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18 de jul de 2015

Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram...o céu?

Por Alan Rennê Alexandrino

Comumente, quando as pessoas estão falando a respeito do céu, pensando a respeito da sua beleza, da sua glória, das ruas de ouro e dos muros adornados com toda sorte de pedras preciosas, elas costumam utilizar a passagem de 1Coríntios 2.9: “mas, como está escrito: Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que o amam”.

De acordo com o pensamento popular aqui o apóstolo Paulo está se referindo ao céu. O céu é muito mais belo e glorioso do que qualquer ser humano é capaz de imaginar. O lugar que o Senhor Jesus Cristo está preparando para o seu povo é tão maravilhoso, tão resplandecente, que nenhum mero mortal é capaz de mensurar isso. Aqui, segundo pensam, Paulo está falando daquele lugar de beleza inexprimível, afinal de contas, aquilo que Deus TEM PREPARADO para aqueles que o amam nunca foi visto, ouvido ou imaginado por nenhuma pessoa em todo o mundo e em toda a história. No entanto, definitivamente, uma leitura cuidadosa da passagem e, principalmente, do seu contexto imediato revelará que o apóstolo Paulo não estava se referindo ao céu em 1Coríntios 2.9.

Primeiro, Paulo está se referindo a uma ação de Deus realizada no passado. O verbo τοίμασεν se encontra no modo aoristo, que descreve uma ação completa, feita de uma vez por todas, realizada em algum ponto do passado. Assim, Paulo não está falando de algo que ainda está sendo feito, construído ou preparado. É comum que se faça uma associação desta passagem com João 14.2: “Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fora, eu vo-lo teria dito. Pois vou preparar-vos lugar. Mas Paulo não está falando de uma ação linear ou contínua de Deus, mas, sim, de uma ação pontilear, ou seja, de uma ação feita de uma vez por todas no passado. Isto posto, penso que a melhor tradução para 1Coríntios 2.9 é: “mas, como está escrito: Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus preparou para aqueles que o amam”.

Em segundo lugar, o assunto do apóstolo Paulo a partir de 1.18 é a mensagem da cruz de Cristo. O apóstolo discorre sobre isso até ao final do capítulo 2. E na sua argumentação, Paulo estabelece um contraste entre a sabedoria de Deus e a sabedoria humana. Por exemplo, em 1.18-19 ele diz: “Certamente, a palavra da cruz é loucura para os que se perdem, mas para nós, que somos salvos, poder de Deus. Pois está escrito: Destruirei a sabedoria dos sábios e aniquilarei a inteligência dos instruídos”. No versículo 21, ele continua: “Visto como, na sabedoria de Deus, o mundo não o conheceu por sua própria sabedoria, aprouve a Deus salvar os que creem pela loucura da pregação”. De acordo com Paulo, o mundo desprezou a sabedoria de Deus e não a conheceu. Tal sabedoria foi revelada àqueles que creem e que foram salvos por aquilo que o mundo considera loucura: a pregação do evangelho. Mas, exatamente o quê é a manifestação da sabedoria de Deus, no pensamento de Paulo? Eis o que está escrito nos versículos 22-25: “Porque tanto os judeus pedem sinais, como os gregos buscam sabedoria; mas nós pregamos a Cristo crucificado, escândalo para os judeus, loucura para os gentios; mas para os que foram chamados, tanto judeus como gregos, pregamos a Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus. Cristo crucificado é a manifestação maior tanto do poder quanto da sabedoria de Deus, algo inconcebível tanto para os judeus quanto para os gregos. O contraste continua sendo feito com aqueles que são “sábios segundo a carne”, poderosos e nobres de nascimento (v. 26), as coisas loucas e fracas do mundo versus os sábios e fortes (v. 27), as coisas humildes e desprezadas do mundo versus aquelas que reputadas como valorosas (v. 28). Paulo conclui o capítulo 1 afirmando que aqueles que creem pertencem a Cristo Jesus, aquele que se tornou para nós, “da parte de Deus sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção” (v. 30).

No capítulo 2 Paulo faz uma apologia da sua pregação negando, em primeiro lugar, que tenha pregado ancorado em ostentação de linguagem ou sabedoria humana (v. 1). O Pr. Fred G. Zaspel faz o seguinte comentário sobre este versículo: “Ele [Paulo] não veio para impressionar com uma forma de oratória polida (‘ostentação de linguagem’) ou com profundidade filosófica (‘sabedoria’).[1] É preciso lembrar que, anteriormente, ele já havia alertado para o fato de que, caso a sua pregação se apoiasse na sabedoria humana ela seria completamente destituída de poder e a cruz de Cristo seria eclipsada: “Porque não me enviou Cristo para batizar, mas para pregar o evangelho; não com sabedoria de palavra, para que não se anule a cruz de Cristo” (1.17). A negativa é repetida no versículo 4: “A minha palavra e a minha pregação não consistiram em linguagem persuasiva de sabedoria, mas em demonstração do Espírito e de poder”.

Assim, é preciso perguntar: Se a pregação de Paulo não consistiu de oratória pomposa e de sutilezas filosóficas, qual foi o seu conteúdo? Ele responde no versículo 2: “Porque decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo e este crucificado. É extremamente importante ter esta declaração em mente, a fim de entender a antítese estruturada pelo apóstolo:

  • A pregação de Paulo não consistiu de ostentação de linguagem e de sabedoria humana.
  • A pregação de Paulo consistiu de Jesus Cristo e este crucificado.
Em vez de sabedoria humana, a pregação de Paulo consistiu de sabedoria divina: “Entretanto, expomos sabedoria entre os experimentados; não, porém, a sabedoria deste século, nem a dos poderosos desta época, que se reduzem a nada; mas falamos a sabedoria de Deus em mistério, outrora oculta, a qual Deus preordenou desde a eternidade para a nossa glória; sabedoria essa que nenhum dos poderosos deste século conheceu; porque, se a tivessem conhecido, jamais teriam crucificado o Senhor da glória” (vv. 6-8). A sabedoria de Deus pregada por Paulo outrora esteve oculta, mas agora (por meio da pregação apostólica) foi revelada. Charles Hodge diz que a forma mais natural de compreendermos as palavras de Paulo (“sabedoria de Deus em mistério”), no versículo 7, é como significando “sabedoria misteriosa ou escondida”.[2] Essa sabedoria escondida agora revelada pela pregação apostólica é a pregação sobre Jesus.

Isto posto, o apóstolo Paulo está afirmando que, sua pregação não se apoiou nos floreios retóricos e no apelo à filosofia tão característicos dos oradores gregos que, certamente, eram admirados pelos cristãos coríntios. Em vez disso, a sua pregação tratou simplesmente de apresentar a obra redentiva de Jesus Cristo, sua vida perfeita, seu sofrimento e sua morte na cruz do Calvário. A morte de Jesus para salvar o seu povo é o mistério outrora oculto. A pregação apostólica agora revelava esse mistério nunca imaginado pelo homem. Assim, quando Paulo diz, no versículo 9: “mas, como está escrito: Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que o amam”, ele não está falando a respeito do céu. Ele está falando a respeito de Jesus Cristo e a salvação obtida por ele através da sua morte na cruz do Calvário. A sabedoria outrora oculta nunca foi conhecida pelos poderosos deste século. Isso equivale a dizer que a sabedoria de Deus outrora oculta, porém, agora, revelada, nunca foi vista por olhos, nunca foi ouvida por ouvidos, nem jamais penetrou em coração humano: “Paulo disse que pregava a sabedoria oculta de Deus, que nenhum dos príncipes deste mundo havia conhecido. Ele ensinava o que olho nenhum tinha visto, ouvido algum havia ouvido, e nenhum coração concebido. Isto é, ele pregava a verdade não descoberta pela razão humana”.[3]

A morte de Jesus como única forma de salvação nunca foi imaginada por homem algum. A pregação do Cristo crucificado era escândalo para os judeus, cujos corações imaginaram uma salvação trazida por um Messias guerreiro que os libertaria do jugo romano. Os gregos reputavam a pregação de Cristo e este crucificado como loucura, uma vez que, para eles, a elevação do homem e sua salvação se encontravam no conhecimento filosófico. Judeus e gregos nunca viram, nunca ouviram nunca imaginaram em seus corações que a verdadeira salvação viria através de um Messias crucificado. A morte de Jesus, definitivamente, é a forma de salvação totalmente inesperada. Se estivesse em poder do homem planejar e conceber o seu meio de salvação, certamente, a cruz nunca seria sequer considerada.





[1] Fred G. Zaspel. "The Apostolic Model for Christian Ministry: An Analysis of 1 Corinthians 2.:1-5". In: Reformation & Revival. Vol. 7. N. 1, 1998. p. 25.
[2] Charles Hodge. 1&2 Corinthians. Edinburgh, UK: The Banner of Truth Trust, 2000. p. 35.
[3] Ibid. p. 37.

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