão não trata da cessação dos dons revelacionais, mas tão somente confrontar “a tradição romanista de ser a palavra final em termos de doutrina do conhecimento de Deus e da salvação do homem” (p. 36). Isto não quer dizer, todavia, que a Sagrada Escritura seja o único modo de Deus falar ao seu povo. É o meio mais seguro, mas não o único (p. 37).

O ponto a ser destacado é que Cunha pressupõe que a preocupação da Confissão é apenas com aquilo que diz respeito à salvação do homem. Novamente, eis suas palavras (p. 37):

Em segundo lugar, ao sentenciarem que ‘isto torna indispensável a Escritura Sagrada, tendo cessado aqueles antigos modos de revelar Deus a sua vontade ao seu povo’, sobretudo no tocante a haver cessado os antigos modos de Deus revelar a sua vontade, não significa necessariamente que aqueles deputados tinham em mente que Deus só se revelaria através das Escrituras, muito menos que encerrara total e completamente suas revelações. Eles se limitam a afirmar apenas que não resta mais doutrina a ser assentada, sobretudo no tocante ao ensino quanto à salvação do ser humano, ou seja, acreditam na impossibilidade de a Escritura continuar a ser escrita.

Garnet Howard Milne[5], cuja obra foi utilizada por Cunha em sua pesquisa, questiona se os presbiterianos carismáticos dos nossos dias estão corretos ao afirmarem que “o conceito de salvação na CFW 1.1 meramente se refere a ‘revelação histórico-redentiva’, ou esta distinção entre revelação histórico-redentiva e revelação para orientação pessoal é uma falsa dicotomia?”[6] Milne argumenta convincentemente que interpretar o termo “salvação” como empregado na Confissão não é tarefa fácil,

parcialmente porque um propósito maior de uma confissão de fé é a sua capacidade de sumarizar o caminho de salvação em vez de descrever a natureza da salvação em si; parcialmente porque a CFW não apresenta nenhuma definição explícita; e parcialmente porque a terminologia “salvação” na teologia puritana era frequentemente caracterizada pela própria fluidez de significado da Bíblia e ausência de precisão no uso dessa linguagem.[7]

Milne observa ainda que uma pesquisa nos Padrões de Westminster “revela que o substantivo, as formas verbais e o conceito de ‘salvação’ aparecem muitas vezes ao longo desses documentos, mas a definição do conceito não é uniforme”.[8] Como evidência dessa afirmação creio que alguns exemplos possam ser apresentados. No Capítulo 2.1, sobre Deus e a Santíssima Trindade, salvação é entendida como perdão dos pecados e libertação da justa retribuição da ira de Deus que não inocenta o culpado. Em 3.5, sobre o Eterno Decreto de Deus, salvação é conceituada como eleição em Cristo Jesus para a glória eterna. Já no parágrafo 6 desse mesmo capítulo os elementos dessa salvação são apresentados, a saber: “santificação, justificação, obediência, santidade, adoção como filhos e boas obras”.[9] No caso, salvação compreende toda a Ordo Salutis. Milne conclui a sua investigação sobre o sentido de “salvação” na CFW afirmando: “Dentro dos capítulos da CFW nós encontramos evidência interna para uma ampla definição de salvação que transcende redenção pessoal ou salvação escatológica e que oferece ao crente benefícios que incluem bênçãos temporais”.[10]

Observemos, por exemplo, o que diz o capítulo 14, sobre a Fé Salvífica, em seu segundo parágrafo:

II. Por esta fé, o cristão, segundo a autoridade do mesmo Deus que fala em sua palavra, crê ser verdade tudo quanto nela é revelado, e age de conformidade com aquilo que cada passagem contém em particular, prestando obediência aos mandamentos, tremendo às ameaças e abraçando as promessas de Deus para esta vida e para a futura; porém, os principais atos de fé salvadora são: aceitar e receber a Cristo e descansar só nele para a justificação, santificação e vida eterna, isso em virtude do pacto da graça.[11]

Neste trecho a CFW afirma que a fé salvadora leva uma pessoa a abraçar as promessas de Deus que são cumpridas nesta vida. Por esta razão, é que mesmo que o principal e maior objetivo da salvação seja a libertação espiritual do pecado e da ira de Deus, a fé salvadora abraça promessas de assistência temporal: “Portanto, ela conjuga bênçãos ou privilégios terrenos ao conceito puritano de salvação, e assim liga libertação temporal às promessas da Escritura”.[12]

Após investigar o conceito de “salvação” na própria Confissão, Milne procede com uma exposição de como os teólogos de Westminster fizeram uso do termo em seus escritos. Ele apresenta inúmeros trechos de obras de Sydrach Simpson (1600-1655), Obadiah Sedgwick (1600-1658), William Lyford (1598-1653), William Bridge (1600-1670), Thomas Goodwin (1600-1680) e Edward Reynolds (1599-1676), apenas para citar alguns.[13] Após toda investigação feita, Milne conclui o seguinte:

“Salvação”, para o puritano, era um conceito que incluía a libertação e reforma temporal pessoal, nacional e internacional, e não estava, portanto, confinado à redenção pessoal do pecado e da ira de Deus. Foi esse conceito, tão amplamente explorado nos sermões dos divines de Westminster, que fez o seu caminho para dentro da CFW.[14]

A implicação deste pensamento é óbvia. Ora, se o conceito de “salvação” na Confissão não diz respeito unicamente à libertação do pecado e da ira de Deus, mas, em vez disso, envolve até mesmo questões relacionadas a esta vida ou ao cotidiano, então, a Confissão não ensina que cessou apenas a revelação necessária para aquele conceito de salvação.

Prova adicional de que a Confissão não ensina uma cessação parcial relacionada unicamente ao assentamento de nova doutrina essencial à salvação é o que ela ensina em outro parágrafo do capítulo 1º. Ela afirma de maneira explícita que as Sagradas Escrituras são a revelação de Deus não apenas para a salvação do homem em seu sentido redentivo pessoal, mas também para a fé e a vida do homem:

VI. Todo o conselho de Deus concernente a todas as coisas necessárias para a glória dele e para a salvação, fé e vida do homem, ou é expressamente declarado na Escritura ou pode ser lógica e claramente deduzido dela. À Escritura nada se acrescentará em tempo algum, nem por novas revelações do Espírito, nem por tradições dos homens; reconhecemos, entretanto, ser necessária a íntima iluminação do Espírito de Deus para a salvadora compreensão das coisas reveladas na Palavra, e que há algumas circunstâncias, quanto ao culto de Deus e ao governo da Igreja, comuns às ações e sociedades humanas, as quais têm de ser ordenadas pela luz da natureza e pela prudência cristã, segundo as regras da Palavra, que sempre devem ser observadas.[15]

A afirmação confessional é suficientemente clara. Não é expressamente declarado nem pode ser lógica ou claramente deduzido da Escritura todo o Conselho de Deus necessário apenas para a salvação pessoal do homem. De acordo com a Confissão, tudo aquilo que é necessário para a salvação, sim, mas também para a fé e a vida do homem está nas Sagradas Escrituras. É temerário desconectar o parágrafo 1.1 do 1.6. Aquilo que no primeiro parágrafo é afirmado de maneira generalizada é aqui afirmado em detalhes. A igreja não possui a vontade de Deus revelada apenas sobre assuntos concernentes à salvação, como afirma Cunha (p. 37). Ela possui todo o desígnio de Deus acerca de tudo aquilo que concerne à salvação, fé e vida. Tanto é assim, que logo após esta declaração, os teólogos acrescentam: “À Escritura nada se acrescentará em tempo algum, nem por novas revelações do Espírito, nem por tradições dos homens”. De acordo com a CFW, nada pode ser acrescentado à Escritura que já traz em seu escopo toda a vontade de Deus para a salvação, a fé e a vida do homem.

Chad Van Dixhoorn, erudito responsável pela edição da obra Minutes and Papers of the Westminster Assembly, em seu excelente comentário da Confissão, afirma o seguinte sobre o parágrafo 1.6:

A suficiência da Escritura se aplica a todas as questões relacionadas à nossa salvação. Não precisamos ir a nenhum outro lugar – nós não podemos ir a qualquer outro lugar – para encontrarmos o caminho da salvação. Isso também se aplica a todas as questões de fé – toda doutrina cristã deve ser derivada apenas da Bíblia. E as Escrituras também são suficientes para a vida, o que significa que, de acordo com a Assembleia de Westminster, somente a Bíblia contém a lei de Deus, bem como todos os princípios gerais aos quais temos de aderir para vivermos diante da face de Deus. A suficiência da Escritura para a vida não nega que necessitamos de constante e extensiva informação e suprimentos do mundo criado, a fim de vivermos. É claro que precisamos. A Escritura é suficiente no sentido de que nenhuma revelação especial posterior de Deus é necessária para nos guiar através da vida, além da revelação graciosamente disponível a nós na Bíblia.[16]

Também extremamente pertinente ao assunto é o comentário de Dixhoorn a respeito da cláusula “tendo cessado aqueles antigos modos de Deus revelar a sua vontade ao seu povo”:

A Bíblia também é necessária porque Deus não mais revela a si mesmo por meio de sonhos, visões e profetas. Aqueles veículos de revelação não são mais necessários e não mais funcionam. William Gouge, um patriarca puritano na Assembleia de Westminster, argumentou que “pretensão de nova luz e inspiração imediata nestes dias é uma mera pretensão”. Francis Cheynell queixou-se de pessoas, em seus dias, que muito rapidamente davam lugar na tribuna para qualquer um que havia se convencido de ter alguma interpretação espiritual da Palavra por “inspiração, sugestão ou assistência do Santo Espirito”. E George Walker, ainda outro membro da Assembleia que escreveu sobre o assunto, tinha palavras duras para homens fracos que diziam às damas para se casarem com eles por causa de alguma “pretensão de inspiração e revelação divina”. Seja por preguiça ou desespero, os homens não devem tentar empurrar uma mulher para um pouco mais perto do casamento porque “Deus disse” que eles foram feitos um para o outro.[17]

Contraste as palavras acima com a afirmação de Cunha, no sentido de que as Sagradas Escrituras, aquelas que, de acordo com a CFW contém todo o desígnio de Deus referente à salvação, fé e vida do homem, “não alcançam todas as particularidades sobre as quais um crente genuíno certamente necessitará de orientação providencial de Deus, eg.[sic] com quem se deve casar, se deve comprar determinado imóvel, ou vendê-lo, et al” (p. 149). Verifica-se, portanto, que Cunha está em descompasso com a Confissão, bem como com aquilo que os seus autores escreveram em obras próprias.

Ainda sobre este tópico algo precisa ser dito sobre a ideia de que, em razão da presença de “continuístas” entre os teólogos[18], buscou-se uma proposição que conciliasse a diversidade de opiniões a respeito da cessação ou não da revelação. Uma das principais alegações de Cunha é que os dois pastores escoceses enviados à Assembleia, Samuel Rutherford e George Gillespie, eram continuístas, homens conhecidos na Escócia como possuidores do dom de profecia. Assim, uma vez que eles estiveram presentes e exerceram grande influência na Assembleia, o ideal era buscar a acomodação das opiniões divergentes sobre o assunto.

Robert Letham, outro erudito pesquisador da Assembleia de Westminster contesta com veemência esta opinião. De acordo com ele, a questão da revelação especial não foi alvo de discórdia que demandasse uma acomodação de opiniões divergentes. De acordo com ele, houve “acordo generalizado sobre o seu conteúdo. As atas não apresentam nenhum indício de discórdia significativa. Os debates sobre o capítulo duraram um bom tempo, de S463 M 7.7.45 a S472 F 18.7.45, mas foram feitas apenas duas pequenas alterações para o relatório da comissão”.[19] Letham vai adiante e afirma que, especificamente sobre a cláusula cessacionista, “não há nenhum traço de debate sobre esta questão nas atas. Se tivesse existido qualquer um, certamente teria inflamado o interesse, visto que qualquer sugestão de continuação da revelação teria enfraquecido a polêmica protestante e reformada contra Roma e os Quakers”.[20]

E aqui nós encontramos uma informação de extrema importância para chegarmos ao entendimento correto sobre a afirmação confessional. Letham contextualiza as discussões da Assembleia como direcionadas à Igreja Romana e também aos Quakers. A fim de consubstanciar a sua tese, Cunha situa a polêmica de Westminster como direcionada única e exclusivamente à Igreja de Roma (p. 36):

No primeiro plano, vemos a preocupação dos delegados em afirmar uma espécie de contraponto à estrutura de revelação geral. É certo que a escrita bíblica visa preencher duas lacunas importantes e a primeira delas é oferecer algo de revelação especial para melhor transmitir o conhecimento detalhado de Deus e de sua vontade necessário à salvação, ou seja, que a Bíblia se opõe a qualquer teologia que não se alicerce na garantia de que a salvação do homem se dá unicamente no altar da Justiça de Cristo. Os teólogos de Westminster estavam se opondo claramente à tradição romanista das indulgências, por exemplo. Neste sentido, ninguém poderia se apresentar como portador de nova revelação divina referente à salvação humana, tendo em vista o assentamento definitivo de doutrina a respeito. Por mais que a Igreja romana alegasse autoridade, autoridade judiciosa ostenta as Escrituras que continha toda revelação no tocante à salvação humana, diziam os de Westminster. Não podemos esquecer que este capítulo confronta claramente a tradição romanista de ser a palavra final em termos de doutrina do conhecimento de Deus e da salvação do homem. A nosso ver, não trata sobre cessação dos dons de revelação, como a erudição cessacionista tem sugerido.

Não há uma única palavra a respeito dos Quakers. Isto é compreensível, uma vez que para sustentar a tese da oposição de Westminster ao assentamento de novas doutrinas para a salvação é necessário omitir qualquer referência ao misticismo quakerista. Se o problema era apenas Roma, então o a afirmação confessional tem apenas Roma em mente. Todavia, como Letham e outros estudiosos deixam claro, a preocupação dos teólogos de Westminster também era com o misticismo de grupos radicais, como os Familistas[21], os Seekers[22], os Schwenkfeldianos[23] e os Quakers. John V. Fesko, professor de Teologia Histórica e Teologia Sistemática no Westminster Seminary California, em Escondido, afirma que “é um erro pensar que a única ameaça teológica contra a fé reformada percebida na Inglaterra era a Igreja Católica Romana”.[24] De acordo com ele, a Inglaterra do século 17 era caracterizada por um pluralismo religioso que incluía “Arminianos, Anabatistas, Antinomianos, Entusiastas, Erastianos, Familistas, Brownistas, Papistas, Quakers, Socianianos e semelhantes”.[25] Garnet Milne também pontua que o ideal puritano de uma ortodoxia unificada tinha em mente todos esses grupos, que “frequentemente comprometiam o princípio protestante do Sola Scriptura, por apelarem a revelações imediatas do Espírito Santo”.[26] Falando especificamente a respeito dos Quakers, Milne assevera que eles se tornaram os mais ferrenhos oponentes do cessacionismo de Westminster, pois “acreditavam que a ortodoxia reformada cometeu um erro fundamental ao confinar a Palavra de Deus à Escritura”.[27] Milne adiciona algumas informações interessantíssimas a respeito da polêmica entre a teologia de Westminster e os Quakers:

Entretanto, posteriormente os Quakers provaram ser um desafio maior à hegemonia espiritual da ortodoxia reformada na Inglaterra, Escócia e Nova Inglaterra. Os Quakers questionaram a doutrina protestante central da unidade da Palavra e do Espírito quando argumentaram que a CFW negou, de maneira imprópria, a possibilidade de “revelações imediatas”. O próprio George Fox denunciou as reivindicações da Declaração de Savoy e da CFW de que a revelação havia cessado, o que ele havia compreendido como significando que toda revelação imediata extra bíblica fora concluída. Alguns Quakers consideravam que a CFW era apenas inconsistente a este respeito, mas quando se engajaram em debate com presbiterianos confessionais e independentes, eles passaram a crer que este era um erro fundamental. A maneira como a ortodoxia protestante respondeu sugere que os Quakers entenderam corretamente a CFW.[28]

Derek Thomas, numa avaliação semelhante do contexto religioso da Assembleia de Westminster, afirma que ao ler o primeiro parágrafo da Confissão é preciso lembrar que duas questões estão por detrás: “primeiro, a posição de Roma em reclamar a autoridade da Igreja em matéria de fé e vida; segundo, a tendência dos anabatistas de citar novas revelações do Espírito como algo normativo da fé e comportamento cristãos”.[29] A respeito dos anabatistas, Scott Thomas Murphy, em sua tese de PhD, escrita em 1985, afirma que os anabatistas podiam ser divididos em vários grupos: 1. Aqueles que enfatizavam indevidamente o Antigo Testamento; 2. Aqueles que enfatizavam indevidamente o Novo Testamento; 3. Os racionalistas, como Fausto Socino; 4. Os espiritualistas, como Thomas Münzer; e 5. Os evangelicais, representados por Menno Simons. De acordo com Murphy, “foram os espiritualistas, que separavam a Palavra e o Espírito, que mais preocupavam os teólogos de Westminster”.[30] Um dos argumentos repetidos ad nauseam por Cunha ao longo do seu livro é que não há problema em se afirmar a perpetuidade do dom de profecia e o princípio do Sola Scriptura. De acordo com ele, o verdadeiro problema é se apegar a novas revelações em detrimento da Escritura. No entanto, nem mesmo os anabatistas faziam isso de forma absoluta. Sobre isso, Murphy adiciona uma qualificação a esta afirmação sobre separação entre Palavra e Espírito:

Em vez de confiar na autoridade das Escrituras, Thomas Münzer se baseou na palavra interior. Essa palavra interior é a comunicação direta do Espírito com o crente, à parte da Escritura. Münzer usava as Escrituras apenas como uma confirmação de que as suas experiências eram as mesmas dos santos nos tempos bíblicos.[31]

É interessante que a parte destacada expressa o mesmo princípio defendido por Cunha, a saber, que as Escrituras atestam que as alegadas experiências de teólogos representativos da teologia reformada são as mesmas do período bíblico. Vê-se, portanto, que Cunha labora em erro sério quando limita o contexto da cláusula cessacionista à polêmica contra o catolicismo romano. Trata-se de um erro crasso, pois o mesmo norteia toda a sua pesquisa.

Entender o contexto religioso das discussões sobre a revelação especial que tiveram lugar na Assembleia nos permite entender não apenas o significado de “salvação” na CFW, mas também o quê exatamente cessou. A partir de diversos escritos dos delegados presentes na Assembleia é possível chegar à conclusão inequívoca de que a Confissão afirma um cessacionismo de tipo abrangente. O. Palmer Robertson, por exemplo, num artigo a respeito do Espírito Santo na Confissão de Fé de Westminster, parte do documento elaborado pela Assembleia a respeito da forma de governo da igreja de Cristo[32], e afirma que neste documento é afirmada explicitamente a cessação dos ofícios de apóstolo, evangelista e profeta. Sua conclusão é digna de nota: “Parece claro a partir dessa distinção que a Assembleia de Westminster determinou, em seus estágios mais primevos, registrar sua opinião de que os ofícios fundacionais pelos quais a revelação foi trazida à igreja, não mais funcionavam na vida da igreja”.[33] E dada a ligação entre ofícios e dons, Robertson argumenta que a ausência de um tratamento extensivo dos dons do Espírito Santo na Confissão de Westminster é um claro indicativo de que
a Assembleia sentiu ter tratado suficientemente desse assunto em seu Diretório para o Culto Público de Deus e na Forma Presbiteriana de Governo de Igreja, bem como na afirmação do capítulo de abertura da Confissão de Westminster a respeito da cessação dos dons revelacionais.[34]

O cessacionismo da Confissão de Westminster pode ser claramente percebido na maneira como quatro passagens-chave foram abordadas nos escritos dos membros que participaram da Assembleia: Efésios 1.17-18, Hebreus 1.1-2, Atos 2.17-18 e Joel 2.28. É preciso destacar, inclusive, que as duas primeiras passagens aparecem como dicta probantia da cláusula cessacionista. Milne afirma que, “todos os símbolos de Westminster usam as três citações separadas, Ef 1.17, ou 1.18 e a passagem completa de Ef 1.17-19, seis vezes como textos-prova, sempre num contexto que assume que a Palavra e o Espírito funcionam juntos no processo de ‘revelação’”.[35] É imprescindível que se destaque que os puritanos autores da Confissão utilizavam a passagem de Efésios para estabelecer uma distinção entre revelação “imediata” e “mediata”. Murphy define “revelação imediata” como “um ato ocorrendo diretamente sem a intervenção de um agente e à parte de todos os meios ou cooperação humanos”.[36] Baseando-se em escritos de puritanos como Samuel Rutherford, George Gillespie[37], Edward Reynolds, Edmund Calamy, Joseph Caryl e até mesmo William Bridge, Murphy afirma ainda que os divines usaram a palavra “imediata” para se referir a coisas tais como: “A criação do mundo a partir do nada, o efeito da graça na alma, e vozes vindas do céu”.[38] Já a revelação “mediata”, por seu turno, diz respeito à “iluminação através de alguns meios, entendida pela ortodoxia reformada como envolvendo ao menos a agência humana e as Escrituras”.[39] Para a ortodoxia de Westminster, conquanto revelação mediata fosse algo ainda existente, a revelação imediata não mais acontecia.

O puritano Anthony Burgess, por exemplo, um dos delegados presentes na Assembleia, escreveu uma série de sermões a respeito da oração sacerdotal de Jesus Cristo, em João 17. Ao longo desses sermões Burgess aborda a doutrina da Escritura negando qualquer possibilidade de profecia ou revelação imediata. Milne sumaria a exposição de Burgess em seus sermões como segue:

Não obstante outras razões para limitar a fonte da voz de Deus, ele conclui que a voz de Deus é ouvida agora apenas nas Escrituras porque Deus cessou de converter, santificar e transmitir profecia por “revelação imediata”. “Deus, que poderia converter imediatamente, Burgess insiste, “e fazer uma casa para nossos corações, como ele fez aos profetas por uma revelação imediata, levou isso embora”. A vontade de Deus deve ser buscada na Bíblia, visto que “nesta última era ele guia [a igreja] apenas pelas Escrituras”.[40]

O presbiteriano escocês David Dickson (1583-1663), contemporâneo da Assembleia de Westminster e, por isso mesmo, familiarizado com seu contexto religioso bem como com as suas discussões, em seu comentário da Confissão intitulado Praelectiones in Confessionem Fidei, posteriormente vertido para Truth’s Victory Over Error, tratou do parágrafo de abertura do seguinte modo:

Questão 3

Aqueles modos de Deus revelar a sua vontade ao seu povo cessaram?
Sim.
Deste modo, então, não estariam os Entusiastas e os Quakers errados, ao afirmarem que o Senhor não cessou de revelar a sua vontade, como ele o fez na antiguidade?
Sim.
Por quais razões eles devem ser rejeitados?
Porque Deus, que muitas vezes e de muitas maneiras, falou em tempos passados aos pais, por meio dos profetas, nestes últimos nos falou por meio de seu Filho (Hb 1:1-2). O apóstolo chama o tempo do Novo Testamento de últimos dias, porque sob o mesmo período nenhuma alteração deveria ser esperada, senão que todas as coisas estavam completas e deveriam permanecer sem adição ou mudança, como ensinadas e ordenadas por Cristo, até o último dia (veja também Jl 2:28; At 2:27). Os modos e maneiras da antiguidade eram: primeiro, pela inspiração (2 Cr 15:1; Is 59:21; 2 Pe 1:21); segundo, por visões (Nm 12:6); terceiro, por sonhos (Jó 33:14-16; Gn 40:8); quarto, pelo Urim e Tumim (Nm 27:21; 1 Sm 30:7-8); quinto, por sinais (Gn 32:24-32; Êx 12:21); sexto, por voz audível (Êx 20:1; Gn 22:15). Todos findaram com a escrita (Êx 17:14), que é o mais seguro e infalível modo do Senhor revelar a sua vontade ao seu povo.[41]

Conclusão

Há muito ainda a ser dito a respeito da obra Sob os Céus da Escócia. Até aqui foi avaliado apenas o tratamento dispensado à Assembleia de Westminster e sua Confissão. No entanto, há muitas informações que precisam receber a sua devida atenção, a fim de se evidenciar os seus muitos problemas. Acredito, porém, que as maiores dificuldades da obra estejam em associações falaciosas existentes ao longo da obra, cujo propósito nítido é, não apresentar uma proposta de diálogo entre cessacionismo e continuísmo, mas tão somente atacar aquele. Tanto é assim, que Cunha nunca se preocupou em apresentar uma definição do que é o cessacionismo. Ele apenas o menciona e o ataca, comparando-o ao ateísmo e à teologia liberal de Rudolf Bultmann.

Após este pequeno arrazoado, creio que é possível chegarmos à conclusão que, não, a Confissão de Fé de Westminster não é um documento continuísta como propõe Renato Cunha. Fica patente que tal tese aventada na obra Sob os Céus da Escócia é viciada dada a omissão – digamos que não intencional – dos conflitos entre os puritanos e grupos como os Anabatistas e os Quakers. O parágrafo de abertura da Confissão não afirma a cessação apenas de doutrinas concernentes à salvação, em oposição às reivindicações do Catolicismo Romano. A declaração confessional assevera a cessação de toda e qualquer revelação referente à salvação, fé e vida do homem. Afirmar o contrário, como faz Cunha, é laborar em erro. A conclusão de Garnet Milne é extremamente relevante para a conclusão da presente análise. Por isso a transcrevo abaixo:

Uma análise dos escritos dos teólogos de Westminster revela seu universal compromisso com um cessacionismo de um tipo bastante abrangente. Em sua exposição de textos-chave como Efésios 1.17-18, Hebreus 1.1-2 e Joel 2.28-32/Atos 2.17, uma enorme proporção dos teólogos afirma que a possibilidade de revelação posterior cessou, tanto para os propósitos de insights doutrinários como para orientação ética. Repetidamente ele contrasta o papel da Escritura com fenômenos como sonhos e visões como meios de comunicação divina, e argumentam que essas modalidades estão firmemente confinadas ao passado.[42]

A conclusão desta análise não assevera que havia unanimidade entre os teólogos. Já foi mencionado o caso de William Bridge. Também existiam exceções entre aqueles que não participaram da Assembleia, como é o caso do conhecido, amado e controverso Richard Baxter, mais conhecido pelo seu neonomismo. Na segunda parte serão consideradas as alegações de Cunha, no sentido de que Calvino, Knox, Edwards, Gillespie e Rutherford eram continuístas ou, no mínimo, tiveram uma mínima experiência com o dom de profecia.


[1] Brian D. McLaren. A Mensagem Secreta de Jesus: Desvendando a Verdade que Poderia Mudar Tudo. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2006. p. 294.

[2] Deve-se salientar que Charles Spurgeon não é elencado na obra em tela. No entanto, é certo que o autor o insere dentro da linha continuísta, o que pode ser aferido em várias das suas postagens do Facebook. <https://www.facebook.com/permalink.php?story_fbid=781465661976465&id=744828272306871>.

[3] No caso específico, a nota de rodapé correspondente (nº 13) traz apenas a seguinte informação: “op. cit. p. 30”, sem nenhuma indicação de autoria. O que torna a identificação complicada é o fato de que as duas notas anteriores são, respectivamente: “12 Anote-se que é o mesmo comentário feito por Calvino” e “11 RIBEIRO, Boanerges. O Culto em Corinto e o Nosso Culto. São Paulo: O Semeador, 1992. p. 17-18”. O mais provável é que se trate da obra de William Berends, citada na nota de rodapé nº 10.

[4] A Confissão de Fé de Westminster. I.1. São Paulo: Cultura Cristã, 2003. p. 15. Ênfase acrescentada.

[5] A obra de Garnet Milne receberá grande atenção nesta crítica, uma vez que, como afirma o próprio Cunha, trata-se de “um brilhante trabalho de levantamento histórico-contextual” (p. 31). Além dele, Kevin DeYoung reputa a obra de Milne como “indubitavelmente, o melhor livro sobre cessacionismo no primeiro século da tradição reformada”. Cf. Kevin DeYoung. “The Puritans, Strange Fire, Cessationism, and the Westminster Confession”. <http://blogs.thegospelcoalition.org/kevindeyoung/2013/10/18/the-puritans-strange-fire-cessationism-and-the-westminster-confession/>. Acessado em 10/12/2015.

[6] Garnet Howard Milne. The Westminster Confession of Faith and the Cessation of Special Revelation: The Majority Puritan Viewpoint on Whether Extra-Biblical Prophecy is Still Possible. Eugene, OR: Wipf & Stock Publishers, 2007. p. 77.

[7] Ibid. pp. 77-78.

[8] Ibid. p. 78.

[9] Ibid. p. 79.

[10] Ibid. p. 80.

[11] A Confissão de Fé de Westminster. XIV.2. p. 115.

[12] Garnet Howard Milne. The Westminster Confession of Faith and the Cessation of Special Revelation: The Majority Puritan Viewpoint on Whether Extra-Biblical Prophecy is Still Possible. p. 81.

[13] Ibid. pp. 82-98.

[14] Ibid. p. 98.

[15] A Confissão de Fé de Westminster. I.6. p. 21. Ênfase acrescentada.

[16] Chad Van Dixhoorn. Confessing the Faith: A Reader’s Guide to the Westminster Confession of Faith. Edinburgh, UK: The Banner of Truth Trust, 2014. p. 17.

[17] Ibid. pp. 6-7.

[18] De acordo com Joel R. Beeke, William Bridge era uma “surpreendente exceção” entre os cessacionistas da Assembleia. Cf. o prefácio de: Garnet Howard Milne. The Westminster Confession of Faith and the Cessation of Special Revelation: The Majority Puritan Viewpoint on Whether Extra-Biblical Prophecy is Still Possible. p. xiii.

[19] Robert Letham. The Westminster Assembly: Reading its Theology in Historical Context. Phillipisburg, NJ: Presbyterian and Reformed Publishing, 2009. p. 120.

[20] Ibid. p. 127.

[21] Grupo também conhecido como “Família do Amor”, estabelecido na Europa em cerca de 1540. Este grupo seguia os ensinamentos do espiritualista holandês Henry Nicholas, que tinha como ideal o estabelecimento do perfeito amor sobre a terra.

[22] Designação de vários pequenos grupos surgidos no início do século 17 e que, posteriormente, dariam origem aos Quakers. Os Seekers procuravam por uma nova igreja, crendo que todas as igrejas da época haviam se corrompido. As reuniões dos Seekers eram conduzidas, com frequência, em silêncio, falando apenas quando se sentiam inspirados pelo Espírito Santo.

[23] Seguidores de Kaspar Schwenkfeld von Ossig (1490-1561), um teólogo alemão que abandonou os ideais da Reforma. Schwenkfeld, antecipando uma ênfase dos Quakers, fez uma distinção entre a palavra exterior das Sagradas Escrituras e a palavra espiritual interior falada pelo Espírito Santo.

[24] J. V. Fesko. The Theology of the Westminster Standards. Wheaton, IL: Crossway 2014. p. 54.

[25] Ibid. p. 55.

[26] Garnet Howard Milne. The Westminster Confession of Faith and the Cessation of Special Revelation: The Majority Puritan Viewpoint on Whether Extra-Biblical Prophecy is Still Possible. p. 40.

[27] Ibid. p. 165.

[28] Ibid. p. 167. Ênfase acrescentada.

[29] Derek W. Thomas. A Visão Puritana das Escrituras: Uma Análise do Capítulo de Abertura da Confissão de Fé de Westminster. São Paulo: Os Puritanos, 1998. p. 20.

[30] Scott Thomas Murphy. The Doctrine of Scripture in the Westminster Assembly. Tese de Doutorado (PhD). Madison, NJ: Drew University, 1985. p. 20.

[31] Ibid.

[32] Trata-se do The Form of Presbyterial Church-Government and of the Ordination of Ministers, concluído em 1645, quatro anos antes da conclusão da Confissão.

[33] O. Palmer Robertson. “The Holy Spirit in the Westminster Confession”. In: Ligon Duncan (Ed.). The Westminster Confession into the 21st Century. Vol. 1. Christian Focus Publications, 2003. p. 96.
[34] Ibid. p. 94.

[35] Garnet Howard Milne. The Westminster Confession of Faith and the Cessation of Special Revelation: The Majority Puritan Viewpoint on Whether Extra-Biblical Prophecy is Still Possible. p. 113.

[36] Scott Thomas Murphy. The Doctrine of Scripture in the Westminster Assembly. p. 47.

[37] Tanto os casos de Samuel Rutherford como George Gillespie serão abordados na segunda parte desta crítica. Para o momento, é suficiente dizer que Cunha tem manifestado uma opinião dogmática em relação a uma discussão que está longe de ser resolvida, haja vista que os dois escoceses mencionados fizeram diversas afirmações de caráter ambíguo.
[38] Ibid. pp. 42-47.

[39] Garnet Howard Milne. The Westminster Confession of Faith and the Cessation of Special Revelation: The Majority Puritan Viewpoint on Whether Extra-Biblical Prophecy is Still Possible. p. 114.

[40] Ibid.

[41] David Dickson. Truth’s Victory Over Error: A Commentary on the Westminster Confession of Faith. Edinburgh, UK: The Banner of Truth Trust, 2007. pp. 3-4.

[42] Garnet Howard Milne. The Westminster Confession of Faith and the Cessation of Special Revelation: The Majority Puritan Viewpoint on Whether Extra-Biblical Prophecy is Still Possible. p. 145.