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15 de abr de 2015

A Crise na Pregação Contemporânea

Por Alan Rennê Alexandrino

Permitam-me apresentar algumas situações bastante complicadas, que giram em torno de como a pregação, a exposição das Escrituras tem sido vista nos dias de hoje. É bem verdade que atravessamos um incipiente e embrionário florescimento da exposição bíblica, mas a história recente mostra que uma crise quanto à pregação se instalou em nossos púlpitos e ainda resiste.

Em 20 de março de 1980, foram distribuídos alguns panfletos, que na verdade, eram convites de uma igreja recém-plantada na localidade de Saddleback, ao sul do distrito de Orange, no sul da Califórnia. Dentre as várias orações escritas no convite, gostaria de destacar as seguintes: “Está nascendo uma nova igreja, planejada para aqueles que desistiram dos cultos tradicionais. Vamos encarar a verdade: muitas pessoas hoje não têm mais participação ativa na igreja”.[1] De acordo com o panfleto, uma das razões para este estado de coisas é que, “quase sempre... os sermões são chatos e não se aplicam à nossa vida diária”.[2] Interessantemente, a igreja em questão se apresenta como “uma nova igreja, planejada para preencher as necessidades de nossa época”.[3] Além disso, no momento de apresentar os atrativos da nova igreja, o panfleto elenca os seguintes: “Na Igreja Saddleback você... fará novos amigos e conhecerá seus vizinhos/ouvirá música alegre e contemporânea/ouvirá mensagens positivas e práticas que o deixarão encorajado durante a semana/pode entregar sem medo seus filhos aos cuidados de nosso berçário”.[4]

O que pode ser percebido com muita sensibilidade nas linhas do panfleto da igreja em questão, é que não há nenhuma preocupação em relação àquele que é o meio ordinário e escolhido pelo Senhor da Igreja, para a atuação do Espírito Santo na operação do novo nascimento, da mudança de um coração de pedra em um coração de carne, que é a pregação das Sagradas Escrituras. O panfleto deixa claro e evidente que a igreja plantada segue a filosofia mercadológica, e quando menciona aquilo que seria a pregação, o faz no sentido de uma mensagem positiva – o que frequentemente é sinônimo de autoajuda e psicologização do púlpito –, e a associa com elementos – não no sentido de elementos cúlticos – inteiramente antropocêntricos.

Para se fazer justiça ao pastor da igreja de Saddleback Valley, ele afirma alhures:

Quando estou falando aos cristãos, gosto de pregar sermões expositivos. Na verdade, em certo momento do crescimento da Saddleback, levei dois anos e meio numa exposição versículo por versículo da carta aos Romanos aos nossos membros. Esse tipo de mensagem edifica o corpo de Cristo [...] Funciona muito bem quando você fala aos cristãos, que aceitam a autoridade da Palavra de Deus e estão motivados a aprender as Escrituras.[5]

Não obstante, quando se trata de pregar aos “sem-igreja”, a exposição das Escrituras é deixada de lado: “O ponto de referência comum que temos com os não-cristãos não é a Bíblia, e sim as nossas necessidades, sofrimentos e interesses como seres humanos. Você não pode começar a se comunicar com eles por meio de um texto bíblico, esperando que fiquem fascinados por ele”.[6] A pergunta é: Por que não? Trata-se de um raciocínio nunca encontrado em Paulo nem em nenhum dos outros apóstolos. As Escrituras sempre foram o ponto de partida e o fundamento epistemológico da sua pregação. Mesmo diante de um público pagão, quando estava no Areópago, o apóstolo Paulo usou categorias bíblicas em seu discurso (Atos 17.24-26), e somente depois fez alusão ao escrito de um poeta grego. É certo que o ponto de referência dos apóstolos sempre foi a Escritura, independentemente de estarem diante de cristãos, de judeus ou de pagãos.

Mais recentemente, um movimento conhecido como Igreja Emergente tem granjeado a atenção dos estudiosos. Trata-se de um movimento fortemente influenciado pela filosofia pós-moderna, que protesta contra tudo o que seja, de acordo com eles, moderno e que pretenda trabalhar em categorias objetivas. No que diz respeito à pregação, a igreja emergente propõe não somente uma remodelagem no estilo de culto das igrejas, mas, acima de tudo, uma nova linguagem, um novo jeito de se comunicar, a fim de alcançar a geração pós-moderna. A epistemologia emergente “é essencialmente voltada para a experiência”.[7] Por exemplo, Dan Kimball, um dos principais proponentes do movimento emergente afirma que, visto que o culto é definido em termos de “louvor pós-seeker-sensitive”, o que significa, que “pode haver um culto inteiro de comunhão, sem pregação”.[8]

Neste sentido, de acordo com eles, a pregação moderna é essencialmente diferente da pregação pós-moderna:

Na primeira, o sermão é o ponto central do culto, e o pastor funciona como um despenseiro de verdades bíblicas para ajudar a solucionar os problemas das pessoas na vida moderna. Os sermões enfatizam a explicação – i.e., a explicação sobre o que é a verdade. O ponto de partida é a cosmovisão judaico-cristã, e termos bíblicos como “evangelho” e “Armagedom” dispensam definição. O texto bíblico é comunicado primordialmente por meio de palavras, e a pregação é feita dentro do prédio da igreja, durante o culto.

Já na igreja emergente, segundo o próprio Kimball, o sermão é apenas uma parte da experiência das pessoas que se reúnem para o culto. Aqui o pregador ensina como a sabedoria antiga se aplica a uma vida segundo o reino de Deus; o pregador enfatiza e explica a experiência de quem é a verdade [...] Termos bíblicos como “evangelho” e “Armagedom” precisam ser “desconstruídos e redefinidos”. A mensagem bíblica é comunicada por um misto de palavras, artes visuais, silêncio, testemunhos, e história.[9]

Em nossas igrejas locais, ao menos aquelas teoricamente de confissão reformada, também existe um problema relacionado à pregação, mais especificamente relacionado à interpretação e aplicação do texto bíblico. Trata-se da aplicação de uma hermenêutica duvidosa, manifestada através de algumas vertentes interpretativas. Nós, reformados esposamos o método hermenêutico histórico-gramatical, que postula que a análise do texto bíblico “deve prestar atenção tanto na linguagem em que o texto original foi escrito quanto ao contexto cultural específico que deu origem ao texto”.[10] Aliado a isso, entendemos também que o sentido de uma passagem é o sentido literal, natural, óbvio e de acordo com a intenção do autor. Este era o método hermenêutico dos primeiros Reformadores e dos Pais Puritanos. John Owen, por exemplo, afirmou que “não existe nenhum sentido numa passagem além daquele que está contido nas palavras”.[11] Consequentemente, para que haja uma interpretação correta de uma passagem é necessário compreender, dentre outras coisas, a intenção do autor. Tal princípio é verdadeiro e axiomático na interpretação de todo e qualquer texto.

Infelizmente, muitos “intérpretes” contemporâneos parecem não compreender isso, acabando por adotar métodos altamente questionáveis na decodificação e interpretação de certas passagens das Sagradas Escrituras. Alguns são sequazes do método interpretativo medieval, que asseverava a existência de vários sentidos ocultos no texto bíblico. Outros adotam o método histórico-crítico, questionando a autenticidade e a inspiração da Bíblia. Outros, ainda, aderem aos princípios interpretativos propostos pelo filósofo alemão Hans-Georg Gadamer (1900-2002), que escreveu a obra mais representativa da hermenêutica pós-moderna do século XX, Verdade e Método (1960). A tese central de Gadamer era que “a verdade não pode residir na tentativa do leitor de voltar ao sentido do autor, pois esse ideal não pode ser realizado tendo em vista que cada intérprete tem um conhecimento novo e diferente do texto no próprio momento histórico do leitor”.[12] Para Gadamer, o significado de um texto sempre vai além de seu autor, visto que ele possui vida própria. O Dr. Augustus Nicodemus afirma que, “como consequência, o sentido de um texto não é para ser encontrado na metodologia diacrônica em busca do sentido original e histórico, mas através do diálogo com o texto no presente”.[13]

O resultado dessa salada interpretativa é uma quantidade enorme de pregações tópicas, que buscam justificativas no texto bíblico de ideias pré-concebidas, pregações de cunho estritamente moralista, alegorização de passagens, psicologização do púlpito, mensagens positivistas e de autoajuda. Tal estado de coisas nos conduz ao arrazoado de James I. Packer a respeito da grande necessidade da pregação expositiva em nossos dias. Porém, antes de observarmos o porquê da pregação expositiva, é imprescindível que compreendamos o que vem a ser pregação expositiva, visto que há também aqueles que afirmam que é possível pregar um sermão tópico e, ainda assim, ser expositivo. Quando usamos a expressão “pregação expositiva” qual a carga semântica imposta sobre ela?


[1] Rick Warren. Uma Igreja com Propósitos. 2.ed. São Paulo: Vida, 2008. p. 172.
[2] Ibid.
[3] Ibid.
[4] Ibid.
[5] Ibid. p. 262.
[6] Ibid. pp. 262-263.
[7] Mauro Meister. “Igreja Emergente, a Igreja do Pós-Modernismo? Uma Avaliação Provisória”. In: Fides Reformata. Vol. XI. Nº 1 (2006). p. 101.
[8] D. A. Carson. Igreja Emergente: o movimento e suas implicações. São Paulo: Vida Nova, 2010. p. 43.
[9] Ibid. pp. 43-44.
[10] Walter C. Kaiser, Jr. e Moisés Silva. Introdução à Hermenêutica Bíblica. São Paulo: Cultura Cristã, 2002. p. 17.
[11] Apud in Augustus Nicodemus Lopes. A Bíblia e seus Intérpretes. São Paulo: Cultura Cristã, 2004. p. 176.
[12] Walter C. Kaiser, Jr. e Moisés Silva. Introdução à Hermenêutica Bíblica. p. 26.
[13] Augustus Nicodemus Lopes. A Bíblia e seus Intérpretes. p. 218.

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