1509725595914942

6 de set de 2015

Dia do SENHOR: Uma Dádiva Celestial que Não Devemos Desprezar

Por Thiago Oliveira

“8. Lembra-te do dia do sábado, para o santificar. 9. Seis dias trabalharás e farás teu trabalho, 10. mas o sétimo dia é o sábado do SENHOR teu Deus. Nesse dia não farás trabalho algum, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem teu servo, nem tua serva, nem teu animal, nem o estrangeiro que vive contigo. 11. Porque o SENHOR fez em seis dias o céu e a terra, o mar e tudo que neles há, e no sétimo dia descansou. Por isso, o SENHOR abençoou o sábado e o santificou”.

Êxodo 20. 8-11

“12. Guarda o dia do sábado para o santificar, como te ordenou o SENHOR, teu Deus; 13. seis dias trabalharás e farás todo o teu trabalho; 14. mas o sétimo dia é o sábado do SENHOR, teu Deus. Nesse dia não farás trabalho algum, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem teu servo, nem tua serva, nem teu boi, nem teu jumento, nem qualquer animal teu, nem o estrangeiro que vive em tuas cidades; para que teu servo e tua serva descansem como tu. 15. Lembra-te que foste escravo na terra do Egito e que o SENHOR, teu Deus, te tirou dali com mão forte e braço estendido. Por isso, o SENHOR, teu Deus, te ordenou que guardasses o dia do sábado”.

Deuteronômio 5. 12-15

Criação e Redenção

Aqui temos o registro do Dia de Descanso (Sabá[1]) presente no decálogo. Na primeira vez que os Dez Mandamentos são pronunciados, é dito que devemos lembrar do sabá para santificá-lo, e a divina obra da criação é usada como parâmetro. Deus fez todo o universo em seis dias e no sétimo descansou. Já na repetição do decálogo, o parâmetro é a obra redentiva de Deus. Os hebreus deveriam lembrar que foram escravizados, mas Deus, com mão forte e braço estendido trouxe libertação para aquele povo que há séculos vivia cativo. Criação e Redenção são as razões para que observemos o quarto mandamento.

Quando se é dito que Deus abençoou e santificou um dia especial da semana, significa que dentre os outros seis dias, um tem um caráter distintivamente religioso, ou seja, voltado para contemplação religiosa. Além de renunciarmos a nossa labuta, o sabá nos é dado para que adoremos a Deus na beleza da Sua santidade. É um dia solene de culto que não deve ser negligenciado, pois, o descaso com aquilo que o SENHOR declara santo é um grave pecado chamado profanação. Quando abdicamos o dia sabático, estamos nos tornando parecidos com Esaú que por um mísero prato de lentilhas vendeu a benção para seu irmão. Uma pessoa profana é alguém que não é santa, justamente por não valorizar o que é santo. Sendo assim, podemos dizer que o profano é o ímpio que não tem comunhão com Deus.

O sabá precisa ser observado não apenas como o dia de jogar as pernas para o ar e não fazer absolutamente nada além de dormir e comer. Devemos buscar a Deus com intensidade e profundidade. Cultuar é a regra do dia sabático. Por isso que a Igreja de Cristo se reúne solenemente uma vez por semana e celebra seu Criador e Redentor. É para ser um dia memorial de gratidão. Gratidão pelo simples fato de existirmos e nos movermos nesse mundo de Deus, que nos fornece o alimento e as condições necessárias para que tenhamos vida. A dádiva da vida deve ser celebrada no sabá. Só o fato de Deus ter nos trazido a existência, e ter soprado em nós o fôlego que nos permite viver, é algo que não devemos cessar nunca de render-Lhe ações de graça. Será que temos consciência disso? Estamos cientes de que a cada acordar, Deus demonstra a Sua misericórdia, nos dando um novo dia na certeza de que Ele tem cuidado de nós? Como se isso não fosse o bastante, temos outro grande motivo para celebrarmos: Jesus Cristo, nosso redentor, nos tirou do cativeiro do pecado, onde vivíamos escravizados, em estado de alienação. Ele, por sua infinita graça nos redimiu. Redenção é um termo que se usava quando um escravo era solto após o pagamento de determinado valor. E quem pagou a conta para nossa libertação? Foi Jesus Cristo na cruz do calvário. Ele pagou o preço pela nossa redenção. Estamos livres da tirania e da opressão do pecado. Louvado seja o nosso Senhor Jesus Cristo, a Ele a glória, para todo sempre!

Quando o Dia do SENHOR não é guardado, sabe o que isso quer dizer na prática? Que a criação e a redenção não nos alegram. Quer dizer que não somos gratos por nenhuma dessas coisas. Não adianta dizermos que isso não é verdade, se na prática, o memorial que Deus estabelece para agradecermos e celebrarmos o Seu santo nome pela vida e pela salvação não está sendo observado por nós. Nosso mundo está de fato muito diferente. As relações de trabalho são mais dinâmicas do que a dos hebreus que viveram há milênios antes de nós, com sua economia pautada na agricultura e na pecuária. Hoje, o capitalismo dita um ritmo muito mais intenso e acelerado. Todavia, devemos lembrar que Deus deve ser colocado como a prioridade. O cristão não deve se amoldar ao que o mundo impõe como padrão. Não nos conformemos, diz o apóstolo Paulo, mas, transformemos o mundo pela renovação do nosso entendimento, e assim viveremos debaixo da vontade de Deus, que é boa, perfeita e agradável (Rm 12.2).

Um Presente do Alto

Muitos de nós temos uma concepção errada da Lei. Enxergamos os seus mandamentos como sendo algo que tolhe a nossa liberdade. Para nós, lei e coerção são termos sinônimos. Todavia, a lei não pode ser encarada assim pelos cristãos. Como diz o apóstolo Paulo, a lei é santa e os mandamentos são santos, justos e bons (Rm 7.12). O decálogo foi um presente dado por Deus que indicava que Ele tinha uma aliança com os hebreus. Podemos elencar três benefícios: 1) permitiu que aquele povo se tornasse uma nação, 2) permitiu que o conhecimento sobre Deus fosse o mais claro possível e, por último, 3) permitiu o autoconhecimento. Pois, pela lei, vemos quem somos de fato: pecadores! Ela que nos conduz até Cristo, o único capaz de cumprir todos os mandamentos e estender a nós a sua justiça.

O sabá não deve ser visto como um entrave para nossa prosperidade, já que ele não nos permite realizar nenhum tipo de trabalho que nos garanta alguma remuneração. O sabá é o descanso que necessitamos após uma semana estressante de serviço puxado. É um recarregar de baterias que Deus nos oferece, para o nosso bem. É um dia de reunir a família que mal se vê devido às agendas desencontradas no decorrer da semana. Um dia em que casais podem desfrutar da benção matrimonial e prestar um culto a Deus na intimidade santificada do ato conjugal. Filhos e pais podem conversar e estreitar os laços afetivos. As refeições podem ser feitas sem pressa, pois, não existe horário de almoço limitado. Acima de tudo, a família deve se reunir em nome do seu Provedor para adorar em plena comunhão. E uma família se junta à outra família, que se junta à outra, que se junta a mais outra e: eis a Noiva do Cordeiro, que enfeitada agrada ao seu Noivo entoando cânticos amoráveis Àquele que é digno de receber louvor.

Somos tão tolos, que desprezamos as dádivas celestiais. Nos parecemos muito com os hebreus obstinados no deserto. Após Deus conceder o maná e ter ordenado que ninguém estocasse, pois no outro dia haveria mais para atender suas necessidades, alguns desobedeceram e armazenaram o pão do ceú. Para sua infelicidade e vergonha, o maná estocado apodreceu e eles não puderam comer. Mesmo assim, Deus foi generoso. No sexto dia de colheita, havia o dobro e o povo estava maravilhado e perguntaram a Moisés o motivo daquilo. É aqui que temos a primeira menção do sabá como um dia de repouso estabelecido. Moisés informou que aquela porção dobrada significava que ninguém iria precisar se dar ao trabalho de colher no sétimo dia. O povo poderia coletar tudo naquele dia, e repousar no sétimo, e o pão não iria apodrecer dessa vez. Mas, alguns teimosos ainda foram ao campo para colher, só que nada encontraram. O SENHOR se indignou com tal postura e perguntou até quando aqueles homens iriam desprezar a Sua Palavra? (Deuteronômio 16.16-30).

Infidelidade é falta de fé. Os teimosos que foram colher maná no dia em que deviam repousar e agradecer a Deus pela colheita farta do dia anterior duvidaram da provisão divina. Hoje, muitos empregos fazem com que os cristãos trabalhem também aos domingos (nosso sabá). Essa é uma constatação óbvia. Não julgo meus irmãos e até entendo que situações financeiras foram determinantes para que isso acontecesse. Mas, apelando para a consciência dos queridos, peço que orem a Deus, com fé em Sua provisão. Orem para que o SENHOR lhes conceda o necessário para sustentarem suas famílias sem que o sabá seja sacrificado. Ele pode fazer isso. Se esta é a situação na qual você se encontra, trabalhando aos domingos, não faça nenhum tipo de loucura e deixe sua família passando privações. Ao invés de se precipitar, aconselho para que estabeleça uma meta, sabendo que isso é da vontade de Deus, para que você possa encontrar alguma profissão que lhe permita folgar no Dia do SENHOR. Tenha fé e busque soluções para isso através de estudo e qualificação profissional[2].

Nossa Herança Apostólica e Confessional

Por que guardamos o domingo e não o sábado? Esta é uma pergunta muito repetida. Alguns, como os Adventistas do Sétimo Dia, dizem que a troca do sábado para o domingo foi uma invenção do imperador Constantino, quando organizou a igreja aos moldes das instituições romanas, isso no século IV. Para eles, guardar o domingo ao invés do sábado é uma perversão do decálogo. Uma corrente ainda mais radical diz que quem não guarda o sábado vai para o inferno. Isso é uma crença equivocada, fruto de um conhecimento deturpado das Escrituras.

O princípio do sabá é descansar num dia após trabalhar durante seis. Em todo o Antigo Testamento, e até mesmo antes da ressurreição de Cristo, o sétimo dia era guardado. Todavia, após a ressurreição de Jesus, o primeiro dia da semana – o domingo – passou a ser o sabá para todos os cristãos. Atentemos para a Bíblia:

- João 20.1, 19 e 26 mostra a ênfase de João ao citar o primeiro dia da semana como o mais importante do calendário Cristão. Foi o dia da ressurreição de Cristo, dia de sua primeira aparição aos apóstolos, já com o corpo ressurreto. Esse dia de reunião é repetido na semana seguinte, agora com a presença de Tomé que estava ausente na primeira aparição.

- Atos 20.7 é o texto que nos dá uma evidência muito clara de que a igreja do primeiro século já estava bem habituada a celebrar a Santa Ceia e se congregar em memória e adoração a Cristo no primeiro dia da semana, o domingo. Esse ajuntamento solene não foi inventado por Constantino, é uma prática da igreja com referencial apostólico.[3]

- 1 Coríntios 16.2 fala de uma oferta que Paulo solicita aos irmãos de Corinto para ajudar seus irmãos necessitados. A coleta do dinheiro ofertado é realizada no primeiro dia da semana, o domingo, pois, era nesse dia que os cristãos se reuniam para adorar ao Senhor. Assim, coletar a quantia arrecadada seria mais fácil, já que todos estavam reunidos num mesmo local.

- Apocalipse 1.10 o apóstolo João é levado em Espírito para ouvir e ver a revelação do SENHOR. Isto acontece também no primeiro dia da semana, que já possui status sabático, pois o dia é descrito como o Dia do Senhor. Um dia consagrado a Jesus Cristo.

Além dos textos bíblicos, temos a herança dos documentos confessionais que nos mostram que o domingo é o dia santificado pelos cristãos. A Didaqué, que foi material de catequese para os cristãos do século II assim diz: “Reúna-se no dia do Senhor para partir o pão e agradecer após ter confessado seus pecados, para que o sacrifício seja puro (XIV, 1)”. Vejamos o que subscreve outros documentos confessionais:

“Desde o princípio do mundo até à ressurreição de Cristo, Deus designou o sétimo dia da semana para o descanso semanal; e desde então o primeiro dia da semana para continuar sempre até ao fim do mundo, que é o Sábado cristão, ou Domingo”.

Breve Catecismo de Westminster, resposta a pergunta 59.

“Desde a criação do mundo até a ressurreição de Cristo, Deus designou o sétimo dia da semana para ser o Sabath semanal; e desde então, o primeiro dia da semana, que deve continuar até o fim do mundo, o qual é o Sabath Cristão”.

O Catecismo Batista, resposta a pergunta 65.

Considerações Finais

Após a exposição e defesa do quarto mandamento, válido para os cristãos de hoje, pois a lei moral presente no decálogo não está abolida, o que podemos acrescentar - à guisa de conclusão - são os seguintes pontos:

Não faça pouco caso da santificação de outros dias. Nosso culto é diário e nossa vida é para a glória de Deus. No que tange o nosso testemunho e a prática da piedade, todos os dias são iguais. A distinção do sabá é a maior concentração de tempo devocional, uma vez que o nosso tempo não concorrerá com outros afazeres do nosso cotidiano.

Não menospreze a família. O sabá é um dia voltado para adoração, mas Deus sempre trabalhou na perspectiva de salvar famílias. Por isso, não se encha de atividades na igreja que furte o tempo de devoção com seus entes queridos. O sabá também é um dia para que a família preste culto em unidade.

Não menospreze a Igreja. Outro extremo a ser evitado é restringir o sabá ao culto doméstico. Este dia é dia para a Igreja de Cristo se unir em adoração. Deixar de congregar é um péssimo sinal, pois, não existe crente ermitão. Sendo assim, que possamos nos alegrar no Dia do Senhor, na comunhão dos santos, louvando ao Cordeiro de Deus que nos remiu com seu precioso sangue.

Soli Deo Gloria!


[1] Optei por usar essa forma transliterada do original shabbath.

[2] Existem profissões, tais como médicos, enfermeiros e policiais, onde o sistema de plantão acaba fazendo com que estes profissionais trabalhem em alguns domingos. Todavia, considerando o texto de Lucas 14.1-6, essas atividades entram na categoria de obras necessárias, visto que elas fazem o bem servindo a sociedade.

[3] Algumas traduções, como a NTLH, optaram por “sábado a noite”, mas isto não refuta o que foi exposto, pois a contagem dos judeus se dava diferentemente. O nascer e o pôr do sol eram o começo e o fim de um dia para o judeu. Sendo assim, uma reunião noturna como a de At 20.7, já era considerada como sendo uma reunião dominical. 

Nenhum comentário: