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7 de mar de 2016

Facebook: a vitrine das paixões

Por Morgana Mendonça

Quantas vezes já pensei em apertar aquele botão "excluir conta". Quantas noites flagrei-me questionando meu uso excessivo dessa ferramenta interativa contaminada por excessos de vaidade. Posso confessar que estou mais perto do que nunca, para definitivamente apertar o botão que trará o fim da minha vida em redes sociais. Porém, algumas são as justificativas que me desencorajam a tal atitude, como por exemplo: bons contatos que de fato enriquecem a minha vida devocional e intelectual. Mas, será mesmo tão boa a justificativa assim, se pesarmos alguns prejuízos? Essa questão, deve ser bem analisada. E quero partir do ponto que cada um sabe onde o "calo aperta". 

Como está escrito: "Vaidade de vaidades, diz o pregador; vaidade de vaidades, tudo é vaidade." Eclesiastes 1. 2. E o ego não reclama vaidade? O alvo dos prejuízos dessa "vitrine das paixões" muitas vezes tem sido a própria família, filhos e cônjuges. Quando seu cônjuge já se prepara para dormir e você ainda está no início daquele debate que não terminará antes do dia amanhecer. Na convivência com os amigos, nos corredores da igreja, nas comemorações da família, estamos sempre dividindo esses momentos com likes e comentários nas redes sociais. Tempo precioso muitas vezes perdido no ócio da interatividade. Nosso tempo ministerial que poderia ser gasto com aconselhamentos redentivos, preparando bem um sermão expositivo ou até discipulando um novo convertido. Ou ainda assim, escrevendo um texto, olhando a necessidade ao redor ou quem sabe fazendo um exercício físico. Tempo esse que poderia ser moderado com pequenas doses virtuais, porém com cautela. Preservando assim, as coisas mais importantes. 

No entanto, a intenção desse texto não é convencer ninguém do uso ou não desta rede social. Nem muito menos fazer uma apologia contra a internet, sabemos que podemos sim glorificar a Deus com um bom uso das redes socias. A questão tem a ver com o ego. O ego exposto como uma vitrine das nossas paixões. Contudo, me refiro apenas aos cristãos, que infelizmente tem feito das redes sociais um antro de egolatria, na maioria dos casos. Se falamos do que está cheio o nosso coração, poderíamos dizer que teclamos do que está cheio o nosso coração. Nossas atitudes dizem muito o que somos, do mesmo jeito que nossas postagens também. Há paixões por tudo: livros, carros, filmes, música, selfies, futebol, videos, seriados... Não há nenhum problema com postagens daquilo que você gosta ou curte. Então, onde existem os problemas? 

Há problemas quando o que fazemos no Facebook não redunda para a glória de Deus. É claro que são questões de foro íntimo. Julgar cada postagem para afirmar ser ela ou não para a glória de Deus seria complicado, e até pretensioso demais. Entretanto, tem questões que afirmam evidentemente isso. Me arriscarei para pontuar no mínimo três, todavia, o leitor poderá ficar a vontade para refletir sobre outras. Antes disso, mencionarei um verso que deverá ser o fundamento da nossa breve análise. Paulo diz: 

“Assim, quer vocês comam, quer bebam, quer façam qualquer outra coisa, façam tudo para a glória de Deus. Não se tornem motivo de tropeço, nem para judeus, nem para gregos, nem para a igreja de Deus.” 

1 Coríntios 10.31-32.

Cristãos no Facebook na hora do culto

Fotos sendo postadas no Dia do Senhor, com irmãos de joelhos orando; outros chorando; outros louvando a Deus; e até mesmo no momento da ceia do Senhor. Uma busca excessiva por likes e comentários que aprovem essa atitude, no mínimo imatura. O que dizer de um ser que se diz cristão, que na hora dos louvores, ceia do Senhor, oração e exposição da palavra está tirando suas próprias selfies? Não me refiro ao uso de dispositivos eletrônicos no culto, mesmo com algumas implicações em mente. Refiro-me a exatamente fotos de si mesmo em momentos de celebração ao Deus triúno. No culto solene, no ápice da sua semana, muitos estão gastando tempo consigo mesmo e suas paixões. (Deveras entendêssemos o que diz Hebreus 12.29). No comer, no beber e no Facebook, tudo dever ser feito para a glória de Deus. E não tornem-se tropeço para ninguém, nem para igreja de Deus. Que o dia da feira da alma, todas as atenções sejam voltados ao Senhor em louvor e adoração. 

Cristãos postando selfie's sensuais com versículos bíblicos

Não é necessário gastar muito tempo com essa questão inapropriada. A obviedade da falta de maturidade é exposta a vergonha. Cristãos que postam suas fotos sensuais com versículos tipo: "O Senhor é meu pastor e nada me faltará (Sl 23.1)", devem pensar e repensar em suas motivações. Me questiono a motivação dessa conduta, uma questão de ego que deseja chamar atenção e acaba provocando vergonha ao evangelho. A falta de temor e sabedoria com o uso da Escritura subtrai e reduz o valor do testemunho cristão. Um descuido com uma genuína interpretação do contexto bíblico. Muitos cristãos usam textos providos por uma interpretação falível para substituir palavras para as suas respectivas postagens contraditórias. Egos motivados com um fim em si mesmo, promovendo glória para si próprio. 

Cristãos debatendo a Bíblia de forma infrutífera

Trazendo prejuízos e reduzindo o valor da comunhão no corpo de Cristo. A explosão de teólogos reformados no Facebook é algo inquestionável. Não significa que eles são maduros, genuínos, sóbrios ou sinceros. Debates e discussões no Facebook são inúmeros. Façamos um apanhado geral e não conseguimos encher os dedos das mãos, de uma conversa entre pessoas de pensamentos opostos de forma madura, gentil e moderada. Debates que produzem massagem nos egos famintos por elogios, carentes de identidades definidas. Debates que resultam em bloqueios e amizades desfeitas entre irmãos. Discórdia promovida por questões secundárias, falta de tolerância com a opinião alheia ou uma crítica que atinge o ego inflado. Uma verdadeira guerra de egos. Sem comentar na falta de respeito, ataques e acusações que muitos fazem de homens que merecem respeito e consideração. 

Tim Keller, no seu livro "Ego Transformado", menciona a interessante situação do ego humano. Ele menciona os três tipos de egos: vazio, dolorido e inflado (recomendo essa leitura!). Com suas implicações e nuances, ele conclui o livro encorajando o leitor a ter um ego transformado, esquecido. Um ego que foi moldado pelo Evangelho. Acredito que deve ser esse um desafio diário na vida cristã. Um ego que saiba conviver com as críticas, um ego que considere o outro superior a si mesmo (Fp 2.3). Um ego que saiba perder, pedir perdão e se submeter a uma autoridade. "Não jogue fora as críticas", disse Ronaldo Lidório em seu livro Liderança e Integridade. Antes de jogá-la fora, análise se existe fundamento e após uma análise que leva muitas vezes ao arrependimento, não durma com ela. Busque redimir diante do Senhor a(s) sua(s) conduta falha e imatura. 

Concluo, "colocando-me no pacote" do uso das redes sociais de forma muitas vezes inapropriada. Deixemos o nosso ego ao tratamento do Criador, para que até no Facebook as nossas paixões sejam apenas apontadas para a glória de Deus. Que sejamos encorajados a lutar contra a cultura do ego. E sim, se fizermos qualquer coisa, que façamos para a glória de Deus. Tenhamos portanto um ego auto esquecido.

“A pessoa verdadeiramente humilde não é aquela que se odeia ou se ama, e sim a que tem a humildade do Evangelho. É uma pessoa que se esquece de si mesma e cujo ego é igual aos dedos dos pés. Eles simplesmente exercem sua função. Não imploram por atenção” 

Timothy Keller

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