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2 de mai de 2016

A Continência Cristã

Por Morgana Mendonça 


"Põe, ó Senhor, uma guarda à minha boca; vigia a porta dos meus lábios!"
Salmos 141.3


Devo esclarecer algo sobre esse texto: meu objetivo não é dissertar sobre o assunto escolhido, mas sim pontuar o pensamento de Agostinho. Visto ser grande a necessidade e urgência em nosso tempo sobre esse tema tão pouco ensinado, nem ao menos conversado entre os cristãos atuais. Considerando ser muito laboriosa a leitura da sua completa obra, é necessário – ao menos – entender tudo isso a luz das Sagradas Escrituras. Na sua parte introdutória encontramos algo interessante sobre a evidência de sua autoria. 

"Embora o próprio Agostinho, em uma carta de 429 d.C., dirigida ao Comissário Imperial Dário (Ep. 213,7), faça referência ao De Continentia (A Continência), mas, por não ter sido elencado em suas Retratações, durante séculos, muita gente colocou em dúvida a sua autoria agostiniana, chegando ao ponto de Erasmo atribuir sua autoria a Hugo de São Vítor. Foi somente em 1685, na Edição Beneditina dos textos agostinianos, que, baseado no estilo e no assunto nele escrito, o texto foi, finalmente, reconhecido como sendo de Santo Agostinho." [1] 

É interessante também notar que seu primeiro biógrafo, Possídio, faz referência ao De Continência, no Indiculum, afirmando ser um dos tratados de Santo Agostinho. Em relação a data do escrito há alguns questionamentos. Se foi um sermão ou uma refutação ao maniqueísmo há também algumas dúvidas. Chegou-se a cogitar a possibilidade de ser até um escrito antipelagiano. A possibilidade de ser uma refutação é propícia pelo fato da obra do começo ao fim, refutar as posições maniqueístas, no que se refere à luta por parte do homem em superar os desejos que o conduzem ao mal. A ideia do dualismo em Maniqueu, afirma que o corpo não passa de um acidente e que, portanto, deva ser desprezado pelo ser humano. A perspectiva de Agostinho sobre isso é de fato interessante e coerente, tomando como ponto de partida o verso acima (Sl 141.3) ele diz que "o corpo foi criado por Deus, por isso, enquanto tal é um bem, de forma que não é o corpo que peca, pois este não tem vontade, mas sim a alma, que apenas se utiliza do corpo para pecar". [2] 

"Assim, tudo o que de dentro não soa, fora não ressoa; mas o que, sendo mal emanar de dentro, mesmo que não mova a língua, contamina a alma. A continência, portanto, precisa ser colocada lá onde a consciência, mesmo no silêncio exterior, fala. Em suma, é a porta da continência que impede brotar do interior algo que contamine a vida e a mente, ainda que estejam calados os lábios da carne". (De cont., I,2) 

Para Agostinho a ideia da continência aponta para uma vida ideal, chamada "moral das intenções" agostiniana, em que a noção de castidade é, antes de tudo, intelectual ou espiritual. O que seria então a Continência? Nas palavras do cristão Agostinho, significa "dom de Deus". Impossível ser continente a menos que Deus conceda essa virtude aos cristãos. (1Co 7.7) Fazendo uma introdutória pontuação vemos a continência da boca e do coração. 

Salmos 141.3 "Põe, ó Senhor, uma guarda à minha boca; vigia a porta dos meus lábios!" 

O versículo acima nos leva a entender o conceito de continência. É óbvio pensarmos e retratarmos na nossa mente uma ideia de luxúria, uma ideia carnal para a palavra continência. O salmista canta em forma de súplica por uma "guarda" e por uma "vigilância". Precisamos entender a palavra "boca" e "lábios" nesse contexto, segundo Agostinho, como porta, ou seja, um acesso indicando possivelmente algo interno e não externo. Essa "guarda da boca" poderíamos chamar de continência. Geralmente guardamos a nossa boca, para que dela algo que não se deseja dizer através do som da voz escape de nós. No entanto, é dentro da boca do coração, onde primeiro se dizem as palavras, por isso o salmista clama para que haja uma guarda, uma vigilância, uma porta da continência colocadas pelo Senhor. 

Há uma variedade de palavras que não permitimos que a boca do corpo fale, porém a deixamos gritar com a boca do coração. Não há nada que saia da boca do corpo que não tenha nascido internamente na boca do coração, ou seja, o que se emana de dentro, mesmo que não mova a língua, contamina a alma. Tudo que dentro não soa, fora não ressoa! De acordo com a oração do salmista, é necessário que a continência seja colocada onde a consciência, mesmo no silêncio exterior, fala. Podemos entender que, a porta da continência, é o que impede florescer no interior algo que possa contaminar a mente e a vida, ainda que estejam em silêncio os lábios da carne ou o movimento dos membros. 

Para corroborar com a ideia anterior, o salmista no verso posterior diz: "Não se incline meu coração para palavras más..." (Sl 141.4). Comprovando assim a ideia da "boca interior" que ele estava falando. A inclinação do coração como um consentimento, provando o quanto está interligado um com o outro. No pensamento bíblico mostrado por Agostinho, é culpado todo o homem pelo fato de ter determinado em sua mente, mesmo que haja silêncio em seus lábios e imobilização nos seus membros. Segundo Agostinho: "[...] Corretamente está se dizendo que uma palavra é o começo de toda ação. Na verdade, são muitas as coisas que os homens fazem com a boca fechada, língua quieta e voz muda [...]" [3]. O ponto de partida é o coração.  Nasce no coração e é manifestado externamente. A necessidade é que nos lábios internos, no coração, fosse construída a "porta da continência". 

Mateus 23.26 "Fariseu cego! Limpa primeiro o interior do copo, para que também o exterior se torne limpo." 

Como esquecer as palavras de Cristo? A continência precisa ser uma realidade, o interior é o local onde suplicamos por castidade sagrada. Em outro momento Jesus refutando os judeus por conta da crítica feroz contra seus discípulos, pelo fato de não lavarem as mãos antes das refeições disse: "Não é o que entra pela boca que contamina o homem; mas o que sai da boca, isso é o que o contamina" (Mt 15.11). O que contamina o homem é o que sai da boca do coração, do coração onde encontramos todos os desejos corrompidos e contamináveis. 

Mateus 15.19-20 "Porque do coração procedem os maus pensamentos, homicídios, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos e blasfêmias. São estas as coisas que contaminam o homem; mas o comer sem lavar as mãos, isso não o contamina." 

Seria impossível que os membros do corpo ou a boca da carne praticasse tal perversidade se antes não fosse concebido no coração, precedidos por um mau pensamento. Isso contamina o homem, mesmo que os seus membros em atitudes sujas e perniciosas não praticassem tal coisa. O homem é responsável por todas as ações mesmo que não sejam externadas com movimentos do corpo, e nem sejam completamente realizadas, de forma oculta são culpados, estão contaminados desde que saiu da boca do coração e atingiu o interior humano. O que também nos torna diferentes dos fariseus? A continência! Ser aparentemente belo por fora e um sepulcro caiado por dentro seria para nós essa advertência de Cristo. 

Mateus 23.27-28 "Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! porque sois semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora realmente parecem formosos, mas por dentro estão cheios de ossos e de toda imundícia. Assim também vós exteriormente pareceis justos aos homens, mas por dentro estais cheios de hipocrisia e de iniquidade." 

O salmista clama por continência, que possamos assim clamar para que a porta da continência seja colocada na boca do coração, de onde vem tudo o que contamina o homem. Que possamos nos alegrar com a pureza que a continência nos oferece, provocando assim uma ferrenha inimizade do espírito contra a carne, de forma que a concupiscência não seja consentida e sim combatida resultando não ser contaminado. 

E assim, na famosa "cena dos Jardins de Milão" havia um homem que ao ler Romanos 13.13 entendeu que deveria renunciar aos prazeres carnais, viver uma relação estreita em relação à vida espiritual-sacerdotal e a continência: Agostinho de Hipona.

"Cor meum tibi offero, Domine, prompte et sincere" - "Meu coração te ofereço, ó Senhor, pronto e sincero". Esta oração foi feita por João Calvino, reformador de Genebra. 

A Deus toda a Glória, Rm 11.36. 
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Notas: 

[1] Agostinho, Santo, Bispo de Hipona, 354-430. De Continentia. Tradução, introdução e notas: Gérson F. de Arruda Junior e Marcos Roberto Nunes Costa. São Paulo: Paulus, 2013 (Coleção Patrística; 32) p.179 

[2]Ibid p. 181 

[3]Ibid p. 187

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