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5 de jun de 2015

Cosmovisões Comparadas

Por Bruno Rafael Souza

A VERDADE NA COSMOVISÃO CRISTÃ E NO PÓS-MODERNISMO – O DESESPERO.

Não é de hoje que o homem busca a verdade, mas de onde ela vem? Que fundamento eu tenho para afirmar que a conheço ou a possuo? Será que ela não existe e os pós-modernos estão corretos em afirmar que cada um cria a sua verdade? Se a verdade não existe, o que sobra para mim, para a família, para o mundo e a história? Essas perguntas fazem parte de nossa vida mesmo que pensemos nelas tacitamente. Nesse texto, procuraremos mostrar os pressupostos de uma cosmovisão, compará-la com a visão de nosso tempo e trabalhar um pouco as consequências de uma vida sem uma epistemologia baseada na revelação.

A DEFINIÇÃO DA VERDADE NA COSMOVISÃO CRISTÃ

O mundo é visto sempre com um conjunto de ideias admitidas sem testes e estes estão fundamentados pelos pressupostos. Por isso, quando queremos definir qualquer conceito, devemos levar em consideração a questão da cosmovisão. Franklin Ferreira diz o seguinte:

A cosmovisão é uma pirâmide construída de cima para baixo. Sendo assim, o ápice determina toda a estrutura da parte inferior. No ápice estão os pressupostos, os axiomas principais, que são o ponto de partida para tudo que vem depois. Pressupostos são as pressuposições básicas, tomadas como verdade, sem prova anterior, que formam a base para determinar todas as demais preposições que fazem parte de uma interpretação de mundo daquela cosmovisão. É importante entender que os pressupostos não são o resultado de argumentos anteriores. Se fossem, eles seriam conclusões e não pressupostos. Os pressupostos são aquelas verdades consideradas tão obvias, que ninguém ousa duvidar delas.[1]

É notório diante dessa explicação que ao trabalharmos o que é a verdade, devemos vê-la a partir dos pressupostos. Um exemplo é quando dizemos que o mundo veio de uma explosão (Big-Bang). Nessa afirmação fica claro nossa definição sobre a natureza da vida (metafísica), que seria evolucionista e também que admitimos que é possível conhecer a verdade (epistemologia). Não iremos tratar da metafísica aqui, mas sim da epistemologia que é o princípio do que tange o desenvolvimento de uma cosmovisão, para depois partirmos para a comparação da cosmovisão cristã da verdade contra a cosmovisão pós-moderna da verdade. Sobre epistemologia Frankin ainda afirma:

A primeira é a teoria do conhecimento, a epistemologia, que é o ponto de partida. Seria impossível construir uma cosmovisão sem um método para distinguir entre o verdadeiro e o falso. A epistemologia responde a questão: Como é que nós conhecemos o que é verdadeiro? Será que é por meio da razão e da lógica (racionalismo); da ciência e da experiência dos sentidos (empirismo); da intuição (misticismo); ou da revelação? Será que o conhecimento existe ou não há conhecimento (ceticismo)? A verdade é absoluta ou relativa? Tudo isso se encaixa no campo da epistemologia.[2]

Está evidente que o que conhecemos como verdade na cosmovisão cristã, parte da revelação. Contra o outro ponto que é da linha pós-moderna da verdade, que parte do misticismo ou existencialismo. Vejamos o que Bavinck tece sobre a revelação vinda da religião, como ponto de partida para o conhecimento:

As ideias sobre a revelação seguiram o seguinte esquema: Deus pode ser conhecido somente por Deus. Todo conhecimento e serviço de Deus, consequentemente, está arraigado na revelação feita por ele, mas essa revelação de Deus na natureza e na história é insuficiente. Por essa razão, se faz necessária uma revelação especial, sobrenatural, que começa imediatamente depois da queda.[3]

Francis Schaeffer no livro a morte da Razão explica bem esse conceito de revelação que trás o ponto de partida para todo o conhecimento, citando diretamente o importantíssimo trabalho dos reformadores:

Deus falou nas escrituras tanto sobre o andar de cima como sobre o andar de baixo. Falou em verdadeira revelação de si mesmo – as coisas celestiais – e falou em verdadeira revelação a respeito da própria natureza – o cosmos e o homem. Portanto, os reformadores tinham uma real unidade de conhecimento.[4]

Em suma, o que se entende por cosmovisão cristã da verdade, parte da revelação como método de interpretação do mundo. Os reformadores captaram bem essa verdade. As demais definições como ética, teleologia, metafísica (como demonstramos antes), são subsequentes ao que entendemos por verdade e como a conhecemos.        Entender tudo isso é fundamental para dizermos o que é de valor, quer seja para afirmarmos de onde viemos, o ideal de família, do trabalho, da vida após a morte ou o sentido da vida.

COMPARAÇÃO DE COSMOVISÕES – UMA ANÁLISE SOBRE A VERDADE NO PÓS-MODERNISMO

Segundo os autores citados, a cosmovisão cristã da verdade parte da revelação, ou seja, sua base epistêmica é a revelação de Deus na escritura. Com isto em mente, comparando com a questão da verdade na pós-modernidade, ficará claro a inconsistência dos teóricos da pós-modernidade, pois a religião cristã traz a revelação de tudo, não restando dúvidas ou uma busca desenfreada pela verdade, onde vemos solidez e um apoio lógico para a análise do mundo.

No entanto, é preciso voltar um pouco os olhares para a história, pois foi em Tomás de Aquino que foi aberta a porta para o homem autônomo, que usava a razão para interpretar o mundo, dando o passo para a frustração em não encontrar a verdade, trazendo assim uma futura irracionalidade:

Tomas de Aquino abriu a porta para o homem independente no andar inferior, para uma teologia natural e uma filosofia que eram autônomas em relação às escrituras. Isso levou, no pensamento secular, a necessidade de depositar finalmente a esperança toda em um andar superior não racional.[5]

O que sobra depois dessa brilhante afirmação de Schaeffer, é dizer que dar um salto no andar superior, é mergulhar no não racional, na loucura, onde não há fundamentos para verdade, deixando tudo um vácuo só. Agora, imaginemos o que pode vir concernente à ética, metafísica e teleologia? Nessa visão, Edward Veith contribui com mais uma explicação sobre o que veio depois da frustração do racionalismo iluminista:

O romantismo do começo do século dezenove lançou em completa desordem o iluminismo. Em vez de ver a natureza como uma vasta máquina, os românticos a viam como organismo vivo. Em vez de crer com os deístas que Deus está longe e desinteressado, os românticos criam que Deus está perto e intimamente envolvido no mundo físico. Deus é imanente na natureza e em nós mesmos. Alguns chegaram a acreditar que Deus é idêntico com a natureza e o eu, rejeitando o Deus da Bíblia (que é tanto imanente como transcendente) em favor de um novo panteísmo. Onde o iluminismo considerava a razão a faculdade humana de maior importância, o romantismo tinha a emoção como essência de nossa condição humana. Os românticos exaltavam o individual acima dos sistemas impessoais e abstratos. A auto-realização, e não a praticalidade, era a base para a moralidade.[6]

Em suma, os homens sem a verdade buscaram ainda encontrá-la, procuraram dar sentido a existência, vendo Deus como a natureza, confundindo tudo, desaguando em si mesmos emotivamente, sem a razão como instrumento ou a revelação. Um passo mais adiante veio o existencialismo e sua relativização da verdade vinda desse “eu” humano:

Segundo o existencialismo, não há sentido nem finalidade inerente na vida. A ordem automática cega da natureza e as conclusões lógicas do racionalismo podem até mostrar ordem, mas são desumanas. No que diz respeito ao ser humano, as repetições estúpidas das leis naturais não têm sentido. A esfera objetiva é absurda, vazia de qualquer significação humana.

O existencialismo oferece a base lógica para o relativismo contemporâneo. Visto que cada um cria seu próprio significado, todos os significados são igualmente válidos.[7]

A conclusão que chegamos comparando as duas cosmovisões da verdade, é que o pós-modernismo relativiza a verdade a cada pessoa, pois cada pessoa teria sua própria verdade. A razão autônoma não era capaz de ser um instrumento confiável, nem também a revelação, portanto, ninguém poderia chegar à verdade bruta, caímos no desespero e na desesperança criando nosso próprio significado. Quais garantias temos do futuro? Por isso depositamos atualmente nossas esperanças nos artistas, no pessimismo dos filósofos atuais e caímos muitas vezes na depressão, drogas e suicídio. Sob essa ótica, sem os fundamentos, a família seria destruída, como também a ética, a visão criacionista e o sentido da história. A única saída é um retorno às bases, com uma epistemologia fundamentada na revelação, que nos dê subsequentemente uma boa metafísica, ética e teleologia. Voltaríamos a ter uma família saudável, com uma história redentiva pautada na revelação e a possibilidade do conhecimento.





[1] FERREIRA, Franklin; MYATT, Alan. Teologia sistemática. 1.ed. São Paulo: Edições vida nova, 2007. p. 6.
[2] Ibid. p. 9.
[3] BAVINCK, Herman. Dogmática reformada. Vol. 2. São Paulo: Cultura Cristã, 2012. p. 287.  
[4] SCHAEFFER, Francis. A morte da razão. 1 ed. São Paulo: Ultimato, 2014. p. 29.
[5] SCHAEFFER, Francis. A morte da razão. 1 ed. São Paulo: Ultimato, 2014. p. 57.
[6] VEITH, Edward. Tempos pós modernos. 1 ed. São Paulo: Cultura cristã, 1999. p. 18.
[7] Ibid. p. 19. 

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