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25 de ago. de 2016

Todos os cristãos precisam de Teologia

Por Morgana Mendonça dos Santos

É incrível, como existe no meio evangélico dos nossos dias, cristãos avessos ao labor teológico. Eis uma realidade que nem os reformadores gostariam de presenciar no nosso tempo. Nos últimos dias, percebi isso de forma mais aguda e acentuada. Há nos arraiais evangélicos pessoas que de tal forma rejeitam a teologia, não seria isso um grande contrassenso? Me parece que o discurso do amor é uma antítese ao labor teológico. 

Dificilmente um texto como esse resolveria a questão, dificilmente um sermão pregado no púlpito dia de domingo conseguiria destruir essa fortaleza que existe no coração de muitos. Acredito que, uma clareza de conceitos, processo de ensino e advertência sobre a importância da teologia, provocariam um passo no longo percurso da quebra de paradigmas. 

Não se deve negar que, durante muito tempo, a teologia esteve confinada num mundo acadêmico, toda a questão que envolve a teologia sempre distanciou o público leigo desse privilégio bíblico. Talvez sua linguagem técnica, sua rigorosidade científica, seu aspecto erudito, construíram muros ao invés de pontes para com o público cristão leigo. É possível que, certa "distinção clerical", tenha gerado ao longo do tempo um abismo entre a teologia e os iniciantes no caminho do saber bíblico. 

No entanto, a Escritura afirma e direciona o caminho do sacerdócio universal, não apenas a liderança eclesiástica deve vivenciar o labor teológico, mas, todo aquele que professa ser cristão (1Pd 2.9). Todos os cristãos, a Escritura afirma, devem crescer não apenas na graça, mas também no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo (2Pe 3.18). Retomemos o ensino bíblico do sacerdócio de todos os crentes! É verdade que entre abismos e muros, o trabalho de criar pontes será bem maior. Lembro-me, várias vezes, em aulas do seminário, dos professores repetirem: "somos chamados como construtores de pontes e não de muros". 

A ideia que Deus capacita apenas alguns e outros ficam somente como expectadores existe, e tem causado desperdício e desconforto na causa do Reino. Infelizmente, o que se dedica ao labor teológico é visto como orgulhoso, prepotente, sabedor da verdade e que de forma arrogante só sabe criticar ao invés daquele que mesmo sem saber muita coisa, consegue amar sem fazer acepções. Nunca deveria existir essa oposição da teologia e o amor, da teologia e a humildade, da teologia e a piedade. Na verdade, o verdadeiro propósito do conhecimento redundará em adoração através de uma vida piedosa, como testemunho. Esse é o fundamento da teologia, a glória de Deus e uma vida piedosa. 

Como um cristão pensa que se opor a teologia o faz mestre na piedade? A definição da teologia não deveria ser aquilo, que o cristão leigo ou não, deveria admitir buscar todos os dias? Conhecimento de Deus não deveria ser desejado? É importante perceber o fato de que hoje muitos dos que rejeitam essa vida acadêmica, são os mesmo que criticam quem assim o faz, negando por sua própria conduta seu discurso repetitivo e obsessivo por mais amor e menos intelecto. Devemos considerar do mesmo modo quem usa o academicismo como chicote e Bíblia como pedrada. De fato, muitos usam do "tulipar" ou "teologizar" para bater e pisar no corpo no qual Cristo é o cabeça, não sabendo realmente como usar esse labor para a glória de Deus. 

Há passagens bíblicas que mostram claramente a importância da teologia para todo o cristão e o quanto ela está a serviço do povo de Deus. Mais ainda: que existe benefício para todo o povo de Deus em todos os campos do labor teológico. 

Conforme a ordem dada ao sacerdócio real e a nação santa sobre o anúncio das grandezas de Deus (1Pd 2.9), esse é um ponto que se requer preparo no falar. Não deve ser negligenciado, pois as grandezas de Deus não podem ser anunciadas de qualquer forma. E, a parte da teologia que esmera-se nesse assunto, é a homilética, visto que, não somente prepara bem o pregador para o púlpito, mas, todo cristão para uma boa transmissão dessa verdade bíblica. 

A grande comissão nos ordena a fazer discípulos e a forma como devemos fazer é ensinando (Mt 28.19-20), a ordem deve ser obedecida. Devemos ensinar tudo aquilo que Cristo ordenou e isso requer conhecimento sobre Deus, seus mandamentos, sua lei. Como podemos fazer discípulos sem teologia? A teologia nos ajuda a romper com os métodos modernos, para crescer no conhecimento da teologia bíblica e exegética. 

Pedro, no capítulo 3, verso 15, da sua primeira carta, nos diz que devemos estar preparados para responder à todo aquele que nos inquirir a respeito da esperança que há em nós, a razão da nossa fé. Ou seja, é necessário que tenhamos conhecimento bíblico. Chamamos isso na teologia de apologética, isto é, um discurso de defesa da fé cristã bem embasado nas Escrituras. 

Há passagens na Bíblia de difícil interpretação, até o apóstolo Pedro concordou com isso (2Pd 3.16), inclusive, nesse mesmo verso, ele fala de homens que distorcem a Escritura para a sua própria destruição. Pedro traz-nos um alerta para que não sejamos enganados, de forma que não suceda perdermos nossa firmeza. A hermenêutica é o campo da teologia que se encarrega de examinar o sentido preciso de uma passagem bíblica. Como disse Pedro, todo cristão deve crescer na graça e no conhecimento de Cristo Jesus. 

Poderia continuar propondo pontos que, de forma clara, são necessários a todo cristão, de fato, todos nós precisamos da teologia. Aprimorar nosso conhecimento a respeito de Deus através da Sua Palavra. Devemos ser inclinados ao labor teológico, ortodoxia e ortopraxia não são opostas, na verdade, são inseparáveis. Sejamos construtores de uma teologia saudável, que seja uma ponte para nossos irmãos da igreja local. Todo cristão deve desejar conhecer a respeito da revelação especial, eis um exemplo claro do conselho de Paulo a Tito:

Você, porém, fale o que está de acordo com a sã doutrina. Em tudo seja você mesmo um exemplo para eles, fazendo boas obras. Em seu ensino, mostre integridade e seriedade; use linguagem sadia, contra a qual nada se possa dizer, para que aqueles que se opõem a você fiquem envergonhados por não poderem falar mal de nós.

Tito 2.1, 7-8.

12 de ago. de 2016

O Contencioso


Por Morgana Mendonça

Porque o evangelho não é uma doutrina de língua, mas, de vida”. O grande reformador João Calvino (1509-1564), consegue em poucas palavras, nos ensinar algo de extrema importância. Ele nos ensina sobre uma vida piedosa que retrata o evangelho da graça de Deus. A vida do cristão precisa, não apenas por palavras, e sim, por conduta, expressar a sã doutrina.

Tem sido um grande desafio viver uma vida que glorifique a Cristo. A comunidade evangélica tem enfrentado situações desafiadoras em todas as áreas, seja com questões culturais, ideológicas e até mesmo com relacionamentos interpessoais. Cada dia mais os relacionamentos virtuais têm sido alvo de grandes controvérsias. Perceber o quanto estamos longe de uma saudável convivência com o corpo de Cristo nas redes sociais é importante para destacar um ponto chamado contenda. Outra questão é perceber que as "contendas" criam dimensões gigantescas e trazem, não somente divisão, como adeptos a cada dia. No meio reformado, essa tem sido uma triste realidade que destoa com aquilo proposto na Escritura. Amantes das controvérsias, em torno de temas teológicos, produziram muitos teólogos "fakes" e "super-crentões". A Escritura nos diz claramente:

O que ama a contenda ama a transgressão; o que faz alta a sua porta busca a ruína.

Provérbios 17.19

Contenda é pecado! Amar a contenda é pecado, pecado esse que mina o coração e reflete um comportamento desprezível. Esse verso nos diz que: quem ama a contenda, ama o pecado. A contenda é um pecado que se encarrega de trazer outros pecados, como a maledicência, a ira, a maldade e o orgulho. O próprio verso mencionando em provérbios fala do orgulho, "aquele que faz alta a sua porta facilita sua própria queda". Em nossos dias, esse amor à contenda é visto de várias formas nas redes sociais, em páginas ou em grupos. Uma vitrine de contendas, relacionamentos destruídos e muitos bloqueados. Cristãos contenciosos, não seria uma questão trágica em nosso meio? A ânsia da defesa pública e da exposição teológica reformada, para que "likes" alimentem um ego enfermo. Um desejo ardente para oferecer a última palavra baseado em todo arcabouço da filosofia ou teologia, não é menos importante do que manter um relacionamento saudável com um irmão, que, por um detalhe, pensa diferente de você. 

A falsa piedade tem convencido a muitos com uma retórica de amor e zelo pela verdade, e ódio contra o pecado. Como disse, certa vez, um pastor reformado sobre suas percepções a respeito desses debates teológicos de Facebook: "A contenda se reveste de falsa piedade, quando o que realmente está acontecendo é amor ao pecado que Deus odeia". A glória de Deus, o bem ao próximo, o verdadeiro zelo pela Escritura estão longe dos debates teológicos das redes sociais, são poucos os que proporcionam realmente santo temor e paz entre os envolvidos. 

De fato, é necessário um exame das nossas motivações teológicas, um sondar das nossas intenções. Devemos questionar o propósito de tantas leituras, labor teológico e filosófico, de tanto conhecimento bíblico com um objetivo de apenas satisfazer o ego, e que, por fim, carece bastante de motivações genuinamente piedosas. Muitos outros pastores têm se posicionado contra essa realidade, trazendo a reflexão necessária sobre este desserviço à fé reformada. 

Aqueles que confessam a fé cristã reformada devem, em todos os âmbitos, manifestar o senso profundo e inequívoco do Soli Deo Gloria. Não devemos ter prazer nas contendas, nem muito menos em disputas teológicas. E isso não quer dizer que devemos abandonar o labor teológico, nem um debate saudável. Que o fim de se envolver nesse embate seja a glória de Deus, negando qualquer outra motivação que traga algum prejuízo na comunhão com os irmãos. O próprio reformador João Calvino não amava a disputa, nem a controvérsia, nem o falar contencioso. O alvo de Calvino era defender a fé com zelo, por amor às ovelhas de Cristo, para a glória de Deus. 

A verdadeira sabedoria é humilde e o pai da contenda é o orgulho. Que a nossa oração seja: concede-nos, ó Pai, uma inteligência em sincera humildade e pronta humilhação. A mistura de conhecimento e insensatez é chamada pelos gregos de sofomania, ou seja, o hábito de querer parecer sábio. Lembremos-nos do livro de provérbios, que diz, "o temor a Deus é o princípio da sabedoria" (Pv 1.7). Deixo aqui, nas palavras do apóstolo, um grande conselho:

E rejeita as questões tolas e desassisadas, sabendo que geram contendas; e ao servo do Senhor não convém contender, mas sim ser brando para com todos, apto para ensinar, paciente; corrigindo com mansidão os que resistem, na esperança de que Deus lhes conceda o arrependimento para conhecerem plenamente a verdade, e que se desprendam dos laços do Diabo (por quem haviam sido presos), para cumprirem a vontade de Deus.

2 Timóteo 2.23-26

2 de mai. de 2016

A Continência Cristã

Por Morgana Mendonça 


"Põe, ó Senhor, uma guarda à minha boca; vigia a porta dos meus lábios!"
Salmos 141.3


Devo esclarecer algo sobre esse texto: meu objetivo não é dissertar sobre o assunto escolhido, mas sim pontuar o pensamento de Agostinho. Visto ser grande a necessidade e urgência em nosso tempo sobre esse tema tão pouco ensinado, nem ao menos conversado entre os cristãos atuais. Considerando ser muito laboriosa a leitura da sua completa obra, é necessário – ao menos – entender tudo isso a luz das Sagradas Escrituras. Na sua parte introdutória encontramos algo interessante sobre a evidência de sua autoria. 

"Embora o próprio Agostinho, em uma carta de 429 d.C., dirigida ao Comissário Imperial Dário (Ep. 213,7), faça referência ao De Continentia (A Continência), mas, por não ter sido elencado em suas Retratações, durante séculos, muita gente colocou em dúvida a sua autoria agostiniana, chegando ao ponto de Erasmo atribuir sua autoria a Hugo de São Vítor. Foi somente em 1685, na Edição Beneditina dos textos agostinianos, que, baseado no estilo e no assunto nele escrito, o texto foi, finalmente, reconhecido como sendo de Santo Agostinho." [1] 

É interessante também notar que seu primeiro biógrafo, Possídio, faz referência ao De Continência, no Indiculum, afirmando ser um dos tratados de Santo Agostinho. Em relação a data do escrito há alguns questionamentos. Se foi um sermão ou uma refutação ao maniqueísmo há também algumas dúvidas. Chegou-se a cogitar a possibilidade de ser até um escrito antipelagiano. A possibilidade de ser uma refutação é propícia pelo fato da obra do começo ao fim, refutar as posições maniqueístas, no que se refere à luta por parte do homem em superar os desejos que o conduzem ao mal. A ideia do dualismo em Maniqueu, afirma que o corpo não passa de um acidente e que, portanto, deva ser desprezado pelo ser humano. A perspectiva de Agostinho sobre isso é de fato interessante e coerente, tomando como ponto de partida o verso acima (Sl 141.3) ele diz que "o corpo foi criado por Deus, por isso, enquanto tal é um bem, de forma que não é o corpo que peca, pois este não tem vontade, mas sim a alma, que apenas se utiliza do corpo para pecar". [2] 

"Assim, tudo o que de dentro não soa, fora não ressoa; mas o que, sendo mal emanar de dentro, mesmo que não mova a língua, contamina a alma. A continência, portanto, precisa ser colocada lá onde a consciência, mesmo no silêncio exterior, fala. Em suma, é a porta da continência que impede brotar do interior algo que contamine a vida e a mente, ainda que estejam calados os lábios da carne". (De cont., I,2) 

Para Agostinho a ideia da continência aponta para uma vida ideal, chamada "moral das intenções" agostiniana, em que a noção de castidade é, antes de tudo, intelectual ou espiritual. O que seria então a Continência? Nas palavras do cristão Agostinho, significa "dom de Deus". Impossível ser continente a menos que Deus conceda essa virtude aos cristãos. (1Co 7.7) Fazendo uma introdutória pontuação vemos a continência da boca e do coração. 

Salmos 141.3 "Põe, ó Senhor, uma guarda à minha boca; vigia a porta dos meus lábios!" 

O versículo acima nos leva a entender o conceito de continência. É óbvio pensarmos e retratarmos na nossa mente uma ideia de luxúria, uma ideia carnal para a palavra continência. O salmista canta em forma de súplica por uma "guarda" e por uma "vigilância". Precisamos entender a palavra "boca" e "lábios" nesse contexto, segundo Agostinho, como porta, ou seja, um acesso indicando possivelmente algo interno e não externo. Essa "guarda da boca" poderíamos chamar de continência. Geralmente guardamos a nossa boca, para que dela algo que não se deseja dizer através do som da voz escape de nós. No entanto, é dentro da boca do coração, onde primeiro se dizem as palavras, por isso o salmista clama para que haja uma guarda, uma vigilância, uma porta da continência colocadas pelo Senhor. 

Há uma variedade de palavras que não permitimos que a boca do corpo fale, porém a deixamos gritar com a boca do coração. Não há nada que saia da boca do corpo que não tenha nascido internamente na boca do coração, ou seja, o que se emana de dentro, mesmo que não mova a língua, contamina a alma. Tudo que dentro não soa, fora não ressoa! De acordo com a oração do salmista, é necessário que a continência seja colocada onde a consciência, mesmo no silêncio exterior, fala. Podemos entender que, a porta da continência, é o que impede florescer no interior algo que possa contaminar a mente e a vida, ainda que estejam em silêncio os lábios da carne ou o movimento dos membros. 

Para corroborar com a ideia anterior, o salmista no verso posterior diz: "Não se incline meu coração para palavras más..." (Sl 141.4). Comprovando assim a ideia da "boca interior" que ele estava falando. A inclinação do coração como um consentimento, provando o quanto está interligado um com o outro. No pensamento bíblico mostrado por Agostinho, é culpado todo o homem pelo fato de ter determinado em sua mente, mesmo que haja silêncio em seus lábios e imobilização nos seus membros. Segundo Agostinho: "[...] Corretamente está se dizendo que uma palavra é o começo de toda ação. Na verdade, são muitas as coisas que os homens fazem com a boca fechada, língua quieta e voz muda [...]" [3]. O ponto de partida é o coração.  Nasce no coração e é manifestado externamente. A necessidade é que nos lábios internos, no coração, fosse construída a "porta da continência". 

Mateus 23.26 "Fariseu cego! Limpa primeiro o interior do copo, para que também o exterior se torne limpo." 

Como esquecer as palavras de Cristo? A continência precisa ser uma realidade, o interior é o local onde suplicamos por castidade sagrada. Em outro momento Jesus refutando os judeus por conta da crítica feroz contra seus discípulos, pelo fato de não lavarem as mãos antes das refeições disse: "Não é o que entra pela boca que contamina o homem; mas o que sai da boca, isso é o que o contamina" (Mt 15.11). O que contamina o homem é o que sai da boca do coração, do coração onde encontramos todos os desejos corrompidos e contamináveis. 

Mateus 15.19-20 "Porque do coração procedem os maus pensamentos, homicídios, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos e blasfêmias. São estas as coisas que contaminam o homem; mas o comer sem lavar as mãos, isso não o contamina." 

Seria impossível que os membros do corpo ou a boca da carne praticasse tal perversidade se antes não fosse concebido no coração, precedidos por um mau pensamento. Isso contamina o homem, mesmo que os seus membros em atitudes sujas e perniciosas não praticassem tal coisa. O homem é responsável por todas as ações mesmo que não sejam externadas com movimentos do corpo, e nem sejam completamente realizadas, de forma oculta são culpados, estão contaminados desde que saiu da boca do coração e atingiu o interior humano. O que também nos torna diferentes dos fariseus? A continência! Ser aparentemente belo por fora e um sepulcro caiado por dentro seria para nós essa advertência de Cristo. 

Mateus 23.27-28 "Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! porque sois semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora realmente parecem formosos, mas por dentro estão cheios de ossos e de toda imundícia. Assim também vós exteriormente pareceis justos aos homens, mas por dentro estais cheios de hipocrisia e de iniquidade." 

O salmista clama por continência, que possamos assim clamar para que a porta da continência seja colocada na boca do coração, de onde vem tudo o que contamina o homem. Que possamos nos alegrar com a pureza que a continência nos oferece, provocando assim uma ferrenha inimizade do espírito contra a carne, de forma que a concupiscência não seja consentida e sim combatida resultando não ser contaminado. 

E assim, na famosa "cena dos Jardins de Milão" havia um homem que ao ler Romanos 13.13 entendeu que deveria renunciar aos prazeres carnais, viver uma relação estreita em relação à vida espiritual-sacerdotal e a continência: Agostinho de Hipona.

"Cor meum tibi offero, Domine, prompte et sincere" - "Meu coração te ofereço, ó Senhor, pronto e sincero". Esta oração foi feita por João Calvino, reformador de Genebra. 

A Deus toda a Glória, Rm 11.36. 
______
Notas: 

[1] Agostinho, Santo, Bispo de Hipona, 354-430. De Continentia. Tradução, introdução e notas: Gérson F. de Arruda Junior e Marcos Roberto Nunes Costa. São Paulo: Paulus, 2013 (Coleção Patrística; 32) p.179 

[2]Ibid p. 181 

[3]Ibid p. 187

11 de abr. de 2016

Culto segundo as Escrituras

Por Morgana Mendonça dos Santos 

"Rogo-vos pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis os vossos corpos como um sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional".

Romanos 12.1.

No primeiro verso do capítulo 12 da carta à igreja de Roma, o apóstolo Paulo nos mostra a forma do culto racional e diário, assim como Moisés escreve o segundo mandamento (Ex 20.4-6; Dt 4.15-19) como regulamento do mesmo. A Bíblia revela do começo ao fim como devemos adorar a Deus e a forma como foi constituída essa adoração. O culto segundo as Escrituras provém da prórpia Escritura. É a Palavra escrita que determina o culto solene. Não parece ser tão óbvio assim, devido a real situação do culto na maioria das igrejas. É tanto urgente como necessário oferecer o conceito de culto para que o culto seja devidamente estabelecido. Culto poderia ser definido como: ajuntamento solene com o propósito de glorificar a Deus de forma reverente e com muito temor. O povo da aliança é convocado de forma santa a cultuar a Deus de acordo com Hebreus 12.28-29, lembrando assim que Deus é fogo consumidor:

"Pelo que, recebendo nós um reino que não pode ser abalado, retenhamos a graça, pela qual sirvamos a Deus agradavelmente, com reverência e temor; pois o nosso Deus é um fogo consumidor."

Tanto no Antigo como no Novo Testamento a estrutura do culto é abastecida de temor ao Senhor. Perceba que Hebreus 12 tem ecos do Salmo 50.3-4, como exemplo disso temos o que aconteceu no Monte Sinai. Deus exige um culto conforme Ele deseja e somente o aceita dessa forma. A exigência divina deve ser percebida, Ele exige um culto santo, pois é fogo consumidor. Nas palavras do Rev. Kenneth Wieske [1] sobre o caráter do culto solene:

Desde o Antigo Testamento já era necessário obedecer e atender à santa convocação do Senhor. Quando Deus convocava seu povo diante do Monte Sinai que fumegava, relampejava, trovejava e via-se a presença dos anjos (At 7.53; Hb 2.2; Dt 33.2), quem ousaria dizer “não, não posso ir ao culto, pois tenho outros compromissos? Acho que papai e mamãe irão, mas eu tenho alguma coisa a comprar no shopping”. Que nada! Deus estava convocando seu povo e ai daquele que não obedecesse ao seu chamado! Se naquela época era impensável se desprezar a santa convocação, quanto mais hoje?.

Eis o que a Confissão de Fé de Westminster (CFW) diz a respeito no capítulo XXI sobre o assunto do culto solene [2]: 

A luz da natureza mostra que há um Deus, que tem domínio e soberania sobre tudo, que é bom e faz bem a todos, e que, portanto, deve ser temido, amado, louvado, invocado, crido e servido de todo o coração, de toda a alma e de todas as forças; mas, a forma aceitável de adorar o verdadeiro Deus é instituída por Ele mesmo, e é tão limitada pela sua própria vontade revelada, que ele não pode ser adorado segundo as imaginações e invenções dos homens, ou sugestões de Satanás, nem sob qualquer representação visível, ou de qualquer outro modo não prescrito nas Santas Escrituras.

O culto segundo as Escrituras deverá ter características fundamentalmente bíblicas. Ele deve ser unicamente e devidamente bíblico, evangélico, pactual, histórico, alegre, litúrgico e reverente [3]. O culto bíblico que o Senhor instituiu tem implicações nos dez mandamentos. Encontramos esses princípios nos primeiros mandamentos, onde Deus estabelece quem deve ser adorado, como deve ser adorado e a reverência dessa adoração. No primeiro mandamento (Ex 20.3; Dt 5.7) há uma ordem, "não terás outros deuses diante de mim", aqui aprendemos a quem unicamente devemos adorar. No segundo mandamento (Ex 20. 4-6; Dt 5. 8-10) observamos a maneira que Ele instituiu essa adoração e nos deixou avisados da forma que Ele mesmo abominaria se fizéssemos.

“Não farás para ti nenhum ídolo, nenhuma imagem de qualquer coisa no céu, na terra, ou nas águas debaixo da terra. Não te prostrarás diante deles nem lhes prestarás culto, porque eu, o Senhor, o teu Deus, sou Deus zeloso, que castigo os filhos pelos pecados de seus pais até a terceira e quarta geração daqueles que me desprezam, mas trato com bondade até mil gerações aos que me amam e obedecem aos meus mandamentos.” Êxodo 20. 4-6.

No terceiro e quarto mandamento, de forma contínua é pressuposto o dia e a reverência dessa adoração (Ex 20.7-11; Dt 5.11-15). Nem as especulações humanas, nem muito menos a sinceridade de um coração é suficiente para celebrar o Deus Triuno no culto solene. A exemplo disso temos Caim (Gn 4.5), Nadabe e Abiú (Lv 10.1-2) e Uzá (2 Sm 6.6-7) que tentaram da sua própria forma realizar um culto e/ou oferecer um serviço na presença de Deus.  

O culto deve ser bíblico pelo inequívoco fato de que Deus em Sua palavra já ter regulado os elementos do culto e seus princípios que são segundo a sua vontade (Dt 12.29-32). Deus revela em Sua sagrada Palavra tudo o que precisamos para cultuá-lo com zelo pela sua glória e reverência pelo seu nome. Desejo sincero não significa culto aceitável, cumprimento bíblico sim. Oferecer um culto ao Senhor sem ser prescrito pela Sua palavra é uma profanação a sua pessoa. Um culto à si mesmo é condenado pela própria Escritura (Cl 2.23). Não há desculpa para se apartar da regra, a regra é clara. O que não é proferido não pode ser oferecido. Segundo Daniel Hyde, em poucas palavras [4]: "Em tempos de analfabetismo bíblico, precisamos de um culto cheio das Escrituras, com uma linguagem escriturística em cada aspecto, das leituras responsivas e cânticos, às orações e leituras bíblicas propriamente ditas." Importa que estejamos aptos para compreender que o culto segundo as Escrituras precisa ser cheio das Escrituras.

O culto deve ser evangélico, isto é, alicerçado nas boas novas de salvação em Cristo Jesus. O culto deve ser cristocêntrico, deve ter o evangelho ressoando do começo ao fim. O culto deve ser evangélico devido à obediência ativa e passiva de Cristo, Ele mudou tudo. Temos livre acesso a presença de Deus, o evangelho - Cristo nos garantiu esse caminho novo à presença do Criador (Ef 2.11-22; Hb 10.19-22). Temos um grande sacerdote sobre à casa de Deus, o autor aos Hebreus afirma com clareza que através do sangue de Cristo podemos confiantes nos aproximar humilhados além do véu. “Assim, aproximemo-nos de Deus com um coração sincero e com plena convicção de fé, tendo os corações aspergidos para nos purificar de uma consciência culpada e os nossos corpos lavados com água pura.” Hebreus 10.22. Assim como Abel (Hb 11.4), podemos nos aproximar com plena convicção de fé e um coração sincero, um culto superior, pois, é segundo as Escrituras. O culto é evangélico porque o evangelho é o reflexo daquilo que é pregado, orado e cantado. O povo do pacto é alimentado pelo evangelho e o Espírito Santo atrai os incrédulos para ouvir as boas novas de salvação. A grande questão é que nos nossos dias os cultos foram divididos por temas. E com isso há grandes prejuízos. Me parece que o que temos hoje são fatias de um bolo que não poderia ser ratificado. Culto de adoração, culto da consagração, culto evangelístico, culto de oração e/ou doutrina. Acredito que o culto deverá conter esses elementos, não há culto solene sem oração ou exposição da sã doutrina. Não poderá haver culto sem o evangelho ou sem consagração. Todo culto deverá conter elementos prescritos na Palavra, como disse Timothy Keller [5], em resumo:

se o culto de domingo visa em primeiro lugar o evangelismo, aborrecerá os santos. Se visa principalmente a instrução, confundirá os incrédulos. Mas se visa louvar o Deus que salva pela graça, isso vai instruir os de dentro e desafiar os de fora. A boa adoração corporativa será naturalmente evangelística.

Complemento dizendo que, todo esforço não será útil para somente abastecer os santos ou atrair os incrédulos, o culto deve ser bíblico e conter elementos que glorifiquem o Senhor, que é santo e soberano sobre todos os corações.

O culto deve ser pactual, significa não ser tradicional ou moderno. Essas formas culturais de culto não são apropriadas ao contexto teológico segundo as Escrituras. Manter a distância das formas contextualizadas de culto segundo as especulações humanas deve ser o dever do cristão. O culto deve ser pactual pelo fato de ser baseado na aliança de Deus com o seu povo. De acordo com a continuidade do Antigo e Novo Testamento, conforme prescrito na lei. O culto deve ser pactual porque possui um caráter legal e íntimo como um casamento, a comunidade dos eleitos com o Deus Triuno (Ef 5), uma verdadeira aliança. Muitos podem objetar dizendo que precisamos de um culto contemporâneo, com a intenção de atrair uma nova geração de crentes que vivem numa outra forma cultural de adoração. Engano! Nosso culto deve ser guiado pelo padrão das Escrituras, não é a cultura que dita a forma da santa convocação nem os elementos oferecidos na adoração. Outros podem destoar do conceito de culto pactual, devido não ser uma linguagem acessível. No entanto, como disseram os reformadores devemos falar no vernáculo, ou seja, numa linguagem compreensível. A ordem da pactualidade do culto solene não despreza uma linguagem acessível, nem muito menos a suficiência do texto sagrado. A estrutura que predomina nas Escrituras é o pacto, a Bíblia é um documento pactual, deve ser necessário essa compreensão para não restar dúvidas sobre essa forma de culto. Há um diálogo entre Deus e o Seu povo no culto, vejamos essa citação: "Deus nos diz: “Eu serei o seu Deus” e nós respondemos: “Nós seremos o seu povo”. Deus nos chama à adoração e respondemos em cântico. Deus nos fala a sua Lei, nós lhe respondemos com a confissão dos nossos pecados. Ele nos absolve dos nossos pecados, nós respondemos em oração. Ele nos fala pela Palavra e nos sacramentos, nós respondemos com dádivas de gratidão e doxologia. Isto é o que realmente significa dizer que o nosso culto é pactual." O culto é a renovação da promessa pactual que Deus fez em Cristo conosco, esse pacto da graça é renovado a cada semana na exposição da Palavra e nos Sacramentos.

O culto deve ser histórico porque é necessário que seja coerente com a doutrina dos apóstolos, que tenha continuidade com a história da igreja e que realce a maneira que os nossos antigos cristãos cultuaram solenemente o Deus Triuno. Deve ser um culto histórico e unido a tão grande nuvem de testemunhas (Hb 12.1). Quando nos reunimos no dia do Senhor, devemos ter em mente que estamos de forma coerente afirmando aquilo os antigos cristãos também afirmaram sobre a solenidade e simplicidade do culto. Seguindo o modelo básico da igreja primitiva sobre o culto, conforme testemunho dos pais da igreja, dos reformadores e seus escritos. Como afirma o Hyde [6]

em resumo, seguimos este modelo básico da Igreja primitiva de culto, no qual a Palavra é lida e pregada, os sacramentos são celebrados com ação de graças, orações de confissão, intercessão, graças são dadas, e as ofertas do povo de Deus coletadas para o ministério da misericórdia.

O culto deve ser alegre e reverente, e isso quer dizer cheio de temor ao Senhor. Não espontâneo e sem entendimento. Aqui, chegamos num ponto controverso. Quem disse que um culto recheado de risos, gritos e danças é um culto alegre? Quem disse que um culto silencioso, harmonioso, sem expressões extravagantes é um culto triste? A liquidez dos cultos perde completamente o sentido de alegria sólida e perseverante. Segundo os Salmos, o culto é extremamente alegre e reverente (Sl 100.1-3). Percebemos o salmista enfatizando extrema alegria e temor. A questão é que a falta de percepção de quem nós somos não permite-nos entender o que significa verdadeira alegria no culto ao Senhor. Não seria a hora de entender o que de fato é, e o que não é alegria? Alegria não quer dizer ter liberdade para fazer o que quiser, também não quer dizer oferecer ao Senhor o seu culto do seu jeito conforme seu bem parecer. Um culto alegre significa uma grande expectativa que Deus irá lançar sobre nós a Sua graça quando diante dEle estivermos reverentes com tremor e temor (Sl 2.11). O culto alegre é um deleite na bondade do Senhor e em resposta manifestamos nossa gratidão diante do seu favor. A alegria é a condição de um coração que foi profundamente convicto dos seus pecados diante de um Deus Santo que foi compassivo e misericordioso. A alegria de um culto é a qualidade de um coração que foi livre da condenação e aceito por um supremo e justo redentor. Alegria e agitação não são sinônimos, emoções desenfreadas e extravagantes na verdade só enfatizam falta de reverência e temor diante de Deus que é fogo consumidor. Nas palavras do Robert Godfrey [8],

Devemos lembrar que reverência nem sempre significa calma, e alegria nem sempre significa ruído. Alegria e reverência são, antes de tudo, atitudes do coração para as quais procuramos manifestações apropriadas no culto. A alegria pode ser intensa no canto de uma canção muito tranquila. A reverência pode ser manifesta no cantar alto.

Devemos a exemplo dos santos no AT e NT oferecer ao Senhor um culto alegre e reverente, “grandes coisas fez o Senhor por nós e por isso estamos alegres” (Sl 126.3).

O culto deve ser litúrgico, organizado e estruturado. Isso não quer dizer mecânico ou seco como se não houvesse vida. O culto deve ser compreensível e simples, seguido conforme o rito (Lv 9.16 cf. Lv 10.1; Dt 12.29-32), isso não quer dizer cheio de rituais antropocêntricos. Liturgia ou ordem de culto significa um serviço, Cristo e o Seu povo como num banquete santo, uma atividade pactual. Nos é devido adorar ao Pai em espírito e em verdade (João 4.24), todavia, existe uma estrutura para que essa adoração seja oferecida. A necessidade da liturgia não é transformar o culto em ritos idolátricos, a ausência da liturgia não quer dizer que o culto torna-se dirigido pelo Espírito Santo. É necessário cautela, precisamos ser fiéis ao padrão divino que está prescrito em Sua Palavra. Uma estrutura litúrgica biblica de culto não será enfadonha ou cansativa, será sim, de grande ensinamento e isso apontará a glória de Deus em Cristo. O centro da liturgia é a Palavra de Deus lida e proclamada, como também os Sacramentos administrados corretamente. A congregação entoa cânticos, faz orações e confissões, declara a confissão de fé e ajunta ofertas para os necessitados finalizando com uma benção desafiando os cristãos a seguirem firmes e com fé na proclamação do evangelho. Os elementos do culto, conforme prescritos nas Escrituras, precisam enfatizar e anunciar o Senhor Jesus Cristo e seu supremo e perfeito sacrifício. A igreja precisa compreender que a cultura não tem autoridade sobre o culto ao Senhor. O Culto conforme e como o Evangelho é contra e supra cultural. A adoração deve ser segundo as Escrituras, o sermão expositivo deve ser compreensível, os sacramentos devem ser administrados corretamente, as orações e ações de graça no culto precisam ser rendidas segundo a vontade soberana e a renovação pactual estabelecida. Combatemos o culto místico, louvores que exaltam o homem, uma liturgia idólatra, confissões positivas, apelos compulsivos, orações que obrigam Deus satisfazer desejos ególatras. Juntamente com as Escrituras precisamos priorizar o culto solene abastecido de sermões expositivos, liturgias confessionais, sacramentos biblicamente administrados e orações humilhadas. Nas palavras de Calvino temos uma ótima advertência [9]: 

Exortamos os homens a que não adorem a Deus de modo frígido e descuidado, e enquanto apontamos o modo, não podemos perder de vista o fim, nem omitir qualquer coisa que diga respeito àquilo que apontamos. Proclamamos a glória de Deus em termos muito mais elevados do que estávamos acostumados a proclamar antes, e com todo vigor trabalhamos para tornar as perfeições nas quais a glória de Deus brilha mais e mais conhecidas. Exaltamos tão eloquentemente quanto podemos seus benefícios a nós, ao tempo em que conclamamos outros a reverenciar sua majestade, render a devida homenagem à sua grandeza, sentir a devida gratidão por sua misericórdia, e nos unirmos em seu louvor.

Portanto, concluo que devamos rejeitar todo e qualquer culto a si próprio. O culto do ego, das habilidades, das conveniências. Rejeitemos com força a hipocrisia dos fariseus e a religiosidade dos líderes dos judeus. Rejeitemos toda influência cultural e que a cada semana seja a nossa doxologia oferecer ao Senhor um culto segundo as Escrituras.

“Apliquem-se a fazer tudo o que eu ordeno a vocês; não acrescentem nem tirem coisa alguma.” Deuteronômio 12. 32.

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NOTAS:

[1] Prefácio do livro - Hyde, Daniel R. O que é um culto reformado? Os Puritanos, 2014.

[2] Confissão de Fé de Westminster, capítulo XXI.1.  

[3] Hyde, Daniel R. O que é um culto reformado? Os Puritanos, 2014.

[4] Hyde, Daniel R. O que é um culto reformado? Os Puritanos, 2014.

[5] Timothy J. Keller, “Reformed Worship in the Global City,” in Worship by the Book, p. 219.

[6] Hyde, Daniel R. O que é um culto reformado? Os Puritanos, 2014.

[7] Hyde, Daniel R. O que é um culto reformado? Os Puritanos, 2014.

[8] W. Robert Godfrey, Pleasing God in Our Worship (Wheaton, IL: Crossway Books, 1999), p. 24.


[9] João Calvino, The Necessity of Reforming the Church (Audubon, NJ: Old Paths Publications, 1994), p. 25–26.

7 de mar. de 2016

Facebook: a vitrine das paixões

Por Morgana Mendonça

Quantas vezes já pensei em apertar aquele botão "excluir conta". Quantas noites flagrei-me questionando meu uso excessivo dessa ferramenta interativa contaminada por excessos de vaidade. Posso confessar que estou mais perto do que nunca, para definitivamente apertar o botão que trará o fim da minha vida em redes sociais. Porém, algumas são as justificativas que me desencorajam a tal atitude, como por exemplo: bons contatos que de fato enriquecem a minha vida devocional e intelectual. Mas, será mesmo tão boa a justificativa assim, se pesarmos alguns prejuízos? Essa questão, deve ser bem analisada. E quero partir do ponto que cada um sabe onde o "calo aperta". 

Como está escrito: "Vaidade de vaidades, diz o pregador; vaidade de vaidades, tudo é vaidade." Eclesiastes 1. 2. E o ego não reclama vaidade? O alvo dos prejuízos dessa "vitrine das paixões" muitas vezes tem sido a própria família, filhos e cônjuges. Quando seu cônjuge já se prepara para dormir e você ainda está no início daquele debate que não terminará antes do dia amanhecer. Na convivência com os amigos, nos corredores da igreja, nas comemorações da família, estamos sempre dividindo esses momentos com likes e comentários nas redes sociais. Tempo precioso muitas vezes perdido no ócio da interatividade. Nosso tempo ministerial que poderia ser gasto com aconselhamentos redentivos, preparando bem um sermão expositivo ou até discipulando um novo convertido. Ou ainda assim, escrevendo um texto, olhando a necessidade ao redor ou quem sabe fazendo um exercício físico. Tempo esse que poderia ser moderado com pequenas doses virtuais, porém com cautela. Preservando assim, as coisas mais importantes. 

No entanto, a intenção desse texto não é convencer ninguém do uso ou não desta rede social. Nem muito menos fazer uma apologia contra a internet, sabemos que podemos sim glorificar a Deus com um bom uso das redes socias. A questão tem a ver com o ego. O ego exposto como uma vitrine das nossas paixões. Contudo, me refiro apenas aos cristãos, que infelizmente tem feito das redes sociais um antro de egolatria, na maioria dos casos. Se falamos do que está cheio o nosso coração, poderíamos dizer que teclamos do que está cheio o nosso coração. Nossas atitudes dizem muito o que somos, do mesmo jeito que nossas postagens também. Há paixões por tudo: livros, carros, filmes, música, selfies, futebol, videos, seriados... Não há nenhum problema com postagens daquilo que você gosta ou curte. Então, onde existem os problemas? 

Há problemas quando o que fazemos no Facebook não redunda para a glória de Deus. É claro que são questões de foro íntimo. Julgar cada postagem para afirmar ser ela ou não para a glória de Deus seria complicado, e até pretensioso demais. Entretanto, tem questões que afirmam evidentemente isso. Me arriscarei para pontuar no mínimo três, todavia, o leitor poderá ficar a vontade para refletir sobre outras. Antes disso, mencionarei um verso que deverá ser o fundamento da nossa breve análise. Paulo diz: 

“Assim, quer vocês comam, quer bebam, quer façam qualquer outra coisa, façam tudo para a glória de Deus. Não se tornem motivo de tropeço, nem para judeus, nem para gregos, nem para a igreja de Deus.” 

1 Coríntios 10.31-32.

Cristãos no Facebook na hora do culto

Fotos sendo postadas no Dia do Senhor, com irmãos de joelhos orando; outros chorando; outros louvando a Deus; e até mesmo no momento da ceia do Senhor. Uma busca excessiva por likes e comentários que aprovem essa atitude, no mínimo imatura. O que dizer de um ser que se diz cristão, que na hora dos louvores, ceia do Senhor, oração e exposição da palavra está tirando suas próprias selfies? Não me refiro ao uso de dispositivos eletrônicos no culto, mesmo com algumas implicações em mente. Refiro-me a exatamente fotos de si mesmo em momentos de celebração ao Deus triúno. No culto solene, no ápice da sua semana, muitos estão gastando tempo consigo mesmo e suas paixões. (Deveras entendêssemos o que diz Hebreus 12.29). No comer, no beber e no Facebook, tudo dever ser feito para a glória de Deus. E não tornem-se tropeço para ninguém, nem para igreja de Deus. Que o dia da feira da alma, todas as atenções sejam voltados ao Senhor em louvor e adoração. 

Cristãos postando selfie's sensuais com versículos bíblicos

Não é necessário gastar muito tempo com essa questão inapropriada. A obviedade da falta de maturidade é exposta a vergonha. Cristãos que postam suas fotos sensuais com versículos tipo: "O Senhor é meu pastor e nada me faltará (Sl 23.1)", devem pensar e repensar em suas motivações. Me questiono a motivação dessa conduta, uma questão de ego que deseja chamar atenção e acaba provocando vergonha ao evangelho. A falta de temor e sabedoria com o uso da Escritura subtrai e reduz o valor do testemunho cristão. Um descuido com uma genuína interpretação do contexto bíblico. Muitos cristãos usam textos providos por uma interpretação falível para substituir palavras para as suas respectivas postagens contraditórias. Egos motivados com um fim em si mesmo, promovendo glória para si próprio. 

Cristãos debatendo a Bíblia de forma infrutífera

Trazendo prejuízos e reduzindo o valor da comunhão no corpo de Cristo. A explosão de teólogos reformados no Facebook é algo inquestionável. Não significa que eles são maduros, genuínos, sóbrios ou sinceros. Debates e discussões no Facebook são inúmeros. Façamos um apanhado geral e não conseguimos encher os dedos das mãos, de uma conversa entre pessoas de pensamentos opostos de forma madura, gentil e moderada. Debates que produzem massagem nos egos famintos por elogios, carentes de identidades definidas. Debates que resultam em bloqueios e amizades desfeitas entre irmãos. Discórdia promovida por questões secundárias, falta de tolerância com a opinião alheia ou uma crítica que atinge o ego inflado. Uma verdadeira guerra de egos. Sem comentar na falta de respeito, ataques e acusações que muitos fazem de homens que merecem respeito e consideração. 

Tim Keller, no seu livro "Ego Transformado", menciona a interessante situação do ego humano. Ele menciona os três tipos de egos: vazio, dolorido e inflado (recomendo essa leitura!). Com suas implicações e nuances, ele conclui o livro encorajando o leitor a ter um ego transformado, esquecido. Um ego que foi moldado pelo Evangelho. Acredito que deve ser esse um desafio diário na vida cristã. Um ego que saiba conviver com as críticas, um ego que considere o outro superior a si mesmo (Fp 2.3). Um ego que saiba perder, pedir perdão e se submeter a uma autoridade. "Não jogue fora as críticas", disse Ronaldo Lidório em seu livro Liderança e Integridade. Antes de jogá-la fora, análise se existe fundamento e após uma análise que leva muitas vezes ao arrependimento, não durma com ela. Busque redimir diante do Senhor a(s) sua(s) conduta falha e imatura. 

Concluo, "colocando-me no pacote" do uso das redes sociais de forma muitas vezes inapropriada. Deixemos o nosso ego ao tratamento do Criador, para que até no Facebook as nossas paixões sejam apenas apontadas para a glória de Deus. Que sejamos encorajados a lutar contra a cultura do ego. E sim, se fizermos qualquer coisa, que façamos para a glória de Deus. Tenhamos portanto um ego auto esquecido.

“A pessoa verdadeiramente humilde não é aquela que se odeia ou se ama, e sim a que tem a humildade do Evangelho. É uma pessoa que se esquece de si mesma e cujo ego é igual aos dedos dos pés. Eles simplesmente exercem sua função. Não imploram por atenção” 

Timothy Keller

5 de fev. de 2016

Nove Livros Que Você Precisa Ler em 2016



2016 ainda está no seu início. E aqui no país muitos dizem que as coisas só começam para valer depois do carnaval. Mas nós não nos encaixamos nisso, ok. Então: Você já começou ou já concluiu alguma leitura este ano? Não? Por que? Não tem ideia de qual livro começar? Bem, nós facilitamos um pouco para você com 9 indicações de livros que você não pode deixar de ler neste ano.

Confira a lista e boa leitura!


Samuel Alves indica O Espírito Santo


Uma compilação extraordinária do "Príncipe dos Puritanos" John Owen. Um livro que merece ser lido em caráter de urgência. Um clássico que o Owen escreveu para dar uma resposta ao racionalismo dos socinianos, ao misticismo dos quakers e ao fanatismo dos entusiastas que alegavam ter revelações diretas de Deus, heresias que existem em nosso tempo e precisam ser combatidas. Super indico este livro!

Morgana Mendonça indica A Doutrina do Arrependimento


Um livro da editora PES, de um grande orientador espiritual do século XVII, pastor e mestre puritano: Thomas Watson. Esse livro me impressionou e me impressiona todas as vezes que volto os meus olhos à sua leitura. Acredito no sentido de urgência da leitura desse texto, que tanto traz conhecimento como fala ao coração. Arrependimento não é algo muito ensinado nos nossos dias, a leitura afeta o leitor sobremaneira com palavras simples e uma honestidade intelectual vibrante. Uma afetada, como eu, só pode recomendar que seja uma leitura anual e programada.

Hugo Wagner indica Grandes Temas da Tradição Reformada


O livro que gostaria de indicar pra vocês é fruto de uma leitura direcionada, feita nas férias para compor o conteúdo da cadeira sobre teologia dos reformadores que irei aplicar nesse semestre no seminário. Organizado e editado por Donald K. McKim, que é um teólogo reformado, presbiteriano, americano e editor. Esse livro da Editora Pendão Real é um ensaio que nos fará entender os principais temas teológicos da tradição reformada. São textos de diversos autores reformados, que seguem duas categorias: A primeira é de uma investigação e desenvolvimento histórico dos principais temas da reforma. A segunda trata de tópicos teológicos na visão dos reformadores (João Calvino, Martinho Lutero, Ulrico Zuíngliu e outros). O enfoque do livro é teológico com uma orientação histórica da reforma. O autor nos coloca diante de diversos debates ocorridos na historia da tradição reformada dos mais diversos temas.     

Alan Rennê indica A Fábrica de Sonhos da Pixar


Escrito por um pastor protestante, este livro nos ajuda a percebermos as visões de mundo e os valores transmitidos por várias das animações do famoso studio Pixar. Filmes como Os Incríveis, Carros, Vida de Inseto, Up - Altas Aventuras etc. são examinados quanto a assuntos como: coragem, amor, ambição, amizade, família, justiça e muitos outros. Em dias de interação paroxísmica como produções culturais é imprescindível estar por dentro dos valores e filosofias transmitidos via cultura popular.

Luciana Barbosa indica Deus é Soberano


Um livro do grande teólogo A.W.Pink. Com certeza a soberania divina é uma das mais belas doutrinas, mas é também tão mal interpretada e ensinada nas igrejas, Pink traz este ensinamento de maneira fácil e compreensível. Tenho certeza que a leitura correta irá esclarecer e desmistificar o mau ensino da mesma.

Thiago Oliveira indica O Cristão e a Cultura


Esta foi a minha última leitura de 2015 e digo: foi a melhor do ano. O livro aborda a questão da arte, da vocação, do secular e do sagrado, das relações em família, tudo isso e mais um pouco de uma forma coerente e bíblica. O autor, Michael Horton, segue a linha reformada. Quem nunca leu que trate de ler e adquirirá uma excelente cosmovisão para viver no mundo, sem ser do mundo. Recomendaria mil vezes se necessário.

Felipe Duarte indica Introdução à Teologia Sistemática


Muito embora Cheung seja um teólogo pouco apreciado em alguns círculos reformados, seus argumentos nesta obra contém a mesma solidez, elucidativa e peculiar do autor, que vemos presente nos seus artigos. Como o Pb. Solano bem prefaciou: “só nos resta dar boas vindas a este livro”.

Thomas Magnum indica Heresia - Uma história em defesa da verdade


O livro é do conhecido escritor Alister Mcgrath que dispensa apresentações. O estrito trata de forma pontual do desenvolvimento da heresia na história do cristianismo desde os primórdios. O problema das controvérsias cristológicas e trinitárias e os documentos conciliares da cristandade. Um livro importante para quem gosta de áreas como teologia sistemática, heresiologia, história da Igreja, história do pensamento cristão e teologia contemporânea. Um diferencial no escrito de Mcgrath é uma aplicação dos efeitos e causas da heresia não apenas nos contextos teológico e eclesiástico, mas, sua extensão a priori e a posteriori na filosofia, sociedade e política.

Thiago Azevedo indica À Procura de Deus


Um livro do A.W Tozer que aponta as nuances e as entrelinhas da busca do homem moderno por Deus, mas que em meio a esta atividade acaba que criando novos deuses e ocupando o lugar que deveria ser único e exclusivo de Deus. Neste livro o autor permite o leitor sentir de perto a espiritualidade que provém de suas palavras como um verdadeiro desague.