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12 de ago de 2015

Crescendo no Conhecimento de Deus


Por  Thomas Magnum

Calvino dizia que Colossenses é uma joia preciosa dentre os livros do Novo Testamento. A centralidade de Cristo é retratada de forma maravilhosa, demonstrando sua supremacia e suficiência sobre todas as esferas da vida e do cosmos. A glória de Cristo é demonstrada na epístola de forma profunda e suas aplicações na segunda parte do ensino de Paulo, como eram costumeiras, nos deixa claro que o que ali estava descrito não tinha a intensão de permanecer no mundo das ideias, mas sim na prática. Cristo é supremo sobre a salvação (cap. 1.12-14), no cosmos e natureza (cap. 1.15-17) e na igreja (v.18). No segundo capítulo temos uma defesa, uma abordagem apologética da divindade de Cristo, que na verdade começa ainda no capítulo um. Paulo adverte a igreja dos falsos ensinos que circundavam a igreja na cidade de Colossos. O legalismo judaizante, os ensinos gnósticos sobre conhecimentos ocultos, religião de mistérios e culto aos anjos.  Essa abordagem de Paulo se alarga na segunda parte e podemos perceber pelo teor da epístola que essa centralidade, suficiência e supremacia de Cristo, se estendem a nossa comunhão diária com o Senhor (cap 3.1-15); ao culto (cap.3.16); aos relacionamentos familiares (cap. 3. 18-21); nos relacionamentos sociais (cap. 3.22-25); ao nosso proceder ou testemunho para com os não cristãos (cap. 4.4-6).
  
A riqueza da epístola é sem precedentes, uma maravilhosa visão cosmológica sobre a extensão do Senhorio de Cristo sobre todas as coisas. Paulo nos diz que Cristo sustenta todas as coisas, Cristo é o grande maestro do universo (Cl 1.17). Mas para que possamos entender todo o desabrochar da riqueza desse escrito paulino, temos que começar pela oração de Paulo pelos colossenses e seu pedido para que cresçam no conhecimento de Deus. Vejamos o Texto de Colossenses 1.9-12:

Por esta razão, nós também, desde o dia em que o ouvimos, não cessamos de orar por vós, e de pedir que sejais cheios do conhecimento da sua vontade, em toda a sabedoria e entendimento espiritual; Para que possais andar dignamente diante do Senhor, agradando-lhe em tudo, frutificando em toda a boa obra, e crescendo no conhecimento de Deus; sendo fortalecidos com todo poder, segundo a força da sua glória, em toda a paciência, e longanimidade com gozo; Dando graças ao Pai que nos fez idôneos para participar da herança dos santos na luz;

Cheios do Conhecimento de Deus
           
Acho interessantes as aplicações de Paulo na vida da igreja dos colossenses, a ideia de cheios do conhecimento é de um navio mercante pleno, devidamente carregado para a viagem. Paulo deseja que a igreja esteja saturada da Palavra, mas não é um conhecimento intelectualizado, é um conhecimento da vontade de Deus. Ele mostra imediatamente como se manifesta esse conhecimento de Deus na igreja: Com sabedoria e entendimento espiritual. O conhecer na Bíblia é mais do que uma absorção intelectual, mais do que uma apreensão mental. Timothy Keller explica isso muito bem quando diz

O que faz de Alguém um cristão não é tanto o fato de conhecer a Deus, mas de ser conhecido por Ele. “Conhecer” na Bíblia significa mais do que a ciência intelectual. Conhecer alguém é estabelecer um relacionamento pessoal com a pessoa.[i]

Tiago nos fala de sabedoria vinda de Deus

Quem dentre vós é sábio e entendido? Mostre pelo seu bom trato as suas obras em mansidão de sabedoria. Mas, se tendes amarga inveja, e sentimento faccioso em vosso coração, não vos glorieis, nem mintais contra a verdade. Essa não é a sabedoria que vem do alto, mas é terrena, animal e diabólica. Porque onde há inveja e espírito faccioso aí há perturbação e toda a obra perversa. Mas a sabedoria que do alto vem é, primeiramente pura, depois pacífica, moderada, tratável, cheia de misericórdia e de bons frutos, sem parcialidade, e sem hipocrisia. Ora, o fruto da justiça semeia-se na paz, para os que exercitam a paz. Tg 1.13-18.

Todo conhecimento espiritual redunda em prática, em glória a Deus, em comunhão com os santos, em caráter cristão, em louvor ao Deus triúno. Esse conhecimento de Deus produz frutos como veremos a seguir, produz obras (Ef 2.11), esboça misericórdia, sabedoria, paz.

Frutificando e Crescendo
           
Esse conhecimento de Deus deve estar num processo contínuo. Não cessa. Não fica estagnado, ele é crescente. Frutifica e cresce, aqui começa os quatro gerúndios da vida santificada, a partir do versículo 10. O andar de forma digna que Paulo menciona me chama bastante atenção, “para que possas andar dignamente”. Esse frutificar e crescer também é dito por Paulo no versículo 6 (frutificando e crescendo) em relação a operação do evangelho e de sua chegada a cidade de Colossos, e agora Paulo usa as mesmas palavras para a igreja e para o crescimento espiritual dela. Quero fazer algumas aplicações a esse andar usado pelo Apóstolo. Em outras versões e traduções encontramos viver ou viverdes dignamente, o sentido é o mesmo, mas me chama atenção o andar nas Escrituras a Palavra nos diz que

E ouviram a voz do SENHOR Deus, que andava no jardim pela viração do dia; e esconderam-se Adão e sua mulher da presença do SENHOR Deus, entre as árvores do jardim. (Gênesis 3.8)

andou Enoque com Deus, depois que gerou a Matusalém, trezentos anos, e gerou filhos e filhas.  (Gênesis 5.22)
   
Notemos que o andar no pensamento judaico muitas vezes é sinônimo de conhecimento, caminhar, ir em direção, conhecer. Lemos no Salmo 119.105, Lâmpada para os meus pés é tua palavra, e luz para o meu caminho. A lei do Senhor ilumina meu caminhar, minha vida e guia meu futuro. Andar com Deus ou o andar de Deus conosco, significa o deleite no conhecimento de Deus, o que John Piper chama de Satisfação em Deus, tema largamente abordado por Piper que desenvolve de forma singular a teologia de Edwards. Esse tema não era estranho ao pensamento reformado, John Owen escreveu Comunhão com o Deus Trino que demonstra isso também de forma magistral. Lemos ainda no Evangelho de Lucas que dois discípulos iam pelo caminho que ia para Emaús quando Jesus se aproximou

E, naquele mesmo dia, dois deles estavam caminhando em direção a um povoado chamado Emaús, que ficava a cerca de onze quilômetros de Jerusalém. E iam dialogando sobre todos os fatos recentemente ocorridos. Enquanto trocavam ideias e discutiam, o próprio Jesus se aproximou de ambos e começou a caminhar com eles;   
(Lucas 24.13-15, Versão King James)
        
Vejamos que eles a princípio caminhavam discutindo os últimos acontecimentos, e depois Jesus se aproxima e caminha com eles (anda com eles). Podemos notar nesse texto também algumas aplicações devocionais. Todo nosso andar com Deus deve ser permeado por sua Palavra. É impossível uma vida cristã plena do conhecimento de Deus como Paulo fala, sem a centralidade da Palavra, a leitura e a pregação da Escritura é um meio de Graça para os eleitos de Deus. O texto nos diz:

E ele lhes disse: Ó néscios, e tardos de coração para crer tudo o que os profetas disseram! Porventura não convinha que o Cristo padecesse estas coisas e entrasse na sua glória? E, começando por Moisés, e por todos os profetas, explicava-lhes o que dele se achava em todas as Escrituras. (Lucas 24.25-27)
          
A caminhada para Emaús foi saturada pelas Escrituras, da mesma forma a caminhada cristã deve sim ser acalorada, vivificada, renovada pela Santa Palavra de Deus. Não podemos caminhar com Deus e desfrutar de seu conhecimento sem as Escrituras, Sola Scriptura! Tota Scriptura!

Fortalecidos pela Força da Sua Glória

Ao chegarmos ao nosso ponto final, deslumbramos a gloriosa graça de Deus sobre a vida de sua igreja. Graça pactual, aqui nós observamos o amor de Deus e seu cuidado e zelo por seu povo e como Deus deseja manter-nos em sua presença, inclusive em nossas lutas contra a carne e o pecado que tão de perto nos aflige. Sua aliança com seu povo escolhido o fortalece, o mantém de pé, o sustenta com graça, seu favor é a causa mater de estarmos em sua presença e caminhando com Ele em novidade de vida. Seu amor eletivo nos garante certeza de sua ação poderosa em nossa vida. Nos diz o conhecido teólogo e comentarista reformado William Hendriksen:

O aforismo “conhecimento é força” é verdadeiro na vida espiritual mais do que em qualquer área. Quando uma pessoa cresce no pleno conhecimento de Deus, sua força e coragem aumentam. A presença divina que habita no seu interior a capacita a dizer: “Posso todas as coisas naquele que me fortalece” (Fp 4.13). Paulo acrescenta: Segundo a força da sua glória. “Segundo” é mais forte do que “de” ou “pela”. Quando um multimilionário doa “de” sua fortuna a alguma boa causa, ele pode estar dando muito pouco; mas quando ele dá “segundo” as suas riquezas, a quantia será substanciosa. O Espírito Santo dá não apenas “de”, mas “segundo”. [ii]
            
Notemos que a graça dispensada sobre nós para uma vida de pleno conhecimento redunda em vida santificada. Essa força (kratos) da sua glória é uma força ativa operada em nós, Ele nos fortalece de forma gloriosa.

Ao fim o texto nos diz que essa força nos é dada para perseverarmos e exercermos longanimidade. A perseverança nos fala de resistência, a casa edificada sobre a rocha que é atingida pela tempestade, mas está fundamentada, firme, tem força. Força que não é dela mesma, mas do fundamento, e qual é o fundamento? Cristo!
        
Em Cristo somos fortalecidos por meio de seu Espírito que opera em nós por sua Palavra, a Deus seja toda Glória! A longanimidade nos leva a uma ação, a perseverança nos mostra recepção, a longanimidade nos mostra concepção, mas conceber o que? Da mesma forma que recebemos graça pela força da glória para resistir a perseguições, provações, desespero ou covardia; a longanimidade nos remete a reagirmos às mesmas questões. É dar a outra face, é caminhar a segunda milha. A graça que nos dá poder para resistir, nos dá poder para agir segundo a sua vontade (cap.1.9).

Perante tal quadro majestoso que nos remete a pessoa de Cristo e seu exemplo para nós, entendemos que tudo converge em Cristo, por isso fomos predestinados para sermos conforme a imagem de seu Filho (Rm 8.29). Para que desfrutemos de sua santa pessoa, nossa união com Cristo nos proporciona esse fruto do Espírito (Gl 5.22-24). Diante desse quadro que as Escrituras nos dão finalizamos com o versículo 12, com o último gerúndio, dando graças. O coração que conhece a Deus lhe é grato por tamanha graça, por tamanho conhecimento de sua vontade, pela herança dos santos na luz, por Ele nos fazer idôneos para isso.

Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém!

Romanos 11.36



[i] - Timothy Keller. Gálatas para você, p. 112. 2015.  Ed. Vida Nova.
[ii] - Comentário do Novo Testamento, 1 e 2 Tessalonicenses, Colossenses e Filemon. Ed. Cultura Cristã, p.318.

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