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21 de nov de 2014

Inteligência Cristã

Por Igor Miguel

Inteligência ou Inteligências?

Se você está querendo tornar-se um cristão verdadeiro, advirto-lhe que está embarcando em algo que vai exigir todo o seu ser, o seu cérebro e tudo o mais. (C.S. Lewis)

A palavra inteligência vem da combinação de duas palavras latinas "inter" e "lego", cuja tradução literal seria "escolher dentre".  Inteligência tem haver com "discernimento", "escolha" ou "seleção".  Uma possível definição para inteligência, ao menos a partir da origem da palavra, seria: a capacidade de considerar determinados fenômenos relevantes e outras irrelevantes a partir de critérios específicos.  Interessante esta possibilidade, pois em geral, entende-se inteligência como sendo uma "habilidade mental ou intelectual puramente lógica", uma compreensão típica de uma sociedade que trata a razão quase como divindade, apesar de alegarem ser ela ideológica e religiosamente neutra.

Se inteligência for, como dito, "a capacidade de selecionar, eleger ou escolher coisas ou fenômenos", logo, este discernimento dependeria de um sistema de crenças ou uma cosmovisão, onde se organizam os critérios que acolhem o que é considerado relevante, enquanto excluem aquilo que é considerado irrelevante.   Porém, uma observação importante deve ser apresentada: cada indivíduo ou grupo de indivíduos possuem sistemas de crenças (cosmovisões) diferentes, desta forma, cada um deles adota critérios diferentes para eleger o que consideram relevante ou irrelevante em sua relação com o mundo e as pessoas a seu redor.  Se há diferentes cosmovisões, e diferentes critérios de seleção ou escolha, logo, há diferentes inteligências, ou discernimentos.

Educação cristã: alunos inteligentes?

Em diálogos com educadores cristãos, o que se percebe é que todos querem formar alunos inteligentes, sem deixar nada a desejar em relação às melhores escolas não-cristãs, mas a questão é: que tipo de inteligência a escola cristã quer promover?  Não basta que jovens cristãos sejam estimulados a serem geniais ou cognitivamente habilidosos. Eles precisam ser inteligentes, sem dúvida, mas acima de tudo, inteligentemente cristãos.

Outra pergunta que deve ser levantada: que inteligência a educação formal procura promover em nossos filhos?  Muitas de nossas crianças são submetidas a um programa em prol de uma "inteligência" revolucionária e progressista.  Eles aprendem que a conspiração e a revolução contra os que estão no poder é sempre o melhor caminho.  Se não, aprendem que a competitividade e o individualismo pragmático são os melhores caminhos para o sucesso. Ou ainda, o cientificismo reducionista que atribui à ciência poderes quase absolutos.

Em casa, pais cristãos são frequentemente acometidos por um cristianismo raso, sentimentalista, acham que não precisam de critérios para julgar o presente século, e que a cultura é importante apenas para que seus filhos sejam bem sucedidos em termos profissionais.  Enquanto, em relação a fé, o que importa é que devem ir a Igreja, serem batizados, e tornarem-se bons crentes. Sem dúvida, este não é o melhor caminho para crianças, adolescentes e jovens cristãos, se o desejo é que eles sejam culturalmente relevantes, sem caírem na sedução do triunfalismo.

Mas, enfim, o que seria uma inteligência cristã?

Uma inteligência cristã

Em termos gerais, uma inteligência cristã ou uma "mente cristã" (Nancy Pearcey, 2004) deveria ser, em primeira instância, oposta a qualquer proposta cognitivista ou racionalista que coloque a inteligência em um status de neutralidade religiosa ou ideológica.  Logo, o cristão deve assumir explicitamente que sua forma de se relacionar com o mundo, a sociedade, a cultura e com sua individualidade, depende de um sistema de crenças fundantes e é pautada em uma inteligência que lhe é peculiar.

Uma síntese da peculiaridade da forma de pensar do cristão é aquela encontrada no seguinte excerto do filósofo cristão holandês Herman Dooyeweerd (1894-1977):

Nesse sentido central e radical, a palavra de Deus, penetrando na raiz de nosso ser, tem de se tornar o motivo-poder central do todo da vida cristã na ordem temporal com sua rica diversidade de aspectos, tarefas e esferas ocupacionais. Como tal, o tema central da criação, da queda no pecado e da redenção deveria também ser o ponto de partida central e o motivo-poder de nosso pensamento teológico e filosófico.  (Dooyeweerd, 2010)

Esta citação resume bem a peculiaridade da inteligência cristã.  Em primeiro lugar, ela se constitui na palavra de Deus, ou seja, na revelação de Deus através das Escrituras Sagradas (Bíblia).  O sistema de crenças do cristão se constitui neste longo material canônico que preserva os valores e o sentido que ele (o cristão) atribui ao mundo.  Os fenômenos culturais ou naturais são compreendidos a partir das crenças construídas desde a narrativa bíblica.  A partir desta concepção da vida, como revelada nas Escrituras, o cristão se relaciona de forma particular nas "esferas ocupacionais" e com as "tarefas" sociais e culturais com as quais está envolvido.

Porém, o mais importante desta citação é: a Bíblia preserva um tema central. Um tema cuja narrativa envolve uma história que abrange: a criação do mundo por Deus, a queda e o fracasso do ser humano e o plano de resgate ou redenção de Deus em relação ao homem e seu mundo.  Desta forma, diz-se que a narrativa bíblica orbita ao redor do tema: criação, queda e redenção.

Inteligência bíblica e narrativa

A Bíblia é um livro complexo e não é necessariamente uma obra sistemática com uma estrutura analítica.   A revelação bíblica encontra-se em forma de "história" e "coleções" textuais e é portadora de quadros, dramas, pressuposições, leis, instruções, provérbios e poemas, que formam um universo complexo e rico.  Mas, a chave para navegar neste oceano é compreender o tema criação, queda e redenção.

a. criação: tudo é relativo ao absoluto

Para um cristão, a criação (natureza) não é um acidente físico-químico contingente que se estruturou em leis autônomas e impessoais. Ao contrário, Deus mesmo (o incondicionado) fez todas as coisas a partir de sua sábia vontade.  Para muitos, a imagem de Deus como criador pode soar infantil.  Mas, é importante uma leitura mais cuidadosa a respeito do que a tradição judaico-cristã chama de criação.

Para o cristão, Deus é absolutamente inteligente e criativo, e por este motivo, pode-se perceber determinados padrões nos fenômenos naturais, um ordem, ou como se chama: ordo creationis (ordem da criação).  Deus é colocado como o absoluto e todas as coisas são relativas a Ele.  As implicações aqui são incríveis, pense por exemplo, que a afirmação cristã de um "Absoluto" (Deus) evita que o cristão caia no reducionismo, absolutizando os fenômenos naturais ou sociais, que para ele (o cristão) são relativos a ordem do Deus absoluto.  Nestes termos, a inteligência cristã oferece uma posição epistemologicamente privilegiada, pois a partir da crença de Deus como o absoluto, o cristão pode interagir com a diversidade dos fenômenos presentes na criação sem cair na tentação idólatra de absolutizá-los.  Exemplo de reducionismos são os que ocorrem, por exemplo, com o psicologismo, sociologismo, culturalismo e outras tentativas, de explicar o homem e o mundo, a partir de apenas um aspecto ou fenômeno.  A inteligência cristã, neste sentido, é irredutível e multidisciplinar.

b. queda: fragilidade e desconfiança

A fé cristã é viril e corajosa, no sentido que não está disposta a lidar com a natureza humana de forma ingênua.  Ela faz uma denúncia, como destacou o filósofo brasileiro Luiz Felipe Pondé, em entrevista à Revista Veja: "O cristianismo [...] fala do pecador, de sua busca e de seu conflito interior. [...] o cristianismo reconhece que o homem é fraco, é frágil."  Esta é a doutrina da queda, preservada nos textos de Paulo, explorada pela tradição agostiniana e reafirmada pela reforma protestante, que a chama de "depravação total".  O homem é portador das reminiscências de uma dignidade antiga que foi perdida por causa de sua atual frágil condição, decorrente de uma brusca alteração de sua relação com Deus como Criador.   O fracasso do homem em se manter ligado a Deus, por causa de seu pretenso desejo por autonomia, resultou em um distanciamento, a que chamamos pecado.

Por causa da doutrina da "queda" a inteligência cristã desconfia de estruturas humanas e de qualquer teoria que alegue um "purismo" humano, como propunha a antropologia de Jaques Rosseau.  Obviamente, todos os sistemas filosóficos, sejam os de implicações políticas ou econômicas, pautadas em um suposto "poder autônomo" da natureza humana, são tratados criticamente pelo cristão.  A visão de homem do cristão, o que se chama antropologia, é que ele foi criado a imagem de Deus (imago Dei), mas hoje, encontra-se disforme em relação a sua dignidade original.  Por esta razão, ele carece de redenção, d graça e providência, para ter restituída sua condição primeira.

Se por um lado, a inteligência cristã considera a dignidade do homem e da criação, por outro, não ignora uma "antítese", uma "tensão", no cerne da criação, o qual é o homem mesmo e suas pretensas iniciativas.  O que também não significa ignorar alguma dignidade na produção cultural humana, afinal, o mundo ainda tem alguma "estabilidade", por causa do compromisso escatológico de Deus, de trazer a humanidade de volta pra casa (redenção/resgate).

c. redenção: esperança cristã

Se a doutrina cristã for reduzida apenas a uma visão de "queda", consequentemente, isto resultaria em uma inteligência pessimista e cínica. Como dito, em algum sentido, o cristão não cria muitas expectativas quanto aos projetos não-cristãos de civilização, mas, mesmo assim, entende que seu lugar é aí no que chamam de "projeto civilizatório".  Tome por exemplo, o profeta Daniel, que exerceu sua vocação na côrte babilônica, sem se deixar absorver por aquela cultura.

O cristão opera como um agente de esperança, engaja-se na instauração de jardins de graça em uma cidade cinzenta, sem cor.  O cristão pauta sua existência na eficácia da obra que Jesus Cristo realizou em seu sacrifício, a imagem mais assombrosa e mais sóbria dos planos de Deus para a humanidade. Jesus é chamado de segundo Adão (Romanos cap. 5), Ele é o Homem, a fonte e o fator de humanização.  O cristão é um homem arrependido, que reconheceu sua precariedade e distância, e que se volta em "mudança de mente" (gr. metanóia - arrependimento) e com fé no mistério e evento chamado Jesus Cristo.  A fé cristã é cristocêntrica e pauta-se em uma inteligência "cruciforme", no formato da cruz, no sentido que ela opera pela eficácia da cruz ("já"), mas aguarda a concretização no tempo e no espaço do que já está consumado ("ainda não").  O "já, mas ainda não" remete esteticamente as barras verticais e horizontais da cruz.  O cristianismo não tem problemas com paradoxos.

A inteligência cristã não deve ser triunfalista, a doutrina da queda não permite muita confiança em projetos de dominação.  Porém, por outro lado, entende que deve sinalizar um Reino prestes a vir, antecipa-o parcialmente, para que o mundo tenha esperança naquele que há de vir.  Por causa desta esperança e esta antecipação escatológica, opera no mundo, como que se vivesse no outro, naquele redimido e novo (Ap. 21).  O impacto desta crença na ação cultural do cristão é singular.  Ele vai ao laboratório, à universidade, à rotina do trabalho e do dia-a-dia, portando as ferramentas dispostas nas Escrituras e na longa experiência cristã, de modo a testemunhar Jesus e manifestar seu Reino de amor.  O anúncio do Evangelho dá-se por uma ação que comunica o triunfo de Cristo sobre a morte.

Sabedoria: não-racionalista, não-sentimentalista e não-ativista

A vida cristã orbita em um tripé, estruturado sobre os seguintes princípios:

1. ortodoxia: uma preocupação constante pela crença ou doutrina correta
2. ortopatia: sentimento ou sensações corretas
3. ortopraxia: comportamento ou ação correta

Agora, veja bem, se um cristão se concentra em algum destes aspectos, ele estará se distanciando da inteligência cristã.  Se concentrar muito de sua vida apenas ao "pensamento crítico", em uma "mentalidade cristã", ou em um zelo "lógico", se esquecendo que sua vocação também é para ter sua afeição (ortopatia) e vida prática (ortopraxia) sob o governo de Cristo, logo, se tornará um formalista árido.  Da mesma forma, se um cristão, se preocupa apenas em se "sentir bem" ou vive em busca de um conforto "sentimental", cairá no sentimentalismo, em uma busca frenética por "sensações" e "experiências religiosas".  E finalmente, se um cristão preza excessivamente pela "prática", "ações" e "obras", ignorando que tais ações precisam ser pautadas em uma vida com sentimentos e crenças bem alinhadas à vontade de Deus, cairá em um ativismo alienante ou em um tipo de legalismo.

Quanto mais equilibrados sobre estes três princípios, mais próximo o cristão estará de uma inteligência cristã.  Ele não será um racionalista, mas procura organizar suas crenças e sua forma de pensar a partir das Escrituras.  Não será um sentimentalista, pois procura submeter sua identidade e afeição aos critérios da revelação de Deus em Cristo. E finalmente, não sendo legalista, se engaja em ação, obras e obediências pautadas nos feitos da graça de Deus.

Mas, enfim, que nome se dá a esta combinação entre ortodoxia, ortopatia e ortopraxia?  Tenho uma sugestão: sabedoria.   Sabedoria, na narrativa bíblica, refere-se a uma vida em que pensamento, afeto e ação se integram formando um todo, que projeta o cristão para uma existência que glorifique a Deus em Jesus Cristo.  Nestes termos, uma inteligência cristã é fundamentalmente uma inteligência sapiencial, o que Doug Bloomberg, educador reformacional, chamaria de "epistemologia sapiencial"(Blomberg, 2007).

ortodoxia + ortopatia + ortopraxia = sabedoria

Últimos ditos...

Há outras características que compõe uma inteligência cristã, como o comunitarismo, uma percepção trinitária de Deus e da realidade, uma percepção da missão como uma tarefa encarnacional e ainda uma compreensão das diversas esferas da realidade criada por Deus.

Agora, que algumas pistas sobre uma inteligência cristã foram apresentadas, pense nas implicações pedagógicas, filosóficas e culturais, de um cristão que desenvolveu tal habilidade.  Há diversos exemplos na história da fé cristã de "gênios" que viveram a partir de uma inteligência cristã.  Poderíamos, citar alguns deles, já sabendo que alguns serão omitidos, uma inevitável injustiça.  Porém, dentre os inteligentemente cristãos estão: Paulo, Agostinho, Pascal, Calvino, Kuyper, Chesterton, C.S. Lewis e muitos outros, que ficam aí como exemplo e inspiração para tal jornada.

Finalmente, é importante reafirmar, que não basta cristãos inteligentes, se eles são cativos de modalidades de inteligências que não correspondem aos fundamentos de sua fé.  Este cristão não fará qualquer diferença, ele será como uma não-cristão em termos de envolvimento com a cultura.  Entretanto, se um cristão se envolve criativamente com a integração entre sua crença e a vida, o testemunho de um Cristo que é Senhor de todas coisas se tornará evidente.  Em outras palavras, não basta ao cristão ser inteligente, ele deve ser inteligentemente cristão.

Referências

Dooyeweerd, Herman. No Crepúsculo do Pensamento. São Paulo: Hagnos, 2010.

Blomberg, Doug. Wisdom and Curriculum: christian schooling after postmodernity.  Sioux Center, Iowa: Dordt College Press: 2007.

Pearcey, Nancy. Total Truth: liberating christianity from its cultural captivity.  Wheaton, Illinois: Crossway Books, 2004.
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Fonte: blog Pensar

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