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23 de set de 2016

Deus Ama Todos Os Pecadores, Ou Somente o Seu Povo?

Por Leandro Lima

Entendo, que Jesus, sendo Deus, ama e tem compaixão de todos sem exceção. Deus manifesta sua graça indistintamente sobre todos os homens (graça comum), mas a salvadora é especial para os eleitos (graça especial). Assim, Deus ama (de modo comum) todos os homens, pois são suas criaturas, afinal Deus ama tudo o que criou, e desde o início disse que era tudo “muito bom”. Mas ele tem um amor especial (soteriológico) apenas por seu povo, a quem de fato ele salvará.

O Senhor Jesus "amou" o jovem rico (Mc 10.21). Usa essa palavra de forma clara e explícita, e não é boa exegese tentar enfraquecê-la, pois é a palavra bíblica mais usada para “amor”. Aparentemente, o jovem não foi salvo, pois como todos os evangelistas o citam, teriam perdido uma grande oportunidade de dizer que ele posteriormente se converteu (como parece ser o caso de Nicodemos). Separar as naturezas de Jesus, dizendo que ele o amou como homem, mas não o amou como Deus, nos faz cair na heresia do Nestorianismo, portanto, também não é boa solução. Resta-nos, portanto, admitir que Jesus de fato pode amar pecadores que não são salvos e consequentemente, também não são eleitos. 

Assim, o amor de Jesus pelo jovem rico era sincero, como uma criatura pecadora que ele era, e nos ensina que também devemos amar todos os perdidos, apesar de sabermos que somente os eleitos serão salvos, os quais, mostrarão com seu arrependimento, fé e humildade, que são de fato eleitos de Deus e amados com aquele amor eterno, incompreensível para nós.

É importante que fique claro, que em meu texto, estou falando de um amor "genérico", não um amor soteriológico. Essas distinções são necessárias para fazer justiça ao ensino bíblico como um todo. Nós não podemos nos apoiar em apenas parte dos textos bíblicos, a teologia precisa considerar todos eles, e harmonizá-los. A solução racionalista é sempre ignorar alguns textos em benefício de outros que temos mais familiariedade, mas isso faz nossa teologia ter um severo calcanhar de Aquiles. Por isso, historicamente, a teologia reformada tem feito uma distinção entre "vontade decretiva" e "vontade preceptiva" ou "de desejo".

Soa um pouco estranho para nossas mentes iluministas pensar que Deus tenha "duas vontades", e, no fundo, de fato não são duas, mas complementos da mesma. Ainda assim, nós vemos um aspecto da vontade divina em seu decreto pelo qual ele determinou o número exato dos salvos, e vemos o outro aspecto em suas manifestações bíblicas de que "não tem prazer na morte do perverso", ou como no caso do próprio Jesus, diante de Jerusalém, quando diz: "quantas vezes eu quis ajuntar os teus filhos...". Portanto, o mesmo Deus que determinou a salvação e a condenação, também diz que "quis" salvar Jerusalém. Resta-nos reconhecer a biblicidade das duas informações, e submissamente aceitar que Deus revelou isso, talvez para humilhar nossa arrogância em acreditar que possamos compreendê-lo, ou pior, a idolatria de querer fazê-lo ser como nós achamos que ele deveria ser

21 de set de 2016

Fale (ou escreva) o que é bom para a edificação: minha vindicação

Por Alan Rennê Alexandrino

Na chamada parte prática da Epístola aos Efésios o apóstolo Paulo, dentre vários mandamentos, apresentou o seguinte aos cristãos efésios: “Não saia da vossa boca nenhuma palavra torpe, e sim unicamente a que for boa para edificação, conforme a necessidade, e, assim, transmita graça aos que ouvem” (4.29). Nos versículos anteriores Paulo aplica a sua doutrina afirmando que os efésios deveriam andar de modo diferente dos gentios, isto é, daqueles que não conhecem a Deus. Como? Eis a resposta: “na vaidade dos seus próprios pensamentos, obscurecidos de entendimento, alheios à vida de Deus por causa da ignorância em que vivem, pela dureza do seu coração, os quais, tendo-se tornado insensíveis, se entregaram à dissolução para, com avidez, cometerem toda sorte de impureza” (v. 17). De acordo com ele, não foi dessa maneira que os efésios aprenderam. Seus leitores deveriam se despojar do velho homem, “que se corrompe segundo as concupiscências do engano, e vos renoveis no espírito do vosso entendimento, e vos revistais do novo homem, criado segundo Deus, em justiça e retidão procedentes da verdade” (vv. 22-24).

A partir daí o apóstolo apresenta os seguintes imperativos:

1. Deixem a mentira e falem a verdade uns aos outros, pois somos membros uns dos outros (v. 25);

2. Irem-se sem pecar. Não permitam que o sol se ponha sobre sua ira (v. 26);

3. Não deem lugar ao diabo (v. 27);

4. Aquele que furtava pare com essa prática. Comece a trabalhar, fazendo com as próprias mãos o que é bom, para também ter condições de socorrer aqueles que estão em necessidade (v. 28);

5. Não falem palavras torpes, mas apenas aquelas que contribuírem para a edificação mútua (v. 29);

6. Não entristeçam o Espírito de Deus, pois vocês foram selados nele para o dia da redenção (v. 30);

7. Lancem fora toda amargura, cólera, ira, gritaria, blasfêmias, bem como toda malícia (v. 31);

e 8. Sejam benignos uns com os outros, perdoando-se uns aos outros, segundo o que o próprio Deus, em Cristo, fez (v. 32).

Convém voltar nossa atenção para o versículo 29, onde Paulo fala do conteúdo das nossas palavras. Em primeiro lugar, Paulo nos proíbe falar aquilo que é “torpe”. A palavra grega utilizada aqui é σαπρς – saprós, que significa literalmente, de acordo com o Friberg Lexicon: “deteriorado, podre, apodrecido ou decomposto”.[1] Ainda de acordo com o mesmo léxico, o termo também pode significar, de modo mais geral “inútil, sem valor, impróprio”.[2] De acordo com outro léxico, o Thayer’s Greek Lexicon, o termo foi usado pelo filósofo grego Aristófanes, no 5º século antes de Cristo, para falar daquilo que foi “corrompido pela idade e já não é mais apto para uso”.[3] De modo geral, o termo fala daquilo que é de “qualidade pobre, má, inadequado para o uso e indigno”.[4] É interessante notar que este léxico também destaca que a palavra é oposta a καλς – kalós, que significa “bom, excelente em sua natureza e características”.[5]

Sendo assim, o apóstolo Paulo, ao nos proibir de falarmos aquilo que é torpe não está pensando apenas em palavras chulas, imorais e vergonhosas. Ele tem em mente qualquer tipo de palavra má, ímpia e pecaminosa. Isso inclui, por exemplo, a maledicência e a fofoca, que são pecados através dos quais o nome de alguém é difamado, caluniado etc. Jerry Bridges, em seu fantástico livro PECADOS INTOCÁVEIS, aplica o versículo 29, dizendo o seguinte:

“Ao examinarmos Efésios 4.29, observamos que não devemos permitir que nenhuma conversa corrupta saia de nossa boca. Essa conversa não se limita a palavrões e obscenidades. Inclui todos os tipos de conversas negativas que mencionei anteriormente. Note a proibição absoluta de Paulo. Nada de palavra destruidora. Nenhuma sequer. Isso significa nada de fofoca, nada de sarcasmo, nada de críticas, nada de palavras grosseiras. Todas essas conversas malignas que geralmente destroem outra pessoa têm de estar fora de nossas conversas”[6].

Em vez de palavras más, nossa palavra deve ser “unicamente a que for boa para edificação, conforme a necessidade, e, assim, transmita graça aos que ouvem”. Primeiramente, Paulo diz que aquilo que falamos deve ser bom para edificação. O que significa “edificar”? Seria uma palavra edificante apenas aquela que traz enlevo à nossa alma, que desperta bons sentimentos em nossos corações, que produz em nós boas sensações? Há alguma possibilidade de uma palavra edificante suscitar uma resposta de oposição ao pregador/escritor? Além disso, há alguma desarmonia ou incompatibilidade entre a palavra boa para a edificação e a veemência, a firmeza das convicções e a ousadia no falar?

O termo grego para edificação é οκοδομ - oikodomê, que fala de uma construção, um edifício cuja construção avança rumo ao seu acabamento. Novamente evocando o Thayer’s Greek Lexicon, o termo fala “da ação de alguém que promove o crescimento de outrem na sabedoria, piedade, santidade e felicidade cristãs”.[7] Comentando Efésios 4.29, o reformador João Calvino diz que interpreta a ordem de Paulo “como sendo o progresso de nossa edificação, pois edificar é progredir, avançar”.[8] Assim, a edificação busca que o outro avance, cresça, vá adiante, progrida na fé cristã.

É interessante que versículos antes o apóstolo Paulo fala do ofício pastoral e sua relação com a edificação dos crentes: “E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo” (4.11-12). Assim, o objetivo do Senhor Jesus ao conceder pastores e mestres à sua Igreja é o aperfeiçoamento dos santos e a edificação do corpo de Cristo. Logo em seguida, ele acrescenta um alvo positivo e outro negativo. O alvo positivo é até que “cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo” (v. 13). Já o alvo negativo é: “para que não mais sejamos como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro” (v. 14).

Com isto em mente, com qual objetivo pastores e mestres devem trabalhar? O que eles devem pretender ao pregarem, ensinarem, falarem e escreverem? Pelo princípio de 4.29, aquilo que edifica as pessoas de acordo com a necessidade. De acordo com 4.12, isso significa que, de um lado, que suas ovelhas se tornam cada vez mais parecidos com o Senhor Jesus Cristo. De outro, que elas não sejam suscetíveis aos maus ensinamentos dos falsos mestres. Paulo deixa claro que parte da natureza do ministério pastoral é ser combativo, veemente, firme e ousado frente à enxurrada de falsos mestres que estão em operação. Ele tem seus olhos postos na atuação de falsos mestres que podem enganar os cristãos. D. Martyn Lloyd-Jones, em sua exposição dessa passagem nos diz que, “de todos os perigos, nenhum é maior do que ‘o engano dos homens’ e a astúcia com que eles enganam fraudulosamente’”.[9]

Esse perigo é reforçado quando observamos o ensinamento geral das Escrituras a respeito das falsas doutrinas e da postura combativa que o pastor deve adotar, a fim de repelir o erro. Nesse sentido, precisamos lembrar que o apóstolo Paulo, escrevendo a Timóteo, afirma que a linguagem dos falsos mestres “corrói como câncer” (2Timóteo 2.17). Escrevendo a Tito, Paulo fala daqueles que eram “insubordinados, palradores frívolos e enganadores” (1.10). A palavra de Paulo a Tito a respeito desses homens foi: É preciso fazê-los calar, porque andam pervertendo casas inteiras, ensinando o que não devem, por torpe ganância” (1.11). No versículo 13, Paulo continua: “Portanto, repreende-os severamente, para que sejam sadios na fé”. Pela regra de Efésios 4.29, Tito deveria falar de modo que contribuísse para a edificação conforme a necessidade. Há alguma incompatibilidade entre esse princípio e as ordens dadas por Paulo em sua carta pastoral? De modo nenhum! No caso específico, Tito estaria contribuindo com a edificação das outras pessoas a partir do momento em que fizesse os falsos mestres calarem e os repreendesse severamente. Fazê-los calar e repreendê-los severamente não é incompatível com a boa palavra que coopera para a edificação dos outros. Antes, é algo que está incluído. Pela regra de Efésios 4.12-14, ao silenciar e repreender os falsos mestres, Tito estaria cooperando para a edificação dos santos, para que eles não fossem enganados pela astúcia dos falsos mestres.

Nesse sentido, podemos pensar também em como o princípio de Efésios 4.29 se aplica ao ministério daquele que é conhecido como o último profeta do Antigo Testamento, João Batista. O ensino de João Batista compreendia o chamado ao arrependimento: “Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus” (Mateus 3.2; conferir Marcos 1.4). No entanto, ao se dirigir aos muitos fariseus e saduceus que iam até ele para serem batizados, o discurso de João Batista adquiria um tom ainda mais forte: “Raça de víboras, quem vos induziu a fugir da ira vindoura? Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento; e não comeceis a dizer entre vós mesmos: Temos por pai a Abraão; porque eu vos afirmo que destas pedras Deus pode suscitar filhos a Abraão. Já está posto o machado à raiz das árvores; toda árvore, pois, que não produz bom fruto é cortada e lançada ao fogo” (Mateus 3.7-10). É bom observar que, de acordo com Lucas, esse discurso também era dirigido às multidões, e não apenas aos fariseus e saduceus (Lucas 3.7). Qual foi mesmo o fim de João Batista, por ter ele se pronunciado contra o pecado de Herodes? Todos sabemos. Seria ele o tipo de profeta benquisto? Por qual razão ele não era benquisto? Teria ele errado ao falar como falou? Teria ele agido contra o princípio da edificação? Eu creio que a resposta é óbvia.

E Jesus? Ah, com Jesus é diferente. Afinal de contas, ele disse: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma. Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve” (Mateus 11.28-30). Palavras doces, não é mesmo? Certamente, tratam-se de palavras edificantes. No entanto, este mesmo Jesus, em diversas ocasiões, endureceu o seu discurso, foi veemente, ousado e intolerante em seus pronunciamentos. O que dizer do escandaloso discurso registrado em Mateus 23.13-36, no qual, por sete vezes Jesus se dirigiu aos escribas e fariseus, dizendo: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas”? O que dizer das duras expressões usadas para adjetivar os escribas e fariseus, como por exemplo, “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque rodeais o mar e a terra para fazer um prosélito; e, uma vez feito, o tornais filho do inferno duas vezes mais do que vós!” (Mateus 23.15)? Não é possível deixar de perceber que, aqui, Jesus chamou os escribas e fariseus de “filhos do inferno”! Ele também os chamou de “insensatos e cegos!” (v. 17), “guias cegos” (vv. 16,24), “sepulcros caiados, que, por fora, se mostram belos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda imundícia!” (v. 27), “serpentes, raça de víboras!” (v. 33), condenados do inferno (v. 33). O que dizer de tais palavras de nosso Senhor? Foram elas ditas para edificação? Elas serviram ao propósito de edificar os santos e, assim, livrá-los dos falsos mestres que enganam com todo tipo de astúcia? Certamente, que sim!

Temos ainda o famoso sermão sobre o Pão que desceu do céu, registrado em João 6. Qual foi a reação dos judeus que ouviram as palavras de Jesus naquela ocasião? Eis: “Muitos dos seus discípulos, tendo ouvido tais palavras, disseram: Duro é este discurso; quem o pode ouvir?” (João 6.60). As palavras de Jesus, disseram os judeus, foram duras. De acordo com eles, tal discurso era insuportável. No versículo 66 está escrito: “À vista disso, muitos dos seus discípulos o abandonaram e já não andavam com ele”. Tudo ia bem até Jesus adotar um tom ousado e veemente em suas palavras. Ele era “edificante” até pregar o sermão de João 6. Mas, teria Jesus falhado em dizer palavras propícias à edificação daquelas pessoas, uma vez que elas não gostaram, na verdade, não suportaram aquele discurso? Ou será que, sim, Jesus disse palavras edificantes e a culpa estava, na realidade, nos corações dos ouvintes? Eu acredito firmemente que as palavras de Pedro respondem a estes questionamentos: “Respondeu-lhe Simão Pedro: Senhor, para quem iremos? Tu tens as palavras da vida eterna” (v. 68). Pedro reconhece que aquele duro discurso, aquele discurso intolerável para muitas pessoas era, na verdade, constituído de palavras de vida. Aquele discurso intolerável era, sim, um discurso edificante.

Não é incomum a existência de uma tensão em razão do discurso mais duro e combativo de ministros do evangelho. Isso ocorre mesmo dentro das igrejas cristãs. Isso ocorreu com Paulo e uma igreja local plantada por ele. Em 2Coríntios 10.10 Paulo reproduz o que era dito pelos crentes da igreja de Corinto a respeito daquilo que ele escrevia: “As cartas, com efeito, dizem, são graves e fortes; mas a presença pessoal dele é fraca, e a palavra, desprezível”. O contraste entre “as cartas graves e fortes” e a “palavra desprezível” é digno de nota. Era como se dissessem que havia uma diferença entre o Paulo no púlpito e o Paulo escritor. Escrevendo ele era ousado, forte, impetuoso, intolerante. E isso não agradava os coríntios. E como os coríntios julgavam a Paulo? Ele mesmo responde no versículo 2: “nos julgam como se andássemos em disposições de mundano proceder”. Será que, naquilo que escrevia, Paulo não atentava para a edificação dos coríntios? Não é este o caso. A carta inteira, então, é uma defesa de Paulo, da corretude do seu procedimento. O que mais chama a minha atenção é o fato de que temos aqui crentes que eram filhos na fé de Paulo, e que o julgavam dessa forma. Não é de admirar, pois, que o mesmo ocorra com pastores cujas igrejas não foram plantadas por eles.

Eu poderia falar também do que era experimentado pelos profetas do Antigo Testamento. Limito-me, todavia, a Jeremias, chamado para falar contra os pecados do povo de Deus. No capítulo 20 do seu livro nós nos deparamos com uma triste ocorrência. Somos apresentados a um homem chamado Pasur, filho do sacerdote Imer. O versículo 1 diz que Pasur “ouviu a Jeremias profetizando estas coisas”. Que coisas? Precisamos voltar ao verso 15 do capítulo 19: “Assim diz o SENHOR dos Exércitos, o Deus de Israel: Eis que trarei sobre esta cidade e sobre todas as suas vilas todo o mal que pronunciei contra ela, porque endureceram a cerviz, para não ouvirem as minhas palavras”. Jeremias proferira uma profecia de juízo, um anúncio de castigo da parte de Deus. O que Pasur fez? Como ele reagiu? Como ele tratou a Jeremias? Eis a resposta: “Então, feriu Pasur ao profeta Jeremias e o meteu no tronco que estava na porta superior de Benjamim, na Casa do SENHOR. No dia seguinte, Pasur tirou a Jeremias do tronco” (v. 2). Isso é simplesmente inimaginável! Um profeta espancado, amarrado a um tronco e deixado ao relento noturno! E por quê? Pela fidelidade a Deus! E Jeremias lamenta a sua situação diante do Senhor: “Persuadiste-me, ó SENHOR, e persuadido fiquei; mais forte foste do que eu e prevaleceste; sirvo de escárnio todo o dia; cada um deles zomba de mim” (v. 7). Ele era escarnecido. Ele era zombado. E por quê? Pela fidelidade a Deus! Mais à frente, do versículo 14 ao 18, o lamento de Jeremias ganha contornos ainda mais doloridos.

O que se requer, então, dos cristãos em relação aos seus ministros nesse sentido? Compreensão, simpatia, empatia e boa vontade. Pastores precisam ser combativos. Paulo deixou isso bem claro aos presbíteros de Éfeso (Atos 20.17-35). Lobos vorazes que não poupam o rebanho penetram na igreja (v. 29). E, em nossos dias, isso acontece por meio da televisão e também da internet. Muitas vezes, do meio da própria liderança homens se levantam falando coisas pervertidas para arrastar os discípulos atrás deles (v. 30). Pastores precisam vigiar, estar atentos (v. 31). Eles precisam enfrentar tais lobos. E, ao fazerem isso, eles estão lutando pela edificação dos crentes. É uma tarefa dolorosa. É angustiante. É desgastante ter de lutar contra o erro, que muitas vezes se apresenta de modo sutil. Hebreus 13.17 diz que os crentes devem obedecer aos seus guias/líderes/ministros, pois eles velam por suas almas. E mais, os ministros prestarão contas pelas almas dos crentes. Meu coração acelera quando penso em que, um dia, eu estarei diante de Deus e prestarei contas pelas almas das pessoas que passaram pelos meus cuidados. E se eu não tiver vigiado atentamente contra os lobos? Se eu não tiver calado os falsos mestres? E se eu não os tiver combatido e repreendido? O que será de mim? Além disso, Hebreus 13.17 também diz que os crentes devem se submeter aos seus pastores, para que, no exercício do seu ministério eles façam isso com alegria e não gemendo. Será que quando uma ovelha se volta contra o ensino do seu pastor e o rejeita isso não faz com que ele gema?

Ainda evocando a Paulo, ele diz a Timóteo que “devem ser considerados merecedores de dobrados honorários os presbíteros que presidem bem, com especialidade os que se afadigam na palavra e no ensino” (1Timóteo 5.17). Afadigar-se na palavra e no ensino... Fadiga é o resultado natural do pastorado. Essa fadiga pode ser aumentada, dependendo da resposta ao ministério do pastor. Mas, o pastor, que se afadiga na palavra e no ensino, que se esforça por fazer os falsos mestres calarem, que os repreende, que os combate, que vigia contra os lobos, e, em tudo isso, ele busca a edificação da igreja, o que ele merece? Paulo diz: “dobrados honorários” ou “duplicada honra”, como diz a versão Corrigida Fiel. Encerro com as palavras de um pastor, Jonathan Edwards, que, no passado, foi alvo de incompreensão, e que falando sobre a excelência do ministro cristão, fez o seguinte apelo aos crentes:

E aqui me dirijo especialmente ao povo de Deus, cujas almas em breve estarão sob os cuidados dEle, mas agora está solenemente sendo separado para a obra do ministério.

Se de fato, vocês ouviram, é a excelência apropriada de um ministro do Evangelho ser como uma lâmpada que arde e alumia, então é dever de vocês orarem seriamente pelo seu ministro, a fim de que ele se encha com a luz divina e com o poder do Espírito Santo. Pois aqui vocês estarão orando por algo que é para o vosso próprio benefício. Pois se o ministro de vocês queimar e iluminar, será para a vida e luz de vocês. Aquilo que foi exposto, que é a principal excelência de um ministro, a fim de se tornar um ministro a maior bênção de todas as coisas que Deus sempre dá a um povo.

E como é dever de vocês, orar pedindo que seu ministro seja tornado uma bênção tal para vocês, então devem fazer a sua parte para que seja assim, apoiando-o, e colocando-o na melhor das circunstâncias, com uma mente livre dos cuidados do mundo, e a pressão das demandas e dificuldades exteriores, para que ele se dedique inteiramente à sua obra. E por todas as formas devidas de respeito, e gentileza, e ajuda, vocês devem encorajar seu coração, e fortalecer suas mãos. E tomar cuidado a fim de que não façam nada para obscurecer e apagar a luz que brilha no meio de vocês, e abafar e apagar a chama, ao lançar terra e sujeira sobre ela; ao ter o ministro de vocês a necessidade de se envolver em preocupações mundanas, pela indigência com que o tratarem; e ao desencorajarem seu coração pelo desrespeito e rudeza.
E, particularmente, quando o ministro de vocês se mostrar uma lâmpada que queima, ao queimar com o zelo apropriado contra toda e qualquer impiedade que talvez esteja acontecendo no meio do seu povo, e manifeste esse zelo ao testemunhar apropriadamente contra isso na pregação da Palavra, ou por um exercício fiel da disciplina da casa de Deus, em vez de receber isso com gratidão, e o apoiando nisso, como vocês devem, não levantem outro fogo, de natureza de oposição contra isso, qual seja, o fogo de suas paixões ímpias, se manifestando ao reprová-lo por sua fidelidade. Aqui vocês irão agir de inconformidade com o povo cristão, e se mostrarem muito ingratos para com seu ministro, e para Cristo, que lhes deu um ministro tão fiel. E irão também, enquanto vocês lutam contra ele, e contra Cristo, lutar mais eficientemente contra suas próprias almas.

Se Cristo deu a vocês um ministro que é uma lâmpada que arde e alumia, tomem cuidado para que vocês não odeiem a luz, porque suas obras são reprovadas por ela. Mas amem e se regozijem na sua luz; e isso não somente por um tempo, como os ouvintes apóstatas de João Batista; e venham à luz. Que o seu auxílio frequente seja o seu ministro para os assuntos da alma, e em relação a qualquer dificuldade espiritual. E estejam abertos à luz e desejosos de recebê-la. E sejam obedientes a ela. E assim andem como os filhos da luz, e sigam o seu ministro assim como ele é seguidor de Cristo, isto é, quando ele é uma lâmpada que arde e alumia. Se vocês continuarem a fazer isso, seus caminhos serão como o caminho dos justos, que brilha mais e mais até ser o dia perfeito, e o fim do curso de vocês será naquelas regiões de alegria da infinita luz do Altíssimo, onde vocês brilharão com o vosso ministro, e vocês com Cristo, como o sol, no reino de nosso Pai celeste.[10]

Em Cristo, Senhor nosso,

Alan

***

REFERÊNCIAS:

[1] BibleWorks 10.
[2] Ibid.
[3] Ibid.
[4] Ibid.
[5] Ibid.
[6] Jerry Bridges. Pecados Intocáveis. São Paulo: Vida Nova, 2013. p. 154.
[7] BibleWorks 10.
[8] João Calvino. Efésios. São José dos Campos: Fiel, 2007. p. 117.
[9] D. Martyn Lloyd-Jones. A Unidade Cristã: Exposição sobre Efésios 4.1-16. São Paulo: PES, 1994. p. 199.
[10] Jonathan Edwards. A Verdadeira Excelência do Ministro Cristão. Niterói, RJ: Interferência, 2012. pp. 47-50.

19 de set de 2016

A Analogia do Endividado

Por Thiago Oliveira


Um homem simples está devendo um valor xis a um homem proeminente. O credor então cobra-lhe a dívida dando-lhe um ultimato: Ou se paga ou o fim do devedor será trágico. Ao homem endividado só resta temer o seu destino, pois ele tem o número da conta do seu credor em mãos, todavia, não conseguirá fazer nenhum depósito, ele não possui e nunca possuirá tal quantia. Quando menos se espera, um outro homem, que não tinha nada a ver com aquela dívida, deliberadamente paga o valor exato para livrar o devedor da sua severa punição.

Ao ver todo aquele dinheiro depositado em sua conta, o credor não tem mais nada para cobrar. Foi pago tim-tim por tim-tim. E o homem que estava prestes a ser arruinado, agora folga por não ter mais aquele débito. Estava livre. Agora imagine você, caro leitor, que mesmo após ver a importância depositada em sua conta, o credor mandasse um encarregado seu ir atrás de quem lhe devia e perguntasse:

- Alguém pagou a dívida para você. Agora cabe a ti aceitá-la.

Neste momento você deve estar achando improvável tal pergunta. E de fato é. Agora, imagine que além disso, a resposta do endividado fosse:

- Não, eu não quero aceitar.

Absurdo. Não há uma outra palavra para adjetivar tal desfecho. No entanto, é assim que se baseia a teologia arminiana quando diz que a Graça é resistível e que o homem pode rejeitar a oferta da salvação. Para entendermos isso de uma maneira melhor, é necessário estar ciente de outros basilares conceitos da soteriologia (doutrina da salvação) reformada. A saber: Total Depravação e Expiação Limitada.

A depravação total consiste em dizer que todos os homens estão numa situação decaída. Eles estão em rebelião contra Deus e por isso estão espiritualmente mortos (Ef 2:3; Rm 3:12; Jo 8:34). Mas, Deus em Sua soberana vontade, para o louvor de Sua glória, escolheu alguns destes pecadores mortos e os vivificou em Cristo. Por que Ele fez isso? Efésios 1 nos diz que foi para “o louvor da Sua glória” (v. 6, 12 e 14).  Seus eleitos, não tiveram mérito algum, por isso não podem se vangloriar (Ef 2:8-9, Rm 3:27). Daí o questionamento: e quanto aqueles que não se convertem quando anunciamos o sacrifício do calvário? Não estariam eles resistindo?

Aparentemente eles estão rejeitando sim. Contudo voltemos a analogia do homem endividado. Porque ele não podia negar o pagamento feito por um terceiro elemento em seu favor? Porque aquele pagamento salvaria sua pele. Por isso não há como rejeitar o sacrifício de Cristo, a não ser que este não tenha morrido por aqueles que continuam mortos. A expiação limitada ensina justamente isto: A cruz não redimiu todos os homens, apenas os eleitos. Da mesma forma, o homem de nossa estória pagou a dívida de um devedor e não de todos os devedores. Por isso, os que aparentemente rejeitam a mensagem da cruz, na verdade não foram por ela alcançados. Em outras palavras, a dívida deles não foi paga por Jesus.

Quando a Bíblia diz que o sangue de Jesus é suficiente para nos purificar de todo o pecado (Tt 2:14, 1Pd 1:18-23 e Ap 1:5), não podemos conceber a ideia de que tais homens desprezariam sua morte, tornando-a em vão. Se estes continuam na sua condição pecaminosa, é porque não receberam a fé salvífica e não foram alcançados quando Cristo expirou no gólgota. Eles são espiritualmente cegos e não enxergam que são pecadores. Obstinados continuam devendo e acham que está tudo quite. A revelação de que devíamos um exorbitante valor, e que nossa dívida foi paga, chegou até nós. Regozijamos com esta boa-nova. Porém, alguns continuam com os olhos vendados para esta realidade (2Co 4:3-4). 

Dizer que Jesus morreu por todos os homens, porém muitos não serão salvos porque vão recusá-lo é tornar os sofrimentos do Senhor inúteis, sendo necessário fazer mais alguma coisa. Restringir a cruz a vontade humana é tão absurdo como acreditar que o devedor da nossa analogia escolheria continuar devendo um débito que já havia sido quitado.

14 de set de 2016

9 Marcas de um Presbitério Saudável

Por Sinclair Ferguson[1]

Quero fornecer 9 marcas de um presbitério saudável. Presbíteros podem avançar ou retardar a saúde espiritual de uma congregação. A seleção deles, portanto, é vital. Os poucos comentários abaixo são limitados à questão: Como reconhecer quem deveria servir como presbítero?

1. Ao passo que nos arrependeremos de colocarmos a medida abaixo dos padrões das Escrituras em reconhecer homens chamados para o presbitério, podemos também, em nosso zelo, coloca-la artificialmente acima das Escrituras, e falharmos em reconhecer que alguns dos melhores dons crescem no ministério.

2. Lembre-se especialmente que “estar apto para ensinar” (1Timóteo 3.3), com seu corolário de ser apto para “repreender” (Tito 1.9, isto é, usar as Escrituras para os fins aos quais são dadas, 2Timóteo 3.15-16) não especifica a arena. Alguns que são “aptos para ensinar” não se encaixam na pregação pública regular.

3. Busque homens que exibam o espírito, assim como o apego intelectual, da doutrina saudável. Ortodoxia com aproximação é uma grande aspiração em um presbítero (aproximação como o sentido mínimo de “hospitalidade”, Tito 1.8).

4. Exponha a questão mais negligenciada – “Os de fora pensam bem dele?” (1Timóteo 3.7) – e pondere por que essa questão é importante.

5. Escolha aqueles que já estão “entre” o rebanho e o rebanho “entre” eles (1Pedro 5.2). Tendo conhecido as qualificações morais, domésticas, ocupacionais e didáticas, pergunte: “Esse homem ama o rebanho e é amado por ele?”. O comprometimento para com a oração corporativa é geralmente o papel de tornassol.[2]

6. Evite apontar aqueles que se comprometeriam a amar o rebanho se eles fossem chamados para ser presbíteros. É bem melhor ter homens que amam as ovelhas do que homens que amam serem pastores.

7. Procure por homens que são simultaneamente gentis, mas preparados para serem corajosos e preparados para sofrer se necessário – colocar-se na frente para proteger, como também se colocar atrás para seguir! Um presbítero deve ser capaz tanto da repreensão bíblica quanto da restauração gentil (Gálatas 6.2). Homens quietos, com corações quietos, são dignos do seu peso em ouro e podem nos surpreender por sua sabedoria.

8. Faça a pergunta: “Nossa igreja teria vontade, se necessário, de pagar a esse homem um salário para trabalhar entre nós como um presbítero?”. A resposta pode dizer muitas coisas sobre seu ministério no rebanho e a estima que ele tem diante dos olhos deles.

9. Considere quão bem a vida de um homem ecoa os princípios do pastoreio do Senhor no Salmo 23.

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[1] Esse texto é parte de um fórum, onde diferentes pastores compartilham suas experiências na escolha de seus presbíteros. Você pode ler o fórum completo no excelente blog Voltemos Ao Evangelho

[2] papel de tornassol é um teste feito para diferenciação das propriedades de acidez de um composto químico.

12 de set de 2016

Jonathan Edwards via a justiça econômica como uma preocupação do Evangelho

Por Greg Forster

Jonathan Edwards fez da justiça econômica uma preocupação vital no seu ministério pastoral, porque ele viu que isso era necessário para a proclamação do evangelho da salvação em Cristo. A historiografia tende a negligenciar esse aspecto de sua história. Mas em momentos críticos da carreira pastoral de Edwards, as preocupações com a justiça económica desempenharam um papel fundamental no seu ministério - motivado pelo seu desejo de proclamação fiel e fecunda do Evangelho.

Hoje, mesmo aqueles que afirmam a necessidade de ambos: a proclamação do evangelho e preocupação com a justiça, muitas vezes os veem como prioridades concorrentes. Mais atenção para um deve significar menos atenção ao outro, certo?

Nós nos beneficiaríamos ao nos depararmos com a confiança de Edwards de que estes dois imperativos não podem ser separados, e com sua coragem em viver essa conexão de forma onerosa.

Justiça Econômica e Avivamento

Embora avivamento tenha sido uma das principais preocupações de Edwards, alguns momentos podem começar a rivalizar em importância com o avivamento conhecido como o Grande Despertar. A comunidade de Edwards em Massachusetts era parte de um fenômeno religioso internacional. Seus sermões, atiçavam o fogo do reavivamento e seus livros que descreviam seu progresso estavam sendo lidos em ambos os lados do Atlântico.

No auge do Grande Despertar, Edwards fez um sermão sobre como ter "descobertas espirituais." É uma janela em suas prioridades pastorais. O que ele escolheu para se concentrar, em um momento tão crucial, como chave para alimentar e sustentar o avivamento? Quando seu povo está, finalmente, perguntando como ter descobertas espirituais, para onde ele apontou?

Ele apontou para a justiça econômica

"Ser muito mais em obras de caridade", ele prega, “é a maneira de ter descobertas espirituais." Edwards aplica a frase "obras de caridade" quase exclusivamente ao trabalho com os que são economicamente pobres. Ele cita como exemplos as moedas da viúva (Marcos 12: 42-43); a generosidade de Cornélio aos necessitados; A declaração de Paulo que, para aqueles que dão pouco, mesmo que eles dão testemunho mais a sua cobiça de generosidade ( 2 Cor. 9: 5 ); uma passagem de Isaías sobre a pobreza econômica (Is 58 7-11.) e a pobreza econômica do próprio Cristo.

Aqui, não é difícil ver a conexão com o evangelho: a justiça econômica promove as "descobertas espirituais" que impulsionam o avivamento evangélico. Ele enfatiza a união com Cristo e a santidade à base de graça, como sendo conexões entre a justiça econômica e o evangelho:

Se vamos ser gentis com Cristo e acolhê-lo bem, e quando ele estiver com fome, vamos alimentá-lo e quando estiver sedento, lhe daremos de beber, esse é o caminho a ser recompensado com grande parte de seu reino.

Ele vai ainda mais longe ao dizer em Mateus 9:13 que a caridade para com os pobres é "mais importante do que atitudes externas de culto"!

Edwards tem o cuidado de observar que não podemos adquirir união com Cristo ou perfeição moral através destas boas obras. Ele também observa que somente a regeneração pode ressuscitar nossos corações mortos para as verdadeiras boas obras. No entanto, ele ao mesmo tempo argumenta que as boas obras têm valor evangelístico. Elas são valiosas para os fiéis, por direito próprio, como o caminho para aumentar a piedade, e também para levar o evangelho ao infiel –individualmente e em comunidades.

Justiça Econômica e a Igreja

Outro tema central da carreira pastoral de Edwards foi à controvérsia sobre os limites da igreja. Edwards foi removido de seu posto em Northampton por insistir que todos os membros da igreja devem ser regenerados. Mas Edwards teve uma longa história de conflitos com os líderes em sua igreja, que data antes do grande despertar, e nesses conflitos, a santidade da igreja geralmente era a questão central.

Uma das disputas mais acentuadas entre Edwards e outros líderes da igreja em causa uma mudança na política dos bancos, quando um novo local de reunião foi construído em 1737. Por uma longa tradição que remonta à Idade Média, os bancos foram atribuídos aos paroquianos por ordem de classificação social. A ordem foi determinada por uma mistura antiga, serviço à comunidade e doações monetárias para a igreja. No novo edifício, o papel de doações monetárias foi muito maior em relação aos outros fatores.

Edwards estava lívido. Ele viu a nova política como uma idolatria flagrante pelo dinheiro. Ele lutou com unhas e dentes contra ela, e perdeu. No primeiro domingo na nova casa, o autor de "Pecadores nas Mãos de um Deus Irado" convocou seus poderes e pregou um sermão com fogo do inferno escaldante sobre a idolatria do dinheiro. E ele fez questão de mencionar a política dos bancos:

Alguns têm casas mais imponentes do que outros, e alguns têm cargos mais elevados do que outros, e alguns são mais ricos do que outros e têm lugares mais elevados na casa de reunião do que outros; mas todas as sepulturas estão em um nível. O apodrecimento, a putrefação de um corpo é tão abjeta como num outro; os vermes são tão ousados numa carcaça como na outra.

Os ricos do Northampton pagaram para se sentarem na primeira fila para a sua própria evisceração espiritual.

Edwards pregou este sermão cheio de vermes e cadáveres memoráveis ​​e tudo isso no dia de Natal. Quem entre nós seria corajoso o suficiente para tentar esse tipo de coisa agora?

O historiador Ronald Story argumenta que o conflito dos bancos deve ser visto como um momento crucial no ministério pastoral de Edwards, e uma admirável brecha para o conflito que acabaria por levá-lo a demissão. Foi uma demonstração clara e antiga de que a visão de Edwards do que a igreja deveria ser não se alinhava com aquela de muitas outras pessoas.

Justiça Econômica e Missões

Quando Edwards foi demitido da igreja, ele enfrentou uma das decisões mais importantes de sua vida. Na época do conflito sobre justiça econômica saiu para a missão de nativos americanos em Stockbridge, que Edwards havia apoiado a partir de Northampton durante anos. Edwards assumiu a missão de Stockbridge em grande parte porque ele queria mudar a forma como era executada, a fim de atender a população nativa mais justa e para promover o desenvolvimento econômico e a evangelização.

Na década de 1740 a missão Stockbridge professou lealdade ao evangelho e pretendia ensiná-lo, mas não tratou os povos nativos de forma congruente com ele. A população nativa local doou tanto a terra como o trabalho para a construção da missão. Em troca, o missionário Inglês prometeu que a missão iria servi-los. Mas a promessa não foi mantida; o missionário focou em servir a vizinha cidade de Englishtown, e tratou os postos de ensino nas escolas de missão como posições de patrocínio confortáveis.

Edwards mudou a residência missionária de volta para a comunidade nativa e trabalhou incansavelmente para defender um tratamento melhor. Mas ele teve que lutar com diversas autoridades para obter permissão para fazer alterações. O historiador Gerald McDermott escreve:

Edwards passou horas pacientemente escutando o inglês partido e a linguagem gestual de crianças indígenas e fazendo perguntas em língua nativa partida, para que ele pudesse relatar com precisão para os Comissários de Boston que seus estudiosos indianos não têm cobertores ou alimentos suficientes, que alguns meninos não tinham calças e muitos estavam indo irregularmente às reuniões, e que todos os meninos estavam sendo forçados a trabalhar seis dias por semana.

O primordial em seus apelos às autoridades, foi a credibilidade da missão entre aqueles que pretendia alcançar. A missão não pode enganar as pessoas e depois evangelizá-las. Os esforços de Edwards em nome dos pobres e marginalizados foram recompensados ​​com calúnias pessoais perversas.

Edwards também viu o desenvolvimento econômico como um imperativo do evangelho. A renovação dos nossos corações e vidas pelo Espírito Santo deve resultar em uma intensa preocupação com o aperfeiçoamento espiritual e físico da condições dos outros. A defesa de Edwards por melhores serviços para os nativos em Stockbridge não compartimentam o desejo de evangelizar e o desejo de ajudá-los a construir uma melhor vida econômica. Para ele, isso era todo amor do evangelho.

Perguntas que Assombram

Jonathan Edwards considerou uma parte central do trabalho de um pastor, por causa do evangelho, exortar as pessoas a obras de caridade, para confrontar a injustiça econômica, e promover o desenvolvimento econômico. É claro que sempre haverá tensões e escolhas difíceis. Mas temos a necessidade de um novo encontro com a potencial harmonia do evangelho e a justiça econômica no ministério pastoral.

Os evangélicos americanos hoje são tentados a se sentirem satisfeitos consigo mesmo quando olham para trás na igreja que despediu Edwards por insistir que todos os membros da igreja devem ser regenerados. Mas o que dizer de um pastor que insistiu que todos os membros da igreja devem ser generosos e justos? Quantos pastores hoje, se solicitados a explicar como as pessoas podem ter "descobertas espirituais", sequer mencionar o trabalho com os pobres e muito menos torná-lo o primeiro item na lista, como Edwards desavergonhadamente fez?

Tais questões devem nos assombrar. A dedicação de Edwards para manter o evangelho e a justiça econômica juntos, mesmo com um grande custo para si mesmo, expõe a qualidade superficial da dedicação ao evangelho e a justiça em muitas igrejas hoje.

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7 de set de 2016

Resenha do Livro A Imaginação Totalitária

Por Thomas Magnum

"Apenas humanos. E que por serem humanos precisam constantemente lembrar que a servidão do totalitarismo tem origem antes de tudo na força dessa tentação interior". (pg. 292)

Com essa frase genial, Francisco Razzo finaliza seu  livro - A ImaginaçãoTotalitária | Os Perigos da Política Como Esperança. Publicado em Junho desse ano pela editora Record. Gostaria de dizer algumas coisas sobre o livro escrito pelo professor e filósofo Francisco Razzo. 

Confesso que esse livro foi um dos que mais queria ler das publicações sobre política e filosofia política lançados esse ano no Brasil. E também confesso que o livro superou minhas expectativas desde a arte da capa que é cheia de significado condizente com o tema proposto, enchendo a imagem com a palavra "totalitária" dando uma elegante ideia do que é de fato o totalitarismo - um preenchimento quase "onipresente" ontologicamente falando - de forma elegante, criativa e imageticamente agradável. 

O livro possui algumas peculiaridades que gostaria de frisar, embora não fale de tantas quanto gostaria, por conta do espaço aqui. A primeira delas é o agradável diálogo que Razzo faz com Crime e Castigo, de Doistoiévski, especificamente com o personagem Raskólnikov que com sua mente evidentemente saturada de imaginação totalitária reduzia a realidade da vida a seu mundo de resoluções absurdas e estranhamente - podemos assim dizer - até insanas. 

O livro possui uma densidade interessante. Razzo trata do assunto a partir dele mesmo, da experiência que transborda para a vida do outro e segue um curso lógico de gradação ideológica dominadora e redutora da realidade. O homem redutível descrito por Razzo expressa isso de forma fantástica. 

O argumento inicial do autor sobre o homem redutível e o homem irredutível, mostrando que na adoção de ideias totalitárias o homem é reduzido a uma fragmentação da realidade e se autolimita num universo de esperança política redentiva, é de grande importância para um entendimento do que o autor está desenvolvendo: a imaginação totalitária é reducionista. O autor demonstra isso com um exemplo pessoal que vivenciou, sobre um casal de amigos que na adolescência tiveram um relacionamento e a garota engravidou e o conselho então que ele (o autor) deu ao amigo que seria pai em meio ao conflito da questão é que a garota abortasse a criança. Razzo vai mostrar isso de forma muito elegante e interessante, no maturar do seu argumento, de que o totalitarismo se inicia na mente do indivíduo. E no caso aqui citado, o sujeito totalitário foi ele mesmo, quando aconselha o aborto, reduzindo o feto a ser menos que um ser, e também sem importância ontológica para o tamanho do drama vivido pelo casal de amigos. A mente totalitária, mostra o autor, é reducionista, enquanto o homem irredutível tem uma gama maior de questões a considerar como importância para realidade. 

A segunda parte do livro que trata propriamente de uma filosofia totalitária, abrange de forma maravilhosa os alicerces e fundamentações da questão, o autor com muita propriedade e elegância na escrita, consegue manter o leitor fixado no que desenvolve. 

Algo que me chamou atenção na abordagem é que o livro é composto por três grandes partes que são subdivididas em si mesmas. No entanto, o argumento central está na segunda parte. Razzo simplesmente destrói a ideia de esperança política, apresentando o ceticismo político e a pluralidade como fatores importantes em sua análise. Como grandes filósofos que locavam seu principal argumento para o centro do livro, Razzo fez isso com muita competência e primor. 

O livro objetiva tratar da imagética totalitária e suas consequências em menores e maiores graus. A proposta do autor é palmilhar com os leitores os meandros e pântanos da imaginação politizante que visa reduzir o ser humano a meras questões políticas, denegrindo ou diminuindo o que é o humano em função do político. A exemplo disso é reduzir questões biológicas, psicológicas ou religiosas a mera idealização política como uma expressão de expiação universal através da ideologia.

Interessante notar que a obra tem algumas questões estéticas que chamam atenção por sua condução da questão que está em pauta no livro. O livro é divido em três capítulos que se estruturam em subcapítulos dentro dessas partes maiores, mostrando a progressividade no raciocínio do autor e o agravamento do argumento, mas, que mantém a unidade do que está sendo defendido em cada abordagem em seus pontos subsequentes. Isso produz um efeito de capilarização do pensamento de Razzo na evolução do tema central do livro. 

Cada parte e subpartes vai se desenvolvendo dentro de uma estrutura concêntrica do que o autor começa chamando de homem redutível e homem irredutível. A amostra da imaginação totalitária como uma ideologização de um aspecto da realidade promovendo assim um reducionismo do humano e suas múltiplas relações com o mundo em sua volta, é uma polarização decrescente na ideia do que é o homem promovendo um desenlace com a maior compreensão da realidade. 

É necessário dizer que o livro é de vital relevância para o estudo da filosofia política por uma ótima conservadora/liberal e não somente isso, o livro clareia a questão da mentalidade totalitária, apontando fatores presentes em uma evolução que vai do singular ao plural - sociologicamente falando. A questão gira em torno de uma sólida antropologia filosófica apresentada por Razzo, demonstrando a experiência do autor com o tema que propõe e a impressão que se tem na leitura do livro é que além de uma vasta e sólida pesquisa acadêmica sobre o tema, o autor aprofunda questões existenciais tratando então antropologicamente, sociologicamente e psicologicamente ao que se refere ao pensamento totalitário.

Razzo trabalha com uma abordagem filosófica no que se refere a verdade objetiva na política de forma cética. Tratando inicialmente da verdade objetiva e da verdade subjetiva como parâmetro de analise para um discurso político totalitário. Discorrendo sobre o pluralismo objetivo contra um monismo de verdades intransigentes. Razzo então prepara o leitor com essa abordagem mais geral sobre a verdade, e a relativização política desta (no que se refere a filosofia política) em relação a dogmatização de uma verdade politizante que totalitarize o discurso reduzindo-o a um universo de realidade restrita. Com isso o autor dá prosseguimento ao argumento do capítulo anterior sobre a redutibilidade do pensamento totalitário. A ideia é que o correto posicionamento contra a totalitarização do pensamento está na pluralidade de considerações de verdades subjetivas. Dado esse pano de fundo, Razzo leva o leitor a um afunilamento da questão. Isso ocorre na segunda parte do capítulo dois quando trata das raízes filosóficas da imaginação totalitária. 

Minha impressão quanto leitor é que o livro se parece com um redemoinho, essa imagem ficou em minha mente. Pelo motivo de a primeira parte e a última convergirem para a segunda que seria o centro da questão filosófica. O livro possui uma dinâmica crescente e convergente ao centro do argumento do capítulo dois. O livro transita sobre antropologia filosófica, filosofia política e psicologia ao versar sobre a mentalidade totalitária. Imaginação totalitária é o centro da questão e Razzo mostra que isso não é exclusivo do pensamento de esquerda, mas, na verdade, quanto humanos, todos nós podemos alimentar imaginações totalitárias. 

Um livro que sem dúvida chegou em tempo bom para o público leitor brasileiro, e que ainda será lembrado como clássico da filosofia política no Brasil.Várias frases do autor marcam, como cravos bem fixados, sua abordagem nos capítulos do livro. Assim, finalizo com uma das frases que mais gostei: 

"Para a imaginação totalitária, essa seria a verdadeira vocação da política: salvar a todos e aniquilar a quem atrapalha". (pg. 202) 

5 de set de 2016

Reforma: Retorno as Escrituras

Por Luciana Barbosa

Então o sumo sacerdote Hilquias disse ao secretário Safã: "Encontrei o livro da Lei no templo do Senhor". Ele o entregou a Safã, que o leu.

O secretário Safã voltou ao rei e lhe informou: "Teus servos entregaram a prata que havia no templo do Senhor e a confiaram aos trabalhadores e supervisores no templo". E o secretário Safã acrescentou: "O sacerdote Hilquias entregou-me um livro". E Safã o leu para o rei.

Assim que o rei ouviu as palavras do livro da Lei, rasgou suas vestes e deu estas ordens ao sacerdote Hilquias, a Aicam, filho de Safã, a Acbor, filho de Micaías, ao secretário Safã e ao auxiliar real Asaías: "Vão consultar o Senhor por mim, pelo povo e por todo Judá acerca do que está escrito neste livro que foi encontrado. A ira do Senhor contra nós deve ser grande, pois nossos antepassados não obedeceram às palavras deste livro, nem agiram de acordo com tudo que nele está escrito a nosso respeito". O sacerdote Hilquias, Aicam, Acbor, Safã e Asaías foram falar com a profetisa Hulda, mulher de Salum, filho de Ticvá e neto de Harás, responsável pelo guarda-roupa do templo. Ela morava no bairro novo de Jerusalém.

Ela lhes disse: "Assim diz o Senhor, o Deus de Israel: ‘Digam ao homem que os enviou a mim: Assim diz o Senhor: Eu vou trazer desgraça sobre este lugar e sobre seus habitantes; tudo o que está escrito no livro que o rei de Judá leu. Porque me abandonaram e queimaram incenso a outros deuses, provocando-me à ira por meio de todos os ídolos que as mãos deles têm feito, minha ira arderá contra este lugar e não será apagada’.

Digam ao rei de Judá, que os enviou para consultar o Senhor: ‘Assim diz o Senhor, o Deus de Israel, acerca das palavras que você ouviu:

Já que o seu coração se abriu e você se humilhou diante do Senhor, ao ouvir o que falei contra este lugar e contra seus habitantes, que seriam arrasados e amaldiçoados, e porque você rasgou as vestes e chorou na minha presença, eu o ouvi, declara o Senhor.

Portanto, eu o reunirei aos seus antepassados, e você será sepultado em paz. Seus olhos não verão toda a desgraça que eu vou trazer sobre este lugar’ ". Então eles levaram a resposta ao rei.”

2 Reis 22.8-20

Quando lemos esse texto que fala sobre o rei Josias, entendemos que este tinha conhecimento das Escrituras, pois, quando o livro que foi achado foi lido na sua presença, ele imediatamente rasgou suas vestes como sinal de arrependimento. Então diante disso devemos nos perguntar: Por que há a necessidade de se voltar a Lei de Deus? Para responder a essa pergunta gostaria de dividir a resposta em quatro pontos.

I - PORQUE SEM O CONHECIMENTO DA LEI DE DEUS, NÃO HÁ COMO PRESTAR CULTO VERDADEIRO (V. 16,17)

Quando o lugar da Escritura é trocado por outra coisa, o culto a Deus é segundo nossa própria imaginação, e se é pela nossa própria imaginação, cultuamos a outros deuses e não ao Senhor, logo há quebra do primeiro e segundo mandamento.

II - PORQUE SÓ ATRAVÉS DA LEITURA DA LEI DE DEUS CULTUAMOS O SENHOR COMO ELE É (V.11-13)

Só após ler a Lei do Senhor, Josias percebeu que o povo estava longe de Deus, pois este já conhecia e temia a Deus. Não há como conhecer a Deus sem ler (conhecer) a Sua Palavra.

III – PORQUE NECESSITAMOS RETIRAR DO NOSSO CULTO TUDO QUE NÃO AGRADA AO SENHOR (23. 4-14)

Depois que Josias tomou conhecimento do que Deus determinava em Sua Palavra fez uma varredura enorme: Derribou os postes-ídolos, tirou fora as estátuas dos deuses de outros povos, acabou com os prostitutos cultuais, matou os falsos sacerdotes, eliminou o espiritismo exercido por médiuns, adivinhadores e similares. Assim como fez o rei Josias, nós como povo exclusivo de Deus, devemos retirar do nosso culto tudo que não agrada a Deus, para que Ele venha aceitar nosso culto.

IV. PORQUE PRECISAMOS VOLTAR A ALIANÇA QUE DEUS FEZ COM SEU POVO (23.1-3)

Precisamos retornar para o lugar de onde nunca deveríamos ter saído, pois, é dentro da aliança que somos abençoados por Deus.

CONCLUSÃO

Necessitamos urgentemente retornar a Lei de Deus, necessitamos adorar somente a Deus, NÃO como achamos como Ele é, antes, como Sua palavra diz Ser o que Ele é: SANTO, JUSTO, PERFEITO, CIUMENTO e NÃO DIVIDE SUA GLÓRIA COM NINGUÉM.

“Então falou Deus todas estas palavras, dizendo: Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão. Não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não te encurvarás a elas nem as servirás; porque eu, o Senhor teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniqüidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam.”

Êxodo 20.1-5