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20 de jan de 2015

Sobre Linguagem e Comunicação: Transmitindo o Evangelho da Graça

Por Thomas Magnum

O Evangelho é boa nova, boa notícia e isso nos leva a uma reflexão sobre a atual comunicação do Evangelho que tem sido extremamente prejudicada não somente pelas distorções doutrinais como pela mundanização do discurso, no sentido de obscurecimento da integralidade da mensagem. Dentro do campo de estudos da comunicação identificamos três pontos fundamentais: o emissor, o receptor e o diálogo. Evidentemente que o diálogo só poderá ser estabelecido quando a mensagem do emissor for inteligível ao receptor, dentro da inteligibilidade do receptor consequentemente ocorrerá à resposta a mensagem recebida tornando assim eficaz a comunicação dos indivíduos. Quando a mensagem contem entraves em sua transmissão ocorre o que chamamos de ruído, ela não chega com inteireza, clareza e eficazmente ao receptor.

Vivemos na era da explosão comunicacional e os meios de difusão da mensagem são multiformes. Essa convergência e pluriformidade de conteúdo e mensagem sofrem com isso interferências que são dissociadas do real significado da palavra, do discurso. Ao examinarmos casos breves nas Escrituras Sagradas podemos trabalhar em cima de exemplos práticos muito uteis a nossa reflexão aqui sobre a linguagem e a comunicação do Evangelho numa perspectiva missional para a igreja.

Podemos traçar uma linha do Gênesis ao Apocalipse quando falamos da comunicação da mensagem de Deus, afinal, foi o próprio Deus que iniciou o processo de comunicação com o homem na criação de Adão, Deus se relacionava com ele e lhe deu instruções e mandamentos como lemos no início do Gênesis. Mas, devemos notar que a comunicação era algo consideravelmente relevante para o Senhor na criação do homem que ele lhe deu uma mulher, o desenvolvimento dos nossos relacionamentos estão estreitamente ligados a um processo comunicacional, não apenas de palavras, mas, de sentimentos e fisicamente também. A comunicação não se restringe a um tipo de linguagem apenas, ela pode ser verbal e não verbal. Tomemos alguns exemplos: ao lermos a saga o Senhor dos Anéis de J.R.R. Tolkien ou mesmo as Crônicas de Nárnia de C.S. Lewis temos ali um tipo de linguagem verbal e não verbal também. Quando o escritor relata uma cachoeira, ou um rio que passa pelo cenário descrito por ele, ou mesmo um vento, o autor nos leva nesse momento a uma linguagem auditiva, imaginamos o barulho das águas ou do vento. Ao descrever Nárnia tomada de neve por causa da feiticeira branca, ou a mesa sendo quebrada na ressurreição de Aslam, Lewis nos leva a uma linguagem visual e auditiva, ao tratar de tempo frio ou quente um autor nos leva a uma linguagem sensitiva. Então a comunicação é pluriforme. Quando assistimos um filme em 3D somos levados a uma variável de comunicação visual, auditiva, sensitiva e até tátil, isso é muito interessante porque relacionasse a integralidade de nossos instrumentos de conhecimento, pelos nossos sentidos.

Então quando um pai proíbe seu filho de colocar o dedo numa tomada, expressando isso abaixando-se diante dele e dizendo: “não coloque o dedo ali, você pode morrer” esse tipo de linguagem inicial poderá ser intensificado de outras formas, quando o garotinho olha para o pai e vê que ele não está vendo e pensa em colocar o dedo na tomada, e então como por um susto quando levanta a cabeça pega seu pai olhando para ele, ele entende que há uma desaprovação do pai ao que ele pretende fazer, porque já ouve uma ordem para que ele não fizesse isso. A comunicação no segundo caso foi não verbal, mas, ouve comunicação e foi eficaz.

Quando lidamos com nosso ponto focal que aqui é nossa comunicação do Evangelho, de fato, a pregação ocupa um lugar ímpar, segundo a tradição reformada é um sacramento e ocupa lugar central no culto a Deus. Posto isso, é importante tratarmos aqui também em um ponto interessante numa perspectiva missional, isso desenvolvido a partir de concepção Kayperiana da soberania das esferas. Em seu excelente livro Igreja Centrada de Timothy Keller ele nos diz:

A igreja missional confirmará que todos os cristãos são missionários em todas as áreas da vida.

Portanto ao olharmos nosso legado na história da reforma, Deus era glorificado e isso era ensinado como desdobramento do mandato cultural, social e espiritual em todas as esferas – Política, artes, música, educação – não há uma ruptura entre o secular e o sagrado, tudo pertence a Deus, ele é Senhor do mundo e tudo que nele há. Fator interessante relacionado a isso é o ensino dos reformadores sobre a graça comum, evidente que ao falarmos de revelação geral, não atribuímos totalidade salvífica a ela, mas totalidade condenatória, a revelação especial veio revelar a completude da revelação para a salvação através dos méritos de Cristo na cruz. Mas o interessante é que os cristãos abandonaram outras esferas, um exemplo disso é que muitas pessoas acham que estar engajado na obra de Deus é somente ser pastor, missionário, dirigente de louvor, diácono qualquer outra atribuição ligada diretamente à igreja e ao trabalho eclesial.

Ouvimos aqui ou ali alguém dizer que seu curso na faculdade é secular, e tratamos disso com uma dicotomia que as escrituras não apresentam. Quando os reformadores tratavam da questão vocacional e isso é bem interessante, eles não atribuíam o termo vocação somente como o catolicismo fazia aos padres, monges e freiras. Diziam que ser médico é uma vocação, ser sapateiro é uma vocação, ser pastor é uma vocação. Isso está ligado a doutrina pregada por Lutero e Calvino sobre o sacerdócio de todos os crentes. E essas vocações exercidas para glória de Deus comunicam o Evangelho da Graça. Como diz Nancy Pearcey em seu livro Verdade Absoluta: existe uma forma cristã de sociologia, de filosofia, de artes, de medicina, de agronomia, de história. Isso está ligado a nossa cosmovisão, nossa perspectiva cristã e essas coisas consequentemente desembocarão num processo comunicacional do evangelho.  Com essa perspectiva proclamamos o reino de Deus, que não é Senhor somente da igreja, mas, de toda a criação.

Ao fazermos uma leitura correta do Reino de Deus nas Escrituras notaremos a importância do entendimento da soberania das esferas. Existe uma autoridade sobre a família, que é uma esfera. Uma autoridade sobre o estado que é uma esfera. Uma autoridade sobre a igreja que é uma esfera, mas, todas as esferas são regidas por Deus. Uma esfera é independente da outra em um sentido governamental, mas, em outro sentido todas elas estão sob o mesmo Rei e mesma lei, a lei de Deus e no governo de Deus. E essa pluriformidade nos leva a entender que nisso há graça, há favor de Deus, há reino de Deus, há vidas transformadas pelo poder do Evangelho da Graça, graça invencível. Precisamos no Brasil amadurecer nosso entendimento de comunicação da graça, porque não é graça barata, é graça por Cristo. Então nossa linguagem deve alcançar não apenas nosso gueto, mas deve ser universal. A língua utilizada no Novo Testamento foi o Grego Koyné, a língua do mercado, a língua do povo, a língua de compra e venda do império na época. Nossa comunicação do evangelho não deve estar carregada de termos teológicos incompreensíveis, porque isso não transmite graça, sejamos compreensíveis, essa é a tarefa de uma igreja missional, ela comunica o evangelho a sua cultura, sem perder a ortodoxia e a firmeza teológica, mas, de forma eficaz, quem nos mostra isso é a Palavra de Deus, os profetas do Antigo Testamento falavam a língua do povo, temos que falar a língua do povo. Uma arte cristã comunica devoção a Deus, podemos destacar aqui os quadros de Rembrandt. Música cristã comunica fé, podemos mencionar Sebastian Bach. Ciência cristã comunica cristianismo, podemos citar Blaise Pascal. Filosofia cristã comunica as verdades de Deus podemos citar Agostinho. Política cristã comunica a glória de Deus, podemos citar Jhohannes Althusius.  

Mas não paramos aqui, algo que é preciso que atentemos é que muitas vezes no afã da comunicação imediata e eufórica, estamos respondendo questões que não foram perguntadas, aí a comunicação fica truncada. Em um processo proclamação de uma verdade é necessário sermos entendidos. E muitas vezes caímos num abismo semântico, na América Latina temos um fator muito interessante com música, e como disse Ziel Machado em uma palestra, “é possível sabermos como está o coração de um jovem, pela música que ele escuta”, note que esse processo deve-se a uma comunicação de via dupla, a mensagem comunica, ele recebe e emprega o que foi assimilado. Outro grande problema nosso é que não ouvimos, apenas despejamos nossa mensagem, mas, não atentamos para a necessidade expressiva do outro, aí muitas vezes a comunicação fica truncada também. Quando Paulo foi ao Areópago sua mensagem é proferida segundo a realidade daqueles homens, quando Jesus falou a parábola do semeador os ouvintes sabiam do que ele estava falando, quando o Senhor chamou os discípulos para serem pescadores de homens, eles identificaram, eles decodificaram a mensagem de Cristo. Isso é importante, a igreja deve responder a essas questões (1 Pe 3.15). Então tanto na comunicação verbal, como na não verbal devemos buscar a excelência, pois fomos dotados dos mais variados tipos de linguagens, e elas devem ser empregadas para a mensagem gloriosa do Evangelho. 

Em todas as esferas, em suas linguagens peculiares, deve-se comunicar o Evangelho da Graça, o Evangelho de Deus. Como dissemos no início o Evangelho é boas novas, devemos mostrar quais são as notícias ruins, para que falemos das boas. As boas notícias devem ser apregoadas em todas as esferas da vida. Boas notícias nos falam de comunicação, de linguagem. E nossa linguagem pode variar, mas, a fonte é a mesma – Jesus Cristo – O VERBO DE DEUS.

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