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26 de ago de 2015

Quando o Certo Também Está Errado

Por Thiago Oliveira

- Texto base: Lucas 15.11-31

Introdução

Sem sombra de dúvidas a Parábola do Filho Pródigo é uma das passagens bíblicas mais conhecidas, e uma das que mais comovem os ouvintes. A história de um pai que recebe o seu caçula, após este ter envergonhado a honra da sua casa, sobretudo a sua, é um enredo que - quase sempre - é explorado com nuances pessoais e memórias afetivas que remetem a relacionamentos entre pais e filhos. Talvez, este seja o motivo que mais leve a uma abordagem e a uma compreensão equivocada desta passagem. Não devemos esquecer que Jesus sempre que contava uma parábola, tinha diante de si um determinado grupo de pessoas, e a estas tencionava transmitir um ensinamento. Não é diferente com a Parábola do Filho Pródigo. Identifiquemos o contexto, e assim, teremos uma compreensão que faça jus ao que Cristo estava ensinando para o seu público ouvinte.

Recentemente ouvi uma bela exposição desta parábola, e o pregador, de maneira perspicaz, alertou a igreja que não deveríamos ser como o filho mais velho. Obviamente, isso deixou alguns dos que ouviram com uma pulguinha atrás da orelha, afinal, o filho mais velho é sempre visto como alguém que sempre fez o que era certo. Ele continuou ao lado do seu pai, ajudando-o a cuidar de suas posses. O mais novo é que não prestava. Ele é que é o exemplo de filho ruim e não o mais velho. Ledo engano! O que Jesus dizia para seu público-alvo é que ambos os filhos estavam perdidos. A condição do filho mais velho não era vantajosa comparada com o seu irmão, pelo contrário! e a forma que a parábola termina vai evidenciar a situação.

Como dito anteriormente, analisando o contexto que envolve a parábola iremos descobrir o porquê que não devemos ser como o filho mais velho, pois, este está numa condição de maior perdição do que seu irmão, mesmo depois de tudo que este segundo aprontou. Que esta mensagem fale aos nossos corações e que a Palavra ouvida seja aplicada em nosso viver diário para honra e glória de Jesus Cristo, nosso SENHOR.

I - O Filho mais velho não amava o seu irmão

Quando Jesus falou sobre o pai que tinha dois filhos, ele havia contado outras duas parábolas. Primeiro veio a Parábola da Ovelha Perdida. A história começa logo após um questionamento dos fariseus. O capítulo 15 de Lucas diz que os publicanos e pecadores se reuniam para ouvir a Jesus. Isto escandalizava os fariseus que criticaram o fato de Cristo comer com homens considerados indignos e que não deveriam estar na companhia de um líder religioso. Rebatendo esta crítica, Jesus fala de um pastor que deixa 99 ovelhas no aprisco para ir atrás de uma que havia se perdido. Quando a encontra, reúne os amigos e vizinhos e dá uma festa. Outra história semelhante é contada logo em seguida. Uma mulher que perde uma moeda - equivalente a uma diária de trabalho - acende uma candeia e varre toda a casa até encontrá-la. Quando acha a moeda perdida, reúne as amigas e as vizinhas para comemorar. O que Jesus estava querendo dizer ao contar estas parábolas?

O amor de Deus para com os seus é o tema das duas narrativas contadas por Cristo Jesus. Um amor que vai em busca do homem pecador e que faz de tudo para tê-los para Si. Os pecadores que Deus encontra e resgata são celebrados no céu. Há alegria entre os anjos e todo o Reino Celestial se encontra em festejo quando um pecador arrependido volta-se para Deus. Jesus estava ali dizendo que o papel de buscar pecadores estava sendo realizado por Ele. Por isso que Ele se reunia com os publicanos e com eles comia. Este era o seu ofício: encontrar as ovelhas perdidas do rebanho de Deus e juntá-las novamente ao aprisco. Não é a toa que Jesus, certa feita, afirmou ser o bom pastor (Jo 10.11).

Posso imaginar os fariseus se contorcendo diante daquilo que Jesus acabara de contar. Mas, a lição não havia acabado. Cristo vai contar a parábola dos dois filhos, mais elaborada e que inclui os fariseus como personagens do enredo. O Pai é Deus, o filho mais novo seria os publicanos e o filho mais velho; uma representação bem elaborada de um fariseu. É bem verdade que o mais moço tinha errado e andado por caminhos escusos. Se o pai não o tivesse recebido ou o recebido como um serviçal (este era o plano do pródigo ao retornar), ele estaria no seu direito. Todavia, o Pai demonstrou sua bondade, e ao receber o filho ingrato e negligente, usou de toda a sua misericórdia devolvendo-lhe a dignidade e a filiação.

Quão maravilhoso é perceber que cada elemento usado por Cristo atesta para o fato de que Deus está disposto a perdoar e a transformar o pior pecador. Há esperança para os publicanos? Eles podem se reaproximar de Deus e por Ele serem restaurados? Sim, eles podem. Quando o Pai recebeu o pródigo, mandou que os servos dessem um banho no seu filho e lhe vestissem com a melhor roupa. Ora meus irmãos, a melhor roupa com toda certeza pertencia ao Pai. Este não só fez sumir todo o vestígio da terra estrangeira, dando um destino àquelas roupas e assim apagando os vestígios de uma vida pregressa, como também lhe restaurou a posição de filho e, novamente, de herdeiro. Deus é bom. O pior dos pecadores, aquele que andou por terras longínquas, tem a chance de andar com Deus e ser participante do Seu Reino.

Uma festa foi dada para comemorar a volta daquele que já era dado como morto. Mais uma vez a parábola termina em festa. Jesus havia dito que até os anjos festejam o retorno de um pecador arrependido. O filho mais velho, que estava trabalhando no campo do pai, ouve o som das músicas tocadas e não entende o que se sucede. Um criado lhe diz o motivo daquela música alegre: “Seu irmão está de volta e seu pai matou um novilho gordo porque o recebeu são e salvo”. Esta deveria ser uma excelente notícia. Mas, ao invés de entrar na festa e dar um abraço e um beijo no irmão que havia regressado e que estava bem, ele fica do lado de fora, mordido de raiva. Ele não amava a seu irmão. Tal como os fariseus não se alegravam ao ver os publicanos mudando de vida, graças a Jesus Cristo, ele havia se enfurecido com o fato do Pai receber o pródigo novamente. Em 1 Jo 2.11 está escrito que aquele que não ama seu irmão anda nas trevas e não sabe para onde vai, pois está cego. Eis o primeiro motivo para não sermos iguais ao filho mais velho.

II - O Filho mais velho não amava o Pai

O Pai, como sempre, é apresentado como aquele que vai na direção dos seus filhos. Ele sai da festa para falar com o seu mais velho e insistir - atente para esta palavra no versículo 28 - para que seu filho entre e celebre o retorno do seu irmão. Mas, parece não haver acordo. Tomado de ira, aquele filho se dirige ao pai de uma maneira não respeitosa e questiona a sua decisão. Naquela cena, ele está se impondo e parece querer ditar as regras. A autoridade do pai é abertamente posta em xeque pelo seu primogênito. Porque aquela reação tão colérica? Teria motivos para estar tão zangado com seu Pai? Quem ele pensa que é para falar assim?

Diante deste panorama, podemos questionar o amor do filho para com o pai. Embora ele tenha sido obediente, não tenha saído de perto e tenha se mostrado disposto, aquele filho não gozava de um relacionamento sincero com seu pai. O que fica evidente, neste cenário que Jesus pinta com as palavras, é que tudo o que ele fazia era pensando em si mesmo. Quando ele questiona que o pai nunca lhe concedeu um cabrito para que ele festejasse com os amigos, ele estava tratando de bens. Ele não faz um questionamento afetivo. Seu problema era de cunho material. Por detrás do argumento do cabrito, há a questão da herança. Com o retorno do seu irmão, ele se viu injustiçado e aqui entendemos melhor a sua fúria.

Quando a herança era repartida entre os filhos após a morte do pai, o mais velho ficava com a maior parte. No relato contado por Jesus, vemos que o pai, ainda em vida (detalhe curioso), repartiu a herança com seus dois filhos. Como sabemos, o mais novo gastou tudo de maneira inconsequente e ficou sem um tostão furado, por isso ficou conhecido como pródigo. O mais velho era então dono de tudo aquilo que tinha restado. Quando seu pai morresse, ele finalmente se apossaria do que já era seu. Mas, quando o pai recebe o pródigo e o restabelece como filho legítimo, aquela herdade será novamente repartida entre eles. Que prejuízo para o mais velho. Sua raiva tem justificativa, dizem alguns. Ele faz tudo certinho, anda na linha, o outro sai para ganhar o mundo e quando volta terá direito aos bens novamente? A essas pessoas pergunto: Será a herança mais importante de que a dignidade e a restauração de um irmão de sangue? Por causa de bens materiais seria admissível ver seu irmão na miséria ou trabalhando como seu empregado?  Acredito que um cristão que assim pensa ou procede, não compreendeu que na ética do Reino, muitas vezes a gente perde para ganhar. Nesse caso, para ter o irmão de volta, custaria prejuízo financeiro. Mas e daí? Vale mais o dinheiro ou a felicidade em família? Abrindo um parêntese, aqueles que utilizam dessa parábola para dizer que o perdão de Deus não exige sacrifícios, estão muito equivocados. Coube ao irmão mais velho pagar o preço pela restauração do pródigo.

Quando fala com o pai, o mais velho está apenas pensando em dinheiro. A conversa não é afetuosa em nenhum ponto. É tanto que ele diz que trabalhou feito um escravo. Ele não se coloca como filho e seu pai é apenas o seu senhor. Este não é o relacionamento que Deus quer ter conosco. Obviamente Ele reclama para si o senhorio de nossas vidas, mas a sua relação é pessoal. Deus não quer religiosos trabalhando em Seu Reino sem que tenham vínculos pessoais. Ele não aceita pródigos como servos. Ele os torna filhos legítimos. Não devemos ser iguais ao filho mais velho porque ele não tinha amor genuíno por seu pai. Não podemos seguir a Deus pensando no que Ele nos dá. Certamente que o Senhor tem nos dado muitas coisas, e nenhuma delas merecemos, mas devemos nos envolver com Deus pelo que Ele é. O que Ele tem já é nosso (v. 31). Devemos buscar a Sua presença e não Suas bênçãos, caso contrário, não O amamos verdadeiramente.

III - O Filho mais velho justificava a si próprio

O último argumento levantado para demonstrar que não devemos ser iguais ao filho mais velho é que este justificava a si próprio. Aqui temos a nítida conduta farisaica. Ao se referir ao irmão, ele aponta todos os pecados deste. Pecados que o pai já não mais trazia a tona. Com rancor ele diz: “esse teu filho aí esbanjou os teus bens com as prostitutas”. Sabem por que ele proferiu tal acusação? Porque se achava superior. Ele se considerava bom demais comparado ao seu irmão. Os fariseus procediam de igual modo com os publicanos. Em Lucas 18. 10-14 Cristo conta uma parábola em que um representante destes dois grupos sobe ao templo para orar. A oração do fariseu é uma exaltação das suas próprias virtudes. Ele estava orgulhoso por jejuar duas vezes por semana e ser um fiel dizimista. Não satisfeito em exaltar a si mesmo, ele ainda traça um comparativo com o publicano que ora do seu lado e da graças a Deus por não ser corruptor e pecador como aquele homem.

Há nas religiões esta tendência. Se ao invés de cristãos nos tornamos meros religiosos, este quê de superioridade nos dominará, e, muitas vezes, nem nos daremos conta. O publicano quando orou, apenas suplicou pela misericórdia divina e reconheceu a sua condição de pecador. Jesus diz que daqueles homens, o publicano - e não o fariseu - desceu justificado. Na introdução foi dito que a condição do primogênito era pior dentre os dois filhos. Para entendermos isso, é preciso estar atentos ao que diz a parábola. O pródigo, depois de algum tempo que não saberíamos precisar, refletiu sobre a sua condição e concluiu que havia pecado contra os Céus e contra seu pai (v. 19). Ele volta para casa arrependido e ciente de que não merecia a filiação. Ele não faz exigências, apenas se apresenta reconhecendo seu grave erro. É exatamente isso que Deus espera de nós, que nos cheguemos até Ele e clamemos por misericórdia.

O mais velho, embora tivesse uma vida regrada, certinha, tinha motivações erradas. Não reconhecia a graça do seu pai e exigia direitos. O apóstolo Paulo, falando sobre os judeus, diz que eles tinham zelo, mas seu zelo não tinha entendimento (Rm 10.2). Eles buscavam justificar a si mesmos buscando guardar os mandamentos. Mais grave ainda era exigir algo de Deus por se considerarem bons e religiosos. Em Isaías 58.3 vemos tamanha audácia dos israelitas. Em sua concepção, Deus tinha que atendê-los, afinal, eles jejuavam e iam ao templo com frequência. O filho mais velho pensava assim e por isso, sua condição era de perdição, embora só enxergasse a perdição no outro irmão.

Todas as três parábolas de Lucas 15 acabam em festa. Participar do festejo é estar em comunhão com o Pai e ser participante de Seu gozo. Jesus termina a última parábola com o filho mais velho ainda do lado de fora. Será que ele entrou depois? Não podemos dizer. O que se sabe é que ele já havia perdido tempo demais pensando em como ele era muitíssimo bom. E quando pensamos demasiadamente bem de nós mesmos, tendemos a ficarmos frustrados, pois, nos achamos mais merecedores do que os demais. Jesus não veio para os que se consideram sadios, ele veio curar os que estão enfermos e se reconhecem como tais (Mt 9.12). Coincidentemente, ele falou isso em resposta ao mesmo questionamento dos fariseus sobre Ele comer com publicanos e pecadores.

Aplicações

Como vimos, o filho mais velho é um péssimo exemplo a ser seguido. Soberbo e rancoroso fazia o certo, porém com as motivações erradas. Engraçado que quase sempre que esta parábola é lida ou pregada, nós identificamos os defeitos do pródigo e não nos damos conta de que o primogênito está tão ou mais perdido. Seria, talvez, por sermos mais parecidos com aquele que é a representação dos fariseus? Será que estamos bem representados na figura do filho mais velho?

Para chegarmos a uma conclusão acerca de sermos ou não parecidos com o primeiro filho, precisamos responder a outros questionamentos:

- Temos nos alegrado com a conversão de pecadores ou definimos que o lugar deles é bem longe da igreja?

- Estamos servindo na igreja por amor ao Senhor entendendo que tudo é graça ou estamos servindo com o intuito de barganhar as bênçãos celestiais, exigindo-as como se fossem um pagamento por nossos serviços prestados?

- Será que estamos tão cheios de nós mesmos que não há espaço para que Deus aja em nós, operando a transformação que nos molda segundo o caráter de Cristo?

Todas as respostas são de foro íntimo. Façamos a nossa autoanálise e procuremos apresentar-nos contritos diante de Deus, reconhecendo nossa condição de pecadores. Lembremos que a misericórdia do SENHOR continua estendida, e o momento de nos voltarmos para o nosso amável Pai não deve ser protelado. Como disse C.S. Lewis, quando se está andando por um caminho errado, dar meia volta, ao invés de seguir em frente, é o progresso. Pois bem, que o Espírito nos faça progredir em santidade e no conhecimento de Deus, para que o nosso certo não se torne errado por causa de motivações quaisquer que não sejam a glória de Cristo Jesus. Amém.

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