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6 de mai de 2016

O Seminarista e os Livros

Por Thomas Magnum


O objetivo desse texto é uma tentativa de elucidar com conselhos simples aos estudantes de teologia (com uma preocupação inicial a seminaristas), sobre a importância de um cabedal de conhecimento amplo, que ajudará o pensador teológico a compreender e aplicar a teologia cristã a outras esferas de conhecimento.

Quais as vantagens de um amante da teologia ter um maior repertório de leituras não teológicas?

1 - Uma compreensão mais larga sobre questões sociais e políticas o levarão a uma reflexão teológica que responderá a questões antropológicas, psicológicas, sociais e filosóficas.

Ao lidarmos com essa questão devemos ter alguns cuidados, mas, não devemos ser alienados do mundo nem do que acontece em nosso contexto. Temos o perigo de estudantes que se deslumbram com outras áreas do conhecimento humano e acabam pautando seu trabalho teológico por visões da filosofia, sociologia, psicologia e afins. A importância de termos uma leitura mais ampla em relação a questões sociais não é para que leiamos a teologia com outras lentes, mas, que a teologia seja a lente usada para ler outras disciplinas do conhecimento humano. A graça comum é um ponto a ser ressaltado, podemos encontrar bom material em autores de outras áreas e em autores não cristãos. No entanto é necessário o estudante ter um bom repertório teológico. Conhecer as doutrinas bíblicas, ter um bom conhecimento das confissões de fé da igreja e um potencial conhecimento de interpretação bíblica. Com esse fundamento ele poderá discernir o que é bom ou não em literatura pagã.
  
2 - Uma leitura mais atenta e profunda das obras clássicas da literatura e crítica literária levará o estudante a um exercício intelectual vantajoso para um treinamento aguçado em escrita e leitura.

É admirável estudantes de teologia não terem apreço por literatura, não que sejam obrigados a ter, mas, no estudo teológico já somos introduzidos a riqueza literária da Bíblia, então uma apreciação de autores consagrados como C.S. Lewis, Tolkien, Dostoyevski, William Shakespeare, T.S. Eliot, Northrop Frye, Rodrigo Gurgel – os três últimos escritores e críticos literários e culturais - será de grande valia para o estudante que deseja ter um maior arsenal de conhecimento. Ao estudarmos grandes nomes como Abraham Kuyper, Herman Bavinck, Herman Dooyeweerd, Hans Rookmaaker, Francis Schaeffer, Gordon Clark, Cornelius Van Til, entre outros, notamos claramente a grande influência de outras áreas de conhecimento em suas teologias, contudo, apenas como somatória e não como linha de interpretação teológica, que no caso de todos os citados eram reformados calvinistas. É perceptível aos leitores desses autores calvinistas que eles tinham uma larga compreensão do seu tempo e aplicaram a teologia reformada ao seu momento na linha do tempo, seu trabalho teológico respondia questões presentes em sua época.

3 - Perceber que a graça comum de Deus é manifesta nas obras de escritores não cristãos, que podem contribuir muito com o trabalho de um estudante de teologia. 

Não podemos ignorar a graça comum dada por Deus a muitos produtores de conteúdo culturais como escritores, poetas, historiadores, sociólogos, cientistas, literatos. Leituras dessa espécie nos ajudarão a termos um repertório de linguagem e expressão mais vasto e uma compreensão mais larga do que tem sido produzido por pessoas que tinham muito a dizer sobre várias áreas de conhecimento.

4 - A leitura de clássicos da filosofia, literatura ficcional, literatura narrativa e escritos consagrados na história nos situam no tempo e podem nos ajudar a fazermos úteis correspondências e pontes com a história do cristianismo e o desenvolvimento histórico e teológico do pensamento cristão.

Comumente o estudante de teologia se enclausura em um mar de literatura teológica que o afoga em um mundo literário. Isso tem um lado bom e ruim. O lado positivo é que nosso conhecimento em teologia cresce, mas, isso não quer dizer que amadurece. Evidentemente a leitura de livros não teológicos não é sinônimo de amadurecimento intelectual por parte do estudante, mas, pode contribuir para uma visão de mundo mais precisa do ponto de vista intelectual e do que tem sido dito e debatido de várias formas nas artes.  A leitura de Dostoyevski pode nos levar a uma fantástica compreensão de uma crítica política através de um romance. Considerando também o crescimento cultural do leitor em transitar pelas linhas de um pensador e notar como ele enxergava o mundo e os homens.

5 - Tais leituras poderão ser instrumentos secundários úteis na formação intelectual de um teólogo. O amadurecendo em questões filosóficas e políticas que lhe darão condições de responder através da teologia de forma responsável, madura e verdadeira.

Considero esse último ponto importante pelo fato de instrumentalizar o teólogo intelectualmente, o levando a um amadurecimento horizontal em seu pensamento filosófico, gostaria de mencionar uma breve leitura que fiz do não muito conhecido filósofo brasileiro Mário Ferreira dos Santos que refletiu profundamente em questões sociais e não foi consumido pela filosofia esquerdista que impera em ciclos acadêmicos. Mário deve ser lido por pensadores teológicos e acredito ser de grande utilidade. Vivemos em no calor das descobertas de pensadores holandeses no Brasil como Dooyeweerd e Kuyper, mas, não devemos desprezar outros filósofos que podem contribuir para um crescimento e amadurecimento de um pensar teológico que possibilite versar e transitar pelas ciências e debates antropológicos, sociais, científicos, políticos e filosóficos. A teologia mesmo não tendo a proposta de ser um mecanismo de determinação cientificista, nos guia a uma cosmovisão bíblica para uma análise epistemológica cristocêntrica em todas as áreas de conhecimento. 

Espero que essa breve reflexão sirva de incentivo a estudantes de teologia, pastores e professores de seminários teológicos. E é interessante também notificar e recomendar o livro de dois teólogos importantes publicado no Brasil: O Pastor como Teólogo Público de Kevin Vanhoozer e Owen Strachan que trata muito bem sobre isso que estamos falando. Por fim, a Palavra de Deus nos é suficiente, mas, isso não exclui nosso dever de sermos preparados intelectualmente para o bem do povo de Deus e da sociedade que nos cerca. Essa questão deve também nos ser lembradas como cumprimento das duas tábuas da lei que são resumidas em amarmos a Deus e amarmos o próximo. 

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