1509725595914942
Mostrando postagens com marcador Biografia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Biografia. Mostrar todas as postagens

12 de jul. de 2015

João Ferreira de Almeida: O Tradutor da Bíblia para o Português



A grande maioria dos evangélicos do Brasil associa o nome de João Ferreira de Almeida às Escrituras Sagradas. Afinal, é ele o autor (ainda que não o único) da tradução da Bíblia mais usada e apreciada pelos protestantes brasileiros. Disponível aqui em duas versões publicadas pela Sociedade Bíblica do Brasil — a Edição Revista e Corrigida e a Edição Revista e Atualizada — a tradução de Almeida é a preferida de mais de 60% dos leitores evangélicos das Escrituras no País.

Se a tradução de Almeida é largamente conhecida, o mesmo não se pode dizer a respeito do autor. Pouco, ou quase nada, se tem falado e escrito a respeito dele. Almeida nasceu por volta de 1628, em Torre de Tavares, Portugal, e morreu em 1691, na cidade de Batávia (atual ilha de Java, Indonésia). O que se conhece da vida de Almeida está registrado na “Dedicatória” de um de seus livros e nas atas dos presbitérios de Igrejas Reformadas (calvinistas) do Sudeste da Ásia, para as quais trabalhou como pastor, missionário e tradutor, durante a segunda metade do século XVII.

9 de mar. de 2015

José Manuel da Conceição


Por Franklin Ferreira

Nos séculos XVI e XVII, houve duas tentativas para estabelecer colônias protestantes no Brasil, mas o protestantismo brasileiro se originou de um duplo avanço: a imigração estrangeira, de anglicanos ingleses, luteranos alemães e reformados suíços, e a vinda de missionários ingleses e americanos. O protestantismo começou a ser implantado de fato no Brasil com a chegada de um missionário congregacional, o escocês Robert Reid Kalley, ao Rio de Janeiro, em 1855. E o primeiro missionário presbiteriano a chegar ao Brasil foi Ashbel Green Simonton, em 1859. Seu cunhado, Alexander Blackford, chegou em 1860, e Francis Schneider em 1861. Todos eles foram enviados pelas igrejas presbiterianas do norte dos Estados Unidos (PCUSA). Em pouco tempo, já havia igrejas presbiterianas no Rio de Janeiro e em São Paulo, e em 1870 foi fundada o que hoje é uma das mais importantes universidades brasileiras, a Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo.

Mais tarde, chegaram missionários metodistas (em 1867) e batistas (em 1881) ao Brasil. Em 1865, foi ordenado o primeiro ministro evangélico brasileiro, José Manoel da Conceição.

6 de mar. de 2015

Charles Spurgeon: O Pregador do Povo

Por Samanta Gama

“Olhai para mim e sedes salvos, vós, todos os confins da terra”

Isaías 45:22

Foi através deste simples, mas profundo versículo da palavra de Deus que impulsionou um dos mais jovens e influentes pregadores do século XIX - Charles Haddon Spurgeon - a levar as boas novas para o povo.

Aproveitei o tempo de um repouso pós-cirurgia para assistir um documentário fantástico sobre a vida desse jovem pregador. O documentário “Charles Spurgeon, o Pregador do Povo” conta a trajetória dos 40 anos do ministério de Spurgeon,: inglês, batista e calvinista, que pregou o evangelho de forma democrática, i.é, falando do amor de Cristo de maneira acessível e profunda para as diferentes idades, classes e culturas, resultando no  alcance de milhares de pessoas que escutaram, meditaram e praticaram o evangelho.

Foi um período curto: 1 hora e 9 minutos, muito pouco para descrever o agir de Deus nesse homem e falar de sua inteligência de interligar as Escrituras à sua prática no dia a dia. O que mais chamou a atenção foi sua devoção a Palavra, seu temor a Deus e sua responsabilidade de levar o evangelho. Spurgeon sempre se preocupava para que o orgulho não subisse a sua cabeça no perído avivalístico da igreja protestante na Ingleterra. 

Começar a pastorear uma igreja, saindo da fase adolescente, ao meu ver, parece impossível nos dias de hoje. Digo pastorear com as Escrituras e aplicações ortodoxas. Sei que existem várias pseudo igrejas que possuem pregadores mirins. todavia, estão baseados em achismos ou doutrinas encabeçadas mais por filosofias. Começar jovem com apenas 19 anos, em uma igreja localizada no polo industrial e de maior crescimento da Inglaterra não foi tarefa fácil para Spurgeon, pois, além da saudade do ritmo campestre do povoado próximo a Cambrigde, de seu sotaque forte e suas pregações de linguagem acessível que colidiam com as pregações com tom mais acadêmico do que popular. Apesar disso tudo, o Pregador do Povo teve como seu maior desafio, falar de Cristo em uma sociedade que vivia próspera pelos avanços nas criações de maquinários que aumentavam a produção nas indústrias com baixo custo, alcançando bons lucros e, principalmente,  alertar a igreja da convicção de fé firmada em Cristo através da leitura e prática das Escrituras, de seu posicionamento de servo e filho de Deus, da plenitude da graça do Pai confrontando as diversas conceituações e teorias como o homem biológico-evolucionista (Darwin), o homem existencial (Kierkegaard), o homem econômico (Marx) e o homem instintivo (Freud). 

Não vou resumir o documentário. Acho interessante que vejam e retirem aprendizado com a ousadia desse nobre homem que até hoje deixou marcas de seu legado na história da igreja e também na área social. Vale muito a pena conferir! 

"Sou apenas alguém que ouve a voz do Mestre e fala o que ouve".

Charles Haddon Spurgeon

Eis o documentário:

2 de fev. de 2015

Agostinho, Bispo de Hipona

Por Iain Murray

Agostinho, filho de um oficial romano, nasceu em Tagaste, no norte da África, em 354. Dotado de brilhantes talentos, profundamente motivado pela vanglória e pelo desejo de ser louvado, aos 19 anos ele estudava e ensinava retórica na antiga cidade de Cartago. Com sua mente voltada à busca da sabedoria humana e seu coração cativo aos prazeres do pecado, permaneceu ali desperdiçando o melhor de sua vida. Ai, ai!, escreveu mais tarde, aqueles passos me conduziram às profundezas do inferno! Labutando e desgastando-me por falta da verdade!  Os vários sistemas filosóficos de pensamento que ocupavam a atenção de Agostinho apenas o conduziam mais profundamente ao labirinto do erro. Com 31 anos de idade, o desespero mental e a angústia de coração levaram-no a adotar as dúvidas dos acadêmicos, os quais acreditavam que nada era certo. Eu estava sobrecarregado com as mais inquietantes preocupações, receando que morreria sem descobrir a verdade. Ora, nesse caminho, a consciência de pecado começou a atormentá-lo. Tomado por medo e vergonha, profundamente consciente de que o pecado havia corrompido sua mente e escravizado sua vontade, Agostinho passou a odiar a si mesmo.

Ele não percebia que um vaso de misericórdia estava sendo formado; que um servo de Cristo estava sendo criado e que ele seria, por meio da graça divina, um dos mais poderosos defensores da verdade outorgada por Deus à sua igreja. Aconteceu que, no ano de 386, em um jardim de Milão, uma voz soou em seus ouvidos, como que vinda do céu, ordenando-lhe que lesse a Bíblia. Tu me chamaste, gritaste e rompeste minha surdez.. Abrindo a Palavra de Deus em Romanos 13.13-14, Agostinho disse: Uma luz de serenidade infundiu-se em meu coração, e as densas trevas que flutuavam em meus olhos dissolveram-se em um instante. Tua voz poderosa disse: Haja luz, e houve luz... Desse momento em diante, Agostinho, profundamente humilhado, tinha apenas um ardente desejo: amar e servir seu Salvador. Não tenho qualquer prazer, exceto aquele que resulta de falar, ouvir, escrever, pregar e envolver me constantemente na meditação do Senhor e de sua glória. Era o momento designado por Deus para levantar seu servo.

Era uma época carregada de motivos para causar alarme e incitar temor. A igreja de Cristo estava sendo ameaçada por erros internos, enquanto externamente a queda do Império Romano trazia confusão, invasão de bárbaros, séculos de desordem e trevas sobre a Europa. Nos anos que seguiram à conversão de Agostinho, nós o vemos sendo transformado em um instrumento para o propósito de Deus. Dia a dia, ano após ano, ele foi completamente absorvido pela Palavra de Deus. Com freqüência, ele a estudava no meio da madrugada, aprendendo-a sobre seus joelhos, alimentando-se incansavelmente de seu conteúdo. Verdades fundamentais estavam sendo gravadas em sua alma, verdades da Palavra de Deus que deveriam brilhar durante as eras futuras da igreja.

No início do ano de 392, as orações do idoso Valério, bispo de Hipona, em favor de outro pastor para seu rebanho, foram respondidas com a vinda de Agostinho para assumir o seu lugar. Ali, Agostinho foi ordenado presbítero, aos 39 anos de idade e, posteriormente, torno use bispo. Infelizmente, para a igreja, estava desaparecendo a igualdade estabelecida pelos apóstolos entre presbíteros e bispos. Embora o ofício de bispo em Roma começasse a associar-se a uma arrogância de senhorio e à presunção sacerdotal, isto não acontecia em Hipona, no norte da África. Agostinho, como bispo de Hipona, tinha muitas coisas em comum com seus irmãos crentes e jamais se colocou em posição de destaque. Ao morrer, não deixou qualquer herança; em vida, não apenas repartiu o que tinha com todos, mas chegou a derreter vasos de prata da igreja por amor aos pobres. Do púlpito, ele implorava de forma surpreendente aos homens. Sua fonte de autoridade era a Palavra de Deus, a qual ele tratava com a mais profunda reverência. Oh! maravilhosa profundidade da tua Palavra! - ele exclamou - em certa ocasião, enquanto pregava, cujas verdades, nós, pequeninos, podemos ver com facilidade; apesar disso, há uma maravilhosa profundidade, ó meu Deus, uma maravilhosa profundidade! Ao final de sua vida, este ministro apostólico declarou: Ainda que tenhamos capacidade e diligência para estudar durante a vida inteira, desde a infância à velhice, somente as Sagradas Escrituras, elas possuem tanta consistência e abundância de verdades, que todos os dias poderemos aprender algo que não sabíamos. Agostinho pregava do profundo de seu coração, e seu intenso amor pelas almas fê-lo sentir um grande desejo de pregar a seus ouvintes para levá-los a Cristo. Ele havia aprendido, em sua vida diária, a olhar tão intensamente para Cristo, que toda sua pregação a respeito de outros assuntos reduziu-se a quase nada.

Ó amor indescritível, ele costumava clamar, que levou Deus, em carne, a morrer pelo homem; se o homem não tivesse sido comprado por tão elevado preço, inevitavelmente sofreria a eterna condenação. Agostinho se absteve da sabedoria de palavras e pregou uma mensagem veemente, direta, sem rodeios, freqüentemente trazendo seus ouvintes às lágrimas.

Quais eram as doutrinas ensinadas por esse homem piedoso?

Deus o levantou para falar contra quais erros? Ninguém deve afirmar que a antiguidade dos escritos de Agostinho prejudicam a utilidade deles. O mundo, disse ele, com sua glória e grandeza, logo perecer à, mas a verdade de Deus permanece, eterna e imutável. Da mesma forma, embora o erro apareça em incontáveis formas, a base sobre a qual ele está alicerçado é a mesma em todas as épocas. De fato, é verdade que as doutrinas que Agostinho expôs fundamentado nas Escrituras possuem importância tão grande, que ignorá-las nos torna incapazes de julgar as questões vitais de nossos dias. Portanto, o erro ao qual ele se opôs permanece até hoje com efeitos devastadores na igreja.

A heresia jamais surge com a aparência de heresia. Na época de Agostinho, ela surgiu através de um homem chamado Pelágio, aparentemente sem culpa, modesto, que praticava a mortificação e com zelo exortava os outros a seguirem o exemplo de Cristo. O ensinamento desse homem era tão sutil e ambíguo, que passou despercebido perante um concílio de bispos da Palestina. Foi deixada para Agostinho a responsabilidade de expor os alicerces do pelagianismo. Através de muitos anos de provações e humilhações, Deus o preparou para essa tarefa. A raiz do ensino pelagiano estava errada em sua visão da natureza do homem. Pelágio dizia que o homem não estava numa condição de pecado original e possuía o livre-arbítrio, assim como Adão antes da queda. O pecado não é herdado por natureza e sim pelo exemplo. Portanto, na salvação, a graça de Deus não é um poder interior que renova a natureza corrompida e restaura a vontade pecaminosa do homem, trazendo-a à liberdade, mas, ao invés disso, a graça de Deus é algo externo, que nós podemos receber, se assim decidirmos. Pelágio afirmava que a graça de Deus era oferecida a todos igualmente e, portanto, era a escolha do homem que determinava se a graça seria recebida ou não. Em resumo, o pelagianismo é uma crença de que a salvação é o resultado da cooperação entre Deus e o pecador.

O que levou Agostinho a contender tão firmemente contra afirmações como essas? Ele não era o tipo de homem que entraria em controvérsia por causa de assuntos não-essenciais, pois o espírito de controvérsia era algo bastante diferente de seu terno amor para com todos. Sua única preocupação no mundo era a glória de Deus através da sua igreja; mas Agostinho sabia que a segurança da igreja reside na preservação da verdade, e estava disposto a denunciar o pelagianismo como um erro pernicioso. O grande pecado do pelagianismo , declarou Agostinho, .é fazer o homem esquecer-se por que ele é um crente. Defendendo as Escrituras, Agostinho afirmou que a conversão do pecador resulta apenas da eleição gratuita da parte de Deus e que a razão pela qual Ele chama alguns e rejeita outros reside inteiramente em sua vontade inescrutável. Em sua obra .Concerning the Predestination of the Saints. (A Predestinação dos Santos), Agostinho escreveu o seguinte: Para que ninguém diga, minha fé ou minha justiça me distingue dos demais, o grande apóstolo dos gentios pergunta: O que tendes que não recebestes? A fé, portanto, desde seu princípio até à sua perfeição, é um dom de Deus. Entretanto, o motivo da fé não ser dada a todos, não deve preocupar o crente, pois este sabe que todos, por causa do pecado de um só homem, estão debaixo da mais justa condenação. A razão por que Deus livra uma pessoa de sua condenação e não a outra, está em seus próprios e inescrutáveis juízos. E, se perguntamos por que o receptor da fé é considerado digno por Deus para receber tal dom, acharemos aqueles que dirão: É por escolha humana. Mas nós afirmamos que é pela graça; ou seja, pela divina predestinação. Seguindo as Escrituras, Agostinho demonstrou que a eleição é a causa primária de tudo e mostrou como é absurdo afirmar que a fé prevista por Deus é a causa da eleição. Paulo não declara que os filhos de Deus foram escolhidos porque Ele previu que creriam, mas para que pudessem crer.

Deus não nos escolheu porque nós cremos, mas para que crêssemos; para não parecer que fomos nós quem primeiro O escolhemos. Paulo assevera com clareza que, desde o princípio da humanidade, ser santo é fruto da eleição. Aqueles que colocam a eleição depois da fé agem, portanto, de forma bastante absurda. Quando Paulo apresenta o beneplácito que Deus teve em Si mesmo como a causa da eleição, ele exclui todas as outras possíveis causas.

Os adversários de Agostinho reivindicaram que a autoridade da igreja estava contra suas doutrinas, e ele replicou que, antes da heresia de Pelágio, os pais da igreja primitiva não manifestavam suas opiniões profundas sobre a predestinação, e sua resposta era correta. E acrescentou: Qual a necessidade de examinar as obras daqueles escritores que, antes de surgir a heresia de Pelágio, não sentiram qualquer necessidade de se expressarem sobre essa questão? Se esta necessidade tivesse surgido e se houvessem sido compelidos a responder aos inimigos da predestinação, sem dúvida, eles o teriam feito. O que me compeliu a defender as passagens das Escrituras onde a predestinação é claramente ensinada? O que me estimulou foi o aparecimento dos pelagianos dizendo que recebemos a graça de Deus quando nos tornarmos dignos dela.

Não podemos falar agora sobre a maneira como a controvérsia pelagiana foi resolvida, sobre o modo como o Concílio de Éfeso condenou as posições de Pelágio, em 431, sobre como o piedoso bispo de Hipona, cheio de amor por Cristo, labutou até ao seu último suspiro e como ele morreu três meses antes da guarda romana em Hipona ser vencida pela invasão bárbara. E não há espaço para discorrer a respeito das lições que podemos aprender da vida desse homem, a não ser esta que salientamos: a vida de Agostinho desaprova, de uma vez por todas, a objeção de que a fé na predestinação eterna da parte de Deus é inconsistente com o zelo na pregação e no evangelismo. Agostinho escreveu: Eles dizem que a doutrina da predestinação é inimiga da pregação e que não traz qualquer benefício. É como se ela fosse inimiga da pregação do apóstolo. O excelente apóstolo aos gentios freqüentemente exaltou a predestinação e, apesar disso, jamais deixou de pregar a Palavra de Deus. Pois, assim como a piedade deve ser pregada, para que Deus seja verdadeiramente adorado, assim também deve acontecer à predestinação. Aquele que tem ouvidos para ouvir glorie-se na graça de Deus, no próprio Deus, e não em si mesmo.

O mundo de Agostinho passou, mas os erros que temos de combater não. Eles foram poderosamente reavivados no arminianismo, no século XVII; e, em nossos dias, os mesmos erros (este grande pecado, como o chamou Agostinho), têm se espalhado pela igreja visível. Deus pronunciou um solene anátema contra aqueles que buscam desfazer a sua obra, ao edificarem sobre aquilo que Ele destruiu (Js 6. 26). Ao encerrar este artigo, consideremos atentamente as palavras de Richard Sibbes, teólogo de Cambridge:

A heresia de Pelágio foi condenada ao inferno pelos antigos concílios. Os vários concílios realizados na África e diversos sínodos, nos quais o próprio Agostinho esteve presente, condenaram a heresia de Pelágio. Hoje não existem homens que querem ressuscitar estas heresias? Nada podemos esperar, exceto a maldição que prevalece quando homens reavivam heresias que Deus condenou. Elas são opiniões amaldiçoadas pela igreja de Deus, que até agora tem sido guiada pelo Espírito Santo. Tais opiniões, penso eu, que falam levianamente sobre a graça de Deus e promovem o poder do livre-arbítrio, fazem deste um ídolo; por isso, estão debaixo de condenação e, por natureza, são inimigas da graça de Deus.
_________________________
Fonte: Ministério Fiel

29 de nov. de 2014

David Brainerd: Um Coração Quebrantado

Por Jonathan Edwards



Em algum tempo, no começo do inverno de 1738, agradou a Deus, em um sábado pela manhã, quando eu partia para cumprir meus deveres secretos, dar-me, de repente, um tal senso de meu perigo e da sua ira que fiquei admirado, e logo desapareceram minhas confortáveis disposições anteriores. Diante da visão que tive de meu pecado e vileza, fiquei muito aflito durante todo aquele dia, temendo que a vingança de Deus em breve me alcançaria. Senti-me muito abatido, mantendo-me solitário; cheguei a invejar a felicidade das aves e dos quadrúpedes, pois não estavam sujeitos àquela miséria eterna, como evidentemente eu via que estava sujeito. E assim ia vivendo dia a dia, freqüentemente em grande aflição. As vezes parecia que montanhas obstruíam minhas esperanças de misericórdia e a obra de conversão parecia tão grande que pensei que nunca seria o objeto dela. No entanto, costumava orar, clamar a Deus e realizar outros deveres com grande ardor; assim esperava, por alguns meios, melhorar a minha situação.

Por centenas de vezes renunciei a todas as pretensões de qualquer valor em meus deveres, ao mesmo tempo em que os realizava; e com freqüência confessei a Deus que eu nada merecia pelos melhores deles, a não ser a condenação eterna; ainda assim tinha uma esperança secreta de recomendar-me a Deus mediante os meus deveres religiosos. Quando orava emotivamente e meu coração, em alguma medida, parecia enternecer-se, esperava que, por causa disso, Deus teria piedade de mim. Nessas ocasiões, havia alguma aparência de bondade em minhas orações, e eu parecia estar lamentando pelo pecado. Em alguma medida aventurava-me na misericórdia de Deus em Cristo, como eu pensava, ainda que o pensamento preponderante, o alicerce de minha esperança, era alguma imaginação de bondade em meu enternecimento de coração, no calor de meus afetos e na extraordinária dilatação de minhas orações.

Havia momentos em que a porta me parecia tão estreita que eu via como impossível entrar; mas noutras ocasiões lisonjeava-me, dizendo que não era assim tão difícil, e esperava que, por meio da diligência e da vigilância, acabaria conseguindo. Algumas vezes, depois de muito tempo em devoções e em forte emoção, achava que tinha dado um bom passo na direção do céu e imaginava que Deus fora afetado assim como eu, e ouviria tais sinceros clamores, como eu os chamava. E assim, por várias vezes, quando me retirava para oração secreta, em grande aflição, eu voltava confortado; e desta forma procurava curar a mim mesmo com meus deveres.

Certa ocasião, em fevereiro de 1739, separei um dia para jejum e oração secretos, e passei aquele dia em clamores quase incessantes a Deus, pedindo misericórdia, para que Ele me abrisse os olhos para a malignidade do pecado e para o caminho da vida, por meio de Jesus Cristo. Naquele dia, Deus agradou-se em fazer para mim notáveis descobertas em meu coração. No entanto, continuei confiando na prática dos meus deveres, embora não tivessem nenhuma virtude em si, não havendo neles qualquer relação com a glória de Deus, nem tal princípio em meu coração. Contudo, aprouve a Deus, naquele dia, fazer de meus esforços um meio para mostrar-me, em alguma medida, minha debilidade.

Algumas vezes eu era grandemente encorajado e imaginava que Deus me amava e se agradava de mim, e pensava que em breve estaria completamente reconciliado com Deus. Mas tudo isto estava fundamentado em mera presunção, surgindo da ampliação nos meus deveres, ou do calor das afeições, ou de alguma boa resolução, ou coisas similares. E quando, às vezes, grande aflição começava a surgir baseada na visão da minha vileza e incapacidade de livrar a mim mesmo de um Deus soberano, então costumava adiar a descoberta como algo que não podia suportar. Lembro-me que, certa vez, fui tomado por uma terrível dor de aflição de alma; a idéia de renunciar a mim mesmo, permanecendo nu diante de Deus, despido de toda bondade, foi tão temível para mim que estive pronto a dizer, como Félix disse a Paulo: "Por agora podes retirar-te" (Atos 24.25).

Assim, embora diariamente anelasse por uma maior convicção de pecado, supondo que tinha de perceber mais do meu temível estado para que pudesse remediá-lo, quando as descobertas do meu ímpio coração foram feitas, a visão era tão aterradora, e mostrava-me tão cristalinamente minha exposição à condenação, que não podia suportá-la. Eu constantemente esforçava-me por obter quaisquer qualificações que imaginava que outros obtiveram antes de receberem a Cristo, a fim de recomendar-me ao seu favor. De outras vezes, sentia o poder de um coração empedernido e supunha que o mesmo tinha de ser amolecido antes que Cristo me aceitasse; e quando sentia quaisquer enternecimentos de coração, então esperava que daquela vez a obra estivesse quase feita. E, portanto, quando a minha aflição permanecia, eu costumava murmurar contra a maneira como Deus lidava comigo, e pensava que quando outros sentiam seus corações favoravelmente amolecidos, Deus mostrava-lhes sua misericórdia para com eles; mas a minha aflição ainda permanecia.

Às vezes ficava desleixado e preguiçoso, sem quaisquer grandes convicções de pecado, e isso por considerável período de tempo; mas depois de tal período, algumas vezes as convicções me assediavam mais violentamente. Lembro-me de certa noite em particular, quando caminhava solitariamente, que delineou-se diante de mim uma tal visão de meu pecado, que temi que o solo se abrisse debaixo de meus pés e se tornasse a minha sepultura, mandando minha alma rapidamente ao inferno, antes que eu pudesse chegar em casa. Forçado a recolher-me ao leito para que outras pessoas não viessem a descobrir minha aflição de alma, o que eu muito temia, não ousei dormir, pois pensava que seria uma grande maravilha se eu não amanhecesse no inferno. Embora minha aflição às vezes fosse tão grande, todavia eu temia muito a perda de convicções, e de retroceder a um estado de segurança carnal e à minha anterior insensibilidade da ira iminente. Isto fazia-me extramente rigoroso em meu comportamento, temendo entravar a atuação do Santo Espírito de Deus.

Quando, a qualquer momento, eu examinava minhas próprias convicções, julgando-as consideravelmente fortes, acostumei-me a confiar nelas. Mas essa confiança, bem como a esperança de em breve fazer alguns avanços notáveis na direção do meu livramento, tranquilizava minha mente e logo tornava-me insensível e remisso. Mas de novo, quando notava que as minhas convicções estavam fenecendo, julgando que estavam prestes a abandonar-me, imediatamente me alarmava e afligia. Algumas vezes esperava dar uma larga passada, avançando muito na direção da conversão, por meio de alguma oportunidade ou meio particular que tinha em vista.

Os muitos desapontamentos, as grandes aflições e perplexidades que experimentei deixavam-me em uma horrenda disposição de conflito com o Todo-Poderoso; e com veemência e hostilidade interiores achava falhas em suas maneiras de tratar com a humanidade. Meu coração iníquo por muitas vezes desejava algum outro caminho de salvação que não fosse por Jesus Cristo. Tal como um mar tempestuoso, com meus pensamentos confusos, eu costumava planejar maneiras de escapar da ira de Deus por alguns outros meios. Eu traçava projetos estranhos, repletos de ateísmo, planejando desapontar os desígnios e decretos divinos a meu respeito ou de escapar de sua atenção e ocultar-me dEle.

Mas ao refletir vi que estes projetos eram vãos e não me serviriam, e que eu nada poderia criar para meu próprio alívio; isso jogava minha mente na mais horrenda atitude, desejando que Deus não existisse, ou desejando que houvesse algum outro deus que pudesse controlá-Lo. Tais pensamentos e desejos eram as inclinações secretas do meu coração, por muitas vezes atuando antes que pudesse dar-me conta delas. Infelizmente, porém, elas eram minhas, embora ficasse aterrorizado quando meditava a respeito delas. E quando refletia, afligia-me pensar que meu coração estivesse tão cheio de inimizade contra Deus; e estremecia, temendo que sua vingança subitamente caísse sobre mim.

Antes costumava imaginar que meu coração não era tão mau quanto as Escrituras e alguns outros livros o descreviam. Algumas vezes, esforçava-me dolorosamente para moldar uma boa disposição, uma disposição humilde e submissa; e esperava houvesse alguma bondade em mim. Mas, de súbito, a idéia da rigidez da lei ou da soberania de Deus irritava tanto a corrupção do meu coração, o qual eu tanto vigiara e esperava ter trazido à uma boa disposição, que tal corrupção rompia todas as algemas, e explodia por todos os lados, como dilúvios de águas quando desmoronam uma represa.

Sensível à necessidade de profunda humilhação a fim de ter uma aproximação salvadora, empenhava-me por produzir em meu próprio coração as convicções exigidas por tal humilhação, como, por exemplo, a convicção de que Deus seria justo se me rejeitasse para sempre, e que se Ele concedesse misericórdia a mim, seria pura graça, embora primeiro eu tivesse de estar aflito por muitos anos e muito atarefado em meu dever, e que Deus de modo algum estava obrigado a ter piedade de mim, por todas as minhas obras, clamores e lágrimas passadas.

Eu me esforçava ao máximo para trazer-me a uma firme crença nessas coisas e a um assentimento delas de todo o coração. E esperava que agora eu estaria livre de mim mesmo, verdadeiramente humilhado, e prostrado diante da soberania divina. Estava inclinado a dizer a Deus, em minhas orações, que agora tinha exatamente essas disposições de alma que Ele requeria, com base nas quais Ele mostrara misericórdia para com outros, e alicerçado nisto implorar e pleitear misericórdia para mim. Porém, quando não achava alívio e continuava oprimido pelo pecado e pelos temores da ira, minha alma entrava em tumulto, e meu coração rebelava-se contra Deus, como se Ele estivesse me tratando duramente.

Mas então minha consciência insurgia-se, fazendo-me lembrar de minha última confissão a Deus de que Ele era justo ao me condenar. E isso, dando-me uma boa visão da maldade de meu coração, jogava-me novamente em aflição; desejava ter vigiado mais de perto meu coração, impedindo-o de rebelar-se contra a maneira como Deus estava me tratando. E até mesmo chegava a desejar não ter pedido misericórdia com base em minha humilhação, porque, desse modo, perdera toda a minha aparente bondade. Assim, por muitas vezes inutilmente imaginava que estava humilhado e preparado para a misericórdia salvadora.

24 de nov. de 2014

Francis Schaeffer: "Levando Cativo todo o Pensamento"

Por Franklin Ferreira

A crença prevalecente na segunda metade do século 20 é que o homem está morto — e o próprio Deus também morreu. A vida se tornou uma existência sem significado, e o homem não passa de uma roda na engrenagem cósmica. O único escape passa por um mundo de vazio existencial, drogas, absurdo, pornografia e loucura. Mas, a responsabilidade da igreja não é apenas confessar as doutrinas básicas da fé cristã — é seu dever comunicar essas verdades à sua geração.

Cada geração de cristãos se defronta com o problema de aprender como falar ao seu tempo. É um problema que não se pode resolver sem o entendimento do tempo presente, em constante mudança, com que a igreja também se defronta. Para que consigamos comunicar a fé cristã de modo eficiente, portanto, temos de conhecer e entender o pensamento da nossa geração.

Francis Schaeffer foi um dos principais pensadores evangélicos contemporâneos que procurou compreender a cultura secular.

Compromisso com as Escrituras

Francis August Schaeffer nasceu em 30 de janeiro de 1912, em Germantown, Pensilvânia, nos Estados Unidos. Em 1930, ele se tornou cristão, depois de ler a Bíblia por aproximadamente seis meses, começando em Gênesis. Casou-se com Edith Sevilha, em 26 de julho de 1935 — Edith nascera na China, em 3 de novembro de 1914, filha de missionários presbiterianos. Ela afirmou depois que, se alguém quisesse saber por que Schaeffer se preocupa tanto com a Bíblia, bastaria saber que ele, aos 17 anos de idade, com toda a sua sede de respostas aos questionamentos da vida, começou a descobrir, por si mesmo, respostas adequadas e completas diretamente na Bíblia.

Em setembro de 1937, Schaeffer entrou no Seminário Teológico Westminster, ligado à igreja presbiteriana ortodoxa, sendo profundamente influenciado pelos escritos de J. Gresham Machen, Cornélius Van Til, Herman Dooyeweerd e Hans Rookmaaker. Schaeffer recebeu a graduação no Seminário Teológico Faith, que ele tinha ajudado a fundar, depois de uma divisão no Westminster, em 1937. Nesse seminário, ele foi bastante influenciado por Allan MacRae. Foi ordenado em 1938, como pastor da Igreja Presbiteriana Bíblica, e serviu como pastor na Pensilvânia e no Missouri durante dez anos.

Durante três meses, em 1947, a família Schaeffer viajou pela Europa, para avaliar o estado da igreja por lá, como representantes da Junta Independente para Missões Estrangeiras Presbiterianas. Em 1948, Schaeffer se mudou para Lausanne, na Suíça, com Edith e suas três filhas, para serem missionários. O trabalho deles era principalmente de evangelização de crianças. Em 1949, eles se mudaram para o Chalé les Frênes, na aldeia montanhosa de Champéry, na Suíça.

No inverno de 1951, Schaeffer entrou numa profunda crise espiritual. Nesse período, ele reconheceu que algo estava bastante errado e buscou reconsiderar com muito cuidado seu compromisso cristão e as prioridades em sua vida. Ele emergiu dessa experiência — que chamou de "um pequeno vislumbre da glória de Deus" — com uma nova certeza sobre sua fé, uma nova ênfase na santificação e na obra do Espírito Santo, e uma nova direção para sua vida, que se desdobraria durante os próximos quatro anos.

Entre 1953 e 1954, eles viajaram pela região rural dos Estados Unidos, falando sobre espiritualidade cristã — foram mais de 300 palestras ao longo de 500 dias. Durante esse tempo, Schaeffer apresentou as ideias que cresceram durante sua crise espiritual e que depois se tornaram o fundamento para seu importante livro, Verdadeira espiritualidade. Em 1954, eles retornaram a Champéry, na Suíça. Nesse mesmo ano, Schaeffer se uniu à Igreja Presbiteriana Reformada, uma pequena denominação presbiteriana já existente. E em 1956 foi fundado o Seminário Teológico Covenant — onde, desde 1989, funciona o Francis Schaeffer Institute, que em meados de 1990 contava com mais de 500 alunos.

Missionários na Europa

Em abril de 1955, a família Schaeffer (com mais um filho) se mudou, então, para o Chalé lês Mélèzes, em Huémoz, nos Alpes da Suíça, depois de receber o dinheiro necessário para comprar essa propriedade, numa série de circunstâncias milagrosas — isso marcou o começo informal da comunidade L’Abri (que significa refúgio, em francês).

O vilarejo situa-se a mil metros acima do vale do Rhône, na estrada que vai a um famoso centro de esqui. Na maioria, as pessoas que iam para L’Abri estavam descontentes com suas idéias e buscavam respostas reais às próprias indagações. Havia também muitos evangélicos que iam para lá com o desejo de ter mais influência como cristãos na segunda metade do século 20. Em L’Abri viviam jovens de todas as nacionalidades: japoneses, holandeses, africanos, alemães, indianos, ingleses, sul-africanos, americanos, sul-coreanos e muitos outros. Havia também ateus, agnósticos, existencialistas, além de hindus, judeus praticantes e não praticantes, católicos, protestantes liberais, budistas e todos aqueles que receberam influências do relativismo moderno. Como Schaeffer disse:

Edith e eu nos dedicamos a Deus com um propósito. Não desejávamos iniciar um ministério evangelístico, [tampouco] um ministério entre jovens, ou para intelectuais ou na área de dependentes de drogas. Nós simplesmente nos oferecemos a Deus e pedimos que ele nos usasse para demonstrar que ele continua existindo na nossa geração. Isso é tudo que o L'Abri representa; foi assim que tudo começou.

Em 1968, foi publicado O Deus que intervém, o primeiro dos 23 livros de Schaeffer, baseado em conferências realizadas no Wheaton Collège, nos Estados Unidos, em 1965. Nesse livro, Schaeffer expôs o vazio do pensamento secular e da moderna teologia, mas, muito mais do que isso, ofereceu a esperança de que o homem pode encontrar de novo sua verdadeira personalidade e propósito, se voltar à Palavra vivificadora que Deus nos revelou nas Escrituras. Ainda em 1968, foi lançada A morte da razão. Nessa obra, Schaeffer ofereceu um panorama de como a arte e a filosofia têm sido o espelho do dualismo existente no pensamento ocidental desde o Renascimento. Hoje, esse dualismo se expressa no desespero que o homem sente diante do racional, na sua fuga para um mundo irracional e místico, que é o único que, aparentemente, oferece alguma esperança. Tal tendência pode ser vista na literatura, na arte e na música, no teatro e no cinema, na televisão e na cultura popular. Nas palavras de Schaeffer: "Hoje toda a nossa geração está presa ao irracionalismo, visto ter-se afastado do ensino da Palavra de Deus". Em 1970, foi lançada A igreja do final do século vinte, obra onde Schaeffer buscou descrever o ambiente social no qual a igreja se encontrava.

Francis e Edith Schaeffer realizaram, em janeiro de 1977, uma série de seminários em 22 cidades nos Estados Unidos, e nesse mesmo ano Francis ajudou a fundar o Concílio Internacional sobre a Inerrância Bíblica, proferindo a palestra "Deus dá ao seu povo uma segunda oportunidade". O testemunho claro dos evangélicos reunidos no concílio foi que a doutrina da inerrância é a posição cristã histórica, afirmando que as Escrituras são a Palavra de Deus, sem erro, em todas as áreas que menciona. Ele disse em outro texto:

"É preciso que a Bíblia seja considerada a Palavra de Deus, em tudo o que ela ensina — tanto em questões de salvação quanto de história e ciência e moralidade. E, se for fraca em qualquer uma dessas áreas, o que infelizmente se aplica a muitos que se chamam evangélicos, estaremos destruindo o poder da Palavra de Deus e colocando-nos a nós mesmos nas mãos do inimigo."

Em outubro de 1978, foi diagnosticado um câncer em Francis Schaeffer, pela clínica Mayo, em Rochester, Minnesota. Em dezembro de 1983, Schaeffer viajou em condições críticas de saúde, da Suíça para a clínica Mayo. Ele pregou, numa última excursão, em dez faculdades cristãs, durante março e abril de 1984, morrendo em sua casa, em Rochester, Minnesota, em 15 de maio. No leito de morte, ele fez esta oração final: "Querido Deus Pai, eu terminei meu trabalho. Por favor, leve-me para casa. Estou cansado".

Em 1985, foi publicado postumamente o Manifesto cristão, onde Schaeffer buscou apontar direções para uma postura política equilibrada, centrada na Palavra de Deus.

Um novo modelo de defesa da fé

Cornélius Van Til foi o grande responsável pela tentativa de mudar o foco do debate com pensadores não-cristãos sobre a existência de Deus e a validade das reivindicações cristãs, focalizando-o na viabilidade e na coerência das posições não-cristãs. Ele argumentou que o pensamento não-cristão não consegue responder aos problemas fundamentais da vida e da filosofia, e que toda filosofia não-cristã não passa de uma tentativa de fugir de Deus. Van Til era um apologista proposicional. Essa abordagem reconhece que nenhum fato, histórico ou não, pode ser interpretado de maneira coerente sem pressupor a fé no Deus trino — infinito e pessoal —, como revelado na Escritura.

Por exemplo, ao lermos as Escrituras avançamos a partir das pressuposições reveladas na Escritura, através das proposições das Escrituras até as conclusões da Escritura. Isso não é neutro nem objetivo. Mas, metodologicamente, não podemos esperar que sequer entendamos, e muito menos que aceitemos a mensagem da Escritura se impusermos pressuposições estranhas a ela. Devemos, portanto, permitir que nosso pensamento, pelo menos temporariamente, seja moldado pelas pressuposições da Escritura, a fim de entendê-la.

Colin Brown considera que existem lacunas no pensamento de Van Til. Mas que, mesmo assim, ele deu passos importantes em direção a uma apreciação filosófica da religião bíblica. Sua discussão de pressupostos e sua lembrança de que os homens não precisam da comprovação da existência de Deus, por já terem consciência dele, são de máxima importância.

Schaeffer, que em grande medida estava seguindo Van Til, procurou demonstrar a necessidade de pressupor a existência e a realidade de Deus, visto que negar sua existência significa negar tudo o que é verdadeiro e significativo. Como ele disse: "Portanto, para nós agora, mais que em qualquer época, a apologética pressuposicional é imperativa". Ele argumentou que os não-cristãos não vivem — e não podem viver — de modo inteiramente coerente com suas pressuposições ateístas, que são inadequadas para justificar a existência humana. Somente o cristianismo "pode ser vivido [coerentemente], tanto na vida cotidiana como na busca da erudição". Ele entendia que nenhum fato é auto-evidente: todos os fatos são interpretados e podem ser entendidos de modo adequado apenas no contexto de uma cosmovisão. O papel da não-contradição também foi enfatizado, já que ele faz parte da imagem de Deus com a qual fomos criados. Ele acreditava que as pessoas procuravam uma fuga da razão. Como consequência, todas as cosmovisões não-cristãs são incoerentes.

O seguinte incidente ilustra esse modelo apologético: certo dia, Schaeffer estava conversando com um pequeno grupo de estudantes no quarto de um aluno sul-africano, na Universidade de Cambridge, quando um jovem hindu começou a atacar veementemente o cristianismo, sem, no entanto, "entender os problemas reais relacionados às suas próprias convicções". Schaeffer voltou-se para o estudante indiano e disse: "Não é verdade que, se admitirmos o seu sistema, não fará nenhuma diferença, em última instância, se sou ou não sou cruel, pois não há diferença essencial entre as duas?". O estudante concordou que isso era verdade. Os outros alunos ficaram chocados com essa ideia. Mas o aluno em cujo quarto eles estavam reunidos pensou rápido; pegou uma chaleira com água fervendo e inclinou-a, de forma ameaçadora, sobre a cabeça do estudante indiano. Quando o hindu quis saber o que ele pensava estar fazendo, o estudante simplesmente respondeu: "Não há diferença entre crueldade e não-crueldade". Em silêncio, o jovem hindu se levantou e saiu do quarto.

Todas as pessoas têm alguma consciência de Deus (Rm 1.18-32). Como Schaeffer disse: "Toda pessoa com quem falamos, seja a balconista ou o universitário, tem um conjunto de pressuposições, quer os tenha analisado ou não". Consequentemente, quando evangelizamos, podemos saber que, no fundo do coração, eles têm consciência da existência de Deus. Não existem ateus genuínos, pois os que assim se dizem desejam convencer-se de que Deus não existe.

Tanto para Van Til como para Schaeffer, a apologética começa no momento em que o incrédulo levanta objeções e dúvidas à palavra pregada. O apologista deve responder e refutar as objeções com amor e erudição, primeiro para dar respostas honestas às dúvidas do incrédulo, e, segundo, para evitar que elas atrapalhem a fé dos cristãos. Contanto que as dúvidas do incrédulo sejam sinceras e honestas, deve-se responder. Os dois usavam a apologética para mostrar ao incrédulo que a sua vida sem Cristo é irracional e sem sentido e que ele deve entregar-se a Jesus. Quando as objeções do não-crente se tornam obstinadas e insinceras — quando ele não quer respostas de verdade, mas usa as objeções como desculpa para fugir da verdade —, é melhor terminar a discussão e deixá-lo com o comando de Deus para se arrepender e crer no evangelho. Não obstante, mesmo nesse caso, é bom refutar os argumentos do incrédulo para benefício do povo de Deus, para que não permaneça nenhuma dúvida quanto ao fato de que o cristianismo é a única opção que não destrói toda racionalidade e significado da vida do ser humano.

Ser cristão no final do século 20

Francis Schaeffer teve uma compreensão especial da mentalidade do século 20, identificando-se com as pessoas influenciadas por tal mentalidade. Ele buscou demonstrar como as novas filosofias e teologias se encaixavam na complexa história do pensamento e da cultura moderna. Em outras palavras, ele buscou oferecer uma visão panorâmica do pensamento ocidental e oriental, e em como ele afetava o pensamento cristão e não-cristão. Isso era algo que poucos evangélicos faziam: explicar as respostas que a fé cristã oferece aos maiores dilemas do homem.

A grande força do pensamento de Schaeffer é que não foi produzido num gabinete de estudos, mas durante uma constante exposição às dúvidas e perplexidades de indivíduos provenientes dos mais variados meios. J. I. Packer lhe rendeu o seguinte tributo:

"Que importância terá Schaeffer para a causa cristã a longo prazo? [...] Meu palpite é que os seus esboços verbais e visuais, que me parecem simples porém brilhantes, sobreviverão a tudo o mais, mas eu posso estar enganado. O que é certo para mim, entretanto, é que eu não estaria totalmente errado em homenagear Francis Schaeffer, o pequeno pastor presbiteriano [...], como um dos verdadeiramente grandes cristãos do meu tempo."
_____________

7 de nov. de 2014

Katharina Von Bora (Esposa de Lutero)

Por James I. Good

Uma das figuras femininas mais importantes da Reforma Protestante do Século XVI foi, sem dúvida, Katharina Von Bora. Não que ela tenha praticado qualquer grande ato heróico, se envolvido pessoalmente em grandes controvérsias ou sido martirizada em virtude da sua fé. No dizer de um de seus biógrafos: “ela não escreveu nenhum livro nem jamais pregou um único sermão, mas seu inestimável auxílio possibilitou que seu marido fizesse tudo isso como poucos na história da igreja.” Estamos falando da Sra. Lutero.

Katharina nasceu em 1499, filha de um nobre alemão que passava por dificuldades financeiras. Aos 3 anos de idade, perdeu sua mãe, e seu pai a levou para estudar na escola do convento Beneditino, onde vivia sua tia Madalena Von Bora. Aos 9 anos, entrou para o convento propriamente dito, tornando-se freira aos 16 anos de idade.

Quando Lutero fixou as suas famosas 95 teses nos portões da Capela de Wittemberg, Katharina estava com 18 anos de idade. Entretanto, ela e outras freiras do convento ouviram falar do ensino bíblico de Lutero, e crendo no que ele pregava, desejaram abandonar a clausura. Escreveram a seus pais, mas eles não tomaram nenhuma atitude no sentido de libertá-las. Decidiram então escrever a Lutero, tendo a carta sido redigida pela própria Katharina. Quando o reformador tomou conhecimento do fato, encorajou um amigo negociante a ajudá-las a escapar. Esse homem, Leonardo Koppe, ia frequentemente ao convento, levando alimentos e todo tipo de mantimentos para abastecer o mosteiro, e uma noite em 1523, ajudou-as a fugir, transportando as 12 noviças em um barril de peixes! Muitas retornaram às suas famílias. Lutero procurou auxiliar a todas, ajudando-as a encontrar moradias, maridos e empregos. Dois anos após a fuga, todas haviam seguido seu destino, exceto Katharina, que morou por um curto período de tempo na casa do pintor Lucas Cranach, autor de seu famoso retrato.

Em 1524, com a aprovação e recomendação de Lutero, Katharina foi cortejada por um dos alunos de Wittemberg, mas seu pai se opôs ao casamento. Neste mesmo ano, Lutero arrumou-lhe um novo pretendente, o Pastor Glatz, mas ela recusou-se a desposá-lo. Ela costumava dizer: “Só me casarei com o Dr. Lutero ou com alguém muito parecido com ele”. Lutero ria ao ouvir isso, pois apesar de, já àquela altura, condenar o celibato, não tinha intenção de casar-se: “nunca farão com que eu me case!”, afirmou ele. Alguns garantem que ele chegou a interessar-se por outra ex-freira, Ave Von Schonfeld, mas o relacionamento parece não ter prosperado.

Porém, gradualmente, tanto pela convivência, como por insistência dos seus amigos e seu pai, Lutero acabou propondo casamento à Katharina. Eles ficaram noivos em 13 de junho de 1525 e casaram no dia 25 de junho daquele mesmo ano, ou seja, doze dias depois! A decisão parece ter causado surpresa, pois o próprio Melanchton, escrevendo a um amigo, declarou: “Inesperadamente, Lutero desposou Bora sem querer mencionar seus planos ou consultar seus amigos”. Muitos foram contra o casamento, pelos motivos mais variados. Primeiramente porque, àquela altura, ainda não se admitia que os religiosos contraíssem matrimônio: tratava-se de um escândalo! Segundo, pela grande luta que o reformador vinha travando conta Roma: na condição de herege e proscrito, sua vida estava em constante perigo. Outra razão era a diferença de idade: quando casaram, Lutero estava com 42 anos e Katharina com 26! Ela também sofreu difamações pela união com o reformador, mas, felizmente, o casamento ocorreu e eles viveram felizes por cerca de 21 anos, até a morte do reformador. São curiosos alguns escritos de Lutero sobre esse período inicial de sua vida matrimonial. Escrevendo a um amigo ele declarou: “Existem algumas coisas com as quais precisamos nos acostumar no primeiro ano de casamento; o sujeito acorda de manhã e encontra um par de tranças postiças no travesseiro, onde antes não havia nada!” Entretanto, após um ano de casado, escreveu: “Minha Kathe é, em tudo, tão dedicada e encantadora que eu não trocaria minha pobreza pelas maiores riquezas do mundo”. E mais tarde: “Não há na terra um laço tão doce, nem uma separação mais amarga como a que ocorre num bom casamento”. Finalmente, é bem conhecida sua declaração: “Não há relação mais bela, mais amável e mais desejável, nem comunhão e companhia mais agradável do que a de marido e mulher num casamento feliz”.

O príncipe Frederico havia dado de presente a Lutero o prédio do mosteiro agostiniano em Wittemberg, e foi para lá que a família se mudou em 1525. Katharina reformou o mosteiro e o administrou, o que veio a permitir que Lutero gozasse de relativa paz e ordem em sua vida privada. Ela dirigia e administrava as finanças da família, para que ele pudesse dedicar-se às tarefas que essencialmente lhe competiam: escrever, ensinar e pregar. Ela foi uma esposa dedicada e diligente, a quem Lutero freqüentemente se referia como “Kathe, minha patroa (no inglês, my lord)”. Eles tiveram 6 filhos, dos quais 4 sobreviveram até à idade adulta. Além disso, cuidavam de uma parente de Katharina e, em 1529, com a morte da irmã do reformador, mais 6 crianças – agora órfãs – se juntaram à família. Além dos familiares e de um cachorro de estimação, era comum haver mais de 30 pessoas no mosteiro, entre hóspedes, viajantes em trânsito e estudantes (eles costumavam receber estudantes, que pagavam pelos seus estudos, ajudando assim a equilibrar o orçamento doméstico). Desse modo, sua rotina diária era bastante atarefada: ela tinha uma horta, um orquidário, confeccionava material para pescaria, e acabaram, posteriormente, adquirindo uma pequena fazenda onde criavam gado, galinhas e fabricavam cerveja caseira. Ela também gostava de ler e de bordar. Lutero costumava chamá-la de “a estrela da manhã de Wittemberg”, já que diariamente levantava às 4 horas da madrugada para dar conta de suas muitas responsabilidades. Com muita freqüência, o reformador caía enfermo, e Katharina cuidava dele não simplesmente como esposa, mas quase como enfermeira, devido aos grandes conhecimentos médicos que possuía. 

Entretanto, sua vida não era somente dedicada a coisas materiais. Seu marido a encorajava em seus estudos bíblicos devocionais e sempre sugeria algumas passagens particulares para que memorizasse. Quando ele se encontrava deprimido, era a sua vez de ajudá-lo: sentava-se ao seu lado e lia a Bíblia para ele, edificando o seu coração. Conta-se que, certa vez, Lutero estava bastante deprimido. Não se alimentava e passava os dias trancafiado em seu quarto. Estava cheio de dúvidas sobre se o que fazia era ou não da vontade de Deus. Katharina vestiu-se de preto e entrou subitamente no aposento. Lutero tomou grande susto, pensando que alguém tinha morrido. Katharina respondeu: “Ao que parece, Deus morreu!” A reação de Lutero foi imediata: levantou-se e saiu do quarto, agradecendo à esposa por fazê-lo retornar à vida.

Em termos de recreação, Lutero gostava de participar de jogos ao ar livre com a família, e também apreciava os jogos de mesa, como o xadrez, além de jardinagem e música. Ele e Katharina eram pais diligentes, “disciplinando seus filhos, em amor”. Seu lar era famoso pela vitalidade e felicidade ali reinantes. Dessa forma, a família do reformador tornou-se um modelo para as famílias cristãs alemãs por muitos anos. Lutero considerava o casamento como a melhor escola para moldar o caráter e a vida familiar um método excelente e apropriado para treinar e desenvolver as virtudes cristãs da firmeza, paciência, bondade e humildade.

Lutero faleceu em 1546, e Katharina ainda viveu por mais 6 anos. Ela chegou a ver seus filhos atingirem a idade adulta, alcançando posições de influência na sociedade, exceto aqueles que morreram na infância, causando grande sofrimento as pais: sua primeira filha (Elizabeth) que morreu aos 8 meses de idade, e a segunda filha (Madalena) que faleceu aos 13 anos. Para termos uma idéia desses sofrimentos, segue um breve relato. Quando Madalena adoeceu gravemente, Lutero orou: “Senhor, eu amo muito a minha filha, mas seja feita a tua vontade”. Ajoelhando-se junto à cabeceira de sua cama, falou: “Madalena, minha menina, eu sei que você gostaria de permanecer aqui com seu pai, e também sei que gostaria de ir encontrar-se com o seu Pai no céu. Ela, sorrindo, respondeu: “Sim, papai, como Deus quiser”. Finalmente, depois de alguns dias, ela faleceu em seus braços, e no seu sepultamento, Lutero disse chorando: “Minha querida e pequena Lena, como você está feliz! Você ressurgirá e brilhará como o Sol e as estrelas... É uma cosa esquisita – eu saber que ela está feliz e em paz, e ainda assim, me sentir tão triste!”

Quanto aos outros filhos, o mais velho (Hans) estudou Direito e tornou-se conselheiro da corte. O segundo (Martin), estudou Teologia. O terceiro (Paul), tornou-se um médico famoso, e a terceira filha (Margareth) casou-se com um rico prussiano. A título de curiosidade: os descendentes de Lutero que ainda vivem, descendem de sua filha Margareth, dentre eles, o ex-presidente da Alemanha, Paul Von Hindenburg.

No mesmo ano da morte de Lutero (1546), Katharina deixou Wittemberg e fugiu para Dessau, devido à guerra smalkaldiana e, em 1552, viajou para Torgau, fugindo de uma peste que grassara em Wittemberg. Ela morreu em 20 de dezembro de 1552 na cidade de Torgau.

Encerro esse breve relato sobre a vida de Katharina citando o último testemunho do seu esposo. Escrevendo, certa vez, a um amigo, ele disse: “Minha querida Kate me mantém jovem, e em boa forma também... Sem ela, eu ficaria totalmente perdido. Ela aceita de bom grado minhas viagens e quando volto, está sempre me aguardando com alegria. Cuida de mim nas minhas depressões e suporta meus acessos de cólera. Ela me ajuda em meu trabalho, e acima de tudo, ama a Cristo. Depois Dele, ela é o maior presente que Deus já me deu nesta vida. Se algum dia, vierem a escrever a historia de tudo o que já tem acontecido (a Reforma), espero que o nome dela apareça junto ao meu. Eu oro por isso...”.

Ao tomar conhecimento dessa declaração, Katharina respondeu: “Tudo o que tenho feito se resume a simplesmente duas coisas: ser esposa e mãe, e tenho certeza que uma das mais felizes de toda a Alemanha!”.
_________
Texto extraído do livro Grandes Mulheres da Reforma, de James I. Good (editada por Lays Anglada) – Knox Publicações.