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19 de jun de 2015

A Bíblia e o Culto a Deus: Do papiro ao aplicativo

Por Thiago Azevedo

Todo e qualquer verdadeiro cristão deve ter o estudo das Sagradas Escrituras no centro de sua vida. Fora assim nos tempos mais longínquos. É possível perceber na Bíblia Sagrada que o interesse de homens pelos textos sacros permeia as mais diversas épocas e os mais diversos materiais em que as verdades bíblicas foram grafadas. Quem quiser mais detalhes, um bom material é o livro do Reverendo Wilson Paroschi “Origem e transmissão do texto do Novo Testamento”. Em Êxodo 20, Moisés recebe os dez mandamentos por parte de Deus e estes foram grafados numa pedra (material rústico). Moisés expôs o que grafou nas pedras ao povo de Israel e manuseava com frequência tal material (Êxodo 24:1-7). O material utilizado na transmissão do texto bíblico evoluiu para o papiro – espécie de planta aquática da qual se extraia o caule para escrita. Acredita-se que é ao papiro que Jeremias faz menção no seu livro no capítulo 36 e verso 2. A tão famosa biblioteca de Alexandria, de meados século III a.C, além de ter como objetivo principal de seus idealizadores possuir uma cópia de cada livro da época, tinha todo seu acervo em papiro. Posteriormente os escritos passaram a ser reproduzidos em outro material, a saber, pergaminho. Este nada mais era que a pele do animal após ser submetida a um intenso processo de tratamento e preparação para escrita. É a este material de escrita que o Apóstolo Paulo se refere em I Timóteo 4:13. Percebe-se que a existência de homens interessados e comprometidos pelo estudo das Escrituras Sagradas sempre foi uma realidade em todas as épocas - independentemente do material em que as verdades bíblicas estivessem grafadas.

Saindo da antiguidade e vindo em direção à modernidade, percebe-se que dentre as áreas mais comuns afetadas pela modernidade e pela tecnologia encontra-se a religião (evangelho) como um todo – se positivamente ou negativamente veremos. Quem quiser ter uma analise mais detalhada sobre o tema leia o livro do Moisés Sardelotto intitulado de “E o verbo se fez Bit”. Na presente obra, o autor além de fazer um trocadilho com texto bíblico de João 1:1 no título do livro, detalha nuances da religião no ambiente virtual e suas mudanças em influência deste. A possibilidade de uma roupagem nova para a religião, roupagem esta digital que possibilita o exercício de uma religiosidade modernizada e virtualizada, desprendida de sua tradicionalidade, pode ou não pode ser salutar?  A vida humana fora inundada pelo tsunami tecnológico da modernidade, a religião é só mais uma área alcançada por esta inundação, as práticas litúrgicas agora são virtuais, mas será que é possível exercer algumas práticas essenciais à fé de forma virtual? Abordaremos aqui a comunhão entre os irmãos.

Uma das propostas mais importantes do evangelho em si é a proposta da comunhão da assembleia (reunião) que deve haver dentre os irmãos. Os textos bíblicos são os mais diversos:

Salmos 139:1 – “Oh! quão bom e quão suave é que os irmãos vivam em união”

Eclesiastes 4:9-12 – “Melhor é serem dois do que um... Porque se caírem, um levanta o companheiro; ai, porém, do que estiver só; pois, caindo, não haverá quem o levante. Também, se dois dormirem juntos, eles se aquentarão; mas um só, como se aquentará? Se alguém quiser prevalecer contra um, os dois lhe resistirão; o cordão de três dobras não se rebenta com facilidade”.

Hebreus 10:25 – “Não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns; antes, façamos admoestações e tanto mais quanto vedes que o Dia se aproxima”.

Gálatas 6:10 – “Por isso, enquanto tivermos oportunidade, façamos o bem a todos, mas principalmente aos da família da fé”

Efézios 2:19 – “Assim, já não sois estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos, e sois da família de Deus”.

I Pedro 4:10 – “Servi uns aos outros, cada um conforme o dom que recebeu, como bons despenseiros da multiforme graça de Deus”.

Atos 2:42-47 “E perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações. E em toda a alma havia temor, e muitas maravilhas e sinais se faziam pelos apóstolos. E todos os que criam estavam juntos, e tinham tudo em comum. E vendiam suas propriedades e bens, e repartiam com todos, segundo cada um havia de mister. E, perseverando unânimes todos os dias no templo, e partindo o pão em casa, comiam juntos com alegria e singeleza de coração, Louvando a Deus, e caindo na graça de todo o povo. E todos os dias acrescentava o Senhor à igreja aqueles que se haviam de salvar”.

Infelizmente esta nova modalidade de adoração moderna-virtual negligencia uma das principais características do evangelho, a saber, a comunhão. A modernidade e a tecnologia não atendem tais exigências. Como sempre digo: Há aquelas áreas que não necessitam de modernidade e muito menos de tecnológica como, por exemplo, casamento, namoro, noivado, adoração a Deus, liturgia cristã etc. Será que é possível comunhão virtual? Acredita-se que não.

Outra polêmica de nossos dias envolvendo a modernidade tecnológica trata-se do texto bíblico disponível em diversos aparelhos eletrônicos por meio de diversos aplicativos. São Smartphones, Tablets, Celulares, Computadores, Leitores digitais, etc., e a utilização destes em ambientes litúrgicos. Interessante é que na primeira parte deste texto o destaque se deu pela invasão do religioso no ambiente virtual-tecnológico. Nesta segunda parte o destaque se dará justamente pelo inverso. Ou seja, o virtual-tecnológico – aparelhos eletrônicos – no ambiente religioso. Como deve ser aceito a inserção destes equipamentos em ambientes litúrgicos? Recentemente o governador de nosso estado (Pernambuco) proibiu, por meio de uma lei, a utilização dos celulares em sala de aula. Em nossa ótica, não é ruim o estudante fazer uso do celular em sala de aula para suas respectivas pesquisas, sobre tudo quando a instituição não possui laboratório de informática. O grande problema é se o aluno está de fato utilizando o aparelho para fins de pesquisas realmente. Como professor, criei grupos no Whatsapp para cada turma que dou aula. Nestes grupos pesquisamos em equipe e até foi possível realizar algumas avaliações. Sempre solicitando que os alunos citassem as fontes pesquisadas além de trazê-los ao ambiente virtual com fins pedagógicos – proporcionando uma vivência de aprendizagem extra sala de aula. O grande risco era que um ou outro se desprendesse do intento da pesquisa em si e desse uma fugidinha nas redes sociais da vida, como de fato ocorreu. Pude verificar que alguns alunos também procuraram os resultados dos jogos do final de semana, bem como outros se aventuraram até em sites impróprios – situação controlada no final. Acredito que não seria ruim também o uso da tecnologia voltada às Escrituras Sagradas dentre os fiéis em cultos e em encontros diversos, uma vez que até os ditos ministros do evangelho já utilizam mais da tecnologia do que propriamente do tradicional livro da capa preta (Bíblia - física). Cada vez mais tem se percebido, em igrejas e em congressos, pregadores com seus Tablets ministrando a palavra de Deus. O grande problema seria acerca de como os fiéis utilizariam estes equipamentos na hora do culto. Já se tem conhecimentos de igrejas que só utilizam estes recursos na sua liturgia veja aqui
O grande questionamento que paira em nossa mente é o seguinte: Será que o imprevisto ocorrido com os alunos, mesmo sendo poucos, se remeteria também aos fiéis adultos na possível utilização destas novas tecnologias em ambiente litúrgico? Será que os fiéis seriam honestos ao ponto de utilizar apenas o aplicativo da bíblia e não viajar nas ondas da web na hora do culto? Acredita-se que não. Com isso teríamos uma possível displicência por parte dos irmãos na hora do culto, a atenção que é peça fundamental para que haja compreensão do texto pregado, seria escassa. O texto bíblico em formato digital é sagrado do mesmo jeito, a leitura é a mesma, a importância é a mesma que possui a Bíblia física em si. O problema como sempre se encontra nas pessoas e não na tecnologia. As pessoas não sabem usá-la com responsabilidade. Outro ponto negativo seria a possível negligência com a leitura da Bíblia em si no ambiente extra culto. O comprometimento com a leitura bíblica poderia ficar limitado ao ambiente litúrgico. A verdade é que em nosso tempo é baixa a cultura literária em meio aos cristãos em geral. Se esta realidade se instaurou com diversas Bíblias físicas disponíveis, avalie o que será se elas se limitarem apenas ao ambiente virtual ou a um mero e simples aplicativo de um aparelho eletrônico? Se a Bíblia mesmo sendo vista e apalpada todos os dias é negligenciada e deixada de lado – por vezes fica aberta em cima de um móvel antigo e num texto específico como se fosse um amuleto da sorte, raramente consultada, etc., avalie com toda esta tecnologia à disposição? Será que o que já é ruim não se tornaria ainda pior? 
Não podemos escurecer a vista para os benefícios advindos por meio da tecnologia. Podemos destacar como positivo a possibilidade de acessar centenas de manuscritos da Bíblia Sagrada espalhados em diversos websites na rede, os diversos materiais virtuais de apoio à pesquisa bíblica: dicionários, chaves linguísticas, comentários, textos no original, concordâncias, inúmeras traduções, livros em PDF, etc., são de fato mais que salutar. Porém o grande problema seria o uso de tais ferramentas em um aparelho onde o acesso à internet fosse possível, e uso deste aparelho no ambiente litúrgico. Como os fiéis só podem usar tais ferramentas virtuais num aparelho eletrônico que muito provavelmente tenha acesso à internet, a grande polêmica reside aqui: como não ter a atenção do culto dividida pela tentação de se conectar na rede? E se esta tentação for cedida, era uma vez atenção ao culto.
A modernidade chegou e a Bíblia fora tragada para dentro desta. A quantidade acachapante de recursos que há a disposição dos estudantes dela no ambiente virtual são inúmeros e podem ser úteis. Mas, nestes equipamentos, a chance de misturar o sagrado com o profano é muito maior. No mesmo aparelho que contém o aplicativo da Bíblia e todos os materiais de pesquisa supracitados, pode também conter conteúdos impróprios à fé. Lembre-se que a facilidade encontrada no acesso a recursos para aprofundamento de pesquisas bíblicas na internet é a mesma encontrada na pesquisa de quaisquer assuntos ou temas. O estudante das Escrituras Sagradas modernizado e que faz uso de tais equipamentos, quer seja em ambientes litúrgicos ou não, deve ter a consciência de sua responsabilidade e seriedade para com o respeito não só a liturgia cristã, mas também ao texto bíblico onde quer que este esteja disponível. 
O grande problema não reside na modernidade-tecnológica em si, mas na utilização desta por meio dos homens. Logo, se alguém não consegue utilizar de tais equipamentos e recursos com responsabilidade, sobretudo no ambiente litúrgico, utilize a Bíblia tradicional e em casa explore o máximo possível todo o aparato tecnológico que a modernidade lhe oferta no estudo da Palavra. Sempre se lembrando de que o texto bíblico sempre foi sagrado e nunca deixará de ser, quer estivesse grafado na pedra, papiro ou pergaminho. Ou ainda, no papel, Smartphone, Tablet ou em um mero leitor digital. Talvez a modernidade-tecnológica traga o pseudo entendimento de que o texto bíblico disponível em aparelhos eletrônicos por meio de aplicativos é só um recurso a mais e pronto. Deve ser utilizado sem parâmetros nem regras – todo problema reside neste entendimento. Espera-se muito que a modernidade-tecnológica e sua utilização por parte das pessoas não banalize a escritura em si e sua importância, tornando ainda pior uma realidade que já não é tão favorável.

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