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13 de mar de 2015

Uma Resposta sobre o Culto Infantil

Por Filipe Fontes

Recebi, recentemente, uma pergunta de uma amiga de adolescência sobre o “culto infantil”. Foi uma oportunidade de pensar sobre o assunto, e sistematizar algumas ideias. Como pode ser útil a outras pessoas, resolvi publicar minha resposta.

Prezada amiga,

Receber sua pergunta alegrou meu coração. Dentre outras razões, ela me fez perceber o seu zelo na educação de filhos, bem como seu apreço pela igreja e a Palavra de Deus. Seja Ele louvado por isso!

Ao mesmo tempo, sua pergunta me encheu de temor. Pois, uma vez que parto do princípio de que esta não é uma questão normatizada claramente pela Escritura, o risco de falar mais da minha parte do que da parte do Senhor me traz algum receio. Por isso, eu gostaria de começar minha resposta com dois pedidos:


1) Não receba minhas palavras como a resposta final sobre a questão; tenha sua consciência cativa a Cristo somente.

2) Se você estiver envolvida em alguma controvérsia prática sobre a questão, avalie bastante antes de tomar qualquer atitude que possa causar males ao corpo de Cristo. Não desconsidero o fato de que, às vezes, determinadas atitudes enérgicas devem ser tomadas, mesmo ao custo da paz. Mas isto não deve acontecer, senão, por amor à glória de Cristo e à verdade.

Dito isto, vamos à questão. Pensemos juntos: o que seria “culto infantil”?

a) Um culto de crianças, movido por um espírito rebelde e separatista? Se é isto (se é que isso existe?), o culto infantil é, por natureza, pecaminoso. Como pecaminoso é todo culto movido por espírito rebelde e separatista, seja ele promovido por “homens”, “mulheres”, “jovens”, “adolescentes”, “negros”, “brancos”, “brasileiros”, “argentinos”, etc. Ele é pecaminoso por que depõe abertamente contra o princípio da unidade do corpo de Cristo, claramente estabelecido pela Palavra de Deus (Gálatas 3.26-29).

b) Um culto promovido pelas crianças, debaixo da orientação de adultos? Se é isto, o culto infantil é apenas o resultado da ação de Deus trabalhando com e nas famílias da aliança. Você é presbiteriana como eu. Nossas igrejas possuem sociedades internas (no caso das crianças a UCP – União de Crianças Presbiterianas). Não vejo porque proibir as crianças, organizadas em sociedade, de promover um culto debaixo da orientação dos adultos. Proibir isto não seria como cair no equívoco dos discípulos (Mateus 19.13-14), condenado por Jesus? Aproveito para compartilhar: Como você sabe tenho dois filhos (a mais velha tem 5 anos). De vez em quando eu encontro minhas crianças “brincando” de culto. Há quem diria que eu devesse repreendê-las, mas louvo a Deus todas as vezes em que isto acontece, porque para criança brincadeira é coisa séria.

c) A separação das crianças no momento da mensagem, a fim de que elas recebam ministração adequada à capacidade de compreensão delas? Eu creio que esta é a prática mais comumente definida como culto infantil atualmente, e, possivelmente, é sobre isso que você deseja saber. Quanto a isto, eu gostaria que você soubesse duas coisas, inicialmente. A primeira é que eu não creio que tenhamos clareza suficiente na Revelação para definir esta questão. Para mim, ela se encontra entre aquelas que, segundo a nossa Confissão de Fé, são circunstâncias quanto ao culto de Deus e ao governo da Igreja, comuns às ações e sociedades humanas, as quais têm de ser ordenadas pela luz da natureza e pela prudência cristã, segundo as regras da Palavra, que sempre devem ser observadas (CFW, 1.6). A segunda é que, talvez, eu tenha a mesma quantidade de dúvidas que você, ou mais. Eu sei que a imagem do “pastor seguro e sapiente” habita o imaginário popular, mas acredite, há crises bastante comuns para ovelhas e pastores, e essa é uma que me une a você.

De um lado, eu aprecio a prática de ter as crianças juntamente dos adultos durante a mensagem.

- Ela é um testemunho da unidade do corpo de Cristo (Gálatas 3.26-29).

- É também um testemunho do caráter familiar da aliança de Deus com o seu povo, isto é, do fato de que Deus trabalha não apenas com indivíduos, mas com famílias (Gênesis 18.19).

- Existem textos bíblicos narrativos que apontam para o desejo e prazer de Deus na vida comunitária, com menção inclusiva das crianças (Josué 8.35; II Crônicas 20.13; Joel 2.15-16).

- Ela é uma oportunidade de aprendizado para as crianças. É comum que a defesa “culto infantil” argumente com a impossibilidade das crianças de aprenderem durante o culto comunitário. Eu não creio que este argumento seja convincente. Crianças podem aprender durante o culto, o que não exclui a mensagem pregada, sobretudo quando adequadamente acompanhadas pelos pais. Neste ponto, talvez seja bom lembrar que, além do aprendizado teórico-racional, existe aprendizado de cunho comportamental (como se portar), empírico (sacramentos), estético (música), etc.

Por outro lado, eu compreendo o esforço para se comunicar de modo mais direto com as crianças.

- A adequação é um princípio bíblico (Eclesiastes 3.11), que resulta logicamente de nossa crença no fato de que a realidade foi criada.

- A adequação do processo educacional é um princípio bíblico, apresentado inclusive, segundo determinados teólogos, no texto clássico de Provérbios 22.6. Para aprofundar esta questão, sugiro a leitura do artigo do Dr. Daniel Santos – A proposta pedagógica de Provérbios 22.6 (disponível aqui)

- Existem textos bíblicos narrativos que descrevem reuniões do povo de Deus para a leitura e exposição da Bíblia, em que parece ter havido distinção entre “os que podiam entender” e “os que não podiam entender” (Neemias 8.2-3).

- Mesmo considerando a possibilidade de aprendizado das crianças durante uma mensagem que tem como público alvo mais direto os adultos (é absolutamente difícil contemplar ambos os públicos num mesmo discurso), é inegável que tê-las mais diretamente como objeto de recepção da mensagem pode promover maior aproveitamento e aprendizado por parte delas.

- Muitas famílias, lamentavelmente, têm deixado de cumprir a parte que lhes cabe na educação de seus filhos, razão pela qual a igreja, o culto, os pais, e as próprias crianças tem padecido profundamente.

Diante destes apontamentos, seguem minhas considerações finais:

1) Eu não estou seguro para afirmar que permitir que as crianças recebam ministração mais acessível à compreensão delas seja, necessariamente pecaminoso, embora, particularmente, eu tenha preferência e me alegre com a permanência delas no templo, debaixo da orientação de seus pais.

2) Eu também não estou seguro para afirmar que o que chamamos de “culto infantil” seja a única e melhor maneira para ministrar a Palavra de Deus de forma compreensível a adultos e crianças no culto público. Sou desejoso de encontrar um meio para que adultos e crianças sejam contemplados juntos pela Pregação da palavra. I have a dream!

3) Mas, de uma coisa eu estou seguro: as igrejas que optaram por este modo de fazer devem normatizar e acompanhar melhor o seu funcionamento, planejando-o e executando-o de modo a evitar dois perigos comuns: Primeiramente, a ideia de que as crianças prestam um culto paralelo. Na verdade, elas prestam o mesmo culto. Para vias de contra argumento, lembre-se de que, pela natureza espiritual do culto (João 4.23-24; Hebreus 12.22-24), não podemos restringi-lo ao espaço físico. Em segundo lugar, evitar que o momento de ministração às crianças dê lugar a atividades periféricas como (brincadeiras, filminhos, lanchinhos, etc). Neste sentido, tenho visto algumas atitudes úteis:

a) Mudança de nomenclatura. Talvez “mensagem para as crianças” seja melhor do que “culto infantil”.

b) Inclusão e treinamento de oficiais da igreja (pastores e presbíteros) para a ministração às crianças. A identificação entre aquele que dirige o culto e aquele que ministra a mensagem para as crianças, pode deixar mais claro para elas a continuidade entre uma coisa e outra.

c) A participação das crianças na liturgia, na companhia e debaixo da orientação dos seus pais; a orientação a elas no momento da despedida, acompanhada da oração pela iluminação do Espírito Santo, juntamente com a igreja. Isto também ajuda na ideia de continuidade.

d) Encontro de meios para que as crianças não sejam privadas de oportunidades de aprendizado sobre os sacramentos (batismo e ceia do Senhor). Muitas igrejas fazem isto mantendo as crianças no templo nos domingos em que eles acontecem.

e) Na medida do possível, o relacionamento dos ensinos ministrados às crianças ao ensino ministrado aos adultos. Deste modo as famílias podem compartilhar de conversas sobre o ensino recebido.

Não sei bem se era o tipo de resposta que você esperava. Estamos acostumados com polarizações mais categóricas. Mas, espero que contribua para a sua reflexão diante de Deus e seu serviço ao Senhor. Como você mesmo me designa,

O pastor amigo,

Filipe Fontes
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Fonte: Facebook do Autor. 

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