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14 de abr de 2015

As implicações de uma má compreensão da verdadeira Maria

Por Luiz Carlos Pereira

Poucas vezes se houve falar em Maria nas igrejas evangélicas. Geralmente, fazemos uma rápida leitura nos capítulos que tratam do nascimento de Cristo e, por consequência, lemos sobre a agraciada. Lembramos de Maria também nas encenações de natal; na cena do presépio; contemplando a cruz do calvário. Deixamos de lado a importância que esta jovem nazarena teve para  o mundo sobre a prerrogativa de uma adoração involuntária. Afinal de contas, será que o tratamento que damos a Maria é o devido? Será que a idolatria, tão temida em nossas igrejas e em nosso povo, não nasce da própria corrupção do homem?

Maria era pobre e estava prometida em casamento à José já na adolescência. Estudiosos acreditam que, já na visita do anjo Gabriel para a anunciação da escolha de Deus por Maria, a jovem tinha entre 13 a 16 anos de idade. Naquela época, de acordo com as leis da região, mesmo sem o vínculo sexual (restrito apenas ao casamento), o casal que estivesse noivo era considerado marido e mulher. Não existia a etapa do namoro, e o tão decadente “ficar” dos nossos tempos. A mulher tinha pouco poder de decisão e, corriqueiramente, os casamentos eram acertados entre os pais (pai) e o pretendente. Maria amava José e queria avançar na relação. Eles já estavam em preparação ao casamento. Unir-se naquela época significava muito mais do que morar juntos. Significava estar para sempre com o companheiro(a) e, politicamente, aceitar e viver as regras de um casamento judaico.

Apesar de uma vida já encaminhada para um bom futuro, uma turbulência inimaginável estava prestes a acontecer.

No sexto mês Deus enviou o anjo Gabriel a Nazaré, cidade da Galiléia.” Lucas 1:26 (NVI)

Por motivos maciçamente desconhecidos, Deus havia escolhido a virgem jovem para ser a mãe do Salvador. Naquele momento, Maria perturbou-se. Ela sabia das implicações que este ato provocaria, caso obedecesse ao chamado. Em função disto, antes mesmo de dizer sim ou não, Maria questionou:

Como acontecerá isso, se sou virgem?” (v.34)

O questionamento de Maria não era interesseiro, autoritário ou cético. Não! A dúvida foi para melhor viabilizar o chamado. Maria já naquele momento entendia o recado que o próprio Deus estava emitindo e, de prontidão, aceitou. Podemos ver isto claramente na surpreendente resposta da jovem:

"Sou serva do Senhor; que aconteça comigo conforme a tua palavra". Lucas 1:38 (NVI)

Podemos enxergar essa reposta, à primeira vista, como uma confiança extrema na visão de um anjo – o que de fato não deixava de ser. Porém, Maria era religiosa, conhecia bem a Torá e era uma verdadeira serva do Senhor. Foi o conhecimento das escrituras que serviu como juiz na decisão da jovem. Vejamos o que diz Isaías 7:14:

Por isso o Senhor mesmo lhes dará um sinal: a virgem ficará grávida e dará à luz um filho, e o chamará Emanuel”.

Maria sabia que o seu verdadeiro chamado estava sendo cumprido por Deus, como predisse o profeta Isaías, em 740 a.C, em Jerusalém. As implicações daquele anúncio logo poderiam ser sentidas. De acordo com o livro sagrado, a mulher que fosse achada em adultério (juntamente com o adúltero) deveria ser apedrejada até a morte, caso esta não gritasse por socorro. Mas, por que Maria poderia ser considerada adúltera? Resposta: Porque ninguém, a princípio, acreditaria numa história dessas.

Podemos ver durante a trajetória de Jesus na terra, diversas passagens de duras críticas aos religiosos da época. Para eles, importava a capa da religiosidade e o reconhecimento indevido (ver Mateus 23). Na sociedade judaica, pouco importava a fé de verdade para estes fariseus e mestres da lei (alguns). O que importava de fato era a exibição, o autoritarismo e o prestígio de ser chamado de rabi.

Maria assumia um risco real e de morte caso José não aceitasse sua condição e a denunciasse. Graças ao propósito de Deus não foi isso que aconteceu. Por mais que José tenha ficado entristecido, com a mente confusa, mais uma vez Deus providenciou as condições de resolução para a situação. José, tendo sido visitado em sonho por um anjo, entendeu verdadeiramente os desígnios de Deus, e acolheu, em amor, Maria.

Perseguição política

Existiam dois grandes homens na época do nascimento de Jesus: Herodes, o rei de Belém da Judeia, onde Cristo nascera; e César Augusto, imperador de Roma, onde José e Maria estavam se descolando a fim de cumprir o alistamento da lei do recenseamento.

Ao chegar em Belém, o tempo de gestação foi finalizado e então nasceu Jesus. Em decorrência deste grande acontecimento, um anjo do Senhor foi informar o nascimento do menino aos pastores da cidade, que ficaram surpresos com a notícia. Maria declarava com grande felicidade que Jesus era o Rei dos judeus.

Este anúncio feito por Maria sinalizava perigo à Herodes que, por sua vez, perturbou-se com a notícia. Sabendo disto, Herodes instruiu magos para que seguissem até Jesus e coletassem informações do Cristo. Maria estava assinando, mais uma vez, o risco de morte para si, e para sua família (Mateus 2: 1-11).

Depois da entrega dos presentes ao menino Cristo, os magos receberam em sonho uma advertência divina para não voltarem a Herodes com as informações do paradeiro de Jesus. Então, novamente um anjo apareceu à José, desta vez para dar uma ordem de fuga para o Egito, onde eles deveriam aguardar até a morte de Herodes. Era a providência de Deus para a família.

Uma espada atravessará sua alma

Como constava na Lei de Moisés, todo primogênito do sexo masculino deveria ser consagrado ao Senhor. Obedecendo a esta regra, Maria e José, logo após o período de purificação, foram ao templo de Jerusalém apresentar Jesus. Lá encontraram o sacerdote Simeão, um homem que segundo a Bíblia era justo e piedoso, e esperava pela consolação de Israel (Lucas 2:25). A consolação de Israel era justamente o Cristo! Simeão aguardava a promessa feita pelo próprio Deus, retardando a sua morte até o seu cumprimento.

“Simeão foi instruído de modo sobrenatural de que essa criança era o Messias prometido. Tomando Jesus nos braços, ele proferiu o memorável cântico agora conhecido como Nunc Dimittis (Agora, despedes em paz)”. MACDONALD, William. Comentário bíblico popular – Antigo e Novo testamento – São Paulo: Mundo Cristão, 2011.

Mas este sacerdote que aguardava ansiosamente e pacientemente a vinda de Jesus trazia muito mais consigo: foi ele quem predisse à Maria os objetivos de Jesus Cristo na terra.*

“E Simeão os abençoou e disse a Maria, mãe de Jesus: "Este menino está destinado a causar a queda e o soerguimento de muitos em Israel, e a ser um sinal de contradição, de modo que o pensamento de muitos corações será revelado. Quanto a você, uma espada atravessará a sua alma". Lucas 2: 34,35 (NVI)

Analisando aqui a parte destinada à Maria, temos: “Uma espada atravessará a sua alma”. O que isso queria dizer? De acordo com William MacDonald, autor do comentário bíblico popular, o texto diz que:

“Simeão estava profetizando a aflição que inundaria o coração de Maria ao testemunhar a crucificação do seu filho”

Profecia essa que se cumpriu. Basta lermos João 19:25, que diz:

“Perto da cruz de Jesus estavam sua mãe, a irmã dela, Maria, mulher de Clopas, e Maria Madalena”.

Maria então tinha que lidar com o fato de seu filho seria morto décadas depois. Uma mãe, em pleno gozo da felicidade de gerar de forma sobrenatural o salvador do mundo, é temporariamente ofuscada por um destino cruel e, em mesma proporção, necessária ao mundo.

Filho de quem?

Na celebração da páscoa, Maria, José e Jesus foram até Jerusalém para festejar. Nesta época Jesus estava com 12 anos de idade. Após as comemorações, os pais de Cristo regressaram à Galileia, mas notaram que Jesus não estava com eles. Extremamente preocupados com o que poderia ter acontecido, Maria e José encontram Jesus no templo, sentado entre os mestres, ouvindo e respondendo perguntas.

Como qualquer mãe normalmente faria, Maria repreendeu Jesus em função da aflição que sentia de, durante três dias, tê-lo perdido. A resposta de Jesus foi:

"Por que vocês estavam me procurando? Não sabiam que eu devia estar na casa de meu Pai? " Lucas 2:49 (NVI)

Mais uma vez Maria se via diante da verdade: Jesus veio ao mundo com um propósito específico. O que transparece nas escrituras é que, de algum modo, isso confortava a dor da jovem que, mais do que mãe, era a seguidora do próprio filho.

Para um maior entendimento da reflexão que tais palavras causaram em Maria, podemos ler a continuidade do texto, que diz:

Sua mãe, porém, guardava todas essas coisas em seu coração. Lucas 2:51b

Conclusão

É claro que a história de Maria não termina aqui. Outros fatores devem ser analisados, estudados e entendidos biblicamente. Para a proposta deste texto, nos interessa apenas reter três aspectos da mãe de Jesus. São eles:

1.      Obediência
2.      Coragem
3.      Dor

Maria, como a mãe do salvador, sentia amor pelo seu filho. Desde o início a agraciada foi escolhida por Deus para cumprir a promessa de que o Salvador viria ao mundo trazer salvação. Isto acarretou em uma mudança radical na vida de Maria, tanto emocionalmente, quanto no sentido moral da história (de acordo com as leis judaicas, Maria deveria ser apedrejada, caso José a denunciasse).

Podemos ver durante todo o tempo na história de Maria, a providência de Deus para a execução de seus propósitos. Ela precisou ter ousadia e coragem para anunciar o nascimento do verdadeiro Rei dos judeus (por mais que Cristo não tenha sido aceito desta forma), e de viver as dores de uma mãe, que se preocupa, cuida e acalenta seu filho.

Diante de tudo o que foi exposto, qual Maria temos renegado? Repudiar a mãe do Salvador é tão grotesco como adorá-la e prestar-lhe culto. Que possamos reconhecer efetivamente o valor indispensável da mãe de Jesus, atribuindo-lhe corretamente o seu valor.

Termino o texto com uma reflexão do teólogo John Gwili Jenkins, falecido na década de 30, que diz:

Perdoe-nos gentil senhora, se aprendemos
a lhe dar menos repeito do que o céu desejaria;
Pois nos apaixonamos pelo Filho do seu amor maior,
Para que não venerássemos a ti mais do que a Ele.

- de "Gales e a Virgem Maria"
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* É evidente que outros profetas, principalmente no Velho Testamento, predisseram os propósitos de Cristo para a terra. A ênfase que dei sobre Simeão foi para despertar o interesse do leitor na também presciência (dada por Deus) dos objetivos do Salvador.

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