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3 de nov de 2014

Você pode ser um John Piper

Por Thiago Oliveira

Ei, psiu, você pode ser um John Piper! Você conhece o John Piper, não é? Bem, se você é cristão, no mínimo já ouviu falar sobre este pastor e escritor de vários livros aclamados, muitos deles, publicados em nosso idioma. Piper é pastor da Bethlehem Baptist Church, desde 1980 e também fundou o ministério Desiring God. Como pastor, ele é hoje, indiscutivelmente, um dos mais respeitados líderes cristãos dos Estados Unidos. Seus sermões e vídeos no You Tube recebem milhões e milhões de acessos, e ele tem o privilégio de ser lido e ouvido por um elevado número de cristãos espalhados ao redor do mundo.

Uau! Ouvido e lido no mundo inteiro? Sim. Não é incrível? Pois é isso... O John Piper é um líder que tem prestígio ministerial e influencia bastante gente. Recentemente, publicamos aqui no Electus uma lista de indicação com nomes de teólogos reformados. Um dos nossos articulistas, Fred Lins, que também é pastor na igreja que congrego, falou que ao ler um de seus livros (Supremacia de Deus na Pregação) ficou boquiaberto com o que havia ali descoberto e isto, de certa forma, moldou a sua maneira de pregar, edificando a si mesmo e aos demais membros de sua igreja.

Um outro amigo, desses que conheci através da grande rede de computadores, Pedro Pamplona, teve contato com os sermões de John Piper aos 16 anos e isso fez com que ele se tornasse um jovem cristão mais dedicado a Palavra, levando-o a estudar Teologia alguns anos depois. Hoje, ele e sua noiva (também impactada por Piper, onde o conheceu através do Facebook) mantém o blog Vida de Graça, e lá, ensinam o Evangelho no ciberespaço, edificando muita gente.  

Daí você reflete: Ok então, eu entendi que John Piper é “o cara”. Mas o que eu tenho a ver com isso? Eu não tenho suas habilidades, não sou portador de uma excelente oratória e não me dou bem quando tento falar em público. Piper e eu não temos nada a ver um com o outro.

Será mesmo? Lendo um livro intitulado “O Pastor como Mestre e o Mestre como Pastor”, onde Piper divide a autoria com seu amigo e respeitado teólogo D.A. Carson, deparei-me com as seguintes declarações autobiográficas:

“(...) logo soube que não seria um pregador, porque em minha pré-adolescência não conseguia falar diante de qualquer grupo. Eu ficava paralisado de ansiedade enquanto a isso, tremia tão intensamente e ficava tão completamente embaraçado, que era fisicamente impossível eu ler ou falar diante de um grupo de qualquer tamanho. Não imagine uma pessoa normal cheia de apreensão e nervosismo. Imagine impossibilidade física. Portanto, pregação e o pastorado foram totalmente excluídos de meus sonhos”[1]

“Até hoje, não posso ler mais rápido do que posso falar. Alguma coisa obstrui minha capacidade de perceber com exatidão o que está na página, quando tento ir mais rápido – talvez alguma forma de dislexia. Essas duas incapacidades – paralisia diante das pessoas e leitura terrivelmente lenta –, eu sabia, me deixariam fora de qualquer profissão que exigisse grande quantidade de leitura e qualquer fala pública”.[2]

Ora, ora. Quantos de nós não pensamos do mesmo jeito? Diante de algumas dificuldades, jogamos a toalha e pensamos: “tal serviço não dá para mim. Vou tentar algo mais simples”. Como um adolescente extremamente introvertido, John Piper nunca imaginaria que Deus o conduziria por um caminho inverso aos seus pensamentos. O jovem de leitura vagarosa, tornou-se erudito, com direito a doutorado na Alemanha e uma carreira de professor universitário (somente isso!). O rapazinho que tremia feito vara verde (nunca entendi bem este provérbio), tornou-se um dos pastores mais ouvidos de sua geração. Rompendo até as fronteiras do seu país. Agora me responda: Há algo impossível para Deus?

Vemos na Bíblia, homens que também pensavam assim. Moisés é um claro exemplo. Ele  não queria ser o interlocutor de Deus no Egito. Ele disse ao Senhor que por ter uma dificuldade na fala, não estaria apto para cumprir com o seu chamado. Eis a resposta de Deus para Moisés:

E disse-lhe o Senhor: Quem fez a boca do homem? ou quem fez o mudo, ou o surdo, ou o que vê, ou o cego? Não sou eu, o Senhor? Vai, pois, agora, e eu serei com a tua boca e te ensinarei o que hás de falar.” Êxodo 4:11-12.

Obviamente que eu não escrevi esse texto para que você, após a leitura, começasse a imitar o “jeitão Piper de ser”. Usei-o apenas como uma boa referência. Note que o título do texto traz um artigo indefinido. Você deve ser você, e não “o” John Piper. Pode até ser como “um”, no sentido de ser semelhante, mas sem se parecer com um clone. Ele, Paul Washer, Kevin DeYoung, Tim Keller e outros tantos são homens comuns, porém, usados por Deus apesar de suas limitações. Deus, ao chamar quem quer chamar, não o chama antes de viabilizar as ferramentas necessárias para capacitação daquele que será seu enviado. Você pode ser tímido, gago, dislexíco, ou o que quer que seja. Se o Senhor te chamar, Ele irá pôr as palavras na sua boca e te ensinará o que falar e como se portar. Deus, através do Santo Espírito que habita em nós, opera tanto o querer quanto o realizar (Fl 2.13).

Gostaria de encerrar esse pequeno texto com a seguinte oração:

Querido Deus, reconheço a minha incapacidade diante de uma série de fatores. Sei que sozinho não posso fazer nada bom. Quero ser um cooperador do teu Reino e servir ao Senhor com devoção e gratidão. Não quero fazer nada por vanglória; que eu diminua e Cristo cresça. Confio na tua providência e sei que o Espírito que está em mim é maior do que o que está no mundo. Em ti sou capaz de realizar a obra que o Senhor tem preparado para que eu realize. Confio plenamente em teus desígnios. Assim eu oro, em nome de Jesus. Amém.”

[1] Página 28.
[2] Página 32.