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19 de nov de 2014

O Cristão e a Universidade

Por Thomas Magnum

Em minha adolescência não me lembro de termos nenhum dos jovens de nossa igreja local na universidade, tínhamos um contingente de jovens cristãos muito inferior ao que temos hoje no ensino superior. Hoje temos uma grande quantidade de jovens que tem se preparado academicamente e a presença de cristãos protestantes dentro da academia tem aumentado consideravelmente. A ABUB (Aliança Bíblica Universitária do Brasil) tem trabalhado na evangelização de jovens dentro dos centros universitários desde a década de setenta.

O interesse dos protestantes pela academia não é novo, um exemplo bem conhecido dos reformados é a academia de Genebra criada por Calvino e tantos outros centros acadêmicos criados por cristãos como Oxford, Yale e Princeton. No Brasil temos a universidade Presbiteriana Makenzie que tem sido uma escola de destaque em solo brasileiro, na verdade desde a chegada dos protestantes no Brasil há interesse pela educação seja ela básica ou superior.

Nesse processo de volta dos protestantes a academia, algo que sempre foi difícil no Brasil por conta da condição financeira e na defasagem da educação da maioria dos evangélicos, podemos destacar pontos positivos e negativos.

De forma positiva enxergo que o fato de a condição econômica ter melhorado nos últimos anos por conta inicialmente da estabilização da moeda e de programas educacionais que foram implantados tivemos a oportunidade de educar jovens cristãos no ensino superior. No entanto, temos o outro lado da questão. É inegável que muitos jovens cristãos quando chegam na universidade perdem a fé, ficam desmotivados por conta dos confrontos das ideias cientificas  que querem destruir a religião. Com isso temos alguns efeitos interessantes, primeiro temos aqueles que vivem uma dicotomia, a figura do professor universitário é uma autoridade em sala de aula e ali a ciência está em primeiro plano, ali não é lugar para a fé (essa é uma observação que ouvi muito de professores na graduação),mas, lugar de investigação cientifica, portanto o método cientifico supera as questões religiosas. Com isso muitos jovens tem uma cosmovisão bifurcada, na academia e na igreja. Muitos jovens não sabem explicar porque creem na Bíblia, não sabem explicar sobre a pessoa de Cristo ou sobre pecado e salvação. Dentro desse primeiro ponto temos algumas questões a tratar, na maioria das vezes as igrejas não dado suporte a esses adolescentes e jovens que tem ido à universidade, por isso é necessário que a igreja se preocupe com isso, não impedindo que o jovem cristão vá a universidade, mas o preparando para estar lá.

Questões como teoria da evolução, criacionismo, a existência de Deus, a questão do mal, a inerência da Bíblia e muitas outras questões que se levanta na universidade devem ser trabalhadas em classes de jovens nas igrejas. E eles devem ser instruídos desde a adolescência. Ao que vemos hoje, posso dizer pela experiência que há um interesse maior dos jovens por questões relacionadas a apologética cristã por conta do confronto que sofrem não só nas universidades e faculdades, mas também em escolas de ensino fundamental e médio. O fato de ainda não termos atentado no Brasil para uma educação cristã dificulta muito a formação de nossas crianças. De certa forma a uma negligencia ao mandato cultural e social, na maioria das vezes defendemos que só a evangelização é a missão da igreja e não a transformação da cultura. Quando fazemos nosso papel na sociedade existe uma alteração cultural, existe uma evangelização integral. E ao tratarmos dessa integralidade não me refiro somente a uma questão de justiça social no que se refere a um recorte e cuidado com os pobres, mas na educação do nosso povo e daqueles que não são cristãos também.

Depois, temos aqueles que abandonam a fé por não terem “provas” consubstanciais da fé, de fato não defendo uma apologética evidencialista, a questão trabalhada de forma pressuposicionalista é com certeza mais bíblica e confiável numa apologética que deseja responder a incredulidade do coração¹, mas devemos ensinar os jovens cristãos a terem uma cosmovisão bíblica e cristocêntrica. É necessário que se prepare os jovens a entrada na universidade, seja através de palestras na igreja, ensino confessional, trabalhando pontos específicos relacionados ao contexto que eles irão integrar.

Um livro recomendado a todos os jovens cristãos que tem seguido no campus universitário é sem duvida “De todo o teu entendimento” do teólogo luterano Gene Edward Veith. Esse livro irá mostrar de forma clara e de fácil compreensão como um cristão deve se portar no ambiente acadêmico tomando como base Daniel e seus amigos na corte de Nabucodonosor. Aqueles jovens estavam em Babilônia, exilados, e foram escolhidos para estudarem, note que eles já eram jovens de grande evidencia por seu intelecto e dedicação (Cap. 1 de Daniel).

Veith nos diz algo precioso:

Em muitos aspectos, a experiência de Daniel é notavelmente parecida com a dos cristãos de hoje. Os estudantes cristãos numa universidade secular, ou os cristãos que confrontam a cultura contemporânea e o mundo intelectual atual se sentirão frequentemente como exilados numa terra estranha e hostil, assim como Daniel se sentiu. No entanto, o primeiro capitulo de Daniel sugere que é possível que alguém que crê no Deus verdadeiro se beneficie da instrução vigente. Ele mostra as provações, tentações e pressões com as quais ele pode deparar, mas também sugere como lidar com elas. Daniel conseguiu aprender a ciência Babilônica sem fazer a mínima concessão quanto a qualquer ponto doutrinal ou moral. Na verdade, Daniel, Sadraque, Mesaque, e Abede-Nego conseguiram prosperar na Universidade da Babiônia, mas a fé que eles tinham permitiu-lhes verdadeiramente superar seus contrapartes pagãos em seus próprios termos.

  É bom notarmos também que eles não comeram dos manjares do rei, porque eram oferecidos aos ídolos, exemplo precioso ais jovens crentes, lembre-se que você está em uma Babilônia e que muitas coisas oferecidas ali, até certos conteúdos curriculares não ídolos.

Um terceiro fator que não podemos deixar de abordar é o deslumbre de muitos cristãos ao chegarem ao ambiente acadêmico. Muitos acabam tornando tudo aquilo a fonte de conhecimento absoluto e desprezam a Palavra de Deus, se não formalmente, mas ideologicamente.  Qual o fim disso? O fim se dará que no final da vida se notará que o conhecimento sem Deus é fútil como Salomão dizia:

Falei eu com o meu coração, dizendo: Eis que eu me engrandeci, e sobrepujei em sabedoria a todos os que houve antes de mim em Jerusalém; e o meu coração contemplou abundantemente a sabedoria e o conhecimento. E apliquei o meu coração a conhecer a sabedoria e a conhecer os desvarios e as loucuras, e vim a saber que também isto era aflição de espírito. Porque na muita sabedoria há muito enfado; e o que aumenta em conhecimento, aumenta em dor. Eclesiastes 1:16-18

Eu apliquei o meu coração para saber, e inquirir, e buscar a sabedoria e a razão das coisas, e para conhecer que a impiedade é insensatez e que a estultícia é loucura. Eclesiastes 7:25

De fato devemos encorajar os nossos jovens a estrarem em ambiente acadêmico, na reforma protestante uma das questões trabalhadas na teologia dos reformadores foi a questão vocacional, isso deve ser enfatizado aqui, Deus chama homens e mulheres para serem médicos, engenheiros, advogados, políticos, economistas, artistas, cientistas. Quando esse chamado tem consciência de sua vocação e de que forma ou por que lente deve ser tratada determinada ciência chegaremos a um conceito chave falado de forma mais profundo no neocalvinismo holandês, a cosmovisão cristã.

Para concluirmos, não poderíamos deixar de citar esse trecho das Escrituras que encorajador a jovens estudantes cristãos:

Quanto a estes quatro jovens, Deus lhes deu o conhecimento e a inteligência em todas as letras, e sabedoria; mas a Daniel deu entendimento em toda a visão e sonhos. E ao fim dos dias, em que o rei tinha falado que os trouxessem, o chefe dos eunucos os trouxe diante de Nabucodonosor. E o rei falou com eles; entre todos eles não foram achados outros tais como Daniel, Hananias, Misael e Azarias; portanto ficaram assistindo diante do rei. E em toda a matéria de sabedoria e de discernimento, sobre o que o rei lhes perguntou, os achou dez vezes mais doutos do que todos os magos astrólogos que havia em todo o seu reino. Daniel 1:17-21
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Nota

1 - Apologética Para a Glória de Deus, John Frame.


Leitura Recomendada a Cristãos Universitários:

A Morte da Razão – Francis Schaeffer, Ed. Ultimato.
O Deus que se revela - Francis Schaeffer, Ed. Cultura Cristã.
O Deus que intervém - Francis Schaeffer, Ed. Cultura Cristã.
Discípulo Radical – John Stott, Ed. Ultimato.
De Todo o teu entendimento – Gene Edward Veith Jr. Ed, Cultura Cristã.
Tempos Pós- Modernos - Gene Edward Veith Jr. Ed, Cultura Cristã.
No Crepúsculo do Pensamento – Herman Doeeyweerd, Ed. Hagnos.
Os cristãos e os Desafios contemporâneos – John Stott, Ed. Ultimato.
Pense Biblicamente – John MacArthur, Ed. Hagnos.

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