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27 de jan. de 2017

Os Símbolos Cristãos e sua Finalidade Histórica

Por Thomas Magnum

Acho interessante - e porque não dizer curioso - o evangelicismo brasileiro se afastou da simbólica cristã. De fato como diria o filósofo Mário Ferreira dos Santos, o símbolo faz parte do processo comunicativo normal do homem.

Obviamente temos inúmeras explicações históricas, por exemplo, o motivo dos evangélicos no Brasil não serem próximos a simbologia cristã, como o uso da cruz - por exemplo, o colarinho clerical, a falta de prédios de igrejas que possuam de fato uma arquitetura cristã. Em relação aos prédios é facilmente reconhecido que hoje em dia a praticidade para plantar uma igreja e ali funcionar os cultos não necessita de um prédio bonito, mas, de pessoas regeneradas. Isso é um fato que eu concordo, obviamente. No entanto, a questão é que os símbolos cristãos como cristogramas, a cruz, a pomba, o peixe, a âncora e as vestes pastorais comunicam algo.

Entendo que muitos evangélicos rejeitaram por exemplo a cruz nos templos por julgarem ser isso "católico". E se é católico não nos pertence, é maldito. Não esqueçamos que a igreja é católica. Ela está em todo mundo, ela é universal. Engraçado é que quando ocorre alguma apropriação indevida da simbologia cristã muitos então julgam que o correto é abandonar o símbolo. Por exemplo: palavras como promessa, bênção, maldição e decreto. Estas, são empregadas abusadamente e indevidamente por grupos neopentecostais heréticos. Mas, essas palavras carregam enorme significado teológico.

Os símbolos na história do cristianismo não tem como função a superstição, mas, o testemunho. A cruz vazia testemunha da morte do salvador, mas nos diz que a morte não o deteve. A gola clerical, simboliza que o ministro é um escravo da palavra. Sua garganta é um instrumento divino para pregação, ensino, aconselhamento e cuidado com o rebanho de Deus. A arte sacra em templos cristãos através de uma arquitetura ou outro meio que demonstre aos fiéis e aos infiéis a graça e glória de Deus são poderosos meios de testemunho. Não esqueçamos que a simbólica está presente na revelação de Deus, pois é um meio cognitivo. A sarça ardente, as colunas de fogo e a nuvem. A arca da aliança, o candelabro, o véu, a mesa, etc., claro que o significado completo destes símbolos foram cumpridos em Cristo. Mas veja que eles testemunhavam. A mística cristã histórica não ignorou a simbólica, mas, é verdade que houve abusos.

Não temos mais preocupação com templos arquitetonicamente cristãos, eu lamento por isso. Não digo que é norma, mas, é uma perca de oportunidade para o testemunho. Minha reflexão obviamente não é dogmática e tenho ciência da opinião por exemplo dos puritanos sobre a simbólica precedente no cristianismo. Meu objetivo não é desdizer o que os puritanos disseram. Mas nos lembrar que havia cristianismo antes da reforma. Algumas manifestações, mais puras e outras menos puras. A teologia não começa com Calvino. Foi ele de fato para mim o grande exegeta e teólogo da reforma. Mas, creio na catolicidade da igreja.

Não tenho a intensão - como disse - de normatizar nada, mas, de trazer a consciência de alguns que porventura gastaram tempo lendo esse texto, que nosso uso histórico da simbólica cristã tem valor testemunhal. Obviamente filtrando o que é bom.

26 de dez. de 2016

A Maravilha do Natal

Por Hugo Wagner Silveira Melo

Essa é uma época do ano quando, querendo ou não, somos levados a pensar no nascimento de Cristo. Eu desejaria que houvesse outros dias mais de Natal ao ano. Pois seriamos mais vezes levados a refletir sobre o Cristo que nasceu na Manjedoura. Charles H. Spurgeon falando sobre Natal diz:

“Posto que é legitimo e digno de elogio meditar na encarnação do Senhor em qualquer dia do ano, não está no poder das superstições de outros homens converter tal meditação imprópria no dia de hoje (Natal). Então, sem importar a data, devemos dá graças a Deus pelo dom de Seu Filho amado”. [1]

“O dia de Natal é realmente uma benção para nós... No entanto, ainda que não sigamos os passos de outras pessoas, não vejo dano algum em pensarmos na encarnação e no nascimento do Senhor Jesus”[2]

O evento do qual Spurgeon esta falado é totalmente bíblico. Nós celebramos o Natal porque não podemos erradicar a partir de nossa consciência a nossa profunda consciência da diferença entre o sagrado e o profano.  Quando Deus apareceu a Moisés na sarça ardente, o fundamento de que era anteriormente comum de repente se tornou raro. Agora era terra santa - espaço sagrado. Aonde Deus toca, torna-se lugar santo. Nunca houve um lugar mais santo do que a cidade de Belém, onde nasceu o Redentor. Como relatar a profecia: “E tu, Belém Efrata, posto que pequena entre os milhares de Judá, de ti me sairá o que governará em Israel, e cujas saídas são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade.” (Mq 5:2)

A palavra Belém quer dizer “casa de pão”; Efrata significa “Fecundidade” ou “abundância”. Ele teria que nascer em Belém Efrata, pois seria o alimento de seu povo, pois dali seria dado ao homem o pão da vida. Como também nos faria fecundos: Jesus é que nos faz fecundos. “Quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto” (João 15:5) Gloriosa Belém Efrata! Fértil casa de pão – a casa de abundante provisão para o povo de Deus! Nossos pobres corações infrutíferos e famintos, nunca produziram nenhum fruto, nenhuma flor e nem o pão que nos saciaria. É o seu nascimento que enriquece o solo de nossos corações, que alimenta a nossa alma faminta. Esse é o maravilhoso natal.

Passo a listar três razões pelas quais considero maravilhoso o nascimento de Cristo:

Em Primeiro Lugar, porque Declara a Fidelidade De Deus

Toda a história da Bíblia constrói um clímax, pré-anuncia o nascimento do Messias naquele estábulo a mais de dois mil anos atrás, essa historia, nos mostra a progressão da revelação de Deus quanto ao seu ato redentivo. 

Adão e Eva mal tinha digerido o fruto proibido quando Deus pronunciou a promessa de uma descendência que feriria o calcanhar da serpente (Gn 3.15). Em seguida, Deus escolheu a família de Abraão, para servir como um canal de bênção para todas as nações através do seu descendente, Cristo (Gl 3.16). Em cerca de mil anos antes do nascimento de Cristo; Deus escolheu Davi para ser rei sobre Israel. Não só o Messias será um descendente de Abraão, mas também um descendente do rei Davi, ele seria conhecido como a raiz Davi, no qual reinaria no trono por toda eternidade.

 Os profetas anunciavam a vinda do Messias; Aquele que seria a semente da mulher; O Emanuel – Deus conosco; O cabeça do pacto; Aquele que existia desde os tempos eternos: O Leão da tribo de Judá, cujo o seu Rugido ecoa até hoje; a grande Luz para os que andavam nas trevas e o Maravilhoso Tudo isso preparando o terreno para a chegada do Messias e para o cumprimento da promessa. Como bem falou Martyn Lloyd-Jones:

“Aqui esta o Grande cumprimento. E por isso vocês podem dar-se conta de que todos os profetas e salmistas do Velho Testamento viram isto. Eles olhavam para o futuro; sabiam que este evento iria cumprir todas as promessas...”[3]

O nascimento de Cristo nesse mundo é o cumprimento de todas as promessas de Deus. Quando Mateus abre seu Evangelho, ele apresenta Jesus como o filho de Abraão e filho de Davi, a organização da genealogia de Jesus estão em três séries de catorze gerações, cada uma desde Abraão até Davi, de Davi até o exílio, e desde o exílio até Jesus. Lucas, da mesma forma, mostra que, em Jesus, a uma infinidade de promessas feitas no passado que têm encontrado o seu cumprimento. João, finalmente, retrata Jesus como o verbo pré-existente de Deus que se fez carne e tabernaculou conosco.
Esta é a matriz messiânica tecida pelos escritores bíblicos sobre a história redentiva. Para aqueles que têm abraçado a mensagem do Natal - que Jesus é o restaurador e salvador do seu povo nascido de uma virgem por obra do Espirito Santo, essa é a história da redenção. Neste evento, vemos que Cristo cumpre o texto do antigo pacto. Ele cumpre as suas verdades e doutrinas.  Ele cumpre as suas cerimônias e rituais. Ele cumpre as suas promessas e profecias. Ele é o ponto central da história. E nesse sentido, vemos a fidelidade de Deus.
A Segunda razão pelo qual o nascimento de Cristo é maravilhoso: porque revela o Poder de Deus
Martyn Lloyd-Jones nos mostra que esse é o sentido do natal, é Deus revelar o seu poder:
“Deveria ser evidente por si mesmo que o que se anuncia é inteiramente de Deus. É o anuncio do que Deus fez, faz, e fará. Essa é a essência disso tudo... Deus fez. Deus manifestará o seu PODER. É disso que trata o natal”. [4]
O anjo declara a Maria: "O Espírito Santo virá sobre ti, e o poder do Altíssimo te encobrirá; portanto, a criança que vai nascer será chamado santo - o Filho de Deus "(Lc 1:35). Essa criança que nasceu normal, foi fruto da ação sobrenatural do Espirito em sua concepção, isso porque veio do seio do Pai. O nome do Altíssimo é o superlativo do termo grego para a altura. Em outras palavras, Deus é o mais alto: "Eis que o céu e o céu dos céus não te podem conter" (1 Rs 8:27.). Esta é a vinda do próprio Deus em forma humana. Esta é a chegada do unigênito do Pai, a humanização e a manifestação da onipotência Divina. 
Maria ficou perplexa por causa de tão grande revelação sobre aquele que haveria de nascer dela. Aquele filho que seria gerado em seu ventre é ao mesmo tempo filho do eterno de Deus. Essa criança que haveria de nascer de Maria tinha a procedência e todas as propriedades da natureza Divina, assim como haveria de ser um homem completo com todas as propriedades essenciais que um ser humano possui.
Sobre as duas naturezas de Cristo, Paulo nos ensina escrevendo aos Gálatas: “Mas vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu filho, nascido de mulher, nascido sob a lei” (Gl 4.4). Em Cristo, temos o criador e criatura, a força e fraqueza, o eterno e o temporal, a imutabilidade e mutabilidade, independência e dependência, o infinito e o finito. Em Cristo a natureza humana e a natureza divina estão unidas, mantendo-se distinta. Sua natureza humana absorver Sua natureza divina e sua natureza divina absorver Sua natureza humana. Ele é totalmente Deus e totalmente homem em uma pessoa. Isso é maravilhoso demais! Talvez você pergunte, por quê? Eu responderia dizendo que essa é a nossa única esperança de salvação. Se não houvesse a união das duas naturezas numa só pessoa, a pessoa Divina do verbo não poderia ser representante de pecadores. Pois se o salvador tivesse somente a natureza Divina, ele não poderia sofrer as penalidades divinas no lugar do pecador; Mas também o redentor deveria ser homem em todas as coisas. É isso, que o escritor aos hebreus nos diz: “Por isso convinha que, em todas as coisas, se tornasse semelhante aos irmãos”... (Hb 2.17). só assim, sendo homem, Cristo seria capaz de ser o nosso substituto. Como Deus, Cristo é capaz de suportar os nossos pecados sem ser corrompidos com eles. Se Ele tivesse sido um mero homem - embora um homem perfeito - Ele não podia ter assumido a imputação do nosso pecado sem ser corrompido por ele. Se Jesus fosse somente um homem, ele não poderia realizar ao nosso favor e nem em nosso lugar a obra para a qual veio. O redentor deveria ser verdadeiro Deus e verdadeiro homem para ser um poderoso salvador.
A Terceira e ultima razão por que o natal é maravilhoso: porque revela a Graça de Deus
Aqui Deus revela o proposito final do seu pacto da redenção e da graça; E o alvo final desse pacto é o Cristo. Natal é o anuncio da maravilhosa obra de Deus, é Deus descendo para salvar graciosamente o seu povo. O anjo declara a José: "Ela dará à luz um filho; e lhe porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos seus pecados" (Mt.1:21). Note que, Cristo salva o seu povo dos seus pecados. Por quê? Porque os nossos pecados nos afastam de Deus. Os nossos pecados ofendem a Deus. Como resultado, estamos sob a condenação Divina. Cristo salva o seu povo  dos seus pecados. Como? "Ele levou os nossos pecados em seu corpo sobre o madeiro..." (1 Ped. 2:24). Isso é substituição. Seu sangue satisfaz as santas exigências de Deus e por isso o natal é maravilhoso, porque é o derramar do perdão gracioso de Deus sobre pessoas indignas. É Deus nos dando aquilo que não merecemos. Isso é graça!
Vemos essa verdade na genealogia de Cristo. Abraão está listado nela; E o mesmo mentiu sobre a identidade da sua esposa, a fim de salvar sua própria pele. Jacó está listado; Ele foi um enganador, enganou seu próprio pai, enquanto ele estava deitado em seu leito de morte e também o seu próprio irmão. Davi está listado; Ele foi chamado o homem segundo Deus, o mesmo foi um adúltero e assassino. Ele tirou a vida de um homem, que teria de bom grado dado a sua. Rute está na lista; Ela é fruto de uma relação ilícita entre Ló e uma de suas filhas; Ela é uma moabita – de uma nação sob maldição! Quanta vergonha e desgraça! O que todas essas pessoas têm em comum conosco?  Uma natureza pecadora e totalmente necessitada da graça salvadora de Deus. Por isso Cristo veio, para salvar o seu povo dos seus pecados.
O nascimento de Jesus Cristo trouxe ao homem o evangelho da graça de Deus; É chamado de o “evangelho da graça” por que alcança o pecador num estado de miséria e de desmerecimento; por que anuncia a redenção sem que o pecador tenha que fazer coisa alguma, sendo uma obra exclusiva de Deus; E por isso Ele sendo Deus, tomou a forma de servo; Sendo o Criador, tornou-se uma criatura; Ele não tinha pecado, mas se fez pecado por nós; Ele era o prazer do Pai, mas Ele se tornou o objeto da ira Divina. Por que Ele fez isso? Ele fez tudo isso, a fim de salvar o seu povo dos seus pecados. Essa é a maravilha do Natal! 

BIBLIOGRAFIA

[1] Charles Haddon SPURGEON, “A Alegria Nascida em Belém” Ed. Projeto Spurgeon – Edição 24 de Dezembro de 1871, Newington, Londres. p.4

[2] Charles Haddon SPURGEON, “A Encarnação e o sofrimento de Cristo” Ed. Projeto Spurgeon – Edição 23 de Dezembro de 1855, Em New Park Street Chapel, Southark – Londres.. p.1

[3] Martyn Lloyd-Jones, “Sermões Natalinos” Exposição do Magnificat, Ed. PES - Bryntirion Press, 1ª Edição em Português 2009, p.67


[4] Martyn Lloyd-Jones, “Sermões Natalinos” Exposição do Magnificat, Ed. PES - Bryntirion Press, 1ª Edição em Português 2009, p.33

28 de mar. de 2016

Olhai e Sede Salvos da Morte

Por Thiago Oliveira

Texto Base: Números 21:4-9

4. Partiram eles do monte Hor pelo caminho do mar Vermelho, para contornarem a terra de Edom. Mas o povo ficou impaciente no caminho 5. e falou contra Deus e contra Moisés, dizendo: "Por que vocês nos tiraram do Egito para morrermos no deserto? Não há pão! Não há água! E nós detestamos esta comida miserável! " 6. Então o Senhor enviou serpentes venenosas que morderam o povo, e muitos morreram. 7. O povo foi a Moisés e disse: "Pecamos quando falamos contra o Senhor e contra você. Ore pedindo ao Senhor que tire as serpentes do meio de nós". E Moisés orou pelo povo. 8. O Senhor disse a Moisés: "Faça uma serpente e coloque-a no alto de um poste; quem for mordido e olhar para ela viverá". 9. Moisés fez então uma serpente de bronze e a colocou num poste. Quando alguém era mordido por uma serpente e olhava para a serpente de bronze, permanecia vivo.

INTRODUÇÃO

Os israelitas, ainda peregrinos no deserto sob a tutela de Moisés, tinham acabado de sair vitoriosos em campanha contra os cananeus. O Senhor havia entregado os seus inimigos em suas mãos. As cidades cananeias ficaram devastadas e após esta vitória, o que acontece? Os israelitas murmuram contra Deus e reclamam com Moisés ao seguirem em peregrinação. Isto custou à vida de muitos, pois, o Soberano puniu os murmuradores enviando serpentes venenosas que matavam aqueles a quem picavam. Todavia, após a súplica do povo para que o Senhor tivesse misericórdia deles, Deus ordenou que Moisés fizesse uma serpente de bronze e a pendurasse no posto. Esta serpente ficava erguida no centro do acampamento hebraico, e quem para ela olhasse após ser mordido, não morreria.

Esta história tem muito a nos dizer sobre aquele que - muitos anos depois - seria crucificado entre malfeitores. O próprio Jesus ao falar com Nicodemos cita esta passagem do Antigo Testamento para explicar a sua missão na terra. Ele diz:

Da mesma forma como Moisés levantou a serpente no deserto, assim também é necessário que o Filho do homem seja levantado, para que todo o que nele crer tenha a vida eterna”.

João 3:14,15

Fiquemos atentos às preciosas lições que emergem da Santa Escritura, tratando especialmente deste episódio que aconteceu no deserto com o povo de Deus.

A PEÇONHA DO PECADO

Certa feita, um pastor puritano disse que o pecado é o ventre de nossas dores (Thomas Watson). Ele está correto. Tudo que existe de ruim nesse mundo, e que para nós é externalizado, tem origem no íntimo dos seres humanos. O pecado que reside no coração do homem é o criadouro das mazelas que nos afligem. O pecado é um veneno e como tal não resulta em outra coisa senão morte. Neste texto de Números 21.4-9, vemos que o motivo dos hebreus serem afligidos pelas serpentes foi a sua murmuração, a sua descrença em Deus (vv. 4 à 6). Mesmo após o Senhor ter libertado aquele povo da escravidão no Egito, mesmo após ter sustentado o povo com provisões milagrosas de comida e bebida numa região desértica e mesmo dando-lhes vitória diante de inimigos mais numerosos e mais preparados, eles se queixam e cometem o absurdo de dizer que detestam a comida que veio diretamente do céu para satisfazer suas necessidades (o Maná).

Os hebreus deveriam dar graças a Deus constantemente. A Forma como o Senhor os conduzia era sobrenatural e ao mesmo tempo demonstrava cumplicidade. Deus era deles, comprometido em aliança a dar-lhes uma terra. Comprometido em fazê-los prosperar. Mas ao invés de ação de graças veio um ingrato murmúrio. Aquele povo rejeitava as benesses do Divino. Sua queixa demonstrava não apenas ingratidão. Demonstrava também incredulidade. Mesmo depois de tudo o que viram, ainda se deixaram levar pelo temor de morrer a míngua no deserto, pelo meio do caminho. Esqueceram de que Deus havia dito que os conduziria até um pedaço de chão que seria dado a eles como sua herdade. O Altíssimo os presentearia com a terra que “mana leite e mel”. Só que os hebreus duvidaram, queixaram-se e pagaram o preço pela sua conduta inaceitável.

As serpentes que atacaram o arraial dos israelitas, matando muitos deles, eram a personificação dos seus pecados e do efeito que este causa. A peçonha do pecado os feriu mortalmente. O que nasceu em seu íntimo tomou forma e eles viram o quão asqueroso era aquilo. Por isso meus irmãos, devemos ter cuidado com aquilo que cultivamos no solo de nossos corações, pois, se plantarmos murmúrio e incredulidade, colheremos mortandade. Precisamos ter a fé em Deus firme, e em tudo dar graças (1Ts 5.18). Tal como o maná foi rechaçado, Cristo, o pão do céu (Jo 6.51), também o foi e ainda é por muitos que escutam a boa nova e nela não se alegram nem depositam a sua fé. Que o Senhor nos livre de blasfemá-lo com nossa ingratidão e descrença. Precisamos ter a nossa fé fortalecida. Precisamos lembrar que o Senhor é fiel as suas promessas, sabendo que chegaremos a Canaã celestial. Mesmo que o percurso seja difícil e amargoso, não devemos esquecer que o destino final é doce, doce como o mais puro mel e refrescante como uma loção aromática. Tenhamos fé, Deus é aquele que nos guia e nos guarda.

SALVAÇÃO E IDENTIFICAÇÃO

Quando o povo reconheceu que as serpentes que o atacava eram resultantes de sua conduta pecaminosa, foram até Moisés e pediram para que o líder que Deus lhes dera, também rejeitado em seu murmúrio, intercedesse em favor deles. Moisés orou e recebeu a ordem de fazer a serpente de bronze e pendurá-la num poste (vv. 7 e 8). O curioso é que para serem salvos, as pessoas picadas deveriam olhar para a imagem que remetia justamente ao animal que lhes causou dolo. Por que disto?

Deus ao revelar-se ao seu povo, sempre apontou para o Salvador que haveria de vir e com isso deu algumas “pistas” de como seria e o que faria esse a quem Ele iria enviar. No linguajar teológico chamamos estas “pistas” de tipologia. Aquela serpente que foi levantada entre os hebreus tipificava Cristo, alçado fora dos muros de Jerusalém. Como vimos na introdução, o próprio Jesus fez uso da serpente de bronze ao falar sobre si mesmo. Vejamos as semelhanças que fazem com que o tipo do Antigo Testamento apontasse para o Cristo:

1. Ambos foram pendurados num madeiro e ficaram expostos, à vista de toda a população.

2. Aquele que fosse envenenado tinha que olhar para a serpente de bronze para ser curado. Semelhantemente, o veneno do pecado é curado quando o pecador olha com fé para o Cristo da cruz.

3. Se para obter a cura, a pessoa veria a imagem do animal que lhe causou dano, de igual modo, para ser liberto do pecado, Cristo assumiu a forma do mais vil pecador, mesmo sendo santo. O pecador que olha Jesus moído na cruz vê que n’Ele foram depositados os seus próprios pecados.

Logo, concluímos que no elemento da salvação há também identificação. Jesus tinha uma imagem de homem comum, e quando sucumbiu na cruz, entre dois ladrões adquiriu a imagem de um bandido. O profeta Isaías vai dizer que o seu semblante era o de um homem no qual escondemos o rosto em desprezo (Is 53.3). Aquele que não tinha pecado assumiu a forma de pecador (2Co 5.21) para garantir cura a todo o que n’Ele crê.  

BASTA OLHAR

Deus ao providenciar a cura após a confissão de pecados do povo, bem poderia ter feito com que eles “cortassem um dobrado” para que não morressem. A ideia de penitência é muito comum em diversas religiões e escritos mitológicos antigos. O maior dos heróis gregos, Hércules, segundo a lenda, teve que realizar 12 trabalhos para recuperar sua honra após ter assassinado esposa e filhos num arroubo de loucura. Mas Deus não cobra nenhuma espécie de penitência. Não há nenhum tipo de trabalho ordenado com o intuito de purgar os pecados. A forma de encontrar cura seria apenas olhar para a serpente de bronze (v.9). Olhar? Algo que não denota esforço. Uma tarefa simples que não leva em conta força ou capacidade intelectual.

Assim mesmo é com a nossa salvação. Em Isaías 45.22 lemos o seguinte:

Olhai para mim, e sereis salvos, vós, todos os termos da terra; porque eu sou Deus, e não há outro”.

Um dos maiores pregadores que esse mundo já viu, Charles Spurgeon, se converteu após um homem comum pregar com base neste versículo, pois por alguma razão – possivelmente uma nevasca – o pastor não compareceu,  e conclamá-lo a olhar para Cristo. O próprio Spurgeon em sua autobiografia conta como se deu:

Então, erguendo as mãos, bradou como só um metodista primitivo pode fazer: ‘Jovem, olhe para Jesus Cristo! Olhe! Olhe! Olhe! Você não tem nada a fazer senão olhar e viver!’. Eu vi de uma vez o caminho da salvação. Não recordo de mais nada que aquele homem simples disse, pois fiquei tomado com aquele pensamento. Como quando a serpente de bronze foi levantada, e o povo somente olhava e ficava curado, assim foi comigo. Eu estava esperando fazer cinquenta coisas, mas quando eu ouvi aquela palavra ‘Olhe!’, que palavra fascinante ela pareceu a mim. Oh! Eu olhei até quase não poder tirar os olhos! Então a nuvem se foi, as trevas foram retiradas, e naquele momento eu vi o Sol”.

APLICAÇÕES

1. Reconheça que seus pecados não te levarão a nenhum outro lugar que não seja o vale da sombra da morte e clame ao Senhor por misericórdia, pois, um coração quebrantado e contrito o Senhor não despreza (Sl 51.17). Vá até ele com lágrimas de arrependimento e Ele transformará teu pranto em riso ao salvar você da condenação e da morte.

2. Compreenda que no sacrifício na cruz havia um inocente que foi maltratado no lugar dos homens pecadores. Ao contemplar a imagem do crucificado, saiba que sobre os seus ombros residiam os teus pecados e não os d’Ele. Ele sempre foi e sempre será o Santo dos santos. Jesus recebeu o castigo que nos traz a paz e pelas suas chagas somos sarados (Is 53.5). Creia nisso e confesse que o Filho de Deus é teu redentor e teu senhor.

3. Olhe com os olhos da fé para Jesus, deixe tudo para trás e siga-o. Quer a cura? É simples, olhe para cruz e creia em Cristo. Você não precisa fazer nenhum ato de penitência. Não há trabalho para te fazer livrar do pecado. Olhe para Jesus e veja o fardo ser desatado de suas costas e rolar morro abaixo. Aos pés da cruz você encontrará vida e paz. Aos pés de Cristo você terá perdão e purificação. Olhe! Olhe! Olhe para cruz e siga a Jesus Cristo!

21 de mar. de 2016

O que esperar de um político cristão?

Por Thiago Oliveira

Lugar De cristão é na política? E porque não seria? Uma das coisas que herdamos da reforma é que toda vocação, inclusive a política, glorifica a Deus. João Calvino dedica parte de sua obra máxima, as Institutas, para falar sobre política e enaltece o trabalho dos magistrados, isto é, os que integram o poder do Estado. O próprio apóstolo Paulo diz que os governantes são servos de Deus e que sua autoridade é derivada do próprio SENHOR (Rm 13.1-7). Ademais, os cristãos foram chamados para exercer o que na teologia chamamos de “mandato cultural”. Exercer este mandato é se integrar ao mundo criado por Deus e administrá-lo com excelência, observando as leis divinas para o louvor do Criador. O poder político está intensamente ligado ao mandato cultural dos homens. No entanto, precisamos ressaltar que a postura política de um cristão deve ser íntegra e se ele almeja participar do poder político, deve manter-se fiel a ética contida na Bíblia Sagrada e por ela se guiar.

O teólogo Wayne Grudem, ao escrever sobre o papel do cristão na política, afirma o seguinte:

(...) os cristãos devem procurar influenciar o governo civil conforme os padrões morais de Deus e conforme os propósitos de Deus para o governo revelados na Bíblia (e devidamente compreendidos). Enquanto os cristãos exercem essa influência, porém, devem continuar a proteger a liberdade religiosa de todos os cidadãos. Além disso, a "influência expressiva" não é sinônimo de influência irada, beligerante, intolerante, julgadora, desatinada e cheia de ódio, mas sim uma influência cativante, gentil, solícita, amável, persuasiva, própria para cada circunstância e que sempre protege o direito do outro discordar. Ao mesmo tempo, é firme no que se refere à veracidade e à excelência moral dos ensinamentos da palavra de Deus.[1]

Outra coisa de suma importância é ter preparo. Uma carreira na política demanda vocação e conhecimento dos mecanismos do poder. Ademais, a política não é imparcial. Ela está encharcada de ideologia, sendo que tais ideologias são, em grande parte, antagônicas a fé cristã. O Pr. Franklin Ferreira é bastante feliz em sua colocação, ao dizer que:  

Os políticos cristãos devem saber utilizar as várias disciplinas acadêmicas para desenvolver uma cosmovisão cristã que permita, de um lado, identificar as premissas das posições filosóficas e religiosas que mais influenciam a sociedade e, de outro, oferecer respostas respeitáveis satisfatórias, com base na fé cristã.[2]

Infelizmente, muitos políticos que se denominam evangélicos, têm dado um mau testemunho, parecendo ignorar o preceito bíblico de que deveriam ser luzeiros deste mundo. Muitos, não todos, também fazem das igrejas um curral eleitoral e cumprem seus mandatos beneficiando apenas os seus eleitores “crentes”. Eles promovem eventos como “marchas para Jesus” e “dia da consciência evangélica”. Fazem shows com os mais famosos artistas do segmento Gospel e elaboram projetos que não saem da órbita evangelical. Isso está errado e a Bíblia demonstra com exemplos.

José quando esteve no Egito era autoridade destacada. Acima dele apenas faraó. Ao interpretar o sonho do soberano egípcio e prever que haveria sete anos de fartura seguidos de sete anos de seca, teve a ideia de estocar alimentos para que quando viesse o período das “vacas magras”, o povo egípcio tivesse como se alimentar. Além do mais, povos vizinhos também puderam comprar alimentos e assim ir sobrevivendo num período de imensa dificuldade. José, um hebreu, na posição política que exercia tratou de realizar um bem comum. Toda a população - e não um segmento dela - foi beneficiada com aquele empreendimento. De igual modo, Daniel foi um administrador politico do império persa. Ele se destacou sobre os demais ao ponto do rei querer elevar a sua posição e coloca-lo como administrador de todo o reino e não apenas de uma província. A Bíblia nos diz que o político Daniel era “fiel; não era desonesto nem negligente”(Dn 6:4).

Outra passagem bíblica que não fala diretamente sobre governo, mas pode nos repassar um bom princípio, é Jeremias 29:7. O versículo diz o seguinte:

“Busquem a prosperidade da cidade para a qual eu os deportei e orem ao Senhor em favor dela, porque a prosperidade de vocês depende da prosperidade dela". 

O contexto corresponde ao período do cativeiro da Babilônia. O povo de Israel, deportado, teria de permanecer na cidade que não era a cidade santa de Jerusalém, mas a cidade de seus inimigos, e contribuir para a sua prosperidade. Foi uma ordem divina! Sabemos que para que um povo prospere, um cenário político favorável dá aquele empurrão para que as engrenagens da economia se movam a todo o vapor. Assim sendo, os judeus deveriam se envolver em toda e qualquer atividade que levasse a Babilônia ao caminho do progresso e da paz. Será que isso não envolve – em maior ou menor grau – um engajamento na esfera política?

O que pretendo demonstrar citando tais exemplos escriturísticos é que aquele que ingressa na política deve exercer o seu papel sem segmentar o público alvo. Os benefícios derivados da atuação de um político cristão devem refletir em toda a sociedade. E dentro de nosso ambiente plural, um político cristão também governa para ateus e pessoas de outros credos. Ele tem que ser representante destes grupos também e atender as demandas mais urgentes da sociedade. Se um político é alguém que deveria, ao menos em tese, servir a população, um cristão teria de ter uma atenção redobrada quanto a esta questão do servir, pois, este é o estilo de vida que o próprio Senhor Jesus adotou. O próprio disse que veio ao mundo para servir e não para ser servido (Mt 20:28).

Além da Bíblia, podemos extrair da história bons exemplos de cristãos que foram excelentes políticos. Lord Shaftesbury (1801-1885) foi membro do parlamento inglês por mais de quarenta anos. Um homem dedicado às causas humanitárias. Ele criou lei em prol do bem estar daqueles que eram os mais explorados pela revolução industrial, sobretudo crianças e mulheres. Seus projetos de lei eram pensados para amparar os párias da sociedade. Embora conhecido como “o evangélico dos evangélicos”, teve uma atuação não segmentada e legislou para todo o povo, sem acepções. Que os políticos brasileiros que compõem a bancada evangélica (ou conservadora) sigam tais modelos de gestão e façam com que os seus mandatos sejam relevantes para a nossa sociedade como um todo. Finalizo com mais uma citação do Pr. Franklin Ferreira:

Aqueles que servem a Deus na esfera pública, mesmo contaminada e distorcida pelo pecado, podem ver sua atuação política como um meio de glorificar ao Senhor, mas não precisam mencionar o nome santo nos palácios e centros de decisão política para justificar seu serviço público. [3]

Que o SENHOR abençoe o Brasil!





[1] Política Segundo a Bíblia. Edições Vida Nova, p.77.
[2] Contra a Idolatria do Estado. Edições Vida Nova, p. 45.
[3] Ibdem, p. 83. 

4 de mar. de 2016

Da "Liquidez" da Membresia da Igreja

Por Alan Rennê Alexandrino

Já é bastante conhecido o conceito de “liquidez” utilizado pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman. De acordo com ele, as relações humanas experimentaram uma drástica mudança durante a pós-modernidade, também chamada por ele de “modernidade líquida”. Bauman afirma que ideologias fortes ou “sólidas” características da modernidade deram lugar a ideologias “líquidas” marcadas pela fragilidade, pela incerteza e pela inevitabilidade de rompimento: “Os líquidos, diferentemente dos sólidos, não mantêm sua forma com facilidade [...] os fluídos não se atêm muito a qualquer forma e estão constantemente prontos (e propensos) a mudá-la”.[1]

A liquidez característica da pós-modernidade atinge todos os aspectos da existência do ser humano. A vida, em si mesma, é fortemente influenciada: “A vida líquida é uma vida precária, vivida em condições de incerteza constante”.[2] Consequentemente, os relacionamentos do ser humano também passam a ser caracterizados por esta fluidez. Outrora as pessoas faziam questão de cultivar relacionamentos profundos e duradouros. Um relacionamento que, porventura, viesse a enfrentar dificuldades não seria descartado. Antes, tudo aquilo que pudesse ser feito para salvar o relacionamento certamente seria feito. As relações afetivas do ser humano eram sólidas, por assim dizer. No entanto, com o advento da pós-modernidade as coisas mudaram. Relacionamentos são iniciados já com a certeza de que nem se aprofundarão nem durarão muito tempo. E, uma vez que há uma indisposição em se cultivar relacionamentos profundos, as pessoas fazem a opção pelos chamados “relacionamentos virtuais”, pois, como pontua Bauman:

Diferentemente dos “relacionamentos reais”, é fácil entrar e sair dos “relacionamentos virtuais”. Em comparação com a “coisa autêntica”, pesada, lenta e confusa, eles parecem inteligentes e limpos, fáceis de usar, compreender e manusear. Entrevistado a respeito da crescente popularidade do namoro pela Internet, em detrimento dos bares para solteiros e das seções especializadas dos jornais e revistas, um jovem de 28 anos da Universidade de Bath apontou uma vantagem decisiva da relação eletrônica: “Sempre se pode apertar a tecla de deletar”.[3]

Eu acredito firmemente que o que é afirmado aqui por Bauman pode ser aplicado à maneira como as pessoas se relacionam com suas igrejas locais em nossos dias. O relacionamento dessas pessoas com a igreja ou, em outras palavras, o seu compromisso como membros de uma igreja local também tem sido marcado pelo conceito de “liquidez”. Praticamente não há mais nenhum senso de pertencimento. Profissões de fé e batismos – que assinalam a entrada da pessoa na comunidade pactual – são feitos; promessas e votos a Deus e diante da igreja reunida são feitos; porém, em muitos casos, não há a menor intenção de se honrar tais promessas e votos. Não são raros os casos em que uma pessoa, pouco tempo depois dos votos assumidos por ocasião do seu batismo e profissão de fé, simplesmente deixa de ir à igreja e passa a frequentar outra. E é aterrorizante como praticamente ninguém vê problema neste tipo de prática.

Entretanto, numa época quando as pessoas não honram nem mesmo os seus votos matrimoniais, não é de admirar que elas se vejam indispostas a honrarem os votos que, como membros da igreja, um dia fizeram. Uma vez que casam imbuídos daquela mentalidade que diz que, “se não der certo, então, é só separar”, elas também assumem compromissos e fazem votos de membresia dispostos a quebrarem esses votos tão logo a igreja deixe de lhes satisfazer. Sobre isso, é interessante a maneira como Timothy Keller, escrevendo sobre o matrimônio, trabalha o conceito de relação de consumo. De acordo com ele, as relações de consumo “duram apenas o tempo necessário para que um fornecedor supra suas necessidades por um preço que você considere aceitável. Se outro fornecedor oferecer serviços melhores ou os mesmos serviços a um custo reduzido, você não tem obrigação nenhuma de manter a relação com o primeiro fornecedor”.[4] Nesse tipo de relação de consumo o que é importante é a satisfação das necessidades do consumidor, não o relacionamento em si. É exatamente dessa forma que outros relacionamentos além do casamento, como o compromisso da membresia têm sido tratados:

Os sociólogos argumentam que, na sociedade ocidental contemporânea, o mercado se tornou tão dominante que o modelo de consumo caracteriza cada vez mais relacionamentos que, historicamente, eram alianças, inclusive o casamento. Hoje em dia, mantemos os vínculos com as pessoas enquanto elas suprem nossas necessidades por um custo aceitável. Quando deixamos de lucrar com a relação – ou seja, quando o relacionamento parece exigir de nós mais apoio e amor do que estamos recebendo – saímos dele para “minimizar o prejuízo”.[5]

Afirmações como: “Não fui acolhido!”, “Não fui amado!” ou “Nunca se importaram comigo!” são amostras dessa mentalidade apontada por Keller. É claro que existem razões que justificam que uma pessoa deixe uma determinada igreja, da mesma forma como existem razões apontadas pelas Sagradas Escrituras, que permitem que uma pessoa se divorcie do seu cônjuge (Mateus 19.9; 1Coríntios 7.15). John H. Gerstner aponta que todos nós temos o solene dever de pertencermos a uma igreja visível. No entanto, resta a pergunta: “Quando devemos deixar uma igreja?” Gerstner responde: “A hora óbvia de se deixar uma igreja visível é quando a mesma deixa de ser uma igreja”.[6] E quando é que uma igreja visível deixa de ser uma igreja? Quando ela nega o evangelho de Jesus Cristo. Uma igreja deixa de ser igreja quando ela passa a abraçar outro evangelho que não aquele pregado pelos apóstolos: “Mas, ainda que nós mesmos ou mesmo um anjo vindo do céu vos pregue evangelho que vá além do que vos temos pregado, seja anátema. Assim, como já dissemos, e agora repito, se alguém vos prega evangelho que vá além daquele que recebestes, seja anátema” (Gálatas 1.8-9). Uma igreja local – ou uma denominação – deixa de ser igreja quando, por exemplo, abraça o demoníaco liberalismo teológico e todas as suas implicações, como a ordenação de homossexuais. Sendo este o caso, é imperativo que deixemos a comunhão dessa igreja. Porém, quando este não é o caso, não temos permissão para quebrarmos o voto de membresia: “Certamente, jamais devemos deixar uma igreja antes que o próprio Cristo o exija. Se ele não nos separar, não nos atrevamos a separar; se ele nos separar, não nos atrevamos a ficar. Mas ele é muito mais relutante em nos separar do que nós somos”.[7]

Outra razão que justifica a quebra dos votos de membresia, de acordo com Gerstner, é “quando uma igreja exige que neguemos o que acreditamos ou acreditemos no que negamos”[8], isto é, quando uma igreja exige que neguemos uma doutrina não essencial que é crida por nós ou que abracemos uma que não é crida.

Mas o que se vê, hoje, no meio da igreja evangélica é de causar vergonha. As pessoas se separam de uma igreja local pelos motivos mais fúteis que se possa imaginar:

- Um casal de namorados põe fim no relacionamento. Então, um dos dois decide sair da igreja, para não encontrar mais o ex.

- Um membro da igreja é disciplinado por causa de um pecado cometido. Então, decide deixar a igreja e procurar uma que o receba “da maneira como ele está”.

- Termina o mandato de um determinado pastor naquela igreja local e ele assume o pastorado de outra igreja. Vários membros da antiga igreja resolvem deixá-la, a fim de seguirem o seu pastor aonde quer que ele vá.

- A pregação do novo pastor, conquanto fiel, não agrada a algumas pessoas. Então, elas rompem a membresia da igreja e procuram uma igreja onde a pregação do pastor lhes seja agradável.

- Uma família resolve deixar a igreja depois de muitos anos, afirmando não ter sido acolhida, amada, assistida pela igreja local.

- Um membro da igreja é contrariado por uma decisão do Conselho da igreja local. Insatisfeito, ele abandona a igreja e procura outra.

- Um membro da igreja fica aborrecido por uma correção pastoral. O que se segue é o rompimento dos vínculos com a igreja.

Enfim, existe uma infinidade de razões tolas, fúteis e até pecaminosas pelas quais os votos de membresia são rompidos nos nossos dias. Piora quando pastores de outras igrejas locais, destituídos de qualquer senso ético, contribuem com esse tipo de coisa ao estimularem tal comportamento. Não há mais a menor disposição de se permanecer numa igreja local, ainda que a sua pregação e exercício da disciplina sejam fiéis e a administração dos sacramentos correta. Ouço inúmeras histórias de uma época quando as pessoas e famílias estavam dispostas a permanecerem em suas igrejas locais, independentemente de qualquer coisa. Quando algum membro da família era disciplinado, a última coisa que passava pela mente da família era romper os votos assumidos no dia da profissão de fé. Alegra-me o coração ouvir de alguns dos meus paroquianos que são membros da igreja e discípulos de Cristo, não dos pastores que um dia passaram pela igreja. Não obstante, para a grande maioria das pessoas hoje é diferente. O que importa é se a igreja atende às expectativas do indivíduo. O que interessa para a pessoa é se a igreja local a serve. A pessoa está ali para ser servida, agradada e, jamais, pode ter suas expectativas frustradas e seus anseios negados. Ir contra as suas expectativas pode significar “perdê-la”. Eu fico me perguntando até onde esta postura reflete a mentalidade consumista da nossa época. Se uma determinada prestadora de serviço não está te satisfazendo, então, procure outra. Se determinada marca de macarrão caiu de qualidade e/ou aumentou o preço, então, basta procurar outras marcas. Há uma ampla variedade de marcas disponíveis. Tudo visando a satisfação do cliente e consumidor.

Aquilo que Bauman chama de “liquidez” e que eu apliquei aqui à maneira como muitas pessoas tratam os seus votos e juramentos quanto à membresia na igreja local, pode ser identificado com alguns conceitos presentes nas Sagradas Escrituras. Por exemplo, em seu famoso sermão escatológico o Senhor Jesus Cristo afirmou: “E, por se multiplicar a iniquidade, o amor se esfriará de quase todos” (Mateus 24.12). Acredito não ser uma violação da hermenêutica bíblica entender que essas palavras podem ser aplicadas ao assunto aqui abordado. O amor pela igreja local tem esfriado. O senso de pertencimento tem arrefecido. Hoje a iniquidade fez com que os padrões estejam completamente invertidos. Antigamente, a principal razão de alguém amar uma igreja local era porque ali a verdade estava presente: “O presbítero à senhora eleita e aos seus filhos, a quem eu amo na verdade e não somente eu, mas também todos os que conhecem a verdade, por causa da verdade que permanece em nós e conosco estará para sempre” (2 João 1-2). As pessoas amavam a igreja por entenderem que ela foi amada por Deus também. Nossos pais na fé reformada amavam uma igreja onde a Palavra de Deus era pregada fielmente, os sacramentos eram administrados corretamente e a disciplina era exercitada. Eles amavam uma igreja assim, mesmo que ela ficasse localizada em lugares inóspitos. Porém, em nossos dias isso mudou drasticamente. A verdade já não é mais o motivo pelo qual as pessoas amam uma igreja e se doam a ela. Hoje, o critério que determina o “amor” é se determinada igreja ou determinado lugar faz com que as pessoas se sintam bem.

Da mesma forma, o apóstolo Paulo afirmou a Timóteo que nos últimos dias os homens seriam egoístas e desafeiçoados (2Timóteo 3.2-3). Além disso, falando a respeito de muitos cristãos professos, Paulo afirmou que muitos não suportariam a sã doutrina e se cercariam de mestres que atendessem exatamente aos seus desejos mais egoístas (4.3).

Este tipo de mentalidade danosa precisa ser extirpada do meio do povo de Deus. O pastor batista Mark Dever afirma que uma das marcas de uma igreja verdadeiramente saudável é um entendimento bíblico acerca da membresia da igreja.[9] Semelhantemente, Thabiti Anyabwile afirma que um membro de igreja saudável é aquele que é um membro comprometido com a sua igreja local, o que inclui a permanência e o senso de pertencimento.[10] E é a minha convicção de que a atual prática prevalecente e frouxa dos nossos dias só poderá ser mudada a partir do ensino e de uma maior seriedade no momento do exame de algum candidato à membresia da igreja.

Em Cristo,



[1] Zygmunt Bauman. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005. p. 8.
[2] Zygmunt Bauman. Vida Líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005. p. 8.
[3] Zygmunt Bauman. Amor Líquido: Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003. p. 13.
[4] Timothy Keller e Kathy Keller. O Significado do Casamento. São Paulo: Vida Nova, 2012. p. 99.
[5] Ibid. p. 100.
[6] John H. Gerstner. “Guia-me, Ó Grande Yahweh!”. In: Don Kistler (Ed.). Avante, Soldados de Cristo: Uma Reafirmação Bíblica da Igreja. São Paulo: Cultura Cristã, 2010. p. 177.
[7] Ibid. p. 178.
[8] Ibid. p. 183.
[9] Mark Dever. Nove Marcas de uma Igreja Saudável. São José dos Campos: Fiel, 2007. pp. 159-180.
[10] Thabiti Anyabwile. O que É um Membro de Igreja Saudável? São José dos Campos: Fiel, 2010. pp. 65-74.

2 de mar. de 2016

Por Uma Cosmovisão Cristã

Por Thomas Magnum

O tipo de óculos que usamos faz muita diferença. Calma. Não iremos falar das últimas tendências da moda para uso de acessórios, nem pretendemos fazer uma abordagem oftalmológica. Trataremos um pouco sobre a importância da cosmovisão, a forma em que vemos o mundo ou a nossa percepção dele. Também não se refere a um mero olhar, mas, a nossa capacidade de absorção, análise e emprego do que nos envolve, e em nosso caso a relevância do cristianismo para todas as esferas da vida.

A igreja tem uma missão, sua missão está pautada no que a Palavra de Deus revela. No entanto, é notório percebermos como existe uma disparidade entre o que muitos cristãos creem e no que eles vivem. Há uma crença geral (errônea) em que o cristão tem uma vida sagrada e outra secular. Há uma defesa de que o sagrado é somente aquilo ligado as atividades diretas da igreja como organismo e instituição. No entanto não temos essa distinção nas Escrituras Sagradas. Um dos importantes ensinos resgatados na reforma protestante foi o da vocação, do sacerdócio universal de todos os crentes. A vocação não está restrita somente ao pastor, ao mestre ou a todo que está ligado ao trabalho interno da igreja, mas, também, ao advogado, ao médico, ao psicólogo, ao jornalista, ao engenheiro. O entendimento da vocação nos leva a compreensão de que todas as nossas atividades são para glória de Deus. A cosmovisão bíblica propõe pensarmos o mundo de forma cristã, sem uma antiga abordagem grega de matéria e forma, ou uma desenvolvida visão platônica de natureza e graça, separando em dois andares, inferior e superior àquilo que Deus estabeleceu de forma integral para seu povo. Para o cristianismo bíblico não há uma dualidade entre a fé e nossa ação no mundo. Fomos chamados para ser sal da terra e luz do mundo. Notemos que não podemos empregar um entendimento abismal transcendente para a igreja, como se ela não devesse se engajar em nada desse mundo, percebamos que somos sal da terra, estamos na terra e luz do mundo, estamos no mundo; mundo criado por Deus. A missão está em glorificarmos a Deus em todas as esferas de atuação em que estivermos inseridos.

Vamos a uma definição de fato: Cosmovisão é totalidade da forma que vemos o mundo, é a nossa percepção de mundo. Essa visão nos leva inevitavelmente a uma práxis. A cosmovisão tratará ou causará problemas teológicos, antropológicos, sociológicos, espirituais e psicológicos no homem. Somente a cosmovisão cristã possui a compreensão da realidade total da criação e da criatura. Sem uma cosmovisão que tenha base na revelação de Deus que é a verdade total (Jo 8.32,26; Jo 14.6; Rm 3.11), o homem não terá uma correta e ampla percepção da realidade e do significado da vida. O evangelho não nos foi dado apenas para sermos libertos do pecado e redimidos para salvação, nos foi dado para vivermos conforme Deus planejou, de forma a glorificá-lo em nosso viver. E esse viver não está restrito a vida dentro dos parâmetros da igreja, mas, nossa adoração a Deus deve permear todas as nossas atividades.

Uma cosmovisão reformacional será teocêntrica. Deus é o centro, é o ponto primeiro e último para pensamos sobre o mundo – ciência, artes, política, família, sociedade, trabalho, sexo, relacionamentos. Deus é a origem e a finalidade de tudo que há. A visão antropocêntrica tem invadido o mundo desde lampejos da renascença e posteriormente do Iluminismo, a visão teocêntrica que era forte no mundo ocidental por conta da igreja foi sendo abandonada e esquecida. As consequências disso têm sido incalculáveis.

Ao tratarmos do assunto estamos sobre bases bíblicas dos mandatos em Gênesis 1.26-30. Esses mandatos dados ao primeiro casal no Éden são para nós ainda hoje. O domínio sobre a criação, o mandato para multiplicar-se e sua vida voltada para adoração e glória do Criador são preceitos que todo cristão deve observar. Nossa vocação deve ser para glória de Deus, nossa família e relacionamentos devem ser moldados pelas Escrituras que consequentemente renderão glória a Deus e não de menos importância nosso culto, seja ele individual, familiar ou público é prescrito pela Escritura para nosso bem, para seguirmos conforme Deus tem revelado em sua Palavra.

A percepção reformada de mundo tem sua base na teologia do pacto. Um pacto que é soberanamente administrado. Esse pacto envolve os deveres e benefícios graciosos dados ao povo eleito descritos na revelação. A teologia bíblica é orgânica e progressiva, mostrando em toda a revelação que o homem deve viver com base naquilo que foi dado por Deus em sua lei. A cosmovisão com essa base pactual, vai atentar para os mandatos pactuais – cultural, social e espiritual descritos nos primeiros capítulos do livro do Gênesis. Esses mandatos não foram retirados do povo da aliança, eles permanecem, ainda que a queda tenha causado uma tensão quanto a eles. A tensão ocorre por causa na nossa natureza do caída. Mas no processo revelacional de Criação, queda, redenção e consumação, é evidente na Escritura, o ensino de que devemos guardar estes mandatos. Logo, temos tanto uma missão de preservação da família (no mandato social) quanto nas tarefas sociais (mandato cultural) como: arte, política, vida intelectual, negócios, administração de bens materiais etc., também com os dois mandatos anteriores o mandato espiritual. Nossa vida piedosa, a vida religiosa, vivida com o fim de glorificar a Deus em nosso culto. É importante notar que a palavra culto deu origem a cultura, temos o dever de glorificar a Deus em todas as áreas da vida, como nos diz a primeira pergunta do breve catecismo de Westminster:

PERGUNTA 1: Qual é o fim principal do homem?

RESPOSTA: O fim principal do homem é glorificar a Deus, e gozá-lo para sempre.

O catecismo assevera o que foi registrado pelo autor do texto sagrado:

“Portanto, quer comais quer bebais, ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para glória de Deus”.

1 Coríntios 10:31

Notemos que nas coisas mais básicas da vida como comer e beber devemos glorificar a Deus, quanto mais em nossas atividades diárias, ministeriais, profissionais, familiar e até no lazer? A cosmovisão cristã não abraça o ideal grego de um hiato entre natureza e graça, mas, pelo contrário o cristianismo bíblico dirá que toda a atividade humana do povo da aliança será para glória de Deus. Percebamos que isso gera um impulso para uma melhora nas esferas de atuação humana como no campo do conhecimento, notemos aqui a influência do cristianismo no crescimento da ciência e na revolução cientifica, percebamos a influência do cristianismo a difusão da informação como na reforma em que as teses de Martinho Lutero foram rapidamente espalhadas pela Alemanha e Europa, percebamos a importância do Cristianismo na fundação de universidades e aqui cito algumas fundadas por protestantes como Yale e Oxford e bem próximo de nosso contexto a Universidade Presbiteriana Makenzie e também a contribuição do Catolicismo na educação e na fundação de universidades e escolas. O cristianismo é importante para a história do mundo. O que dizer da influência do cristianismo na arte como nas pinturas de Rambrandt ou nas músicas de Bach? Não se pode negar que tudo isso faz parte da cosmovisão cristã influenciando o mundo e essa influência gera progresso e crescimento tanto nos níveis educacionais, econômicos, culturais e políticos. A religião cristã é de fato e isso não pode ser negado vital para a saúde social do mundo. A moral cristã, o zelo pela família, pela ordem, pela honestidade, pela vida humana, pela justiça são fatores que o cristianismo plantou no mundo.

A cosmovisão gere todo curso social, político e ideológico do mundo. Francis Schaeffer nos diz:

Existe um fluxo para a História e para a Cultura. E o modo de pensar das pessoas é o fundamento e a fonte deste fluxo. As pessoas são únicas no mundo interior da mente – o que elas são em seu mundo de pensamentos determina como elas agem. Isso é verdade tanto para o seu conjunto de valores quanto o é para a sua criatividade. É verdade para as suas ações coletivas, tais como suas decisões políticas, e é verdade para sua vida pessoal. As consequências da sua visão de mundo fluem por entre os seus dedos ou por meio da sua língua em direção ao mundo de fora. É verdade tanto para o formão de Michelangelo quanto para a espada de um ditador.

Não deve passar batida a importância do que Schaeffer está dizendo, “as pessoas são únicas no mundo interior da mente”. Notemos que tudo que vier a ser realizado no mundo físico teve precedência na mente, tudo que a sociedade é, é fruto de cosmovisões. Schaeffer continua dizendo que “As consequências da sua visão de mundo fluem por entre os seus dedos ou por meio da sua língua em direção ao mundo de fora. É verdade tanto para o formão de Michelangelo quanto para a espada de um ditador”. As consequências da visão de mundo irá se esvair pela língua e pelas mãos, irá entrar no mundo físico, no que se refere à funcionalidade e sociabilidade das ideias e o emprego delas para outros homens, pelo que falamos e como agimos, mas, antes da fala e da ação houve a formação dessa percepção de mundo na mente, que é a cosmovisão. O cristianismo tem uma cosmovisão, e que é direcionada por Deus em sua Palavra, a Bíblia Sagrada. Por tais motivos o cristianismo não é alienante, pelo contrário ele elucida e clareia o mundo: vós sois o sal da terra e a luz do mundo, disse Jesus. Como cristãos devemos lutar por uma cosmovisão bíblica e pautada na revelação de Deus, sua Santa Palavra, a Bíblia.