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1 de dez de 2016

Entrevista com Igor Miguel - Igreja, Missão e Missionalidade



É com prazer que publicamos mais uma entrevista. Agora com o pastor Igor Miguel, que é casado com a Juliana, pai do João, cristão reformado, teólogo, pedagogo e mestre em letras (língua hebraica) pela FFLCH/USP. Trabalhou por 6 anos com crianças e adolescentes vulneráveis como educador e consultor educacional em projetos sociais. Especialista em educação cognitiva na SERVED, uma organização internacional que trabalha com educação em contexto de crise, principalmente no Oriente Médio. Vice-presidente da AKET (Associação Kuyper de Estudos Transdisciplinares) e pastor na Igreja Esperança em Belo Horizonte - MG. Igor também escreve no seu blog Pensar...  

Quem realizou a entrevista foi o pastor e nosso articulista Thomas Magnum. A entrevista trata sobre o papel da Igreja na Missão. Desejamos que este conteúdo seja enriquecedor e promova edificação e instrução para toda a Igreja brasileira.

Igor, o assunto missionalidade ou igreja missional tem tomado boas proporções no Brasil, principalmente por pensadores calvinistas. O que se quer dizer com igreja missional? E qual é a diferença de uma abordagem missional para uma missionária?

Missionalidade é um modo de se fazer missão. A elaboração de um termo novo é adequado quando serve para identificar uma ênfase necessária ou a especificidade de um modo particular de se fazer missão. Sabemos que o Evangelho não muda, mas as exigências contextuais mudam drasticamente. Particularmente, o que se evidencia, é que em contextos urbanos pós-cristãos e secularizados, ambientes culturais em que evangélicos são rotulados por causa de maus exemplos (como no caso da imagem produzida pelo neopentecostalismo) ou ambientes em que a pregação pública do Evangelho é restrita por forças legais, o modo missional de testemunhar o Evangelho de Cristo pode ser muito eficaz.

Há muitos livros sobre o conceito de missionalidade. Mas, uma síntese conceitual que me ajuda a me localizar é que missionalidade é uma missão encarnacional. Ou seja, ela se inspira no movimento que o Verbo de Deus fez: o Logos tornou-se gente para se fazer conhecido aos que salvava (Jo 1:14). A missionalidade é um modo de dar testemunho, o que exige a presença da igreja de maneira intencional na vida ordinária e nas relações humanas corriqueiras. Diferente de modelos de evangelização em que não-cristãos são atraídos à igreja, nesse caso, a igreja torna-se uma plataforma missional quando equipa e educa cristãos a darem testemunho de Cristo nas relações concretas com a sociedade, no ambiente das relações familiares, comunitárias, no trabalho ou na vida cultural. Muito poderiam objetar a esta altura: “mas a evangelização sempre foi assim, não?” De certa maneira, mas há uma diferença, quando intencionalmente nos engajamos em relações humanas para que de maneira orgânica e relacional nossas vidas legitimam o poder transformador do Evangelho.

Missionalidade exige um profundo conhecimento da vida humana, exige penetração cultural sem mundanismo. Como Keller afirma com frequência em seu livro “Igreja Centrada”: um cristão missional é alguém que é igual e diferente ao mesmo tempo. Isto significa que um cristão não pode ser um “alien” em termos culturais amplos. Ou seja, não deve criar barreiras culturais desnecessárias. Por outro lado, seu modo de ver a vida, de lidar com o sofrimento, com as relações humanas, de encarar o trabalho e a cultura, dão testemunho de que ele é de outra “cidade”. E, é precisamente aí, que o testemunho cristão emerge, pois desta maneira ele quebra caricaturas sobre o que significa ser cristão e abre portas para o testemunho verbal da boa-nova de Cristo. Por superação de barreiras culturais desnecessárias entende-se que o cristão deve frequentar espaços comuns, ter conversas em linguagem comum (evitar o “evangeliquês”), praticar esportes, ter hobbys, ir aos teatros, ouvir boa música (não somente música gospel) e ter repertório cultural para criar pontos de contato com a cultura onde está inserido. Claro que esta relação com a cultura não é acrítica, ao contrário, cristãos tem um modo particular de lidar com a cultura e tais contextos. E, é esta particularidade que alavanca e oportuniza o testemunho do Evangelho.

Ao tratar sobre missionalidade, qual é a ligação que tal assunto tem com cosmovisão cristã?

A cosmovisão cristã implica um “imaginário social”, pra usar um termo do filósofo Charles Taylor. O cristão imagina a existência a partir da narrativa bíblica criação-queda-redenção. Uma cosmovisão cristã madura e bem-educada fornece critérios, competências culturais e sabedoria para interagir com um ambiente sem ser absorvido por ele. Ao mesmo tempo que consegue discernir os ídolos culturais e denunciá-los com a mensagem do Evangelho. Por outro lado, se entendemos cosmovisão como uma “mentalidade”, sabemos que nossa sociedade pós-moderna não quer apenas “coerência lógica”, ela aspira por narrativas plausíveis, visões de boa vida e sentido. Concordo com James K.A. Smith, filósofo cristão do Calvin College, de que cristãos precisam viver e oferecer, mais do que uma mentalidade, mas uma narrativa alternativa e melhor em lugar das inúmeras narrativas reducionistas das sociedades secularizadas. Temos que ter a capacidade de oferecer uma história definitiva que conduz os homens a seu florescimento, libertação e pautada em virtudes como: fé, esperança e amor.

Autores como Tim Keller - que escreveu Igreja Centrada - e Michael Goheen - que escreveu Igreja Missional - tem contribuído muito para formação de pensadores para missões urbanas. Como devemos encarar esse desafio urbano em nosso atual contexto de igreja no Brasil. Essa urbanidade da missão, de fato a um tipo de contextualização?

A missão urbana não é um luxo ou uma “modinha” misssiológica. É um desafio real e crescente na missão contemporânea. Keller traz dados importantes da ONU sobre a crescente urbanização do mundo. Nas próximas décadas a tendência é que tenhamos mais da metade da população mundial morando em algum grande centro urbano. Ou seja, o cenário futuro da missão é que ela será predominantemente urbana.  Entretanto, a missão urbana exige preparação, há um fluxo muito intenso de diversidade cultural, forças migratórias, trocas simbólicas, efervescência política e social. A cidade é complexa, o que exige uma abordagem missionária igualmente complexa. É fundamental ao missionário e ao cristão urbano um entendimento mais preciso das mazelas da cidade: solidão, individualismo, narcisismo, hedonismo, pobreza e violência. Em contrapartida, o cristão urbano tem que reconhecer as riquezas da cidade: produção cultural, engajamento científico, produção de bens intelectuais, poder de sinergismo humano por causas sociais e políticas legítimas, e influência.

A igreja precisa promover treinamento missional para que cristãos criem relacionamentos significativos, se interessem autenticamente pelas pessoas a seu redor, e que superem as forças de isolamento social que impedem os vínculos necessários para o testemunho evangélico.  Cristãos precisam ser treinados a acolher perguntas honestas para darem respostas honestas aos problemas levantados a respeito da vida, cultura, Deus e espiritualidade.

Claro, este é o lado da penetração cultural da igreja, em contrapartida, a igreja local tem um papel fundamental quando se envolve em alto compromisso em manter seu púlpito cristocêntrico e sermões contextualizados.  Ou seja, o membro da igreja deve se sentir seguro em levar um amigo cético ou de uma outra religião para um culto.  Deve ter certeza que uma linguagem “inclusiva” será utilizada, que a mensagem será transmitida de tal modo que o cristão seja edificado e o não-cristão evangelizado simultaneamente. Claro, isto exige a noção, que Kevin Vanhoozer propõe do “pastor como teólogo público”. Um pastor que fala em resposta às demandas de sua cultura sem alterar a verdade evangélica.

Existem limites para contextualização da missão?

Sem dúvida! A contextualização não pode ser fundada em uma “ortodoxia generosa” como propõem protagonistas do movimento chamado “igreja emergente” ou similares. No afã de nos tornarmos relevantes corremos o risco de nos secularizarmos ou de sermos assimilados por aspectos culturais estranhos ao Evangelho. Este, na verdade, é o grande desafio da contextualização. Algumas igrejas, por receio de serem “mundanizadas”, escolheram o caminho do isolamento cultural (como se isso fosse possível), o que ironicamente conduzirá essa igreja à irrelevância por sua incapacidade de comunicar antigas e importantes verdades em uma linguagem compreensível e que alcance as questões mais profundas da vida humana. Por outro lado, não podemos permitir que sejamos acometidos por uma ansiedade que nos leve a abrirmos precedentes que acabam comprometendo, em não raros casos, o núcleo da verdade evangélica.

Temos visto no Brasil um reflorescer do pensamento voltado para a integralidade da missão, vemos também que o que tem estado presente nesse reflorescimento é um relacionamento ideológico que não era presente em 1974 por exemplo quando muito se discutia sobre missão integral. Como você vê essa questão da ideologia sendo mesclada com a teologia cristã da missão e quais são os perigos e talvez pontos positivos dessa abordagem?

Indico os diversos textos escritos pelo teólogo Guilherme de Carvalho sobre o tema, suas críticas são importantes e não podem ser desprezadas no atual debate sobre a relação entre ideologia e a teologia da missão integral. O livro Ortodoxia Integral, do filósofo Pedro Dulci, também traz uma importante e atual contribuição para a reflexão.

Sendo muito direto: a missão cristã é “proto-ideológica”, ou seja, antes do conceito moderno da possibilidade de controle histórico da realidade, seja por livre iniciativa racional ou monopólio estatal-coletivista, o cristianismo já estava em missão pelo mundo. O que não significa que a missão cristã seja apolítica. Obviamente que não! Afirmamos um Senhor que é soberano sobre toda realidade, e que Cristo, crucificado e ressuscitado, subverteu todos os poderes deste século assumindo “todo poder nos céus e na terra”. Por esta razão, cristãos impulsionados pela Grande Comissão anunciam que não há área neutra e que todos os homens são convidados, uma vez regenerados e justificados, a se tornarem membros do Reino de Deus. A missão cristã deve ser integral no sentido de que a totalidade de Cristo atinge a totalidade da vida humana, bem nos termos do Pacto de Lausanne. Porém, o velho debate tem sido em termos metodológicos, ou seja, de que maneira podemos fazer uma missão que seja integral? Pra muita gente, Cristo se restringe à esfera confessional, seu senhorio e sua obra parecem perder força quando chegam à esfera pública. A tentação é tão grande para alguns, que parecem não encontrar recursos na fé evangélica para atuarem na dimensão da pobreza, da vulnerabilidade, nos direitos humanos e em políticas públicas. O que fazem então? Optam por uma ideologia e uma metodologia secular com raízes na noção de autonomia humana (neste ponto nem a direita ou a esquerda são inocentes), e assim, acabam comprando parcial ou totalmente o pacote progressista como referência missiológica.

Temos que reconhecer que muitos irmãos que estão no espectro progressista possuem sensibilidades que não podem ser desprezadas: a profunda desigualdade social, alguns abusos antiéticos por parte de corporações financeiras, relações abusivas inspiradas em racismo, o machismo, a misoginia, os índices altíssimos de jovens negros mortos em comunidades vulneráveis, a exclusão e a objetificação da mulher. Reconheço, me preocupo e até me envolvo pessoalmente com algumas dessas pautas. (É importante mencionar que nem todos esses problemas são adequadamente qualificados por militantes ou adeptos a ideologias à esquerda). De qualquer forma, meu questionamento não se dirige à pauta, mas à metodologia. Quando sirvo o pobre com alguma ajuda financeira, ou criando oportunidades, ou quando trabalho no campo da ciência para a promoção da pesquisa a partir de uma mentalidade cristã, ou ainda, quando me engajo no campo político, a glória não pode ser de Darwin, Howkings ou Marx, deve ser de Cristo. Para isso, preciso me valer de uma metodologia baseada no radical senhorio de Jesus, e todas as implicações inerentes a uma vida sob seu governo. Claro que, pra muita gente, isso seria confundido com movimentos que se apropriaram de nomes como Kuyper e Dooyeweerd e que propõem uma espécie de “dominação” teonomista da realidade. Nenhum dos autores mencionados concordariam com tal experimento. Cristãos operam no mundo, sem pretensões triunfalistas, ao mesmo tempo que evitam o quietismo anabatista.

Temos realmente uma necessidade de lermos a missão por uma ótica das ciências sociais?

Orientados pelas Escrituras, temos que ler a missão por uma ótica radicalmente centrada no conhecimento do Deus Trino pelo drama messiânico de Jesus Cristo: encarnação, nascimento, vida, sofrimento, crucificação, sepultamento, ressurreição, ascensão e retorno. E, os desdobramentos da missão de Deus na história da Igreja. Temos as Escrituras e de maneira secundária a tradição cristã como fonte para esse conhecimento. Essa seria a matriz de uma sabedoria cristã que pode fundamentar e orientar a missiologia cristã. Por outro lado, dependendo da área em que a missão cristã está engajada, as diversas ciências, por graça comum, podem fornecer importantes ferramentas e informações sobre fenômenos ou comportamentos, que podem ser úteis para o missionário. Mas, isso é muito diferente de produzir ou ler a missão a partir de um determinado campo científico. O contrário seria verdadeiro: a partir da matriz que inspira a missão cristã já mencionada, ler as ciências (seja social, biológica, psicológica etc) inclusive para discernir o que deve ser acolhido com ações de graças, criticado ou rejeitado.

Você tem estado envolvido com trabalhos em comunidades carentes. Ao olharmos para as críticas de pensadores mais voltados para a teologia calvinista clássica, vemos um calor na crítica a missão integral, mas, talvez, não tanto calor em desenvolver trabalhos relevantes em relação ao problema da pobreza. Como a igreja deve lidar com isso e como você analisa esse fato de reformados não estarem tão preocupados com a práxis cristã?

Engraçado, nesses 6 anos diretamente envolvido com comunidades vulneráveis, particularmente crianças e adolescentes, e em contato e conhecendo vários projetos nessa direção aqui no Brasil e em outros lugares no mundo, como África, América Central e Oriente Médio, o que tenho percebido, ironicamente, é que os mais engajados com vulneráveis não são nem gente com uma missiologia mais à esquerda, e tampouco calvinistas, mas o pentecostal ou o evangelical no sentido mais simples do termo. Essa é a ironia da década, a meu ver. E, eles não estão ali por razões ideológicas, ou porque possuem uma missiologia sofisticada, simplesmente entendem que precisam servir tais comunidades com o evangelho e com o serviço de misericórdia. Claro que existem excelentes trabalhos nos dois grupos mencionados, de fato, conheço projetos sociais de gente inspirada em missiologias mais progressistas, como há igrejas calvinistas que possuem comprometimento social. Mas, precisamos reconhecer que, sem entrar no mérito da eficiência, é fato que a maioria das iniciativas nessa área são de gente que vive uma fé evangélica simples e com a Bíblia na mão, muitos pentecostais históricos. Talvez o que a igreja mais necessite neste momento seja exatamente isso: que ela seja mais evangélica. Nestes termos, entendo que nossos irmãos reformados possuem a lenha, mas eles podem ter o fogo, a disposição evangélica de conectar o que se crê com o que se deve fazer. Em contrapartida, nossos irmãos evangelicais podem ser mais profundos e mais competentes, superando a tentação do anti-intelectualismo. E, nossos irmãos ainda hipnotizados ou ideologicamente intoxicados, podem abraçar e redescobrir o frescor da velha e boa evangelicalidade. Todos nós somos passíveis de extremos, manter-se no centro dessa conversa exige muita energia, eventualmente escorregaremos, mas precisamos sempre regular nossas intenções a partir da centralidade do Evangelho e da suficiência da obra de Cristo, sem quem, nenhuma missão é possível.

29 de nov de 2016

Evangelização Reformada

Por Thomas Magnum

Introdução

Ao examinarmos ainda que rapidamente o assunto – evangelização – pelo prisma mais popular notamos que comumente algumas frases prontas são utilizadas como:

a) “Aceite Jesus, ele quer morar em seu coração...”
b) “Dê uma chance a Deus, ele pode mudar sua vida...”
c) “Jesus te ama e quer te salvar... só depende de você...”

Esse tipo de abordagem é totalmente antropocêntrica, ou seja, a preocupação maior da evangelização é o homem, e vale tudo para que o homem entenda a mensagem. De fato o homem é alvo da graça de Deus e por ter sido feito a imagem e semelhança do criador ele precisa cumprir os mandatos que lhe foram dados no início, mas, sem a graça redentora de Deus ele não poderá cumprir esses mandatos contidos em Gênesis 1.26-30. Nessa passagem nós temos três mandatos pactuais – mandato cultural, mandato social e mandato espiritual. Esses mandatos foram dados antes da grande comissão (Mt 28.19), nesses mandatos dados pelo Criador o homem teria que glorificar a Deus em todas as suas atividades culturais, em todas as suas atividades familiares e em toda sua atividade espiritual. Ao estarmos na Queda do pai da raça que era Adão não seria possível o homem cumprir esses mandatos como Deus havia determinado, o pacto foi quebrado, e na teologia aliancista chamados esse pacto de: Pacto de Obras. E o que viria a ser o Pacto de Obras? Primeiro entendamos em que consiste esse pacto e o que é o pacto de obras, a Confissão de Fé de Westminster (CFW) nos diz que

Tão grande é a distância entre Deus e a criatura, que, embora as criaturas racionais lhe devam obediência como seu Criador, nunca poderiam fruir nada dele como bem-aventurança e recompensa, senão por alguma voluntária condescendência da parte de Deus, a qual foi ele servido significar por meio de um pacto [1].

O primeiro pacto feito com o homem era um pacto de obras; nesse pacto foi a vida prometida a Adão e nele à sua posteridade, sob a condição de perfeita obediência pessoal [2].

Essa é nossa base inicial para que compreendamos qual a posição do homem na evangelização e qual a posição de Deus na salvação de pecadores. Notemos que o homem não é o personagem principal no drama da salvação, mas, Deus. Por isso chamamos a evangelização bíblica de Teocêntrica e não de Antropocêntrica, a evangelização bíblica tem Deus no centro e não o homem. Visto que o homem quebrou esse pacto de obras o próprio Deus providenciou outro pacto para a salvação do homem caído vejamos:

O homem, tendo-se tornado pela sua queda incapaz de vida por esse pacto, o Senhor dignou-se fazer um segundo pacto, geralmente chamado o pacto da graça; nesse pacto ele livremente oferece aos pecadores a vida e a salvação por Jesus Cristo, exigindo deles a fé nele para que sejam salvos; e prometendo dar a todos os que estão ordenados para vida o Santo Espírito, para dispô-los e habilitá-los a crer [3].

Isso nos dá a base para afirmar que todo homem que não creu no Filho de Deus como seu suficiente salvador está debaixo do pacto de obras, notemos que ele está sob o pacto de obras, mas, não pode cumpri-lo porque está caído, está irredimido, está destituído da glória de Deus como nos diz o Texto Sagrado: “...pois todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus”. (Romanos 3.23-NVI)

O fato de o homem não cumprir o pacto de obras o condena, porque a lei exige dele esse cumprimento. Vejamos:  “Pois quem obedece a toda a Lei, mas tropeça em apenas um ponto, torna-se culpado de quebrá-la inteiramente.” (Tiago 2.10 – NVI)

Fica claro que o homem por si mesmo não pode ir a Deus sem que seja trazido pelo próprio Deus.

Deus: o Autor da Evangelização

Entendido o fato que Deus é supremo na tarefa evangelizadora da Igreja, reconhecemos que Deus é o Autor da Evangelização. A maior tarefa da Igreja é glorificar a Deus entre todos os povos e a evangelização é um meio para que isso aconteça. É importante frisarmos que a evangelização está no decreto eterno de Deus, e chamamos isso na teologia de Pactum Salutis ou Aliança da Redenção como nos diz R.B. Kuiper:

As raízes da evangelização estão na eternidade. Os teólogos costumam falar do pactum salutis, feito na desde toda eternidade pelas três pessoas da Deidade. Pode-se traduzir a expressão pactum salutis tanto por Aliança da Redenção como por conselho da redenção... Neste plano, Deus o Pai devia enviar se Filho ao mundo para resgatá-lo; Deus o Filho haveria de vir voluntariamente ao mundo para se tornar merecedor da salvação por sua obediência até a morte; e Deus o Espírito aplicaria a salvação aos pecadores, instilando neles a graça renovadora [4].

É importante compreendermos um ponto da doutrina de Cristo que chamamos de obediência ativa de Cristo. Cristo obedeceu livremente, ou seja, guardou perfeitamente o pacto de obras, pacto este que o homem caído não pode mais guardar por que pecou e o pecado o legou ao fracasso espiritual, a morte espiritual (Ef 2.1-10), mas, Cristo morreu pela Igreja (Ef. 5.25; 2 Co 5.14; Jo 10.11), e sua morte foi o sacrifício substitutivo pelos pecadores que Deus determinou salvar como nos diz Lucas no livro de Atos 13.48. E a forma desses pecadores virem a Deus pela mediação de Cristo (1 Tm 2.5) é pela pregação do Evangelho conforme Paulo ensina em Romanos 10. A pregação é a forma que Deus determinou para trazer os pecadores à fé. Vejamos o que diz Romanos 10.17: “E, assim, a fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo”.
A pregação é o meio pelo qual o pecador é levado à fé pelo Espírito Santo. Essa é uma verdade vital do Cristianismo bíblico.

Qual é o Motivo para a Evangelização?

Nos diz o  Breve Catecismo de Westminster em sua primeira pergunta:
Qual é o fim principal do homem?

Resposta:

O fim principal do homem é glorificar a Deus, e gozá-lo para sempre [5].

Ao evangelizarmos não cumprimos somente uma ordem divina, mas, devemos pregar ao mundo caído porque amamos a Deus e queremos proclamá-lo em todas as nações vejamos o que nos diz o salmista no Salmo 67:

Que Deus tenha misericórdia de nós e nos abençoe, e faça resplandecer o seu rosto sobre nós, para que sejam conhecidos na terra os teus caminhos, e a tua salvação entre todas as nações. Louvem-te os povos, ó Deus; louvem-te os povos todos. Exultem e cantem de alegria as nações, pois governas os povos com justiça e guias as nações na terra. Louvem-te os povos, ó Deus; louvem-te todos os povos. Que a terra dê a sua colheita, e Deus, o nosso Deus, nos abençoe! Que Deus nos abençoe, e o temam todos os confins da terra.

Fomos comissionados a glorificar a Deus entre todas as nações, reder-lhe louvor entre todos os povos línguas e nações, o livro do Apocalipse nos mostra vários cânticos louvor a glória da graça do Deus salvador e redentor, no capítulo 15, versos 3 e 4 nós lemos:

Grandes e maravilhosas são as tuas obras, Senhor Deus Todo-Poderoso. Justos e verdadeiros são os teus caminhos, ó Rei das nações. Quem não te temerá, ó Senhor? Quem não glorificará o teu nome? Pois tu somente és santo. Todas as nações virão à tua presença e te adorarão, pois os teus atos de justiça se tornaram manifesto.

Diz o teólogo J.I. Packer – Glorificamos a Deus pela evangelização não somente porque a evangelização é um ato de obediência, mas também porque na evangelização contamos a todo o mundo quão grandes obras poderosas da graça de Deus se tornam conhecidas, ele é glorificado [6].

Consequentemente se entendemos que a evangelização é também uma expressão de nossa adoração e nosso amor ao Senhor, amaremos nosso próximo que desejaremos que muitos sejam alcançados com as verdades eternas do Evangelho de Cristo. Para finalizarmos, cito mais uma vez a CFW:

No Evangelho Deus proclama seu amor ao mundo, revela clara e plenamente o único caminho da salvação, assegura vida eterna a todos quantos verdadeiramente se arrependem e crêem em Cristo, e ordena que esta salvação seja anunciada a todos os homens, a fim de que conheçam a misericórdia oferecida e, pela ação do Seu Espírito, a aceitem como dádiva da graça [7].
Conclusão

Deus, é o início e o fim da evangelização, a glória de Deus é a coisa mais importante. O desejo de Deus é ser glorificado e o homem foi criado para isso. Portanto todo método de evangelização que coloca o homem no centro é idólatra, todo método de evangelização que não diz que o homem é um pecador caído e necessitado de redenção falha em sua abordagem e todo método que somente mostra o homem como caído, mas, não lhe mostra Jesus como caminho é igualmente inválido. Todo método de evangelização deve ser teocêntrico, sendo teocêntrico será também cristocêntrico. Toda a Bíblia possui uma abordagem histórico-redentiva, a história da salvação, devemos seguir o método bíblico em apresentar a mensagem do Evangelho, Deus no centro de tudo.

E disse-lhes: Vão pelo mundo todo e preguem o evangelho a todas as pessoas”.

Marcos 16.15
Amém.

***
Notas:

[1] CFW, cap. 7.1. Jó 9.32-33; Sal. 113. 5-6; At 17.24-25; Lc 17.10.
[2] CFW, cap.7.2. Gal. 3.12; Rom. 5.12-14 e 10.5; Gen. 2.17; Gal. 3.10.
[3] CFW, cap. 7.3. Gal, 3.21; Rom. 3.20-21 e 8.3; Isa. 42.6; Gen. 3.15; Mat. 28.18-20; Jo 3.16; Rom. 1.16-17 e 10.6-9; At. 13.48; Ezeq. 36.26-27; Jo. 6.37, 44,45; Lc. 11.13; Gal. 3.14.
[4] Kuiper. R.B. Evangelização Teocêntrica, Ed. PES, 2ª edição, 2013, p.9.
[5] Breve Catecismo de Westminster – Referências: Rom. 11.36; 1 Co 10.31; Sal 73.25-26; Is 43.7; Rom.14.7-8; Ef. 1.5-6; Is. 60.21; Is. 61.3.
[6] Packer, J.I. Evangelização e a Soberania de Deus, Ed. Cultura Cristã, 2ª edição, 2011, p.89.
[7] CFW, cap. 35.2. Jo 3.16 e 14.6; At 4.12; 1 Jo 5.12; Mc. 16.15; Ef. 2.4,8,9.

25 de nov de 2016

O prejuízo da sinceridade excessiva

Por Daniel Santos
O insensato não tem prazer no entendimento, senão em externar o seu interior.
(Provérbios 18.2)
Não é fácil discernir a verdadeira motivação de uma pessoa com respeito àquilo que faz, fala ou pensa. Na verdade, há situações em que nem mesmo a pessoa sabe porque fez o que fez. Esse provérbio apresenta uma excelente ferramenta para identificar insensatez ou tolice na atitude de alguém, a saber, o modo como valorizamos o ato de entender as coisas. Há duas ideias que são comparadas nesse provérbio: de um lado, o prazer no entendimento; do outro, o prazer em externar o seu interior. Externar o seu interior (literalmente, “tornar conhecido o seu coração”) pode ser entendido como um excesso de sinceridade ou de um desejo de colocar para fora aquilo que está no coração.
À primeira vista, parece não haver nada de errado com a atitude de ser demasiadamente sincero e transparente, não escondendo nada em seu coração. Entretanto, a sabedoria de Deus revelada nesse provérbio nos adverte que há maior benefício em buscar entender do que em revelar o que está no coração. Além disso, o provérbio classifica como insensato ou tolo aquele que prefere o excesso de sinceridade a laboriosa tarefa de entender o que se passa. A razão para tal preferência parece óbvia – colocar para fora aquilo que pensamos nos causa alívio; tentar entender o que se passa nos causa fadiga.
Diante disso, não temos como fugir da conclusão de que o prazer em externar o seu interior estará invariavelmente associado com o ato de falar demais, postar demais, curtir demais, blogar demais. Todas essas coisas são formas de externar o seu interior e quem as pratica é considerado insensato pela ótica bíblica. Quando o prazer de uma pessoa está no entendimento, ela se torna mais seletiva quanto ao que irá externar. Eis alguns exemplos de externar o interior que procedem de uma pessoa que ama o entendimento: o louvor, a confissão, a súplica, a gratidão, etc. Todas essas manifestações são fruto de um processo prévio de reflexão e entendimento daquilo que se passa.
Aplicação
O alívio de ter colocado para fora o que se pensa não paga a vergonha de ser chamado de tolo. Você já considerou a possibilidade de que o seu desejo excessivo de externar o seu coração pode causar aflição no coração dos que ouvem? 
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Post original aqui

23 de nov de 2016

Os anjos pecaram com as mulheres em Gênesis 6?

Por Leandro Lima
Há algum tempo, tenho recebido diversos pedidos para escrever algo a respeito deste tema, principalmente, porque muitos sabem minha posição a respeito, e não poucos a acham estranha, sendo justo, portanto, dar algumas explicações.
A seguir, vou expor em poucas linhas o que entendo desse assunto, porém, antes gostaria de fazer algumas ressalvas. Esse não é um assunto essencial para a fé cristã ou reformada. Não é um assunto que se deveria criar grandes polêmicas em cima dele, afinal, ninguém vai ganhar nada (ou perder) se conseguir provar ou deixar de provar sua própria posição. Portanto, os interessados deveriam apenas ler os argumentos desta ou daquela posição, e reter o que é bom. Mesmo se achar que não há nada de bom para reter, é um direito. Qualquer tipo de disputa, nesse sentido, acaba sendo prejudicial à causa de Cristo, pois expõe nossas divisões entre os incrédulos, impedindo-os de crer que Jesus é o enviado do Pai (Jo 17.21).
Uma vez que, efetivamente, acredito que alguns anjos caídos se relacionaram com as mulheres em Gênesis 6, vou apenas expor meus argumentos a seguir, sem me preocupar em expor a outra posição, a qual advoguei por bastante tempo, mas hoje, não consigo mais defendê-la, por estar convencido de que a evidência bíblica é majoritariamente contrária a ela.
Inicialmente, deve ser dito que a simples leitura de Gênesis 6, não é suficiente para definir a posição:
"Como se foram multiplicando os homens na terra, e lhes nasceram filhas, vendo os filhos de Deus que as filhas dos homens eram formosas, tomaram para si mulheres, as que, entre todas, mais lhes agradaram”. (Gn 6.1-2)
Em si mesma, a passagem poderia ser aplicada naturalmente à mistura de raças, ou seja, que os descendentes de Sete se casaram com as descendentes de Caim. Porém, desde os tempos antigos, os rabinos judeus tiveram dificuldades de aceitar essa posição, e um dos motivos era o fato de apenas “homens" da descendência de Sete, se casarem com “mulheres" da descendência de Caim. Por que não vice e versa? Mas, claro, isso não resolve a questão. Porém, os rabinos notaram que no Antigo Testamento, em nenhum lugar o termo “filhos de Deus” é aplicado diretamente aos homens. Na verdade, fora de Gênesis 6, o termo só aparece no livro de Jó e no Salmo 29.1. No livro de Jó, ele claramente é aplicado aos anjos, entre os quais estava Satanás: "Num dia em que os filhos de Deus vieram apresentar-se perante o SENHOR, veio também Satanás entre eles”. No Salmo 29.1, o termo pode se aplicar também aos anjos reunidos em assembléia celeste, porém, é impossível ter certeza disso, pois o texto não explica quem são esses “filhos de Deus”. De qualquer modo, a única referência explícita no Antigo Testamento do termo é para anjos. Além disso, os rabinos estranharam o resultados daquela união: “Ora, naquele tempo havia gigantes na terra; e também depois, quando os filhos de Deus possuíram as filhas dos homens, as quais lhes deram filhos; estes foram valentes, varões de renome, na antiguidade” (Gn 6.4). Esses gigantes ou "os nefilins” (הַנְּפִלִים), que é o termo hebraico para “gigantes", parecem ser o resultado direto daqueles casamentos impróprios. Provavelmente, o termo nefilim vem da raiz hebraica “cair”, ou “caído”.
Porém, como eu disse, até aqui, apesar de alguns indícios interessantes, não se pode fechar a questão. Certamente alguém poderia dizer: o simples fato dos rabinos judeus crerem que eram anjos não prova nada. É verdade, eu diria, a menos que o Novo Testamento conceda apoio a essa interpretação judaica. E o meu ponto é justamente esse: o Novo Testamento confirma essa interpretação. Eu tentarei mostrar isso abaixo. Mas, antes, precisaremos ver exatamente o que era que os judeus, especialmente os da tradição apocalíptica, acreditavam. Há três livros judaicos que mencionam o fato. O livro dos Jubileus, o Testamento dos Doze Patriarcas, e o Livro de Enoque. Menções também aparecem no Documento de Damasco, no livro do Eclesiástico, em 3Macabeus, e em fragmentos dos manuscritos do Mar Morto. Todos foram escritos entres os séculos um e dois antes de Cristo. Esses livros judaicos interpretam que anjos, chamados de guardiões, se relacionaram com as mulheres, gerando gigantes demoníacos, os quais foram exterminados no dilúvio. A questão é a seguinte: essa interpretação era amplamente conhecida nos dias de Jesus e do Novo Testamento, como as provas documentais atestam. Se ela estivesse errada, o Novo Testamento deveria condená-la de alguma maneira. Porém, não só o Novo Testamento não a condena, como a aprova, em pelo menos quatro livros, que são as duas cartas de Pedro, a carta de Judas, e indiretamente também no livro do Apocalipse.
Todos esses livros mencionam “anjos em prisão” (1Pe 3.18-20, 2Pe 2.4, Jd 6, Ap 9). A questão é: de onde vem esse conceito de anjos em prisão que todos esses textos mencionam? E a resposta única é: daqueles livros apócrifos mencionados acima. Isso é algo literariamente comprovado. O autor da carta de Judas cita explicitamente o livro de Primeira Enoque, que é o principal livro da tradição apocalíptica judaica que defende o relacionamento dos anjos caídos com as mulheres: “Quanto a estes foi que também profetizou Enoque, o sétimo depois de Adão, dizendo: Eis que veio o Senhor entre suas santas miríades, para exercer juízo contra todos e para fazer convictos todos os ímpios, acerca de todas as obras ímpias que impiamente praticaram e acerca de todas as palavras insolentes que ímpios pecadores proferiram contra ele” (Judas 14-15). Esse texto, que inclusive cita o nome de Enoque, está integralmente em 1Enoque 1.9: “Ele virá com milhares de Santos, para exercer o julgamento sobre o mundo inteiro e aniquilar todos os malfeitores, reprimir toda carne pelas más ações tão iniquamente perpetradas e pelas palavras arrogantes que os pecadores insolentemente proferiram contra Ele”. Apesar dos esforço de alguns intérpretes de dissociar os dois textos, uma olhada nos dois textos gregos mostra que Judas citou, embora de forma relativamente livre, o texto do livro de 1Enoque. Mesmo que você não leia grego, pode ver a semelhança das palavras correspondentes entre os dois textos:
1)    Judas 14-15: δο λθεν κύριος ν γίαις μυριάσιν ατο15 ποισαι κρίσιν κατ πάντων κα λέγξαι πάντας τος σεβες περ πάντων τν ργων σεβείας ατν ν σέβησαν κα περ πάντων τν σκληρν ν λάλησαν κατʼ ατο μαρτωλο σεβες.
2)    1 En 1.9: τι ρχεται σν τας μυριάσιν [ατο κα τοςγίοις ατο, ποισαι κρίσιν κατ πάντων, κα πολέσαι πάντας τος σεβες, κα ()λέγξαι πσαν σάρκα περ πάντων ργων τς σεβείας ατν ν σέβησαν κα σκληρν ν λάλησαν λόγων κατʼ ατο μαρτωλο σεβες.
É inútil tentar fechar os olhos para essa evidência. Judas citou mesmo o livro apócrifo de 1Enoque. E, praticamente, todos os judeus dos tempos em que o Novo Testamento foi escrito, conheciam aquele livro. Então, preste atenção: Judas claramente conhece o Livro de 1Enoque, pois o está citando literalmente, e o tal livro fala do relacionamento dos anjos com as mulheres, então, o que Judas tem a dizer a respeito? Não seria a excelente ocasião para desmentir essa tão conhecida interpretação judaica, e colocar um fim a esse equívoco de uma vez por todas?
Mas ele faz o contrário. Ele menciona o pecado dos anjos e cita novamente o Livro de Enoque diversas vezes para confirmar isso:
"5 Quero, pois, lembrar-vos, embora já estejais cientes de tudo uma vez por todas, que o Senhor, tendo libertado um povo, tirando-o da terra do Egito, destruiu, depois, os que não creram; 6 e a anjos, os que não guardaram o seu estado original, mas abandonaram o seu próprio domicílio, ele tem guardado sob trevas, em algemas eternas, para o juízo do grande Dia; 7 como Sodoma, e Gomorra, e as cidades circunvizinhas, que, havendo-se entregado à prostituição como aqueles, seguindo após outra carne, são postas para exemplo do fogo eterno, sofrendo punição”. (Judas 5-7).
Veja que ele está citando três maus exemplos no texto, de atitudes condenáveis, lá do passado. O exemplo da geração que saiu do Egito, o exemplo dos anjos, e o exemplo de Sodoma e Gomorra. Antes de entrar especificamente nos termos aplicados aos anjos, veja que ele diz algo interessante ao mencionar o pecado de Sodoma e Gomorra: “que, havendo-se entregado à prostituição como aqueles, seguindo após outra carne”. Quem são esses “aqueles” que se entregaram à prostituição em termos semelhantes ao “ir após outra carne” de Sodoma e Gomorra? Ora, ele só mencionou os dois exemplos antes, o exemplo da geração que saiu do Egito, e o exemplo dos anjos que pecaram. Então, precisa ser um desses dois grupos. “Aqueles" é um pronome demonstrativo adjetival masculino plural. Nesse sentido, realmente poderia ser aplicado a qualquer dos dois grupos anteriores, apesar de fazer mais sentido referir-se ao grupo mais próximo já mencionado, que é exatamente o grupo dos anjos. E note que o pecado da geração do Egito foi explicitamente mencionado acima: “incredulidade”. Eles não creram que Deus poderia dar a terra de Canaã, pois ficaram com medo dos povos que moravam lá. O pecado da geração do Egito não tem relação com “prostituição" e “ir após outra carne”, pois o próprio Judas disse que foi incredulidade, e o Pentateuco confirma isso. Alguns argumentam que quando Moisés estava no Sinai, o povo lá embaixo se entregou à prostituição. Isso é verdade, porém, isso não os impediu de entrar em Canaã, pois Deus perdoou o pecado do povo. Eles não entraram em Canaã porque ficaram com medo do relato dos espias. Foram incrédulos. E por causa disso, toda aquela geração morreu no deserto. Somente Josué e Calebe entraram na terra. Então, o pecado da geração que saiu do Egito não um "ir após outra carne", mas falta de fé. Por outro lado, o pecado dos anjos, ele não mencionou explicitamente. Portanto, logicamente e exegeticamente, quando ele diz que “aqueles” se prostituíram e foram após outra carne, ele está falando dos anjos, e explicando o pecado deles. O pecado do homossexualismo de Sodoma foi de fato um “ir após outra carne”, pois foi algo contrário à natureza dos homens. Do mesmo modo, o pecado dos anjos com as mulheres foi algo contrário à natureza angélica, uma espécie também de "ir após outra carne".
Esse pecado dos anjos é justamente o pecado que o Livro de Enoque menciona, o livro que Judas está citando literalmente. Na verdade, e agora avançamos ainda mais nessa compreensão, cada uma das palavras usadas por Judas para descrever a transgressão dos anjos no verso 6 são encontradas no Livro de Enoque. Abaixo destaco as principais palavras e os temas correspondentes que aparecem no Livro de Enoque, tanto em português quanto em grego:
3)    Judas 6 -  e a anjos, os que não guardaram o seu estado originalmas abandonaram o seu próprio domicílio, ele tem guardado sob trevas, em algemas eternas, para o juízo do grande Dia — γγέλους τε τος μ τηρήσαντας τν αυτν ρχν λλ πολιπόντας τ διον οκητήριον ες κρίσιν μεγάλης μέρας δεσμος ϊδίοις π ζόφον τετήρηκεν·
4)    1 En 10.12:  (amarra-os por sete gerações nos vales da terra, até o dia do seu julgamento, até o dia do Juízo Final!) — δσονατος βδομήκοντα γενες ες τς νάπας τς γς μέχρι μέρας κρίσεως ατν κα συντελεσμο, ως τελεσθ τ κρίμα το αἰῶνος τν αώνων
5)       1 En 12.4 (Escriba da Justiça, vai e anuncia aos Guardiões do céu que perderam as alturas do paraíso e os lugares santos e eternos) — “ γραμματες τς δικαιοσύνης Πορεύου κα επ τος γρηγόροις το ορανο οτινες πολιπόντες τν ορανν τν ψηλόν
6)    1 En 14.5: (Daqui por diante nunca mais havereis de subir ao céu; mas foi determinado que sejais acorrentados aqui na terra por todos os tempos—— *να μηκέτι ες τν ορανν ναβτε π πάντας τος αἰῶνας, κα *ν τος δεσμος τς γς ρρέθη δσαι μς ες πάσας τς γενες το αἰῶνος”
7)    1 En 15.3 (Por que motivo abandonastes o alto do céu, santo e eterno) — “δι τί πελίπετε τν ορανν τν ψηλν τν γιον το αἰῶνος”
8)    1 En 15.7 (Por isso eu não criei para vós mulheres, pois os espíritos do céu possuem no céa sua morada) — “κα δι τοτο οκ ποίησα ν μν θηλείας· τ πνεύμα(τα) το ορανο, ν τ οραν  κατοίκησις ατν”.
Ou seja, claramente o conceito de anjos que abandonaram sua morada celeste, e agora estão aprisionados, por terem pecado, é um conceito explícito do Livro de Enoque. Neste livro, é defendido abertamente que esse pecado foi o relacionamento deles com as mulheres em Gênesis 6. Novamente deve ser dito, se Judas entendesse que isso estava errado, uma vez que citou o referido livro, ele tinha a obrigação de esclarecer seus leitores de que aquela história era falsa. Mas, não apenas ele não faz isso, como claramente confirma a história!
Isso não significa que Judas considerasse o livro de Primeira Enoque inspirado, nem que tudo o que está escrito no referido livro seja verdade, mas deve ser entendido que aquela parte do livro de Enoque era verdade porque é verdade de Deus, independente da fonte. Se alguém disser que, então, Judas citou uma mentira, pois a frase é do falso Enoque e não do verdadeiro, em resposta podemos dizer que a frase talvez seja do Enoque verdadeiro, mas que foi preservada até ser escrita no livro de 1Enoque através da tradição oral. De qualquer modo, temos um autor do Novo Testamento, inspirado pelo Espírito Santo, confirmando essa parte do ensino do Livro de Enoque. Precisamos aceitar, portanto, que essa parte é verdadeira, ou rejeitarmos a carta de Judas.
Na verdade, a própria estrutura que Judas usa, de citar os três exemplos do passado, ou seja, geração do Egito, geração de Sodoma, e anjos do dilúvio, segue um padrão que pode ser encontrado em vários outros livros (Cairo Damascus (CDA Col. ii:13)Eclesiástico 16.7-10, 3Mac 2.4-7, Testamento de Naftali 3.4–5, m. Sanhedrin 10:3). E nesses livros, reconhece-se que o pecado dos anjos é o relacionamento com as mulheres. Como Judas poderia usar a mesma estrutura amplamente conhecida pelos judeus se quisesse provar algo diferente, sem mostrar que estava querendo provar algo diferente?
Mas não adiantaria tirar Judas do Cânon. O Apóstolo Pedro confirma o ensinamento de Judas e do Livro de Enoque sobre anjos em prisão também usando termos do livro de Enoque, e ainda por cima parece ligar o fato diretamente com o dilúvio: "Ora, se Deus não poupou anjos quando pecaram, antes, precipitando-os no inferno, os entregou a abismos de trevas, reservando-os para juízo; e não poupou o mundo antigo, mas preservou a Noé, pregador da justiça, e mais sete pessoas, quando fez vir o dilúvio sobre o mundo deímpios” (2Pe 2.4-5). Quando o autor diz que Deus “não poupou aqueles anjos”, ele está fazendo uma menção direta ao fato de que, apesar daqueles anjos terem pedido clemência e misericórdia no referido livro, Deus não os poupou e os aprisionou no abismo. Veja essa parte daquele livro: "Enoque, tu, o Escriba da Justiça, vai e anuncia aos Guardiões do céu que perderam as alturas do paraíso e os lugares santos e eternos, que se corromperam com mulheres à moda dos homens, que se casaram com elas, produzindo assim grande desgraça sobre a terra; anuncia-lhes: `Não encontrareis nem paz nem perdão'. Da mesma forma como se alegram com seus filhos, presenciarão também o massacre dos seus queridos, e suspirarão com a sua desgraça. Eles suplicarão sem cessar, mas não obterão nem clemência nem paz!(1Enoque 12). Várias vezes no livro, é mencionado que Deus não concederia clemência e que eles seriam aprisionados em abismos de trevas.
E na primeira carta, Pedro mencionou explicitamente que os “espíritos em prisão” foram aqueles que pecaram nos dias do dilúvio: "no qual também foi e pregou aos espíritos em prisão, os quais, noutro tempo, foram desobedientes quando a longanimidade de Deus aguardava nos dias de Noé, enquanto se preparava a arca, na qual poucos, a saber, oito pessoas, foram salvos, através daágua” (1Pe 3.19-20). O texto está dizendo que Jesus, após sua ressurreição, no poder do Espírito, foi até esse lugar de prisão, e proclamou sua vitória sobre aqueles espíritos que, noutro tempo, ou seja, no passado, foram desobedientes, nos dias de Noé[1]. E após fazer isso, ele subiu ao céu, deixando os principados e potestades debaixo de seus pés (1Pe 3.22). Isso fecha o cerco bíblico em torno do tema. O Novo Testamento está abertamente apoiando a ideia de que o pecado dos anjos em Gênesis 6 foi o de se relacionar com as mulheres. Não é sem motivo que, atualmente, a esmagadora maioria dos comentaristas bíblicos sérios e conservadores, que escreveram comentários dos livros de Judas e Pedro, para as mais conceituadas séries de comentários bíblicos atuais, não hesitam em defender isso explicitamente. Exemplos são:

SCHREINER, T. R. (2003). 1, 2 Peter, Jude (Vol. 37, p. 336). Nashville: Broadman & Holman Publishers.
DAVIDS, P. H. (2006). The letters of 2 Peter and Jude (p. 49). Grand Rapids, MI: William B. Eerdmans Pub. Co.
BAUCKHAM, R. J. (1998). 2 Peter, Jude (Vol. 50, p. 52). Dallas: Word, Incorporated.
KELLY, J. N. D. (1969). The Epistles of Peter and of Jude (p. 256). London: Continuum.
Em último lugar, é preciso notar que o único argumento efetivo usado contra a ideia é o que Jesus disse em Lucas 20:35-36 "mas os que são havidos por dignos de alcançar a era vindoura e a ressurreição dentre os mortos não casam, nem se dão em casamento.Pois não podem mais morrer, porque são iguais aos anjos e são filhos de Deus, sendo filhos da ressurreição. Note que Jesus está falando do futuro, quando os crentes ressuscitarem, e mesmo tendo corpos, não se casarão mais. A questão, entretanto, não parece ser a impossibilidade de que isso aconteça, mas o fato de que Deus decidiu que isso não deve acontecer. Assim, como nós hoje podemos nos casar, mas no futuro não poderemos mais, aqueles anjos do passado desobedeceram, e fizeram aquilo que não devia ser feito, e a partir de então, não podem mais fazer.  Essa passagem, portanto, ao contrário de contradizer o assunto, até mesmo o reforça, pois chama os crentes ressuscitados de “iguais aos anjos, filhos de Deus”, o título dado a eles em Jó e em Gn 6.
Sobre a pergunta a respeito de, se aquele pecado representa a queda original dos anjos, e, portanto, ela não teria acontecido em Gênesis 3, deve ser notado que apenas Satanás é mencionado em Gênesis 3, e nenhum outro anjo. De qualquer modo, entendo que o pecado dos anjos no tempo do dilúvio não foi a queda original dos anjos, mas o aprofundamento da mesma, por parte de alguns anjos que já estavam seguindo Satanás em sua rebelião. Somente esses anjos foram aprisionados. Satanás mesmo, não participou do pecado em Gn 6. Sobre se isso ainda pode acontecer hoje, a resposta é: não. Deus lançou todos aqueles anjos no tártaro (2Pe 2.4), e certamente estabeleceu uma proibição que impossibilita os anjos de fazerem isso outra vez.
Não cabe aqui especular qual foi a forma utilizada, se eles assumiram formas humanas, ou se possuíram homens. Não temos nenhuma informação na Bíblia sobre como isso se deu, mas sabemos que anjos podiam comer e exercer atividades físicas próprias de um homem (Gn 18.7-8, Hb 13.2).
E, por fim, é interessante lembrar que, aquilo que aqueles anjos caídos tentaram realizar, ou seja, unir a natureza angélica à natureza humana, e que foi considerado abominável por Deus, o próprio Jesus realizou de uma maneira sublime e santa: ele uniu a própria natureza divina à natureza humana, tornando-se “Deus-homem”. Por isso, talvez, após sua ressurreição, com o corpo glorificado, ele tenha ido aquele lugar de prisão anunciar sua vitória sobre aqueles antigos anjos caídos.


[1] A interpretação de que Jesus pregou em espírito, através de Noé, é forçada no texto. A estrutura temporal da passagem não deixa dúvidas. Toda ela se desenvolve a partir dos três grandes eventos redentivos realizados por Cristo: morte, ressurreição e ascensão. Ele morreu na carne, mas foi vivificado em espírito, ou seja ressuscitou (v. 18). Então, foi e pregou aos espíritos em prisão (v. 19). E após isso, subiu ao céu na ascensão (v. 22). Os versos 20 e 21 são uma digressão temporal, uma explicação do pecado daqueles espíritos em prisão, o qual se deu nos dias de Noé. As marcações temporais da passagem, portanto, não permitem outra interpretação.
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Fonte original aqui