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10 de dez de 2014

A igreja Institucionalizada: Minha Cachaça!

Por Samuel Alves

Antes de qualquer coisa, julgo necessário explicar o termo “minha cachaça”. Aqui no nordeste quando usamos esta frase, fazemos referência a um vício antigo.  Quando falo que o Facebook é minha cachaça, quero dizer que este é meu vício! Ok? Este texto vem após uma reflexão e muitas conversas com várias pessoas de várias denominações.  Tenho observado que a “igreja institucionalizada” tem causado muitas feridas, e o pior, muitos cristãos se submetem a este sistema e vivem uma vida cristã doente. Desde já tenho em mente que a igreja é constituída de seu caráter espiritual e institucional, Igreja Cristã é acima de tudo um organismo vivo (Corpo de Cristo, Noiva do Cordeiro, Igreja Invisível), e que ao mesmo tempo também se constitui em uma organização (igreja precisa se comunicar e se tornar visível ao mundo), não excluo nenhuma das partes e não sou a favor dos desigrejados!

O que eu quero refletir é sobre o sistema político que muitos se submetem, ferem e são feridos. Sabem de todas as implicações de estar submisso a este sistema que trata as pessoas como uma peça de um xadrez, ou seja, a manipulação humana, que é uma marca deste sistema. O que faz muitas pessoas levarem uma vida para atender a demanda de um terno, de uma máscara, da conveniência, da manipulação, da política sem escrúpulos, dos famigerados cargos eclesiásticos, dos projetos tipo “castelo de areia”. Enfim, muitas são as histórias, as magoas, decepções e frustrações, fruto de uma monopolização institucional em detrimento das demais coisas. E no final das contas, após vários desabafos, de vários irmãos, muitas vezes o aconselhamento é mais doloroso, pois toda queixa é fruto de um jogo político, onde há envolvimento das duas partes: o manipulador e manipulado. E neste ambiente hostil não se pode esperar o caráter terapêutico da igreja, pois o que está em jogo são os interesses institucionais e pessoais, daí a fonte de muitas feridas entre os queridos irmãos. Como resultado dessas conversas listo abaixo alguns tópicos para reflexão.

I. O Reino de Deus é mais abrangente do que a igreja institucionalizada.
Muitos que estão debaixo desse jugo perdem a noção da grandeza do Reino de Deus, toda fonte de sua reflexão gira em torno da instituição, isto fica claro nas reuniões de liderança! Infelizmente muitos cristãos não conseguem servir ao Reino de Deus sem os seus cargos eclesiásticos, sem a placa de sua igreja, sem os almejos futuros (cargos, conveniência política e etc.). Quanta gente alienada que não consegue refletir o caráter do evangelho. Certo dia estava refletindo sobre um texto do Darrel Bock em que ele afirmava. [1]

É a justaposição desses vários elementos que mostra quão eclético e sintético, até criativo, é o ensino de Jesus sobre o Reino. Jesus pregou uma esperança que os judeus podiam reconhecer, mas ele também pregou muito mais. Ele acolheu elementos da esperança apocalíptica judaica, mas não repetiu meramente esses temas. O sentido desses textos, como um todo, é que Jesus atua dentro dessa história e, todavia, a remodelará um dia. Novamente, o ensino nem é esse mundo reorganizado, nem um novo mundo criado, mas ambos em seu tempo certo.

Daí já dá para notar o quanto estamos distantes da perspectiva do reino de Deus e o que Deus espera de nós. Não podemos esquecer das palavras do Dr. Ladd mostrando que o Reino de Deus pertence ao presente, bem como ao futuro. Ele concebe o Reino como o reinado, o governo de Deus nesta era, no coração e na vida daqueles que se entregam a ele e, na próxima era, sobre todo o mundo. Daí o problema da igreja institucionalizada “só pensa dentro das quatro paredes, não refletem o caráter do reino”. Se nós pensássemos a partir de uma perspectiva do Reino de Deus, muitos dos problemas enfrentados na igreja seriam facilmente resolvidos, e pensando nesta ótica, pensando além das quatro paredes, muitas decisões seriam tomadas, pois muitas pessoas ao refletir, abandonariam esse ambiente opressor! Finalizo este ponto com as palavras do velho Ladd. [2]

O Reino de Deus é basicamente o governo de Deus. É o reinado de Deus, a soberania divina em ação. No entanto, o reinado de Deus manifesta-se em vários domínios, e os evangelhos falam de entrar no Reino de Deus tanto hoje como amanhã. O reino de Deus se manifesta tanto no futuro como no presente e, por isso, cria tanto um reino futuro como um reino presente, em que o homem pode vivenciar as bênçãos do reinado dele.

II. A forma de evitar muitas feridas é confiar nos decretos imutáveis e na providência Divina

Infelizmente muitas pessoas entregam seus sonhos e esperanças na mão dos homens e não na mão de Deus, a Bíblia é clara ao enfatizar “Assim diz o Senhor: Maldito o homem que confia no homem, e faz da carne o seu braço, e aparta o seu coração do Senhor!” Jeremias 17:5. Aqui está a parte mais dolorosa do aconselhamento: é quando identificamos que muitas pessoas colocaram seus planos nas mãos dos homens e não descansaram nos decretos eternos e imutáveis de Deus.

Cristo é a nossa rocha, nosso alvo e nossa provisão. Nossa desgraça está em mudar nosso foco e colocar todas as expectativas em um mero homem falho, que age de acordo com o padrão previamente estabelecido pela instituição. E aqui está o calcanhar de Aquiles de muitos seminaristas cheio de sonhos e expectativas futuras, muitos estão doentes nos bancos das igrejas e outros se dobraram a este sistema institucionalizado. É bom entendermos que Deus continua trabalhando no mundo. A isto chamamos de Providência. Uma boa definição de Providência pode ser: O permanente exercício da energia divina, pelo qual o Criador preserva todas as Suas criaturas, opera em tudo que se passa no mundo e dirige todas as coisas para o seu determinado fim. É preciso lembrar que Davi antes de ser escolhido por Deus para ser Rei não estava envolvido em tramoias políticas ou bajulando alguém, ele estava cuidando dos animais de seu pai quando o profeta Samuel foi ungi-lo Rei de Israel. Alguém já falou: a tempo para tudo debaixo do sol...

III. Tenha o compromisso com a verdade

O caminho da política sem escrúpulos é o mais fácil na igreja institucionalizada, muitos cortam caminho, se vendem, se humilham, traem seus maiores amigos, são pragmáticos e se submetem ao sistema. Agora tem um caminho teoricamente mais longo (falo isso na ótica humana), o caminho de ser verdadeiro sem autopromoção, falsa-piedade, longe dos elogios convenientes e dos sacrifícios em busca da promoção. É bom entender que a igreja que é apenas institucionalizada não quer um pastor bíblico, ela quer um “empresário pragmático para questões espirituais!”, esta instituição preza pelo resultado onde o homem é apenas uma peça que pode ser trocada, este mundo é um mundo de engano, muitos entram e se dobram diante deste sistema mentiroso, triunfalista e arrogante.

Neste tempo de dificuldade muitos líderes eclesiásticos estão compromissados com a política suja e mentirosa, porém, aquele que é chamado por Deus deve atender às exigências de 2 Timóteo 3:15 Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade.

Portanto, triste é constatarmos que a igreja institucionalizada é como uma cachaça, muitos estão viciados e embriagados, estão sob o seu efeito inebriante, não refletem a missão e o Reino de Deus, não conseguem visualizar os campos brancos, pois estão com as lentes institucionais. Triste constatação é ver que muitos estão a serviço da instituição e não de Deus. Ao longo da história vejo um grande homem que Deus usou, o seu nome foi João Calvino, que sem nem ser ordenado ou se preocupar com isso, influenciou a sociedade, escreveu e muito, marcou a história! E nós? Muitos só conseguem servir com um cargo ou a chancela institucional, que Deus tenha misericórdia de Nós.

Soli Deo Gloria.




[1] BOCK, Darrell, Jesus segundo as escrituras, Shedd, 2006, p.544
[2] LADD, George Eldon, O evangelho do Reino: Estudos Bíblico sobre o Reino de Deus. Shedd, 2006, p. 11-12

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