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30 de mar de 2016

Entrevista Exclusiva com Pedro Dulci (Autor de Ortodoxia Integral)



Entrevistamos o Filósofo e Teólogo Pedro Dulci, autor do livro Ortodoxia Integral, também fundador do Movimento Mosaico. A Obra tem exercido uma importante reflexão sobre Cosmovisão Cristã sob uma perspectiva reformacional. O livro levanta um debate acalorado e interessante entre as ligações, associações e tensões do pensamento reformacional e da Teologia da Missão Integral (TMI). Vários reducionismos e excessos são apontados no livro e o autor levanta uma hipótese sobre o assunto, uma reflexão a partir da teologia reformada pactual que ampara-se no motivo básico cristão de Criação, Queda, , Redenção e sob uma perspectiva pactual de leitura hermenêutica. Dulci reflete sobre o assunto de forma analítica e minuciosa em seu livro e concedeu uma entrevista exclusiva ao Electus.

Pedro Dulci propõe um diálogo entre as duas perspectivas e acredita que isso é positivo para o enriquecimento de ambos os lados. Frente as muitas críticas a TMI, de maneira precisa ele aponta qual tem sido o seu problema "deixar de acreditar no caráter supra-histórico da revelação de Deus". Mas ele também enxerga uma "tentação da tradição reformada é manter-se na inércia de sua segurança teológica".

A Entrevista foi feita pelos editores do blog - Thiago Oliveira e Thomas Magnum. Devido ao que temos acompanhado recentemente em nossa conjuntura sociopolítica, vemos um distanciamento ainda maior entre os adeptos da TMI e os que se consideram reformados. Frente a polarizações que também são ideológicas, consideramos que a fala do Dulci é importante por ser reflexiva e fomentar um debate salutar. É sabida a nossa crítica a tendência mais a esquerda da TMI, assim como nossa posição abertamente identificada com os preceitos reformados confessionais. Logo, as palavras do entrevistado não tem o nosso apoio irrestrito quanto a tudo que pontua. Todavia endossamos, suas análises e propostas são interessantes, valiosas e importantes.

Confira:

Na sua obra, Ortodoxia Integral, você diz que a ortodoxia não pode estar separada da ortopraxia. A ortodoxia integral é um compromisso com a Missio Dei e esse compromisso tem suas raízes na teologia pactual. Sendo assim, quais são os maiores prejuízos advindos de um entendimento errado a respeito da ortodoxia? Existe no atual cenário cristão teológico uma polarização de ideias que prejudicam o correto entendimento da integralidade da missão?

A leitura que vocês fizeram do Ortodoxia Integral é precisa! Compreendemos que a relação pactual de Deus conosco foi a forma que Ele escolheu de nos colocar na missão – que é Dele originalmente, e não nossa. No interior das formulações teológicas que a Igreja já produziu, a teologia do pacto, além de ser aquela que melhor nos orienta na interpretação das Escrituras é, ao mesmo tempo, uma forma privilegiada de nos relacionarmos integralmente com a sociedade, a família, a criação natural e com o próprio Deus. Ou seja, ela dá dimensões holísticas, dimensões integrais, à missão de Deus revelada a nós.

Historicamente falando do evangelicalismo brasileiro, o grande prejuízo que tivemos foi um entendimento reduzido dessa teologia pactual. A redução foi a um pacto de salvação meramente individual. Não é sem motivo que, quando perguntamos aos cristãos no Brasil, o que é a teologia reformada eles nos apresentam os “cinco pontos do Calvinismo” – que nada mais é que parte de nossa doutrina da salvação. No entanto, a ortodoxia reformada é muito mais do que isso. Os esforços de Zuínglio, Bucer e Calvino – para citarmos alguns exemplos apenas – foram na direção de uma reorganização geral da forma como o indivíduo se relacionava com Deus, com o próximo, consigo mesmo e com a natureza. Mesmo que os reformadores não tenham sido cientistas, pedagogos ou filósofos, eles lançaram as bases teológicas para o desenvolvimento de todas as esferas da realidade em referência aos mandatos de Deus. Ser ortodoxo, portanto, não pode significar menos do que estar engajado na missão de Deus de fazer todas as modalidades da realidade cativas ao senhorio de Cristo.

Infelizmente, no entanto, o que chegou ao Brasil foi uma compreensão da ortodoxia que dizia apenas sobre o entendimento correto da justificação do indivíduo através da imputação da justiça de Deus aos eleitos. Essa formulação está totalmente correta, mas não é nem metade da história. O teólogo norte-americano John Frame chama de “calvinistas genéricos” os indivíduos que pensam dessa maneira. No entanto, ainda hoje muito material está sendo traduzido de líderes renomados nos EUA que crêem veementemente que a responsabilidade de uma igreja ortodoxa é apenas evangelizar as pessoas – comunicando a doutrina da justificação imputada.Isso é um empobrecimento sem precedentes.

Como não existem espaços vazios nos processos sociais, surgem grupos de reação a essa perspectiva empobrecida. Se nós temos um movimento intitulado “teologia da missão integral” é porque existe uma compreensão de missão que não é integral – e nesse sentido eles estão totalmente corretos. O clamor levantado pela “ala latino-americana” no primeiro congresso de Lausanne foi totalmente legítimo! Sabemos que esse clamor não começou ali, mas nos CLADE’s que antecederam Lausanne – e que, quando vemos a origem deles, percebemos ser muito próximas das origens do nosso movimento por uma Ortodoxia Integral. Quando René Padilla cunhou o termo “missão integral” eles estava preocupado em evangelização de universitários! Ciência, arte, política e teologia caminhando juntas em um contexto de muitas pobrezas, mas de muitas riquezas também.

Acredito que foi justamente por isso que homens como John Stott, Francis Schaeffer, dentro outros, reconheceram imediatamente a legitimidade desse clamor. É o nosso clamor, é a integralidade da missão de Deus mencionada acima. O grande problema surge quando aquele grupo de indivíduos de “ortodoxia genérica” começa a polarizar com os irmãos de missão integral e vice e versa. Não sei se foi por ciúme doutrinário, egoísmo donominacional ou simplesmente indisposição em cooperar com perspectivas diferentes, mas com o passar do tempo aquela união que existia em torno do Pacto de Lausanne começou a se dissolver. Alguns começaram a achar que a ortodoxia bastava e que o importante mesmo era só a proclamação da Palavra, enquanto outros estavam tão concentrados nas pobrezas do sul de nosso continente que se tornaram surdos ao que a Escritura dizia sobre outras dimensões da realidade.

Com toda certeza, o maior prejuízo resultante dessa polarização é a incapacidade de ambos os lados de reconhecerem-se como irmãos – que trabalham a partir de perspectivas diferentes (pensando no tripespectivismo de Frame e Poythress). Isso fez com que as gerações seguintes de cada um desses movimentos já nascessem acreditando que o “outro lado” não tem nada a ver conosco. Se pudéssemos ilustrar a nossa situação no Brasil, é como se fossemos filhos de pais separados. Nós fomos gerados por ortodoxos e integrais. Cansamos de ouvir cada um deles falando conosco e nos ensinando a ler as Escrituras e, por causa disso, ainda tem partes deles em nós. Nós ouvimos suas vozes e os reconhecemos como nossa família. No entanto, em algum momento durante a caminhada, nossos pais se separaram. Quando acontecem reuniões de família sempre tem constrangimento, desgaste, confusão. Porque eles resolveram caminhar separados uns dos outros. Mas cabe a nós, os filhos lembrá-los que eles têm algo em comum: nós! Somos nós, a geração mais jovem desse evangelicalismo brasileiro, que temos que insistir nessa relação com os nossos pais. Estamos fadados à frustração se ficarmos esperando dos anciãos da teologia brasileira a movimentação em prol de novas fronteiras teológicas. Eles estão mais velhos, cansados, indispostos. Já cumpriram com o chamado que Deus lhes vocacionou. Não há nada de errado com eles. Mas nós não. Não podemos fazer da briga deles a nossa. Nós estamos resolvidos, não podemos ter ressentimentos ou qualquer tipo de indisposição que nos faça parar de caminhar. Nós sabemos que sem ortodoxia bíblica a igreja local morre, e que o conhecimento que não desemboca no serviço amoroso ao próximo é mentiroso. Por isso a responsabilidade é nossa de termos uma ortodoxia integral.

Em que a filosofia reformacional contribui para uma visão bíblica sobre a cultura e sobre o engajamento cristão nela? E de que forma os cristãos podem se engajar culturalmente sem serem influenciados pelo secularismo?

Essas duas perguntas estão intimamente relacionadas. Para respondê-las gosto sempre de lembrar um texto que o Padilla escreveu para o prefácio do livro do rev. Gildásio Reis sobre o próprio René. Ali ele mostra como surgiu o seu conceito de missão integral e o contexto em que ele estava inserido. Ele deixa claro que a TMI não se desenvolveu sistematicamente. Antes, foram esforços pastorais para responder questões pontuais da vida cristã. Isso fez com que, por um lado, a TMI fosse bastante propositiva para o engajamento cristão nos desafios da realidade socioeconômica, mas, por outro lado, carente de algumas lacunas teológicas que, simplesmente, não tiveram oportunidade de serem escritas e publicadas.

Não vejo problema algum nisso, e achei muito sóbria as ponderações de Padilla. Na verdade, mais do que isso: eu enxergo justamente nessas lacunas que foram deixadas pelo caminho a porta de entrada privilegiada para a contribuição que a teologia e a filosofia reformacional podem oferecer aos clamores que são próprios da TMI. Se você passa os olhos em textos de Abraham Kuyper, Herman Bavinck, Herman Dooyoweerd, Francis Schaeffer, Bob Goudzwaard, Egbert Schuurman, GerritGlas, dentre outros, você sempre perceberá uma preocupação: integralidade na relação entre nossa fé e todos os outros campos da existência. Ou seja, a mesma preocupação da TMI, mas com uma diferença: existe uma sistematização teológico-filosófica por trás.

Nesse sentido, a filosofia reformacional contribui para o engajamento cultural dos cristãos dando aos indivíduos uma “imagem completa” de sentido para a história, mostrando como cada modalidade da existência pode ser reformada. Isso porque, não adianta sermos super engajados em protestos, iniciativas culturais, artísticas, acadêmicas, etc., se não tivermos os pressupostos bíblicos claros sobre a concepção de sociedade, Estado, ciência, educação, etc. – algo que ninguém melhor que a filosofia reformacional conseguiu fornecer à igreja de ontem e de hoje.

Sem esse background filosófico somos pressas fáceis do secularismo – algo que está acontecendo com as melhores mentes tanto da ortodoxia reformada quanto da teologia de missão integral. O fenômeno acontece da seguinte maneira: uma vez que não temos acesso (ou não temos interesse) ao que a filosofia reformacional tem produzido ao longo dos anos, buscamos em propostas seculares opções para suprir nossas lacunas teologias. É por isso que existem tantos livros “reformados” sobre cultura que citam filósofos não cristãos conservadores, como também tantas pregações de “missão integral” alicerçadas em bases sociológicas progressistas. Mais do que isso, cada um dos lados tem mais disposição de dialogar com um não cristão que se alinha às suas perspectivas ideológicas, do que com seus irmãos de teologia diferente.

Eu sou aluno de doutorado em filosofia em uma universidade não confessional, e o que eu mais faço na minha vida é ler, citar, conversar e criticar pensadores não cristãos. Mas acho no mínimo estranho – para não dizer inaceitável –ler um livro de sobre a relação da teologia com as questões socioeconômicas das ruas e não ter na bibliografia do autor NENHUM pensador da filosofia reformacional. Isso é uma questão de falta de comunhão com os santos. Esse irmão precisa conhecer o trabalho de outros que professam a mesma fé que ele – mesmo que a partir de perspectivas distintas.

Eu penso que, se é para ser coerente com os pais da teologia da missão integral, veja os artigos que o René Padilla escrevia para o Boletim Teológico de Princeton: quando ele faz a sua crítica à sociedade capitalista ele não mencionava Marx, Engels ou Gramsci, mas o professor de filosofia reformacional holandês Bob Goudzwaard e o comentário bíblico de Brian Walsh. Essa relação entre filosofia reformacional e missão integral PRECISA ser recuperada pelos filhos das duas tradições. Não podemos ser esnobes cronológicos – como dizia C. S. Lewis. Somente assim poderemos desenvolver um engajamento cultural relevante, sem abrir mão da radicalidade ortodoxa de nossa fé.

Em seu livro você argumenta que a integralidade da missão tem suas raízes na teologia reformada e esta pode nos dar a correta perspectiva de mundo para o emprego da missão. Em que aspectos a cosmovisão reformada seria melhor - por exemplo - do que perspectivas conservadora, liberal ou socialista?E ainda: cabe ao protestantismo a clássica divisão entre o sagrado e o secular?

A distinção da cosmovisão reformada que a faz superior às outras opções que temos contemporaneamente é o que podemos chamar de anti-reducionismo metodológico. Uma vez que ela se esforça em manter-se fiel aos preceitos das Escrituras a respeito da exclusividade da soberania de Deus sobre todos os aspectos da criação, a cosmovisão reformada não elege nenhum outro critério para medir o mundo. Somente o Senhor Jesus Cristo é soberano sobre a realidade, isto é, ele é o critério de avaliação e julgamento de tudo o que discernimos na história. Nossa razão, nossos sentimentos, a história, a estética ou a economia não são, em última instância, nossas ferramentas de análise de toda a realidade. Não reduzimos todas as explicações morais, por exemplo, à biologia – como faz um naturalista filosófico. Não resolvemos todas as questões sociais a partir da economia apenas. Enfim, graças a sua fidelidade à soberania de Deus, a cosmovisão reformada está imune aos diversos reducionismos comumente encontrados nas universidades, nas empresas, na indústria cultural – e, infelizmente, em algumas igrejas.

Ao mesmo tempo, por não ser reducionista, ela consegue também ser pluralista – no sentido de enxergar na criação uma pluralidade de elementos, processos e dinâmicas que refletem o Criador. Na cosmovisão reformada, não existe um elemento da realidade que é mais sagrado que outro. Por isso que, mesmo não sendo sentimentalistas, valorizamos os sentimentos; mesmo sem sermos racionalistas, apreciamos o uso correto da razão; mesmo não sendo historicistas, somos sensíveis aos acontecimentos históricos; e assim por diante. É justamente por isso que a cosmovisão reformada é muito mais atraente e funciona muito melhor do que as ideologias liberais, socialistas, nacionalistas ou até mesmo democráticas. Enquanto cada uma dessas elege e concentra sua atenção em apenas um aspecto da realidade, a cosmovisão reformada sabe reconhecer em todos os elementos da realidade – sem absolutizá-los – reflexos da boa criação de Deus. Aquilo que um democrata valoriza e absolutiza, Deus valoriza muito mais sem absolutizá-la; o mesmo acontece com um socialista, um liberal ou um nacionalista. Ou seja, debaixo do guarda-chuva da soberania de Deus sobre toda a sua criação, temos todas as respostas aos clamores das diferentes ideologias político-sociais.

Tal percepção da realidade tem uma consequência incontornável: ela torna inoperante a divisão clássica entre sagrado e profano. Não existe um centímetro da realidade que não seja importante aos olhos do Senhor. A sacralidade não está limitada ao templo, ao domingo, ao culto e ao sacerdote. O trabalho do vendedor, do professor, do artista, do vereador ou do médico é tão importante quanto aos olhos de Cristo. Isso porque, em cada uma das esferas da realidade, Deus tem leis específicas e, para levá-las a cabo, precisa de ministros específicos para cada uma delas. Ocupar-se com qualquer parte da criação de Deus – seja ela microscópica ou aparentemente pouco útil – é digno de todos os seus filhos (Sl 111.2).Mais do que isso. Além de tornar tal divisão entre sagrado e profano inapropriada, a cosmovisão reformada revela qual é o verdadeiro antagonismo que está na base da existência: a devoção às duas cidades. Essa ideia tem sua formulação paradigmática em Santo Agostinho, no seu clássico Cidade de Deus, cidade dos homens, mas posteriormente é recuperada e aplicada às questões modernas pelo reformador holandês Abraham Kuyper. Grosso modo, significa dizer que existem apenas duas orientações para os corações dos indivíduos que eles podem empregar seu amor. Ou eles têm seus compromissos fundamentais arraigados no amor a Deus e, por conseguinte, na cidade de Deus, ou eles mantêm seu amor a si mesmo e desprezam o Senhor, suas obras e suas orientações para cada uma das esferas da existência. Dois amores diferentes, duas orientações fundamentais do coração humano, produzem duas cidades. Não existe uma cidade apenas com dois âmbitos (um sacro e outro profano). Tudo o que é feito na cidade dos homens é irreconciliável e impuro – pois o coração desses homens despreza a Deus. Por outro lado, tudo o que é feito por aqueles que têm seu coração em referência ao Senhor visa a maior glória de Deus – podendo ser as produções mais simples da humanidade.

Somente quando recuperarmos essa compreensão de que somos aquilo que amamos, vamos ter uma reorientação fantástica de tudo aquilo que fazemos (nossa profissão, nossas hobbies, nossa vocação particular) com uma visão mais abrangente da relação entre Cristo e a cultura. Alguém que está desenvolvendo um trabalho primoroso nessa direção é o filósofo cristão norte-americano James K. A. Smith.

A TMI e o Neocalvinismo são assuntos que ocupam uma pauta importante no atual debate sobre a cosmovisão cristã. O Neocalvinismo e TMI são autoexcludentes?

Tanto a TMI quando o neocalvinismo não são conjuntos estanques em sua possibilidades de variação. Existe a parte mais evangelical de cada um dos movimentos teológicos, como também uma parte mais liberal em suas formulações, por exemplo. Nesse sentido, se formos sensíveis a essas variações, é muito mais fácil pensar na relação harmônica entre a old school tanto da TMI quanto do neocalvinismo do que suas expressões mais contemporâneas. A história nos mostra isso. O diálogo entre Padilla, Escobar e Arana com Goudzwaard, Stott, Schaeffer e Walsh sempre se mostrou frutífero no passado. No Brasil foi assim também com Robinson Cavalcante, Ziel Machado e Paul Freston, por exemplo. Contemporaneamente, quem consegue encarnar as duas influências de maneira bastante interessante é o anglicano N. T. Wright. Hoje em dia, no Brasil, os esforços de um diálogo crítico, mas conciliador da TMI com o neo-calvinismo tem sido preconizado pela Associação Kuyper de Estudos Transdisciplinares e o L’Abri.No âmbito subjetivo – e muitas vezes invisível – desse esforço em trabalhar pela relação de perspectivas teológicas diferentes está o Movimento Mosaico – que não tem a vocação de produzir conteúdo teológico, mas de empenhar-se pela unidade da Igreja através do vínculo da paz.

Cada um desses exemplos mostra que, a princípio, não existe nada, emsi mesmo, na TMI nem no neocalvinismo que os façam autoexcludentes. Entretanto, tanto um quanto outro podem assumir contornos que impossibilitam a relação harmônica entre si. Particularmente, acredito que existem algumas condições de possibilidade para que essa harmonia aconteça: em primeiro lugar, a disposição para a relação. Na maioria esmagadora dos casos, o diálogo não acontece por pura falta de disposição das partes. Quem está de fora observando os desdobramentos atuais que colocam a TMI e o neo-calvinismo em pauta, às vezes percebe nitidamente que muito desacordo não acontece por questão doutrinária. Infelizmente, como em toda produção humana, existe muita vaidade envolvida em nossas considerações teológicas – e isso impossibilidade a relação com os diferentes. Por isso a disposição para essa relação é indispensável. Em segundo lugar, vem a necessidade de resolver pontos teológicos que ainda estão soltos nas amarrações das duas teologias – pensando em nosso caso latino-americano, em que as demandas contextuais da TMI são inegáveis, como também nas contribuições neocalvinistas que soam muito interessantes para nossos problemas. Não sou ingênuo de pensar que esse trabalho é sem atrito ou desgaste. No entanto, inviabilizar a frutificação de duas construções teológicas bem interessantes pela simples indisposição relacional dos diferentes fala muito de nós, de nossos pecados e debilidades. Agora, em terceiro lugar, mas não menos importante, existem as questões teológicas incontornáveis que precisam ser tratadas, corrigidas e bem determinadas para que a relação entre TMI e o neo-calvinismo não seja falsa. Nesse ponto, em particular, é que a crítica reformada assume o desgastante, mas necessário, papel de avaliar a que custo essa relação será possível.

Como avalia a crítica reformada a TMI? Você acredita que ela está distante do conceito cunhado em Lausanne e bem mais próxima da Teologia da Libertação (TL)?  E, de certa forma, você enxerga uma inércia no segmento reformado em empregar uma refutação que seja também uma alternativa prática a justiça, ao pobre, a arte, a música, etc.?

A crítica reformada, quando feita em amor e disposição relacional para o avanço teológico local, tem a função de contribuir com a TMI naquelas lacunas teológicas que mencionei anteriormente. Não podemos, em nome da (pseudo)relação harmônica entre as tradições teológicas diferentes, adotarmos um generalismo teológico que não se posiciona em relação a questões fundamentais da teologia cristã. A tentação da TMI é concentrar-se unicamente na intervenção contextualizada do evangelho na luta pela justiça e socorro ao pobre econômico à revelia de discutir entre seus pares posicionamentos teológicos mais profundos. O resultado, muitas vezes é o que estamos vendo recentemente no Brasil: a ausência de unidade em posicionamentos teológicos mais radicais – como, por exemplo, a teologia política do movimento, sua relação com as ideologias e idolatrias culturais. Se não abrirmos mão do clichê de que a teologia não serve às ruas e não alimenta os pobres, não conseguiremos estabelecer uma convicção teológica firme o suficiente para não se abalar, ou se confundir, frente às urgências contextuais de nossa política.

Por outro lado, e não menos problemático,a tentação da tradição reformada é manter-se na inércia de sua segurança teológica e não (1) sair de uma posição defensiva, que se utiliza das ferramentas apologéticas para criticar tudo o que é feito e produzido diferentemente dos seus arraiais teológicos; e passar a (2) se arriscar a pensar em formas de aplicar e discutir sua ortodoxia frente aos desafios contextuais da América Latina que, indiscutivelmente, são diferentes dos contextos em que surgiram os fundamentos da teologia reformada – e eu diria ainda mais da posição singular do Brasil em relação ao resto da América latina. Em síntese, minha hipótese para o futuro da teologia reformada é que é preciso colocar a apologética à serviço da missão. Nossa ortodoxia precisa estar harmonicamente alinhada com uma ortopraxia – sem mencionar a ortopatia, que não seja produzida pela manipulação dos sentimentos e dos sentidos em cultos catárticos, mas que seja o resultado de um discipulado de nossas emoções pelas convicções do evangelho. John Frame é paradigmático nesse sentido em nos mostrar a equivalência dessas três perspectivas, e James Smith é uma porta de entrada privilegiada para as discussões de liturgias culturais e discipulado de nosso imaginário do Reino de Deus. E se algum de nossos leitores subscreve aquele clichê que recusa limitar suas leituras aos “enlatados estrangeiros”, leia e lide com as argumentações de Guilherme de Carvalho, Igor Miguel, Marcos Almeida, Leonardo Ramos, Rodolfo Amorim, Sandro Baggio e tantos outros que estão ocupados em responder nossas pobrezas locais com as riquezas da leitura ortodoxa das Escrituras.

O desafio teológico brasileiro é o de avançar nesse sentido. Quando olhamos nossa história recente, vemos como os conceitos integrais de missão cunhados a partir de Lausanne foram determinantes para uma geração inteira do evangelicalismo brasileiro. Enquanto nossos esforços estavam girando em torno do pacto de Lausanne, havia unidade entre nós. No entanto, existe uma parcela grande da atual geração de líderes da perspectiva integral da missão que são influenciados por outras fontes. Eu não diria que o afastamento de Lausanne aconteceu em direção aos pressupostos da Teologia da Libertação – pelo menos, não em sua relação complicada com o instrumental de análise sociológica marxiana. O que ocupa e (de)forma o imaginário teológico contextual da atual geração de líderes envolvidos diretamente na integralidade da missão são os estudos culturais e o historicismo. Para ser caricato, hoje em dia, Foucault é muito mais importante do que Marx. Essa modificação é significativa, pois, suas consequências são bem mais amplas. A relativização de toda a realidade à história atinge não apenas hermenêutica bíblica, mas também as compreensões de gênero, relações de poder, visão pós-estruturalista do ser humano. Em termos práticos, isso significa deixar de acreditar no caráter supra-histórico da revelação de Deus, não encontrar problemas em formas alternativas de organização da nossa sexualidade, julgar e questionar qualquer instituição de autoridades dentro e fora da igreja a partir de critérios de poder. Enfim, a tentação que a geração mais nova da teologia brasileira precisa enfrentar diz respeito a muitas frentes de trabalho. Existem muitas pobrezas para além do clamor econômico que era majoritário na Teologia da Libertação.  O abandono de algumas práticas e tradições consolidadas na cristandade que estamos assistindo por alguns líderes mais jovens é fruto da sua incapacidade de resistir ao canto da sereia dos estudos culturais. Entretanto, sem uma cristologia de raízes profundas, essa resistência é impossível.

28 de mar de 2016

Olhai e Sede Salvos da Morte

Por Thiago Oliveira

Texto Base: Números 21:4-9

4. Partiram eles do monte Hor pelo caminho do mar Vermelho, para contornarem a terra de Edom. Mas o povo ficou impaciente no caminho 5. e falou contra Deus e contra Moisés, dizendo: "Por que vocês nos tiraram do Egito para morrermos no deserto? Não há pão! Não há água! E nós detestamos esta comida miserável! " 6. Então o Senhor enviou serpentes venenosas que morderam o povo, e muitos morreram. 7. O povo foi a Moisés e disse: "Pecamos quando falamos contra o Senhor e contra você. Ore pedindo ao Senhor que tire as serpentes do meio de nós". E Moisés orou pelo povo. 8. O Senhor disse a Moisés: "Faça uma serpente e coloque-a no alto de um poste; quem for mordido e olhar para ela viverá". 9. Moisés fez então uma serpente de bronze e a colocou num poste. Quando alguém era mordido por uma serpente e olhava para a serpente de bronze, permanecia vivo.

INTRODUÇÃO

Os israelitas, ainda peregrinos no deserto sob a tutela de Moisés, tinham acabado de sair vitoriosos em campanha contra os cananeus. O Senhor havia entregado os seus inimigos em suas mãos. As cidades cananeias ficaram devastadas e após esta vitória, o que acontece? Os israelitas murmuram contra Deus e reclamam com Moisés ao seguirem em peregrinação. Isto custou à vida de muitos, pois, o Soberano puniu os murmuradores enviando serpentes venenosas que matavam aqueles a quem picavam. Todavia, após a súplica do povo para que o Senhor tivesse misericórdia deles, Deus ordenou que Moisés fizesse uma serpente de bronze e a pendurasse no posto. Esta serpente ficava erguida no centro do acampamento hebraico, e quem para ela olhasse após ser mordido, não morreria.

Esta história tem muito a nos dizer sobre aquele que - muitos anos depois - seria crucificado entre malfeitores. O próprio Jesus ao falar com Nicodemos cita esta passagem do Antigo Testamento para explicar a sua missão na terra. Ele diz:

Da mesma forma como Moisés levantou a serpente no deserto, assim também é necessário que o Filho do homem seja levantado, para que todo o que nele crer tenha a vida eterna”.

João 3:14,15

Fiquemos atentos às preciosas lições que emergem da Santa Escritura, tratando especialmente deste episódio que aconteceu no deserto com o povo de Deus.

A PEÇONHA DO PECADO

Certa feita, um pastor puritano disse que o pecado é o ventre de nossas dores (Thomas Watson). Ele está correto. Tudo que existe de ruim nesse mundo, e que para nós é externalizado, tem origem no íntimo dos seres humanos. O pecado que reside no coração do homem é o criadouro das mazelas que nos afligem. O pecado é um veneno e como tal não resulta em outra coisa senão morte. Neste texto de Números 21.4-9, vemos que o motivo dos hebreus serem afligidos pelas serpentes foi a sua murmuração, a sua descrença em Deus (vv. 4 à 6). Mesmo após o Senhor ter libertado aquele povo da escravidão no Egito, mesmo após ter sustentado o povo com provisões milagrosas de comida e bebida numa região desértica e mesmo dando-lhes vitória diante de inimigos mais numerosos e mais preparados, eles se queixam e cometem o absurdo de dizer que detestam a comida que veio diretamente do céu para satisfazer suas necessidades (o Maná).

Os hebreus deveriam dar graças a Deus constantemente. A Forma como o Senhor os conduzia era sobrenatural e ao mesmo tempo demonstrava cumplicidade. Deus era deles, comprometido em aliança a dar-lhes uma terra. Comprometido em fazê-los prosperar. Mas ao invés de ação de graças veio um ingrato murmúrio. Aquele povo rejeitava as benesses do Divino. Sua queixa demonstrava não apenas ingratidão. Demonstrava também incredulidade. Mesmo depois de tudo o que viram, ainda se deixaram levar pelo temor de morrer a míngua no deserto, pelo meio do caminho. Esqueceram de que Deus havia dito que os conduziria até um pedaço de chão que seria dado a eles como sua herdade. O Altíssimo os presentearia com a terra que “mana leite e mel”. Só que os hebreus duvidaram, queixaram-se e pagaram o preço pela sua conduta inaceitável.

As serpentes que atacaram o arraial dos israelitas, matando muitos deles, eram a personificação dos seus pecados e do efeito que este causa. A peçonha do pecado os feriu mortalmente. O que nasceu em seu íntimo tomou forma e eles viram o quão asqueroso era aquilo. Por isso meus irmãos, devemos ter cuidado com aquilo que cultivamos no solo de nossos corações, pois, se plantarmos murmúrio e incredulidade, colheremos mortandade. Precisamos ter a fé em Deus firme, e em tudo dar graças (1Ts 5.18). Tal como o maná foi rechaçado, Cristo, o pão do céu (Jo 6.51), também o foi e ainda é por muitos que escutam a boa nova e nela não se alegram nem depositam a sua fé. Que o Senhor nos livre de blasfemá-lo com nossa ingratidão e descrença. Precisamos ter a nossa fé fortalecida. Precisamos lembrar que o Senhor é fiel as suas promessas, sabendo que chegaremos a Canaã celestial. Mesmo que o percurso seja difícil e amargoso, não devemos esquecer que o destino final é doce, doce como o mais puro mel e refrescante como uma loção aromática. Tenhamos fé, Deus é aquele que nos guia e nos guarda.

SALVAÇÃO E IDENTIFICAÇÃO

Quando o povo reconheceu que as serpentes que o atacava eram resultantes de sua conduta pecaminosa, foram até Moisés e pediram para que o líder que Deus lhes dera, também rejeitado em seu murmúrio, intercedesse em favor deles. Moisés orou e recebeu a ordem de fazer a serpente de bronze e pendurá-la num poste (vv. 7 e 8). O curioso é que para serem salvos, as pessoas picadas deveriam olhar para a imagem que remetia justamente ao animal que lhes causou dolo. Por que disto?

Deus ao revelar-se ao seu povo, sempre apontou para o Salvador que haveria de vir e com isso deu algumas “pistas” de como seria e o que faria esse a quem Ele iria enviar. No linguajar teológico chamamos estas “pistas” de tipologia. Aquela serpente que foi levantada entre os hebreus tipificava Cristo, alçado fora dos muros de Jerusalém. Como vimos na introdução, o próprio Jesus fez uso da serpente de bronze ao falar sobre si mesmo. Vejamos as semelhanças que fazem com que o tipo do Antigo Testamento apontasse para o Cristo:

1. Ambos foram pendurados num madeiro e ficaram expostos, à vista de toda a população.

2. Aquele que fosse envenenado tinha que olhar para a serpente de bronze para ser curado. Semelhantemente, o veneno do pecado é curado quando o pecador olha com fé para o Cristo da cruz.

3. Se para obter a cura, a pessoa veria a imagem do animal que lhe causou dano, de igual modo, para ser liberto do pecado, Cristo assumiu a forma do mais vil pecador, mesmo sendo santo. O pecador que olha Jesus moído na cruz vê que n’Ele foram depositados os seus próprios pecados.

Logo, concluímos que no elemento da salvação há também identificação. Jesus tinha uma imagem de homem comum, e quando sucumbiu na cruz, entre dois ladrões adquiriu a imagem de um bandido. O profeta Isaías vai dizer que o seu semblante era o de um homem no qual escondemos o rosto em desprezo (Is 53.3). Aquele que não tinha pecado assumiu a forma de pecador (2Co 5.21) para garantir cura a todo o que n’Ele crê.  

BASTA OLHAR

Deus ao providenciar a cura após a confissão de pecados do povo, bem poderia ter feito com que eles “cortassem um dobrado” para que não morressem. A ideia de penitência é muito comum em diversas religiões e escritos mitológicos antigos. O maior dos heróis gregos, Hércules, segundo a lenda, teve que realizar 12 trabalhos para recuperar sua honra após ter assassinado esposa e filhos num arroubo de loucura. Mas Deus não cobra nenhuma espécie de penitência. Não há nenhum tipo de trabalho ordenado com o intuito de purgar os pecados. A forma de encontrar cura seria apenas olhar para a serpente de bronze (v.9). Olhar? Algo que não denota esforço. Uma tarefa simples que não leva em conta força ou capacidade intelectual.

Assim mesmo é com a nossa salvação. Em Isaías 45.22 lemos o seguinte:

Olhai para mim, e sereis salvos, vós, todos os termos da terra; porque eu sou Deus, e não há outro”.

Um dos maiores pregadores que esse mundo já viu, Charles Spurgeon, se converteu após um homem comum pregar com base neste versículo, pois por alguma razão – possivelmente uma nevasca – o pastor não compareceu,  e conclamá-lo a olhar para Cristo. O próprio Spurgeon em sua autobiografia conta como se deu:

Então, erguendo as mãos, bradou como só um metodista primitivo pode fazer: ‘Jovem, olhe para Jesus Cristo! Olhe! Olhe! Olhe! Você não tem nada a fazer senão olhar e viver!’. Eu vi de uma vez o caminho da salvação. Não recordo de mais nada que aquele homem simples disse, pois fiquei tomado com aquele pensamento. Como quando a serpente de bronze foi levantada, e o povo somente olhava e ficava curado, assim foi comigo. Eu estava esperando fazer cinquenta coisas, mas quando eu ouvi aquela palavra ‘Olhe!’, que palavra fascinante ela pareceu a mim. Oh! Eu olhei até quase não poder tirar os olhos! Então a nuvem se foi, as trevas foram retiradas, e naquele momento eu vi o Sol”.

APLICAÇÕES

1. Reconheça que seus pecados não te levarão a nenhum outro lugar que não seja o vale da sombra da morte e clame ao Senhor por misericórdia, pois, um coração quebrantado e contrito o Senhor não despreza (Sl 51.17). Vá até ele com lágrimas de arrependimento e Ele transformará teu pranto em riso ao salvar você da condenação e da morte.

2. Compreenda que no sacrifício na cruz havia um inocente que foi maltratado no lugar dos homens pecadores. Ao contemplar a imagem do crucificado, saiba que sobre os seus ombros residiam os teus pecados e não os d’Ele. Ele sempre foi e sempre será o Santo dos santos. Jesus recebeu o castigo que nos traz a paz e pelas suas chagas somos sarados (Is 53.5). Creia nisso e confesse que o Filho de Deus é teu redentor e teu senhor.

3. Olhe com os olhos da fé para Jesus, deixe tudo para trás e siga-o. Quer a cura? É simples, olhe para cruz e creia em Cristo. Você não precisa fazer nenhum ato de penitência. Não há trabalho para te fazer livrar do pecado. Olhe para Jesus e veja o fardo ser desatado de suas costas e rolar morro abaixo. Aos pés da cruz você encontrará vida e paz. Aos pés de Cristo você terá perdão e purificação. Olhe! Olhe! Olhe para cruz e siga a Jesus Cristo!

25 de mar de 2016

O Corpo Partido de Cristo

Por Thomas Watson

Isto é o meu corpo (Mt 26.26)

O corpo partido de Cristo, que nos é exibido no sacramento, nos inspira a refletir:

O corpo de Cristo foi partido?

Então podemos visualizar o odioso pecado no espelho vermelho dos sofrimentos de Cristo. Na verdade, o pecado deve ser abominado por haver expulsado Adão do Paraíso e lançado anjos no inferno. O pecado é o interruptor da paz; é como um incendiário na família, o qual põe esposo e esposa em desavença; faz Deus ficar contra nós. O pecado é o ventre de nossas dores e o túmulo de nossos confortos.

Mas aquilo que pode mais que tudo desfigurar o rosto do pecado e fazê-lo parecer horripilante, é que ele crucificou nosso Senhor; ele se tornou um véu para a glória de Cristo e fez jorrar seu sangue.

Se uma mulher viu a espada que matou seu marido, quão odiosa ela será à vista dela! Acaso consideraríamos aquele pecado que fez a alma de Cristo “profundamente triste até a morte” (Mc 14.34)? Acaso nos seria motivo de júbilo aquilo que fez o Senhor Jesus Cristo “um homem de dores” (Is 53.53)? Acaso ele não clamou: “Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?” (Mt 27.46)? Acaso esqueceríamos aquele pecado que fez Cristo esquecer-se de si mesmo? Oh, que olhemos para o pecado com profunda indignação!

Quando uma tentação vem trazer pecado, digamos como Davi: “Guarda-me, Senhor, de fazer tal coisa; beberia eu o sangue dos homens que foram com risco de sua vida?” (2Sm 23.17). então, digamos, acaso não é este pecado que derramou o sangue de Cristo? Que nossos corações se encham de fúria contra o pecado. Quando os senadores de Roma exibiram ao povo o manto ensanguentado de César, o povo se enfureceu contra aqueles que o mataram. O pecado dilacerou o alvo manto do corpo de Cristo e o tingiu da cor carmesim; busquemos ser vingados de nossos pecados. Sob a lei, se um boi chifrasse um homem, de modo que morresse, esse boi tinha de ser morto (Êx 21.28). O pecado transpassou e escorneou nosso Salvador: que ele seja morto. Que lamentável seria se ainda tivesse direito a viver aquilo que não permitiu que Cristo vivesse.

Façamos este uso de seu sofrimento na cruz, para aprendermos a não nos maravilharmos muito se nos depararmos com tribulações no mundo. Cristo sofreu quando “não conheceu nenhum pecado”? Acaso achamos estranho o sofrer de quem nada sabe senão pecar? Cristo sentiu a ira de Deus? Acaso é exagero sentirmos a ira dos homens? A cabeça seria coroada de espinhos e os membros jazeriam entre rosas? Desfrutaríamos de nossos braceletes e diamantes enquanto Cristo sentiu a lança e os pregos perfurando seu coração? De fato os que são culpados devem esperar os açoites, mas aquele que era inocente não pôde sair livre.

Um emprego adicional da doutrina do sacramento é o exercício da exortação. Ocupar-nos-emos das seções desta matéria em boa parte do que vem a seguir.

O precioso corpo de Cristo foi partido por nós? Deixemo-nos afetar com a imensa bondade de Cristo.

Quem pode esmagar estes carvões em brasa, sem que seu coração arda? Quem não bradaria com Inácio: “Cristo, meu amor, foi crucificado!”? Se um amigo morresse por nós, nosso coração não seria profundamente afetado por sua bondade? Que o Deus do céu morresse por nós, como esta estupenda mercê não nos influenciaria com a máxima ternura?

O corpo de Cristo partido é suficiente para quebrantar o coração mais empedernido. Na paixão de nosso Senhor, as próprias pedras foram fendidas: “fenderam-se as pedras (Mt 27.51). Aquele que não sentir-se afetado por isto tem um coração mais duro que as pedras. Se Saul não deixou de perceber a mercê de Davi em poupar sua vida (1Sm 24.16), como poderíamos não nos deixar afetar pela benignidade de Cristo, que poupou nossa vida com a perda da sua? Oremos para que, assim como Cristo foi “cruci-fixus”, também sejamos “cordi-fixus” – como ele foi “cravado” na cruz, igualmente seja ele “cravado” em nosso coração.

Jesus Cristo nos é espiritualmente exibido no sacramento? Então demos-lhe o máximo valor e estima.

Valorizemos o corpo de Cristo. Cada partícula deste pão da vida é precioso: “Minha carne é verdadeira comida” (Jo 6.55). É “o excelente Pão que transcende a substância”, no dizer de Cipriano.

O maná foi um vívido tipo e emblema do corpo de Cristo. O maná era doce: “era como semente de coentro branco, e seu sabor como bolos de mel” (Êx 16.31). Era um alimento delicioso; por isso foi chamado “comida dos anjos” (Sl 78.25), por sua excelência.Assim Cristo, o maná Sacramental, é doce às almas dos crentes: “seu fruto é doce ao meu paladar” (Ct 2.3). Tudo em Cristo é doce – seu Nome é doce, suas virtudes são doces. Este “Maná” adoça “as águas de Mara”.

Não só isso, a carne de Cristo excede o maná:

i. O maná era uma comida, porém somente física. Se os israelitas ficassem doentes, o maná não poderia curá-los; mas este bendito maná do corpo de Cristo é não só alimento, mas também medicina. “O corpo de Cristo é medicina para os doentes” (Bernardo).

Cristo traz “cura em suas asas” (Ml 4.2). Ele cura o olho cego e o coração empedernido. Leve esta medicina para bem perto de seu coração e você será curado de todos os destemperos espirituais.

ii. O maná era corruptível. Ele cessou quando Israel entrou em Canaã; mas este bendito maná do corpo de Cristo jamais cessará. Os santos se alimentarão com infinito deleite e satisfação da alma, em Cristo, para toda a eternidade. Os júbilos celestiais cessariam se este maná cessasse.

O maná foi posto na arca em um vaso de ouro, para que fosse preservado ali. Assim o bendito maná do corpo de Cristo, sendo posto no vaso de ouro da natureza divina, é depositado na arca celestial para os santos festejaram para sempre. Então, podemos dizer que o bendito corpo de Cristo “é verdadeira comida”.

“Na plenitude do corpo de Cristo, que desce da cruz, encontramos a pérola da salvação”.

***

Extraído da obra "A Ceia do Senhor", Editora Os Puritanos. 

23 de mar de 2016

O Pacto de Obras

Por R.C. Sproul

A teologia do pacto é muito importante por várias razões. Embora a teologia do pacto, em torno de milênios, encontre sua formulação mais refinada e sistemática na Reforma Protestante. Sua importância, no entanto, tem sido intensificada em nossos dias por causa de sua relação com outra teologia que é relativamente nova. No final do século XIX, a teologia chamada de "dispensacionalismo" surgiu como uma nova abordagem para a compreensão da Bíblia. A velha Bíblia de Referência Scofield definiu dispensacionalismo em termos de sete dispensações distintas, de períodos, de tempos, dentro de Sagrada Escritura. Cada dispensação foi definida como "um período de tempo durante o qual o homem é testado em relação a obediência a alguma revelação específica da vontade de Deus" (p. 5, Scofield Reference Bible). Scofield distinguiu sete dispensações, inclui inocência, consciência, governo civil, promessa, lei, graça e o período do reino. Contra esta visão diversificada da história da redenção, a teologia do pacto visa apresentar uma imagem clara da unidade da redenção, tal unidade é vista na continuidade dos pactos que Deus fez ao longo da história e como eles são cumpridos na pessoa e obra de Cristo.

Além da contínua discussão entre dispensacionalistas tradicionais e teólogos reformados no que diz respeito à estrutura básica da revelação bíblica, tem surgido em nossos dias uma crise ainda maior no que diz respeito à nossa compreensão da redenção. Esta crise se concentra no lugar da imputação, em nossa compreensão da doutrina da justificação. Assim como a doutrina da imputação foi a questão central no debate do século XVI entre os reformadores e os católicos romanos no entendimento da justificação, então agora a questão da imputação cresceu novamente, mesmo entre os evangélicos professos que negam a compreensão Reformada da imputação. O cerne desta questão da justificação e imputação é a rejeição do que é chamado por pacto das obras. A teologia da aliança histórica faz uma importante distinção entre o pacto das obras e o pacto da graça. A aliança das obras refere-se à aliança que Deus fez com Adão e Eva em sua pureza original, antes da queda, em que Deus lhes prometeu bem-aventurança se fossem obedientes as suas ordens. Após a queda, o fato de Deus continuar a promessa de redenção para as criaturas que violaram o pacto das obras, esse andamento da promessa de redenção é chamado de aliança da graça.

Tecnicamente, a partir de uma perspectiva, todos os pactos que Deus faz com suas criaturas são graciosos, no sentido que Ele não é obrigado a fazer quaisquer promessas a suas criaturas. Mas a distinção entre o pacto das obras e o pacto da graça adquire vital importância, uma vez que tem a ver com o Evangelho. O pacto da graça indica a promessa de Deus para nos salvar, mesmo quando deixamos de guardarmos as obrigações impostas na criação. Isto é visto com mais importância na obra de Jesus como o novo Adão. Repetidas vezes o Novo Testamento faz a distinção e contraste entre a falha e calamidades trazidas sobre a humanidade através da desobediência de primeiro Adão, e os benefícios que fluem através da obra de obediência de Jesus, que é o novo Adão. Embora haja uma clara distinção entre o novo e o velho Adão, o ponto de continuidade entre os dois é que ambos foram chamados a apresentar perfeita obediência a Deus.

Quando entendemos a obra redentora de Cristo no Novo Testamento, concentramos nossa atenção em grande parte em dois aspectos do mesmo. Por um lado, nós olhamos para a expiação. Isso claro nos ensinamentos do Novo Testamento, que na expiação Jesus carrega os nossos pecados e é punido por eles em nosso lugar. Isto é, a expiação é vicária e substitutiva. Neste sentido, na cruz, Cristo tomou sobre si as sanções negativas da antiga aliança. Ou seja, ele suportou em seu corpo a punição devida por àqueles que violaram não só a lei de Moisés, mas também a lei que foi imposta no paraíso. Ele tomou sobre si a maldição merecida por todos aqueles que desobedeceram a lei de Deus. Isto, a teologia reformada chama de "a obediência passiva de Jesus". Este ponto foca para a sua vontade de submeter-se a condição de receber a maldição de Deus em nosso lugar.

Além do cumprimento negativo do pacto de obras, ao tomar a punição devida àqueles que o desobedeceram, Jesus oferece a dimensão positiva que é vital para a nossa redenção. Ele ganha a bênção do pacto de obras para a descendência de Adão que deposita fé nele. Enquanto Adão foi o transgressor da aliança, Jesus é o cumpridor da aliança. Onde Adão não conseguiu conquistar a bem-aventurança da árvore da vida, Cristo conquistou a bem-aventurança por sua obediência, o que proporciona bem-aventurança para aqueles que depositam sua fé nele. Nesta obra de cumprir o pacto para nós em nosso lugar, a teologia fala sobre a "obediência ativa" de Cristo. Ou seja, a obra redentora de Cristo inclui não só a sua morte, mas a sua vida. Sua vida de perfeita obediência torna-se o único fundamento da nossa justificação. É a sua perfeita justiça, adquirida através de sua obediência perfeita, que é imputada a todos os que depositam sua fé nele. Portanto, a obra de Cristo de obediência ativa é absolutamente essencial para a justificação de qualquer um. Sem obediência ativa de Cristo ao pacto das obras, não há nenhuma razão para a imputação, não há motivo para a justificação. Se nós tiramos o pacto das obras, nós tiramos a obediência ativa de Jesus. Se tiramos a obediência ativa de Jesus, tiramos a imputação da sua justiça em nossa vida. Se tiramos a imputação da justiça de Cristo para nós, tiramos a justificação pela fé. Se nós tiramos a justificação pela fé, tiramos o Evangelho, e nós somos deixados em nossos pecados. Nós somos deixados como os filhos miseráveis de Adão, que só podem olhar para a frente sentindo a plena medida de maldição de Deus sobre nós por nossa desobediência. É a obediência de Cristo, que é o fundamento de nossa salvação, tanto na sua obediência passiva na cruz, como sua obediência ativa em sua vida. Tudo isso está indissociavelmente relacionado com a compreensão bíblica de Jesus como o novo Adão (Rm. 5:12-20), que teve êxito onde o primeiro Adão falhou, que prevaleceu onde Adão perdeu. Há nada menos do que a nossa salvação em jogo nessa questão.

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Fonte: Ligonier

Traduzido por Pedro Paulo.


21 de mar de 2016

O que esperar de um político cristão?

Por Thiago Oliveira

Lugar De cristão é na política? E porque não seria? Uma das coisas que herdamos da reforma é que toda vocação, inclusive a política, glorifica a Deus. João Calvino dedica parte de sua obra máxima, as Institutas, para falar sobre política e enaltece o trabalho dos magistrados, isto é, os que integram o poder do Estado. O próprio apóstolo Paulo diz que os governantes são servos de Deus e que sua autoridade é derivada do próprio SENHOR (Rm 13.1-7). Ademais, os cristãos foram chamados para exercer o que na teologia chamamos de “mandato cultural”. Exercer este mandato é se integrar ao mundo criado por Deus e administrá-lo com excelência, observando as leis divinas para o louvor do Criador. O poder político está intensamente ligado ao mandato cultural dos homens. No entanto, precisamos ressaltar que a postura política de um cristão deve ser íntegra e se ele almeja participar do poder político, deve manter-se fiel a ética contida na Bíblia Sagrada e por ela se guiar.

O teólogo Wayne Grudem, ao escrever sobre o papel do cristão na política, afirma o seguinte:

(...) os cristãos devem procurar influenciar o governo civil conforme os padrões morais de Deus e conforme os propósitos de Deus para o governo revelados na Bíblia (e devidamente compreendidos). Enquanto os cristãos exercem essa influência, porém, devem continuar a proteger a liberdade religiosa de todos os cidadãos. Além disso, a "influência expressiva" não é sinônimo de influência irada, beligerante, intolerante, julgadora, desatinada e cheia de ódio, mas sim uma influência cativante, gentil, solícita, amável, persuasiva, própria para cada circunstância e que sempre protege o direito do outro discordar. Ao mesmo tempo, é firme no que se refere à veracidade e à excelência moral dos ensinamentos da palavra de Deus.[1]

Outra coisa de suma importância é ter preparo. Uma carreira na política demanda vocação e conhecimento dos mecanismos do poder. Ademais, a política não é imparcial. Ela está encharcada de ideologia, sendo que tais ideologias são, em grande parte, antagônicas a fé cristã. O Pr. Franklin Ferreira é bastante feliz em sua colocação, ao dizer que:  

Os políticos cristãos devem saber utilizar as várias disciplinas acadêmicas para desenvolver uma cosmovisão cristã que permita, de um lado, identificar as premissas das posições filosóficas e religiosas que mais influenciam a sociedade e, de outro, oferecer respostas respeitáveis satisfatórias, com base na fé cristã.[2]

Infelizmente, muitos políticos que se denominam evangélicos, têm dado um mau testemunho, parecendo ignorar o preceito bíblico de que deveriam ser luzeiros deste mundo. Muitos, não todos, também fazem das igrejas um curral eleitoral e cumprem seus mandatos beneficiando apenas os seus eleitores “crentes”. Eles promovem eventos como “marchas para Jesus” e “dia da consciência evangélica”. Fazem shows com os mais famosos artistas do segmento Gospel e elaboram projetos que não saem da órbita evangelical. Isso está errado e a Bíblia demonstra com exemplos.

José quando esteve no Egito era autoridade destacada. Acima dele apenas faraó. Ao interpretar o sonho do soberano egípcio e prever que haveria sete anos de fartura seguidos de sete anos de seca, teve a ideia de estocar alimentos para que quando viesse o período das “vacas magras”, o povo egípcio tivesse como se alimentar. Além do mais, povos vizinhos também puderam comprar alimentos e assim ir sobrevivendo num período de imensa dificuldade. José, um hebreu, na posição política que exercia tratou de realizar um bem comum. Toda a população - e não um segmento dela - foi beneficiada com aquele empreendimento. De igual modo, Daniel foi um administrador politico do império persa. Ele se destacou sobre os demais ao ponto do rei querer elevar a sua posição e coloca-lo como administrador de todo o reino e não apenas de uma província. A Bíblia nos diz que o político Daniel era “fiel; não era desonesto nem negligente”(Dn 6:4).

Outra passagem bíblica que não fala diretamente sobre governo, mas pode nos repassar um bom princípio, é Jeremias 29:7. O versículo diz o seguinte:

“Busquem a prosperidade da cidade para a qual eu os deportei e orem ao Senhor em favor dela, porque a prosperidade de vocês depende da prosperidade dela". 

O contexto corresponde ao período do cativeiro da Babilônia. O povo de Israel, deportado, teria de permanecer na cidade que não era a cidade santa de Jerusalém, mas a cidade de seus inimigos, e contribuir para a sua prosperidade. Foi uma ordem divina! Sabemos que para que um povo prospere, um cenário político favorável dá aquele empurrão para que as engrenagens da economia se movam a todo o vapor. Assim sendo, os judeus deveriam se envolver em toda e qualquer atividade que levasse a Babilônia ao caminho do progresso e da paz. Será que isso não envolve – em maior ou menor grau – um engajamento na esfera política?

O que pretendo demonstrar citando tais exemplos escriturísticos é que aquele que ingressa na política deve exercer o seu papel sem segmentar o público alvo. Os benefícios derivados da atuação de um político cristão devem refletir em toda a sociedade. E dentro de nosso ambiente plural, um político cristão também governa para ateus e pessoas de outros credos. Ele tem que ser representante destes grupos também e atender as demandas mais urgentes da sociedade. Se um político é alguém que deveria, ao menos em tese, servir a população, um cristão teria de ter uma atenção redobrada quanto a esta questão do servir, pois, este é o estilo de vida que o próprio Senhor Jesus adotou. O próprio disse que veio ao mundo para servir e não para ser servido (Mt 20:28).

Além da Bíblia, podemos extrair da história bons exemplos de cristãos que foram excelentes políticos. Lord Shaftesbury (1801-1885) foi membro do parlamento inglês por mais de quarenta anos. Um homem dedicado às causas humanitárias. Ele criou lei em prol do bem estar daqueles que eram os mais explorados pela revolução industrial, sobretudo crianças e mulheres. Seus projetos de lei eram pensados para amparar os párias da sociedade. Embora conhecido como “o evangélico dos evangélicos”, teve uma atuação não segmentada e legislou para todo o povo, sem acepções. Que os políticos brasileiros que compõem a bancada evangélica (ou conservadora) sigam tais modelos de gestão e façam com que os seus mandatos sejam relevantes para a nossa sociedade como um todo. Finalizo com mais uma citação do Pr. Franklin Ferreira:

Aqueles que servem a Deus na esfera pública, mesmo contaminada e distorcida pelo pecado, podem ver sua atuação política como um meio de glorificar ao Senhor, mas não precisam mencionar o nome santo nos palácios e centros de decisão política para justificar seu serviço público. [3]

Que o SENHOR abençoe o Brasil!





[1] Política Segundo a Bíblia. Edições Vida Nova, p.77.
[2] Contra a Idolatria do Estado. Edições Vida Nova, p. 45.
[3] Ibdem, p. 83. 

16 de mar de 2016

O Que a Minha Salvação Tem a Ver Com o Lulopetismo?

Por Pedro Pamplona*

O vocábulo “Lulopetismo” está em grande uso no Brasil. Há tempos ele foi criado, mas diante dos fatos recentes a palavra ganhou notoriedade. Já está, inclusive, na Wikipédia. A junção dos nomes de Lula e do Partido dos Trabalhadores traz a ideia de uma devoção ao partido por meio do seu principal representante. E é isso mesmo que acontece em nosso país. Hoje vemos um grande dualismo. Os petistas estão cada vez mais envolvidos pelo lulopetismo, enquanto o resto dos brasileiros estão cada vez mais enojados disso. Mas o que falar de nós que fomos salvos, ou melhor, regenerados para uma nova vida, coração e cosmovisão? Sim, cristãos regenerados estão se deixando envolver por esse culto político-religioso. A pergunta enfim é essa: o que minha salvação tem a ver com o lulopetismo?

O lulopetismo não é só uma opção política

Infelizmente essa visão ultrapassa as urnas. A devoção ao partido através de Lula transcende o ambiente eleitoral. Ele está impresso nos corações dos adeptos. O PT é tratado como uma religião e Lula como o salvador. Algumas semelhanças são nítidas e não podem ser negadas. Primeiro, as palavras de Lula são tratadas como verdades quase que absolutas. Para os lulopetistas não importa o que diz a justiça, a polícia, o povo, a mídia ou a oposição, Lula é infalível. Segundo, as promessas de Lula são objeto de uma fé extremamente forte por parte dos adeptos. Os lulopetistas creem de toda alma, mente e coração que o mundo será melhor através dele e de suas promessas. E terceiro, os lulopetistas são apologetas incríveis. Estão prontos a defender todos os argumentos contrários e incrédulos. Eles realmente construíram uma religião social. E o pior, uma religião cega, carente de verdades e bases racionais e históricas. Uma religião construída pelo culto marxista à personalidade. O que isso tem a ver com a fé para qual fomos regenerados? Nada!

O lulopetismo parte de uma antropologia mentirosa

Como eu citei, o lulopetismo é um culto marxista. E assim tem sua base filosófica no marxismo cultural. O que diz essa base sobre o homem e a religião? Vou deixar meu amigo Thiago Oliveira responder:

o marxismo tem características de religião. Uma religião secularizada – é bem verdade – pois tem sua base no materialismo. Marx era estudioso e admirador do materialismo de Epicuro. Este filósofo grego acreditava que o mundo era composto de átomos que do vazio (espaço) se movem verticalmente para baixo. É o desvio do movimento dos átomos que dá origem as coisas. O homem, fruto desse desvio, é um combinado de átomos pesados e leves, que formam respectivamente o corpo e a alma. Os epicuristas entendiam que a alma é mortal e não eterna, uma vez que todo composto atômico é dissolúvel. Epicuro rejeitava a ideia da eternidade dos corpos celestes, e pretendia livrar os homens das amarras da superstição religiosa. Embora não seja um determinismo, pois o desvio dos átomos aponta para uma gama de possibilidades não determinadas, o atomismo epicureu mantém as suas bases mecanicistas, sendo o homem e toda realidade material fruto da casualidade do movimento atômico. O jovem Marx manteve essa base ontológica para fundamentar o seu materialismo histórico. André Bieler esclarece assim o conceito materialista marxiano: “[...] conforme as suas concepções, é o material que precede e determina o espiritual, e não o contrário, como o ensina a ética cristã. [1]

Em outras palavras, o homem é fruto do acaso e busca sua realização e religião a partir do materialismo. O que isso tema ver com a fé para qual fomos regenerados? Nada!

O lulopetismo chega a uma soteriologia mentirosa

O Marxismo assume que o homem cria a religião para consolar a si mesmo diante das situações sociais opressoras. De novo, o materialismo é a gênese da religião. Isso é exatamente o que Marx fez e Gramsci melhorou. Eles criaram uma soterilogia (salvação) baseada no materialismo e na fuga dessa opressão social. Para eles a salvação está no fim da luta de classes e da relação opressor x oprimidos. E claro, eles definiram quem está de cada lado. E claro, eles querem acabar com a classe opressora. Mais uma vez Thiago Oliveira comenta muito bem:

Marx, junto com Engels, criou uma soteriologia ao anunciar o fim da opressão quando o proletariado se rebelar contra a burguesia e tomar o poder político e econômico, controlando os modos de produção e a máquina estatal. É um enredo religioso-escatológico […] Ora, isso frustra os marxistas que pregam o Reino dos Céus na terra, algo que não funcionará enquanto o pecado dominar o coração humano. [2]

Se pararmos para pensar, todo cristão lulopetisma está numa situação de soteriologias incompatíveis. Ele crê no reino de Deus descrito nas Escrituras e partindo do princípio do “já e ainda não” ou crê no ideal terreno do marxismo? Pergunto de novo: o que isso tem a ver com a fé para qual fomos regenerados? Nada!

Nem as manifestações de ontem [DOMINGO] me impressionaram mais do que a cegueira ideológica dos crentes da seita Lulopetista, esforçando-se com textões, comentários a torto e a direito e memes mentirosos para desqualificar a movimentação popular. Pior ainda, cristãos fazendo isso e igualando-se, na teimosia, aos “fascistas” que tanto temem (e com isso, dando infelizmente uma bela e inadvertida mãozinha a eles). Uma vergonha. [3]

Nossa regeneração é para uma renovação da mente

Romanos 12:2 nos lembra que a salvação, através da regeneração, é uma mudança de mente. Crer em Deus é crer de acordo com a cosmovisão revelada por Deus. E isso exclui o lulopetismo. As promessas de Deus a respeito da regeneração no antigo testamento falam que Deus imprimirá suas leis (intelectuais e práticas) na mente e nos corações do seu povo (DT 30:6, Jr 31:33, Ez 36:26-27). Fomos regenerados para uma antropologia e soteriologia cristãs. O lulopetismo não faz parte da agenda da nossa salvação. Ele não se encontra em lugar nenhum na pós-regeneração da ordo salutis. Um culto cego marxista ao PT por meio de Lula é uma religião idólatra. E para que não haja reclamações. Termino ampliando essa afirmação. O culto cego de qualquer ideologia secular a qualquer partido político por meio de qualquer personalidade divinizada é uma religião idólatra. Deixemos isso em nome de Jesus, o único pelo qual fomos regenerados para uma viva esperança eterna.

Se sabeis que ele é justo, sabeis que todo aquele que pratica a justiça é nascido dele.” 

1 João 2:29

P.S. Estou dizendo que todos o que se dizem crentes e que apresentam marcas do lulopetismo não são regenerados? Não. Estou dizendo que esse regenerados estão em pecado nessa área. E como todos os outros pecado há esperança no arrependimento por meio de Jesus.
 ________
[2]Ibid
[3]Perfil no Facebook do Guilherme de Carvalho