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11 de ago de 2015

Reformados, Fariseus ou Gnósticos?

Por Thiago Oliveira

Os fariseus e os gnósticos foram inimigos de Cristo e de sua Igreja. Os primeiros, nos anos do ministério de Jesus foram os que mais tentaram calar o Salvador e tramaram inúmeras vezes tirar-lhe a vida. Também perseguiram os primeiros cristãos em Jerusalém, e não contentes com a dispersão destes de Jerusalém, mandavam seus lacaios para fechar as recém-formadas congregações. Um destes foi Paulo, convertido na estrada de Damasco quando estava indo perseguir os cristãos. Já os gnósticos, estes eram dissimulados e, infiltrados nas igrejas, destilavam o veneno da sua heresia, contaminando o rebanho do Senhor e ensinando aquilo que era oposto ao evangelho pregado pelos apóstolos. Paulo os rebateu algumas vezes em suas epístolas, sobretudo, escrevendo aos colossenses.

Séculos e séculos depois, é de se espantar que o cerne do farisaísmo e do gnosticismo está presente naqueles que deveriam pregar e viver o oposto. Hoje, nos círculos reformados, jovens que nem bem conheceram as doutrinas da graça foram infectados com o pecado do orgulho espiritual. E o que seria isso? Solano Portela* nos dá uma definição espetacular:

Poderíamos definir o orgulho espiritual como sendo uma atitude de desprezo aos outros irmãos. Seria abrigar a sensação de se achar possuidor de uma visão superior. Seria o desenvolvimento de uma atitude de rejeição do aprendizado, contrária à humildade que Deus requer dos seus servos. Seria achar que se é conhecedor de uma faceta de compreensão que os demais irmãos ainda não alcançaram”.

Os fariseus eram muito orgulhosos dos seus feitos, se achavam o suprassumo da moralidade. Eram zelosos, de fato, mas queriam satisfazer a sua vaidade e não agradar a Deus. Gostavam dos primeiros lugares nos banquetes, de serem saudados nas ruas, de ostentarem os títulos de mestre e julgavam os outros inferiores. Em Mateus 23 Jesus critica toda a hipocrisia deste grupo religioso, que até fazia o certo, todavia, com a motivação errada: “tudo o que fazem é para serem vistos pelos homens” (Mt 23:5). Assim, tenhamos muito cuidado, pois, podemos fazer e ensinar o que é correto, no entanto, o nosso coração está transbordando de soberba.

Jesus, certa feita, contou (Lc 18: 9-14) que um fariseu e um publicano estavam orando, e a oração do fariseu foi altiva, pois, ele batia no peito para dizer que não era igual ao publicano que era pecador. Contando para Deus tudo o que fazia religiosamente regrado, aquele homem não saiu justificado perante o seu Senhor. Talvez, exista entre os que se dizem reformados uma oração semelhante: “Senhor, obrigado porque não sou como os outros irmãos, ignorantes na fé e que desconhecem a teologia. Eu já li as Institutas por inteiro, memorizei o Catecismo Maior de Westminster e leio as Escrituras nas línguas originais”. Sei que exagero no exemplo, mas a provocação é intencional. Precisamos entender que não há distinção intelectual que sirva de parâmetro para hierarquizar a comunhão de Deus com seus eleitos e de uns para com os outros. Isso é coisa dos gnósticos!

De acordo com a heresia da gnosis, existiam dois tipos de cristãos: os incipientes e os iluminados por um conhecimento que estava encoberto para os demais cristãos. Isso vai de encontro à ortodoxia bíblica. A única distinção visível nas Escrituras é entre crentes e incrédulos, eleitos e não eleitos, salvos e não salvos. Dentre os crentes não existe divisão. Todos estão sob a tutela do mesmo Espírito, n’Ele batizados na mesma fé (1Co 12:13 e Ef 4:4). Solano Portela faz uma séria advertência quanto a essa hierarquização:

Não podemos nos considerar imunes ao desenvolvimento de uma atitude de que ‘nós reformados’ somos os iluminados, únicos entendedores das verdades divinas que se encontram veladas à grande parte dos crentes comuns, a não ser que recebam a explicação lógica e incontestável de nossa parte. Muitos calvinistas têm se deixado levar pela síndrome da descoberta da pólvora, passando a demonstrar o mais evidente orgulho espiritual, no relacionamento com os irmãos, prejudicando o testemunho da fé reformada.”

Os simples, mesmo que não conheçam as obras de Lutero e Calvino, mesmo desconhecendo a história do protestantismo e mesmo não sabendo explicar as doutrinas elementares do evangelho, são amados por Deus de igual modo que os eruditos e partilham das mesmas bênçãos. Todos salvos por graça. Não por méritos intelectuais ou de alguma outra espécie. Não se deve negar que alguns tem maior facilidade de assimilar e transmitir os rudimentos da fé, mas isto é para a edificação da igreja e não para dividi-la em subgrupos. Ao trabalharmos na obra do SENHOR, devemos ser como os cotovelos no corpo. Não entendeu? Explico: Você pensa nos seus cotovelos durante o dia? Procura se concentrar para apreciar os seus movimentos e os acaricia vez ou outra? Recebe elogios por eles? Não. Contudo, eles fazem o seu trabalho para que seu corpo ande bem ajustado e seja eficiente nos afazeres do cotidiano. O grande problema é que muitos querem ser membros de destaques, vistos e elogiados. Precisamos da humildade de Cristo.

O contrário do orgulho é a humildade, e a Escritura nos conclama a sermos humildes. Só que não devemos fazer da humildade o alvo. O Rev. Heber Campos nos diz o porquê: “Não busque a humildade, porque você vai se orgulhar disto. Mas, se você buscar ser parecido com Jesus Cristo, a humildade vai fluir”. Isso é o que devemos fazer: orar para que o Pai nos molde a imagem de seu Filho Unigênito. Cristo deve ser o padrão de piedade que pulveriza nosso ego inflamado. Que os jovens que estão se proclamando reformados, mas se orgulham do conhecimento adquirido e desprezam irmãos menos conhecedores da teologia, revisem sua conduta, pois, podem estar enganando a si mesmos não tendo sido - por Deus - regenerados. Novamente cito o Solano Portela e assim finalizo esta brevíssima reflexão, ciente de que também devo vigiar:

Tendo sido regenerados pelo Deus vivo e pela Palavra viva, de nada podemos nos orgulhar, nem mesmo da nossa compreensão de Deus e de Sua majestade, pois só dele procede a iluminação para o entendimento das verdades espirituais e ele deseja que sejamos caridosos e pacientes na instrução da Sua Palavra. Que Ele nos livre do pecado do orgulho espiritual”.
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* Todas as citações do Solano Portela foram extraídas de seu opúsculo “5 Pecados que Ameaçam os Calvinistas”. O orgulho espiritual encabeça a lista de pecados. 

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