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19 de nov de 2014

Santificados Pela Verdade

Por Thiago Oliveira

 TEXTO BASE: JOÃO 17. 17-21 (NVI)

17. Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade.
18. Assim como me enviaste ao mundo, eu os enviei ao mundo.
19. Em favor deles eu me santifico, para que também eles sejam santificados pela verdade.
20-21. "Minha oração não é apenas por eles. Rogo também por aqueles que crerão em mim, por meio da mensagem deles, para que todos sejam um, Pai, como tu estás em mim e eu em ti. Que eles também estejam em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste.

INTRODUÇÃO

Jesus ali no cenáculo com os 12, em seus últimos momentos antes de padecer na cruz, instruiu os seus discípulos. Ele falou acerca das aflições que estes enfrentariam, contudo, falou que deveriam manter o bom ânimo, pois a vitória já estava garantida por meio dEle (Jo 16.33). Terminada a instrução, Cristo faria uma oração por aqueles a quem o Pai lhes deu de presente. E todos aqueles que foram entregues a Cristo, tiveram a revelação necessária sobre Deus e guardaram a Palavra (Jo 17.6).

Esta oração é uma intercessão para a consagração de todo aquele que foi dado ao Filho, pelo Pai. É um texto que deixa evidente a doutrina da eleição e que nos traz o entendimento de que aqueles que pertencem a Deus, tem a Sua Palavra retida e não se desviam daquilo que aprenderam em Cristo, por meio da revelação do unigênito do Pai (Jo 14.23 e 1Jo 2.24).

Nesta oração de Cristo que visa a consagração dos que são seus, vamos focar no aspecto da santificação que ocorre em cada cristão firmado na Palavra. Dando atenção ao versículo 17 e os que se seguem e estão mais próximos desta linda declaração do Salvador: “Santifica-os na verdade, a tua palavra é a verdade”.

EXPLANAÇÃO

17. Jesus, como o Sumo Sacerdote Eterno (Hb 4.14) roga ao Pai que não tire os seus discípulos do mundo. É da vontade do Senhor que fiquemos aqui e aguardemos o dia em que Ele virá em definitivo, como apontam as Escrituras. Temos que habitar num mundo que é hostil a nossa fé e a nossa pregação. Não podia ser diferente: Uma vez que não somos daqui e estamos apenas de passagem, os olhares tortuosos e desconfiados são comuns. Nossos hábitos, são estranhos para os mundanos. Ademais, a fé que professamos, denuncia os pecados de toda a humanidade, revelando aquilo que eles gostariam de ocultar. Por isso, não espere muita coisa boa vinda dos resolutos pecadores que habitam esta terra. 

Para não esmorecer ou não apostatar (i.é. abandonar a fé), Cristo roga a Deus-Pai para que este nos torne santos através da Sua Palavra. E aqui devemos entender que não há santidade caso a Igreja viva aquém ou além do conteúdo bíblico. Ser santificado na Verdade é ter o coração e a mente cativos para viver progressivamente mais e mais alinhados com a Lei de Deus. E assim, como o Salmista poderemos dizer com regozijo: “A minha alma consome-se de perene desejo das tuas ordenanças (Sl 119.20)”.

Jesus sabia que não mais estaria com os discípulos. Todavia, ele havia revelado a vontade de Deus (Jo 17.6). Os doze, precisariam reter esta revelação, pois ela é imprescindível no processo santificador. Não existe um outro caminho para a Igreja se santificar, apenas alicerçada na Palavra da Verdade é que a Igreja pode ser chamada de santa. Somente as Escrituras: eis o lema dos reformadores que ecoa até os nossos dias. Tirem as Escrituras da liturgia e vejam a desgraça que assolará a Igreja. Diminuam a exposição do texto bíblico em nossos cultos e vejam nascer uma gama de crentes supersticiosos e carnais.

Antes do advento da Reforma Protestante, a Bíblia estava tão perto e ao mesmo tempo tão longe do povo. Lutero tratou de traduzi-la para o idioma popular. Incentivou a leitura particular e pública. Aproveitou o recente surgimento da imprensa e povoou a Alemanha com Bíblias. Calvino, outro notório reformador, numa cidade com cerca de 10 mil pessoas, através da exposição das Escrituras, chegando a pregar até 15 vezes por semana (livro após livro, versículo por versículo) viu uma cidade libertina, que regulamentava a prostituição e tinha uma lei que permitia os homens a possuírem amantes, ser santificada paulatinamente. Este é o efeito que a Bíblia faz no coração daqueles a quem o Pai decide se revelar. “Depois das trevas, a luz” (Post Tenebras Lux), este passou a ser o slogan da cidade de Genebra. E de lá, a luz se espalhou por toda a Europa. Até hoje, muitos consideram João Calvino insuperável no que tange a interpretação e o ensino da Bíblia. Ele, Zuínglio, Knox e o próprio Lutero, não tinham em si nada de bom. Eles, os reformadores do século XVI, também precisaram ser “santificados pela verdade”. Louvado seja Deus!

18. Nossa missão permanente no mundo é semelhante a que Cristo realizou. Ele foi o Enviado de Deus-Pai e nós somos os enviados do Deus-Filho. Jesus veio como portador do Evangelho, ele é o anunciador da Boa-Nova, semelhantemente, os seus discípulos, também são enviados ao mundo portando a mesma mensagem redentora. Foi assim que a partir de um grupo composto de doze homens, sendo um deles traidor, que a Palavra chegou até nós e tem iluminado às nações. Milhões e milhões de pessoas foram incorporadas ao Reino graças a mensagem bíblica que foi apregoada pelos quatro cantos da terra.

A missão do colégio apostólico era dar prosseguimento ao ministério terreno de Jesus. Enquanto o Cristo ficou restrito ao perímetro que hoje chamamos de Palestina, os seus discípulos, santificados na Verdade, tinham que continuar levando o Evangelho ao restante do mundo, expandindo assim as fronteiras do Reino de Deus. Portadores da revelação e privilegiados por conviverem intimamente com o Senhor, tais homens, estavam gabaritados para deixar registrado a Palavra que receberam. Por isso, ao formarem o cânon, encerraram a revelação. Tudo que precisamos saber a respeito da vontade de Deus está registrado na Bíblia. Ela é totalmente inspirada e útil para a correção e instrução para justiça (2Tm 3.16). Pedro nos diz que as Escrituras não procedem de interpretação pessoal e assegura que homens santos falaram da parte de Deus (2Pd 1.20-21).

Uma Igreja santa tem que ser portadora de uma voz profética. Contudo, temos que deixar claro que nenhuma profecia pode contradizer ou complementar aquilo que está escrito na Palavra. Ser profeta no contexto do Novo Testamento, e também na era presente, é ser alguém dotado de capacidade interpretativa do texto escriturístico. Depois de Cristo, nada mais acerca do Pai é revelado (Hb 1.1-2). Ele trouxe a revelação completa e necessária para os homens. Depois que subiu aos Céus, Cristo deixou para nós o Espírito Santo, e este vem operando no mundo através da Igreja, e tudo que faz, o faz em conformidade com a Palavra escrita de Deus. Alguns ficam tristes quando ouvem que a revelação cessou. Esta tristeza é, com o perdão da palavra, uma tolice. A revelação não é um fim em si mesma. A revelação serve para levar os homens a conhecerem a Cristo como sendo o único Deus verdadeiro. Por isso que as Escrituras cumprem esse papel muito bem, sem necessidade de nada a mais. No texto sagrado temos registrado aquilo que apontava para Cristo no Antigo Testamento até ser cumprido no Novo Testamento, quando o Verbo se fez carne e habitou entre nós (Jo 1.1). Na Bíblia temos a autoridade final e exclusiva acerca do Deus Redentor. Que a Igreja preencha o mundo com esta Verdade.
 
19. Para que os discípulos estivessem hábeis para realização da Grande Comissão, foi preciso que Jesus se entregasse como sacrifício ao Pai. Ele pede ao Pai que os santifique na Verdade, e para isso, entrega-se voluntariamente como um sacrifício vivo e agradável a Deus. Os doze não podiam sacrificar a si mesmos e nem aplacar a Ira de um Deus Santo. Alguém tinha que fazer isso por eles, e esse alguém é o Filho Unigênito. Por não ter pecado, Cristo estava apto a ser o cordeiro imolado que expiaria o pecado definitivamente e assim cumpriria as palavras de João Batista: “Eis o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (Jo 1.29)”.

Jesus é a oferta ao mesmo tempo que é sacerdote. Ele consagra a si mesmo e se prepara para experimentar toda a Ira divina. Todo o espetáculo visivelmente horrendo da cruz não se compara ao peso de ter os pecados de todos os seus eleitos em seus ombros. Ele foi moído pelas nossas iniquidades (Is 53.5). Mas foi este castigo que nos outorgou a santidade necessária para não sermos fulminados diante da presença de Deus. Quando o Altíssimo olha do seu trono para nós, ele não mais vê pecadores réprobos. Quando Deus nos olha, Ele nos enxerga lavados pelo sangue do Cordeiro. Quando lemos no Apocalipse o relato da vitória da Igreja sobre os poderes malignos, o texto bíblico revela que a vitória se deu pelo “sangue do Cordeiro e pela palavra do testemunho que deram; diante da morte, não amaram a própria vida (Ap 12.11).

Aqueles homens, falhos e ignorantes, foram salvos e santificados pela Verdade e deram um testemunho fiel até na hora da morte. Tirando Judas, o traidor, e João, o apóstolo amado, todos os demais foram martirizados por serem testemunhas da Palavra. Ser salvo e separado para a obra de Cristo não implica numa vida folgada e tranquila. Em muitos casos, e não são raros, ser vocacionado por Deus é perder muitas das benesses que este mundo oferece. Mas devemos lembrar de uma coisa: Se nós não somos daqui, a nossa herança também não pertence à presente era. No porvir haveremos de ser co-herdeiros com Cristo em seu Reino Glorioso. Lá no porvir... Não agora...

20-21. Até aqui estávamos tomando por aplicação as palavras de Jesus aos doze, mas agora ele está falando diretamente a nosso respeito. Todos os que crerão na mensagem apostólica engloba você e eu. A Igreja foi edificada neste alicerce (Ef 2.20). O ensino dos apóstolos, tendo Cristo por pedra angular, é a base da fé evangélica. Não precisa entender de engenharia para saber que só existe um fundamento e não podemos por um alicerce acima de outro. É por isso que devemos repudiar toda e qualquer revelação que se fundamente em outros preceitos que não sejam os bíblicos.

Por mais estranho ou absurdo que pareça ao mundo, temos que nos portar como detentores exclusivos da Verdade. Não existem várias verdades. Não me venha com “minha verdade é essa” e a “sua verdade é aquela”. Assim como 1+1 são 2 para todos os povos e em todas as épocas. Assim como a cor do céu é a mesma sob cada habitante neste planeta. Queiram ou não, entendam ou não, a Bíblia é a única verdade e o que está em desacordo com a sua mensagem é engano.

Guiados pela Verdade, os apóstolos vão levando a mensagem de Cristo e o Espírito Santo vai incumbir-se de converter pecadores e fazê-los professarem o senhorio de Jesus sobre as suas vidas. Assim a Igreja vai tomando forma e o corpo é composto de membros que unidos na mesma fé, tornam-se semelhantes a união mística da Trindade. Não existe contradição entre a Palavra do Deus-Pai, do Deus-Filho e do Deus-Espírito Santo. De igual modo, não deve existir contradições na mensagem da qual a Igreja é portadora. A unidade dogmática está presente nesta solicitação de Cristo pela Igreja Universal. Precisamos voltar ao Evangelho Bíblico e apregoar o lema reformado que diz: Somente as Escrituras (Sola Scriptura). Precisamos extirpar do meio de nossas congregações tudo aquilo que se diz fazer parte de uma revelação, mas que, não está em sintonia com a Palavra que nos foi entregue pelo próprio Filho de Deus.

CONCLUSÃO

Estamos no mês da Reforma* que aconteceu há quase meio milênio. Naquele tempo de escuridão, século XVI, homens audaciosos, impelidos pela Verdade bíblica, lutaram (muitos morreram) por uma Igreja que portasse uma doutrina pura. Enfrentaram papas, reis e duques, pondo a vida em risco, por acreditarem piamente que nada deve se colocar acima e nem no mesmo patamar da Palavra de Deus. E assim, fechos de luz foram clareando corações e mentes, antes obscurecidos pela superstição e pelo paganismo. Em nossos dias existem homens que se intitulam portadores de uma revelação especial. Eles oferecem curas milagrosas e prometem o fim do sofrimento. Lembremos que os santos que escreveram a Sagrada Bíblia não foram privados de sofrer. Por acaso, achamos que somos melhores do que eles?

Lutero, certa feita, disse: “Qualquer ensinamento que não se enquadre nas Escrituras deve ser rejeitado, mesmo que faça chover milagres todos os dias”. E Paulo em Gálatas 1.8 corrobora com o reformador alemão. Uma palavra que vá de encontro com o ensino apostólico é maldita, mesmo se proceder de um ser angelical. Jesus se sacrificou para nos santificar na Verdade, por isso, cuidado com o tipo de Evangelho que consumimos. A Igreja precisa se manter alerta e fazer valer o que talvez seja o lema da Reforma que mais negligenciamos, que diz: A igreja reformada deve continuar se reformando (Ecclesia Reformata et Semper Reformanda Est). Ressalto que o agente reformador da Igreja é o Espírito Santo, e este, como já foi dito, trabalha sempre de acordo com o que inspirou e registrou nas Escrituras. Que Ele nos santifique na Verdade e que nós sejamos cativos ao Seu ensino.

APLICAÇÂO

1) Qual o lugar que a Bíblia tem ocupado em minha vida?
2) Sinto Deus falar diretamente comigo quando leio a Bíblia? 
3) Porque não posso negligenciar a leitura bíblica?
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* Este sermão foi pregado no dia 19/10/2014 na Igreja Evangélica Livre em Paulista-PE.

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