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10 de jul de 2015

A Verdadeira Conversão

Por Thiago Azevedo

A experiência da conversão é algo que fica marcado na vida de um cristão. É o dia mais feliz de sua vida terrena, pois é o dia em que o próprio Deus o chamou para segui-lo.  Geralmente as pessoas mantêm gravadas na mente a data que ocorreu tamanha experiência. Porém, muitos têm confundido e não sabem o que é uma verdadeira experiência de conversão. É por isso que distingo neste texto as palavras convertido e convencido.

Imagine que você se encontra em uma loja de utilidades e está decidido a não comprar nada daquele ambiente. O vendedor se utiliza de palavras bonitas e sentimentais, argumentos jocosos, apelando para que compres algo. De repente, o vendedor lhe convence a levar um monte de produtos para sua casa. Você cedeu à tentação. Você fora convencido a comprar. É mais ou menos isso que tem ocorrido no ambiente religioso contemporâneo. De repente alguém fala uma palavra bonita, toca no emocional das pessoas, apela para o sentimental e dramatiza um pouco, e ai se tem mãos levantadas em excesso na hora do apelo. Como se não bastasse, tudo isso é parâmetro avaliador do culto, se houver muitas mãos erguidas e muitas decisões, o culto foi abençoado e uma maravilha. Porém, se o contrário ocorrer, o culto foi uma negação.  O que os cristãos da atualidade precisam entender é o que verdadeiramente é a experiência da conversão.

O significado da própria palavra no original nos dá uma noção bem mais profunda do que seria de fato uma verdadeira experiência de conversão. Duas palavras são usadas no velho testamento (hebraico) para conversão, sendo a primeira em menor incidência: Nacham, serve para expressar um sentimento profundo, seja de tristeza ou de consolo. E Shubh, palavra mais comum para conversão, que significa voltar, regressar. Um retorno a um ponto cerne, a um ponto necessário, um retorno àquele de quem o homem foi separado pelo pecado. No que diz respeito ao novo testamento (grego) a palavra conversão vem de outras duas palavras: Epístrofe: conversão, volta; Epistrefo: virar-se; Strefo: voltar-se, dar meia volta; e Metabalo: mudar, transformar. Porém, esse retorno, esse regresso, essa meia volta, não é quando simplesmente o homem decide voltar ou regressar, mas sim quando Deus decide isso. Não é o homem que auto se converte erguendo uma de suas mãos em um momento específico do culto, a pedido de alguém, mas sim quando o próprio Deus decide este retorno, esta mudança de percurso, essa mudança de mente (metanóia). A Bíblia está repleta de textos que enfatizam essa ideia: 1 Reis 18:37; Salmos 51.10; Salmos 85.4; Salmos 139:16; Ezequiel 36.26; Jeremias 31.18; Lamentações 5.21; João 6:44; Atos 11.18; Efésios 1:4-5. A própria conversão do apostolo Paulo nos mostra que esta ideia está também presente ali, e que é de fato Deus, e de forma independente ao homem, que proporciona a verdadeira experiência de conversão.

Uma das ilustrações que explica muito bem o sentido da palavra conversão nos idiomas originais é àquela do comandante ordenando seu pelotão a dar meia volta. Quem serviu ao exercito sabe que em dado momento, após a formação do pelotão, todos seguem marchando percorrendo um caminho específico. Em certa hora soa a voz do comandante em alto e bom som: “Meia volta volver!”. Esta é a ideia base para a explicação do sentido da palavra conversão nos originais. Não é a vontade do homem em si, mas quando Deus dá a ordem fazendo se cumprir seus decretos, que por sinal, são eternos. Agostinho de Hipona e Martinho Lutero podem nos servir de exemplos vivos de tal experiência. O primeiro trilhou caminhos diversos antes de sua conversão. Frequentou seitas, teve uma vida dissoluta, e até pensou que em determinado momento de sua vida já estava converso. Foi neste exato momento que sofreu a experiência do “Tolle lege” [1]. Agostinho percebe que há uma Bíblia próxima a ele, ele a agarra e lê o seguinte texto:

“E isto digo, conhecendo o tempo, que já é hora de despertarmos do sono; porque a nossa salvação está agora mais perto de nós do que quando aceitamos a fé. A noite é passada, e o dia é chegado. Rejeitemos, pois, as obras das trevas, e vistamo-nos das armas da luz. Andemos honestamente, como de dia; não em glutonarias, nem em bebedeiras, nem em desonestidades, nem em dissoluções, nem em contendas e inveja. Mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo, e não tenhais cuidado da carne em suas concupiscências”.

Romanos 13: 11-14

Essa é a passagem bíblica que o impacta pelo fato deste texto se opor à vida dissoluta que o regeu por muito. Por meio da obra divina, Agostinho agora estava converso. Já Lutero, era monge da ordem agostiniana e por muito se impactou com o paradoxo que havia entre a vida levada pelos monges de sua ordem e àquela proposta pelas Escrituras. O monge encontra-se emergido em um dilema por conta da expressão escrita por Paulo na carta aos Romanos no seguinte texto: “Porque nele se descobre a justiça de Deus de fé em fé, como está escrito: Mas o justo viverá pela fé” (Romanos 1:17). O que seria então a justiça de Deus? O que Paulo quis dizer com essa expressão? Que justiça é essa que não se coaduna com as práticas dos monges de sua ordem? Estas eram questões que latejavam na mente de Lutero e tal texto figurava em sua mente como um obstáculo hermenêutico.

Lutero começa a compreender que há duas vertentes de justiça: uma ativa, que diz respeito somente ao caráter divino, e outra passiva, que é a qual Deus doa ao homem. Esta justiça passiva é a justiça cuja qual o justo vive, se tiver fé. Para Lutero, o evangelho revela justamente esta justiça passiva, na qual Deus por sua infinita graça e misericórdia justifica o homem por meio da fé. Aquilo que era obscuro e incompreensível começa a se mostrar claro e nítido. A passagem que para Lutero era antes vista como incompreensível, agora ele mesmo intitula como as portas do paraíso. Lutero entende, por meio do trabalhar de Deus, uma das bases do evangelho – justificação pela fé. Neste momento pode-se considerar Lutero de fato convertido.

O exemplo de Lutero nos deixa grandes questionamentos na mente, a saber: um monge cercado do cotidiano cristão, cercado de pessoas religiosas, cercado da doutrina e da liturgia cristã, cercado das atividades eclesiásticas, mas que de fato não era convertido propriamente dito. Isso só nos habilita a afirmar que é possível alguém estar completamente envolvido com as coisas de Deus, mas não está envolvido com o Deus das coisas. Será que de fato existem pessoas verdadeiramente convertidas no interior das igrejas atuais, pessoas que verdadeiramente sofreram a intervenção divina nas suas respectivas conversões? São questões que merecem ser apreciadas.

Portanto, não se deixe levar por apelos emocionais, com argumentos jocosos e pela lábia de um orador versado em retórica. A verdadeira conversão é aquela que Deus conduz – O supremo comandante. Conversão de fato é aquela que Deus ordena o voltar, o regresso e a mudança de rumo e de mente, fazendo tudo isso se harmonizar com seus eternos decretos. A experiência da conversão não é necessariamente algo imediato, esta experiência é e deve ser conduzida exclusivamente por Deus, e se Ele determinou que essa experiência na vida de alguém não será a curto ou à médio prazo, quem somos nós para impô-la de forma instantânea? A grande verdade é que a verdadeira conversão apresenta uma lógica específica nas Escrituras, que por muito se reflete na vida dos grandes expoentes da fé cristã. Essa lógica se apresenta uniforme e sempre coloca Deus como sendo o principal autor desta obra – como um imã potente que atrai, não tendo o homem como lutar contra. Porém, há outra lógica vista no seio do evangelho atual, esta nada tem haver com a lógica da verdadeira conversão encontrada na Bíblia. Está é a lógica que o próprio homem determina e decide qual será o dia e a hora da conversão de alguns, mediante ao simples gesto de se erguer as mãos no momento específico do culto e geralmente por determinação e imposições. A lógica correta da verdadeira conversão nos conforta e constrange, pois é sob suas lentes que devemos enxergar as pessoas que um dia estiveram envolvidas com a obra de Deus e, posteriormente e por conta de algum motivo específico, não se encontram mais inseridos nesta realidade. A verdade é que estas pessoas foram convencidas do evangelho, mas não sofreram os efeitos da verdadeira conversão que Deus destina ao homem. Não cabe a nós, não cabe à manobra de homens. Mas sim, exclusivamente, a Deus.

Conclui-se, portanto, com uma série de questões que nos levarão a refletir ainda mais sobre a questão exposta, afinal: Nós fomos de fato convencidos ou convertidos ao evangelho? Será que nos deixamos levar por um momento específico de forte apelo sentimentalismo e por uma retórica específica, ou sofremos verdadeiramente os efeitos da conversão que provém de Deus? Será que estamos envolvidos com as coisas de Deus, mas não estamos envolvidos com o Deus das coisas? Ou será que verdadeiramente somos convertidos aos pés de Cristo, e a lógica de nossas conversões se coaduna com a lógica da verdadeira conversão encontrada nas Escrituras Sagradas? A verdadeira conversão é àquela que o próprio Deus participa e intervém, e o que se distingue disso, não se trata da verdadeira conversão, mas sim de manobras de massa e de mero convencimento por meio da manipulação de oradores versados em retórica. Cuidado! É possível alguém passar toda uma vida em ambiente cristão sendo apenas convencido de algumas verdades do evangelho. Porém, sem nunca ter experimentado o precioso sentimento da verdadeira conversão em Cristo.  
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[1] Tolle lege – Expressão em latim que significa toma, pega e lê. Agostinho nas “Confissões” relata que ao percorrer uma determinada área e em determinado ambiente, ouviu um canto de uma criança que dizia “tolle lege”, ou seja, toma e lê. Agarrou-se a Bíblia que estava mais próxima, leu uma passagem bíblica e teve sua vida impactada pela verdadeira experiência da conversão – aquela que o próprio Deus conduz e determina.

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