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15 de abr de 2016

Entrevista Exclusiva com Filipe Fontes



Esta é mais uma excelente entrevista que temos o privilégio de postar com exclusividade nosso blog. O entrevistado da vez é o Rev. Filipe Fontes, pastor presbiteriano e professor do Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper - CPAJ. Nossa entrevista trata sobre o crescente interesse sobre cosmovisão reformada no Brasil e também sobre filosofia reformacional. A presente entrevista serve como uma excelente introdução aos assuntos acima citados. Thomas Magnum, nosso editor, foi o responsável por elaborar as perguntas e endereça-las ao Rev. Filipe Fontes

Ótima leitura e bom proveito.

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Professor, estamos experimentando um crescente interesse no Brasil pelo assunto de Cosmovisão. Há uma crescente publicação de livros relacionados ao assunto que abordam todo o espectro relacionado ao tema. Como você avalia essa massificação da informação? Por onde um estudante deveria começar suas leituras sobre o assunto. Que autores, livros, publicações?

Vejo com bons olhos o número crescente de publicações sobre cosmovisão no Brasil. O que temo é que a assimilação apressada e pouco refletida do conceito – algo que comumente acontece no Brasil – possa implicar a desconsideração de algumas questões importantes relacionadas a este conceito, tais como: sua tendência original à autonomia, e a consequente necessidade de redefinições para a sua apropriação pelo ambiente cristão. O conceito de cosmovisão nasceu e se desenvolveu em solo apóstata. Os pensadores cristãos se apropriaram dele de forma instrumental – em grande parte com o desejo de expressar o caráter de integralidade do cristianismo – e muitos deles, tais como James Sire, David Naugle e Ronald Nash, que se propuseram a estudar mais profundamente o conceito, se encarregaram de depura-lo de tendências ideológicas e de oferecer a ele um caráter cristão. Se ao nos apropriarmos deste conceito, o fizermos ancorados por uma teoria cristã de cosmovisão, então a sua popularização poderá ser muito benéfica para o cristianismo brasileiro. Se não tomarmos este cuidado, tal popularização poderá ser danosa, gerando, por exemplo, uma perspectiva epistemológica subjetivista.

Para a introdução à ideia de Cosmovisão Reformada, tenho recomendado, geralmente, o breve livro do Albert Wolters, A criação restaurada, publicado pela Editora Cultura Cristã. É um texto que une com eficiência, profundidade e simplicidade. Depois dele, recomendo a leitura de textos como Calvinismo, do Abraham Kuyper, e A visão Transformadora  de Brian Walsh e Richard Midlleton – ambos publicados pela mesma editora – além das obras de Francis Schaeffer, já presentes há mais tempo no Brasil. Para uma discussão mais conceitual, recomendo: Dando nome ao elefante, de James Sire, autor de outro clássico – O universo ao lado, e também Cosmovisões em conflito, de Ronald Nash. Estas duas obras foram publicadas em português pela editora Monergismo. É um bom começo!

A escola calvinista holandesa tem sido bem pontuada no Brasil com relação a estudos sobre cosmovisão reformada, há diferenças entre a abordagem de Kuyper e a abordagem clássica reformada em João Calvino por exemplo?

Gosto das palavras de Guilherme de Carvalho, quando ele diz que o que Kuyper fez foi refundar o calvinismo, “seguindo de perto os princípios reformados da soberania de Deus e da unidade entre natureza e graça, articulando-os, porém, a um contexto definitivamente moderno (ou até mesmo pós-moderno)” (Fé cristã e Cultura contemporânea, p.53). Essas palavras sintetizam bem o que penso sobre essa relação. Em termos gerais, não há diferença entre calvinismo e neocalvinismo. Este último foi um movimento originado na Holanda, no fim do século XX, sob a liderança maior de Abraham Kuyper, cujo fundamento foi a teologia calvinista. Como o calvinismo antigo, o neocalvinismo tinha como princípios fundamentais: a negação da existência de uma dualidade radical entre natureza e graça, e a afirmação da centralidade da soberania de Deus. Em termos específicos, porém, podemos admitir diferenças entre a abordagem de Kuyper e a abordagem de Calvino. O empreendimento de Kuyper consistiu em aplicar esses princípios a uma realidade moderna/pós-moderna, que resguarda enormes diferenças da Genebra do séc. XVI. Isto não poderia ser feito sem o desenvolvimento de caminhos característicos e particulares. Em síntese, o neocalvisimo é uma tentativa de contextualização, mas que mantém o compromisso com uma determinada tradição teológica. É a união dessas duas características – tradicionalidade e contemporaneidade, que me motiva a vê-lo como uma boa inspiração para o desafio que temos de aplicar do evangelho à integralidade da existência, em nossos dias.

Junto com o crescimento da discussão sobre cosmovisão cristã toma ares também a posição de muitos reformados a favor da Teonomia, qual é sua opinião sobre a questão?  A Teonomia seria a verdadeira alternativa para uma cosmovisão reformada calvinista? Visto que lida também com uma teologia pactual e enfatiza uma continuidade da cosmovisão hebraica, há uma continuidade ou uma descontinuidade em relação a leis da antiga aliança referentes a morte de homossexuais por exemplo? Há uma Teonomia no Novo Testamento?

Teonomia é uma postura ético-teológica que afirma a aplicabilidade atual da lei vetero-testamentária em todas as suas dimensões, incluindo a civil/judicial. Como você bem disse, o pressuposto comumente apresentado para sustentar esta afirmação é o da continuidade da antiga e da nova aliança. Minha opinião é que há um problema no pressuposto, e ele afeta a conclusão. Não se pode falar apenas em continuidade entre a aliança no AT e no NT; deve-se falar também em descontinuidade. E, dentre os aspectos de descontinuidade está a substituição do caráter regional pelo caráter universal do pacto. Isto tem implicações para a dimensão legal ou jurídica. Para mim, a teonomia se equivoca ao propor a aplicação universal de aspectos da lei cuja aplicabilidade é particular (regional) – relacionada à nação de Israel no período do AT. Acredito que a velha e didática distinção entre tipos de lei (civil, cerimonial, moral) e a diferente utilidade deles (didática, histórica, normativa), ainda é bastante útil na compreensão desta questão. Recomendo a leitura de dois textos do Presbítero Solano Portela sobre este assunto. A primeira é seu livro A lei de Deus hoje, publicado pela Editora Os Puritanos. A segunda é um breve post sobre teonomia, disponível neste endereço: http://tempora-mores.blogspot.com.br/2008/03/os-teonomistas-mordem-ou.html.Eu também acredito, como ele, que os teonomistas não mordem.

Diante do crescente interesse pela cosmovisão calvinista, muito se tem dito e publicado sobre o assunto. Temos uma explosão de blogs, sites, editoras e vlogs. Como de fato podemos empregar uma cosmovisão reformada na prática? Como empregar uma cosmovisão numa cultura como a nossa no Brasil? Há uma inércia por parte dos reformados em termos de uma teologia genuinamente calvinista empregada de forma a demonstrar nossa cosmovisão no mundo?

Dr. Mauro Meister, com quem trabalho, costuma dizer que existem perguntas de U$ 1.000.000,00. Essa é uma delas. Eu não tenho uma receita do tipo “10 passos sobre como se relacionar adequadamente com a cultura”. Propor algo parecido seria, inclusive, desconsiderar o objeto em questão. A cultura é o universo da criatividade. E criatividade é o ambiente da novidade. Por isso, creio que o melhor a fazer é fincar os pés em princípios, e depender da sabedoria de Deus para aplica-los às circunstancias particulares, novas, que se nos apresentam diariamente.

Talvez eu possa falar em condições para um relacionamento adequado com a cultura, à luz de uma perspectiva cristã. A primeira delas é um entendimento biblicamente orientado da própria relação cristão x cultura. Ninguém poderá relacionar-se adequadamente com a cultura se não tiver uma visão adequada a respeito de como deve ser essa relação. E essa visão implica a clareza da necessidade do envolvimento cultural, da impossibilidade de envolvimento irrefletido, da necessidade de ação transformadora, etc. A segunda condição é um relativo conhecimento das esferas culturais. O treino para lidar com determinadas manifestações culturais também é muito importante para a efetivação de uma relação adequada com elas. A importância desse treino é proporcional ao nível de envolvimento que um cristão tem com uma determinada área da vida cultural. O treino em linguagem musical, por exemplo, é desejável para qualquer cristão que deseja uma experiência estética mais rica. Para o cristão que deseja ser músico, produtor, ou crítico de arte, no entanto, ele é essencial. A terceira e última condição para um envolvimento adequado com a cultura é o critério. Todo exercício crítico demanda um critério. No caso do cristão, o critério é a vontade de Deus, revelada na Escritura Sagrada. O que precisa ficar claro é que relação com a Palavra de Deus necessária ao desenvolvimento da vida cristã não se resume a compreensão das proposições enunciadas pelo texto bíblico. Segundo a própria Bíblia, as coisas espirituais se discernem espiritualmente (I Coríntios 2.14). Tiago fala de um tipo de contato com a Bíblia que é absolutamente improdutivo, quando desacompanhado, dentre outras coisas, da obediência (Tiago 1.22). Textos bíblicos como esses mostram que, embora a relação adequada com a Bíblia inclua a compreensão de suas proposições e conceitos, ela extrapola esta compreensão. Trata-se de ser dominado pela Palavra de Deus em todas as dimensões da existência; ser empoderado desta Palavra, por meio da ação do Espírito Santo. Ser cheio do Espírito Santo é fundamental para uma relação correta do cristão com a vida cultural.

Ao estarmos num momento histórico em que a informação é difundida massivamente e a leitura de filósofos reformados tem sido de forma crescente uma realidade muito diferente que tínhamos no Brasil, como você vê esse crescimento do interesse pela filosofia reformada, mais especificamente da escola holandesa? Por onde um iniciante que está interessado no assunto poderia começar? Que livros e autores recomenda?

Vejo o crescimento de interesse na filosofia reformacional nos mesmos termos em que vejo o interesse pela literatura de cosmovisão; com bons olhos. Da mesma forma, contudo, sinto-me incomodado pela apropriação algumas vezes apressada desta filosofia, embora eu compreenda bem o significado existencial do primeiro contato com a proposta de Dooyeweerd. Lembro-me quando conheci a filosofia da ideia cosmonômica, através do Professor Fabiano de Almeida Oliveira. Eu comecei a andar pelas ruas da cidade qualificando as coisas de acordo com o seu núcleo de significado e imaginando as relações analógicas que elas poderiam ter entre si. A compreensão do caráter essencialmente religioso do pensamento teórico, a noção de motivo básico religioso, e da supra racionalidade da ação da Palavra de Deus, foi quase que um processo redentivo para alguém que, até então, nutria fortes tendências racionalistas. Somente com o tempo o caráter historicamente datado da filosofia reformacional foi ficando mais claro para mim. Isto não significa que deixei de considerar sua extrema utilidade na articulação filosófica da cosmovisão cristã. Mas apenas, que passei a vê-la como o próprio Dooyeweerd gostaria que ela fosse vista – como uma proposta teórica e não como uma filosofia perene. Somente depois de perceber melhor esta datação histórica, então, me abri com maior naturalidade para o enriquecimento através de outros ramos da tradição filosófica cristã. Acredito verdadeiramente que, conhecer a filosofia reformacional é muito importante para o efervescente cenário teológico acadêmico brasileiro. Mas tão importante quanto conhecê-la, é aprender a vê-la como parte da multiforme graça de Deus na esfera intelectual. Assumir esta posição para com toda e qualquer proposta teórica que apareça em nosso meio é fundamental para o amadurecimento de nossa intelectualidade e o aperfeiçoamento de nosso serviço a Deus nesta esfera. 

Quanto aos textos para a aproximação da filosofia reformacional, seguem algumas indicações. Quando Dooyeweerd foi publicado no Brasil em 2010, eu escrevi um breve texto que está disponível na internet (http://monergismo.com/filipe-fontes/consideracoes-sobre-a-filosofia-da-ideia-cosmonomica/) e pode ser útil como um alerta sobre o modo como se aproximar de Dooyeweerd. Na publicação de Dooyeweerd que eu tinha em mente na ocasião – No crepúsculo do pensamento – Guilherme de Carvalho escreveu uma introdução editorial que pode ser bastante útil para a compreensão da importância de Herman Dooyeweerd. Quatro anos antes dessa publicação, o Prof. Fabiano já havia publicado um artigo introdutório à filosofia da ideia cosmonômica na Revista Fides Reformata (http://www.mackenzie.br/fileadmin/Mantenedora/CPAJ/revista/VOLUME_XI__2006__2/Fabiano.pdf). Este artigo pode ser útil como uma síntese dos conceitos mais importantes da filosofia da ideia cosmonômica. Mais recentemente, a editora Cultura Cristã publicou Contornos da filosofia cristã, de L. Kalsbeek. É a primeira introdução à filosofia reformacional traduzida no Brasil. Acredito que esses textos podem ser úteis para a aproximação inicial da filosofia da ideia cosmonômica. Depois, Dooyeweerd já possui três obras traduzidas para o português: No crepúsculo do pensamento; As raízes da cultura ocidental; e Estado e Soberania. E além dele, outros pensadores da tradição reformacional que escrevem de forma mais aplicada, estão sendo traduzidos. Destaco Albert Wolters (A criação restaurada) e Willen Ouweneel (Coração e Alma) publicados pela editora Cultura Cristã, e, mais recentemente, Egbert Schurman (Fé, esperança e tecnologia), publicado pela editora Ultimato numa coleção sobre fé e ciência, em parceria com a ABC2 (Associação Brasileira de Cristãos na Ciência).

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