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8 de out de 2015

Qual é o verdadeiro Jesus?

Por Thiago Azevedo

Muito embora um só Jesus exista, nem todos sabem vê-lo como é, filósofo, poeta ou comunista, ou mesmo hippie já se disse até”.

Esta é uma pequena porção da música cantada pelo grupo Vencedores por Cristo no álbum “Nada Melhor” (1973). A pequena porção da letra nos mostra a complexidade hermenêutica que gira em torno desta personagem histórica e divina chamada Jesus de Nazaré. Jesus já foi narrado como sendo apenas um profeta, um filósofo, um comunista, e até mesmo um hippie. Existe uma corrente que mostra Jesus como sendo um mero andarilho que, fugindo da morte da cruz, foi em direção à índia e lá viveu e morreu. Neste local, existe não só seguidores deste “Cristo”, mas a cama em que Jesus morreu e a casa em que viveu etc. Aqui temos um “Cristo” que renuncia sua morte para viver uma vida eremita, nesse tipo de cristianismo não há o principal fundamento doutrinário da morte na cruz do Salvador do mundo.

Outros contam a história de uma forma mais distinta, estes têm por base um período da vida de Cristo que os próprios estudiosos classificam como obscuro, isso pela carência documental, período este que vai dos 13 aos 29 anos da vida de Jesus. O que nos chama atenção em tudo isso é como estes pensadores, mesmo reconhecendo que se trata de um período obscuro pela falta de material literário, fundam tantas teses a partir deste. No mínimo, deve-se ter cuidado com tais conclusões. Neste período, segundo os teóricos, Jesus teria andado por diversos lugares no Oriente: havia um homem que era curandeiro misterioso de nome Yus Asaf, que visitou a Caxemira no século I, segundo muitos historiadores (ou seriam estoriadores?) este era a pessoa do Cristo. Outro nome forte na tentativa de tomar o lugar de Cristo está presente na lenda de Issa, andarilho que estudou com sábios na Índia e no Tibete por muitos anos. Este buscava, em grupo, uma espécie de iluminação. Mais uma vez, segundo alguns, este seria o verdadeiro Jesus. Mas não para por ai, existiu um homem por estas regiões chamado Apolônio e outro que era um budista, onde suas respectivas histórias se afeiçoam com a de Cristo. A estes homens, alguns também atribuem o tão desejado título de messias prometido.   

A hermenêutica em torno do principal nome da história mundial – Jesus – piorou muito com o surgimento da Alta crítica que desprestigiou o caráter inspiracional das Escrituras e a colocou no âmbito puramente humano. Com isso, tanto os milagres concretizados por Deus e contidos na literatura veterotestamentária, como os textos que prediziam milagres futuros e que viriam a ser confirmados no Novo Testamento, como os milagres realizados por Cristo, e aqueles principais milagres em torno do próprio Cristo – encarnação, ressurreição etc., passaram à esfera da explicação humanista e racional. A crítica das fontes: a hipótese documentária que cria nas fontes eloístas, javistas, deuteronomista e do quarto documento do antigo testamento, a fonte Q etc. Esses estudos deram início com um Médico Francês chamado Jean Austruc em 1753 e continha no seu bojo toda influência do iluminismo. Este médico apontou o livro de Gênesis contendo estas duas fontes, eloísta e javista. Isso culminou numa acachapante pesquisa que resultou em teses liberais em torno da Bíblia, sobretudo que o caráter monoteísta do texto seria mais tardio do que se pensava, datando do século 8 a.C., o que causaria muito problema com as respectivas datações dos livros dos profetas do Antigo Testamento. Porém, tudo se resolvia com a simples alteração destas datas pelos críticos céticos. Eles só não viam que se tratava de uma bola de neve, que mexendo em pontos específicos das Escrituras Sagradas tradicionalmente aceitos, teria que se mexer em todos os outros. E até os dias atuais eles estão mexendo, basta ver a pluralidade interpretativa em torno da pessoa de Jesus, como estamos abordando. O objetivo não era outro que não fosse minar o edifício do cristianismo primitivo pautado nas Escrituras judaico-cristãs. Vale salientar que tudo isso surge em uma época de escassez de estudos arqueológicos. A arqueologia ainda não era uma ciência explorada em evidência como viria a ser posteriormente; assim nos diz John Ankerberg, John Weldon e Dillon Burroughs no Livro “Os fatos sobre a Bíblia” por meio do relato do Erudito E. M Blaiklock:


A arqueologia recente tem destruído muita tolice e continuará a fazê-lo. E faço uso do termo “tolice” de maneira deliberada, pois as teorias e especulações são usadas de tal forma no estudo da bíblia que não seriam toleradas por um só momento em qualquer outro ramo da literatura ou da crítica histórica.

Muito do que a alta crítica produziu está fincado em princípios tendenciosos sem fundamentos históricos, literários e hermenêuticos e puro subjetivismo de seus representantes. Por exemplo, a tentativa de interpretar a Bíblia aplicando o mesmo princípio interpretativo para todas as formas literárias presentes no livro sagrado é sem dúvida, comprometedor.  Aliado a isso, posteriormente, começa-se a surgir uma produção literária que tenta aproximar seitas do evangelho descrito na bíblia, como é o caso dos livros “Pode um cristão ser budista?” “Pode um cristão ser maçom?”, “Jesus e Buda”, “Jesus e Buda irmãos” etc. A imaginação de alguns consegue ir mais longe, como é o caso do autor Trich Nhat Hanh, um dos maiores líderes do zen budismo, que escreveu um livro intitulado “Sócrates, Jesus e Buda” fazendo uma aproximação das três pessoas e deixando a entender que em algum momento se tratava das mesmas pessoas. O fato de haver coincidências entre a vida de algumas personagens históricas não nos concede o direito de afirmar serem as mesmas pessoas em épocas distintas. Parece que esta personagem histórica – Jesus –, que conseguiu juntar o histórico com o divino, é mesmo desejado das nações, pois, muitos em suas respectivas filosofias realizam vários encaixes com seu nome: Jesus já foi intitulado como uma espécie de comunista pela famigerada teologia da libertação, como pornofônico na pútrida paráfrase freestyle, como um polígamo e pai de muitos filhos segundo alguns que estudam os livros apócrifos etc. Jesus já foi colocado até como filho de um soldado Romano chamado Julius Tiber Panter, com quem Maria teve uma relação afetiva.  Porém a versão da fonte mais segura que temos da pessoa de Cristo – A Bíblia – nos mostra outro Jesus, diferente de todos estes. 

O malabarismo hermenêutico que é feito para se chegar a estas conclusões – extra bíblicas – da pessoa de Cristo, precisa de uma fé acima da fé conhecida revelada na Bíblia, pois são conclusões pautadas em puras especulações sem nenhum dado bibliográfico que seja. Pelo contrário, os únicos registros bibliográficos que estão à disposição, os mais seguros em confiabilidade – que são os textos bíblicos – são desprezados. Nisto, se enfatiza a capacidade intelectual humana, que consegue dar explicação "autossuficiente" a um período de pouquíssimas informações literárias (dos 13 aos 29 anos de Jesus). Existem muito mais características de mitologia no produto deste exercício hermenêutico que em qualquer outro lugar. A Bíblia em muito fora acusada por conter mitos, o que não procede. Porém, uma nova mitologia foi criada em torno da interpretação da Bíblia e do Cristo histórico-divino, pelos próprios críticos. E o mais engraçado é que estes reivindicam crença nas suas teses e desprezo à Bíblia.

Como já se falou antes, a fonte mais segura que se tem do Jesus histórico-divino é a Escritura. A Bíblia é o único livro da antiguidade que possui o maior acervo documental-manuscrito disponível. Se alguém diz que a bíblia não merece prestígio, nenhum outro livro da antiguidade merece. Pois, nenhum outro livro da antiguidade, possui uma quantidade vasta de documentos e manuscritos como a bíblia possuiExistem mais de 24.000 cópias de manuscritos completos e parciais do Novo Testamento. Também há cerca de 86.000 citações dos antigos pais da igreja e diversos outros milhares de Lecionários (livros usados nos cultos da igreja que contém citações Bíblicas usadas nos primeiros séculos do Cristianismo). Seria possível construir uma Bíblia só a partir de citações feitas pelos pais da igreja. No que concerne ao Antigo Testamento a recíproca é verdadeira; Códice Alef, Códice A, Códice B, Códice C, estes possuindo todo o antigo testamento em grego, os Rolos de Qumran em hebraico, datados do século III a.C., e os Códices Leningrado e Aleppo mais tardios e com sinais massoréticos, são alguns dos manuscritos do livro sagrado que contém ou todo, ou parte do Antigo Testamento. Uma boa parte disponibilizados na forma digital em vários sites na rede. Com isso, entendo que Deus por sua soberania preservou estes textos ao longo dos séculos permitindo o estudo dos mesmos, até por parte daqueles que criticam e tentam descredibilizar o caráter autoritativo e inspiracional inerente às escrituras. A Bíblia é o livro que mais forneceu material para a ciência da crítica textual e temos bases seguras para afirmar que este ramo do saber proveio pioneiramente dos estudos do material documental bíblico. É este próprio material que possibilita aos críticos colocarem em xeque a confiabilidade bíblica, pena que a grande maioria ou o despreza e preferem dar crédito à imaginação fértil, ou submetem esses textos a uma hermenêutica própria e tendenciosa. O caráter divino na pessoa de Cristo é rejeitado não por falta documentária, mas por outros motivos que veremos mais adiante.

O caráter preditivo em torno do messias prometido e de diversos outros assuntos é mais que convincente e demonstram o caráter autoritativo da Escritura. A Bíblia possui 8.352 versículos preditivos, 1.817 predições específicas, sobre 737 assuntos distintos, entre eles, o próprio cristianismo ainda quando este não existia. No que diz respeito às profecias messiânicas, os estudiosos enumeram em torno de aproximadamente 400 promessas específicas. Para que a autoridade bíblica não caísse por terra seria necessário que todo este arcabouço profético se concretizasse, mas foi justamente isso que aconteceu. Isso é algo que foge a qualquer capacidade humana – a própria Bíblia é um milagre divino. Não há uma única promessa contida no Antigo Testamento que não tenha se cumprido. O Novo Testamento é a confirmação de todas as profecias que foram feitas na antiguidade. A comparação da antiga aliança com a nova aliança mostra-nos mais um caráter que aponta para esta autenticidade. Para os Judeus só havia salvação mediante a Lei, no cristianismo a salvação é mediante o Cristo. Para o Judeu só havia a concepção do Deus sem o caráter trinitariano, o cristianismo enfatiza esta unidade trina. Para o judeu o animal sacrificado era a aproximação do homem com Deus em busca de um favor divino, e mesmo neste contexto, já se tinha a esperança preditiva de um único-futuro-mais importante sacrifício (Genesis 22:1-14). Logo, a própria existência do cristianismo e a sua concretude refuta a crítica que é feita a este, pois, se se tratasse de uma mentira ou uma fantasia grupal como muitos críticos alegam, ou uma espécie de metafísica de verdugos, não haveria se concretizado e substituído um antigo sistema tão forte e sólido como o sistema judaico. Ou seja, todo este antigo sistema fora reformulado com base neste segundo (cristianismo) e esta reformulação pautada na principal doutrina cristã – a morte e ressurreição de Cristo. Se se tratasse de uma mentira, se não houvesse testemunhas oculares dos fatos, se não houvesse um arcabouço documental seguro e confiante, com certeza nada teria sido alterado. Isso se torna real quando sabemos que os primeiros cristãos se tratavam de judeus. Estes aceitaram tais reformulações do sistema antigo.

Outro ponto interessante é que se o cristianismo tivesse alguma falha em seu sistema não seria privilégio dos modernos descobrirem, mas sim dos próprios antigos. Cristo por muito fora colocado em xeque por grupos rabínicos extremistas, os fariseus são um bom exemplo. Porém, nunca nem sequer uma falha ou tropeço de Cristo ficou registrado. Podemos lembrar a questão do divórcio pelo qual este grupo abordou Jesus, o questionando (Mateus 19). Na realidade, havia uma questão histórica muito influente por de trás de tudo. Na antiguidade do povo judeu havia duas escolas rabínicas extremistas, chamavam-se Shamai e Hilel. Cada escola tinha uma opinião distinta acerca do divórcio. A primeira era mais maleável e a segunda mais rígida no que concernia ao divórcio. Assim, na perspectiva de Shamai, o divórcio só seria legitimo em caso de fornicação. Mas, na perspectiva de Hilel, por qualquer motivo se poderia conceder, bastava o marido ter uma raiva da mulher. Quando os fariseus interrogam Cristo, eles esperavam uma resposta que se encaixasse com a tradição farisaica, com a escola mais legalista, a escola de Hilel. Assim, poderiam classificá-lo como legalista. Porém, a resposta de Cristo foi justamente igual à resposta que Moisés concedeu na antiguidade e favorável à escola de Shamai (ver versículos 1 ao 9). O divórcio foi dado pela dureza do coração do homem. Com isso entendemos que Jesus legitima o Antigo Testamento em suas palavras enfatizando a unidade das Escrituras Sagradas, pois reforça o que Moisés ensinou. Mas não só isso, reconhecemos também que se de fato houvesse uma falha ou farsa no sistema cristão, na pessoa de Cristo, com toda convicção, os antigos já teriam descoberto, e não os modernos, pois, estes viviam no contexto do cristianismo primitivo, e não a séculos de distancia. É como alguém que estuda um idioma estrangeiro, a pessoa que se desloca até o respectivo país para se inserir naquele contexto e cultura para  estudar o referido idioma, possuirá mais êxito do que quem estuda de longe. Se os próprios fariseus não encontraram falhas no cristianismo, uma vez estando inserido naquele ambiente, será meio difícil crer que os modernos consigam achar. Eles, os modernos, estão dentro de um quarto escuro procurando um gato preto que não está lá dentro.

Por fim, nas palavras de John Ankerberg, John Weldon e Dillon Burroughs no livro já citado anteriormente, fica mais compreensível o epicentro do problema:

Parece que toda e qualquer imagem de Jesus é atualmente aceitável para os críticos – exceto a do novo testamento. Considerando o alvo declarado de se desacreditar o cristianismo ortodoxo, tal desesperança não é de surpreender. Os motivos para as conclusões críticas são óbvios: se aceitarmos o Jesus atual da história, o Jesus do novo testamento, então Ele não é nosso Senhor e Salvador, mas será o juiz ao final da História, também. Ele não é alguém com Quem podemos brincar, mas Aquele a Quem devemos nos prostrar como nosso soberano. Podemos assumir a posição de julgá-Lo agora, mas se não nos arrependermos, será Ele Quem nos julgará no futuro. Já que o coração humano, em sua rebeldia, prefere qualquer pensamento a este, a natureza quase desesperada da erudição para se formular um novo Jesus é compreensível. Afinal, uma vez que o Jesus bíblico for devidamente descartado, não precisaremos nos preocupar com o presente nem com o futuro (Ankerberg, Weldon, Burroughs, 2011, pp. 61-62)
Conclui-se que, como visto acima, as rejeições do caráter divino do Cristo não são fundamentadas em hipótese documentárias que demonstram esta possibilidade. Mas sim, em outras razões claras e distintas que constam no texto supracitado.  Conclui-se também que o Jesus mais verdadeiro de todos é justamente aquele que é apresentado na Escritura judaico-cristã. Um Jesus santo, Divino e salvador do mundo. Um Jesus Cristo que fora anunciado profeticamente e confirmado concretamente na sua encarnação e obra. Uma história conduzida pela mente divina, revelada com riquezas de detalhes necessários que se cumpriram minuciosamente no decorrer do tempo. Um Cristo co-eterno com o Pai e que se revelou na porção necessária ao nosso conhecimento, que por sinal, é limitado. Tentar explorar um assunto aonde o próprio Deus não concedeu-nos explicação plena é uma atividade perigosa e inútil. A razão humana tenta cada vez mais dar respostas convincentes a estes temas, mesmo sem fundamentos, sem fontes, sem material comprobatório. O salmista no Salmo 139:6 já nos aconselhava como agir nessa hora: Tal ciência é para mim maravilhosíssima; tão alta que não a posso atingir” (Grifo nosso). Esta humildade está em falta em tempos atuais, onde cada vez mais, eruditos para não reconhecem suas limitações, preferem emitir todo tipo de parecer desprestigiando a Bíblia. Afinal, para que atacar um oponente poderoso se se pode criar um espantalho e atacá-lo? Já dizia Isaac Newton: “Há mais marcas indeléveis de autenticidade na Bíblia que em qualquer história profana” (Hutchinson, 2012, p. 81). O Jesus verdadeiro se encontra em cada página da Bíblia Sagrada, o que se fala em outro lugar, ou o que visa destruir esta realidade, trata-se de mera especulação!
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Referências:

ANGLADA, Paulo Roberto Batista. Manuscritologia do Novo Testamento – História, Correntes textuais e o Final do Evangelho de Marcos. Ananindeua: Knox, 2014

ANKERSBERG, John., Weldon John., Burroughs, Dillon. Os fatos sobre a Bíblia. Porto Alegra: Actual, 2011
ALAND, Kurt., Aland, Barbara. O texto do Novo Testamento – introdução às edições científicas  do Novo Testamento Grego, bem como à teoria e prática da moderna crítica textual. Barueri: SBB, 2013

BRUCE F.F. Merece Confiança o Novo Testamento? São Paulo: Vida Nova, 2010

COLLINS, John C., SCHREINER, R, Thomas., GRUDEM, Wayne. Origem, Confiabilidade e Significado da Bíblia. São Paulo: Vida Nova, 2013

HARRIS, R. Laird. Inspiração e Canonicidade da Bíblia. São Paulo: Cultura Cristã, 2004

HUTCHINSON, Robert J. Uma História Politicamente Incorreta da Bíblia. Agir, 2012

KAISER, Jr, Walter C. Documentos do Antigo Testamento. São Paulo: Cultura Cristã, 2007

MIRANDA, Valtair A. Fundamentos da Teologia Bíblica. São Paulo: Mundo Cristão, 2011

PAROSCHI, Wilson. Origem e Transmissão do texto do Novo Testamento.  Barueri, São Paulo: SBB, 2012.

SOARES, Esequias. Septuaginta: Guia histórico e literário. São Paulo: Hagnos, 2009

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