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30 de jan de 2015

Rivais de Jesus

Por Francis Schaeffer

Tendo enfatizado que Jesus precisa ser o centro de nossa vida, quero mencionar quatro outras coisas que devemos cuidar de não pôr lá. A primeira é qualquer estado totalitário ou qualquer igreja totalitária. Se eu tenho a perspectiva que os discípulos foram instruídos a ter no Monte da Transfiguração – “este é meu filho amado...a ele ouvi” – então não há lugar nenhum para qualquer coisa totalitária! Nem uma igreja que se impõe entre o indivíduo e Deus, nem um estado que exige lealdade primária tem tal direito. Há um lugar legítimo tanto para o estado como para a igreja, mas não no centro. O centro precisa ser uma Pessoa.

Estados totalitários, autoritários, não estão longe de nós. Sentimos seu hálito em nossas nucas, a cada volta – não só em países comunistas, como também em elites modernas do mundo ocidental. O cristão sempre deve dizer: “Quero que o estado e a sociedade tenham o seu lugar apropriado. Mas se tentarem chegar ao centro da minha vida, sou contra, porque só Jesus deve estar lá”.

Esse perigo é mais sutil num cenário religioso, e especialmente em um cenário evangélico, quando manifestado na forma de uma liderança humana totalitária, autoritária. E porque isso também costuma fazer pressão sobre nós, devemos ter cuidado constantemente. Deve haver liderança humana na igreja, sob a liderança do Espírito Santo, mas é errado aos homens, mesmo os homens bons, assumirem para si o centro. A mentalidade de Paulo, como vimos, não era essa. Nem a de João Batista. Só o Deus triúno pode ser central. O perigo não precisa vir de um Hitler ou Stalin. Pode vir de um cristão que se empolga tanto com a mecânica da liderança que, inconscientemente ou não, põe-se no lugar onde só Deus deve estar.

Se vivêssemos num estado totalitário, estaríamos bem apercebidos disso. E mesmo numa igreja, uma liderança totalitária, autoritária, provavelmente nos faz sentir desconfortáveis, como um casaco muito apertado. Mais difícil de detectar, porém, é uma fase do trabalho cristão se tornar central em vez de Cristo e a Trindade serem centrais. Quando o trabalho cristão se torna o centro de integração, isso também é errado.

É curioso que nós podemos fazer coisas em nome de Cristo ao mesmo tempo que o empurramos para fora do palco. Consigo ver isso mais claramente quando uma igreja se empolga com um projeto de construção e move o céu e a terra para completá-lo. Uma cobertura sobre nossa cabeça é necessária, mas isso é só uma parte mínima do ministério da igreja. O edifício é apenas um instrumento.

Lutar pela evangelização e salvação de almas também não se deve tomar a importância primária; mas quantas vezes isso acontece! Outras pessoas, com razão, veem a igreja ameaçada por apostasia, mas também passaram a fazer a pureza da igreja visível o centro de sua vida. Em todos estes casos Jesus pode permanecer como tópico de conversa, mas sua centralidade verdadeira foi esquecida. Em nome de Cristo, Cristo é tirado do trono. Quando isso ocorre, mesmo o que é certo fica errado.

Mas sutil ainda é tornar certas doutrinas o ponto central. Por exemplo, podemos calcular: Eu sou presbiteriano, por isso vou dar ênfase acima de tudo à doutrina da predestinação. Sim, a soberania de Deus deve ser ensinada, mas alguns de meus amigos o enfatizaram tanto que a doutrina, e não Deus, tem se tornado o centro de seu ministério. Isso pode acontecer com outras doutrinas. Certamente você já conheceu pessoas que tanto enfatizaram o tipo de batismo que uma pessoa deve ter que isso se tornou o centro da conversação, o centro da batalha, realmente o centro da perspectiva. Logo que fazemos isso com qualquer doutrina, é como um pneu furado que faz o carro inteiro dar solavancos.

Na realidade só há um centro, não só como doutrina, mas na prática – Cristo e a Trindade. O que o Deus ´que está i tem a dizer sobre si próprio? logo que respondemos a essa pergunta e vivemos na base da resposta, tudo se encaixa no lugar, como um guarda-roupa belamente organizado ou uma linda seleção de música de Bach, em que cada voz tem seu lugar.
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Extraído do livro "Não há gente sem importância". p.159. 

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