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21 de out de 2015

O Derramamento do Espírito Santo na Era Apostólica

Por Thiago Oliveira

INTRODUÇÃO

A primeira coisa que devemos tomar ciência é que para estabelecer doutrina, textos descritivos não são consistentes. A normativa, no caso, é o ensino geral dos autores neotestamentários – sobretudo - o ensino epistolar. Dito isto, as passagens narradas por Lucas no livro de Atos sobre o dia de Pentecostes não nos dão respaldo para que uma doutrina da ação e da pessoa do Espírito Santo seja estabelecida.

O PENTECOSTES (ATOS 2: 1-47)

O Avivamento no Dia de Pentecostes foi a inauguração da Igreja, e a última atividade messiânica. Prometido por Cristo antes da sua ascensão, o Espírito Santo seria derramado para que os seus discípulos fossem testemunhas do Evangelho ali e se expandissem até os confins da terra (At 1:8). É nesse período inaugural, podendo ser aqui chamado de Era Apostólica, que o Espírito Santo começa a habitar em todo cristão.

Em sua pregação, Pedro revestido da autoridade do apostolado, falando para os judeus da Palestina e para os da Diáspora, conclui sua fala encorajando aqueles homens ao arrependimento e que em seguida fossem batizados em nome de Jesus Cristo. Com isso, aqueles homens ganhariam graciosamente duas bênçãos: o perdão dos pecados e o dom do Espírito Santo (v.38). Notem que são bênçãos instantâneas, ocorridas de uma só vez, e não em duas etapas. Paulo escrevendo aos gálatas ensina que a fé salvífica, ou seja, a fé que produz salvação trás consigo o batismo do Espírito. E este batismo nos eleva a condição de filhos legítimos de Deus (Gl 4: 6 e Rm 8:15). Portanto, se analisarmos de maneira geral o ensino apostólico, vemos que a conversão e o derramamento do Espírito feito em duas etapas não é a regra para a Igreja de Cristo.

Os que rebatem a singularidade do evento do Pentecostes costumam usar outras três passagens descritivas, a saber: Os cristãos samaritanos (At 8), Cornélio e os gentios (At 10) e os discípulos de Éfeso (At 19). Passemos então a analisar cada uma delas.

OS CRISTÃOS SAMARITANOS (ATOS 8: 5-17)

A decisão de descer a Samaria e pregar o Evangelho, tomada por Filipe, foi algo que só aconteceu porque a Virtude do Espírito estava sobre ele. Historicamente, a rivalidade entre judeus e samaritanos era aberta e preocupante. Em João 4: 9 a bíblia enfatiza que esses dois povos não se davam bem. Eles viviam em pé de guerra, como diz o velho dito popular. Todavia, os samaritanos aceitaram a mensagem trazida por um judeu de um Messias que se fez homem-judeu. O Evangelho gerou alegria aquela cidade (v. 8) e tanto homens como mulheres foram batizados nas águas (v.12).

Seguindo-se a narrativa, veremos que Pedro e João são mandados para lá e constatam que eles ainda não tinham recebido o Espírito Santo. Por qual motivo o Senhor reteve a benção? Tratando-se do contexto histórico mencionado no parágrafo anterior, podemos deduzir que Deus tinha um propósito apaziguador ao agir desse modo. O motivo da supervisão de João e Pedro não foi por terem ouvido que Filipe ensinava erroneamente e nem que os samaritanos eram falsos convertidos, o texto não dá brechas para tais inferências. Os apóstolos foram lá para testemunharem algo tão inusitado, pois eles “ouviram que Samaria recebera a Palavra de Deus (v.14)”.

A ida dos apóstolos a cidade samaritana na qual Filipe evangelizou foi a oportunidade dada por Deus para que eles vissem que a Sua promessa de que eles testemunhariam em “Jerusalém, Judéia, Samaria e confins da terra” estava se cumprindo passados três anos. Ademais, a imposição de mãos foi singular ao ponto de conciliar dois povos que antes tinham a adoração segregada pela xenofobia (Jo 4:20). Agora, ambos estão sob a mesma égide e formam uma só Igreja. Batizados e revestidos em Cristo, não existe mais nada capaz de destruir a unidade dos santos (Gl 3:28).

CORNÉLIO E OS GENTIOS (ATOS 10: 1-48)

Para aqueles que advogam que o arrependimento vem primeiro e o batismo com o Espírito Santo acontece numa segunda fase, baseando-se na passagem de Atos 8, teriam então de concluir também que apenas com a imposição de mãos se recebe o Espírito. Mas vemos o agir soberano de Deus na casa do gentio Cornélio. Esse relato explicita o quanto que o mover sobrenatural não pode ser engessado, uma vez que os gentios que ali estavam receberam o Espírito de Deus quando Pedro ainda fazia a sua exposição do Evangelho (v. 44). O propósito desse evento é ainda mais claro: o Senhor ali estava mostrando aos judeus que a salvação não era uma exclusividade étnica e que os povos não-judeus também seriam alcançados.

A resistência à salvação universal era tanta que Pedro tem uma visão (v.11) e o desfecho dessa visão é de que ele não deveria considerar impuro aquilo que o Senhor tinha purificado (v.15). Enquanto Pedro ainda procurava entender o significado daquilo, os homens enviados por Cornélio chegaram. Ao entrar na casa de um gentio, um judeu era severamente censurado e descriminado, prova disso é que Pedro foi questionado pelos seus patrícios quando subiu à Jerusalém (At 11: 2-3). Mas o que foi usado em sua defesa? Exatamente o que Deus operou na casa de Cornélio. Após ter se justificado, relatando que o mesmo dom que a eles foi concedido, também fora dado aos gentios, a Igreja de Jerusalém apaziguou-se e glorificou a Deus, pois compreenderam que até aos gentios foi dada a benção do arrependimento para a vida (At 11: 17-18).

O fato de gentios terem recebido o Espírito Santo foi tão assombroso que os da circuncisão custaram a crer no que estava acontecendo ali, e se maravilharam com tal coisa. Imediatamente Pedro, de certo recordando a visão que tivera, não lhes nega o batismo com água e passa mais uns dias acolhido pelos seus novos irmãos em Cristo (v.48). E assim, outro paradigma segregacionista é quebrado.

OS DISCÍPULOS DE ÉFESO (ATOS 19: 1-7)

Éfeso era a cidade que o apóstolo Paulo queria alcançar quando empreendeu a sua terceira viagem missionária. Por se tratar da capital da província da Ásia, era uma cidade movimentada e possuidora de certa autonomia política. Do seu porto, saiam mercadorias para o longínquo oriente. Éfeso era a cidade-chave para que as portas do Evangelho se abrissem às demais partes da região.

Lá, em Éfeso, existe um pequeno grupo de discípulos (v.1). Lucas vai nos dizer que eram cerca de 12 homens (v.7). Uma coisa que o médico amado não nos diz é quem os havia discipulado. Compreendemos apenas que a sua conversão, apesar de sincera não era bem assimilada por aqueles homens. Paulo com toda a certeza notou isso logo num primeiro contato e por isso fez a intrigante pergunta: “Recebestes vós já o Espírito Santo quando crestes? (v.2)”. A resposta que obteve daqueles homens foi a de que eles desconheciam a Pessoa do Espírito.

Aqueles efésios só conheciam o batismo de João e embora conhecessem um pouco a cerca do Messias e do Espírito, mantinham certa visão escatológica e não tinham ciência de que a Era Messiânica havia sido inaugurada e que a plenitude do Espírito Santo chegou para os que são de Cristo. Alguns comentaristas bíblicos acreditam que Paulo viu que a conduta daqueles homens não era digna de alguém que tenha nascido de novo. O próprio apóstolo em sua Carta aos Romanos afirma que os que são da carne se inclinam para as coisas carnais, que levam a morte, mas os que são do Espírito são inclinados a fazerem coisas espirituais que produzem vida e paz (Rm 8: 5-6).

Fazendo uma aplicação: muitos irmãos que tem o conhecimento equilibrado da Palavra, são batizados em nome de Jesus e se denominam cristãos legítimos, muitas vezes procedem mal e fazem coisas dignas de quem não é espiritual. Imaginemos então este pequeno grupo que tinha sido instruído de uma forma incompleta e que não tinha a comunhão de uma igreja para lhe auxiliar na adoração: Seria um exagero conjecturarmos que eles possuíam desvios morais detectados pelo apóstolo Paulo?

Durante algum tempo aqueles efésios carregavam uma fé obscurecida, mas com a chegada de Paulo puderam ser integrados a comunidade da fé. Eles foram (re) batizados em nome de Jesus Cristo e receberam o Espírito através da imposição de mãos. Duas décadas após o evento do Pentecostes, chegava ali o Espírito de adoção para aquele povo que poderia ser contabilizado como sendo habitantes dos “confins da terra”, pois ali é o ponto de partida para que o Evangelho se espalhe por todo o mundo até então conhecido pelos antigos.

CONCLUSÃO

Na era apostólica, foi inaugurada e difundida a nova aliança, na qual Cristo é o único mediador. Ali vemos que o Espírito Santo foi derramado tanto para judeus quanto para gentios e que a liberdade desse mover é tanta que não ocorre da mesma maneira durante aquele tempo restrito. Levando em consideração que a Bíblia por si só se interpreta podemos concluir que a normativa não são os relatos acima e sim o ensino dos apóstolos que não nos deixa dúvidas de que os que são da nova aliança recebem as suas bênçãos, que, a saber, são o perdão dos pecados e o dom do Espírito. Unidos em Cristo temos a plenitude das bênçãos e nada poderá nos ser acrescentado posteriormente (Ef 1:3-14).

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