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29 de out de 2015

Lutero e a Doutrina do Sacerdócio Universal dos Fiéis

Por Timothy George

A maior contribuição de Lutero à eclesiologia protestante foi a sua doutrina do sacerdócio de todos os cristãos. Contudo, nenhum outro elemento de seu ensino é tão mal compreendido. Para alguns, isso significa apenas que não há mais sacerdotes na igreja; é a secularização do clero. Dessa premissa, alguns grupos, notadamente os quacres, defenderam a abolição do ministério como ordem distinta dentro da igreja. Mais comumente, as pessoas acreditam que o sacerdócio de todos os cristãos implica que cada cristão é seu próprio sacerdote, e, assim, possui o “direito do julgamento privado” em assuntos de fé e doutrina. Ambos os casos constituem perversões da intenção original de Lutero. A essência de sua doutrina pode ser expressa numa única frase: todo cristão é sacerdote de alguém, e somos todos sacerdotes uns dos outros.

Lutero rompeu decisivamente com a divisão tradicional da igreja em duas classes, clero e laicato. Todo cristão é um sacerdote em virtude de seu batismo. Esse sacerdote deriva diretamente de Cristo: “Somos sacerdotes como ele é Sacerdote, filhos como ele é Filho, reis como ele é Rei”. Mais ainda, cada membro da Gemeine tem parte igual nesse sacerdócio. Isso significa que os ofícios sacerdotais são propriedade comum de todos os cristãos, não a prerrogativa especial de uma casta seleta de homens santos. Lutero enumerou sete direitos que pertencem a toda a igreja: pregar a Palavra de Deus, batizar, celebrar a Santa Comunhão, carregar “as chaves”, orar pelos outros, fazer sacrifícios, julgar a doutrina. Lutero baseou sua afirmação de que todos os cristãos são sacerdotes no mesmo grau em dois textos do Novo Testamento: “Vós [...] sois [...] sacerdócio real” (1 Pe 2.9), e “nos constituiu reino, sacerdotes” (Ap 1.6).

O sacerdócio de todos os cristãos é tanto uma responsabilidade quanto um privilégio, um serviço tanto quanto uma posição. Deus fez-nos um corpo, um “bolo” (imagem favorita de Lutero). Nossa unidade e igualdade em Cristo é demonstrada por nosso amor mútuo e nosso cuidado uns pelos outros. “O fato de que somos todos sacerdotes e reis significa que cada um de nós, cristãos, pode ir perante Deus e interceder pelo outro. Se eu notar que vocês não têm fé ou têm uma fé fraca, posso pedir a Deus que lhe dê uma fé sólida.”

Tudo isso implica que ninguém pode ser um cristão sozinho. Assim como não podemos nascer de nós mesmos, ou batizar a nós mesmos, da mesma forma não podemos servir a Deus sozinhos. Aqui, abordamos outra grande definição da igreja apresentada por Lutero: communio sanctorum , uma comunidade de santos. Mas quem são os santos? Não são supercristãos que foram elevados à glória celeste, em cujos “méritos” podemos conseguir ajuda nos caminhos da vida. Todos os que crêem em Cristo são santos. Conforme Paul Althaus disse: “Lutero trouxe a comunidade dos santos do céu para a terra”.

Quando desejar fazer alguma coisa pelos santos, volte sua atenção para os vivos, não para os mortos. O santo vivo é seu próximo, o nu, o faminto, o sedento, o pobre que tem esposa e filhos e sofre humilhações. Dirija sua ajuda a eles, comece seu trabalho aqui.

Uma comunidade de intercessores, um sacerdócio de amigos que se ajudam, uma família em que as cargas são compartilhadas e suportadas mutuamente – essa é a communio sanctorum .

Como Lutero relacionava o sacerdócio de todos os cristãos ao ofício do ministério? Enquanto todos os cristãos têm parte igual nos tesouros da Igreja, incluindo-se os sacramentos, nem todos podem ser pastores, mestres ou conselheiros. Há um só “estado” (Stand), mas uma variedade de ofícios (Amte) e funções.

Lutero considerava o ministério da Palavra o mais alto ofício da Igreja. O próprio título, “sevo da Palavra divina” (minister verbi divini ), conota um papel essencialmente fundamental. Rigorosamente falando, Lutero ensinou que todo cristão é ministro e tem o direito de pregar. Esse direito pode ser livremente exercido se alguém estiver em meio a não-cristãos, entre os turcos ou encalhado numa ilha pagã. Entretanto, numa comunidade cristã, não se deve “chamar atenção sobre si mesmo”, assumindo tal ofício por conta própria. Antes, deve-se “deixar ser chamado e escolhido para pregar e ensinar no lugar de outros e sob o comando deles”. O chamado é feito pela congregação, e o ministro continua tendo de prestar contas a ela. Lutero chegou ao ponto de dizer: “O que lhe damos hoje podemos tirar dele amanhã”. O rito da ordenação não confere nenhum caráter indelével à pessoa ordenada. É meramente a forma pública pela qual alguém é comissionado mediante a oração, as Escrituras e a imposição de mãos, a fim de servir à congregação. Argumentando curiosamente a partir da lei natural, Lutero excluía mulheres, crianças e pessoas incompetentes do ministério oficial da igreja, embora numa época de emergência ele pudesse chamá-los a exercer tal ofício, em virtude de sua parcela no sacerdócio de todos os cristãos. 
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Fonte: GEORGE, Timothy. Teologia dos Reformadores. 1 ed. Cap 3, p. 96-98. São Paulo, Sociedade Religiosa Edições Vida Nova, 1994 

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