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13 de jun de 2015

Como Viveremos? (Nota Especial)

Por Francis Schaeffer

Esta nota especial é primeiramente para cristãos. Primeiro, é preciso lembrar qual é a marca distintiva do pensamento humanista na geração atual. É a aceitação da dicotomia, a separação do otimismo sobre o sentido e de valores da área da razão. Uma vez aceita esta separação, o que um indivíduo coloca no campo do irracionalismo é secundário. A marca da forma atual do pensamento humanista é esta metodologia existencial.

Não podemos, enquanto cristãos, desenvolver a nossa própria forma de metodologia existencial. E é isto que estaremos fazendo se tentarmos nos apegar aos sistemas de valores, ao sistema de sentido, e aos "assuntos religiosos" dados na Bíblia e ao mesmo tempo ignorarmos o que a Bíblia diz acerca do cosmos, da História e dos mandamentos especificamente para a moral. Se começarmos a orientar o que a Bíblia diz sobre o cosmos, História e mandamentos absolutos quanto à moral de acordo com os padrões culturais, estaremos seguindo a nossa própria forma de metodologia existencial. E, se fizermos isso, a próxima geração certamente acabará em desvantagem, no que diz respeito ao Cristianismo histórico. E mais, se nós mesmos alimentarmos a marca distintiva da nossa geração, não seremos capazes, no presente momento da História, de ser a voz que deveríamos ser para nossa geração empobrecida e fragmentada; não seremos capazes de ser o sal restaurador que se supõe que os cristãos devam ser para a sua geração e para a sua cultura, e estaremos nos deixando igualmente marcar por uma metodologia existencial. E se nos deixarmos marcar desta maneira, então já não teremos absoluto real algum para nos ajudar ou julgar a cultura, o Estado, e a sociedade.

Em segundo lugar, enquanto cristãos, não basta só conhecer a visão de mundo correta, a visão de mundo que nos diz a verdade sobre o que existe, mas também agir conscientemente de acordo com aquela visão de modo a influenciar a sociedade o máximo que pudermos em todas as suas áreas e aspectos e por toda a nossa vida, na total extensão dos nossos dons individuais e coletivos.

Em terceiro lugar, se olharmos para trás, para o tempo dos escravos e os tempos após a Revolução Industrial, ficaremos gratos pela vida de certos cristãos, tais como Elizabeth Fry, Lord Shaftesbury, William Wilberforce e John Wesley, que falaram e tomaram medidas públicas contra a escravidão e contra o mau uso das riquezas acumuladas. Pergunto-me se os cristãos do futuro serão gratos pelo fato de nós termos anunciado e tomado medidas assim contra os abusos nas áreas do racismo e da distribuição da riqueza nos nossos dias, e ainda tenhamos simultaneamente e igualmente tentado equilibrar isso com pronunciamentos e medidas contra as doenças e ameaças características da nossa era – como as do surgimento de um governo autoritário. Isto é, será que nós ofereceríamos resistência contra qualquer tipo de governo autoritário, não importa sob que emblema ele esteja governando e não importa a sua origem? O grande perigo no que diz respeito ao surgimento de um regime autoritário é que os cristãos se mantenham passivos, desde que ninguém perturbe as suas atividades religiosas, evangelismo e estilo de vida.

O fato de que a cultura e a sociedade já não partem mais do pensamento cristão como faziam outrora não é desculpa. Além disso, os cristãos não precisam estar em maioria para exercer influência sobre a sociedade.

Por outro lado, é preciso sermos realistas. Foi a partir dos pressupostos cristãos que João Batista protestou contra a encenação do poder na pessoa de Herodes, e isso lhe custou a cabeça. No Império Romano, os cristãos recusavam-se a servir a César em vez de Cristo, e os que estavam no poder viam isso como uma ameaça contra a unidade do Império. E muitos tiveram de pagar um altíssimo preço por isso.

Mas precisamos ser realistas em outro sentido ainda. Se nós, enquanto cristãos, não nos pronunciamos, ao passo que os governos autoritários vão se firmando de dentro ou são impostos de fora, chegará o dia em que nós e nossos filhos acabaremos sendo considerados inimigos da sociedade e do Estado. Nenhum governo verdadeiramente autoritário pode tolerar quem estabeleça um absoluto verdadeiro, e julgue os seus absolutos arbitrários de acordo com ele e que se pronuncie e tome providências coerentes com este absoluto. Foi isso que aconteceu no caso da igreja primitiva, em relação ao Império Romano, e por mais que o caso específico acabaria com certeza assumindo uma forma diferente daquela idolatria a César, a questão básica de ter um absoluto de acordo com o qual se possa julgar o Estado e a sociedade será a mesma.

Vai aqui uma sentença para memorizar: Não tomar nenhuma decisão à vista do crescimento de um governo autoritário já é tomar uma decisão.

O título deste livro e o da série de filmes How Should Then We Live? [Como Viveremos?] vêm da passagem do atalaia que está em Ezequiel 33.1-11, 19. O título está no versículo 10.


Veio a mim a palavra do Senhor, dizendo: Filho do homem, fala aos filhos de teu povo, e dize-lhes: Quando eu fizer vir a espada sobre a terra, e o povo da terra tomar um homem dos seus termos, e o constituir por seu atalaia; e, vendo ele que a espada vem sobre a terra, tocar a trombeta e avisar o povo; se aquele que ouvir o som da trombeta não se der por avisado, e vier a espada, e o abater, o seu sangue será sobre a sua cabeça. Ele ouviu o som da trombeta, e não se deu por avisado, o seu sangue será sobre ele; mas o que se dá por avisado salvará a sua vida. Mas se o atalaia vir que vem a espada, e não tocar a trombeta, e não for avisado o povo; se a espada vier, e abater uma vida dentre eles, este foi abatido na sua iniquidade, mas o seu sangue demandarei do atalaia. A ti, pois, ó filho do homem, te constituí por atalaia sobre a casa de Israel; tu, pois, ouvirás a palavra da minha boca, e lhe darás aviso da minha parte. Se eu disser ao perverso: Ó perverso, certamente morrerás; e tu não falares, para avisar o perverso do seu caminho, morrerá esse perverso na sua iniquidade, mas o seu sangue eu o demandarei de ti. Mas se falares ao perverso para o avisar do seu caminho para que dele se converta, e ele não se converter do seu caminho, morrerá ele na sua iniquidade, mas tu livraste a tua alma. Tu, pois, filho do homem, dize à casa de Israel: Assim falais vós: Visto que as nossas prevaricações e os nossos pecados estão sobre nós, e nós desfalecemos neles, como, pois, viveremos? Dize-lhes: Tão certo como eu vivo, diz o Senhor Deus, não tenho prazer na morte do perverso, mas em que o perverso se converta do seu caminho, e viva. Convertei-vos, convertei-vos dos vossos maus caminhos; pois, por que haveis de morrer, ó casa de Israel? … E, convertendo-se o perverso da sua perversidade, e fazendo juízo e justiça, por isso mesmo viverá.


Este livro foi escrito na esperança de que a geração presente possa se prevenir contra os maiores erros da vida, e que não coloque qualquer coisa criada no lugar do Criador e para que esta geração mantenha distância do caminho da morte e que possa viver de verdade. 
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Fonte: Extraído do livro "Como Viveremos?" editado e lançado no Brasil pela Ed. Cultura Cristã.

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