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26 de abr de 2015

Cristo e Eu (3/3)

Por Charles Spurgeon
Por último, o texto descreve A VIDA RESULTANTE DESTA PERSONALIDADE AMALGAMADA.
Se tiverem paciência comigo, serei tão breve quanto puder enquanto reviso o texto de novo, palavra por palavra. Irmãos, quando um homem descobre e se reconhece ligado a Cristo, sua vida é completamente uma nova vida. Eu deduzo isso da expressão: “com Cristo estou juntamente crucificado, e já não vivo eu, é Cristo que vive em mim”. Crucificado, então morto; crucificado, então a velha vida é eliminada; qualquer vida que um crucificado tem deve ser uma nova vida. O mesmo acontece com você. Crente, sobre sua velha vida foi pronunciada a sentença de morte. A mente carnal, que é inimizade contra Deus, está condenada à morte. Você pode dizer: “morro diariamente”. Oxalá que a velha natureza estivesse completamente morta. Mas a vida que você tem não lhe foi dada senão até que entrasse em união com Cristo. É algo novo, tão novo como se houvesse morto realmente e houvesse apodrecido na tumba e logo tivesse levantado ao soar da trombeta para viver de novo. Você recebeu uma vida do alto, uma vida que o Espírito Santo operou em você na regeneração. O que é nascido da carne, carne é, mas sua vida de graça não provém de você mesmo; você nasceu de novo do alto. 
Sua vida é extremamente estranha: “Fui crucificado, no entanto, vivo”. Que contradição! A vida do cristão é um enigma sem par. Nenhum mundano pode compreendê-la; inclusive o próprio crente não pode entendê-la. Ele a conhece, mas sente que resolver todos os seus enigmas é uma tarefa impossível. Morto, mas vivo; crucificado com Cristo, e não obstante, ao mesmo tempo ressuscitado com Cristo em uma vida nova! Não espere que o mundo o entenda, cristão, pois não entendeu o seu Senhor. Quando suas ações são tergiversadas e seus motivos ridicularizados, não se surpreenda. “Se fosses deste mundo, o mundo amaria o que é seu; mas porque não é deste mundo, antes eu os escolhi do mundo, por isso o mundo os aborrece”. Se pertencesse à aldeia, os cachorros não latiriam para você. Se os homens pudessem ler você, não se surpreenderiam; é devido a você estar escrito numa língua celestial que os homens não lhe podem compreender e pensam que você não vale nada. Sua vida é nova; sua vida é diferente.
Esta vida maravilhosa, resultante na mescla da personalidade do Filho de Deus e do crente, é uma vida verdadeira. Isto é expresso no texto, “No entanto, vivo”, sim, vivo como nunca antes vivi. Quando o apóstolo se declara morto para o mundo, não queria que imaginássemos que estava morto no sentido mais elevado ou melhor; não, vivia com uma nova força e vigor vitais. Irmãos, quando abri os olhos ao conhecimento de Cristo, parecia-me que eu era como uma crisálida recém saída do casulo, eu então comecei realmente a viver. Quando uma alma se sobressalta com os trovões da convicção e depois recebe o perdão em Cristo, começa a viver. O mundano diz que quer ver a vida, e portanto, se afunda no pecado! Néscio como é, junta-se ao sepulcro para descobrir a imortalidade. O homem que vive verdadeiramente é o crente. Hei de me tornar menos ativo por ser cristão? Nunca tal coisa aconteça! Serei menos diligente e encontrarei menos oportunidades para manifestações de minhas energias naturais e espirituais. Nunca tal coisa suceda! Se alguma vez um varão deve ser como uma espada demasiado afiada para a bainha com um fio que não pode ser embotado, deveria ser o cristão; ele deveria ser como chamas de fogo que queimam a seu passo. Vivam enquanto viverem. Não há que desperdiçar nem gastar mal o tempo. Vivam de tal maneira que demonstrem que vocês possuem a mais nobre forma de vida.
É claro também, que a nova vida que Cristo nos traz é uma vida de abnegação, pois agrega “e vivo, já não eu”. A humildade mental é parte e porção da piedade. Aquele que pode receber o reconhecimento para si mesmo não conhece o espírito de nossa santa fé. Quando o crente ora melhor, diz: “Sem dúvida, não eu, mas o Espírito de Deus intercedeu em mim”. Se ganhou almas para Cristo, diz: “Não eu; foi o Evangelho; o Senhor Jesus operou poderosamente em mim”. “Não a nós, SENHOR Jeová, não a nós, mas a seu nome a glória”. A humilhação de si mesmo é o espírito inato do filho de Deus verdadeiramente nascido de novo.
Ademais, a vida que Cristo gera em nós é uma vida de uma ideia. Está alma do crente governada por duas coisas? Não, não conhece senão uma. Cristo vive em mim. Há dois residentes na alcova de minha alma? Não, a um Deus e Senhor sirvo. “Cristo vive em mim”. Um antigo teólogo desejava poder comer, beber e dormir vida eterna. Viva você assim! Ai! Eu lamento viver demasiado na velha vida, e que Jesus vive muito pouco em mim; mas se o cristão há de alcançar alguma vez a perfeição – e que Deus nos conceda que cada um de nós possa chegar tão perto como for possível disso ainda agora – descobrirá que o antigo: “eu vivo”, é reprimido, e a nova vida à semelhança de Cristo reina suprema. Cristo tem que ser o único pensamento, a única ideia, o único pensamento condutor na alma do crente. Quando se desperta na manhã, o crente saudável se pergunta: “Que posso fazer por Cristo?” Quando está realizando seu trabalho se pergunta: “Como servirei ao meu Senhor em todas as minhas ações?” Quando ganha dinheiro, se pergunta: “Como posso usar meus talentos em favor de Cristo?” Se adquire educação, a pergunta é: “Como posso inverter meu conhecimento em favor de Cristo?”.
Resumindo, o muito no pouco, o filho de Deus tem em seu interior a vida de Cristo; mas como descreverei isso? A vida de Cristo na terra foi o divino fundido com o humano; assim é a vida do cristão; há algo divino nela; é uma semente viva e incorruptível, que permanece para sempre. Somos feitos partícipes da natureza divina, havendo escapado da corrupção que está no mundo graças à lascívia; sem dúvida, nossa vida é uma vida plenamente humana. O cristão é um homem entre os homens; em tudo o que exige valentia ele se esforça para se sobressair, no entanto, não é como os outros homens, pois tem uma natureza oculta que nenhum simples mundano entende. Visualizem a vida de Cristo na terra, amados, e isso é o que a vida de Deus em nós deveria ser, e o será na medida em que estejamos sujeitos ao poder do Espírito Santo.
Notem ainda, apegando-nos ao texto, que a vida que Deus opera em nós é ainda a vida de um ser humano. “O que agora vivo na carne”, diz o apóstolo. Estes monges e monjas que fogem do mundo por medo de que suas tentações os vençam, deveriam vencê-las, e os que ficam reclusos para buscar uma maior santidade são tão excelentes soldados como aqueles que se retiram para o acampamento por medo de serem derrotados. Que serviço podem prestar esses soldados na batalha ou essas pessoas na guerra da vida? Cristo não veio para que nos fizéssemos monges; Ele veio para que nos fizéssemos homens; Ele se propôs para que aprendêssemos como viver na carne. Não devemos renunciar ao trabalho nem à sociedade, nem renunciar à vida em nenhum reto sentido. “O que agora vivo na carne”, diz o apóstolo. Olhem para ele ocupado fazendo tendas. Como! Um apóstolo fazendo tendas? O que diriam vocês, irmãos, se o Arcebispo de Canterbury costurasse para ganhar seu sustento? É um ofício muito humilde para um bispo do Estado, certamente, mas não demasiadamente humilde para Paulo. Não creio que o Apóstolo tenha sido jamais mais apostólico que quando recolhia ramas secas. Quando Paulo e seus acompanhantes naufragaram em Melita, o apóstolo era de maior serviço que todo o sínodo pan-anglicano com suas batinas de seda, pois ele se pôs a trabalhar como as outras pessoas para recolher combustível para o fogo, pois queria se esquentar como os demais, e então assumiu sua parte da tarefa. Da mesma maneira, vocês e eu deveríamos tomar nosso turno na roda. Não devemos pensar em nos manter afastados de nossos semelhantes como se nos degradássemos ao nos misturar com eles. O sal da terra deve ser bem misturado aos alimentos, e de igual maneira o cristão deve se misturar aos seus semelhantes, buscando seu bem para a edificação. Somos homens e fazemos tudo o que os homens podem fazer legitimamente; onde quer que eles forem, nós podemos ir. Nossa religião não nos faz nem mais nem menos humanos, ainda que nos coloque na família de Deus. Contudo, a vida cristã é uma vida de fé. “O que agora vivo na carne, vivo na fé do Filho de Deus”. A fé não é uma peça de decoração que deve ser colocada sobre as mesinhas da sala, ou um vestido que deve ser usado nos domingos; é um princípio de trabalho, que deve ser usado no estábulo e no campo, na oficina e na casa de cambio; é uma graça para a ama da casa e o servo; e para a Câmara dos Comuns e para a oficina mais pobre. “O que agora vivo na carne, vivo na fé”. Eu gostaria que o sapateiro crente remendasse sapatos religiosamente, e que o alfaiate confeccionasse trajes por fé, e eu gostaria que todo cristão vendesse e comprasse por fé. Qualquer ofício que for, a fé deve ser incorporada em seus chamados cotidianos, e essa é unicamente a fé viva e verdadeira que passará na prova prática. Não devem se deter na porta da oficina, tirar seu casaco e dizer: “Até logo ao Cristianismo, até que feche o negócio de novo”. Isso é hipocrisia; mas a vida genuína de um cristão é a vida que vivemos na carne pela fé no filho de Deus.
Para concluir: a vida que provém da personalidade enraizada de Cristo e o crente é uma vida de perfeito amor. “Ele se entregou por mim”. Portanto, minha pergunta é: o que posso fazer por Ele? A nova vida é uma vida de santa segurança, pois, se Cristo me amou, quem poderia me destruir? É uma vida de santa riqueza, pois, se Cristo entregou Sua infinita pessoa por mim, de que posso precisar? É uma vida de santo gozo, pois, se Cristo é meu, tenho um poço de santo gozo dentro de minha alma. É a vida do céu, pois, se tenho a Cristo, tenho o que é a essência e a alma do céu.
Referi-me a mistérios dos quais alguns de vocês não entenderam sequer uma frase. Que Deus lhes dê entendimento para que possam conhecer a verdade. Mas se não a entenderam, deixem que este fato os convença: vocês não sabem a verdade porque não têm o Espírito de Deus, pois só a mente espiritual entende as coisas espirituais. Quando falamos da vida interior, parecemos, aos que não nos entendem, como os que dormem e sonham. Mas se me entendeu, crente, vá para casa e viva da verdade, pratique o que for praticável, alimente-se do que está cheio de sabor, regozije-se em Cristo Jesus, porque você é um com Ele, e então, em sua própria pessoa, ande e sirva ao seu Senhor com todo o esforço que lhe for possível e que o Senhor lhe envie Sua abundante bênção. Amém e amém.
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