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12 de mai de 2015

Um apelo para a intersecção entre a Teologia Sistemática e a Exposição das Escrituras

Por Alan Rennê Alexandrino

Meu último ponto aborda a necessidade de congruência entre exegese e teologia sistemática na atividade da pregação expositiva. Seria bom termos uma palestra apenas sobre este assunto. Como isso não é possível no momento, limitar-me-ei ao desenvolvimento de uma problemática e ao apontamento de algumas sugestões, a fim de expor a necessidade de que nossas pregações sejam teológicas. 

É comum encontrarmos o pensamento de que ser um teólogo sistemático e um bom expositor são duas coisas extremamente difíceis de unir. É comum ouvirmos que alguns, por conta do seu perfil de mestre, serviriam melhor em uma sala de aula, enquanto outros, por causa da sua paixão, seriam mais bem utilizados no púlpito e no pastorado. Tom Ascol, um teólogo batista, afirma que uma frase comum nas congregações é: “Nosso pastor não é um teólogo, ele é um pregador”.[1] Contudo, discordando dessa dicotomia, ele afirma acertadamente que, “ignorância doutrinária no banco da igreja é o resultado da apatia teológica no púlpito”.[2] Ernest Reisinger afirma que, “às vezes, a pregação doutrinária é estigmatizada como maçante, morta e inútil. É mencionada como uma oferta de ossos secos a almas que desejam o leite puro e a carne da Palavra”.[3] Ele diz ainda que muito da objeção à pregação doutrinária e teológica se dá por conta de doutrinas que os objetores não gostam.[4] Ascol alerta para o fato de que, “a divisão do ‘pastor-teólogo’ em duas funções separadas e não relacionadas não ocorreu sem terríveis consequências para a igreja. Por um lado, a pregação tem se tornado cada vez mais vazia de conteúdo doutrinário”.[5]

O fato, é que teologia é algo essencial à pregação. Novamente citando Tom Ascol: “A convicção de que a compreensão teológica é integral ao ministério pastoral – especialmente a pregação – era comum entre nossos antepassados protestantes. Para eles era axiomático que sem a primeira ninguém se atreveria a desempenhar a última”.[6] Sem teologia não existe pregação, ao menos não no sentido neotestamentário. Pregação expositiva é a apresentação de uma mensagem sobre os grandes temas teológicos da Escritura. Com base nisso, Donald Macleod afirma que, “a mensagem correta pobremente proclamada é preferível a uma falsa mensagem bem proclamada”.[7] Nesse sentido, o apóstolo Paulo pode ser apontado como o exemplo de alguém que alcançou uma perfeita congruência entre o kerygma, a proclamação e os temas teológicos:

Paulo via sua própria função como sendo declarar a palavra da cruz. Ele teve de proclamar os fatos: Cristo morreu, Cristo ressuscitou. Mas ele também teve de proclamar o significado desses fatos. Sem interpretação, eles eram inúteis e sem significado. Interpretados como sofrimento vicário de Cristo pelo pecado e como prova de sua divina filiação e senhorio, eles eram o poder salvífico de Deus.[8]

Isto posto, os grandes temas teológicos, cristológicos e soteriológicos devem anunciados claramente em nossa pregação. O Rev. Paulo Anglada corrobora esse entendimento: “Porque a Bíblia reivindica ser Palavra inspirada de Deus e acerca de Deus, a pregação bíblica é necessariamente teológica”.[9] Ele continua afirmando:

Cada texto deve ser pregado levando-se em consideração o seu lugar no conjunto de verdades reveladas no cânon bíblico. O caráter de Deus e o seu plano eterno integral, incluindo as obras da criação, da providência e da redenção; a natureza decaída do homem; a pessoa e obra do “Cristo dos pactos” em seus ofícios real, profético e sacerdotal; a pessoa e obra toda do Espírito Santo, não apenas como distribuidor de dons espirituais; mas com relação à unção de Cristo, a revelação, a inspiração e iluminação, a regeneração, a santificação, a vivificação, a pregação, etc.; a doutrina bíblica sobre a igreja; sobre as últimas coisas, etc., são, ao mesmo tempo, temas e pano de fundo teológico da pregação reformada.[10]

Na prática, o que foi apontado aqui é nada mais nada menos do que a aplicação correta da analogia fidei, isto é, a analogia da fé, exposta na Confissão de Fé de Westminster:
A regra infalível de interpretação da Escritura é a mesma Escritura; portanto, quando houver questão sobre o verdadeiro e pleno sentido de qualquer texto da Escritura (sentido que não é múltiplo, mas único), esse texto pode ser estudado e compreendido por outros textos que falem mais claramente.[11]

Por exemplo, expor a passagem de Atos 16.31: “Crê no Senhor Jesus e serás salvo, tu e tua casa”, requer que recorramos à doutrina completa acerca da fé salvífica. De igual modo, expor 1João 3.2: “Amados, agora, somos filhos de Deus” exige uma exposição da doutrina da adoção. Isaías 6.3: “Santo, Santo, Santo, é o SENHOR dos Exércitos” torna imprescindível a exposição acerca do atributo divino da santidade. Em todos os casos, a exposição procede por trazer a uma única passagem tudo o que a Escritura tem a dizer a respeito de um tema teológico.

Outro princípio ao qual devemos atentar, é: “o sistema de doutrina exerce controle sobre a exposição de uma passagem particular”.[12] A questão é que, precisamente porque existe um sistema, e porque a verdade é uma, a dogmática estabelece parâmetros que nossa exegese nunca deverá ultrapassar. Alguém poderia perguntar: “Mas isso não seria algo semelhante a impor sobre o texto nossas pressuposições?” O problema é que, além de não existir na terra um pensador livre de pressuposições, imagine aplicar esta reivindicação romântica ao Salmo 6.5: “Pois, na morte, não há recordação de ti; no sepulcro, quem te dará louvor?” Nenhuma exposição dessa passagem deve contradizer a doutrina da imortalidade da alma ou sequer sugerir que o estado intermediário entre a morte e a ressurreição é qualquer outra coisa que não um estado de consciência.

Outro princípio seria o uso dos credos, confissões e dos catecismos protestantes e reformados. Tais documentos podem ser usados como “ajuda para a exegese. Frequentemente eles proporcionam excelentes esboços de tópicos bíblicos”.

Por fim, com o objetivo de estimulá-los a serem “pregadores-teólogos”, permitam-me compartilhar uma fantástica observação feita por Stuart Olyott, na sua obra Pregação Pura e Simples:

Os pregadores mais poderosos são sempre aqueles que são fortes em teologia dogmática. Aceitam um sistema de doutrina que governa todo o seu viver. Esse sistema de doutrina determina a crença e controla o comportamento deles. Expressa-se nas orações e se manifesta claramente na pregação deles. São homens de convicções.[13]

Que o Senhor nos abençoe! Amém!





[1] Tom Ascol. Systematic Theology and Preaching. Acessado em 16/10/2012. <http://www.founders.org/journal/fj04/editorial_fr.html>.
[2] Ibid.
[3] Ernest Reisinger. The Priority of Doctrinal Preaching. Acessado em 16/10/2012. <http://www.founders.org/journal/fj23/article2.html>.
[4] Ibid.
[5] Tom Ascol. Systematic Theology and Preaching.
[6] Ibid.
[7] Donald Macleod. “Preaching and Systematic Theology”. In: Samuel T. Logan Jr. The Preacher and Preaching: reviving the art. p. 246.
[8] Ibid. pp. 246-247.
[9] Paulo Anglada. Introdução à Pregação Reformada. Ananindeua: Knox Publicações, 2005. p. 128.
[10] Ibid. pp. 128-129.
[11] A CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER. I.ix. In: Símbolos de Fé. São Paulo: Cultura Cristã, 2005. p. 26.
[12] Donald Macleod. “Preaching and Systematic Theology”. In: Samuel T. Logan Jr. The Preacher and Preaching: reviving the art. p. 249.
[13] Stuart Olyott. Pregação Pura e Simples. São José dos Campos: Fiel, 2008. p. 33.

Um comentário:

Weullys Bueno disse...

[...]são homens de convicções, e por tanto estão em perigo. "
O autor do livro citava um contraponto ao fato de se interpretar a bíblia tendo como base infalível o dogma do exegeta; ao invés de usar o mesmo para se aproximar da bíblia a fim de saber unicamente o que ela realmente expressa e não o que meu dogma me diz, por melhor que eles seja. Já que um dogma saudável é o que é conduzido e moldado pela Bíblia todas as vezes que se chega a ela, e não o que molda a bíblia quando esta o confronta.
O texto é muito bom!! É bem consistente e de bons fundamentos. Apenas quis pontuar o uso do trecho do livro para dar base a algo que o livro desestimula. E o fato que de embora seja de suma importância o conteúdo teológico e saudável na pregação, deve-se ressaltar que a Escritura deve guiá-lo e não o inverso, especialmente se é em um assunto em que a Bíblia corrige determinada teologia. Para isso é preciso nobreza e humildade da parte dos nossos teólogos; o que hoje é escasso devido a opulência que lhes assalta a mente.
Forte abraço!