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21 de set de 2015

A ideia reformada do Estado ou Uma crítica ao politicamente correto

Thomas Magnum[i]

“O reino de Deus é o governo todo-abrangente de Deus”.
Herman Dooyeweerd, filósofo holandês.

O politicamente correto afetou quase todas as áreas de conhecimento e preceituação filosófica, comportamental, científica, ética, artística, política e também teológica; dentro de um espectro que o Brasil tem defendido e acalentado como seu bezerro de ouro. Podemos dizer também que o politicamente correto como vertente do pensamento de esquerda exerce um trabalho até na linguística, dançando em cima de um campo semântico bem próprio, alterando o sentido das palavras, mudando o significado e até evaporando o significante; odorizando com um perfume fétido o conotativo.

A apologética é a defesa da fé e me causa estranhamento que até ela foi infectada pelo politicamente correto. Ao tratar de apologética aqui não me atenho aos mais variados campos de atuação que ela pode trabalhar e debater, mas me restrinjo à apologética cultural.

Por apologética cultural não estou usando nenhum termo novo ou conceito desconhecido da defesa da fé, mas uma apologética que versa com a cultura, que lê o mundo de forma a responder também os anseios e erros dos homens no âmbito da cultura e alta cultura, como arte, política, música, pintura, teatro, literatura, trabalho, estudos acadêmicos. Para citar alguns nomes importantes que trabalharam também na apologética cultural temos Abraham Kuyper, Herman Dooyeweerd, Hans Roockmaaker, Francis Schaeffer, C.S. Lewis, John Stott e atualmente estudiosos ligados à teologia missional e seus desdobramentos culturais como Timothy Keller e Michael Goheen. No Brasil temos Guilherme de Carvalho, Jonas Madureira e Franklin Ferreira. São nomes de uma geração mais recente e que tem dado grande contribuição aos jovens que buscam se inteirar do assunto e compreender o cristianismo de forma integral e a missão de forma abrangente.

A essa abordagem tem se dado o nome missional ou neocalvinismo holandês, que é também relacionado à missão integral de Lausanne, diferentemente do pensamento de missão integral ligado estreitamente à teologia da libertação que sem sombra de dúvida vai de encontro ao que a teologia reformada crê.[ii]

Ao ponderar o assunto principalmente na área estética é interessante pensar em um comum comentário que ouvimos por cristãos até: “Gosto, política e religião não se discutem”. O interessante do pressuposto de tal afirmação é que com isso você aniquila sua crença de que o Evangelho é o poder de Deus para a Salvação e de que a Palavra de Deus é a fonte de verdade primeira como revelação especial de Deus aos homens.

Ao defender tal questão - em nome do politicamente correto - se está invalidando totalmente o cristianismo bíblico. Está-se levando o cristianismo e a religião para um compartimento fechado da vida, a privatização da fé e a um salto de fé que aniquila o raciocínio e um exame intelectual de vida, crença, relacionamentos (É claro que com isso não estamos defendendo a autonomia da razão humana, ela não é autônoma, mas deve obediência sempre a algum senhor. Segundo a verdade, Deus deve ser o Senhor da razão). É um esvaziamento da cosmovisão cristã que nos ensina que vivemos no mundo de Deus e devemos compreendê-lo, e viver em todas as esferas da vida humana para Sua glória.

Por que gosto se discute? Por que política se discute? Por que Religião se discute? A resposta não é um santo graal. Discute-se simplesmente porque existe a verdade e a verdade não é relativa. A verdade é absoluta, ao defender-se uma absolutização do relativo incorremos num erro crasso e até pedante no raciocínio. É necessário que haja veritas para que o pensar não seja engolido pelo Reductio ad absurdum.[iii] Se não há verdade não existe nada, isso é niilismo

O pensar já remete a questão metafísica do ser, pensar sobre o pensar só é possível por causa da realidade epistemológica, da possibilidade do occuparee isso aponta as coisas certas e erradas, e o que é errado não deve ser aceito, isso é preceito ético numa cosmovisão cristã autêntica. Ao defendermos um relativismo estético em alguma medida estaremos invalidando o ethos cristão. Isso é o que chamamos de antítese, e o cristianismo é antitético e isso não pode ser alterado, se esse fato é mudado o cristianismo perde sua essência e invalida sua missão. Sobre o politicamente correto nos diz o filósofo (cético) Luiz Felipe Pondé:

Nascida da esquerda americana, ela é pior do que a esquerda clássica, porque essa pelo menos não era covarde. A praga do politicamente correto usa métodos de coerção institucional e de assédio moral, visando calar todo mundo que discorda dela, antes de tudo, tentando fazer dessas pessoas monstros e, por fim, tentando inviabilizar o comércio livre de ideias. Ideias não são sempre coisas “boas”. Às vezes doem. [...] O que ela mais teme é a coragem. A praga do PC é apenas uma face da velha ignorância humana.[iv]

Não é incomum ouvirmos costumeiramente, religião não se discute. Se essa afirmação se refere a um discurso belicoso e aguerrido de maldade e egoísmo concordo plenamente, mas, se trata-se de recolhimento para não causar nenhum tipo de mal estar mesmo que o outro esteja defendendo os maiores absurdos ou deteriorando a pessoa de Cristo e sua Palavra está totalmente longe da verdade. Na Palavra de Deus o próprio Jesus não hesitou em repreender religiosos de sua hipocrisia e heresia nos diz o texto que “[...] eu vos darei boca e sabedoria a que não poderão resistir nem contradizer todos quantos se vos opuserem” (Lucas 21:15). O Apóstolo Paulo disse a Tito: “Retendo firme a fiel palavra, que é conforme a doutrina, para que seja poderoso, tanto para admoestar com a sã doutrina, como para convencer os contradizentes” (Tito 1:9).

Diz-nos ainda sobre o trabalho de Paulo: E todos os sábados disputava na sinagoga, e convencia a judeus e gregos (Atos 18:4). No trabalho apologético defendemos (I Pedro 3.15), mas atacamos também como nos textos acima mencionados, na realidade o ato da pregação já é um ataque, com a pregação confrontamos o pecado dos homens, anunciando que estão perdidos radicalmente mortos pelo pecado e que apenas Cristo pode dar-lhes vida e paz. Somente a graça de Deus restaura a natureza caída do homem.

Mas ao versamos sobre artes o que poderíamos dizer então? Que o importante é a intensão? Que o que vale é a sinceridade? Que não existe o belo, mas, que o belo é relativo ao gosto? Ou que gosto não se discute? Ou ainda não julgue o coração de ninguém? É bem certo que não podemos julgar o coração, mas, podemos e devemos julgar as atitudes. Podemos e devemos julgar o feio, na sociedade politicamente correta não existe o feio, o feio não é mais feio, o feio ficou exuberante e brilhou nas passarelas. Não me refiro ao feio como algo relacionado a pessoas, mas ao gosto, a arte, a cultura. Hans Rookmaaker diz em seu livro A Arte Moderna e a Morte de uma Cultura que escolas como o dadaísmo desenvolveram-se com base no irracional. E isso tem tomado proporções históricas magnânimas. Dizer que cada cultura tem o seu gosto é submeter o Evangelho à cultura, o Evangelho é supracultural, o Evangelho julga a cultura. Portanto o funk carioca, p.ex., não exibe nenhum padrão de beleza, pelo contrário seu ritmo e batidas e danças sexualmente sugestionáveis promovem o feio, a banalização do sexo, algo como um ritual hedônico num santuário de Babel.

Não há como negar o feio. O feio não está apenas nas artes, mas na moral ou na falta dela. Ao olharmos ainda que não analiticamente para o quatro político brasileiro é impossível não ver o chiqueiro que se tornou as políticas públicas por conta do partido dos trabalhadores que assumiu o poder no país e daí em diante os rombos foram maiores do que nunca. A maior história de corrupção de um governo. Os mensalão, petróleo, a corrupção ligada às construtoras, as propinas por debaixo da mesa, os desvios de verbas públicas e as consequências disso como cortes econômicos na saúde e educação são resultado do feio, do monstruoso, não há beleza nisso, a estética deformática da política do país tem avassalado vidas.

Não há nada de bonito em colocar o povo debaixo de um cabresto político, prometendo ajudas sociais e metendo um terror assombroso nos períodos eleitorais dizendo que se votarem na oposição os pobres do país vão sofrer porque os novos governantes vão extirpar a bolsa família. Desonestidade. Manipulação das massas. Controle mental. O pensamento socialista implantado no Brasil que abasteceu Cuba, Bolívia, Venezuela e companhia, visa ter um país capitalista[v] que abastece os demais socialistas, implantando uma religião civil no Estado, que intervém na vida dos brasileiros e o mais curioso disso é que os brasileiros querem intervenção, gostam de intervenção estatal. Ao estudarmos a historia dos totalitarismos vamos descobrir sem muito esforço o que acontece com um país que abraça essa ideologia. A intervenção sobre o modelo de família, a intervenção no tipo de ensino dado nas escolas, inclusive de tirar as crianças dos pais para que sejam doutrinadas com o álibi que estão tirando as crianças das ruas, com uma doutrinação marxista nas escolas em que todo o currículo versa sobre diretrizes marxistas e na filosofia educacional calcada no marxismo cultural. E ainda requerem de nós que sejamos politicamente corretos? Não! Devemos condenar tais obras como nos diz as Escrituras: “E não comuniqueis com as obras infrutuosas das trevas, mas antes condenai-as” (Efésios 5:11).

Temos um mosaico do marxismo cultural que invadiu a arte, a imprensa, o sistema de educação, a política e também a religião. Note que quando isso acontece, ocorre significativas alterações nos costumes e na cultura do povo, porque se está atuando na base da formação cultural de uma sociedade – Religião, Política, arte, imprensa, educação.[vi]

Ao chegarmos num ponto ético da questão estética, é de admirar que a onipresença do Estado tenha se alastrado de tal forma que a invasão totalitária tem legislado sobre a família, sobre a prática sexual, sobre a criação de filhos, sobre o casamento, sobre os sentimentos, sobre a linguagem. O culto ao sentimentalismo tem brocado a sociedade de forma ridiculamente podre, estamos vivendo os resultados de uma proposta gramsciana de revolução cultural de um Estado cheio, presente em todas as camadas da vida e sociedade, onde o pensamento dos homens estão quase sendo dirigidos pelo Estado, para ser irônico com nossa praça brasileira.

As escolas e faculdades têm sido centros de Programação Neuro Linguística (PNL), não é difícil você encontrar na internet alguma coisa sobre PNL, a proposta na verdade é termos uma sociedade programada linguisticamente para responder os estímulos vindos de uma superestrutura gramisciana que dissolverá todo resquício  de ética judaico-cristã que ainda resta. Jovens entram e saem das faculdades como verdadeiros analfabetos culturais sem conseguir discernir o mundo que vivem, porque essa é a proposta. Currículos marxistas na maioria das faculdades no Brasil já nem tem mais graça em falar. O que fazer então? Está tudo perdido? Como lidar com tal choque de visões de mundo?

Na realidade todo arcabouço marxista está calcado em um ideário ético epicurista, onde não há temor pelo erro, porque não existe um Deus bom que é o padrão moral. Há um arcabouço utilitário na formação educacional de crianças e jovens. Qual o motivo de jovens irem às faculdades? Eles vão para terem uma formação e ganharem dinheiro. Não é exagero dizer que o dinheiro é o primeiro grande motivo para escolha de um curso superior. O que é isso? Utilitarismo. Jovens cristãos também enveredam por essa porta larga. Não se pensa em crescimento intelectual, com pensamento crítico. Em crescimento como ser humano para contribuição para uma sociedade melhor, mas, o dinheiro, apenas o dinheiro. Isso mostra uma cosmovisão equivocada, para ser bondoso com os termos aqui.

O socioconstrutivismo tem sido a tônica pedagógica nas escolas e faculdades brasileiras. O professor agora é um mero facilitador. O aluno deve construir seu conhecimento a partir de suas experiências e capacidades, não se pode dizer que a caligrafia da criança está feia e que precisa refazer as vogais. Não, isso irá traumatizar e bloquear o crescimento intelectual dela, ela tem que construir seu jeito e sua forma de conhecimento. Não há nada mais longe do que a Bíblia ensina sobre ensino do que isso. A Bíblia ensina a inculcar, colocar na cabeça da criança, ensiná-la a fazer o correto. Para muitos cristãos seduzidos pela vertente marxista da educação esse padrão bíblico não serve mais.

Quando um Estado é totalitário e invade até a vida privada dos membros da sociedade é fato que isso descamba e desbanca outras autoridades, posto isso, quando o Estado legisla sobre ideologia de gênero invade uma esfera que não lhe pertence, quando o Estado diz como devo criar meus filhos, invade uma esfera que não é dele, quando o Estado me diz como deve ser o culto na igreja que frequento ele invade uma esfera que não é dele. A soberania das esferas deve ser preservada e somente a visão cristã de Estado pode amparar esse pensamento. 

O que acontece sem dúvida em relação ao enfraquecimento moral da sociedade é o enfraquecimento moral dos cristãos e sua ausência e indolência em relação à cultura que os cerca. A degradação do Estado é decorrência também do enfraquecimento das forças da igreja. Esse enfraquecimento além de estar ligado a vida espiritual da igreja também é causado por cosmovisões dicotômicas caucadas por visões antigas que já eram combatidas por Agostinho quando ele falava de natureza e graça.

A causa fundamental do enfraquecimento interno do pensamento político cristão – na verdade, de todo o modo de vida cristão dentre a diversidade de cristãos em nossos dias – reside não tanto em fatores externos, mas em uma decadência interna que ameaça o cristianismo desde o começo, em seu esforço positivo em relação a cultura, educação, vida política e movimento social. Este problema foi o perigo a respeito do qual Josué, vocacionado por Deus, alertou os israelitas quando eles chegaram à terra prometida, a saber, o perigo da integração com os povos pagãos e a busca por um compromisso entre o serviço a Deus e a adoração a ídolos.

Tão logo o Cristianismo começou a comprometer a educação, a cultura e a vida política com uma filosofia pagã e humanista, com sua visão de Estado e cultura, e sua força interna ruiu. Naquele momento, o processo de “conformar-se ao mundo” teve início e foi repetidamente contido através da graça de Deus por reveil espiritual, uma reforma.[vii]

Vivemos uma situação tão caótica que muitos pais entregaram a educação de seus filhos as creches, escolas, berçários, hoteizinhos; e não averiguam o que seus filhos estão aprendendo. Pais cristãos que não entendem seu papel de nutridores intelectuais e espirituais de seus filhos. A escola não foi feita para educar sexualmente crianças, nem religiosamente, a não ser que seja uma escola confessional. Crianças evangélicas que estudam em escolas municipais ou estaduais que são obrigadas praticarem atos religiosos que não fazer parte de sua herança. Saiba que vivemos em um Estado laico e a escola que é mantida pelo Estado não pode advogar nenhuma religião. Nossas crianças são forçadas a adotar práticas religiosas que não são as suas, isso deve ser revisto e considerado como uma violação da liberdade religiosa. A educação de crianças é creditada aos pais pelas Escrituras e não ao Estado, a instrução religiosa é creditada a Igreja e não ao Estado, a moral ensinada às crianças não é função do Estado, mas, de outras esferas de soberania como família e Igreja. Aulas de religião no currículo escolar que são verdadeiras pregações para crianças que estão vulneráveis, que são muitas vezes obrigadas a rituais religiosos dentro das salas pela imposição da preferência religiosa do professor. Tenho um amigo que no início de seu curso na faculdade foi levado a uma cerimonia budista pelo seu professor em plana sala de aula, com todos os alunos deitados no chão. Veja, isso foi feito em uma instituição de ensino federal.

Acho interessante que o marxismo cultural advoga um multiculturalismo, essa posição é, grosso modo, que todas as religiões tem fatores culturais que devem ser valorizados, mas, na prática, o cristianismo deve ficar fora dessa lista. Valorizemos todas as religiões menos o cristianismo, essa é a práxis. O multiculturalismo é uma ameaça a uma sociedade com herança cristã.[viii]

Ao lidarmos com a questão de um pensamento político cristão devemos partir invariavelmente das Escrituras e o que elas dizem sobre o homem. Verdade é que ao tirarmos o conceito de pecado do mundo e da sociedade teremos um caos moral, uma degradação de valores, uma verdadeira Sodoma, uma Babilônia que destruirá todo tipo de referência aos padrões descritos nas Escrituras Sagradas. Herman Dooyeweerd diz que:

A filosofia pagã ensinou que a natureza de uma pessoa, o que inclui a natureza de todas as coisas temporais, encontra seu centro supratemporal na “razão”. Mas essa “razão” é, na verdade, nada mais que uma combinação de funções temporais da consciência, funções do nosso self, aspectos de nosso coração no sentido estrito bíblico. A vida temporal orgânico-biótica, o sentimento, o senso de beleza, nossa função no desdobramento histórico, na linguagem, na vida jurídica e econômica, etc. – todas essas são também do coração nesse sentido.

A realeza da humanidade na criação imaculada de Deus não residia na natureza “racional moral” dos seres humanos, mas sim neste grande mistério: que Deus concentrou toda a sua criação no coração da humanidade, no self integral de uma pessoa, e reuniu a criação nessa mais profunda unidade.

A queda, a separação fundamental de Deus, constituiu nisto: o coração humano rebelou-se contra sua origem divina; a humanidade imaginou ser algo em virtude de si mesma; a humanidade buscou a si mesma e, com isso, buscou a Deus dentro da temporalidade. Eis, então, a idolatria que se manifesta na apostasia contra o Deus verdadeiro revelado no coração da humanidade por meio da sua Palavra.

Uma manifestação dessa apostasia foi também a visão pagã de que a existência humana tem sua origem na razão, como se ela fosse o centro supratemporal, e de que o próprio Deus é a Razão Absoluta, que é idolatrada (Aristóteles). Infelizmente, o pensamento cristão absorveu isso em ampla escala na área do chamado conhecimento “natural”.[ix]

Essa adoção de uma filosofia cultural pagã tem sido cardos e abrolhos no pensamento cristão na história. Corremos dois perigos crassos se entrarmos num desequilíbrio do papel da igreja no mundo e do verdadeiro sentido do self no homem. Uma compreensão errada do caráter transcendente e imanente da igreja levará a uma dicomização de natureza e graça no entendimento cultural pelo cristianismo.  Nesse quesito devemos considerar o papel do entendimento calvinista para uma correta cosmovisão do mundo de Deus e a igreja como participante da Missio Dei, Abraham Kuyper nos clareia nosso entendimento ao dizer que quando a visão calvinista é localizada num estado socialista podemos entender que:

Surgindo num estado socialista dualista, o Calvinismo tem realizado mudança completa no mundo dos pensamentos e concepções. Nisso também, colocando-se perante a face de Deus, ele tem honrado não apenas o homem por causa da sua semelhança à imagem divina, mas também o mundo como uma criação divina. Ao mesmo tempo o Calvinismo tem dado proeminência ao grande princípio de que há uma graça particular que opera na salvação e também uma graça comum pela qual Deus, mantendo a vida no mundo, suaviza a maldição que repousa sobre ele, suspende seu processo de corrupção, e assim permite o desenvolvimento de nossa vida sem obstáculos, na qual glorifica-se a Deus como Criador.

Deste modo a Igreja retrocedeu a fim de ser nada mais nada menos que a congregação de crentes e, em cada departamento, a vida do mundo não foi emancipada de Deus, mas do domínio da Igreja. Assim, a vida doméstica recobrou sua independência, os negócios e o comércio atualizaram suas forças em liberdade, a arte e a ciência foram libertas de todo vínculo eclesiástico e restauradas à sua própria inspiração, e o homem começou a entender a sujeição de toda a natureza, com suas forças e tesouros ocultos, a ele mesmo como um santo dever, imposto sobre ela pela ordenança original do Paraíso: “Tenha domínio sobre eles”. Doravante, a maldição não deveria mais repousar sobre o mundo em si, mas sobre aquilo que é pecaminoso nele. Em vez de voo monástico para fora do mundo é agora enfatizado o dever de servir a Deus no mundo, em cada posição da vida. Louvar a Deus na Igreja e servi-lo no mundo tornou-se o impulso inspirador; na Igreja, deveria ser reunida força para resistir à tentação e ao pecado no mundo. Deste modo, a sobriedade puritana deu o impulso para este novo desenvolvimento que ousou encarar o mundo com o pensamento romano: nil humanum a me alienum puto (Nada que seja humano deixa de ser importante para mim), embora nunca permitiu-se ser intoxicado por sua taça venenosa.[x]

O Calvinismo tem uma proposta cultural para a sociedade, essa proposta não é baseada apenas num conjunto de aforismo ideológicos, mas, na Palavra de Deus. Todo desenvolvimento do Ocidente é mérito do Cristianismo. Logo, até para uma reavaliação de nosso cenário político-educacional-artístico no Brasil é necessário uma volta a leitura do que a reforma protestante acarretou para o desenvolvimento das sociedades ocidentais. A cultura judaico-cristã é a matriz para uma dignidade política de sociedade e a única alternativa para minorar as mazelas do socialismo e dos sistemas totalitários de governo que intervém na vida das comunidades impedindo seu progresso, vide que em nenhum país que teve política totalitária houve bem estar social e político.

A proposta do Cristianismo é dada segundo a vontade de Deus expressa na Bíblia. Autores importantes sobre crítica cultural como Roger Scruton e Theodore Dalrymple reconhecem que mesmo que não se abrace o cristianismo como religião, ele apresenta a melhor e mais efetiva cosmovisão para a saúde social de um país.[xi]

Para concluir cito mais uma vez o filósofo reformado Herman Dooyeweerd falando sobre a ideia Cristã de Estado:

[...] o Cristianismo proclama um governo integral de Deus, em oposição à ideia pagã do Estado total e da mesma forma que a luz se opõe as trevas. O paganismo, incapaz de transcender o tempo, busca um último vínculo temporal prioritário do qual todas as demais relações sociais nada mais podem ser, senão partes dependentes. O Cristianismo não introduz uma instituição eclesiástica acima do Estado como vínculo mais fundamental, mas, em Cristo, o Cristianismo procura além do tempo o rumo a teocracia total, a igreja invisível de Cristo. Aqui todos os relacionamentos temporais e sociais têm sua raiz e base. Além disso, cada um desses relacionamentos, seguindo sua própria estrutura e lei divina, deve ser uma expressão, ainda que imperfeita, do reino invisível de Deus. Essa ideia cristã básica do reino de Deus é a única base possível para a ideia cristã de Estado.[xii]



[i] O autor é Bacharel em Teologia (CETEO), Bacharel em Comunicação Social (FJN), Jornalista, pós-graduando em Teologia Sistemática pelo Seminário Presbiteriano do Norte, Mestrando em Estudos Teológicos pelo Seminário Internacional de Miami (Mints) e presbítero na Igreja Congregacional da Macaxeira.

[ii] O debate sobre a utilização do termo integral tem gerado muitas controvérsias e disputas teológicas pelo contexto que a palavra tomou em anos recentes com a influência da teologia da libertação. Para um exame mais detido de como o termo era usado no congresso de Lousanne recomendo ao leitor a leitura do pacto feito no evento. Também a leitura dos comentários do pacto feitos por John Stott. Temos no Brasil uma considerável literatura que sana essa questão da nomenclatura, mas, o que precisa ser reconhecido mesmo que o nome seja rejeitado por conta de seu desgaste é que a missão da igreja é integral, por apologética cultural entendemos uma cosmovisão cristã não privatizada que se expande. A Bíblia nos fala largamente sobre o reino de Deus que é e ainda não. Com isso não caímos no erro de pensar que o mundo pode ter culturas redimidas, mas, podem ter culturas reformadas, pelo fato do termo redenção estar ligado unicamente a Cristo e aos nossos pecados e que o mundo só será plenamente redimido na nova terra e novos céus. 

[iii] Reductio ad absurdum (latim para "redução ao absurdo", provavelmente originário do grego  εις άτοπον απαγωγη, transl. e eis átopon apagoge, que significaria algo próximo a "redução ao impossível", expressão frequentemente usada por Aristóteles), também conhecida como um argumento apagógico, reductio ad impossibile ou, ainda, prova por contradição, é um tipo de argumento lógico no qual alguém assume uma ou mais hipóteses e, a partir destas, deriva uma consequência absurda ou ridícula, e então conclui que a suposição original deve estar errada. O argumento se vale do princípio da não contradição (uma proposição não pode ser, ao mesmo tempo, verdadeira e falsa) e do princípio do terceiro excluído (uma proposição é verdadeira ou é falsa, não existindo uma terceira possibilidade).

[iv] Guia Politicamente Incorreto da Filosofia, Luiz Felipe Pondé, São Paulo, ed. Leya 2012, pp.215,216.

[v] Recomendo ao leitor o vídeo de Olavo de Carvalho que trata sobre o Foro de São Paulo, que pode ser encontrado facilmente no YouTube.

[vi] Recomendamos ao leitor acompanhar nossas postagens das segundas feiras que estarão tratando sobre marxismo cultural e que tratará da atuação dessa filosofia na política, arte, educação e religião.

[vii] Estado e Soberania, Herman Dooyeweerd, São Paulo, Vida Nova, 2014, p.40.

[viii] Para maiores informações sobre multiculturalismo defendido pelo pensamento marxista recomendo a leitura do livro de Roger Scruton – Como ser um conservador, publicado esse ano pela editora Record.

[ix] Estado e Soberania, Herman Dooyeweerd, São Paulo, Vida Nova, 2014, pp. 44,45.

[x] Calvinismo, Abraham Kuyper, 1ª Edição, Editora Cultura Cristã, pp.38,39.

[xi] Estarei publicando também uma bibliografia sobre crítica cultural. Que trará recomendações de livros cristãos ao assunto como também de autores não cristãos que reconhecem a validade da cosmovisão cristã para a conservação das sociedades.

[xii] Estado e Soberania, Herman Dooyeweerd, São Paulo, Vida Nova, 2014, p.50.

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