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4 de ago de 2015

Um Pedido a Sociedade Bíblica do Brasil

Por Thiago Azevedo

A Bíblia com certeza é o livro que mais impactou as gerações. Maior best-seller da história que possui um vasto histórico marcado pela perseguição e por grandes homens que sempre estiveram envolvidos no processo de tradução de seu conteúdo. Estes homens expuseram suas próprias vidas nesse empreendimento. O referido Livro Sagrado, por ter seu texto em predominância no idioma latino, passou por aval de reis e de outras grandes autoridades para que fosse traduzido. Um destes foi o rei Tiago – VI na Escócia e I Na Inglaterra – assim como era conhecido. Ele apoiou e financiou a tradução da Escritura por William Tyndale, considerado o pai da Bíblia na língua inglesa, esta tradução ficou conhecida como The Bible of The King James (A bíblia do rei Tiago). É importante que se diga que nesta época a igreja católica romana não tinha passado pelo cisma com a Igreja Anglicana – o que após ocorrer contribuiu para que mais traduções da Bíblia surgissem. A Igreja Católica passou a perseguir Tyndale como fora da lei, isso pelo fato de ter colocado a Bíblia na mão do povo inglês. Outro rei partícipe neste processo foi Henrique VIII (que seria principal responsável pelo cisma da Igreja Anglicana com a Igreja Católica Romana), que também financiava e protegia os trabalhos de Tyndale.

Em torno de 15.000 exemplares do Novo Testamento foram traduzidos para o inglês e se espalharam através de uma espécie de “tráfico” pelos comerciantes ingleses. Tyndale era versado nos idiomas originais da Bíblia e foi julgado e morto pela Igreja Católica Romana por suas atividades, afinal, a Escritura não poderia ser lida por qualquer um, somente o clero tinha esta incumbência “divina”. Já que estamos falando de territórios ingleses, por que não mencionar personagens que surgiram antes mesmo de Tyndale? John Wycliffe conhecido como o primeiro tradutor da Bíblia neste idioma. Por sinal, obra que se imortalizou como “A Bíblia de Wycliffe”, teve forte influência neste sentido. O que seria Lion sem Pedro Valdo? Este dando origem aos Valdenses, também se imbuiu do trabalho de tradução das Escrituras Sagradas e do interesse que outros tivessem acesso àquilo que o clero defendia como sendo um direito exclusivo seu – ler a Bíblia.

Comerciante abastado, Pedro Valdo, que decidiu abandonar tudo e seguir o verdadeiro evangelho, trabalhou arduamente na propagação deste. Traduziu a Bíblia para um dialeto específico no Sul da França antes de ser varrido também pela perseguição da inquisição. Por muito, a fogueira inquisicional fora alimentada por homens vivos que tinham amor pelo que faziam, expondo suas próprias vidas, isso em amor às verdades reveladas. Não poderíamos deixar de citar Martinho Lutero, João Calvino, Theodore Beza, e outros nomes  podem muito bem figurar nesta pesquisa de pequena monta como sendo envolvidos em atividades de tradução das Escrituras Sagradas, afim que pessoas tivessem acesso ao santo conteúdo das verdades reveladas. Por exemplo, Toda a base do idioma alemão se deve à atividade de tradução da Bíblia empreendida por Lutero, estes efeitos foram vistos também em Genebra - na Suíça, e assim por diante. Há também o conhecido trio de Serampore (Índia) composto por William Carey, William Ward e Joshua Marshman, que traduziram a Bíblia para diversos idiomas, dentre outros feitos educacionais e governamentais nesta região. Infelizmente não temos como computar todos os nomes dos grandes homens que estiveram envolvidos neste importante processo de tradução dos textos sagrados para idiomas variados. O fato é que tudo isso, de uma forma ou de outra, reverberaria na nossa tradução em português.

Recentemente tivemos - aqui mesmo no Electus - um texto publicado mostrando as nuances da publicação e da tradução da Bíblia Sagrada por João Ferreira de Almeida. Um homem que teve uma vida voltada para o compromisso com Deus igualmente aos já citados anteriormente. Desde muito cedo, já tinha o comprometimento e o senso de responsabilidade em manusear o livro sagrado. Pastor aos 28 anos e já tendo sob sua responsabilidade grandes encargos eclesiásticos, além de dominar os idiomas bíblicos com esmero, enfrentou perseguição governamental em diversos países por onde passou para que não pregasse as Escrituras Sagradas no idioma português. Enfrentou também o desdém de editores e preconceitos. Fez uso de versões da Bíblia já existentes em seu tempo como, por exemplo, a Bíblia da Rainha Valéria, de 1569 em espanhol. Outra versão utilizada por João Ferreira de Almeida foi a Latina Francesa Beza que foi escrita em Genebra em 1588 (versão em que João Calvino e Theodore Beza tiveram muita influência). Ferreira também fez uso de uma versão da Bíblia italiana chamada Diodati de 1641. O trabalho de tradução envolveu uma verdadeira pesquisa, trabalho mais que árduo. Quem quiser mais detalhes sobre tamanha obra veja aqui o artigo publicado no Electus.

Quem quiser ainda mais detalhes de como se deu a chegada da Bíblia no idioma português, assista aqui ao vídeo do pastor Moabel de Souza Pereira – pastor da Assembleia de Deus em Washington nos E.U.A. Tido como um biblista, o pastor possui um exemplar da primeira cópia da tradução feita por João Ferreira de Almeida de meados 1681. O pastor chega a dar detalhes do português usado naqueles tempos.

O grande problema surge por meio de dois víeis: a necessidade de comentar a Bíblia de alguns estudiosos, e a imersão da Bíblia nos interesses capitalistas. Não estamos dizendo que homens contemporâneos a nós, e comprometidos com as verdades bíblicas, não tenham desempenhado o primeiro víeis com esmero, por exemplo, Dr. Sheed e John MacArthur são bons exemplos. Mas, quando esta ideia é copiada por algumas das mentes nada brilhantes de brasileiros com síndrome de notoriedade, o perigo pode surgir. O mais recente advento nesta esfera foi à confecção da Bíblia do cantor Thalles Roberto. Sem medo de errar, isso nada mais foi que uma junção entre interesses financeiros diversos movidos pelo combustível do capitalismo. Lembram-se da ética capitalista? O que importa é vender, mais nada!

O próprio cantor em um vídeo diz que o seu testemunho vem na frente da bíblia e isso fora justamente uma estratégia de marketing, pois segundo ele, a “Sociedade Bíblica do Brasil”, quem deu a ideia, firmou com ele esta parceria. O motivo para tal parceria era que alguns jovens dançam as músicas do Thalles, mas não leem a Palavra. O cantor gravou um vídeo onde o próprio apresenta sua Bíblia ao público e afirma que ela possui um diferencial das demais, a saber, sua história antes do texto bíblico propriamente dito. Segundo o cantor, isso faria com que os jovens lessem e se dedicassem ao estudo da mesma. Em suma, com esta atitude, o cantor dá ao seu testemunho e sua vida, uma conotação maior em importância do que a própria vida e testemunho de Cristo e seus discípulos.  Será que na Bíblia do Thalles tem o texto de João 3:30? A quem se interessar, veja o vídeo aqui.

Outro vídeo – este por sinal removido do Youtube, mas que pode ser assistido no Vimeo –o cantor alega que é melhor que todos os cantores de sua época, alega ser rico, alega que não precisa de ninguém, alega que está acima da média, alega até que está pensando em abandonar a carreira gospel, etc. Aqui faço novamente uma pergunta que fiz anteriormente: será que na Bíblia do Thalles tem o texto de João 3:30? Outra pergunta: quem sabe não temos mais um cantor gospel que precisava apenas de uma cama elástica ou um trampolim para subir mais um pouco? Geralmente estes cantores usam as costas dos pobres admiradores para dar este salto maior.

O que me deixa surpreso é que a Sociedade Bíblica do Brasil não pensa duas vezes quando é para sujar o nome de Cristo e de homens que tiveram tamanha importância na chegada da Bíblia até nós. Ao colocar numa Bíblia do Thalles Roberto, e em muitas outras por ai, o texto traduzido para o português contendo o nome de Almeida como tradutor, a Sociedade Bíblica do Brasil está desrespeitando todo um passado de homens que foram comprometidos com a Escritura, sobretudo o nome de João Ferreira de Almeida, homem que por meio dele Deus permitiu conhecermos as verdades reveladas em nosso idioma. Já tivemos a tão famigerada e mercantilista bíblia apostólica do “apóstolo” Estevam Hernandes, a Bíblia na Linguagem de Hoje que modifica sem escrúpulos as palavras contidas nos manuscritos mais antigos – quem tiver paciência e souber grego bíblico, compare o texto “Receptus” com o texto publicado pela Sociedade Bíblica do Brasil na versão NLTH e outras –, tivemos a tão gritante e absurda suspeita levantada pela revista Veja em seu site de que a Sociedade Bíblica do Brasil estaria apoiando a publicação de uma “bíblia” gay, e um líder religioso gay veio a público confirmar tal acordo. Suspeita que até os dias de hoje não foi bem explicada pela instituição. Até os dias de hoje, não se viu nenhum processo ou posicionamento mais severo da Sociedade Bíblica do Brasil sobre essa suposta calúnia movida pela revista. O que nos leva a termos milhares de interpretações do fato, e a minha é esta: são parcerias heréticas.

O fato é que solicitamos como cristãos autênticos e estudiosos das Escrituras Sagradas, como pessoas que entendem que grandes homens estiveram envolvidos com o processo de tradução dos idiomas bíblicos, e que por direcionamento de Deus, a Bíblia por nós utilizada teve a influência de um grande homem, o estimado Almeida. Pedimos mais respeito e menos mercantilismo envolvendo o Texto Sagrado. Pedimos menos parcerias heréticas e mais dignidade, pedimos temor e tremor quando o assunto for vendas de exemplares bíblicos. Pois por meio desta atividade também é possível vir o escândalo, e a Bíblia nos adverte contra isso (Mateus 18:7). Qual será a próxima modalidade de Bíblia que teremos? Já temos da vovó ao vovô, do surfista ao jovem, da mulher que ora à que não ora, etc... Onde vamos parar? 

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