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20 de set de 2014

Memórias de um velho Pastor



Por Fernando Carvalho


Lembro-me* de dias melhores que os atuais dentro das igrejas brasileiras. O bom e velho evangelho era pregado nos púlpitos e as vidas eram acrescentadas conforme atraídas pela cruz, aos prantos, escutando hinos inspiradores que narravam uma singela porém verdadeira adoração.

Durante a semana tinhamos encontros de oração sem hora para acabar, visitas aos irmãos mais idosos, aos doentes da comunidade e de porta em porta representando o povo inconveniente que em nome de Jesus levavam nome de loucos pelos moradores que desconheciam o porquê desse povo insistir tanto. Os jovens jogavam bola na quadra da igreja deixando a parede cheia de manchas e o diácono Bastião maluco. Sim! Que tempo bom! 

Acompanhei membros se casarem e organizarem encontro de casais para encorajar aos jovens recém casados da comunidade, para que insistam no matrimônio que agradasse ao Senhor. Os cultos eram marcantes e a nossa vontade era de vararmos as noites, como nas comuns vigílias que fazíamos. A alegria no Senhor contagiava os visitantes que muitas vezes testemunhavam sentirem a presença de Deus dentro do templo. Hoje estou mais velho e nos últimos anos tenho ficado triste com o quadro das igrejas brasileiras como também a minha própria congregação. 

Os cultos são diferentes, com poucas pessoas que demonstram um certo cansaço no período da comunhão. São poucos os comprometidos que confessam não encontrarem outros interessados para discipularem e passar o bastão da fé. Os louvores também mudaram. Hoje as canções estimulam uma ''ADORAÇÃO'' para as particulares conquistas e não mais uma adoração para conquista de Cristo na Cruz em favor de Seu povo.

Os jovens não jogam mais bola na quadra da igreja, ficam enfurnados dentro de casa mexendo nos aparelhos celulares, computadores e muito mal participam dos encontros semanais. Os pais reclamam dos filhos serem incontinentes e os filhos acusam os pais de desatenção por viverem ocupados demais. Eu e minha esposa temos enfrentado grandes crises com os casais da igreja a ponto de se divorciarem por alegar incompatibilidade na relação, que a muito tempo não desfruta de momentos de oração.

Perdi muitos membros para uma nova congregação aqui do bairro que mais parece um shopping de tão bela que é. Lá, dizem os que saíram, o pastor era mais carismático, sua pregação era mais viva, prometia dias melhores com bastante conquistas e prosperidade. É um pastor mais jovem e mais antenado. Tem inúmeras estratégias para atrair as pessoas e colocou até um ringue de MMA dentro da igreja.

Certo dia eu e o presbítero Antenor combinamos com os membros da nossa congregação um momento de oração para gozarmos da presença de Deus e logo fomos indagados por alguns que deveríamos seguir o exemplo da igreja da esquina, que fazia orações de benção aos filhos do rei. Enquanto isso as poucas ovelhas fiéis que ficaram me ajudam e animam a não esmorecer. 

Mas quando penso em desistir lembro- me das palavras do meu Senhor que haveriam aflições no mundo e que tivesse bom ânimo na vitória Dele. (João 16:33). Temos tirado força da fraqueza e continuamos pregando o bom e velho Evangelho do Senhor Jesus Cristo, cumprindo nossa vocação até que Ele volte.

Alguns casais reconstruíram seus casamentos se arrependendo da idolatria pessoal, dedicando-se uns aos outros e a Cristo. Outros ainda estão separados e continuam infelizes, com conquistas carnais de sobra. Os jovens ainda são um grande desafio, mas temos os buscado em suas casas com a proposta de reativarmos o antigo jogo de futebol e ensiná-los sobre um time de doze pessoas escaladas por Jesus, que mudou a história do mundo.

Minha grande tristeza é fundamentada em como as pessoas se tornaram rivais e a grande maioria inimigas da simplicidade do Evangelho, em busca de dinheiro e ministérios particulares que mais servem como plataforma de autopromoção. Grupos musicais exibicionistas com integrantes analfabetos bíblicos, que desmerecem os pilares de uma adoração sincera quando suas vidas demonstram o contrário dos ensinamentos bíblicos.

As pregações são pobres de verdades bíblicas e ricas de mentiras humanas. Mas creio que a igreja fiel continua avançando na terra, com a autoridade e o poder de Jesus, consolada pelo Espírito, se preparando para Sua volta e pregando fielmente o bom e velho Evangelho da Cruz. E ainda que no momento esteja triste a minha alegria será completa quando um dia desfrutarmos de um reino justo ao lado de irmãos e irmãs que hoje lutam pela fé genuína, para a glória de Cristo. Amém.

Em paz no Senhor.

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* História e personagem fictícios, mas que exprimem uma verdade atual.